COISA DE LAGOA >> KIU OLIVEIRA
Por anos
tentei esquecer a história. E depois de repeti-la em algumas sessões, a psicóloga
receitou escrevê-la, que me faria bem. Enfatizou a necessidade da verdade em
cada palavra, mas isso eu não pude garantir, porque a memória e o espelho não
são um poço de sinceridade. Ela também indicou convidar minha mãe a voltar ao
local do acontecido, e, de mãos dadas, revisitar a
memória, perguntar o que engasga e fere. Não quero levar minha mãe lá, o lugar
não é mais o mesmo, aterraram tudo e construíram uma casa no lugar. Mal conheço
os donos. Não vou desenterrar nada.
Aconteceu em
um domingo, a família toda reunida na lagoa da herança, como de costume. Chegamos
quando o sol nascia, minha mãe e meu pai zangados e eu não podia dar palpite
para não estragar o passeio. Ir embora cedo não estava nos planos. Assanhados com
seus anzóis coloridos e iscas vivas, meus primos correram até a margem. Escolhi
o lugar com a melhor vista e fiquei à espreita, observando todos eles refletidos
no espelho d’água.
“Acho que
sua isca se foi”, alertou uma prima, ao me oferecer um copo cheio de bichos. Escolhi
a minhoca – que se contorcia – e a aproximei da água. Ela se duplicou no
reflexo. Espetei o anzol duas vezes em seu corpo mole, e voltei ao
meu posto.
Fui alagado
por memórias, como a do dia em que flagrei o primo mais velho beijando a prima
das minhocas. Voltei ao presente ao ouvir um barulho, como se algo tivesse acabado
de atingir o espelho d’água, suspeita confirmada pela vibração seguida de
pequenas ondulações. Aprumei o olhar, e, no reflexo, testemunhei um dos tios
gesticular impaciente para a esposa. Outro tio fazia o mesmo, aliás, fazia pior;
chegou a empurrar a esposa e a filha, que olharam em todas as direções, à
procura de uma cadeira, um apoio, outro caminho. Do lado de fora, tudo seguia
normal, e, no espelho d’água, pareciam outras
pessoas. O estômago revirando, fui para
longe da margem. Os tios bebiam cerveja e pediam mais, as tias atendiam e
mantinham tudo bem cuidado. Peguei um limão nas coisas da minha mãe e o cheirei
com força para amenizar o enjoo. Voltei para a margem, molhei o rosto, a cabeça
toda, e pedi mais uma minhoca à prima.
Outra pedra
foi atirada no meio da lagoa; as pequenas ondas retornaram, e, à medida que se
aproximaram da margem, cresceram. Na
sequência, deu para ver o tio mais velho meneando os braços com violência
contra a esposa. “Meu Deus, ele a feriu”, comentei baixinho, comigo mesmo. A
tia abaixou a cabeça e se encolheu em choro. Olhei rápido para o lado de fora e
a tia – que chorava no espelho – sorria e preparava petiscos.
Me
perguntei: alguém mais viu? Fora da lagoa, todos cumpriam seus rituais. Seria
aquilo loucura minha? Coisa de lagoa?
Enchi e
esvaziei os pulmões devagar, uma, duas, três vezes, então decidi falar com meus
pais e esclarecer tudo. Fiquei de pé, a maior das pedras se chocou contra a
água, ondas enormes se formaram. Cogitei virar o rosto, foi quando meus pais
surgiram no reflexo.



As primeiras violências sempre parecem marcar mais, né? Texto bonito e doído.
ResponderExcluirObrigado 🙏
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ResponderExcluirLindo texto 👏👏
ResponderExcluirObrigado 🙏
Excluir👏👏👏
ResponderExcluirÉ......linda, perfeita, ortografia do coração sem perder o ritmo, batuta regendo semântica, fora do normal! E aqui, o normal já é fora do normal, está acima. Sei que não vou me esquecer dessa crônica jamais, por mais mares, ou lagoas, que percorra....
ResponderExcluirObrigado, Ionio. 🙏
ExcluirConto profundo!
ResponderExcluirObrigado 🙏
ExcluirEspetacular!👏👏👏👏
ResponderExcluirObrigado 🙏
ExcluirTexto lindo , parabéns!
ResponderExcluirObrigado 🙏
ExcluirMuito bom! Sucesso em sua carreira
ResponderExcluirObrigado 🙏
ExcluirUau! Amei esse texto 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluirObrigado 🙏
ExcluirGostei muito.que escrita maravilhosa!👏🏻👏🏻
ResponderExcluirObrigado 🙏
Excluir👏🏻👏🏻
ResponderExcluirKiu, gosto muito do seu observar o mundo e as pessoas. Um texto bonito à beça, ainda que tão dolorido quanto. Bem-vindo ao Crônica!
ResponderExcluirObrigado, Carla. 🙏
ExcluirAmei demais a metáfora do espelho! A descrição do que era visto nos reflexos, a minhoca espetada no anzol... que pedrada sutil esse seu primeiro texto! Bem-vindo de novo!
ResponderExcluirObrigado, Zoraya. 🙏
ExcluirA delicadeza do uso do espelho, da duplicidade assim como as memórias a dualidade das memórias, que podem engendrar fatos, percepções, invenções, fantasias e realidade... gostei!
ResponderExcluirAbraços
Obrigado, Allyne.
ExcluirO reflexo sempre pode mostrar coisas mais assustadoras que a realidade controlada. Ótimo texto, Kiu!
ResponderExcluirObrigado, Albir.
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