VIRGÍLIO MANDA SUPERAR A DISNEY >> ALLYNE FIORENTINO

 




Que o deus do mundo dos mortos me perdoe por escarafunchar seus sisudos domínios, porque a morte é uma coisa da qual não se fala, embora seja a nossa companheira mais assídua, martelando em nossos ouvidos todos os dias, nos lembrando da finitude de tudo. Bipolar, a morte é séria demais e ao mesmo tempo banal. E quando ela bate à nossa porta, nós descemos os lances de escada como quem desce pro inferno ou para dar uma volta em outro quintal.

Por isso, ouso adentrar o barco de Caronte e molhar as mãos no rio, correndo o risco de que Virgílio jamais me guie de volta. O papel do inferno também é punir os que sabem demais, porque lá os Prometidos foram condenados a carregar o maldito fogo, aquele que não ilumina a todos. Ora ilumina, ora não, é dissimulado como a morte, desvela e esconde, atordoando as mentes dos corpos humanoides porque conhece a grande fraqueza do ser humano: a dualidade.

Fala baixinho, Virgílio, para que não nos escutem, eles são muitos e nós, poucos. Eu sei que você estava lá no dia do pacto. Dante teve de se curvar ao Hades para levar quase tudo, mas escondeu o principal. “E como você chegou aqui, mocinha?” Pela única porta possível, você sabe...  mas a que custo? A inflação é alta no círculo do Prometidos, o preço a se pagar é o puro e completo isolamento mental, inércia lancinante e principalmente a convivência física. Ela é impossível. “Acho que Hades é um pouco sádico realmente”. Você acha? Ele explora a fraqueza humana como ninguém. “Não o condene, ele tem poucas diversões por aqui. Se todos se graduassem em simbologia esse lugar estaria às moscas”. E eu não sei? Admito que é genial ocultar a verdade em símbolos e que tudo está tão na cara que ninguém quer ver, mas você sabe que se nós dissermos a eles que a vida é feita de átomos, células e símbolos, eles não vão escutar. “Vocês já tentaram ir pelo caminho da interpretação de texto”. É, mas isso em uma época em que havia textos e pessoas que os liam. Pare de rir, Virgílio, a coisa é séria.

“Desculpe, eu também tenho poucas diversões, sabia? Você não imagina como é vê-los chegar aqui com a esperança de que podem fugir”. Tecnicamente você é um mentiroso também, Virgílio. “Eu só trabalho aqui, moça. Você já tentou dizer a eles para superarem a Disney?”. Como é? “É... o que anda atrapalhando a humanidade é essa falta de interpretação das coisas, você sabe. Os símbolos não são duais, eles são plurais, se interconectam, o bem e mal se fundem... E você sabe que os filmes da Disney atuam diretamente sobre isso”.  Sei, eles são induzidos para a linearidade, eles adoram os filmes da Disney porque treina-os para um olhar pouco simbólico: esse é o herói, esse é o bandido, essa é a felicidade, essa é a tristeza, elas nunca se mesclam e os EUA são os heróis da humanidade. E quando a realidade vem arrasando tudo, quando a guerra bate à porta, eles também querem enxergar assim: esse é bandido, esse é o mocinho... “Viu? Pode ser que funcione”. Ta bom, Virgílio, eu preciso voltar, estou há muito tempo aqui no primeiro círculo e preciso subir novamente ao círculo zero. “Não use esse termo! Está querendo ficar presa aqui antes do tempo?” Ok. Vou voltar para a realidade, para a Terra, para a vida, como queira chamar. Não sei como Dante aguentou mentir sobre a o círculo zero. “Xiiiu. Pactos são pactos. Agora pegue seu fogo e volte pra lá. Fale sobre a Disney”. Você acha mesmo que isso vai dar certo, Virgílio?  ...  “Nem a pau”.

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Imagem: Freepik.          

Comentários

Zoraya Cesar disse…
hahaha, muito bom
a mistura do erudito com a ironia ficou perfeita! Disney... hum, nunca tinha pensado assim, mto boa sua 'sacação'. Joseph Campbell q lute.

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