PARTIDA >> KIU OLIVEIRA
Você demorou para sair do banheiro naquele dia. Barulho de urina se chocando contra a água do vaso foi o último som que te ouvi produzir antes de partir. Em silêncio, passou por mim e minha mãe, e desapareceu.
Se sabia o motivo da sua decisão, ela não me contou. Na rua, ouvi da boca de alguns merdinhas que você se mandou porque não dava conta de sustentar a família. Minha mãe ganhava um troco com a lavada das trouxas de roupas de algumas vizinhas. Não era o fim do mundo ajudá-la a alimentar um filho, comprar roupas duas vezes ao ano, trazer balas de frutas do boteco, salgados da feira, brinquedos no Natal, no aniversário. Você não era covarde a ponto de fugir de uma criança, todos sabiam da sua valentia, e mesmo assim enchiam a boca para mentir a seu respeito. Até inventaram a sua morte. Era tão bom quando você estava por perto, ninguém ousava triscar em seu nome.
Eu teria saído à sua procura, não fossem as contas de casa se amontoando. Após o almoço, me dedicava a fazer as tarefas da escola, depois aproveitava o resto da tarde para vender as geladinhas que minha mãe fazia. Eu ajudava nas despesas, mas quando eu decidia chupar algumas, aí azedava tudo.
Eu tinha certeza que você voltaria em uma dessas datas que a gente fica esperando um milagre. Natais, viradas de ano. Muitos aniversários se passaram: seus, meus e da minha mãe, e não teve volta. Desiludido, entendi que precisava procurá-lo, mas não pude. Eu era a companhia da minha mãe, principalmente nas horas em que faltava você à mesa, no acerto das contas, na ida à feira. Faltava você em muito. Todos os dias eu me lembrava de quando se abaixava e eu me atracava em suas costas, então se levantava e eu via o mundo do alto. Você era o meu voo.
Se tivesse voltado, se sentaria na primeira fila no dia da minha formatura do colégio, e teria orgulho ao me ver entrar na faculdade, depois me parabenizaria pelo emprego no mercado do alho. Veria comida em casa, as paredes pintadas. A lavanderia própria da minha mãe, o carro. Mas você não voltou. Minha mãe se aposentou. Adoeceu. Minha esposa me ajudou a cuidar dela. Quando mandou me chamar para nossa última conversa, enxerguei você nos olhos dela. Almejei vê-lo entrar pela porta daquele quarto, e assim ela pudesse vê-lo antes do fim.
Ontem levei seu neto mais novo ao cemitério para visitar a avó. A seu respeito, eu disse que era forte e valente, mas, cá pra nós, ainda não aceitei você ter partido daquela maneira, por isso ainda não consegui trazer os meninos aqui. O tempo escapa, pai. Seu neto mais velho já está na faculdade, cursando História. Entre um trabalho e outro, decidiu pesquisar a nossa árvore genealógica. Todos os dias me aparece com uma informação nova. Eu soube por ele dos meus irmãos, pai. Por que você nunca falou sobre eles?
Se não queria mais voltar, poderia ter deixado uma carta. Sei lá. Não faz ideia de como é esperar os que não voltam.
(Silêncio)
O que você está tentando dizer, pai? Você quer mijar, é isso? Enfermeeeeeeeeeeeeeeira!



Texto lindo! E tão real.....
ResponderExcluirO tempo escapa. texto lindo, parabéns!
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