A DOR DA GENTE >> Sandra Modesto

Um nó no peito em dó maior.
Depois os exames. Não tem mais jeito.
Cenário inesperado...
O sono profundo que enterra. Encerra.
Não há despedidas. Solidão.
Desnorteada. Sem velórios.
Dor de verdade não cabe num noticiário.
Não cabem nos jornais, os choros, gritos, a soma certa.
A estrada infinita do estranho mundo.
Valas. Não há vagas. Há marcas. Rimas perdidas.
Tudo vai passar? A dor de toda a gente, não.
O governo. O desmazelo com o povo.
Nada. O povo é nada.
A dor do mundo não cabe numa poesia.
E daí?
Daí o espasmo.
No próximo domingo
Quantas mães mortas?
Quantas mães arrumando o quarto...
Do filho que já morreu.
Tudo isso eu rasgo em lágrimas.
Eu vou silenciar o presidente.
Deixar de seguir o presidente.
Bloquear o presidente.
E daí?
Eu me entrego ao acalanto de um amor:
— Mãe, perdão. Ele não sabe nada de dor. A gente sabe.
Imagem: Pixabay


A crônica chora seus mortos e a dor dos que ficam nas mãos de um desgoverno e suas palavras sensíveis e profundas soam como um pedido de ajuda e de justiça. Parabéns!
ResponderExcluirSandra, qualquer palavra minha diminuiria a potência do teu poema. Sinto-me em comunhão.
ResponderExcluirÉ tão gostoso quando as palavras te abraça e te aperta forte. Obrigada!
ResponderExcluirÉ tempo de lágrimas. Chorar juntos é o que temos.
ResponderExcluirDuas referências ao Chico, de uma vez! isso já foi um alento, pq de resto, muito dolorido. Muito bom, Sandra.
ResponderExcluirBela crônica, me senti um pouco triste ao ler o texto, mas mais esperançoso.
ResponderExcluirSandra, Sandra... a poesia tecendo o cenário da dor. Lindamente dolorido.
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