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FUGA >> Carla Dias >>

Mora ali, naquele canto. Às vezes, sai para um passeio pelo por aí, mas sempre volta. Dizem que sabe nada sobre aventurar-se. Porém, sai por aí, vez em quando, mas sempre volta.
Sempre volta.
Mora ali, nas indecisões. Não raro, pega-se a vasculhar possibilidades: e se? E se? E se?
E se?
Então, cala os questionamentos e se encolhe no seu ali. Não há lugar que conheça melhor do que aquele lugar, onde é capaz de acalmar seus barulhos internos e ser livremente... 
Quem?
Dia desses, observou uma mãe abraçar seu recém-nascido, como se o protegesse do tudo de ruim. Percebeu que aquele era o ali daquela criança, que resmungou e, em seguida, sorriu. E também um moleque faceiro que, depois de muito tempo a brincar com seu cachorro, sentou-se no chão, exausto, e o bicho se ajeitou aos pés dele, exausto. Ali era o ali daquele ser. O ali no qual ele se sentia seguro para curar exaustão.
Mora ali, onde os olhares nem sempre alcançam ou as palavras ecoam. Há vazio de monte naquele ali. Há silêncio …

RESGATE DO SUBMUNDO >> Clara Braga

A sensação era de que teria acabado de acordar, mas não tinha como ser mais do que uma sensação já que nem se lembrava da última vez que tinha ido dormir.
Conhecia aquele ambiente com a palma da mão, mas o que havia depois daquela porta, constantemente fechada, tinha virado mera lembrança.
Decidiu sair, já que não lhe restavam muitas opções. Abriu a porta desconfiada e, assim que uma fresta se abriu, já ouviu barulhos. Ela esperava mesmo ouvir barulhos, mas não tinha ideia de como seriam. Titubeou, mas novamente lembrou de que não tinha muita opção.
Foi andando devagar, quase como se estivesse fazendo um reconhecimento do local. Morava ali havia 14 anos, mas será que aquelas paredes sempre estiveram pintadas de verde?
Enquanto olhava a parede esbarrou  em uma mesa e derrubou um porta-retratos. Quem ainda revela foto, pensou! Mas não pôde deixar de notar que fotos dela haviam poucas, como se de uns anos para cá não estivesse presente em muitos eventos familiares.
Ficou pensativa e foi…

branco >>> benteví

mea culpa
- eu
sempre distraído -
nunca tinha percebido antes
mas lá está ele
em meio aos meus bem-te-vis
o meu benteví

nasceu errado
sem saber que não poderia existir
em tempos de regras
hifens virgulas e pontos
- o politicamente correto -
lá está ele
cantando alto seu canto absurdo
sem perceber que é apenas um erro

está pousado na árvore grande
olho-o por 7 vezes
e por 7 vezes o culpo
mas também o perdoo
por 7 vezes
por pena por indiferença
- é o que digo a mim mesmo -
mas na verdade por admiração

- penso -
quisera ser como ele
viver sem ter consciência
de que não deveria ter nascido
e poder cantar
por não saber o canto impossível

vejo-o ainda pousado na grande árvore
sozinho agora
- e para sempre -
também não sabe
que jamais existirá uma benteví
desconhece sua sina
de nascer viver e morrer
dentro de sua própria solidão
- que ele também desconhece -
ouço mais uma vez seu canto
que repentinamente me parece
mais belo que todos os demais

O HOMEM COMUM >> Fred Fogaça

Madrugada pelas três só que do dia anterior, porque não dormira, sem pensar no turno que acabou, tanto menos no final da semana que começa, portando a indumentária pesada da lida, vestindo manchas de graxa pelo fim da gola dobrada, no antebraço longo, de veias saltitantes e pelos grossos que vão até a ponta da mão, intermediados apenas por um relógio largo e prateado, só no braço direito, que apoiado sobre a mesa de plastico manca, equilibra-a segura, e protege um copo americano de cerveja, que já meio quente, já meio sem gás, borbulha na mesma lentidão dos olhos semi-cerrados, da boca de grunhir sem dizer e de uma certa tranquilidade inconsciente de estar, por isso parado no tempo, senão pelos dedos que balbuciam em toques ritmados a música do rádio, salvo dois, que aproveita segurando um cigarro que mal se lembra de estar de aceso, não fosse pela fumaça fina que se espalha à vontade e já espanta os mosquitos, protegendo a garrafa, que apesar de vazia, não se anuncia à troca, talvez…

ESCRAVO DA PAIXÃO >> Sergio Geia

Sorriso de criança feliz que me enfeitiça quando comento coisas tipo você já imaginou o sujeito dormindo em casa e ser morto por uma vaca que cai sobre sua cabeça? E você ri mais ainda quando digo que é verdade, que está em todos os jornais. Mas depois você para um instante, de repente fica séria, talvez refletindo sobre a estúpida morte acidental, me olha fundo, parece querer dizer algo, eu fico imaginando coisas, mil coisas, no fundo, eu imploro que diga, diga algo, eu quero ouvir, mas você não diz. Lentamente, silente, sem desviar os olhos, você se aproxima, me beija, ou se deixa beijar; sorri, se arrepia toda, eu sinto, com um leve mordimento em sua orelha, depois me beija, e aí sim, agora, você me beija, como se fosse o último beijo de sua vida, um beijo de línguas fundidas, de união de desejos, um beijo de coroação, pode ser de coração, vai, por que não?, de vida, de paixão, eu sinto o sabor de nicotina no seu beijo, sinto, agora em mim, os pelos eriçados, uma vontade desespera…

DESGASTE E RESGATE >> Paulo Meireles Barguil

A convivência, bem sabemos, é fonte de desgaste. A corrosão decorre de várias situações: expectativas não alcançadas, atitudes sem polidez, promessas não cumpridas... O tempo é o cupim da existência! Mas, também, pode ser o tamanduá, pois diversas são as condutas preventivas e conservacionistas, embora elas não emitam qualquer certificado.
Aos desatentos e relapsos, bem como aos contemplados pelo acaso, muitas vezes, é possível tentar o resgate, cuja possibilidade de sucesso é imprevisível.

O maior desafio não é evitar a ruína, a qual sempre acontecerá, mas aceitar que ela é sempre uma dádiva...

A VIDA É LONGA >> Whisner Fraga

Ainda está noite e ele se levanta até o banheiro, onde começa o dia.
Já anda pela cozinha, enquanto espera a água ferver. Gosta de café forte. Enche a garrafa térmica e sai para a padaria.
A rua começa a coleta de gente.
Um amigo está de chinelo e pijama e ninguém se importa. Comentam sobre o calor, sobre o jogo do Palmeiras e sobre o quão bons eram aqueles tempos. Depois se despedem.
No caminho cruza com o bar abandonado do Seu Joaquim. As paredes enfeitadas com pichações e outros anúncios de amor e de desprezo, o lodo herdando os rebocos umedecidos, o capim sequestrando o balcão vazio, as portas de aço salpicadas de ferrugem.
Em casa, tira a margarina da geladeira e, com a faca, unta o miolo do pão. O café já não está mais fresco. Prefere assim. Quase amanhece.
Vai para o quintal molhar as plantas. Observa alguns caramujos prontos para o ataque. Apressa-se em buscar o sal. Borrifa o pó na cabaça dos bichos e espera para ver as minúsculas antenas se derreterem diante do assombro inv…

PROVOCAÇÕES DA BENQUERENÇA >> Carla Dias >>

Observá-lo tem sido seu fazer constante e desafiador de irritar rotina.
Nele habitam os gestos que furtam seu fôlego. Os olhares que bagunçam sua alma. Aprecia dele a voz, ela que se mostra em ritmo lesto, fazendo palavras se atropelarem com tal graciosidade, vez em quando.
Ele que é agridoce, que nele moram a erudição e o desvario. Nele se agitam sonhos e medos e desejos, às vezes, equivocados.
Sim, desejos sofrem de equivocação.
Quem o sabe, sabe pouco menos do que saberia se o observasse não apenas com os olhos. Não somente por meio do quem aparenta e do quem ele poderia ter sido e não foi.
Não será.
Não que seja tarefa fácil essa de se aprofundar no outro. Nesse aprofundamento é possível se envolver a enlevos e desenganos amplificados.
Ainda assim, tudo nele soa feito agrado. Predicados todos.
Há tempos imaginava como seria o sentimento de apreço por alguém de quem os fantasmas não amedrontassem. De quem não levasse à fuga, em direção contrária aos abismos particulares.
Por quem …

CARO SENHOR MUNDO >> Clara Braga

Eu tinha um sonho: ser professora de artes de escola pública e ensinar para os alunos que eles podem mudar o mundo através da arte! Sim, em resumo meu sonho era “apenas” mudar o mundo!
Passei no vestibular, me formei em artes plásticas licenciatura, fiz o concurso público, passei, fui chamada quatro anos depois, assumi a vaga e comecei a trabalhar! Agora que eu já estava lá só faltava o básico: mudar o mundo!
Sei que vocês devem estar pensando: será que durante todo esse trajeto ela não pensou que esse sonho era audacioso demais? Claro que pensei, mas não dizem que sonho que se sonha só é só um sonho e sonho que se sonha junto é realidade? Pois é, o que mais conheci foram professores que também queriam fazer a diferença!
Infelizmente não demorou muito para eu ver que não é exatamente assim que funciona, sonhos que são sonhados junto mas que contrariam o interesse de quem tem poder não se tornam realidade assim tão fácil.
Para convencer os jovens que o mundo vale a pena e pode ser mud…

TORRE DE PINDORAMA - I >> Albir José Inácio da Silva

A Assembleia
Ventos moralistas que varrem o planeta chegaram ao condomínio pacato no Bairro de Fátima e invadiram a sonolenta assembleia para eleição do síndico. Ou melhor, reeleição.
- Com licença, Seu Vandiro! Viemos aqui dizer que acabou esse negócio de recondução, de candidato único! Esse prédio está uma vergonha! Entra quem quer, vende-se de um tudo, funcionários preguiçosos, inquilinos suspeitos, livros que ninguém vê, notas que desaparecem, contratos superfaturados.
O síndico precisou puxar do bolso um comprimido e colocar debaixo da língua, tamanho o susto. Aqueles invasores eram seus parceiros na administração do prédio, com e sem cargo.
- Mas o que é isso, Jaimito?! Minhas contas foram aprovadas pela comissão. O reverendo, que está aí junto com você, faz parte da comissão. E, apesar da maledicência, nunca provaram nada contra mim! O que aconteceu com vocês?
- A gente tentou ajudar, mas não sabia dos absurdos, fraudes e desvios. Sem falar do ambiente moralmente irrespirável d…

NÃO DEIXEM O FONE DE OUVIDO SER EXTINTO >> Mariana Scherma

Imagem: PixaBay/PlushDesignStudio

Eu não dirijo. Dito isso é fato que viajo muito em ônibus, principalmente pra visitar meus pais. E eu estou perdendo a fé nas pessoas que fazem o mesmo trajeto que eu. Não em todas as pessoas (generalizar? Nope), mas em várias delas. Eu culpo a ausência de fone de ouvido. O uso de smartphones se popularizou fácil, tipo refrão chiclete que quando um canta, já era... Mas, então, por que raios o uso de fones de ouvido ainda encontra tanta resistência? Todo celular já vem com um fone na caixinha junto. Não precisa ser muito gênio pra entender que é pra usar junto. E, caso o fone se perca no meio do caminho, tudo bem, compra outro, custa baratinho. Usar fone é ser levado por sua playlist preferida para um mundo só seu. É uma coisa sua, você no seu mundinho, com a voz rouca do Eddie Vedder (eu!). É um momento lindo. Mas parece que não rola pra todo mundo...
Mas talvez as pessoas (sem generalizar, só me referindo as que não usam fone pra ouvir música em públ…

A PANELA DE PRESSÃO E EU >> Cristiana Moura

Houve um tempo em que eu gostava de cozinhar. Hoje em dia, depois do filho criado, aposentei-me da rotina doméstica tal como a conhecia. Todavia, mesmo no tempo em que eu cozinhava nunca usei panela de pressão. Vocês podem me perguntar: e o feijão? Eu deixava de molho antes de cozinhar. Por quê? Ora, simples a resposta — tenho medo da panela de pressão. Aquele chiado me faz esperar, quase sem respirar, por uma explosão que vai acontecer já já! Nossa, já ouvi histórias terríveis sobre panelas de pressão explodindo nas cozinhas.
Noutro dia, resolvi cozinhar. Não era um prato qualquer. Decidi por fazer uma carne de panela, dessas que se faz com legumes e na pressão. Segui passo a passo a receita. Então, chegou aquele momento em que a panela começa a apitar, zumbir, chiar... Nem sei, ao certo, o verbo daquele som. Saí da cozinha num repente e fechei a porta. Vez por outra, a entreabria cuidadosamente e espreitava a panela, o fogão, a vida acontecendo, sem mim, na minha cozinha. Meu coraç…

CARNAVAL>>Analu Faria

- Onde é que cê tava? _ Hein??? _ Você? Tava...? _ Lá na pipoca. _ E esse aí, quem é? _ Tava lá comigo! É Rodrigo ou Tiago, o nome. _ Hahahahaha _ Hahahahaha _ Bebe? - Oi? _ Se ele bebe...
_ Deve beber. _ Dá pra ele isso aqui, ó, é aquele negócio que mistura cerveja com... _ Tava lá, lá na pipoca, conheci...
_ Já entendi, eu disse pra provar isso aqui... _ Ah, tá! Pega aqui, Rod...Tiago! O TEU CABELO NÃO NEGA, MULATA/PORQUE ÉS MULATA NA COR/MAS COMO A COR NÃO PEGA, MULATA/MULATA, EU QUERO TEU AMOR._ _ Vamo pra lá? _ Pra onde? _ Pra pipoca. Agora tá tendo frevo. _ Lá onde cê conheceu o cara? _ Que cara? _ Aquele! Cadê? _ Não sei! Já foi! _ Hahahahahaha _ Hahahahahaha _ Me dá mais cerveja! _ Não é cerveja, é aquele negócio que mistura cerveja com... aquilo que é destilado de cerveja! _ Do lado do quê? _ Hahahahahaha _ Tá rindo do quê? Hahahahahaha _ Hahahahaha _ Hahahahaha ... PORQUE ÉS MULATA NA COR/ MAS COMO A COR NÃO PEGA, MULATA/MULATA EU QUERO TEU AMOR. _ Tá difícil andar, hein…

ANDAMENTO >> Carla Dias >>

Céu azul que disfarça poluição. Pelas lentes dos seus óculos, ele observa o andamento. Cruzam ruas. Curvam-se para mergulhar no mundo em que vivem, ali, nos seus celulares. Será que amam mais tecnológica ou humanamente?

Tem nada contra esse mundo paralelo de pixels e publicações. Na verdade, entretém-se a navegar por tais paragens. Acontece que não sabe se afastar por muito tempo do que deslumbra pelas cores sem filtro, até da pele, do céu, que nesse momento observa. O mundo dos cheiros, dos toques, dos sons imediatos, do acaso a trabalhar sem auxílio de códigos que limitam gosto, por meio de sedutoras promoções.
Ele sabe que esse é o mundo ao qual serve. Pode até não caber muito bem nele, mas o serve. Um trabalhador que, diariamente, busca meios de se sobrepor ao seu desejo de recostar-se no óbvio, espreguiçar-se no de sempre, acostumar-se ao costume.
Que o céu está azul e serve de fundo falso para fotografias registradas no entusiasmo de impressionar. Lembra-se de quando impressiono…

E O FUTURO? >> Clara Braga

Lá estava eu, sentada a beira mar. Minha maior preocupação era escolher entre comer um queijo coalho na brasa ou um picolé de limão. Enquanto pensava que talvez o picolé fosse mais adequado ao clima quente fui abordada por uma moça que parecia ser uma cigana. Primeiro perguntou se eu gostaria de ler a sorte. Como nunca fui muito sortuda, rapidamente disse que não. Ela não se deu por vencida e foi mais enfática, não perguntou nada apenas me pediu que virasse a palma da mão para ela ver meu futuro. Fiquei sem graça e voltei a dizer que não tinha interesse.
Enquanto isso acontecia muito rapidamente, observei que a senhora na barraca da frente também havia sido abordada por outra cigana. A diferença é que ela não parecia muito surpresa, foi logo dizendo que não queria pois achava isso tudo uma besteira, que a moça podia se retirar pois ela não gostava nem um pouco dessa conversa de ler mão.
A cigana pareceu se ofender e se afastou rogando praga, não me lembro exatamente o que ela disse, …

a fábrica >> branco

ele chegou pela madrugada/manhã
sentou-se à beira da calçada
e lembrou-se de sua vida na cidade grande
nos dias perdidos
nos amores perdidos
no emprego perdido
- paletó
gravata
mesa de mogno
cadeira de couro -
a loucura da cidade grande
e a pressa da cidade grande
a urgência da cidade grande
e a impessoalidade

ele estava triste
mas pensou na noite bem dormida
em uma casinha amarela recém-comprada
e no jardim
- que mais tarde seria cuidado -
e no acordar
no dia ainda escuro
esses eram os motivos
de ele estar sentado à beira da calçada
em uma rua de terra batida

o sol nasceu enquanto se  espreguiçava preguiçoso
e com o sol vieram as vozes
transformadas em vultos
e depois em pessoas

o velho que dividia sua sabedoria
- de como produzir mais fios em menos tempo -
com um jovem que o olhava admirado
foi o primeiro a sorrir e desejar bom dia
- foi imediatamente imitado pelo garoto -
o homem maduro e com rosto tranquilo
também sorriu ao cumprimenta-lo
esse homem era seguido por uma senhora
que…

MANIFESTO SEM ARGUMENTOS >> Fred Fogaça

adianta a nobreza da função, se tudo qu'eu sei permanece num'obscuridade impraticável o tempo todo? O tempo todo é até as beiradas do início, mas não melhora. No máximo, me distraio no processo; e acaba, bem logo depois de voltar, sexta às dez. Sei que mudam as pedagogias. Me afoguei no meandro de suas grandes incomodações, porque não me apego aos velhos rudimentos: sequer mereço os velhos rudimentos e falo com propriedade de quem não sente misericórdia de si mesmo, quero dizer, que se danem com tudo, que se danem com tudo que eu não dou a mínima: eu não sou uma enciclopédia. Pelo amor de seja que for, sou nada além de alguém sem artigo definido e olha, 
olha que nem tenho identificação: nunca pisei nesse trono, nem assinei meu e-mail com títulos porque eu, meus amigos, não tenho nenhum. Eu não sou doutor ninguém e - sendo não muito hipócrita com as minhas necessidades - abomino cada metro adentro de certas academias. Cada cadeira de cada cátedra, como cada ego qu'eu não …

CERTAS COISAS >> Sergio Geia

Sei o que quero dizer, e “Certas coisas”, por não ser nada objetivo e monotemático o que quero dizer, veio como uma marola suave. Mas não teve como não lembrar daquele clássico anos 80: “Tem certas coisas que eu não sei dizer”. Aliás, tenho um vinil aqui com essa delicadeza. Lulu já havia estourado com “De repente, Califórnia” e “Como uma onda”; “Um certo alguém”? Talvez. Ah, queridos, por favor, não me venham cobrar boa memória, afinal, terça-feira de carnaval, 5 de março, serei cinquentão. Cruzes! Deixa eu fechar a minha boca. 
Mas, “tem certas coisas que eu sei dizer”, canto agora, mudando a letra. Aliás, digo sempre, mas as pessoas escutam? 
Você, algumas vezes, numa tarde qualquer, não desejou bom-dia para alguém e foi corrigido? “Bom-dia, não! Boa-tarde!”? Mas o que eu desejo, sempre que falo bom-dia, e as pessoas não entendem, é que a pessoa tenha um ótimo dia; isso inclui manhã, tarde, noite. Eu não estou desejando que a pessoa tenha uma boa jornada apenas num período do dia,…

O LOBO E A OVELHA >> Paulo Meireles Barguil

Os quereres, bem sabemos, vivem famintos e sedentos.

Eles são gulosos, para não dizer voluptuosos.

Para se saciarem, desprezam a Ética, pois não consideram o outro como sujeito, apenas como objeto: após obterem a satisfação, o descartam. Caso decidam se saciar em fonte já por eles desprezada, o farão sem qualquer remorso. Se precisarem prometer o impossível ou suplicar desculpas, invocarão, até, entidades divinas.
As cicatrizes são lembranças das feridas obtidas na intensa aventura de encontrar o lobo e a ovelha que habitam em cada um de nós.
Amansar a fera cobiçosa é uma possibilidade, embora ela possa se rebelar após a domesticação. A ovelha passeia na pastagem sem saber quando outra irá, sorrateiramente, atacá-la...

A FEIRA >> Whisner Fraga

A velha belisca o papo do frango. Desce a mão um tanto mais e para, a tempo.

Pechincha que é inadmissível o preço do animal, que não é dia de exploração, que é preciso ter coragem pra vender um bicho daqueles, tão mirrado.

Não usa os termos "inadmissível", nem "exploração" nem "mirrado". Eu que os inventei agora, como se tivessem escapado da boca dela.

O negociante cede, desenrola o barbante do guidão da bicicleta e entrega o almoço da velha, preso pelos pés, ainda de cabeça para baixo, ainda cacarejando o espanto. Foi um bom negócio.

A velha quer batatas também.

Reboca as antigas havaianas pelo desmazelo da manhã: sempre chega cedo para encontrar as melhores mercadorias.

Conhece todos os sitiantes, mas não os trata pelos nomes.

Aponta o maço de coentro e desiste. Os tomates tampouco empolgam.

O filho não tolera tempero forte e, por isso, nem cogita levar cebolas.

Vai caprichar no molho pardo, mais uma vez.

Corre até o fim da feira e acha o cheiro verde. …