AMOR [Debora Bottcher]
Junho chegou e trouxe a tiracolo a data comercial do amor: o Dia dos Namorados. Não se ouve falar de outra coisa (além do ministro Palocci, obviamente): TV's e revistas estampam vitrines de lingeries, perfumes, bombons e flores, num convite a demonstrações financeiras do sentimento supremo. Mas, ainda que seja muito bom dar e ganhar presentes, será que são realmente indispensáveis para o amor? E numa data específica?
Depois de uma certa idade — e não exatamente avançada — você conclui que experiência não se transmite. E quando se trata de relações afetivas, essa percepção fica ainda mais evidente. Não dá, por exemplo, para dizer para alguém apaixonado que 'um amor e uma cabana' são coisas de romance — livro, filme e novela — e que, quando a realidade vem com contas a pagar e filhos pra criar, se a base for só a paixão avassaladora dos dois primeiros anos de delícias, seu sonho de amor está fadado ao fracasso.
Também não é viável ponderar sobre coisas que só quem está de fora é capaz de enxergar. Por exemplo: o namorado da sua amiga bebe um pouco mais que o razoável; a namorada do seu irmão é ciumenta acima do normal — até pra você ela 'rosna'; o novo namorado da sua colega de faculdade tem ares de playboy e desaparece demais... Mas quem vai arriscar dizer qualquer coisa contra aquele bonitão grosseiro que com um 'vem cá, meu bem' faz a amiga esquecer tudo o que ele aprontou, dissipando defeitos ou contratempos? Como é que se vai abordar um irmão, se quando a moça chega cheia de chamego — e decotes — ele nem lembra que tem família?
Tem várias coisas que passam despercebidas a olhares românticos, mas que fazem diferença quando a relação começa a ficar mais estreita. E quando isso acontece, a ilusão se desfaz e os 'detalhes' caem sobre os apaixonados como um raio de desencanto. O sofrimento fica inevitável e, não raro, sela-se o pacto de nunca mais amar... Até que um novo ciclo de amor recomeça — do mesmo jeito...
Mas tudo seria mais fácil se a gente olhasse para o outro — eleito/a — com um olhar menos emocional, desde o início, mesmo quando a gente tenta convencer — a si e aos outros — que a coisa é passageira. Se ponderasse sobre futuro, responsabilidades, objetivos comuns, carreira, filhos, casa própria, família, velhice — os assuntos sérios que a gente esquece (nem lembra!) quando está apaixonado —, muitas frustrações poderiam ser evitadas.
Alguém pode alegar que, se assim fosse, o encanto desapareceria antes de começar. Mas também haveria menos dor e desilusão — 'verbos' que não combinam com a felicidade desejada, nem no início nem no fim.
Se fosse possível ter um olhar mais objetivo sobre o amor logo que ele nos flecha, haveria menos abandono e separação, menos silêncio e solidão (inclusive entre os pares), mais alegria genuína e paz de espírito. Nada de atitudes passionais: dias mais calmos e amor de verdade, tanto e mais — até que a morte os separe.
E muito mais conversa - em todas as fases da vida a dois...


Muito bom, Debora. Fez-me lembrar da música do Paulinho da Viola: "No meu coração, já não mais se agitam as ondas de uma paixão. Ele não é mais abrigo de amores perdidos, é um lago mais tranqüilo onde a dor não tem razão. Nele, a semente de um novo amor nasceu."
ResponderExcluirAh! Debora,
ResponderExcluirSe amar fosse simples assim como ficariam a poesia e o romance?
Lucidez versus paixão, duas coisas que não combinam na estrada rumo ao amor. Um texto bem escrito, lúcido, porém difícil de ser aplicado quando o desvario nos toma de assalto. Bjs
Como diz a música do Almir Blanc "o amor quando acontece a gente esquece logo o que sofreu um dia"....faz parte né?
ResponderExcluirNão há como ser sempre tão racional a ponto de pensar a longo prazo quando a flecha aponta para o coração....Muito se podew fazer quando se conclui que não basta amar, mas antes de tudo cuidar do jardim para que floresçam muitas rosas apesar dos espinhos.
ResponderExcluirbjs
Muito boa a sua reflexão, Debora.
ResponderExcluirDebby querida,
ResponderExcluirRisos... Efeito colateral da paixão é surdez... e quando a criatura é surda normalmente - a comentários lúcidos - quando apaixonada fica pior.
Se ao menos as pessoas ouvissem...
Beijo grande
Queridos, Obrigada por refletirem comigo. Afinal, há esperança: nem todos estão surdos, né, Monica? :)
ResponderExcluirBeijo todos.
Muito bom debinha, adorei!!
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