TATUADORES ONÍRICOS >> ALLYNE FIORENTINO

 


Será que eu bebi e não lembro?  Talvez eu tenha usado drogas e no meio do meu surto decidi tatuar duas patas de caranguejo. Eu olhava para o meu corpo e pensava que, com certeza, não era obra de nenhum grande artista! Era um desenho enorme e de estética bem duvidosa, os tons de laranja destacavam-se e as duas patas de caranguejo cobriam as minhas clavículas e iam em direção ao ombro, cada uma para um lado. Na ponta, a garra do bicho em um tom de laranja mais escuro.

Mesmo sob uma camiseta, aquilo não poderia ser escondido completamente. Olhei pra mim mesma e pensei: por que diabos eu escolhi esse desenho? Minha ideia de tatuagem sempre foi discreta, com significado... Pensei por tantos anos, demorei muito para fazer uma tatuagem e agora isso! Patas de caranguejo. O que isso significa, afinal?

Talvez tenha sido esse tatuador. É provável que eu o tenha conhecido naquele bar, ele pode ter me dado um “boa noite cinderela”, talvez tenhamos transado loucamente na casa dele e depois ele me trouxe para esse estúdio de tatuagem. Será que no meio do caminho passamos pela praia e ali, meio chapados, avistamos caranguejos noturnos perambulando? Num acesso de riso drogado eu apontei e disse: é isso que eu quero tatuar!  

É claro! Eu estava drogada, só pode ser isso. Ninguém escolheria esse desenho em sã consciência. Mas não faz sentido... Uma tatuagem grande e colorida como essa demoraria muito tempo para ser feita. Que horas são? Não existe relógio aqui? Não consigo enxergar nada, logo à frente está muito escuro. Entrei em desespero. Queria chorar, as lágrimas já estavam prestes a cair dos meus olhos, aquilo não poderia estar acontecendo... E não estava mesmo!

 Acordei assustada e suando. Você já sonhou que fez uma tatuagem? Se não, você não sabe o que é desespero. Na lista de piores pesadelos, nada de sonhos tenebrosos com monstros, espíritos e ladrões, os tatuadores são os grandes vilões do mundo onírico. Verdadeiros pichadores de corpos que dormem. Mas eu não preciso de psicanalista, sei que a culpa é daquela querida professora do fundamental, na ocasião em que implantou um chip no meu cérebro quando eu tinha 12 anos. Muitos anos depois, comecei a sonhar recorrentemente com tatuagens pelo meu corpo.

Era uma professora jovem e inspiradora. Tudo que ela fazia parecia um bom exemplo a ser seguido: o espírito questionador, a coragem, a inteligência, a elegância... exceto a tatuagem. As pessoas do interior ainda tinham muitos preconceitos sobre isso. Uma rosa tatuada na nuca e nós, como jovens estudantes sempre curiosos, questionávamos: “Que legal! Doeu pra fazer, professora? Eu também quero fazer um dia”. E ela, muito responsável e sabendo do lugar conservador em que morava, disse: “Você precisa estudar muito antes de fazer uma. Isso vai ser a diferença entre você e um marginal”. Mal sabia ela que a tatuagem se popularizaria tanto ao ponto de quase todo mundo seria tatuado hoje em dia.

Desconfio que ela era um Grey em missão e implantava chips cerebrais que se ativariam tempos mais tarde, pois aquilo nunca saiu da minha cabeça. A carreira de professora inspiradora dela durou pouco (ou sua missão interplanetária): rendeu-se à profissão que os pais queriam, casou-se com um homem mais velho, teve filhos e tornou-se uma silenciosa mulher tradicional do interior. Muitos anos depois, eu, que segui mais ou menos a carreira que ela queria ter seguido, comecei a sonhar com grandes desenhos no meu corpo.

O chip começou a emitir sinais, no início eram fracos, mas foram crescendo na mesma proporção em que ela deixava de ser a imagem guardada na minha memória para se tornar outra mulher, mais calada, mais encaixada nas expectativas de todos. Os tatuadores oníricos eram mensageiros do corpo, do grito que ela calava a cada dia. E com sua voz corajosa, agora emudecida, ela pintava meu corpo, com uma infinidade de desenhos coloridos, símbolos que eu jamais escolheria por mim mesma, mas que surgiam na minha superfície e me faziam temer pelo fato de não poderem mais ser apagados.

Nunca a rosa na nuca, em nenhum sonho ela enviou. Dizia, na língua tátil, por meio das mãos dos tatuadores oníricos, que uma rosa negra na nuca seria pouco, meu corpo em tela sempre esteve pronto para ser um roseiral completo.

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Imagem: Freepik

Comentários

Ionio Paschoalin disse…
Muito legal, a gente sente a agonia junto com a narradora...não percebeu o que aconteceu? Você é uma carangueja, simples assim. Acho que um dia vai gostar disso...acho......
Zoraya Cesar disse…
Ui, que agonia! o corpo e a alma gritando por reconhecimento, por se soltarem e tudo o que podemos fazer é uma tatuagem de caranguejo que nem escolhemos. Amei essa
Albir disse…
Agora não apenas a pá, mas também os chips e as tatuagens vão assombrar nossas noites!

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