MARGÔ E ZICA >> Albir José Inácio da Silva

 

Todo mundo chamava Margarete de Margô desde a infância, mas na adolescência começaram a chamá-la “Amargor” por causa dos seus maus bofes. As duas irmãs mais novas contribuíram para o apelido e a fama, exagerando nas gozações e nas implicâncias como resposta à tirania.

 

Mas agora o que sentiam era pena da irmã, para quem nada dava certo. Margô, mordida de inveja, sentia-se cada vez mais rancorosa e humilhada.  

 

Casaram-se as irmãs com homens jovens, belos e pobres. A pobreza deles diminuía um pouco a humilhação, mas não curava. Elas ostentavam aqueles maridos como se os esfregasse na cara de Margô.

 

Mas Margô tinha seus planos.

 

Havia por ali um Seu Domingos, dono de cinco padarias e três supermercados, viúvo, que se dizia “caidinho” por ela. De vez em quando uma ambulância vinha buscá-lo por alguma emergência. Ele era careca, barrigudo e puxava de uma perna.

 

 

No início Margô achou que seria mais uma humilhação - um velho doente como marido. Sentiu até alguma repugnância. Mas pensou direitinho. Seus cunhados eram pobres e sem-vergonhas, galinhas, como todos sabiam. Se conseguisse um marido rico e fiel, teria dado o troco.

 

Casou-se na Candelária e passou lua-de-mel na Europa com pompa e circunstância.

 

Ela esfregava na cara das irmãs aquela bonança. Enchia as redes com fotos de hotéis e restaurantes de luxo. Passeava com carros novos pelo bairro e usava roupas de grife.

 

Mas elas não pareciam afetadas. A pobreza não as incomodava, para desespero de Margô.  Contavam, às gargalhadas, suas desventuras em acampamentos com areia e mosquitos como se falassem de resorts cinco estrelas.

 

No momento certo, elas saberiam com quem estavam lidando. Por ora, pensou Margô, deviam estar comemorando a caquetice do seu marido como mais uma vitória.

 

Mas era assim que ela o queria, rico, velho e doente.

 

Margô caprichava no sal e no óleo, a pressão dele subia, mas baixava com medicamentos. Ela enchia a casa de tapetes e cortinas felpudas, ele tinha crise de asma, ia pra emergência, nebulizava e voltava pra casa.

 

Recusava-se a morrer, o traste. Margô tinha que aturar e cuidar.

 

Até que, em dois mil e vinte, os olhos da esposa brilharam. Ele ficou entubado duas semanas por causa da covid. Durante todo o tempo, Margô ficou no hospital. As visitas estavam proibidas, mas ela dormia na sala de espera, amarfanhada nas cadeiras da recepção.

 

Voltava de uma rápida saída do hospital para tomar banho e trocar de roupa, quando foi informada pela enfermeira de que, milagrosamente, o marido deixou a UTI

 

Já no quarto, recebendo as pessoas, Margô comemorou em lágrimas, “foram minhas orações, por isso não saí do hospital”. Parentes e amigos se solidarizaram e reverenciaram aquela esposa dedicada. Em uma semana Domingos estava em casa. Em um mês, de volta ao trabalho.

 

Margô perdeu as esperanças no diabo. Se quer bem feito, faça, não mande fazer!

 

***

 

A vizinhança acordou com os gritos. Na sala, a esposa em choque e o marido debruçado sobre a mesa. Um copo vazio e um frasco, ainda com alguns grânulos, em que garranchos no rótulo improvisado indicavam “Xumbinho”.

 

(Continua em 04/05/2026)

 

 

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