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BALADA DE UM AMOR INABALÁVEL? >> Sergio Geia



Céu azul de outono, sol forte, calorão de verão. Apesar do calor, um ventinho entra pela sacada. Anima. Dá vontade de colocar Skank, de ouvir “Balada de um amor inabalável”. Não ouvir Skank — quer dizer, o álbum todo —, ouvir apenas a “Balada”, somente ela e nenhuma mais. Coloco o CD no aparelho, sento no sofá, respiro fundo, olhar lá fora, no céu azul, no sol que ilumina casas e prédios, a “Balada” vai entrando, tomando conta.
Mistura de céu azul, sol forte, dia quente, não me pergunte que no momento sou incapaz de responder, mas esses elementos sempre me remetem à minha avó, Ita, que todos a chamavam de Ita, mas que se chamava, na verdade, Maria Antonieta. Lembro dela se arrumando pra sair, vestido estampado, toda perfumada, às vezes passava o dedo molhado atrás de minha orelha, eu sentia um geladinho perfumado. Sempre me levava junto, e nessas vezes, certamente na maioria, o céu era azul, o sol forte, o dia quente — pelo menos me vem agora essa ideia. Não se trata de lembranças, “ah, quando eu saía com a minha vó o dia estava assim, assado”, mesmo porque nem lembro concretamente desses passeios. Mas lembro algo do tipo, e se o dia está assim como hoje, lembro dela, que deve estar no céu, costurando para anjos, arcanjos e querubins, ou para os maltrapilhos mesmo, que, de repente, chegam estropiados do Purgatório.
Dona Ita era uma excelente costureira. Costurava todas às segundas-feiras para os mais necessitados no Convento de Santa Clara. Lembro que no quarto de sua casa tinha uma máquina de costura. Vez em quando, eu sentava nela pra pilotar. Ela achava engraçado. Todos os anos ela me presenteava com uma blusa de lã (eu adorava). Certa vez, ela costurou uma blusa parecida com a que o Leão usava no jogo: na frente era listrada, uma lista branca, outra verde, uma lista branca, outra verde, atrás era toda verde.
Outra lembrança: vó Ita ouvia todos os dias o programa de rádio do Silvio Santos. Sim, o Silvio tinha um programa no rádio. Eu chegava em sua casa, lá estava ela na sala costurando, ladeada de seu pequeno rádio que propagava vozes que eram do Silvio, do Nelson Rubens, do Décio Piccinini.
Quase todos os domingos almoçávamos em sua casa, na Barão, a família toda reunida. Minha mãe, meu pai e eu. Vinham de Campos do Jordão tia Tutu, tio Paulo, João, não lembro se Zé já era nascido. Viviane vinha de Pinda com o Neto. Nesse tempo, meu avô ainda vivia. O cardápio era sempre igual: macarronada e frango. Às vezes minha vó fazia doce de abacaxi, ou charlote, de sobremesa.  Lembro de uma mesinha vermelha de madeira que arrumavam pra mim no quintal; eu almoçava lá, e quase sempre o céu era azul.
Escrevo isso hoje e juro, juro por Deus que desconheço a razão que fez minha mente viajar para essas lembranças, que poderiam ser doces, mas que deixam um gosto amargo na boca. Na verdade, apenas queria ouvir a “Balada de um amor inabalável”, coloquei o CD no aparelho, sentei no sofá, foi quando bati o olhar no céu, no sol (você sabe o resto).
O vil metal às vezes mata uma família. Matou a minha. Até hoje me sinto destroçado, e choro às vezes com saudades de tanta coisa.
Vó Ita morreu triste, abandonada por uma de suas filhas, por dois de seus netos, um abandono cruel e totalmente sem sentido.
De inabalável nosso amor não teve nada.  Ele implodiu, como esses prédios velhos colocados abaixo por explosivos abraçados às colunas de sustentação. Em cinco segundos, raízes, laços, afinidades, amores, preocupação, presença, uma história profunda e intensa, tudo virou pó, poeira, como se nunca tivessem existido, e se foram, longe, levados pelo vento.
O mais estranho é pensar que uma balada que fala de um amor inabalável, sublimando um céu pintado de azul, possa despertar tamanhas inquietações.

Comentários

Regina Amara disse…
Mais uma vez vem a lembrança com seus contos. Bjo primo
Analu Faria disse…
Que bela crônica, Sérgio!
sergio geia disse…
Grato, Analu, Regina.
Este comentário foi removido pelo autor.
Este comentário foi removido pelo autor.
De repente vi um amigo ainda jovem e franzino com um pequeno violão,
parecia um espelho, pequeno violão vermelho que chorava em sua mão.
Passado bem distante, inesquecível e empolgante com as notas da canção,
com uma vós aveludada o menino então cantava tocando com emoção,
Era pequeno e talentoso aquele filho único, que eu considerava um irmão,
com seu violão vermelho a serenata ali na praça, paras meninas do sobrado.
O karaokê veio depois, com a guitarra, o microfone, o pedestal em sua banda,
aposentaram o vermelhinho encostado ali sozinho na parede daquele quarto,
que ensinou ao coração que o começo da canção tem um fim para aquela história.
do menino do violão vermelho refletindo no espelho ao cronista aqui agora,
que conta ao que sorriu, encanta ao que não viu, as crônicas de sua história.
obrigado cronista amigo!
Cristiana Moura disse…
Que crônica bela atravessando minhas próprias memórias — um presente :)
sergio geia disse…
Darci, seu poeta! Grato. Ô Cris, presente é você passar por aqui.
Beatriz Cruz disse…
Uma beleza essa crônica da sua avó!

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