2 rios >>> branco




a vida passou tão rápida por nós amigo
ainda há pouco
 e estávamos bebendo cerveja e cachaça no bar
minha risada era franca
sua tranquilidade não menos que isso
uma doce obsessão de sermos jovens
entre um copo e outro
a alternância nos goles
cerveja cachaça cerveja
seu manso falar daqueles que sabem
meu senso de humor impedindo a implosão
- sem saber -
já éramos vulneráveis
cores sem matiz

há muito tempo não nos vemos amigo
- paradoxo
o tempo que não vimos passar
o tempo que faz tempo de alguma coisa - 
gostaria de poder dizer aquele velho olá
seguido também pelo idoso tudo bem?
sempre fomos sinceros e isso bastava
mas como foi dito
 há muito tempo não nos vemos meu amigo
e assim
meus olás foram desperdiçados
e os tudo bem que não se perderam
são agora apenas como contas gastas de madrepérola
neste grande rosário que chamamos vida

envelhecemos como grandes e orgulhosas árvores
mas não tão fortes
 para impedir que o vento derrubasse nossos galhos
resta o tronco
cascudo
cansado
desencanto

mas o que somos agora?
apenas seres minúsculos
 que comandam uma nave à deriva chamada corpo
próximos do final da jornada neste planeta
seguimos o fluxo
as ventas
a trilha que brilha
por uma milha
somos a liquides do rio em tempo de estiagem
água pouca
somos secos
duros 
burros
mas com um sonho ainda
ser um rio inverso
e fugir do mar.














2 rios
ilustração de: j.p.aint


Comentários

  1. Não importa o quanto nademos contra a correnteza. O mar é inevitável

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  2. O que todos queremos é ser um rio inverso para podermos encontrar a pureza da nascente. Novamente um poema que arrebata.

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  3. A simplicidade das parábolas. Fazendo e dizendo tudo o que nos vai por dentro. Minutos de leituras e uma vida de reflexão. Grande texto!

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  4. Simplesmente perfeito meu amigo
    Deus abençoe grandemente seu dia!

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  5. Quem nos dera ser um rio inverso e fugir do mar!
    Como não temos outra opção procuremos remar devagar e observar a bela paisagem que nos cerca!
    Observação: Adorei essa crônica!

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  6. Absoluto como sempre! O passar do tempo é implacável, tendo como referencia tudo que vivemos... O que nos resta crer, é a serenidade a qual vamos desacelerando. Forte e carinhoso abraço.

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  7. Muito bom! "... Nossa linda juventude..." Obrigado meu amigo!

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  8. Boa Branco,você descreveu minha trajetória.

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  9. É uma pena que o tempo não volta, mas cabe a cada um de nós seguir o fluxoe o curso de nossos rios, apesar do último mergulho ser no MAR.
    Ótima prspectiva do curso da vida.
    PARABÉNS!

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  10. Perfeito Wilson.

    Abraços
    Elaine Franco

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  11. Perfeito Wilson.

    Abraços
    Elaine Franco

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  12. A parte que mais me chamou a atenção. Que faz acreditar que a vida é um eterno rosário. E cada dia é uma conta rezada. Uma parábola fascinante e magistralmente narrada.
    Alcir

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  13. Boquiaberto com o que acabei de ler. Quando penso que seu patamar mais alto foi atingido, você nos presenteia com outra poesia incrível. Bravo!

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  14. E o rio segue seu rumo infinito.....linda poesia, amigo. Parabéns!

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  15. "... contas gastas de madrepérola...." maravilhoso..
    É sempre um prazer beber um poema seu!

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  16. Tempo,tempo,tempo,implacável,incansável, deixando nosso atrás o nosso rastro. Lindo


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  17. "..ser um rio inverso
    e fugir do mar."

    Lindo, como sempre.

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  18. É engraçado ler teu poema, pois ontem mesmo alguém me falou da diferença entre o eterno e o imortal. Imortal é o que vive pra sempre, mas eterno é aquele que faz do tempo uma centelha sem meio, começo ou fim. Nossa especie anseia pela imortalidade, mas esquece que somos eternos em cada lembrança de alguém, mesmo ao fim da jornada... Ai, dói no peito, teu poema me traz a nostalgia de uma eternidade que não vivi...

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  19. Esse foi para deixar sem folego. Sua poesia não se dobra e nisso está toda a elegância de sua escrita. Sem lugar comum, sem excessos, deixando espaços para interpretações, enfim, completo.

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  20. Sua poesia refinada conta histórias líricas e lúcidas, sempre com apenas uma pitada de desespero e parece que faz parte de uma narrativa maior.

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  21. Bravo!!!
    A incerteza que assombra!

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  22. Dois rios, amigo. O da direita descrevendo o da esquerda, ou melhor, os dois. Paralelos.

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  23. Texto maravilhoso, "somos a liquidez do rio em tempo de estiagem", "e o tempo passa tão rápido e nem percebemos..." Bravo meu amigo Poeta, sua sensibilidade me emociona...

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  24. "são agora apenas como contas gastas de madrepérola
    neste grande rosário que chamamos vida"

    My Lord and Warrior, esse foi dos mais pungentes de todos os seus que já li, e por mais que eu os leia, sempre serão poucos. Pq vc merece ser muito lido e relido. E reverenciado.É o que faço agora.

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