O VENCEDOR >> ANDRÉ FERRER

 

IMAGEM: Gemini

Wilson avistou a casa da advogada e concluiu que só faltava pouco. Era amigo e vizinho dos outros dois e, toda manhã, os três caminhavam juntos. Rômulo e Remo eram gêmeos, tinham nomes estranhos e passíveis de chacota, mas ninguém caçoava deles na escola e mesmo Rômulo, que costumava ser anticonvencional, era poupado. Os dois irmãos experimentavam certa tolerância e Rômulo podia explorar os limites da excentricidade.

Enquanto andavam, Wilson e Remo observavam o jeito de Rômulo, a altivez de um leão e o ritmo de uma gata no telhado. Suas vestes, por um milagre, estavam pouco chamativas naquele dia.

De repente, ele soltou o seu grito de guerra, ulalá, correu na frente, apanhou uma flor no canteiro da velha advogada e saltitou sem olhar para trás. Rômulo se afastou bastante dos dois rapazes.

— Como ele é feliz — disse Wilson.

— Espalhafatoso.

— Tem razão.

Remo balançou a cabeça e disse:

— Eu gostaria que ele fosse mais discreto.

— Por quê? — fez Wilson com a voz ansiosa. — Na escola, vai tudo bem. O seu irmão nunca foi agredido e até gostam dele.

— É verdade.

— Ora! Então, por quê você está preocupado?

— Porque o mundo está cheio de escrotos e, um dia, o Rômulo vai topar com um deles.

Ao chegarem à escola, os três viram um movimento perto da escada, uma roda de alunos, tudo indicava que algo anormal acontecia. No meio do círculo, um rapaz era obrigado a ficar imóvel enquanto outro, um estranho, batia as cinzas de um cigarro na cabeça do acuado. À roda, as gargalhadas explodiam e muitos gritavam:

— Roger, Roger, Roger!

O estranho tragou, fez com que um novo rabicho de cinzas crescesse e salpicou a cabeça do outro.

— Ora! Mal cheguei e já tenho um cinzeiro de luxo.

Rômulo, Remo e Wilson subiam a escada quando o novato emendou aos gritos:

— Ei! Aqueles devem ser os maricas daqui.

Todos riram, estimulados pelo tal Roger. O sinal tocou.

Após a chegada dele, a atmosfera mudou, suas ações impactaram no comportamento dos alunos e alguns até passaram a segui-lo como a um mestre. Suas façanhas eram incômodas, porém estavam longe da sensibilidade da diretora, que procrastinava qualquer repressão. Ela deixava Roger à vontade porque ele ainda não ultrapassara certos limites. Dentre as preferências do novato, estavam os irmãos cujos nomes eram estranhos, sendo Rômulo o alvo principal.

Ele pouco se abalava, mantinha-se altivo, revidava com classe, tinha os gestos e a vestimenta para comunicar superioridade. Cada vez mais, Rômulo empregava a indiferença e a exuberância como armas e o estranhamento de Roger só aumentava bem como a sua raiva. Então, chegou o dia em que as chacotas, no pátio ou no corredor, já eram insuficientes.

Rômulo entrou na sala de aula e viu a pichação que Roger e a sua turma fizeram na carteira, um chingamento pesado e vulgar. Ombros nivelados, ele pegou um vidro de acetona dentro da bolsa e, também, um lenço. Com calma, Rômulo apagou a tinta que sujava a fórmica do móvel.

No dia seguinte, a provocação (ou revide) foi absurda quando ele chegou à escola. Tênis com detalhes vermelho e dourado, calças jeans bordadas, um coração de lantejoulas na coxa esquerda, e a echarpe de tricô, sempre movida pelas mãos. Quando ele passou pelo corredor, todos os olhares foram para ele. Roger torceu o nariz e soltou uma gargalhada para incitar a sua gangue.

— Hoje, você passou dos limites — disse Remo para o irmão.

— Era só um teste irmãozinho.

— Então, estou louco para saber qual foi o resultado.

— Eu descobri que a coisa não vai piorar.

Wilson assoprou o ar dos pulmões e bateu palmas por causa do que acabara de ouvir.

— Muito bem amigos — disse ele. — É só o que eu espero.

Na hora do intervalo, Rômulo e Remo sentaram-se ao redor de uma das mesas desocupadas e, logo, o grupo de Roger circulou os dois. A coluna e a cabeça de Rômulo ficaram altivas. Remo curvou o pescoço e observou lateralmente com o canto dos olhos, os punhos fechados, a bandeja entre os braços, pronto para atacar ou se defender.

— Este lugar é nosso — disse Roger.

— Vocês, por acaso, compraram? — Remo retrucou, agora, com a cabeça levantada, encarava Roger.

— Olha só, o enrustido. Pelo menos, o seu irmão já saíu do armário. Você é como ele, menos na coragem.

Remo se levantou, mas Rômulo olhou para ele, pegou a bandeja e saiu.

— Venha — disse ele.

Remo se afastou com o irmão, porém estava decidido: seria no momento de ir para casa, por mais que a atitude fosse covarde, ele surpreenderia Roger, pegaria-o distraído enquanto descesse a escada e jogaria o bandido no chão. Mal podia esperar que a aula de Matemática terminasse.

Assim que deixou a sala, Remo se adiantou. A maré de corpos estava forte como sempre, mas o rapaz usou a mochila e os cotovelos porque precisava surpreender Roger lá fora. Então, Remo avistou o seu alvo no portão, acelerou e saíu quando Roger já tinha descido a escada e estava de costas para a saída. De um salto, Remo surgiu ao lado do outro e desferiu um empurrão. Roger se recuperou, chutou a canela de Remo e foi quando os dois caíram abraçados no chão e rolaram. Roger conseguiu se desvencilhar e acertou direto no rosto de Remo.

Num segundo, todos formavam um círculo e, só depois, alguns alunos foram separar a briga, um atraso que custou dois dentes quebrados para Remo. Rômulo chegou quando estava tudo acabado e caminhou sob os olhares até Remo, que abaixou a cabeça diante da autoridade do leão.

— Vamos embora — disse Rômulo com a sua voz de gata no telhado. — Já deu. Para casa.

Enquanto Remo fungava e passava as mãos no rosto vermelho, o irmão seguia-o em silêncio. Wilson caminhava mais atrás e compreendia que a sua mudez ajudaria bastante.

Quando passaram pelo jardim da advogada, Rômulo estendeu a mão e tocou uma fileira de margaridas, que balançou em ondas. Remo soprou o ar dos pulmões e olhou sério para o irmão.

— Eu te aconselho a ser menos extravagante.

Rômulo riu.

— E o meu desejo, quanto a você, é que seja mais sutil.

— Sutil? Com sujeitos como o Roger?

— Sim. É preciso vencer com sutileza. Usar a resistência não violenta.

— Por Cristo! Onde já se viu isso?

— Num livro sobre Gandhi, que eu li.

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