RUA 7 DE SETEMBRO >> ANDRÉ FERRER
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| IMAGEM: Gemini |
Para quem não é leitor contumaz de contos e romances — e muito menos escritor —, pode parecer tolice. Não é.
Trata-se do tipo de coisa que interfere diretamente no legado de uma obra literária. Meses, anos, décadas depois de uma leitura, personagens e cenários memoráveis acabam sendo decisivos sobre o que, realmente, permanecerá.
Itinerário e gastronomia são o que há de marcante para mim numa história. A textura e os aromas de ruas e alimentos têm sido responsáveis
pelas minhas melhores recordações. Ponto este que, sem dúvida, depende de um fator emocional e estilístico. Não basta, simplesmente, que se enumerem toques, cores, nuanças, ruídos,
jogos de luz e sombra. Bem entendido: ruas e pratos devem ser peças e não acessórios da narrativa.
Livros de viagem não são contos nem romances. Definitivamente, guias de qualquer espécie entram naquela categoria de coisas evitáveis ou, no mínimo, sujeitas ao adiamento até que sejam tão necessárias, por exemplo, quanto uma ferramenta de trabalho. Um guia, no meu caso (e, sempre espero, no caso de qualquer autor de narrativas), não passaria de um esboço.
Eis a questão: o plano sensorial de um texto só dá conta do recado se a sensação fizer parte do repertório do leitor.
Já disseram que Brasília é outro mundo. Repetiram à exaustão. Eu concordo. Mas há de existir um eco qualquer de universalidade capaz de unir um leitor brasiliense que nasceu, cresceu e amadureceu na Shis Q1 7 Conjunto 2 ou, então, na Q10 Conjunto BD, e todos aqueles brasileiros que vivem numa das centenas de ruas 7 de Setembro espalhadas pelo país.
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Esta crônica faz parte do projeto Crônica de um ontem e foi publicada originalmente em 31 de agosto de 2015



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