DESALOJAR >> Carla Dias


Com os anos acumulados na idade, compreendeu que a mudança – tão reverenciada nas citações e nos livros de autoajuda como consequência da dedicação ou da indiferença – tem personalidade. Ela não se interessa pela querença, é uma colecionadora de oportunidades, uma apostadora requintada, capaz de conectar sonhos com a realidade. Também é apreciadora do amor platônico entre caos e tranquilidade. Assim, eventualmente os coloca no mesmo lugar, olhos nos olhos. 

Há alguns meses, decidiu anotar as mudanças de um dia, apenas mais um em uma diariamente calejado nas suas experiências. Sem presença significativa no portifólio de sua rotina, a mudança se mostrou ausente, feito a mãe que foi embora para ser atriz de cinema e morreu de cirrose. Ela sim conheceu o sarcasmo da mudança.

Depois de muito analisar a  mudança, sem que nada mudasse de fato, durante um encontro com familiares começou a falar como se fosse o médico da série, o galã do filme dos anos 50, o âncora do telejornal, o chef de cozinha ensinando como brotam as comidas das panelas. As crianças acharam bem engraçado a interpretação do tio, mas ele não estava para brincadeira.

O pai se aproximou, puxando-o para longe dos sobrinhos com um abraço-prisão. Levou o filho até a cozinha, encheu uma caneca de louça de café sem açúcar e o serviu. Puxou a cadeira, sentou-se defronte a ele, as mãos entregues à coreografia da ansiedade e do desapontamento.

Com a voz ancorada no quase desespero, os olhos lutando para barrar as lágrimas, anunciou ao filho que ele precisava mudar, você já passou dos quarenta... tá na hora! Gargalhou baixinho, de si, não do pai, por quem sempre teve profundo respeito. Com a voz entoada na cadência de narrador de comercial de amaciante de roupas, falou por quase uma hora sobre a ausência desesperadora da mudança em sua vida. O pai, agora com olhar estalado de agonia, pediu que ele permanecesse onde estava e se levantou, foi até a sala, enlaçou a mão da esposa e, com ela, desapareceu pela casa por um punhado de minutos.

O pai voltou carregando uma mala, a mãe chorosa, sem conseguir encará-lo: se é de mudança que você precisa, aqui está a sua mala.

Surpreso, sem entender como os pais decidiram despejá-lo de seu quarto de desde sempre, saiu se arrastando, dramaticamente, como se a tristeza o tivesse habitando. Sem saber por onde começar sua partida, sentou-se na escada da entrada da casa, a única que conhecia seu morar, e fez algo que nunca tinha feito antes, a não ser quando sentia fome e era muito novo para preparar a própria mamadeira: chorou.

A mudança sorriu.

Comentários

Ionio Paschoalin disse…
Que lindo Carlinha, que história, que descrição, que construção de frases, pensamentos, uau!! Você é muito criativa, você é muito tudo. Parabéns amiga querida!

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