ENTRE ESPINHOS >> Ana Raja


Enxerguei a dor e meus olhos não conseguiam ver nada mais.

O espinho de um cacto furou a pele do meu braço. Sangrou, arroxeou ao redor da dor.

Passei a língua na tez ofendida pelo padecimento para estancar o sangue, mas a ardência provocada pelo espinho me trouxe uma revolta, um sofrimento anormal. 

Eu só sentia dor.

O suor nervoso escorria pela minha testa. Não encontrava uma forma de amenizar o que sentia. Estava apegada ao desaforo do espinho, por ele ter reivindicado o direito de me ferir. Respirei em pausas, do jeito que se aprende na ioga. Fechei os olhos e tentei me acalmar. 

Alguns segundos depois, meus olhos cegos de dor foram descortinados para encontrar uma flor amarela e brotos rosas a florir entre espinhos.

------

Esta crônica faz parte do Crônica de um ontem e foi publicada originalmente em 10 de novembro de 2024.

As dores delas, livro de Ana Raja, está à venda em www.editoraurutau.com.

anaraja.com.br

Comentários

Zoraya Cesar disse…
'reivindicado o direito de me ferir' . às vezes nossa dor vem mais daí q do ferimento propriamente dito. Gostei disso.
Ionio Paschoalin disse…
UUHH, deve ter doído mesmo! Bela crônica Ana!
Albir disse…
A gente fecha os olhos de dor e deixa de ver a flor. Linda crônica!

Postagens mais visitadas