BREVE PERMANÊNCIA >> Carla Dias
Naquele dia, anos atrás, escutou um barulho de explosão e saiu para ver o que acontecia. A vizinha vinha de sua casa, com as janelas estraçalhadas, gritando pela rua. Ele tentou socorrê-la, ainda sem saber do quê. Tentou acalmá-la, segurando-a pelos ombros. Quando a encarou, dentro dele tudo se mexeu de susto e horror. Sentiu o estômago virar, a garganta fechar para segurar o grito. O coração batia tão rápido, que achou ser impossível resistir à velocidade, e que morreria.
Não morreu, quer dizer, de certa forma, morreu.
A mulher, tomada pela dor e pelo desespero, desfaleceu ao se sentir protegida, e ele a amparou. Outros vizinhos se aproximavam, mas logo davam pulos para trás, tentando disfarçar o gosto de vômito em suas bocas.
Ele conhecia tragédias, era ótimo coordenador de desespero alheio. Não à toa, tornou-se funcionário de reconhecida importância na seção de informações e triagem da prefeitura. Porém, nunca tinha visto algo tão retumbantemente cruel, nem nos filmes de terror que adorava assistir acompanhado do medo.
Por um momento, conseguiu se concentrar no rosto da mulher, aquela por quem nutria um amor profundo. Amar não era algo que gostava de fazer, por causa da baderna toda que causava em seus sentimentos. No entanto, ao vê-la ali, entregue ao seu amparo, reconciliou-se com o infortúnio de amá-la.
Gritou para que chamassem os bombeiros, trouxessem a ambulância, mobilizou a todos com a voz que eles raramente ouviam, que parecia um estrondo em meio ao choramingo de agonia dos outros. Respirou fundo, tentou anular a escuta dos gritos dos outros, concentrou-se na mulher deitada em seu colo, desmaiada, por sorte dela.
De volta à sua casa, sentou-se no sofá sem se preocupar se o mancharia com o sangue da mulher impregnado em suas roupas e braços. Demorou a recapitular a desfaçatez do destino. Questionou o universo sobre o peso na execução de ações. Ela era uma boa pessoa, ainda que teimosa e de adorar verbalizar alguns palavrões. Era tão honesta, consigo e com os outros, que era impossível não a admirar.
Lembrou-se da primeira aula do curso “seja positivo e se torne uma pessoa melhor”. Nunca entendeu o que os criadores do método queriam dizer com “pessoa melhor”. O curso contava com ampla variedade de gente para ele observar, diferentes e interessantes, por isso, sequer pensava em considerar o melhor abordado ali como único modo de ser; não queria tornar-se um domesticado. Terminou o curso mais por curiosidade sobre até onde seus guias o levariam – e aos outros também, do que por compreensão do que era ensinado.
No dia do enterro dela, ficou em pé ao lado do caixão, olhando para a tampa que o impedia de vê-la pela última vez. A ideia de a vida continuar, sem que ela estivesse presente no mundo, atormentava-o até quase fazê-lo chorar. Não era pessoa que chorava. Jogava xadrez quando precisava acomodar esse desejo. A mente se ocupava, então, o choro era contido como se enfrentasse uma barragem.
As pessoas comentavam sobre a tragédia. “Esse negócio de explosão de botijão de gás é sério!”, um sujeito de quem conhece a cara, mas não faz questão de decorar o nome, comentou, recebendo acenos de cabeças concordantes. Ninguém queria ficar perto do caixão ou se permitir dela.
O susto e o pânico ao encará-la desfigurada nunca foram embora. Ele conseguia, concentrando-se em tarefas que exigiam total atenção, desvencilhar-se da lembrança, mas ela sempre o alcançava. Para espantar a dor, buscou na memória outro cenário, e uma lembrança, que nem sabia morar nele, tornou-se sua saída.
Ela passou por ele, dedicada a um monólogo sobre a dificuldade dos moradores em cuidar de suas calçadas vivas. Ele escutava sua voz e observava seus gestos como se assistisse a uma ópera, havia cadência. Encantou-se com a coreografia da braveza dela sobre aqueles que escolhiam enterrar o melhor por ser mais fácil ignorar o pior.
Custa plantar uma florzinha? Tem medo de quê? De o concreto gostar da presença dela? Gente doida...
E ele gargalhou solto, naquele misto de achar graça e companhia na qual desejou permanecer. Ela parou e o encarou, os braços cruzados, o olhar inquiridor.
Muito esquisito ver você sorrindo. Mas sabe que até que eu gosto?
Desde então, sempre que não consegue lidar com o infortúnio, ele sorri, não aberto como aquele dia, sorriso miúdo, tentando manter dentro de si um pouco dela.
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