SUPER PREMIUM >> ANA RAJA


Sala de espera de consultório médico é algo peculiar, ainda mais sendo espaço pequeno e quando o médico atrasa em mais de uma hora o atendimento. Nesse cenário, são poucas as pessoas não usuárias compulsivas de celular, que preferem  uma conversa, seja para se aprofundar em algum assunto ou apenas quebrar o gelo, passar o tempo. 

Esses dias fui a uma consulta. Como sei da demora do médico em atender, levei um livro e, claro, o celular. Depois de todos os trâmites — assinar guia de convênio, atualizar cadastro e por aí vai —, me sentei na última cadeira disponível para sossegar e encarar a espera. Logo tirei o livro da bolsa, mas a leitura durou pouco. 

A mulher ao meu lado começou a conversar com a secretária, o que  impedia de   me concentrar na leitura. Os outros prestavam atenção ao que a mulher dizia, enquanto a secretária, coitada, respondia por educação. Resolvi recorrer ao celular, mas não adiantou; me rendi! Guardei livro e celular na bolsa e comecei a escutar a conversa.

— Ando cansada dessa vida. Não tô querendo mais socializar. Depois de uma certa idade, isso é insuportável. Já engoli muito desaforo, não tolero mais. Você não é assim, né? Claro que não, é muito nova. A vida anda chata e veloz. Ninguém mais tem paciência com nada, me incluo nisso. Olha, para não me tornar totalmente insuportável, vivo revirando o olho por aí, fecho a minha boca, mas a cara não nega. Mas tem uma coisa que me acalma e me faz feliz... 

Nesse momento, me ajeitei na cadeira e olhei para a mulher, na expectativa de descobrir o que a deixava feliz. Quem sabe poderia aplicar na minha vida também.

— Novela turca, já assistiu? Menina, você não sabe o que está perdendo! Eu me afundei na programação das novelas turcas. Me salvou dessa gente chata. Cumpro com as obrigações diárias e trato de me preparar para o melhor momento do dia: ir para meu quarto e lá ficar sossegada, vendo a minha novela. É tão bonita, romântica.

Novela turca? 

— Não é profunda, mas tem amor, isso importa. As coisas demoram para acontecer, sabe? Por exemplo: o casal apaixonado até agora não se beijou. A mocinha tropeça e cai no colo dele, eles se esbarravam sem querer e ficam cara a cara e o beijo não sai. O rapaz é um espetáculo, vale a pena assistir só pela beleza dele.

Àquela altura, só eu prestava atenção na conversa. Os outros pacientes se distraiam com os celulares. A secretária disse que a mãe dela assistia uma novela assim no canal aberto.

— Canal aberto, não! Eu pago um plano premium e assisto tudo em primeira mão, e não são essas que passam por aí, não! É tudo que foi lançado lá fora e ainda ninguém conhece. Só quero saber das minhas novelas turcas. Sinto falta de algumas coisas do passado e, ali, me reconheço em muitas cenas. Vejo um mundo que tem o seu encanto.

A secretária chama o meu nome e informa que serei atendida na sala três. Quando deixo a sala de espera, a mulher ainda está no mesmo lugar, em silêncio, arrastando os dedos para rolar a tela  do celular.

Logo ao chegar em casa, comecei a pesquisar sobre as novelas turcas. Depois de assistir a algumas cenas, assinei o plano super premium.

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As dores delas, primeiro livro de Ana Raja, está a venda no www.editoraurutau.com.

anaraja.com.br

Comentários

Anônimo disse…
Amigaaaa, assista Arafta! Amei sua crônica. Sou do clube da senhora da receoção.
Anônimo disse…
Soraya
Ionio Paschoalin disse…
Super bem escrita! Lógico que a crônica não é sobre dentistas, salas de espera e nem sobre não ter mais paciência de antes. É mais sobre não sentir que pertence aos lugares que te cercam. Tb não é sobre novelas Turcas.....mas....kkkk, basta assistir um capítulo, pronto!! Vai ter que ver até o último.
Tatiana disse…
Ana, amei! Lembrei de uma tia que está adicta as novelas turcas. No meu caso, feliz não, mas me distraio dessa vida aqui fora com seriado sobre assassinatos. É uma forma de catarse estranha...rs, ah, e também dançar 4 horas seguidas como uma louca. Beijo!
Anônimo disse…
Aposto que essa mulher era uma influenciadora paga pra divulgar esse serviço premium. Baita retrato do cotidiano, Ana!
Zoraya Cesar disse…
Aqui de fora, morri de dó pela solidao da moça e de rir, pq tenho uma amiga que nao perde uma novela turca. Hoje já nao tenho os preconceitos que tinha contra quem ficava acompanhando novela, a vida me bateu o suficiente para eu saber que sem uma válvula de escape para a fantasia viraríamos frutas secas. E vamos às novelas turcas e aos doramas!
Allyne disse…
E são boas mesmo! Muito drama. Às vezes é o que falta na nossa vida, um pouco de drama. Abraços.
Albir disse…
Tá certo. Vou procurar novela turca. A vida daquela paciente era um inferno, até que ela descobriu a novela turca e, com ela, a felicidade!

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