ESCURECE SOB CINZAS >> Whisner Fraga

como prever um susto a oitocentos por hora?

os aviões esfolam um céu tumultuado de fuligens.

as cinzas aterrissam na varanda dessa cidade inquieta.

as gatas acossam libélulas incendiadas.

a menina recua diante da noite em um meio-dia consumado.

o rio também está morto há décadas, menina.

tudo está morto, falta decretarem.

alguém derrama uma água suja na jabuticabeira. a terra humosa.

pai, como é o nome do cantor que você encontrou no bar? nick.

a oitocentos por hora não há imprevistos.

o avião se afoga na poluição cinza e vermelha. e some.

uma tempestade de vaga-lumes queimados possui a varanda.

tudo está morto.

Comentários

  1. Meio ambiente. Tudo vira cinza. Morremos e o mundo pede socorro. Só um texto me salva. Vi cenas em palavras. Parabéns, Whisner.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Maravilhoso e terrível, Whisner! Como vc conseguiu?? Esse final dos vagalumes me arrepiou. Imagem fortíssima, triste e bela. Nas mãos de um escritor de verdade, até a morte é poética.

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