DUAS TORTAS >> JANDER MINESSO

 

Fui numa padaria tradicional na Treze de Maio. Era domingo e queria uma sobremesa para o almoço da família. Comprei duas belas tortas, uma de ricota e outra de chocolate, que me foram entregues numa sacola de papelão reforçado e com o logotipo da padaria em alto relevo.

Saí dali e fui curtindo o céu azul de inverno no caminho de volta. Imaginava o almoço próximo: todos à mesa, relembrando as histórias de sempre e rindo das mesmas piadas. A imaginação me esquentava a alma e o sol me esquentava a pele.

Aí, um cara na rua me interpelou:

– Sobrou alguma coisa, amigo?

O homem olhava para a sacola com logotipo em alto relevo. Ele ajeitou o cobertor em volta do corpo e meu nariz foi invadido por um cheiro de merda velha que embrulhou o estômago. Restos de unha amarelos e roxos pendiam daqueles dedos.

Me senti mal pelo preço que paguei nas tortas. Depois, achei um abuso alguém pedir comida na saída de uma padaria tradicional da Treze de Maio. Quase entreguei a sacola, mas tinha aturado muito desaforo no trabalho até receber o salário do mês. Quase voltei para comprar um pão e alguma coisa para colocar dentro, mas a fila do caixa era imensa. Quase fiz um monte de coisas. Mas o que fiz, mesmo, foi responder, mais para o chão do que para o homem:

– Sinto muito.

E apressei o passo.

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Imagem: congerdesign por Pixabay

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Que crônica árida! Vou digerir mais um pouco o poder do quase. Mas quero dizer q quando confrontado com as mazelas desse mundo, um ato justo e mesmo um direito ( por exemplo, usufruir das tortas com o fruto do trabalho) soa como um grande ato de egoísmo. É uma tremenda saia justa moral!
Anônimo disse…
Sei como é…
Zoraya Cesar disse…
Quem vive na cidade grande e tem um coração dentro do peito sabe muito bem o dilema e a dor que essa situação traz. Vc seguiu em frente, nós seguimos em frente, mas a situação nos acompanha, fica a nosso lado, empanando todo o brilho anterior.
André Ferrer disse…
Jander, o quê aconteceu? Na segunda, escolhi um dos meus textos previamente prontos (meu banco de urgência) por este critério: o mais breve porque tenho publicado coisas muito longas; e parece que eu fiz uma quase-síntese do seu excelente relato! Li só agora, na quarta, o seu. Muitos vão dizer que foi telepatia. Abraços.
Soraya Jordão disse…
Fez mais do que quase, escreveu essa crônica que nos faz pensar sobre os nossos quases.
Albir disse…
Zoraya tem razão. Esse gosto amargo é quase diário nas cidades. Mesmo quando a fila não está tão grande e você volta.

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