DO OUTRO LADO DA PORTA >> Carla Dias >>
Um amigo, certa vez, mostrou-me um roteiro de um curta que escreveu. O que me lembro dele é da incapacidade de o personagem girar a chave, abrir a porta e sair daquele universo que criou para si mesmo. O tempo todo, o personagem acha que aquela chave não existe, percebe-se numa prisão, mas ela está lá, ao alcance dele, enquanto o mesmo pede por socorro, para que alguém o tire dali.Todos nós temos a capacidade de criarmos esse cenário de aprisionamento. Não é preciso ser infeliz para fazê-lo, basta se manter estático, não desejar sair do lugar, seja esse lugar abrigo para tristezas ou para alegrias. A falta de nuanças na vida da gente é das prisões mais receptivas, e nos recebe e acomoda sem mesmo percebermos entrar nelas.
Eu tenho uma coleção nada modesta de prisões, que acredito alimentar diariamente apenas ignorando a versatilidade da vida. O que me permite sair para o sol diário, passar apenas algumas horas na solitária, é a certeza de que quando não conseguimos fazer um movimento que nos dê a liberdade necessária para experimentar a vida, a própria nos dá um belo pontapé e nos manda sair andando. Nem sempre é fácil essa transição, mas certamente é construtiva.
Não consigo deixar de pensar nas coisas que deixei de fazer porque me senti compelida a acreditar não ser capaz. Olhando para trás, não é apenas um passado de tentativas vãs que me espia, mas sim a contemplação daquilo que independente de tempo e ainda pode fazer parte da minha biografia. Porque certos desejos são atemporais e dependem da sabedoria adquirida a cada prisão para serem realizados. Yin e yang.
A prisão nossa de cada dia, do esmero em não contrariar os fortes, saber lamentar os fracos; de cair no descontrole por ser contrariado, e até mesmo a sapiência que não é bem recebida e cuidada. Prisões são cantinhos onde guardamos as necessidades que não temos coragem de suprir, as frases que somos incapazes de proferir, as ideias e projetos que nos metem medo. É lá onde guardamos as belezas, os lugares, os sentimentos que queremos jamais deixar de sentir, mas que ali emudecem, empoeiram, são estancados. Proteger demais é aprisionar.
Acredito que um pouco de ousadia caia bem durante a liberdade, porque nos nutre de certa coragem para girarmos chaves, destrancarmos portas e cairmos no mundo. E ao voltarmos às prisões de cada dia – grades enfraquecidas – possamos vislumbrar o momento em que elas desabem: folhas despencando das árvores no outono.
Imagem: Jander Minesso
Imagem: Jander Minesso


Oi, Carla! Primeiro quero pedir desculpas pela minha ausência nas suas crônicas. Não as comentei, mas li todas, sempre perfeitas!
ResponderExcluirHoje você escreveu para mim, moça! E eu precisava ler isso! Dentre todas as prisões, tenho uma em especial e tenho adiado muito procurar a chave. Acho que a hora que esta prisão se abrir, todas as outras portas serão destrancadas como num enigma. Obrigada por mais esta necessária reflexão.
Sim, sua memória está ótima, Carlinha! No mais, o texto continua sempre afiado an medida certa. Todos nós, vez por outra pelo menos, caímos nessa armadilha da acomodação e autopiedade, não?
ResponderExcluirPathwork puro, Carla. E com as belas palavras, e combinações de palavras, de sempre. :)
ResponderExcluirPois então: e quando a gente arrisca abrir as nossas portas sozinhos, um mundo novo se desvenda - desconhecido, dando um certo medo, mas que vai se descortinando cheio de coisas diferentes, nem sempre boas, é verdade, mas com gosto de liberdade indescritível. Sim, é preciso 'se' destrancar sempre, apesar das relutâncias...
ResponderExcluirSuper beijo, bonita.
Marisa... Bom ter notícias suas! Mas não precisa se desculpar não. Apenas volte.
ResponderExcluirEspero que você consiga resolver sua prisão. A gente pensa que tem todo o tempo do mundo para começar a viver a liberdade, mas não é verdade. Se esperamos demais, acabamos vivendo somente o gostinho por ela.
Boa sorte pra você!
Jander, Jander... Posso considerá-lo co-autor de muitas crônicas, se pensarmos que suas fotos fazem parte delas. E sim... Todos nós acabamos caindo nessa armadilha, vez e outra.
Eduardo... Ainda vou me embrenhar nesse Pathwork. Os artigos estão guardados. Será que é o tempo? O de cada um? O meu?
Debora... Pois é, destrancar-se é essencial e mais complicado do que o trancar-se, né? Esse executamos até sem percebermos.
Bjs a todos!