DO OUTRO LADO DA JANELA >> Carla Dias


Quando acorda de si para chacoalhar cobertores de novidades, não vê problema em pegar algumas emprestadas para diluir em esperas de sem-fim. Acredita em ao menos tentar acreditar que esperas são receptoras de acontecimentos de surpreender. E surpreender-se, vez e outra, colabora com a disposição de trafegar pela rotina.

Deseja mudar tudo de lugar, geográfica, mental e emocionalmente. Vive a fazer combinações ilógicas, apostando em perdidos, resgatando “pode ser” revisitado por mirrada coragem. A rotina da ginástica emocional inclui envolver-se o mínimo possível consigo. Olhar adiante é preservar-se, assim foi ensinada a seguir. Olhar para fora da gente fortalece a capacidade de sobrevivência.

Porém, há quando o olhar para dentro muda o fora.

Entendeu que o mundo não trabalha para os que não colaboram com ele. Assim, tem dois empregos executados em grande diferença na atuação, busca compreender melhor o sim e o não. E conhecer pessoas, porque sempre foi curiosa sobre elas; observadora de ocorridos alheios, aprende nuances durante tal aventura.

Merece o apelido concedido, sabe disso. Conheceu muitos apelidados que souberam barganhar proveito, mesmo com a infelicidade a valsar em seus sentidos. Mas é realista, ainda que de modo nem sempre operante. Controla-se ao colocar em prática exercícios envolvendo respiração, vendidos com garantia falha de gratuidade de direito, mas descontrola-se diante da possibilidade da incapacidade de não ter como alimentá-los.

Vive de autoanálise e de tentar desvendar o “e se”, o que se mostrou genuíno perigo. Não raro, é preciso alguém segurar sua mão e conduzi-la pelo longo corredor. Gosta de arrastar os pés no chão, na tentativa de perder os chinelos. Descalça, parece que seus pés são livres, diferentemente do resto do corpo a pesar tempo e incapacidade de correr.

Anda pelo mundo descalça sempre que se esquecem de sua existência. Suas fugas a levam à cozinha, onde os funcionários não se importam com a presença dela, ocupadíssimos com providenciar alimentos a ser servido em horário pontual, senão o dono da casa pode demiti-los. Ele sabe fazer isso. Mas não a senhora de grandes olhos azuis. Ela sempre deixa um copo descartável ao lado da cafeteira para quando a moradora do 52 passar.

Ela sempre gostou de café, única constante na sua aventura de ser gente. Depois de se demorar nos goles, observando pessoas, finaliza a visita e logo alguém segura sua mão e a conduz até a sala. Há nela uma janela de fora a fora da parede, uma tela de realidade que ela adora contemplar. Imagina que, dia desses, colocará pés descalços naquela calçada. A mulher de grandes olhos azuis, que parecem querer fugir da cara dela, a única em quem confia, sorri e lhe entrega o comprimido: esse vai ajudá-la a clarear pensamentos.

Comentários

branco disse…
Carlinha , que porrada! As vezes são coisas sao tão sem sentido, como se fossem aquelas pastilhas antigas que existiam nas paredes, uma a uma são tão insignificantes, juntas formam o muro que negamos existir. Ahhhh, apesar de todas as diferenças me lembrou a letra de Madman Across The Water do Bernie Taupin.
Ionio Paschoalin disse…
Essa crônica linda merece três minutos de aplausos entusiasmados!
Zoraya Cesar disse…
Mais uma para nao ler no domingo à noite. Que sorte que pude ler num sábado à tarde, assim pude reler. Que incrível viagem pelo inconsciente semiconsciente, por assim dizer. Que coisa mais difícil de captar, e com toda essa doçura. Só mesmo Carla Dias.
Albir disse…
Quando o olhar para fora esconde que o olhar para dentro é insuportável.

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