RELVA >> ANDRÉ FERRER

IMAGEM: Gemini

A empregada foi buscar o pão com geleia e o homem bocejou. Com os lábios projetados, Fernando ergueu a xícara e testou a temperatura do café. Pela vidraça, a linha entre a grama aparada e o calçamento que levava à piscina estava perfeita.

Lá fora, o jardineiro arrematava o serviço iniciado no dia anterior. Ele cortou uma haste rota. Examinou com atenção. Enfiou num saco de lixo.

No solário, a empregada voltou com o restante do café da manhã. Ao servir, a louça esbarrou no jarro de suco.

— Oh, seu Fernando!

— O que foi, Sílvia?

— O vizinho sofreu um acidente. Foi levar a mulher ao aeroporto, de madrugada, e bateu o carro na volta.

Um ruído seco finalizou o segundo gole de café.

— O Eraldo! Como ele está?

— Morto.

Assim que terminou, Fernando foi até a porta. O jardineiro acenou. Mostrou a ampliação do canteiro de rosas concluído na véspera.

— Uma palavrinha, doutor?

Quando se aproximou, Fernando uniu as mãos atrás do corpo. O jardineiro sorriu.

— Perdão, doutor. O senhor tem dois cortadores de grama e não é obrigado a emprestar para ninguém. Ontem, eu “atrevi” a comentar das máquinas quando “ele” puxou conversa. Foi errado.

— Fique tranquilo.

O jardineiro concordou e tornou a mostrar o canteiro.

— Só faltou esticar o encanamento do aspersor na parte nova. Quando chegar o material, a Sílvia vai me ligar. Então, venho instalar.

— Tudo bem.

— Agora, eu preciso ir. Ah, o senhor nem imagina o que aconteceu! A bateria do meu carro arriou.

Fernando estreitou os olhos, colocou a mão no queixo e girou a cabeça na direção da casa vizinha. Torceu os lábios. Estendeu as mãos espalmadas.

— Eu vou ajudar você.

Em poucos minutos, Fernando tirou o BMW da garagem e estacionou frente a frente com o carro do outro. Assim que os cabos foram conectados, o jardineiro deu partida e acelerou o motor da Brasília.

Numa nuvem de fumaça, o veículo se afastou. Fernando fechou o capô e escutou alguém pigarrear atrás dele. Uma senhora que trazia uma caixa de plástico.

— Bom dia. Vendo balas baianas. O senhor pode me ajudar?

Fernando inclinou a cabeça. A mulher bateu as unhas no plástico. Estava ofegante.

— Ufa! Costumo trabalhar na estação do metrô, mas amanheci sem um tostão para o ônibus. Então, enquanto ando, aproveito para vender alguma coisa.

Fernando coçou o queixo. O caminhão de lixo parou no meio do quarteirão e os homens começaram a fazer a coleta. Na frente da casa do Eraldo, o cesto estava vazio.

— Quanto é?

— Duas por cinco.

— A senhora tem quantas balas nessa caixa?

Ela abriu a tampa e contou.

— Trinta e seis.

Fernando fechou os olhos e franziu a testa.

— Noventa reais.

Tirou a carteira do bolso. Entregou uma nota de cinquenta, duas de vinte e uma de dez.

— Arredondei para cem.

Fernando apertou o rosto, entrou no carro e abriu o porta-luvas. Estendeu uma sacola de supermercado enquanto a mulher sorria e se preparava para despejar a carga.

— Posso voltar para casa e fazer mais doces. Muito obrigada.

— De nada.

O caminhão de lixo partiu. Fernando girou o rosto e os olhos dele caíram na casa de Eraldo onde mal se via o caminho entre o portão e a porta porque a grama estava alta. As raízes forçavam a calçada e os tufos explodiam na entrada da garagem.

— Onde a senhora mora?

— No Santa Cruz. Aqui do lado.

— Entre no carro. Levo a senhora.

Quando voltou, Fernando freou o BMW porque havia um furgão bloqueando a passagem. Há poucos metros dele, a grama do vizinho crescia embaixo do sol da manhã. Contra a pintura escura da casa, uma nuvem de bichinhos pairava sobre a reslva. Os tufos vazavam pela grade e invadiam o passeio.

Um motor roncou. O furgão abriu caminho. Fernando guardou o carro na garagem e desembarcou. Segurava a sacola de balas baianas e deu de cara com as tubulações e os aspersores, que estavam num canto. Ao lado, os dois cortadores de grama novinhos.

— O senhor saiu?

Absorto nos materiais e nas máquinas, Fernando apertou o rosto com a mão. A empregada estalou a língua.

— Foi só o jardineiro sair, os entregadores chegaram.

Fernando meneou a cabeça.

— Que bicho mordeu o senhor? 

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