sexta-feira, 31 de março de 2017

AUTÔNOMO OU AUTÔMATO? >> Paulo Meireles Barguil


— Eu quero tudo pronto! — falou-me uma professora, num tom que demonstrava súplica e irritação.

Olhando para ela, respirei lentamente, e expliquei-lhe, pacientemente, que seu pedido contrariava meus princípios pedagógicos, os quais expressam minhas concepções de Homem, de Cosmos.
 
Conforme o dicionário Houaiss, autônomo é um indivíduo "[...] dotado da faculdade de determinar as próprias normas de conduta, sem imposições de outrem.".
 
O autômato, por sua vez, é um "[...] indivíduo de comportamento maquinal, executando tarefas ou seguindo ordens como se destituído de consciência, raciocínio, vontade ou espontaneidade.".

Na natureza, a vida é construída lentamente, com dedicação, cuidado, fé e perseverança.

Vivemos, todavia, numa época em que a aceleração é a característica central do mundo, a qual profana a nossa sutil condição humana, que demanda sensibilidade e, portanto, olhos e ouvidos atentos: frutos de um coração acolhedor.

Essa velocidade empreendida tem nefastas consequências para o nosso equilíbrio pessoal e social, que se manifestam de várias formas, dentre as quais destaco a falta de conexão, consigo e com os outros.

A pressa, ao contrário de nos possibilitar o encontro, que é o bálsamo da vida, quase sempre, nos distancia dessa oferenda divina.

Frustrados com os resultados obtidos, ao invés de mudarmos a estratégia, optamos, insanamente, não somente por mantê-la, mas aumentá-la!

É-me desalentador ver o discurso em vários documentos educacionais, nacionais e internacionais, em prol da constituição de sujeitos críticos e capazes de transformar a sociedade aliado à práticas que possibilitam o contrário: indivíduos alienados, que ignoram a complexidade da vida e a percebem de modo fragmentado, em partes isoladas.

Em virtude do meu desejo de colaborar por uma Educação que seja, efetivamente, transformadora, que possibilite o desenvolvimento de cada pessoa, nego-me a empreender práticas milenares que, ao sufocarem tristezas, medos, inseguranças, vergonhas e culpas, perpetuam e aprofundam momentos de muito sofrimento individual e coletivo.

As nossas maiores feridas são oriundas da falta de aconchego da alma, motivo pelo qual entendo ser essa a maior, senão a única, lição a ser aprendida por cada um de nós na convivência com os outros.
 
Acredito que as pessoas são capazes de aceitar que a vida as convida, sem cessar, para ampliarem a sua consciência, transmutando sentimentos, requisito indispensável para ser alguém mais hospitaleiro, empático e harmônico.

A todo momento, dedico-me para ser coerente com as minhas crenças, mas reconheço, com humildade, o quanto meus sentimentos e meus agimentos precisam, além daquelas, de muita luz!

Agradeço a todos que, com amorosidade ou não, me ajuda(ra)m a ser uma pessoa melhor.

Aceito os ônus referentes às minhas escolhas: conforta-me, parcialmente, saber que eles são bem menores se eu decidisse me negar a cada dia.

Compreendo e aceito que os outros queiram algo diferente e, às vezes, antagônico do que eu, motivo pelo qual, por vezes, opto por me calar e sair de cena, quando percebo que o outro está apegado às suas ideias, manifestação cristalina de quem não quer mudar.

A vida é uma mestra muito melhor do que eu, tosco aprendiz!


[Pintura de Jean-Marc Côté, intitulada Na escola (At School), que faz parte da coletânea Visões do ano 2000, produzida por vários artistas na virada do século XIX para o século XX]


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quarta-feira, 29 de março de 2017

CASA PRÓPRIA >> Carla Dias >>


Teve dois sonhos em uma mesma noite. Eles tinham tudo a ver, apesar dos cenários diferentes. E tinham tudo a ver com um assunto que sempre o incomodou, mais do que o atemorizou.

No primeiro sonho, ele visita uma casa. Um homem, que não lhe convence ser corretor de imóveis, mostra o lugar como se apontasse um palácio no meio da cidade. O olhar dele, acostumado a se desviar das lorotas, observa o óbvio. A casa é antiga, deve haver muitas histórias ali. Enquanto o improvável corretor de imóveis desfila adjetivos infundados, ele observa os cômodos como quem deseja escutar seus segredos.

É a primeira casa de um quintal no qual se enfileiram mais cinco. Em um salto de um cenário a outro, o corretor canastrão mostra as casas por detrás do bem cuidado quintal da casa. Lá atrás, apinhadas casas de concreto sem reboco, cômodos minúsculos, mal iluminados, conversas sussurradas. Há algo tão ruim ali, que lhe arrepia os pelos e dá nó na garganta. O vendedor de ilusões diz lindezas diversas a respeito de tal lugar. O positivismo dele é indigesto.

É assaltado por uma angústia. Não quer viver naqueles cômodos escondidos do olhar de quem passa. Não quer ser limitado aos metros quadrados daquela tristeza assumida e consagrada. Ali, o ruim parece brotar de escolhas.

Outra mudança de cena, e lá estão: ele, o corretor de móveis picareta e várias pessoas que ele não sabe quem são. Estão em frente à casa principal, aquele palácio embelezado pelo quintal espaçoso. Ah, os filhos que ainda não teve brincariam ali, aprenderiam sobre flores e árvores, seriam pessoinhas do vento, do tempo, das corridas no quintal. Mas, então, seu olhar se nubla. E apesar de ainda ver a beleza naquele quintal, também enxerga adiante, onde criaturas tristes, esboçadas em fumaça, arrastam seus corpos entre bem-me-queres e ipês. Seu coração se compadece de tal tristeza transitando por tal beleza.

Ele pergunta ao corretor de imóveis falacioso se a casa para ele alugar é uma das escondidas lá no fundo. A ideia de levar uma vida naquele viveiro de mágoas o atormenta. O vendedor de conversa para boi dormir diz que de jeito nenhum. Para ele, a casa da frente, do quintal que é só espaço e cor. Com a varanda gigante, das janelas escancaradas para o belo.

Então, aquele engasgo lá do começo do sonho se torna um desejo imenso de sair correndo.

Percebendo como ele se sente, o corretor de imóveis se arma de um sorriso largo e falso, e em falsete, canta que ali é o lar perfeito para se passar eternidade. Que fim de semana, férias, ano sabático, nada disso bastaria. A eternidade, ela sim se sentiria em casa naquele lugar.

Não ele...

O medo que se apossa dele é dos escancarados e tremeluzentes. Faz seu estômago revirar, o silêncio pesar, o espírito estremecer. Trata-se disso, então? Chegar ao lugar onde se passar a eternidade?

De repente, muda o cenário. Muda o sonho. O nefasto corretor de imóveis desaparece.

Agora, ele está dentro de um ônibus em movimento, indo para algum lugar que ele não sabe qual. São poucas as pessoas que o acompanham, mas todas ele reconhece: tias, primos, mãe, pai, irmãos.

Sua alma se enche de uma paz da qual nunca experimentara. É bom estar entre os seus, não importa o destino. Eles conversam entre si, comedidos, mas conectados. Ele não sente vontade de interferir e os observa, o coração repleto de um amor que ele nunca sentiu tão justo.

É noite e lá fora é tudo vasto. Não há casas na beira da estrada. Lá fora a escuridão é clareada pela luz de lua cheia. Ele sempre gostou dessas noites, apesar de lhe trazerem visões. Quando menino, viu muitas dessas visões. Elas o assustavam, mas quase sempre, elas o encantavam, também. Eram sopros de vento desmanchando os cabelos-folhas das árvores. Eram bichos fascinantes caminhando lento, observadores, atentos. Contornos de corpos que dançavam aos deuses que ele nem conhecia. Era um misto de medo e satisfação por enxergar além.

O ônibus para e todos desembarcam. Chegaram a uma fazenda, com alguns casebres ao redor e a casa principal, grande e bonita. Demora um pouco a reconhecê-la, e então percebe: é a casa da fazenda onde passou sua infância e adolescência. Ali aprendeu quase tudo que o definiu, que o moldou.

Corre em direção a sua mãe e pergunta o que fazem ali. Ela continua a abraçar a irmã, que ficou com a propriedade, depois de a família dele se mudar para a cidade. A mãe não o escuta. Fala com cada um deles, sem que lhe percebam a presença.

Algum tempo depois, distraído com as lembranças da pessoa que foi quando vivia ali, já não escutava mais palavras. Sentados na sala, em uma longa conversa regada a café, eles falam sobre acontecimentos que desencadearam o destino dele. Apesar da angústia de não ser ouvido, sente-se protegido pela presença deles.

Talvez já tenha entendido a mensagem, mas prefira protelar mais um pouco, até quando possível. Percebe-se sortudo por não ter caído na lábia daquele corretor de imóveis de araque. O que ele estava negociando ali era algo mais profundo e muito mais importante do que uma casa de aluguel onde se viver. Ao assistir os seus a contemplarem passado, dá-se conta de que, finalmente, conseguira sua casa própria.

Quando menino, costumava fugir de casa, de madrugada, para dar longas caminhadas pela fazenda. Era tanto espaço, tantos passos. Perdia-se naquela imensidão, banhava-se com aquele céu, perdia-se na escuridão quebrada pela luz da lua. Sua vida, depois de lá, não foi tão diferente. Ousou estar onde poucos estiveram. Aprendeu nas sombras o valor da alumiação.

Um de seus maiores medos, agora parece uma escolha justa. Seu espírito se compadece dos que ficarão remoendo lembranças sobre ele. Mas o que fazer? O que um homem que passou a vida a lutar pelo justo, mesmo tendo cometidos seus pecados, pode desejar mais do que sua casa própria?

Os quintais sempre o deslumbraram. Há flores e árvores para serem plantadas. Não há nesse a tristeza oferecida como diamante pelo corretor de imóveis charlatão. Na casa, ainda há cômodos para serem decorados.

Despede-se dos seus e parte para mais uma caminhada pelo quintal da vida que viveu. Uma revisitação, antes do adeus. Antes de se mudar, de vez, para sua casa própria.

Imagem © Thomas Kinkade

carladias.com

Até mais ver, João Gilberto Noll!

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sábado, 25 de março de 2017

ALMOÇO DE DOMINGO >> Sergio Geia



Imagino o que você, leitor, deva estar esperando desta crônica: muita gente à mesa, muita comida, conversas inteligentes e animadas, estimuladas por doses de álcool, gargalhadas, crianças brincando e muita alegria; enfim, a expressão mais colorida da família feliz, pois família que se preza não despreza almoços de domingo.
Realmente o quadro é bonito e poderia ser assim; não é. Sinto desapontá-lo, mas o almoço é solitário mesmo, sem conversas inteligentes ou gargalhadas, sem fartura de comida e crianças brincando, mas, honestamente, e em absoluto minto a esse respeito, nem por isso desagradável ou que represente a expressão mais cinzenta da solidão; enfim, estar sozinho num domingo de verão estranhamente chuvoso e frio, não significa de maneira alguma estar sofrendo de solidão.
Normalmente saio para comer fora. A chuva, porém, fria e recorrente, os últimos dias, que me foram bastante molhados diante da falta de um simples guarda-chuva, mas especialmente, uma vontade caseira de cozinhar, me arregimenta a não pôr os pés na rua, mas fincá-los na cozinha.
O que sei de cozinhar é comezinho e ruim, o suficiente para não passar aperto. Não imagine você que desfilo com habilidade pela cozinha, que invento pratos mirabolantes, que me deleito por horas na frente de um fogão. De maneira alguma. Portanto, pode soar estranho o aparecimento de uma “vontade caseira de cozinhar”. Não para este cronista, acostumado a comer na rua; de vez em quando, dá vontade de comer em casa.
À mente me surge uma refeição bastante simples, mas digna: uma porção de arroz, salada e um bom bife; simples, barata, saborosa e sedutora. Pois vou lhe ensinar a fazer a iguaria, pedindo desculpas desde já pelo atrevimento. De repente você está careca de saber o que fazer na cozinha. Se for o caso, despreze essa receita vagabunda disfarçada de crônica (ou seria uma crônica vagabunda disfarçada de receita?). Se não for desse tipo de sujeito gourmet, e se qualquer dia desses estiver em apuros e só, pode procurar “Almoço de domingo”, e estará conferindo a essa crônica uma finalidade não imaginada pelo seu autor; pelo menos até agora.
De início, sugiro que se sirva de um bom uísque. Tenho aqui um Jack Daniels. Sirvo uma dose com duas pedras de gelo. Música é sempre inspiradora. Ligo a tevê e sintonizo um show do Oasis. Dou uma olhada na rua molhada enquanto degusto da bebida, na chuva caindo fina, nas pessoas se deslocando com dificuldade. Depois, já sentindo palpitar um desejo inspirador de criar, me mando pra cozinha. A receita, como falei, é simples, mas o resultado, compensador. Anote aí.
Arroz
Gosto daqueles saquinhos de arroz integral. Deposito o saquinho na panela com água fervente e um pouco de tempero e deixo lá; depois de algum tempo ele está pronto. Mas não vai bem arroz integral num domingo, certo? Abro o saco de 1 kg que tenho na despensa e coloco uma porção num copo americano, ao mesmo tempo em que coloco dois copos e meio de água pra ferver; tenho um bom tempero aqui, já pronto, comprado em Ubatuba. Enfim, um arroz básico, que, imagino, o amigo saiba fazer.
Salada
A minha salada combina uma porção de cenouras e repolho (ambos picados) que você encontra pronta em qualquer gôndola de supermercado, um ovo cozido e maionese a gosto. Tempere o repolho e a cenoura apenas com sal; acrescente, picando, o ovo, e, por fim, misture a maionese.
Bife
Pode ser filé, contra ou alcatra; o meu é filé. Tempere moderadamente e depois frite-o na frigideira.
Tudo pronto, finalize com delicadeza o prato (delicadeza quer dizer sem exagero), colocando umas duas colheres e meia de arroz, uma pequena porção de salada e um bife generoso, e está pronto o seu almoço de domingo. Bom, preço razoável, delicado e saboroso. Eu garanto.
Anotou? Se não anotou, não se preocupe; a crônica sobreviverá eternamente, diferentemente de seu autor; quando quiser, é só procurar nesse oceano de dados chamado web e certamente achará.
Se eu fosse um crítico de gastronomia desses que estampam suas opiniões em jornal, diria que o arroz está perfeito: soltinho, bem temperado, ao dente; que exagerei um pouco na maionese da salada, que o bife ficaria melhor se fosse menos passado. Avaliação? Bom. Apenas bom. Nada, entretanto, que me tire o prazer de degustar uma refeição feita em casa.
Como na frente da televisão (um vício difícil de largar), bebendo cerveja, assistindo a um show magnífico do Oasis, em Manchester.

Ilustração: www.taringa.net


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sexta-feira, 24 de março de 2017

PASSEIO NOTURNO - 2a e última parte >> Zoraya Cesar


Saímos. Caminhávamos devagar, para que eu apreciasse a natureza. Não. Mentira. Meu sobrepeso e sedentarismo impediam-me de andar lépido e fagueiro. Se me apressasse era capaz de enfartar na metade do caminho. 

Creio que o Sr. Vilkolakis estava acostumado a turistas lerdos como eu, pois cadenciou seu passo ao meu ritmo e pôs-se a contar histórias da terra de seus antepassados. Falou sobre pequenos seres que comiam luz e regurgitavam ouro; aranhas sugadoras de sorte; plantas falantes que jogavam feitiços. Sou homem urbano, essas crendices populares nunca me atraíram. Na primeira oportunidade, pedi-lhe que falasse sobre as ruínas que tão estranho fascínio exerceram sobre mim.

Ele pareceu contente com a pergunta. 

- Os antepassados lituanos que migraram para cá trouxeram pedras de um templo que havia nos arredores de nossa aldeia original, e construíram essa estrutura que o senhor vê hoje. 

- Por quê?

- Porque quem naquele templo entrasse teria seus pedidos atendidos. Dinheiro, saúde, amor, vingança, morte de inimigos, chuvas, boa colheita, qualquer coisa. 

- E as pessoas acreditavam? – desdenhei.

- Acreditavam porque funcionava. Mas existiam regras. A jornada deveria ser iniciada apenas quando a lua cheia estivesse alta no céu (como fizemos hoje, acrescentou). O caminho era perigoso. Pântanos, crateras, plantas que matavam só de encostar na pele, mosquitos cuja picada apodrecia a carne. Quem chegasse incólume, tinha o direito de fazer seu pedido. 

- Só isso? – não contive uma certa ironia em minha voz. Era muita superstição pra minha mente racional. 

- Não exatamente. Ainda havia um detalhe. Pequeno. - Ele riu um riso rouco, quase uma tosse. Deve ser o cigarro, pensei.

- Era necessário chegar antes da meia-noite e ficar no templo até o amanhecer. As regras devem ser seguidas.

- Ou o quê? - Eu estava achando graça naquele crendice toda. 

- Os lobos ficavam com os mal sucedidos. Homens são gananciosos. Na aldeia, cada vez mais pessoas se arriscavam a chegar ao templo, e, naturalmente, cada vez menos delas voltavam. Foi uma boa época. 

Não compreendi o que ele quis dizer com aquilo, e confesso que não tive vontade de perguntar. Tenho um medo inexplicável de lobos. Tentei mudar de assunto.

- E por que migraram, Sr. Vilkolakis?

Ele não respondeu. Senti pena do velho. Devia estar cansado; afinal, por rijo que fosse, a caminhada era árdua. Havia muitas pedras soltas, depressões de solo, raízes que dificultavam o caminhar. De vez em quando, uma ribanceira aparecia subitamente, como uma boca escancarada e faminta.  

Comecei a ter pena de mim, também. Suava profusamente; minhas pernas, desacostumadas a tanto esforço, tremiam; meu pé doía levemente, após um passo em falso; eu já não ofegava, mas resfolegava, qual um cavalo velho e doente. Pensei em desistir, mas seria muita humilhação. 

De repente, ele voltou a falar:

- Há coisas que devem ser esquecidas. Mas o sangue é mais forte que o tempo, e essas mesmas coisas acompanham todas as gerações – disse, enigmaticamente. Nem tentei entender. Aquela gente do interior era muito esquisita. 

- Veja, estamos chegando. 

Olhei para as ruínas. À luz da lua, branca como um osso descarnado, pareceram-me grandes lápides de um cemitério esquecido e maldito. Notei algo estranho. Tudo em volta estava quieto. Não se ouvia qualquer dos sons comuns à natureza: insetos, sapos, pássaros, nada. 

- Quer voltar? Tenho de perguntar, é a regra. Se você quiser voltar daqui, sou obrigado a levá-lo de volta em segurança. 

Voltar? Depois de tanto sacrifício? Já quase lá? Não. Iria até o fim. Que cara doido. Eu o contratei para que ele me levasse e trouxesse em segurança. Não é?

- Nesse caso, sugiro que você alcance o templo nos próximos cinco minutos, e espere lá até o amanhecer – sua voz soava quase gentil – tenho de avisar, são as regras.

As ruínas estavam numa pequena elevação de pedras soltas, e não tão perto assim. Com a dor que estava sentindo – não só no meu pé machucado, mas no corpo todo - eu demoraria mais de 10 minutos para chegar. 

- Sugiro que você se apresse. 

Sua voz saiu feito um grunhido gutural, como um animal asmático. Olhei para ele. Meu coração falhou algumas batidas. 

Uivou longa e prazerosamente, dando-me
arrepios de pavor.
A criatura era e não era o Sr. Vilkolakis.
Vi uma criatura de pernas musculosas, a face afilada como um focinho – parecia um enorme cão sobre as patas traseiras. Seus olhos amarelados e brilhantes fixaram-se em mim e a criatura rosnou, deixando à mostra grandes presas pontiagudas. Era o Sr. Vilkolakis e ao mesmo tempo não era. Levantou a cabeçorra e uivou longa e profundamente, num frêmito típico do gozo que precede a caça. 

Minha boca se encheu de saliva ácida e gosmenta; calafrios gélidos me estremeciam o corpo. Pensei que fosse desmaiar de horror. Gritei por socorro, mas de minha garganta saiu apenas um balido trêmulo e esganiçado. Tinha de chegar às ruínas. Dei um primeiro passo, titubeante, uma dor lancinante subindo do meu pé até a alma, os olhos esgazeados de um carneiro que sabe estar caminhando para o abatedouro.

- Corre – rosnou a voz do Sr. Vilkolakis.


Imagem: RaphaelaFotografie - Pixabay



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quinta-feira, 23 de março de 2017

CHUCK BERRY>>Analu Faria

Chuck Berry morreu. Sim, eu sei, o presidente disse que mulher tem valor porque sabe o preço do mercado. Mas Chuck Berry morreu. Pois é, um atentado terrorista horrível aconteceu hoje na Inglaterra. E sábado Chuck Berry morreu. A terceirização foi aprovada na Câmara dos Deputados, mas você sabia que Chuck Berry morreu? Certamente a reforma  o desastre trabalhista sai este ano. E quando sair, Chuck Berry, o pai do rock, estará morto. Chuck Berry que fez música como quem mata aula para  beber cerveja num boteco estranho com gente esquisita. Chuck Berry de "My ding-a-ling", canção que me fez chorar de rir quando tudo ao meu redor era sertanejo idiotizante (que resolveram chamar de "universitário").

Chuck Berry morreu, mas foi só isso que se disse dele. Aparentemente, não se fala em seu legado. Sei lá, vai ver que é porque não se fala de cor em época de daltônicos. Chuck Berry revolucionou o mundo ao dar voz a uma era nova, pós-guerra e crente que o mundo seria uma grande esfera de felicidade technicolor. Não foi. E daí? O que importava é que o momento era de espalhar que se podia, sim, ser Johnny B. Goode. 

Precisamos falar sobre Chuck Berry , mesmo que nosso tato seja falho, que os olhos só vejam cinza, que o gosto azedo da crise seque a boca, que o olfato só sinta o cheiro de carne podre da Friboi. Se esses sentidos falham hoje - vide Trump, Bolsonaro, Estado Islâmico - que o rock não morra nos nossos ouvidos.


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quarta-feira, 22 de março de 2017

TEMPOLÁBIL >> Carla Dias >>


Ele é do tempo das cartas escritas à mão. É do tempo de lá, mas não nasceu há muitas décadas. É jovem para a alma que veste. Seu corpo é casa de um daqueles casos de alma antiga em corpo jovem. Talvez por isso os desejos se esbarrem, nem sempre estejam em sintonia. Nem sempre a alma guia e o corpo aceita, e vice-versa. Há essa rusga entre seu dentro e seu fora. Porém, ele gosta de pensar que, apesar de parecer afronta, é na verdade equilíbrio.

Batia cartão no bar para virar copos, travar conversas langorosas e tentar esquecer suas esquisitices. O irmão passou a vida a alertá-lo que melhor era se aprumar, que ele ainda comeria muito capim sendo do jeito que era.

Peculiar.

Eventualmente, perdeu o interesse pelo bar, e até o uísque já não lhe caía tão bem, fosse de onde fosse. Viciou-se em chá oolong, bolo de aipim e analgésicos. Às vezes, sentia-se solitário, de solidão que nem mesmo as cartas que escrevia à mão ajudavam a estancar.

Sua alma antiga que só o deixou de cama, adoecido de desespero. O corpo melindrava as dores do dentro, transformando saudade sabe Deus do que em...  como disse o médico? Virose. Sem forças para o que fosse, entregou-se. Pensou mesmo que não duraria o fim de semana.

Não aconteceu.

O irmão foi visitá-lo. Sentou-se na outra beirada do sofá e lá ficaram a assistir televisão. Ele não via nada, apenas permitia o tempo passar, distraia-se com o barulho. O irmão se divertia com o programa, alegando que a vida era simples assim, feito um programa ruim de auditório.

Foi para seu quarto e deixou o irmão se divertindo. Até gostava de escutar as gargalhadas dele, elas muito mais atraentes do que o programa. Deitou-se em sua cama, fechou os olhos, tentou fisgar o sono que fugia dele há dias.

Sua alma antiga, em contraste com sua juventude, tornou-o essa pessoa que não cabe aqui ou ali. Não se enquadrar não o assusta, mas não o poupa de se sentir abatido, de vez em quando. Pode parecer, para os observadores, que ele é ser triste, mas é apenas silente. Sente urgências sem cometer melindres.

Mas a história dele pode não importar tanto assim. Há tantos tão peculiares quanto ele. Daria em mundo. Pessoas que se sentem aprisionadas em seus corpos, em convenções, em tradição.

Ele é do tempo que não é o dele, mas nem por isso o que sente e como se enxerga é motivo de indignação. Ele tem alma antiga assoprada em corpo jovem. Aguarda para descobrir como será quando seu corpo for tão antigo quanto sua alma, mesmo sabendo que sempre haverá esse espaço no meio. Partindo-lhe em dois.

Caminha silente pela cidade em ponto de fervura. Passa despercebido na multidão. Pode até não notar, mas ele se transforma, gradativamente. É o que vê, o que sente, o que o toca, tudo isso fazendo seu trabalho de moldá-lo com o tempo.

Provavelmente, será esquecido pela maioria das pessoas que encontrar pela vida. Porém, pelos poucos que dele se lembrarem, ele agradece de antemão.

Imagem: On The Edge © Paul Lee

carladias.com



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terça-feira, 21 de março de 2017

O CORPO ME PERTENCE, A IDADE NÃO >> Clara Braga

Os trinta não estão mais tão longe quanto já estiveram. Aliás, eles não estão longe de forma alguma. Mas, juro por Deus, isso nunca foi um problema pra mim. Ou pelo menos não tinha sido até muito pouco tempo.

Em uma conversa recente sobre treinos e dietas, comentei que tenho dificuldade para emagrecer. O que tive como resposta? Ixi, se você já está tendo dificuldade para emagrecer agora não queira ver quando ficar mais velha! É quase impossível! O metabolismo é muito mais lento, a prisão de ventre piora e não tem exercício físico no mundo que elimine aquela gordurinha localizada.

Superado o papo da gordura que eu não vou mais perder, em outro assunto, enquanto relembrávamos momentos do passado, mal pude participar da conversa, não lembrava de nada! Então reparei que já tem um tempo que não me recordo de coisas que eram fáceis para mim até pouco tempo como dar recados quando me pedem, saber o número de ninguém de cabeça e decorar letras de música como costumava decorar. Mais uma vez o comentário que ouvi em relação à essa colocação não foi nada amigável: se sua memória já está assim agora imagina quando ficar mais velha! Falta de memória é coisa de gente velha.

Para terminar teve o exame de audiometria que tive que fazer recentemente. Lado direito sem problemas, mas lado esquerdo está com uma leve perda de audição. Nada demais a princípio, mas as pessoas costumam perder a audição quando ficam mais velhas, não é comum na sua idade.

Tudo isso, e mais outras situações que não vou me recordar agora devido ao problema de memória já comentado acima, me fez ficar um pouco apreensiva, cheguei à conclusão que sou uma velhinha de aproximadamente 90 anos no corpo de uma jovem de quase 30. Por enquanto nada que me incomode, mas o que eu devo esperar do futuro? Seria exagero já começar a procurar um geriatra?


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sexta-feira, 17 de março de 2017

CARÊNCIA AFETIVA >> Paulo Meireles Barguil

 
– Como se cura de carência afetiva? – indagou-me uma leitora.
 
Esclareço, inicialmente, que alma e corpo necessitam de aconchego, carinho.
 
Devido à natureza distinta de ambos, os cuidados requeridos também são específicos.
 
Nos primeiros meses de vida, o corpo precisa ser alimentado para não morrer.
 
Quanto à alma, ela é bem mais resistente e menos volúvel...
 
O que vivemos durante os primeiros anos nos marca profundamente.
 
Acredito que algumas das inscrições desagradáveis podem ser modificadas, mas para tanto é necessário conhecê-las...
 
Há outras, contudo, que são agradáveis e nos impulsionam, sendo imprescindível que as façamos companheiras da jornada!
 
Não somos apenas o resultado do que (e como) vivemos, pois o corpo e a alma são repletos de memórias de outros espaços-tempos.
 
Quando a maioria diz "Ninguém pede para nascer!", alguns sussurram o contrário...
 
A alma, moradora do Paraíso, sabia que suas férias aqui na Terra não seriam tranquilas, mas aceitou o desafio.
 
Ciente era dos percalços e das tribulações que enfrentaria...
 
Apesar de muitos declararem que "Ninguém escolhe os pais!", ela selecionou cuidadosamente quem poderia exercer essa missão...
 
Aceitou, em seguida, ser encaixada no corpo, seu escudeiro, sabendo da inconstância da sua fidelidade.
 
Esse componente biológico, hoje sabemos um pouco, é herdeiro de várias gerações: de aspectos físicos e psíquicos.
 
Além de todos esses temperos, que tornam a vida ainda mais alquímica, há o fato de que nenhum de nós recebeu dos pais o trato que alma e corpo gostariam, muito pelo contrário...
 
Essa ferida é comum a todos nós!
 
Quando, apesar dela (e, às vezes, graças a ela...), nos lembramos de quem somos e do que viemos fazer aqui, desenvolvemos, cada vez mais, gratidão e compaixão por todas as pessoas – inclusive por aquelas que, de algum modo, nos machucaram – ao mesmo tempo em que assumimos, progressivamente, a responsabilidade pela nossa saúde, por nosso bem estar, que são frutos das nossas escolhas.
 
Entender e aceitar tais aspectos é imprescindível para que alma e corpo diminuam sua carência, relacionada à dependência do outro (que precisa pagar uma dívida infindável de outrem...), e iniciem sua cura, que se expressa no auto-cuidado.


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quinta-feira, 16 de março de 2017

EM ALERTA >> Mariana Scherma

1. Se você não tem nada de bom pra falar sobre alguém, melhor nem falar. 2. As pessoas perdem ótimas oportunidades de ficarem com a boca fechada. Essas duas frases meio que me cercaram a vida toda. Meu pai ama essa segunda. Quantas entrevistas a gente não viu juntos e, quando o entrevistado dizia besteira, meu pai já sentenciava que perder uma chance de falar, às vezes é ouro.

Dia desses, uma vizinha me disse umas coisas que me deixaram com medo. Coisas pequenas, mas que tinham a ver com meu apartamento, um processo e a atual síndica. Coisas que me tiraram o sono, mas, que segundo essa vizinha, era bom eu saber pra ir me precavendo, pensando no que eu ia dizer. Como se fosse normal viver em um estado de alerta. Depois de uns dias e depois de ter digerido o que ela disse, cheguei à conclusão de que ela poderia ter passado sem falar isso. Nada aconteceu. A síndica não me disse nada além de oi-tudo-bom. Ou seja, rugas a mais por nada.

Algumas semanas depois, a mesma vizinha voltou com o mesmo tema e aí eu me vi na obrigação de falar que ela não tinha o direito de vir na minha casa, tomar meu café e me deixar com medo de uma coisa que nem poderia acontecer. Vamos esclarecer que essa vizinha tem mais de 80 anos e pessoas mais velhas se acham no direito de dizer o que vem à mente. Pra mim, a vida acontece e, quando os problemas surgem, você vai contornando. Viver esperando o problema é loucura. Falei numa boa, sem levantar a voz, com a razão do meu lado. Desde então a vizinha me deu um gelo.


A impressão que eu tenho é que seu falasse alto ou com grosseria não a incomodaria tanto. Mas falar tranquilamente é que pegou. Quando as pessoas falam alto, elas têm a desculpa de que estavam com a cabeça quente. Eu poderia ter jogado a culpa no estresse do trabalho. Pode falar verdades com a cabeça quente. Mas não se pode dizer verdades com calma e tranquilidade. Ela, por ser idosa, tem o direito de me dizer coisas nada a ver, coisas que ela bem entender e cabe a mim aceitar. Mas, se eu retruco (sem falar alto, com toda a educação herdada dos meus pais), ela se magoa. O fato de a gente não ser uma ilha é bom, mas nem sempre, viu. 


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quarta-feira, 15 de março de 2017

CIRCO >> Carla Dias >>


Grande circo, esse. Pena que não tem palhaço que fomente alegria, tampouco trapezista que nos faça sonhar com o voo. Não há alegria nessa tenda de dissimulações e injustiças.

Um circo de horrores do qual não somos mais meros espectadores, mas sim os cruelmente domesticados para serem exibidos como curiosas criaturas. Porque, em algum momento, deixamos a sabedoria, que nos concede o milagre de decidirmos nosso caminho, nas melindrosas mãos-prisões dos que cochicham em nossos ouvidos – manipuladores e indiferente ao desfecho que nos espera – o que queremos escutar para acalmar ansiedade e calar questionamento.

Bem-vindos ao circo dos dissabores!

Aqui há uma grande variedade de tragédias para serem ruminadas em tempo infinito. Uma verdade gritante para se encarar com dolência aguda: somos colaboradores ativos da miséria do mundo. Nós, esses bichos amestrados pelo desejo próprio, e por ele fazemos o que é impossível de se desfazer e que, às vezes, leva o outro à lona, para não se levantar mais. Mas como seria diferente? Somos bichos de instinto calcado no egocentrismo e na necessidade intrigante por poder. Pisamos uns nas cabeças dos outros por dinheiro. Matamos em nome do amor e do Deus. Somos indiferentes a quem não desperta em nós curiosidade. Nossa intolerância é inspiração para a arquitetação de extinções espetaculares.

Neste circo, adjetivos são usados para compor uma sonata de ofensas. Predadores da sobrevivência alheia abocanham suas presas de maneira espetaculosa. Os espectadores, agora poucos, ditos escolhidos, assistem a tudo com ar blasé, enquanto, por dentro, celebram suas vitórias diante dos inferiores. Como apreciam subjugar, humilhar, matar de fome, de sede, de carência de direitos.

Esperávamos sim um circo de delícias e gargalhadas; um ponto de encontro para a descontração e o deleite. Por que isso nos seria negado? Acabamos assim: desfilando nossas misérias aos que nos tornaram miseráveis. Dando cambalhotas para entreter o desejo deles por superioridade. Nós, os animais amestrados, bailando ao som do cansaço e da zanga, provocando delícias e gargalhadas naqueles que nos desumanizaram. Os descontraídos e deleitosos diante do nosso show de desesperança.

Bem-vindos ao circo dos horrores! Há aqui justiça mantida em cabresto, respeito qualificado como supérfluo, direito negado com esmero. Os palhaços nem sabem o que é piada. Os trapezistas têm medo de altura. Ao bicho-homem não se dá de comer, que a fome, em todas as suas interpretações, é capaz de mantê-lo prostrado, o serviçal perfeito para quem pouco se importa com as aberrações que propicia.

Imagem © Edward Hopper



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terça-feira, 14 de março de 2017

MAIS DO MESMO >> Clara Braga

No mesmo mundo no qual viveram Joana D’arc, Maria Quitéria de Jesus e Marie Currie, ainda passei o 8 de março recebendo imagens com piadas sobre as mulheres, como a que dizia mostrar o estacionamento do evento em homenagem às mulheres, então você via os carros todos fora da vaga, uns quase capotados, uns por cima dos outros. Se é para fazer piada vamos pelo menos tentar ser originais né?!

No mesmo mundo de Anita Garibaldi e Cleópatra, li no facebook um ser desejando feliz dia das mulheres apenas para as mulheres de verdade, mulheres vindas de fábrica, como ele mesmo dizia. As trans e as feministas que esperassem seus respectivos dias, pois não eram mulheres. Sério?

No mesmo mundo em que vive Maria da Penha, recebi uma mensagem dizendo que o real dia das mulheres era dias 06, mas como elas não conseguiram se arrumar precisaram passar a data para dia 08. Me pergunto de quanto tempo a pessoa precisou para elaborar esse comentário maravilhoso. 

No mundo de Carmen Miranda, Tarsila, Anita Malfatti, Frida e tantas outras, as pessoas ainda falam que ninguém entende as mulheres, nem o whatsapp, que fez todos os emojis andando para um lado e só o da mulher andando para o outro.

Sério gente, esse é o melhor que vocês conseguem fazer? Já tá ficando feio né...


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sábado, 11 de março de 2017

EU BEBIA DIARIAMENTE O MAR, E MAIS ALGUMAS COISAS... >> Sergio Geia



Voltei de Ubatuba mais gordo. Se o Carlos da farmácia me visse caminhando pela rua depois dessas férias na praia certamente diria: “Lá vai a jiboia esmoer. Um dia esse cara estoura”. Não estourei; ainda. Uma costela bem-servida na Casa do Norte, um peixe levemente picante no Canele, pedaços de pizzas aos montes na Pizzaria São Paulo e na Caravelas, cerveja, cachaça e beliscos no Saraiva.
Tanta gulodice me fez engordar, e me fez lembrar o outro Carlos, também da farmácia, e esse primeiro parágrafo de “O Crime do Padre Amaro”, livro fabuloso do Eça de Queiroz:
“Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Migueis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares de sua voracidade. O Carlos da botica — que o detestava — costumava dizer, sempre que o via sair da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado: ‘Lá vai a jiboia esmoer. Um dia estoura!’ Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe.”
Mas não foi apenas a comilança na praia que me trouxe à mente o romance português. No livro de Eça há diversas passagens em que o escritor nos remete aos banhos de mar, como nas páginas 34: “A senhora D. Maria da Assunção, que tinha uma casa na praia da Vieira, propôs levar a S. Joaneira e Amélia para a estação dos banhos, para ela espalhar, nos bons ares saudáveis, um lugar diferente, aquela dor”; 81: “(...) ir mesmo no verão aos banhos...”; 169: “E daí a dias, o cônego, vendo aproximar-se o fim de agosto, falou de alugar casa na Vieira, como costumava um ano sim outro não, para tomar os seus banhos de mar. O ano passado não fora. Este era o ano de praia”, “O quê! Ir enterrar-se todo o verão, o melhor tempo do ano, na Ricoça! E os seus banhos, meu Deus, os seus banhos?”; 171: “Eu não posso ir; tenho de tomar os meus banhos, a senhora bem sabe”; 184: “O padre-mestre já tinha quinze banhos”; 193: “E a mamã passa bem — disse ele a Amélia. — Já tem os seus trinta banhos”; 196: “Era o cônego, que escrevia da Vieira, dizendo ‘que a S. Joaneira tinha já trinta banhos e queria voltar!’” . 
Não sei se era ou se é um costume dos portugueses, mas não deixa de ser interessante a forma como os personagens se referem aos banhos de mar; além de recreativo e terapêutico, os banhos ganham a conotação de medida de tempo — o tempo não é medido pela quantidade de dias na costa, mas pela quantidade de banhos tomados.
Clarice Lispector, ainda menina, quando morava no Recife, diariamente pegava o bonde até Olinda para iniciar o dia tomando banho de mar. Era mania do seu pai. Ele acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. Dizia que não se devia logo depois, tomar banho de água doce; o mar devia ficar na pele por algumas horas. E só mesmo Clarice ao dizer numa crônica isto: “Com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.”
No fundo, acho que o pai de Clarice está cheio de razão. O mar, que é a expressão mais pura do poder da natureza, compartilha de graça a sua força com aquele que se atreve a beber de sua água e se unir a ele. Foi com esse espírito que desci a serra nesse verão. E embora tenha voltado como uma jiboia, fui aos banhos, contei uns trinta, e cá estou pronto pra entrar de novo nessa confusão chamada vida.  

Ilustração: cuidarmais.wordpress.com


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sexta-feira, 10 de março de 2017

PASSEIO NOTURNO - 1a parte >> Zoraya Cesar

Estresse agudo, afirmou o médico, dando-me um ultimato: ou larga tudo e vai repousar ou a vida é que vai te largar e você repousará forçosamente – ad æternum.

As ruínas de uma construção que eu não soube identificar
me fascinaram desde o primeiro instante.
Pressionado por esse prognóstico terrível, decidi passar alguns dias num vilarejo isolado, de difícil acesso, no meio das montanhas. A natureza, ali, era extravagante. Imensa e profusamente verde de um lado, escarpada e desértica de outro. Da vila, viam-se, ao longe, restos de uma curiosa construção.

Os habitantes recalcitravam em vivenciar os confortos da vida moderna. O lugar vivia às custas de turistas eventuais e exportação de um artesanato peculiar, feito a partir de ossos e terra vermelha, que fazia sucesso no exterior. O comércio se resumia a uma mercearia que fazia as vezes de padaria e confeitaria; um barbeiro; um bar-restaurante e uma pensão. Só.

Nenhum canal de TV ou sinal de celular alcançava a região. A pouca energia que chegava fazia com que a luz, mesmo no interior dos ambientes, fosse baça e insuficiente à leitura. Tudo fechava - inclusive as pessoas em suas casas - assim que escurecia. Era, realmente, ideal para o descanso. Obriguei-me a deitar cedo, pois também não adiantava sair a passear. As luzes da rua eram desligadas às 20 horas e, se não houvesse lua cheia, a escuridão impedia que você enxergasse um passo adiante. Numa cidade de paralelepípedos irregulares e mal conservados, situada no alto de uma montanha, cercada de ribanceiras, um passeio noturno poderia ser fatal.

A não ser que você tivesse um guia. 

Durante o café da manhã, perguntei à dona da pensão quem poderia me contar histórias pitorescas e folclóricas da região, guiar-me pelas trilhas e falar sobre as tais ruínas. Ela respondeu secamente, sem sequer olhar para mim:

- Procure o velho Sr. Vilkolakis. Ele passa o dia sentado ao sol no banco da praça. Mas, se fosse o senhor, sossegaria o facho depois do anoitecer – Não me importei com a rispidez dela, nem dei trela pro conselho sem sentido. Essa gente do interior é muito esquisita. E eu estava lá para descansar e largar dos estímulos incessantes da cidade, não para vegetar dentro de um quarto. Se estava em meio à natureza, aproveitaria para passear.

De longe, ele parecia uma estátua de pedra, não fosse a fumaça que saía de seu cachimbo. Aproximei-me por trás, sem que meus mocassins, tenho certeza, fizessem qualquer barulho na terra macia. Mas o homem levantou quase imperceptivelmente a cabeça e pareceu farejar o ar, me pressentindo.

- Boa tarde – disse, antes mesmo de me ver, a voz profunda e um tanto gutural, mas agradável, amigável, até – soube que você vinha me procurar.

Ele era impressionante. Baixo, não devia ter mais de 1,60 m, músculos robustos e fortes sob uma pele recoberta de profusos e hirsutos pelos cinza. Era velho, sem dúvida, a face pregueada e crestada pelo sol. A calvície passou longe do Sr. Vilkolakis (que nome estranho!): tinha fartos cabelos castanhos entremeados por largos fios brancos e enormes costeletas que lhe tomavam quase todo o rosto. Grandes dentes sobressaiam por entre os lábios marrons e um brilho intenso refulgia de seus olhos amarelados e sonolentos. O cheiro do fumo do cachimbo misturava-se a um outro, que não consegui identificar com exatidão, mas me pareceu agridoce, uma mistura de almíscar com amônia, não sei. 

Conversamos longamente. Ele era um contador de histórias nato e desfiou uma série de causos da região, alguns, confesso, um pouco assustadores. Quando vi, já era hora de voltar, se eu quisesse chegar à pensão antes das 20 horas. Ao nos despedirmos, pedi que me levasse às ruínas, à noite (eu queria descansar, é certo, mas um pouco de aventura não me faria mal. E eu detesto deitar cedo).

- À noite? – ele fungou e ficou parado, quase imóvel, os olhos semicerrados. Parecia tão absorto que receei que ele tivesse caído num sono senil.

As trilhas, mesmo sob a luz da lua cheia, podem ser perigosas,
avisou-me o Sr. Vilkolakis.
- Pode ser perigoso. Valões. Corredeiras. E coisas estranhas e imprevisíveis acontecem à noite nessas trilhas. Coisas do Além...

Pus-me a rir, com a arrogante superioridade dos citadinos. Eu, homem de negócios, acostumado a dar nó em pingo d’água, ia lá acreditar em crendices e superstições? Insisti na aventura.

Então, ele aquiesceu, acrescentando que aquela noite seria de plenilúnio, ou seja, ideal para percorrer trilhas. De repente, sorriu, deixando à mostra seus dentes cróceos. Disse estar muito contente, pois era a primeira vez, em incontáveis anos, que um turista lhe pedia para ir às ruínas durante a noite.

- É necessário que me peçam, você sabe, não é permitido que eu ofereça. É preciso obedecer às regras. - Não entendi muito bem, mas deixei pra lá. Essa gente do interior é muito esquisita.

Convidei-o a jantar comigo, mas ele agradeceu e declinou, alegando que costumava sentir fome mais tarde.

Cheguei à pensão poucos minutos antes da escuridão descer sobre as casas. A dona já se tinha recolhido. Deixou, gentilmente, a meu ver, um prato de comida embrulhado num pano de prato, em cima do fogão. Comi com vontade, subi para o quarto e me preparei. Estava excitado com a aventura e orgulhoso de mim mesmo. Eu, um sedentário histórico e convicto, arriscando-me em um passeio noturno no meio do mato, onde a única fonte de luz seria a da lua cheia. Ninguém ia acreditar. Desci para esperar meu guia. 

O Sr. Vilkolakis chegou pontualmente à hora combinada. 

Continua dia 24 de março a 2ª e última parte. 

Foto ruínas: David Brooks in Unsplash
Foto floresta sob a luz da lua: Tame66 in Pixabay

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quinta-feira, 9 de março de 2017

FELICIDADE>>Analu Faria

Dei pra escrever um "bulletin journal". É modinha, sim. Aderi. Gostei e, como tudo de que gosto, dou um jeito de fazer pouco. Era pra ser todo dia. O "bulletin journal", mistura de agenda, organizador e diário, deveria ter entradas frequentes. O meu tem entradas praticamente quinzenais. Eu sei, é ruim. Eu juro que no futuro, esse tempo próximo o suficiente para ser afastado, eu vou melhorar isso.

Uma das razões pelas quais eu talvez não escreva tanto no meu "bulletin journal" - fora o péssimo hábito de procrastinar - é que eu não sei bem o que escreveria todo dia (ou, ao menos, com certa frequência). Minha agenda já está no celular e não tenho tantos compromissos assim que precisem de tanto papel. Quanto ao diário...

O que as pessoas escrevem em diários? Penso que, como não escrevo com tanta frequência - e queria muito, muito mesmo, ser daquelas amantes da escrita que arranjam um tempinho todo dia para fazer isso - eu deveria pelo menos ter um diário para "descarregar" o palavrório que me vem à cabeça  às vezes no meio do trânsito ou durante o banho. O problema é que abro o livrinho com a página em branco e penso: mas que coisa desimportante!!! Eu, feita do mesmo pó que fez todo os outros seres humanos, o que tenho de especial para ocupar páginas de um livrinho de escrita tão bonito?  Ou de qualquer outro livro? Vou escrever que quero ser feliz, falar dos meus problemas? Ora, todo mundo quer ser feliz! Todo mundo tem problemas!

Você não se sente meio estranho(a) quando alguém começa a te contar algo íntimo de um jeito que parece que os sentimentos envolvidos no caso nunca foram sentidos por qualquer outra pessoa do mundo? Eu me sinto. Fico achando que é gente metida a besta. Por isso eu tenho medo de ser estranha e pretensiosa demais ao escrever "coisas de diário". Tenho medinho de dizer o óbvio, de dizer o que todo mundo sente. Fico imaginando as páginas levantando-se em revolta e dizendo: francamente, minha filha, vai trabalhar! 

Eu obedeço: trabalho, estudo coisas-mundo, teorias jurídicas, filosofias práticas, políticas públicas de resultado. Deixo para depois o que me lembra o pó de que sou feita. Toco o futuro com a mão e o empurro para mais longe.  Até que o fim do ano chegue e eu tenha preenchido um terço do meu livrinho com entradas hesitantes. Isso se eu não desistir antes.



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quarta-feira, 8 de março de 2017

MAIS AGRO QUE DOCE >> Carla Dias >>


Quem tapa os ouvidos na hora dos tapas, sai para um lanche e deixa o prato dos seus assim, vazio. Disponível para quem se atrever a lambê-lo.

Quem diz o que quer e se nega a escutar, apraze-se ao som das próprias palavras, enquanto ergue paredes projetadas para amparar o exílio alheio.

Quem diz que ali alma não existe, trata-se somente de um depósito de carne e ossos, e então se deita em seu peito exigindo alívio.

Quem renega nascedouro, quer ter nada a ver com a geografia imperfeita que o pariu, esse vácuo criado para gestar infortúnios.

Quem insiste que seu lugar é acima, os pés sob suas cabeças, uma hierarquia existencial baseada na comédia rasgada de uma liturgia distorcida.

Quem ofende, maltrata, violenta, desampara, aponta dedo com tal maestria, que até consegue partir um coração de jeito sem volta, sentindo o deleite a lhe abraçar com tal ternura...

Ternura não combina com esse abismo entre esse quem e o outro... A outra. Ela que leva a vida a carregar rótulos, assumindo postos que não lhe cabem, recebendo chacotas que a ofendem, mas ela sabe que é temporário. Pode não ser para hoje, para a semana que vem, para essa década, para esse século, mas continuará seu caminho, até ser considerada pessoa. Quando desdém não será capaz de mantê-la à margem de seus direitos. Violência física ou emocional não serão ferramentas para diminuir sua significância.

Há palavras novas para enfraquecer a força da jornada dela. São palavras frouxas, debruçadas em um humor barato, fortalecida pela exuberante pobreza de espírito de quem se fortalece ao enfraquecer o outro.

Superioridade, essa coisa vazia, oca. Quem a sente de forma tão pungente pode achar que é prazer e poder o que ela oferece, mas não. É a pura miséria. A ausência corrosiva de capacidade de compreensão de que somos pessoas. E sendo pessoas, meus caros, valemos a vida, o respeito, a consideração, o cargo, o salário, o reconhecimento.

Ao pensar em tantas mulheres e suas histórias distintas e ricas, cada uma delas com sua identidade e uma leva de questões para resolver. Ao pensar nas anônimas, nas que engrossam estatísticas e naquelas admiráveis por seus feitos, as que nos beneficiam por suas descobertas e nos deleitam com suas obras. Pensar nelas é aceitar que há muito caminho no qual gastar sapatos, aplicar sabedoria e encarar duras batalhas. Até se chegar lá, onde esse quem seja destituído do seu poder por uma justiça que enxergue pessoas. Por uma consciência que lide com pessoas.

Sigamos, então.

Imagem © Beatriz Milhazes

carladias.com



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terça-feira, 7 de março de 2017

POR UMA VIDA SEM TARJA PRETA >> Clara Braga

Já vou fazer 29 anos e ainda não estou em um emprego que pense em ficar pro resto da vida.

Já tentei começar o meu próprio negócio duas vezes e não deu certo, será que algum dia vai dar? Tanta gente por aí fazendo coisas repetidas e eu com minhas ideias diferentes não cheguei a lugar algum.

Não viajei para metade dos lugares que meus amigos foram. Alias, acho que nem entendo de geografia o suficiente pra apontar exatamente no mapa os lugares para onde fui e para onde ainda gostaria de ir.

Terminei a faculdade já tem um tempo e ainda não entrei pro mestrado, não fiz nenhuma especialização e já tenho amigos indo pro doutorado.

O que aconteceu com meu tempo? Será que eu estou ficando para trás?

São tantas as coisas que a correria desses tempos doidos nos fazem questionar que quase nos falta tempo para respirar. Mas se pararmos por um instante, vamos perceber questões essenciais para não nos deixarmos surtar.

Meus pais foram ter a oportunidade de viajar para o exterior pela primeira vez na vida com mais de quarenta anos de idade, dois filhos criados e a família ajudando.

Minhas avós fizeram muita coisa depois de se tornarem viúvas. Uma delas tirou até carteira de motorista e ganhou medalhas por terminar corridas de rua, as vezes era a única em sua categoria.

Lembro do meu pai fazendo especialização, acompanho ele fazendo curso de inglês, vi minha mãe fazer mestrado e doutorado e também a vi sair de um emprego que ela gostava para algo que parecia ser uma oportunidade muito maior, e foi.

Vejo hoje meu pai aprendendo a tocar percussão e minha madrinha, depois de aposentada, abrir seu negócio e parecer estar, nesse momento, mais preparada do que nunca para enfrentar esse desafio e realizar seu sonho.

O melhor disso tudo? Fizeram suas coisas quando tiveram que fazer, sem a pressão desse mundo doido que manda você ser e saber tudo muito cedo ou então te convence de que você não é bom o suficiente. Mas não tem problema se sentir a pior pessoa do mundo, já temos remédios diversificados o bastante para tratar qualquer mal causado pela eterna busca de ser cada dia "O" melhor.

Foi assim que passei a mudar meu pensamento: já vou fazer 29 anos e ainda não fiz muitas das coisas que queria ter feito. Que bom, afinal, ainda tenho uma vida inteira pela frente.  


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segunda-feira, 6 de março de 2017

AI, MEU CORAÇÃO! - VI - final >> Albir José Inácio da Silva


Continuação de 20 de fevereiro:
(Acidente na estrada. Neném, entre desmaios, pede a presença do padre. Precisa se confessar)

O outro entendeu que era dor no peito, pensou em infarto, e viu que o companheiro estava perdendo muito sangue. Era grave, precisava de ajuda.  Neném levantou de novo a cabeça e suplicou:

- Um padre! Preciso me confessar! – disse, já num fio de voz, e apagou.

Piloto voltou à estrada pensando que Neném ia morrer. Já lhe conhecia os chiliques por causa de sangue, mas dessa vez parecia sério. Escorado num  galho e cheio de escoriações, Piloto não teve dificuldades para conseguir ajuda de um motorista que ia pra cidade, mas recusou-se a ir para o hospital:

- Não, obrigado. Preciso ficar com ele, pode ser a última vez – embora não fosse religioso como Neném, comoveu-se diante da morte - mas por favor, avise também o Padre Antônio na Matriz. Diga que o moribundo implorou pela confissão.

O diligente motorista, depois de avisar os bombeiros, insistiu com Padre Antônio para que o acompanhasse ao local do acidente.

O padre não gostou. Neném de novo! Sentiu-se como Seu Wilson diante dos pedidos de Denis, o Pimentinha – tinha certeza do arrependimento. Mas era uma extrema-unção. Nunca nos seus cinquenta anos de sacerdócio tinha deixado de atender a esse sacramento. Não seria agora, mesmo se tratando do Neném.

Neném acordava mais uma vez quando o Piloto retornou. Ainda de bruços, firmou-se nos cotovelos e levantou a cabeça:

- O padre, Piloto? Cadê o padre?

- Fica calmo, Neném! O socorro já tá chegando, você não vai morrer – disse o Piloto sem muita convicção.

- Eu vou morrer, Piloto! Eu perdi o meu coração! Isso foi castigo do céu, e eu preciso me confessar.

Piloto não queria esticar aquela conversa ruim. Não costumava entender muito o que se dizia mesmo e não gostava de ficar perguntando. Ficou feliz quando ouviu as sirenes. O socorro estava chegando e ele ficava livre de falar sobre morte.

Padre Antônio chegou ao mesmo tempo que os bombeiros. Outros carros pararam para ver o acidente, e populares se juntaram em torno do moribundo. Neném levantou a cabeça e pediu aos maqueiros que esperassem. Precisava falar com o Padre Antônio.

- Padre, eu sei que o senhor não gosta de mim, até com alguma razão, mas eu estou morrendo e preciso me confessar.

- Tenha fé, meu filho, ninguém morre enquanto não chega a hora. E só Deus sabe essa hora.

- Pois a minha chegou, Seu Padre!

Os bombeiros não interromperam - não sei se por curiosidade ou porque perceberam que não havia pressa. Neném contou com detalhes o assassinato de Arakém e a premeditação do dia anterior. Logo no início da narrativa, Piloto embrenhou-se no mato e desapareceu.

Na secretaria do clube, Bóssi primeiro escutou as sirenes, depois viu os carros de polícia pela janela. Do que teria se esquecido o Delegado? E por que a sirene? Uma taquicardia seguiu-se à compreensão.

                                                           DE VOLTA À DELEGACIA

Quando Bóssi chegou à sala do delegado, seu pupilo já lá estava,  algemado a um canto, com um faixa em torno da cabeça e vários curativos pelo corpo. Neném não ousou olhar para o chefe.

Dessa vez a autoridade não podia ajudar. Bóssi sabia  disso e não perdeu o senso prático.

- Mouro, não vamos prolongar essa tortura que sei desagradável pra você também. Somos amigos há muito tempo. Só me esclareça uma coisa em nome da nossa amizade: por que aquele quadrúpede ali pastando – indicou com um gesto de cabeça o encolhido Neném que comia um pacote de biscoito entre orações - resolveu confessar um assassinato, se só havia um acidente na estrada?

O Delegado estava para poucas palavras. Abriu a pasta do inquérito, virou para Bóssi e apontou um trecho. Bóssi esticou-se na cadeira por causa das algemas e leu:

“Tendo pedido a presença do padre, o elemento, que responde pela alcunha de Neném,  confessou, diante do sacerdote e na presença de todos - eis que as circunstâncias não permitiam a confidencialidade que normalmente cerca esse sacramento - o assassinato do presidente do clube, com os detalhes que se encontram em seu próprio depoimento de fls 13/18.  O elemento julgou que estava morrendo porque seu coração estava fora do corpo, razão pela qual pediu a presença do padre. Cumpre esclarecer que sob a barriga do assassino foi encontrado, na verdade, um umbigo de bananeira, conforme fotografia que ora juntamos”. 

Resultado de imagem para umbigo de bananeira


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sábado, 4 de março de 2017

JORGE >> Cristiana Moura

Era ainda cedo da noite quando ele tentava explicar a si mesmo o que sentia. Preparou o jantar. Comeu a comida carente de sabor. Os dias estavam assim a se justapor, um depois do outro. Os sons dos carros, das buzinas, dos pássaros— tudo lhe era emudecido.

Jorge queria explicar mas não podia. Era tudo meio sem cor: as flores, os vestidos das mulheres, o cotidiano. Ora, ele já era homem de meia idade e o que vivia nos últimos dias nunca havia vivido antes. Tentava entender mas não podia, não sabia nomear o que sentia. Jorge sofria de ausência.

Abriu um vinho. Bebeu uma taça apenas, como se quisesse que o carmim seco lhe afetasse. Nada. Foi dormir sem cheiros, cores ou sons. Mal amanhecera o dia e acordou num susto, tamanho o aperto no peito. Alguns segundos sem respirar. Era uma tal dor. — Que tristeza! — pensou. E esboçou um sorriso aliviado.

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sexta-feira, 3 de março de 2017

EROS NÃO É AMOR! >> Paulo Meireles Barguil


Amalgamado é o ser Humano: alma e corpo.
 
Compreender cada aspecto e as intricadas relações é enigma milenar.
 
Não será, portanto, este tosco escriba quem o resolverá, mas me permitirei esfarelar  meus devaneios, pois é possível que eles sejam úteis a mais alguém além de mim...
 
As palavras surgiram na nossa História para expressar o que sentíamos, nomear o que (não) víamos e, talvez, melhorar a qualidade do existir.
 
Considerando que os vocábulos são manifestações culturais, é facilmente compreensível que alguns deles não tenham correspondente em outras línguas.
 
Em relação ao amor, é frequente ouvir que ele se manifesta de três formas: Eros, Filia e Ágape.
 
Entendo ser necessário e pertinente compreender a especificidade e a fonte de cada uma delas, tendo em vista a natureza humana.
 
Eros é a declaração mais pulsante do corpo: desejo, por vezes, incontrolável, de possuir o outro, que é visto como objeto, cuja finalidade é suprir a minha fome intensa.
 
Quero o outro para mim, daí o controle.
 
A ética de Eros é a satisfação de si: eu quero receber!

É bastante provável que se estabeleça uma situação de dependência, na qual alguém acredita precisar do outro para (sobre)viver, sendo a posse a garantia desse intento.
 
Em virtude da origem de Eros estar centrada nas entranhas, intensas (e violentas) costumam ser as reações de quem, contrário à sua vontade, tem interrompida tal fruição.
 
A carência que sinto exprime-se em insatisfação, reclamação, crítica, intolerância...
 
Ágape, por sua vez, é a expressão cristalina de Deus: amor incondicional.
 
Filia é a possibilidade que o Homem tem de vivenciar, em escala microscópica, o Ágape, e, assim, cuidar do outro, que é percebido como sujeito, cabendo a mim ajudá-lo a enfrentar os seus desafios do cotidiano.
 
Quero o bem-estar do outro, daí a liberdade.
 
A ética de Filia é a alegria do outro: eu quero dar!

É imprescindível esclarecer que a doação, expressão da Filia, é bem distinta de submissão, de anulação, pois aquela decorre da expansão, enquanto essa deriva da retração.
 
Considerando a gênese de Filia, a compaixão guia minha alma em todas as situações, principalmente naquelas em que avalio como inadequado o comportamento do outro e, de modo especial, quando ele me agride.
 
A abundância que sinto revela-se em gratidão, benção, elogio, aceitação...
 
Não postulo o antagonismo entre Eros e Filia, mas que se compreenda que ambos estão vinculados a aspectos distintos do Homem: corpo e alma.

Paixão é a crença, a fantasia de que o outro é a solução para o meu desequilíbrio.
 
A escassez do corpo é diferente da privação da alma, embora estejam relacionadas, tendo em vista as experiências na infância.
 
Acredito que restaurar a conexão corpo-alma, seja a nossa, seja a das outras pessoas, é a peripécia genuína de cada indivíduo.
 
Feridos na alma, quantas vezes, buscamos, inadvertidamente, com o corpo niná-la, sedá-la, curá-la?

Vivenciar Eros costuma ser delicioso enquanto dura, mas pode ter consequências amargas quando ignoramos tantas peculiaridades, tais como sentimentos de repulsa, culpa, vergonha, insensibilidade, que costumam ser ainda maiores se o fazemos sem o mínimo de Filia.
 
É tão simples: Eros não é Amor!
 
Antes de voar com Eros, se quiser evitar efeitos colaterais desagradáveis, de modo especial a frustração, consulte a sua alma...
 
E cuide dela: ninguém pode fazê-lo por você!
 
Eros com Filia é um manjar que, infelizmente, poucos desfrutamos, não por falta de Eros...
 
Para incrementar sua Filia, conecte-se com Ágape, que tudo cura e transmute o "Eu não tenho" para o "Eu sou".


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quarta-feira, 1 de março de 2017

IMAGINAÇÃO SITIADA >> Carla Dias >>


Até ontem se imaginou de um jeito, num determinado canto, fazendo uma possível coisa. Imaginou-se com toda a liberdade que a imaginação oferece. Imaginar é de graça, é em segredo, fica no dentro.

Tem gente que joga ao mundo o seu imaginado. E ele se transforma em arte, em catarse, às vezes, em desentendimento, que imaginar é lida de indivíduo, cabe ao autor a cadência da trama. Porém, quando jogado ao mundo, às vezes toma conta de biografia de muitos.

Imaginou-se em outro planeta, certa vez. Mas desconfiado que é, descartou logo a possibilidade, que acha por demais de complexa a ideia de que há seres outros vivendo em planetas outros. Tem medo de não saber entendê-los.

Não à toa, imaginou seu futuro com detalhes explícitos. Onde caberiam seus talentos, os naturais e os adquiridos com estudo e dedicação. Qual frase usaria para agradecer ao agrado, sobre qual regra discursaria para defender o óbvio.

O que não raramente acontece aos que se rendem à imaginação, é que eles acabam à deriva. É difícil alcançá-los. Resgatá-los de seus devaneios requer substâncias requintadas, oferecidas por cientistas tarimbados. Às vezes, mas bem de vez em quando, basta uma boa dose de realidade.

Que ainda ontem, ele sabia do seu como e quando. Tudo fora perfeitamente imaginado e incluído em plano traçado, que ele veio desenvolvendo ao longo da vida. Orgulhava-se do roteiro que escrevera. Dedicava-se a interpretar o personagem principal com maestria. Sabia lidar com os obstáculos, feito super-herói de quadrinhos.

A avó dizia ao neto que ele não entendia que imaginação é coisa que não se deixa prender. Ela tem vida própria, não é sua só porque vive em você. Ele a escutou, todas as vezes, mas não deu importância. Foi imaginando tudo que coubesse nas suas expectativas e colaborasse com seus desejos. Era como se treinasse para a vida.

Outra coisa que a avó dizia: a vida é doida. Não adianta tentar prendê-la aos pés da felicidade. Ela vai urrar, espernear, e então, render-se à tristeza. Ela precisa de ambas para sentir-se legítima.

Então, que a imaginação se cansou de servi-lo. Em uma mesma semana, a maior parte do que imaginou, estrategicamente, foi desafiado por imprevistos. Isso lhe rendeu dor de cabeça, desentendimentos, o fim de relacionamentos que ele tinha certeza de que eram para a vida. As mudanças o enlouqueceram, e depois delas, nada mais estava no seu devido lugar.

O que mais o surpreendeu, é que depois de ele mesmo urrar, espernear, e então, render-se à tristeza, sentiu-se legítimo. A imaginação condicionada, parte importante de um planejamento de vida, já não lhe faz falta. Rendeu-se ao que será. Aproveitou toda sua expertise para improvisar.

Finalmente entendeu o que a avó queria dizer. Há entendimento que levamos uma vida para abraçar. Outra coisa que ela costumava dizer em severo tom: adaptar-se é uma necessidade. Quem se entrega a esse conhecimento, é mais livre do que aquele que lida com a imaginação feito esboço único do que se busca conquistar.

Imagem: Man in pub © John Brack


carladias.com

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