A ÚLTIMA CLIENTE >> ANDRÉ FERRER

IMAGEM: Gemini

 

William foi até a mesa, calcou as mãos no tampo e se debruçou nos objetos que estavam lá. Uma agenda e a sua máquina digital.

Na véspera, o rapaz tinha deixado aquelas coisas ali assim que chegou. A festa estava péssima e o pagamento sequer daria para a luz e a água. Ele tinha cruzado o loft enquanto tateava os móveis. A tristeza fungava na sua nuca. William se jogou no sofá.

A peça onde ele estava ficava no andar superior e servia de sala, cozinha e quarto. A escuridão tomava conta do lugar. William já não sabia se era abrigo ou armadilha. Naquela noite, sentia-se afogado em isolamento e o sobrado, que também abrigava o seu estúdio no térreo, parecia adequado. Servia, muito bem, à decisão que ele tinha tomado logo após o trabalho.

A ideia — uma ideia assustadora e urgente, que crescia há dias — voltara e levara-o a um propósito solitário por natureza e inútil, decerto, depois de colocado em prática. Metade de si esperava que alguém notasse, mas a outra metade dizia que ninguém notaria porque essa era a natureza das pessoas. Mesmo depois de morto, o vento continuaria a soprar.

William passou um café e voltou a observar a máquina e a caderneta sobre a mesa. Um pardal pousou no parapeito da janela enquanto o rapaz bebia café e cortava lascas de um queijo duro encontrado na geladeira. O pássaro tremia por causa do calor e, ao redor de um corpo quase esférico, as penas eriçavam-se contra o céu azul.

Era dia e a luz natural transformava o interior do loft. A peça já não estava soturna e William ficou aliviado por ter sido covarde na noite anterior, mas aquilo — a ideia — com certeza voltaria. Uma contrariedade na rua, o vazio da geladeira, uma festa ruim e mal paga, todo e qualquer abalo serviria de gatilho.

Então, ele se voltou para a cama desarrumada. No criado mudo, a caixinha azulada. Um salto de um metro e meio. Só isso.

William reagiu. Fazia o possível para sentir a luz do seu ânimo e o calor da estabilidade. Conseguiria manter a ideia afastada até que a escuridão voltasse. Por enquanto, o Sol acendia a vidraça e os objetos faziam sombras alongadas na mesa.

Num impulso, ele agarrou a agenda e abriu em 19 de novembro de 2003. A prestação da Nikon F75QD vencera no dia anterior e ele sabia que os juros corroiriam a sua conta bancária em pouco tempo. Mais uma dívida para o seu acervo.

Apostara na tal festa, mas ninguém queria mais fotografias. O contratante pagou uma miséria pelas fotos da filha e do prícipe. As fadas madrinhas eram sarcásticas com o tiozinho de gravata borboleta e a sua máquina do século passado. Oh, e para ajudar, é isto que eu tenho!, pensou o fotógrafo. A página de hoje ainda está vazia e eu percebo, aqui de cima, que a Iara já chegou. Ela só deixou de subir bem cedo porque, ontem, eu disse que a minha mãe já morreu. Deve estar chateada, a pobre, e também preocupada com o que conversamos. Eu evitei a rudeza, mas o assunto é rude por si só. Muito bem. Se as coisas não melhorarem, terei mesmo que dispensar a mulher que trabalhou com o meu pai durante 35 anos. Terei que mandá-la embora.

William se levantou e levou a máquina consigo. Ele abriu a porta. Iara varria a calçada porque, ainda do alto da escada, ouvia-se o atrito da vassoura contra o cimento.

Assim que o homem pisou no estúdio, a mulher levantou a cabeça. O cicio parou de se espalhar pelo ar e a porta se abriu.

— Bom dia Iara.

— William.

— Outro dia vazio?

— Temos uma.

— Como assim? A minha agenda está em branco.

— Eu atendi uma senhora. Ela quer um ensaio. Sua agenda estava inacessível para mim. Você só pensava naquela festa. Eu já disse que precisamos de um computador.

— Lá vem você de novo. Bem. A que horas?

— Nove.

— Okay.

William subiu a escada, fechou a porta e sentou-se na cama. Numa caixa azul, estavam os comprimidos que ele deixara à postos, em cima do criado mudo, na noite anterior. Até o copo de água esperava ao lado.

Terminaria de uma vez com aquilo ou atenderia à última cliente em homenagem ao seu pai? O relógio marcava 8h45min e a dúvida circulava pela cabeça de William. Resolveria o dilema, sentado na cama, até a hora marcada e, caso escolhesse homenagear o velho, faria a coisa toda assim que terminasse o seu último ensaio.

A pergunta girava tão rápido quanto a marcha dos ponteiros do relógio. 8h49min, 8h52min, 8h55min. Então, Iara batucou na porta do quarto.

— Oh, William! — disse a mulher do outro lado. — A cliente está pronta.

William estava em pé, os olhos úmidos, a embalagem azul nas mãos. Atordoado, ele guardou a caixa num bolso e esfregou os olhos. Depois, saíu do quarto, desceu a escada e Iara fungou atrás dele. Hábito que ela tinha quando ia chamá-lo e a pessoa, lá embaixo, estava impaciente. Iara vestia um roupão, mas o homem sequer reparou no vestuário que eles costumavam emprestar para os clientes. Ela parou diante da escada. Observou William, que ficou atônito porque ninguém estava lá.

— Sou eu.

— É o quê?

— A cliente.

William colocou a mão no peito e abriu a boca enquanto olhava para a mulher. Inacreditável, o roupão vermelho estava justo, a circunferência do busto ainda firme o suficiente para pressionar o algodão grosso. William colocou as mãos na cintura.

— Por quê? — ele disse.

— Por mais de 30 anos, eu desejei um ensaio.

— Tudo bem. Hoje, eu preparo tudo.

— Já está pronto.

— Então, coloque a sua roupa.

— Não. As primeiras, eu quero assim.

— Tudo bem — disse William, que coçava a cabeça. — Mas você trouxe outras roupas?

— Sim... Bem sortidas.

— Vamos começar?

— Vamos.

O fotógrafo agarrou a câmera e espiou com um dos olhos fechados. Ele afastou o aparelho e apertou alguns botões. Ajustou o foco e a abertura. William começou a trabalhar e a mulher fez a primeira pose, um sorriso, um desalinhamento do quadril, um ombro de fora. Mesmo que a vida cessasse, o seu sorriso persistiria. Mesmo que a morte chegasse, o seu aceno ainda cortaria o ar e o fim jamais impediria o balançar suave da sua cabeça. Iara sentou-se. Depois das fotos e das trocas de roupa, sentia-se feliz e cansada. Pediu um copo de água e emendou:

— Vou pagar.

— Não se preocupe. Descontarei do seu salário.

Eles riram.

William cruzou o estúdio e parou diante do bebedouro refrigerado. Apanhou um copinho de plástico e encostou a borda do copo na torneira, que jorrava enquanto uma dúvida reaparecia, girava e batia nas paredes da sua mente. Com a cabeça baixa, ele olhou para o cesto de lixo e apalpou o bolso da calça.

— Está gelada — gritou.

— Não faz mal.

William pousou o copo sobre o garrafão de água. Um prisma perfurado pela luz da vitrine. Colocou a mão no bolso, tirou a caixinha azul e jogou na lixeira.


Comentários

Zoraya Cesar disse…
Comecei a ler com medo, ultimamente vc anda muito cruel. Mas essa foi redentora. Linda, agridoce, sensível.
Albir disse…
Que beleza, André!
Você está salvo. Apesar das más companhias da pá que, aliás, continuam te rondando.

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