PALMEIRAS, FLAMENGO E CEREJAS - Sergio Geia

 


Não sei você, mas da cereja do bolo eu passo longe. Aliás, não só a do bolo. A da torta, da compota, da geleia, até do licor. Espere. Talvez essa seja uma meia verdade. Vez ou outra, até gosto da cereja do bolo. Quando o Palmeiras ganhou do Flamengo na final da Libertadores, por exemplo. Ganhar a Libertadores foi o máximo. A cereja do bolo? Ganhar do Flamengo. 
 
Ano passado a final se repetiu. Palmeiras e Flamengo. Se ganhasse de novo do Flamengo seria tudo. A cereja do bolo? Você pensou: ganhar do Flamengo. Errado. Digamos que não só isso. Resposta certa: ganhar do Flamengo, mas com um gol de Andreas Pereira, se é que você me entende. 
 
Esse duplo sentido da cereja do bolo é interessante. É que cereja do bolo, além do doce que colocam para enfeitar a confeitaria, também significa o detalhe final que arremata algo já bom, tornando-o ainda melhor, mais bonito ou especial. E na verdade, há mesmo uma conexão entre os dois sentidos. A imagem vem da própria confeitaria: bolo pronto, saboroso, e alguém resolve botar a cereja. Diz que vai dar graça, destaque, acabamento. Não é essencial, mas eleva a experiência. Tá. 
 
Por falar em cerejas, lembrei de uma história. Eu estava numa barraquinha de feira no centro de São Paulo e apanhei três papaias. Tamanho bom, desses que cabem na mão. Ainda verdes, mas já rendidos ao amarelo em boa parte da casca, prometendo doçura para mais tarde. 
 
A feirante, que conhece bem as frutas que vende, me estendeu uma cereja. Experimente, sinta a doçura. Em suas mãos, uma fruta arredondada, vermelha-rubi, pequena e brilhante. Obrigado. Não gosto de cereja. Ela insistiu. Eu insisti na recusa. Experimenta, seu moço. Garanto que vai gostar. A feira acontecia na rua Santo Amaro, na Bela Vista. Naquele dia, descobri o verdadeiro sabor da cereja — a fruta, não o enfeite: doce, suculenta, viva. 
 
Outro dia a cena se repetiu. Estava na Major Quedinho, centro histórico de São Paulo (antes que você me aponte o dedo, sim, adoro São Paulo; pretendo passar boa parte de meus dias lá; adoro teatro, praças, livrarias, shows, bares, restaurantes, Palmeiras, padarias, feiras, tudo de Sampa; menos a violência, claro). Nesse caso, o vendedor nem se deu ao trabalho. Quando vi a barraca de cerejas, corri pra lá. Experimentei. A mesma suculência, frescor, e um leve amargor no fundo. Trouxe quase um quilo. 
 
O mais interessante foi a tática do feirante, que se repetiu, assim como na Bela Vista. Sem anúncio nem argumento, ele cortou um maracujá-doce e colocou na minha mão. O perfume veio primeiro, intenso, floral. Degustei com prazer. 
 
Acho que sou fácil. Ou talvez a abordagem ou técnica é que são boas. O fato é que São Paulo está cheia de bons feirantes. Eles vendem não apenas frutas de qualidade, mas experiências sublimes. 
 
 
 
Ilustração: ChatGPT

Comentários

Jander Minesso disse…
Quem não gosta de feira bom sujeito não é.
Anônimo disse…
Bela crônica… Foi numa feira, em São Paulo, que experimentei Tâmara recheada com Morango. A tática do feirante foi a mesma!!! Mas, falando em Flamengo e Palmeiras na última Libertadores, a cereja do bolo foi o Daneles, digo, Danilo!!! Grande abraço, Sergio.
Anônimo disse…
Blz Serginho, mas o nosso Palmeiras, será sempre a cereja do bolo! Grande abraço!
Anônimo disse…
Crônica saborosíssima, Sérgio!
Na expectativa para que em 2026 tenhamos mais uma final de Libertadores entre Flamengo x Palmeiras... Que vença o melhor!😃🏆🍒
Zoraya Cesar disse…
Suas crônicas, como sempre, cherry on top!
Ionio Paschoalin disse…
Experiências sublimes como essa crônica, por exemplo. Seu paladar é muito bom, essas cerejas pra colocar em bolos, nem são cerejas. Ouvi falar que são feitas de chuchú, corantes e aromatizantes. Pois é.....mas, Sérgio, demais a forma como você liga elementos nos seus textos!
Albir disse…
Sobre o Flamengo, você não está sozinho. O sonho de todos os torcedores de todos os times é ganhar do Flamengo. Eventualmente isso acontece.

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