A ESPERANÇA É VERDE >> Ionio Paschoalin
Abro
os olhos e quase desperto. Lá fora tem uma luz que brilha e esquenta tudo o que
olha. Alguma força me puxa da cama.
Me
visto, engulo o café da xícara e saio, depois de trancar a porta. Conheço bem o
percurso. Tenho que trabalhar, embora me falte vontade e inspiração para isso.
Inspiração e vontade são luxo para quem tem contas pra pagar.
Há
uma razão, um propósito, em algum lugar desse caminho que trilho todos os dias.
Eu o vi tantas vezes que não sei identificar suas cores ou suas entrelinhas. Talvez
exista uma terceira margem e meus olhos, já cegos, deixaram escapar tantas
vezes que não perceber se tornou um vício.
Sempre
digo a todos que sou católico, isso é verdade. Não sei se Deus existe mesmo e
não me importo, isso também é verdade. Existe uma força primordial que gerou
toda a vida, ela tem consciência de si? Um tufão sabe que é um tufão?
Ninguém
nesse mundo sabe nada que valha a pena saber.
No entanto, trago um raio dentro do peito; ele
me traz ansiedade, azia e força. Sinto que ela estará comigo, onde quer que eu
esteja. Minha única esperança é jamais perder a esperança, ainda que não
encontre coisa alguma; uma ilusão basta. Uma cenoura amarrada na frente de um
cavalo o faz puxar a carruagem.
Entro
em trens e ônibus e olho para as pessoas; elas não estão felizes.
Mesmo
assim ela está lá. Às vezes me cutuca e pisca para mim fazendo alguma careta.
Vejo
dentro dos seus olhos verdes duas pupilas que naufragam separadas. Meus olhos
estão refletidos nos dela. O que me mantém acordado dia após dia?
Sei
que me acompanhou enquanto eu observava a vida dos outros, tentando achar
alguma coisa que perdi.
Preciso
contar algumas cenas que presenciamos juntos.
Um
homem foi demitido do seu emprego; começou a faltar comida para alimentar seus
dois filhos e a esposa, que fazia alguns bicos pra ajudar nas despesas.
Já
havia quatro meses que não pagava o aluguel e resolveu apostar suas últimas
economias no hipódromo, que costumava visitar com seu avô, quando tudo nele
ainda era criança. O cavalo no qual empenhou o pouco dinheiro que lhe sobrou,
chegou em segundo lugar. Ele se desesperou. Não sabia o que fazer e o que iria
dizer à mulher quando voltasse para casa.
Não
demorou muito. Logo depois do resultado ser anunciado, um grupo de fiscais
acusou o jóquei vencedor de dopar seu animal com esteroides proibidos,
apresentando exames de sangue coletados previamente; a turba berrava: foi um
alvoroço!
A
comissão demorou uns dez minutos antes de deliberar; anularam a vitória e o
vice campeão foi considerado o vencedor.
Uma
criança muito pequena perdeu a boneca ao atravessar a rua, se desgarrou da
mãe e voltou para apanhá-la. Os carros estavam em movimento, o sinal estava aberto.
A garotinha esperava recuperar o último presente que ganhou do pai, antes dele
partir.
Todos
os passantes pararam para ver a iminência de uma desgraça, o desespero que
compartilhávamos fez o tempo desacelerar; uns gritavam, outros filmavam com
seus celulares, ninguém sabia como reagir ou como poderiam ajudar, o que
aconteceu durou uns seis segundos, mas jamais saiu da minha cabeça.
Avistei
adiante um homem de aparência bem comum; na verdade eu o conhecia. Diziam que
ele era um assassino de aluguel; era criterioso, quando aceitava um cliente,
cada trabalho tinha um preço diferente, calculado proporcionalmente com base
nos riscos que correria e na hierarquia social da "encomenda".
Esse
sujeito também assistia à situação e saiu correndo imediatamente. Fez sinais,
balançando as mãos, para os veículos pararem, se arremessou e agarrou a menina
que já havia recuperado o brinquedo. Caíram ambos do outro lado da calçada sem
maiores danos. A mãe, tremendo e em prantos, o agradeceu. Ele apenas respondeu
com um meneio de cabeça e seguiu. Parou alguns passos depois e se benzeu
fazendo o sinal da Cruz. Fechou os olhos, uma lágrima lhe percorreu as
cicatrizes do rosto. Abaixou a cabeça com as pálpebras fechadas. Parecia falar
em voz baixa, seus lábios se mexiam. Eu me perguntava, o que um cara como
aquele estaria dizendo pra si próprio? Ele rezava?
Ela
se aproximou e sussurrou perto do meu ouvido, transcrevendo a prece do matador:
"Quem sabe meu Deus? Quem poderia saber? Eu ainda vou ter uma chance?”
Mãe,
filha e boneca foram amparadas por uma velha senhora, que julgava ter visto
tudo nessa vida; menos aquilo.
Numa
perseguição policial, vimos dois tiros cuspidos de dois revólveres diferentes.
Um deles atingiu o perseguido, o outro, o perseguidor. O perseguido estava
imóvel. O perseguidor não conseguia mexer as pernas, não sentia nada abaixo do
ventre e sangrava muito. A ambulância chegou em alguns minutos.
Ambos
foram levados ao pronto socorro mais próximo; o primeiro não teve qualquer
sorte, aliás, nunca tivera antes.
O
policial foi operado e, após um ano de fisioterapia, voltou a se mexer com
dificuldade, mas conseguiu ensinar seu primeiro filho a dirigir uma bicicleta.
Eu
e ela testemunhamos tudo isso.
Ela
é como Lúcifer, onipresente e onisciente; só não é onipotente. Precisa ser encontrada
e regada diariamente.
Nos
infernos, que confinam almas que já foram gente, aparece para dar fôlego aos
miseráveis, mesmo que não exista mais respiração.
Costuma
chegar nos piores tormentos, nas trevas da dor é insistente, brilhando sua luz sobre
desenganados, endividados, pecadores, gente como eu e você.
É
como vaga- lume, é esmeralda, é folha, é mar que molha a secura da existência.
Uma
vez, eu lhe supliquei: não cesse, não cesse nunca, não cesse nunca mais! É só
por você que ainda suportamos todas as decepções, os açoites e as traições. Ela
deu uma gargalhada e não disse nada.
Será
que os bichos também a esperam? Que pergunta idiota. É certo que sim!
Um
cão que tinha sido abandonado numa praça pública por uma família que deveria
acolhê-lo, andou semanas procurando-os em vão, mas foi encontrado e adotado por
um menino que sempre desejou ter um amigo.
Uma
mãe gata teve seus filhotes roubados enquanto ainda os amamentava. Todas as
noites os procurava; miava alto para que reconhecessem sua voz de mãe aflita.
Eles não voltaram. Pois ela os encontrou depois de algum tempo em seus sonhos e
eles nunca mais se separaram. Essa gata passava a maior parte do seu tempo
dormindo.
Um
pássaro que quebrou uma das asas, observava um predador que se aproximava
lentamente. Ele a devoraria enquanto ainda estivesse viva, a menos que algo o
impedisse... Pois uma pedra vinda, não sei de onde, o atingiu e o derrubou. A
ave foi apanhada por um senhor que cuidou dos ferimentos até ela voltar a voar
novamente.
Coisas
assim aconteceram algumas outras vezes e, por Cristo, há de nos acudir, de nos
acalentar e nos fazer acordar todas as manhãs, nos beijando e adoçando nossas
bocas com seu beijo manchado de batom verde.



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