terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

DO CONTRA >> Clara Braga

Ah, o carnaval! Nem acabou e eu já sinto saudades.

Não vou dizer que quem não gosta de samba bom sujeito não é, pois eu mesma posso acabar sendo ruim da cabeça ou doente do pé. 

Já fui do time dos que odeiam carnaval e apresentam argumentos fortíssimos contra esse evento, mas deviam todos ser bem furados, afinal, não consigo lembrar de um. E no fundo, de que adianta ser contra algo que vai acontecer anualmente queira você ou não?

Nunca fui a um desfile na avenida, não curto me fantasiar, não frequento bloquinhos de rua, não tenho uma escola de samba do coração e tudo isso foi essencial para eu entender que se eu não gosto dos eventos carnavalescos posso apenas não participar deles!

Sim, tudo isso parece muito óbvio, mas acreditem, não é. Para tudo que existe no mundo tem um grupo para ser contra, principalmente quando é algo que não vai fazer a menor diferença na vida deles. Exemplos? Bom, ser contra a casamento gay sabendo que você não vai ser forçado a casar com alguém do mesmo sexo ou, o mais óbvio para a ocasião, ser contra o carnaval sabendo que você não será forçado a entrar de baiana rodopiando na Sapucaí.

Se as pessoas soubessem o quanto elas perdem sendo contra coisas que não adianta ser contra, com certeza pensariam dez vezes antes de levantar uma bandeira contra algo. Eu mesma, depois que parei de levantar minha bandeira contra o carnaval, aproveito lindos 5 dias de folga na frente da televisão assistindo tudo quanto é filme e seriado que não consigo assistir no dia-a-dia por falta de tempo, quer coisa melhor?

Volto a dizer: ah, o carnaval! Nem acabou e eu já sinto saudades. Mas deixa eu aproveitar o restinho que ainda tem para assistir mais um filme!


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sábado, 25 de fevereiro de 2017

HAVIA UMA LISTA >> Sergio Geia



Havia tempos esperava receber uma pequena soma em dinheiro. Vou explicar. Outrora, quando eu ainda era um menino (pois sabe que me lembro de uma vez, um sábado de manhã, antes de fazer uma prova de datilografia para um concurso, mandei ver alguns copos de cerveja com amigos, de modo a relaxar os dedos? Pois é... coisa de menino), celebrei com a Prefeitura de Taubaté dois contratos de trabalho: um, regido pela CLT; outro, regido por estatuto próprio, dos servidores públicos.
Ao término do primeiro contrato, como é de direito, levantei de FGTS a infame quantia de alguns míseros cruzeiros, e que hoje deve corresponder a uns R$ 950,00, ou R$800,00, isso lá pelo ano de 1991.
Alguns anos atrás, veio a notícia de que o sindicato que defende os interesses dos servidores ajuizara com êxito uma ação contra a Caixa Econômica, defendendo a tese de que a correção do nosso pobre dinheirinho deu-se de forma irregular, com a aplicação de um índice menor em relação ao índice que deveria ser aplicado; assim, eu e mais alguns outros servidores na mesma situação, teríamos uma diferença a receber.
A notícia correu de boca em boca no Paço Municipal. Grande parte dos servidores estava incluída na referida ação, e receberia alguns haveres por conta da decisão judicial transitada em julgado, que reconheceu o direito desses humildes funcionários às diferenças de FGTS, diante dos erros cometidos pela entidade mantenedora dos depósitos do FGTS quanto às correções que deveriam incidir sobre os saldos das contas vinculadas. A coisa chegou a tal ponto que se comentava à boca pequena que o menor valor a receber aproximava-se de algo em torno de R$ 10.000,00, e que alguns sortudos poderiam receber até R$ 40.000,00, uma boa soma, você há de convir.
Levando-se em conta o tempo em que cada beneficiário levantou o seu FGTS, e, principalmente, a lentidão do Judiciário (posso lhe adiantar que muitos anos, ou, sendo um pouco mais preciso, mais de 20 anos se passaram), seria até razoável admitir a boa soma a receber, diante da aplicação dos agora corretos índices de correção, mais juros, e, sabe-se lá, quantas outras quireras, e que só um bom economista do sistema bancário poderia explicar.
Pois comecei a sonhar. Não um sonho abstrato, com coisas imateriais, como o sonho que tive outro dia. De repente, eu voava sobre montanhas e mar. Subia, descia, de vez em quando parava debaixo de um cajueiro, depois, refrescava-se mergulhando no mar. Sentia-me pleno, absolutamente livre e feliz. Quando me dei conta, vi montanhas, vi o mar, mas não estava absolutamente livre e feliz, pleno de tanta beleza, estava esmagado num avião prestes a aterrissar. Lembro-me que me aborreci muito ao acordar, me aborreci com a interrupção do sonho e com o caminho que ele tomou, me fazendo parar dentro de um avião.
Agora eu sonhava com um avião, muito embora não goste muito da sensação de fragilidade que me toma o corpo todas as vezes que me acho preso dentro de um. Mas só essa máquina voadora poderia me levar a conhecer, quem sabe, os jardins da Porciúncula, a igreja de São Damião; ou quem sabe, sendo mais materialista, visitar o Louvre, o Arco do Triunfo ou mesmo descer a Champs Élysées até a Place de la Concorde. Um passeiozinho pela ilha de Manhattan, uma noite em Beverly Hills...
Ah, e como é bom sonhar! E o sonho estava sendo sonhado quando a notícia de que boa parte dos servidores nada teria a receber começou a circular. Ninguém tinha uma explicação convincente a dar. Falava-se que a maioria já tinha levantado o FGTS. E ontem, após dar um telefonema para a Secretaria de Negócios Jurídicos da Prefeitura, fui informado de que meu nome não estava numa tal lista.
Pois havia uma lista, amigo, uma lista dos contemplados pelo dinheirinho a ser pago pela Caixa; pois nessa lista, a lista dos sonhos, não figurava o meu nome.
Chego a pensar que tudo não passou de falácias, e que ninguém, ninguém tinha a informação precisa do que acontecera na ação, nem mesmo nossos iluminados advogados; e, se alguém tinha tal informação, a preferência foi dificultar o acesso da gentalha.
Ilustração: www.marcellopepe.com


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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A NINFA - 2a e última parte >> Zoraya Cesar

A Ninfa - 1a parte - Após enganar a família, ele tomou posse do sítio do avô, a quem detestava, o único a perceber que ele, o neto, era um salafrário da pior qualidade. Sua intenção era destruir tudo o que o avô mais prezava e depois vender o resto. Ia começar derrubando as árvores. Só não o fizera ainda por causa dos pesadelos.

Pesadelos. Ele, que dificilmente sonhava, agora os tinha a noite inteira.

Eram multicoloridos, variados, e muito, muito realistas. Em todos aparecia uma mulher de cor lavanda e traços indefinidos. Em um dos sonhos, ela aparecia chorando, vertendo lágrimas azuis, agarrada aos joelhos dele, que derrubava uma árvore. No instante seguinte, viu-se afogado no meio do lago, as canas do brejo prendendo-o ao fundo. Acordou totalmente ensopado, o lençol pingando, água saindo pelo nariz. De outra feita, sonhou que a mulher lhe pedia algo, as mãos estendidas e súplices, enquanto ele marcava à faca as árvores que cortaria. De repente, seus pés afundaram no chão, e ele foi enterrado vivo. Acordou em sua cama, sufocado, as narinas cheias de terra, pequenos galhos e folhas, assim como seu corpo e a cama. A casa não tinha trancas; fosse ele sonâmbulo, os fenômenos estariam explicados. Mas não havia pegadas ou quaisquer sinais de que ele andara enquanto dormia. Não havia, portanto, uma explicação racional.

E na falta de explicações, o neto resolveu que no dia seguinte destruiria tudo o que pudesse e partiria. Depois venderia o que sobrasse.

A noite o encontrou acordado e alerta, cheio de estimulantes. A lua, encoberta, mal iluminava ao redor, mas ele vislumbrou um vulto que – teve certeza – era o da mulher em seus pesadelos. Ela corria de um lado para outro, como que perdida. Fora, fora daqui, sua louca!, gritou ele. A mulher correu para o lago e mergulhou – que morra afogada, pensou – e saiu na outra margem, ao lado do aspen, ao qual envolveu com braços e pernas até fundir-se nele. O neto levantou-se, sobressaltado. Alucinações não! Pegou a motosserra, o querosene, panos, caixa de fósforos. Ia acabar com aquela palhaçada agora mesmo, pra que esperar pela manhã?

Jogou o querosene no aspen, cujas folhas, de tanto tremer, começaram a cair, fazendo um som parecido com o lamurio abafado de uma criança com medo do escuro. Sempre que ele acendia um fósforo, um sopro vindo da noite o apagava. Chutou o tronco, com raiva e, se não estivesse tão perturbado, teria escutado, claramente, um gemido.

Pegou a motosserra e voltou-se para a velha árvore que lhe lembrava o avô. O mundo parou. Não se ouvia um único som, nada se movia e nem mesmo os cheiros da noite se espalhavam pelo ar parado. Somente as folhas do aspen ainda caíam, descoloridas de medo. Desencantou-se o momento ao som da motosserra e da madeira cortada, ruídos tão assustadores quanto os gritos de dentro do aspen e da sua própria garganta. Ele coloca as mãos no ventre, incrédulo e em choque. Como? Outro pesadelo? Efeito dos estimulantes? Ou aquele sangue todo escorrendo para fora de seu corpo, aquelas tripas escorregando para o chão, a dor quase insuportável eram reais?

O bosque, nesse momento, tomou-se de fúria. Insetos e bichos emitiam sons frenéticos, os peixes pulavam no lago com estardalhaço, um vento raivoso farfalhou ruidosamente as árvores e afastou as nuvens da lua, que, branca como uma lápide de cal, iluminou a cena.

Ele, deitado sobre uma poça de sangue espesso e escuro como os segredos dos pecadores, cercado por suas próprias entranhas. Ajoelhada ao seu lado, uma jovem nua, linda em sua estranheza - a pele em tons cambiantes de lavanda, os cabelos tais quais as folhas do aspen, as sobrancelhas feitas de líquen e olhos cor de bétula –, olhava-o friamente.

- Sou uma Hamadríade – disse ela, a voz soando como pequenos tímbalos tocados por asas de beija-flor – uma ninfa dos bosques. Moro naquele aspen que você tentou queimar – a voz dela amainou sua dor, mas ele não ousou se mexer, apavorado de o sangue se esvair mais depressa, de suas entranhas escaparem pelos dedos.

- O dever de uma Hamadríade, ela continuou, é zelar pelo bosque em que vive. Tentei te avisar para nos deixar em paz. Agora você terá de pagar por ter derrubado nossa árvore ancestral.

Ele se perguntava do que falava aquela mulher de lábios cor de terra, afinal, o bosque era dele. E o que fazia ela sentada ali? Não iria chamar por socorro?

- Não, o bosque não é seu. É meu. Seu avô me deu. E agora você me pertence. Você não precisa de socorro. Precisa de perdão. Que só vou dar quando a última folha da última árvore sobre a Terra cair.

Tentou se mexer, tinha que acordar, aquilo só podia ser mais um pesadelo, só podia, só podia... Sentiu-se enrijecendo e, olhando para seu corpo, gritou, agoniado e gorgolejante: estava se transformando em árvore, um tronco aberto, em decomposição, repleto de fungos e vermes que se mexiam e burburinhavam incessantemente – por isso não sentia mais dor! Suas pernas agora eram duas míseras raízes, mal entranhadas, expostas, frágeis. Sentiu seu pescoço endurecer... soltou um vagido rouco e desesperançado, o pesadelo não terminaria nunca? Já estava amanhecendo, era hora de acordar.

- Aprecie seu o último amanhecer como ser humano – borboleteou a voz da ninfa. Você viverá como um tronco. Apodrecerá lentamente, sentindo a eternidade passar, sem poder se mexer, falar, ver, ouvir. Terá a consciência de um homem, mas a existência de uma árvore. Condenado à solidão e à insaciedade, pois suas raízes nunca tirarão o suficiente da terra, tal qual Tântalo, em seu suplício.



Condenado a ter sua consciência presa em um tronco carcomido,
sentindo a eternidade passar. 
Ele bem tentou falar alguma coisa, mas sua boca emudeceu para sempre. Ainda pôde ouvir a ninfa cantarolando que cuidaria muito bem dele. Para sempre.











Foto: Pixabay


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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

CARMA>Analu Faria

Todas as rodas da vida foram entrelaçadas com todos os possíveis momentos que o tempo dá. Por isso todas as combinações possíveis existem, todas as possibilidades estão abertas. Eu e você somos um ponto nas infinitas retas, nas infinitas curvas das incontáveis combinações possíveis. 

Somos embaraço natural na teia da existência. "Se você maltratar seu irmão, virá como irmão dele novamente, em outra encarnação." No emaranhado das vidas que se seguem a outras vidas, ninguém pode dizer isso. "Aqui se faz, aqui se paga" é coisa de cristão hipócrita. Ninguém sabe a hora nem a forma do retorno.  "Sabemos que o carma existe, só não sabemos como ele funciona.", dizia o mestre budista.

Ah, mas que dilema quando aquele que te fez sofrer está agora em sofrimento! Aflito nas mesmas condições que arquitetou - sim, intencionalmente - aquela dor que te atormentou! Que sentimentos estranhos e contraditórios se confrontam na cabeça, no coração, no fígado! O anjo no meu ombro direito diz: "você já tinha esquecido isso, não se suje ao sentir prazer na dor alheia." O diabo, do lado oposto, afirma e dá fé que, se não tripudio e nem demonstro, é permitido, sim, senhora, sentir aquele gostinho doce de vingança divina.

Durmo pensando que não deveria haver anjos nem diabos. Apesar de eu, em horas de manifestação de (pseudo)carma, admitir com uma boa dose de culpa que acho ótimo a existência dos diabos.


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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ESPERA >> Carla Dias >>


À mesa do bar de sempre, cercado pelos amigos de uma vida, foi espezinhado por falar de amor com deleite petulante. Quem quer saber de floreios diante de tanta miséria? Das casas e das almas? Quem quer palavras das quais nem mesmo entendem sentido para acarinhar comprometimento?

Quem ganhou a partida de futebol de ontem?

Nem mesmo ele entende o que lhe acontece. Esse aperto, esse apreço, esse desespero em forma de felicidade arrependida. Não sabia que era possível gostar de jeito desse, com taquicardia. Engoliu um calmante, pensando que o comprimido aliviaria sua angustia. Dormiu algumas horas e acordou ainda mais atormentado. Entendeu nada e maldisse a bula do remédio. Jurou aos santos de seu apego que daria a volta por cima. Duas horas depois, chorou miúdo de saudade, a lua minguando a perder de vista.

Depois de uma eternidade de trabalho árduo, sentou-se à mesa do bar da esquina, cercado por seus biógrafos de infância. Pediu que viessem garrafas de seu veneno de preferência. Envenenou-se até sentir a consciência comprometida pela coragem covarde de maldizer aquele sentimento. Praguejou o amor com a palavra, enquanto a alma se rendia a ele. Dizia ser impossível enfeitar a miséria com amor, enquanto o amor o engolia.

Essa agonia que o consumia, também paralisava sua realidade. Deu de gastar horas contemplando tempo que passava e horizontes. Cada vez mais silente, de feição grave, tornou-se a preocupação-fetiche dos que o cercavam. E também objeto de escárnio.

Ainda outra noite, sentado à porta de sua casa, a rua movimentada pelo verão que não permitia as pessoas ficarem abrigadas por paredes e telhados, uns moleques aí fizeram coro e cantaram uma versão de uma famosa marchinha de carnaval: olha acara dele/olha a cara dele/ele pensa que amor/é coisa que ele sente/mas o que ele sente/mas o que ele sente/o idiota do amor/sente dor de dente. Depois saíram correndo, as gargalhadas ecoando alto.

Comida requentada, ele aguenta. Não se importa de trabalhar sem folga, domingo a domingo. Aguenta. Usar sapato de sola gasta, de permitir os pés sentirem doído as pedras, isso ele aguenta. O que ele não aguenta mais é se desentender com esse sentimento. Não o compreender, não o aceitar, não aceder aos devaneios que ele inspira.

À mesa do bar de sempre, observado por silentes amigos de uma vida. Eles não têm mais energia para escarnecer do amigo, diante de seu sofrimento. Um deles pergunta se, sendo o contentamento a matéria-prima do amor, como o amigo pode se esbaldar desse jeito em tristeza? O outro questiona essa lamentação toda diante do que, rezam as revistas e as telenovelas, deveria ser algo capaz de dar força, em dias de tempestades lascadas, e de proporcionar prazer. Por que dói tanto nele?

À mesa do bar de sempre, esquina da sua casa de uma vida, na companhia de seus amigos de infância, após um dia de trabalho que mantém há décadas, ele confessa, o coração rendido à taquicardia, que sua aflição vem do fato de que ele ama, e ama intensamente, alguém que ele ainda não conheceu, e que a espera tem sido excruciante e vazia.

Silêncio.

Então, um grita pela próxima cerveja, o outro gargalha e diz que o clube do seu coração precisa trocar o atacante para ganhar campeonato. Tem aquele que pede para o dono do boteco soltar aquela do Waldick Soriano, que é para ornar com o momento coração partido por antecipação, de seu companheiro de pileque. E ainda o outro que começa um discurso enviesado sobre o preço que cobraram pela funilaria do seu quatro portas.

Ele engole um calmante com uma dose de pinga, rezando para Deus e o diabo, que aceita ajuda de qualquer um capaz de curar essa desolação. Que amar quem ainda não se conheceu é sonhar com o céu, enquanto mingua no inferno.

À mesa do bar, ignorado pelos amigos, ele cantarola bem baixinho: olha a cara dele/olha a cara dele/ele pensa que amor/é coisa que ele sente/mas o que ele sente/mas o que ele sente/o idiota do amor/sente dor de dente.

Sente amor pelo ausente.


Imagem © Christian Rohlfs


carladias.com



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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

AI, MEU CORAÇÃO! - V >> Albir José Inácio da Silva

Continuação de 6 de fevereiro:

(Tentando trabalhar, Bóssi sentiu crescer a angústia pela falta de notícias. Sua mente divagou pelos antecedentes não muito recomendáveis do pupilo e pelos acontecimentos dos últimos dias.)

Foi assim que Bóssi encontrou Neném há vinte anos, desprezado e ameaçado por toda Tarietá, sem estudo, sem trabalho, sem perspectivas. Mas Bóssi sempre tinha perspectivas para todos.

Neném tinha dezessete anos quando entrou para o time do Tarietense, em mais uma tentativa da mãe zelosa comprar para o filho alguma direção na vida. Bóssi costumava assistir os treinos do clube. Aquele garoto não jogava grande coisa, mas era aguerrido, catimbeiro e disponível. Passava o dia no clube em conspirações e intrigas. Bóssi viu potencial.

De início pediu alguns favores, tarefas simples que o moleque cumpriu com diligência. Neném foi se aproximando com interesse pelo clube e paixão pela camisa.

Entre os amigos da sociedade tarietense não faltaram críticas ao novo ajudante, nada se ouvia de bom sobre ele. Mas como ele não estava procurando um relações-públicas, não deu ouvidos. Em pouco tempo Neném já era o seu braço direito. Tarefas que antes não podia confiar a ninguém encontraram em Neném um despachante determinado e sem escrúpulos. Não que tenha se emendado. Nada mudou na essência. Foi adestrado, dirigido e protegido por Bóssi.

Não se pode dizer que o plano era de Neném - incapaz de elaborações mais complexas. Mas a verdade é que Bóssi tentava superar a derrota nas eleições, quando um inconformado Neném vaticinou:

- Algumas vitórias podem fazer muito mal à saúde.

Daí em diante foi com Bóssi. Essa era sua especialidade. Voltaram ao clube, tinham saído sem falar com ninguém depois da apuração. Cumprimentaram Araquém pela vitória, Bóssi entregou-lhe as chaves e marcou uma reunião para o dia seguinte, antes da posse, para tratarem da transição. O resto já conhecemos.
                                          
Apesar da preocupação de Bóssi com os faniquitos do pupilo, ele se saiu muito bem e desapareceu na estrada. Mas agora a falta de notícias já estava dando nos nervos. Onde se meteu aquele moleque?
                                                                  
                                                                         O ACIDENTE

Naquela manhã Neném pulou na garupa da moto com o coração aos pulos. Era disso que gostava, esse era o seu talento. Quase agradecia a Deus por terem perdido as eleições. E agora agradecia mesmo o sucesso do dia em breves orações acompanhadas pelo sinal da cruz.

Talvez com ciúmes pela traição de uma alma que já considerava sua e agora se desmanchava em preces, uma entidade vingativa trouxe para o asfalto limpo e brilhante, naquela manhã de sol, um paralelepípedo. Por que um paralelepípedo, se não os havia num raio de quilômetros? Não sei, mas há quem diga que isso reforça o caráter sobrenatural do acidente.

Desgovernada, a moto se precipitou pelo declive suave de um bananal à margem da estrada e os ocupantes foram arremessados para cima antes de caírem no chão. O chão pedregoso estava então coberto de folhas e caules de bananeiras da última colheita.

O piloto se examinou sem achar maiores estragos. Só escoriações e uma torção no tornozelo direito. Quando a tonteira passou, pôde ver Neném caído muitos metros abaixo. Usando um galho como muleta, ele mancou até lá.

Neném acordou. Firmou-se nos cotovelos e levantou a cabeça. O piloto pode ver o sangue que lhe escorria do nariz, descia pelo queixo e encharcava o peito.

- Neném, você tá bem?

Neném baixou os olhos para o sangue que pingava no chão e deu um grito:

- Ai, meu coração! – e desmaiou de novo.

O outro entendeu que era dor no peito, pensou em infarto, e viu que o companheiro estava perdendo muito sangue. Era grave, precisava de ajuda.  Neném levantou de novo a cabeça e suplicou:

- Um padre! Preciso me confessar! – disse, já num fio de voz, e apagou.


(Continua em 15 dias)


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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

COMPAIXÃO >> Paulo Meireles Barguil


"Apesar de tudo, Jesus dizia:
'Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo!'”
Lucas 23, 34
 
Depois de várias chicotadas físicas e emocionais, Cristo, embora fragilizado, permaneceu firme.
 
Em meio à máxima dor, Ele continuou a nos ensinar.
 
Somente a Luz consegue ver, através do corpo, singelo véu, a alma.
 
O vício de julgar o outro expressa, cristalinamente, o quão cindido está o censor, embora ignore tal fato.
 
É por esse motivo que Jesus, sem cessar, orvalha sobre nós gotas de compaixão.
 
Somente quem acolhe a si pode abraçar o outro, ao invés de afastá-lo.
 
A mão, antes tão célere para apontar e destruir, agora, apressa-se para aconchegar e cuidar.
 
A língua, outrora demasiada áspera, converte-se em ondas sedosas.
 
A origem e o destino de todos nós é o mesmo: AMOR.
 
Que privilégio é mergulhar, enfim, nesse oceano.


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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

SAIA DO PEDESTAL >> Mariana Scherma

Pôr a mão na massa é vida. Não literalmente a mão na massa porque não sou muito cozinheira, mas viver as experiências ativamente, participando delas, tira você da condição de espectador dos seus dias. Sem contar que isso é ser gente como a gente (amo essa expressão). Você ganha em experiência, em know-how e em respeito.

Sim, respeito. Porque uma coisa é você ser aquele chefe que só manda, manda, manda mais um pouco e, na sequência, cobra agilidade. Outra coisa é você fazer junto (ou já ter feito) e saber exatamente como isso leva tempo e quais as dificuldades que cada tarefa demanda. Minha mãe sempre teve comércio e o que escuto dela é: “não dá pra deixar na mão só dos funcionários”. Ela trabalha mais que todo mundo na sua loja, é a única que não tira férias e explica incansavelmente tudo pra todos. Meu exemplo.

Para trabalhar, optei por algo que não fosse meu. Não sei até quando isso vai durar, mas, enfim, caí numa função de referência. Diferente da minha mãe, confio na equipe, que sempre dá o seu melhor. Mas a posição de líder da equipe não me subiu à cabeça (tal qual minha mãe): eu faço tudo igual às outras, mas um pouco menos, já que tenho outras obrigações que elas não possuem.

Dar uma ordem tem mais sentido quando você sabe o que está fazendo, corrigir alguém é outro esquema quando você entende o erro. Pra tudo na vida, faz mais sentido quando você não senta em um pedestal e fica mandando lá de cima. A gente precisa se juntar com os nossos. É por isso que adoraria que filhos de presidente, governadores e tudo mais usassem o SUS, fizessem Ensino Médio nos colégios estaduais e a faculdade aqui no Brasil mesmo. Seria o máximo.


Pra política ou qualquer outra coisa dar certo, é necessário compaixão e empenho. Se seu chefe possui essas duas qualidades, sorte a sua. Porque nossos governantes, na maior parte das vezes, não têm nem uma nem outra.



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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

VAZIEZ >> Carla Dias >>


Acreditava que morreria cedo.

Mãe, pai, tia e tios e outros tantos parentes e chegados da família viviam a brigar com ela, toda vez em que a menina, franzina de experiências, verbalizava, escolada de certeza, que ela morreria cedo.

Sabendo do tempo o limite, desde que aprendeu como, começou a escrever cartas para quando os irmãos fossem adultos e nascessem os sobrinhos. Também escreveu cartas aos pais, a maioria tentando convencê-los de que já podiam deixar o luto desanuviar e voltarem a sorrir, assim, com alegria presente.

O que mais a incomodava eram as relíquias. Não sabia a quem deixar sua coleção de pedras em formato de coração. No dia em que a professora mostrou a ela a imagem de um coração verdadeiro, o músculo, a menina abriu o maior berreiro. Onde já se viu mudar uma certeza dessa forma? Desde sempre, coração era o do pingente de seu colar, dos livros que ela adorava, dos desenhos que enfeitavam os bilhetes que sua mãe escrevia para ela ler, enquanto tomava café da manhã.

A professora explicou direitinho, e até convenceu a menina de que tudo bem ela adorar o coração que conhecia, que nele tinha uma tal de poesia vivendo. Porém, veja bem, menina, que esse músculo é de beleza ímpar. Quem já o observou batendo compassado, sabe bem de que se trata da vida na intimidade de sua coreografia.

Ela manteve a coleção de pedras em formato de coração-poesia. Nasceu com ela a certeza infame de que logo morreria, quando seu coração-músculo decidisse que tempo era coisa que ela não teria mesmo se desejasse muito; que pedisse ajuda extra ao seu anjo da guarda.

Cada minuto de sua vida de menina foi preenchido com um algo a fazer, um desejo incontrolável de conhecer, de aprender, de escutar e responder na lata mesmo. Sua língua sempre foi destravada, e na conta dela, levou puxão de cabelo e soco no nariz.

Padres tentaram convencê-la do pecado horrendo que era esse negócio de prever, ainda mais a morte. Ainda, ainda, muito ainda mais a própria morte. A psicóloga se dedicou à missão de para fazê-la compreender que era uma bobagem esse pensamento. Fez a menina responder umas perguntas que ela nem entendia direito do que se tratavam. No final, nem os servos de Deus ou da ciência a convenceram do contrário.

Há alguns anos, substituiu as folhas de caderno escritas coloridamente pelo documento com assinatura reconhecida em cartório. Não quer estar desprevenida, quando a coisa de fato acontecer. Os pais aceitaram que ela jamais abandonará essa certeza ferina. Hoje, eles ajudam a colocar em ordem papéis e alterar beneficiados do testamento da filha.

Anda pela casa a passos lentos e silenciosos. Ninguém percebe que ela está no recinto. Os pais se acostumaram com a ausência dela, mesmo quando ela está ali, na mesma sala que eles. Às vezes, falam sobre a filha como se ela não existisse mais. Os parentes ignoram a existência dela, o que cria confusão na disposição das mesas das festas de casamento e batizado. Ela acaba sempre na barra da saia da sobra. Aquele lugar desapropriado feito ela.

Trabalha quase doze horas por dia em uma loja de conveniências. Tudo que aprendeu sendo a menina que duraria pouco, calou-se diante do tempo esticado. Treinou a vida toda de menina para que a vida acabasse ali mesmo: na meninice. Nunca treinou para ser adulta e isso a deixa confusa e a mantém isolada.

Transferiu a guarda das suas pedras em formato de coração-poesia para vários homens que alimentaram seu desejo, mas sem saberem. Foram várias alterações no cartório, horas despendidas em amor platônico. Lágrimas derramadas com soluço engolido.

Sua certeza definhada, alinhavada pelas experiências forjadas na experiência dela ter duração que ultrapassou a sua previsão de existência. Pensa no seu coração-músculo, miúdo diante da vida. Tão quieto, sentenciado a uma cadência morna. Não há tempo para reaprender o destino, fazer uma releitura apurada de sua importância de prazo vencido.

Passa horas a tricotar agasalhos que seus irmãos jamais usarão. Come para o corpo responder aos movimentos. Sente-se confortável na invisibilidade que lhe cabe, como pássaros que vivem em gaiolas, sem que lhe percebam a presença ou escutem seu canto. Nada mais lhe assanha o espírito.

Não consegue compreender como pôde ter ido além, tornando-se adulta. A menina acreditava que morreria cedo, mas então que esse cedo se tornou tão longo, que ela não sabe o que fazer com o tempo.

E ao tentar preenchê-lo, esvazia-se.



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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

BEM VINDOS AO FIM, DE NOVO >> Clara Braga

O mundo vai acabar de novo! Você ainda não está sabendo? Pois trate de se preparar, pois temos apenas até o dia 16 para vivermos felizes, depois o mundo acaba!

Aparentemente os cálculos foram feitos por um cientista respeitado, e ele afirma que no próximo dia 16 um meteorito irá colidir com a Terra e acabará com o planeta de uma vez por todas.

Várias foram as vezes que ficamos apreensivos com esse papo de fim do mundo, essa não seria a primeira vez que alguém define o dia que o mundo irá de fato acabar, mas como nas outras vezes a previsão não vingou, talvez seja melhor não mudar muito a rotina.

Continue passando repelente, a situação da febre amarela anda grave mesmo e se o mundo não acabar você não vai querer aproveitar os próximos dias doente, não é mesmo? Principalmente porque se o mundo não acabar significa que teremos carnaval! 

Também não se anime a se arriscar muito, não fique sozinho na rua em lugares escuros, os sequestros relâmpagos estão cada vez mais violentos, principalmente se você for mulher. 

Se decidir passar os possíveis últimos dias de vida viajando, não passe a bagagem de ninguém desconhecido no seu nome e nem leve encomendas de pessoas que você não conhece, essa tem sido há um tempo uma bela tática para transporte de drogas e se o mundo não acabar você vai passar uns bons dias na cadeia. 

Aliás, se for viajar vale fazer uma economia maior, agora até a bagagem vai ser paga, mas o preço da passagem que é bom não cai. Escolher o destino também é uma arte, se quiser ir pro exterior comece a rezar, com Tio Trump pode ser que fique difícil acessar alguns lugares. E com a crise então, são poucos que tem dinheiro para ir a algum lugar. 

Agora, se você quiser ir para algum lugar no Brasil, só tome cuidado com as greves da polícia, nossa sociedade já mostrou ser bem corrupta e precisar de policiamento para garantir a paz e a ordem. 

Pensando bem, acho melhor eu me preparar para o fim do mundo mesmo, pois se esse meteorito não colidir com a terra na quinta-feira, o homem se encarrega de um fim que não aparenta estar tão distante assim!


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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CERVEJA QUENTE >> André Ferrer

Antes do Carnaval, a Quarta-feira de Cinzas. O boi da realidade é quem puxa o carro alegórico em 2017. Em nome da tradição, o brasileiro insiste. Procura esquecer. Nem pensa que a festa, talvez, não chegue a ser plena. Fareja o fracasso na maioria dos quesitos, mas não deixa de se fantasiar.

É fevereiro e essa gente bronzeada só faz dissimular a ansiedade. Todo mundo atingido naquilo que tem de mais valoroso. Nem mesmo as tardes prolongadas na orla excederão, este ano, ao festejo momesco. Em 2017, o Horário Brasileiro de Verão termina antes do Carnaval e, como tudo indica, é também quando termina o prazo para qualquer adiamento. Apesar de tudo, sustenta-se a tese de que nada suplanta a alegria. Nem mesmo a impossibilidade de adiar um pouco mais o início do ano.

Entre dois carnavais, construiu-se a civilização brasileira. Uma espécie de pele social que, de maneira precária, envolve um arcabouço constituído tão somente pelos dois instintos básicos do ser humano: alimentação e sexo. Feito de adiamentos, jeitinhos e conversa fiada, o couro da civilização brasileira parece, agora, enfrentar uma prova sem precedentes.

Com o grande provedor, que é o governo, desacreditado, a sensação é a de que as necessidades mais básicas, em breve, estarão ameaçadas. De fato, um episódio de cidade sitiada e saques à luz do dia, como o que assistimos direto de Vitória, Espírito Santo, reitera essa preocupação. Incapaz de se livrar do círculo vicioso dos improvisos e de resolver efetivamente os problemas da sociedade, o brasileiro, de repente, descobre-se numa situação-limite. Pior: às vésperas de um Carnaval particularmente avesso a adiamentos.

A vida de um povo como o nosso é orientada pelos instintos básicos. Trata-se de uma falsa civilização já que o aperfeiçoamento, requisito para a verdadeira civilização, é só aparente por aqui. No Brasil, existe um verniz de civilização. Ele é muito... mas muito, delicado. Tão frágil, que se rompe quando a cerveja não está gelada.


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sábado, 11 de fevereiro de 2017

ENTÃO CHEGOU A TECNOLOGIA... >> Sergio Geia



Pode ser um saudosismo bobo, mas tenho saudades do tempo em que se ouvia o futebol pelo rádio. Às vezes, era apenas chiado; às vezes, o chiado se misturava com a narração; às vezes, a estação sumia; sem mais nem menos, voltava, e o jogo parecia tão disputado, mas tão emocionante, repleto de lances espetaculares, que tudo que queríamos no dia seguinte era assistir aos melhores momentos na televisão.
Lembro-me de um Palmeiras e Santos; no gol do Santos havia um uruguaio chamado Rodolfo Rodrigues, um goleiro extraordinário; o Palmeiras tinha um centroavante chamado Reinaldo Xavier, que havia jogado no Taubaté, e que hoje, pelo que sei, vive por aqui. O Santos ganhava, e faltando poucos minutos para o fim da partida, Reinaldo fez um gol espetacular, por cobertura, em cima do quase perfeito Rodolfo Rodrigues. Um gol maravilhoso, que se tornava maior na voz comovente do narrador José Silvério. A torcida gritava: “Rei! Rei! Rei! Reinaldo é o nosso Rei! Rei! Rei! Rei! Reinaldo é o nosso Rei!, e o Geia vibrava de alegria.
Outra lembrança doce que me chega agora era aquele sinalzinho do plantão do rádio informando a ocorrência de gol em outra partida. Você lá, concentrado no jogo do seu time, e o sinalzinho tocava; logo, o plantonista avisava que seu maior rival havia levado um gol; era tudo muito divertido e muito eletrizante.
Hoje todos os jogos são transmitidos pela televisão. Isso é uma coisa esplêndida, mas sepultou a fantasia, a mágica. Trata-se do mesmo fenômeno que ocorre quando a telona faz apequenar tudo o que você constrói de lugares, vilarejos, personagens e situações daquele romance lido.
Agora, que fique claro: em absoluto falo mal da tecnologia. Ao contrário, o avanço tecnológico, principalmente a chegada da internet, trouxe muita coisa boa pra muita gente. Lembro que ainda engatinhava no plano do Direito e se quisesse ter acesso a uma boa jurisprudência, tinha que fazer assinatura. Hoje, está tudo aí, disponível, à farta, de graça.
Esse deus representou uma verdadeira revolução na dimensão do conhecimento humano. Ele democratizou o acesso ao conhecimento. Somente quem viveu numa época em que não havia a internet tem condições de dimensionar o nível de transformação e de reprodução do conhecimento humano que ela representou...
Mas eis que tinha começado a escrever essas coisas havia dias (deixei-as lá, cozinhando), quando fui surpreendido nessa manhã por uma história interessantíssima contada pelo Milton Neves, no jornal “Pulo do Gato”, da Rádio Bandeirantes, que veio bem a calhar.
Eram histórias sobre os radioescutas. Esses jovens (normalmente eram jovens), durante a transmissão de uma partida, ficavam ouvindo os outros jogos da rodada; saindo gol ou ocorrendo algo importante, eles avisavam ao Milton, que, responsável pelo plantão esportivo da rádio, informava no ar. Com a internet, essa figura do radioescuta desapareceu. Eram dez ou doze, apertados, enfileirados, com fone de ouvido, cada um numa estação. Num sábado, José Silvério narrava Palmeiras e Guarani, e Milton, com sua equipe, acompanhava os outros quatro jogos da loteria esportiva, dentre eles, Flamengo e Madureira. Um radioescuta, estreante, de 17 anos, ouvia a rádio Globo, e tão logo começou o jogo, anunciou: “Gol do Madureira”. Milton deu a informação no ar, para susto do narrador. Alguns minutos depois: “Novo gol do Madureira”; o narrador levou outro susto e começou a se irritar (a chance de o Madureira fazer um gol no Flamengo dos anos 80 era remotíssima). Em seguida, o radioescuta levantou o braço: “Gol do Madureira”. Depois de Milton anunciar esse terceiro gol, o Silvério, inconformado, o chamou na técnica para a confirmação do resultado (o narrador não acreditava). Minutos depois de voltar ao estúdio o radioescuta não titubeou: “Gol do Madureira”. Foi quando Milton resolveu checar a informação, e aí a surpresa: “Placar Brahma Chopp no Maracanã informa: Campeonato Carioca de... Aspirantes”. Milton, envergonhado, tentou consertar o imbróglio, mas piorou a coisa dizendo no ar: “Atenção, Silvério: o árbitro no Maracanã acabou de anular os quatro gols do Madureira; o jogo não começou; vai começar daqui a uma hora...”.
Então chegou a tecnologia e tudo mudou... 
Ilustração: www.idocod.com.br


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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A NINFA - Parte I >> Zoraya Cesar

Entrou no sítio sentindo-se como Júlio Cesar na Gália. Imponente, arrogante, vitorioso. Mesmo não tendo, é certo, a grandeza do nobre imperador. Nada tinha, aliás, de honrado.

Ao contrário do avô – homem íntegro ao extremo. Avô esse que nunca o suportara, antevendo e pressentindo a natureza malévola do moleque doce e quieto que todos achavam tão engraçadinho. Após a morte do avô, o neto, fiel à sua natureza, conseguiu, por falcatruas inomináveis, passar a família para trás e herdar-lhe o bem mais precioso. 

O sítio. 

Que valia muito dinheiro, sem dúvida. Ninguém, porém, pensaria em desfazer-se daquele lugar sagrado, distante do mundo, do qual o avô cuidara com as próprias mãos, um sítio que estava na família há gerações. 

E ele? Pretendia vendê-lo? Talvez, depois. Naquele momento, só queria sentir em suas veias, qual lava incandescente, o fervor da vingança, destruindo pelas próprias mãos tudo o que o avô construíra e o resto da família amava. 

Vocês, que são pessoas boas, talvez estranhem sentimento tão torpe, e desejo tão sórdido, mas assim é a natureza humana, não se enganem. 

Havia quem se apaixonasse pelo sítio à primeira vista, caindo de amores pelo enorme bosque, de árvores frutíferas e outras, nativas, de madeira nobre, centenárias, raras. Era sombrio e úmido, o bosque, intenso em seu verdor, em seu cheiro de seiva, em seus sons misteriosos. 

À entrada do bosque, descansava um pequeno lago, de águas escuras e profundas, como os olhos de um cigano. Manacás de cheiro e damas da noite inebriavam os sentidos de quem sentasse às suas margens (mais de uma pessoa relatara experiências místicas ao restar ali por muito tempo). Você poderia passar o dia ali, sentindo a brisa roçando na penugem de seu corpo, como se mínimas asas de borboleta esvoaçassem em sua pele; ouvindo a conversa melodiosa, às vezes, estridente, dos pássaros. Ao anoitecer, você veria, já completamente embriagado pelas maravilhas do dia, a luz dos pirilampos brilhando como estrelas felizes ao seu redor, enquanto o pio da coruja anunciava aos animais noturnos que era hora da caça. Sapos coaxavam harmoniosamente, como se orientados por um maestro invisível, acompanhados por insetos incontáveis. Você poderia, sim, passar o dia ali, conversando com sua Alma (você, talvez; o neto, nunca).

O Aspen, a árvore trêmula,
assombrada por
 medos inexplicáveis
Ou, talvez, você preferisse aventurar-se a entrar no bosque? Perder-se entre as árvores, comover-se com a insistência dos cogumelos orelhas de pau em demonstrar que um tronco morto é um berço de vida, e que nada, na natureza, é desperdiçado. Sentir o cheiro de húmus, penetrante, pungente, quase uma presença física. Você poderia passar ali uma vida, sem conhecer todos os meandros do lugar. 

A casa era um primor à parte. Essencial. Simples. Aconchegante. Toda em pedra, tijolo e madeira, recoberta por trepadeiras que floriam glicínias e buganvílias. Havia grandes janelas em cada parede, de forma que nunca se perdia de vista o lago, o bosque ou o jardim, onde aspens trêmulos
sussurravam seus medos às rosas e girassóis que cresciam ao seu lado.

Se pudéssemos definir aquele lugar mágico, belo, envolvente em uma, e apenas uma, palavra, seria ‘encantador’. 

Uma pessoa, porém nada via naquilo tudo que não um estorvo. Detestou cada milímetro de terra, cada folha caída, cada tronco de árvore, cada canto de pássaro, cada lufada de vento, cada tamborilar de chuva no telhado. Detestou, principalmente, a árvore que ficava de frente para o quarto. A primeira coisa que via ao acordar era o enorme tronco, antigo, alquebrado, a casca rugosa e áspera. Não havia folhas em seus galhos ressequidos, que se estendiam para o céu como se gritassem um último pedido desesperado de socorro. Uma árvore com uma longa história de vida, que fora plantada
Uma árvore antiga,
plantada para resistir ao Tempo
e dele ser confidente.
por mãos desconhecidas, há muito enterradas às margens do rio do olvido. Uma árvore que, deixada por sua conta, ainda manteria, por tempos incontáveis, suas fortes raízes incrustadas nas profundezas da terra.

Seu destino, porém, já fora traçado. O neto decidira que a primeira a ser derrubada seria aquela horrenda árvore maldita, que lhe lembrava o avô. Só não a cortara ainda por causa dos pesadelos.

Continua dia 24/02 a 2ª e última parte.




Foto Aspen: in Pixabay
Foto Árvore:  Frantzou Florine in Unsplash


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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

UMA PAUSA DE MIL COMPASSOS>>Analu Faria

Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos


(Paulinho da Viola)

Onde sentar? No sofá? Macio demais, como a cama. Não dá, tem que ser disciplina, tem que ser um projeto de vida, não dá pra ser macio. Além do mais, vou me sentir relaxada demais, vou querer deitar, vou acabar dormindo. Quantas respirações profundas? Três, quatro? Quatro. Agora posso respirar normalmente? Ok, respirando normalmente. Como é mesmo? Rotulagem mental:  estou respirando, estou respirando estou respirando estou respirando estou respirando. Tá bom, chega, assim eu vou dormir ou ficar louca. Eu paguei a conta de luz? Paguei. Paguei? Ai, foi ontem. É, paguei. Opa, voltando. Prestando atenção na respiração. Ai, será que está certo? Tem que estar certo. É só respirar e prestar atenção. Inalando, exalando. Ok, é isso. Tá funcionando. Tá funcionando? Deve estar, e agora? Olhe para o silêncio. Que silêncio? Silêncio era o que pairava na casa depois que meus pais brigavam, quando eu era criança. Silêncio é o que pairou no quarto depois da primeira vez que transei. Silêncio é o que existe logo depois que meu despertador toca, às cinco da manhã. Silêncio é aquele minuto eterno nas homenagens que fazemos aos mortos. Isto não é silêncio. Bom, voltando. Inspira, expira. Talvez seja bom voltar a rotular: estou respirando. Respirando e pensando. Pensando à toa, no silêncio. Não consigo fazer silêncio, consigo pensar no silêncio. Será que consigo escrever sobre o silêncio? Novamente: voltando. Não, pera. Não tem uma música que fala de silêncio, aquela do Paulinho da Viola, que a Marisa Monte canta? Ai, é uma música meio triste, né? Será que o silêncio é triste? Será que algum dia, algum momento, aqui em casa, sentada de pernas cruzadas no tapete, só eu acordada, o gato dormindo, o mundo dormindo, vai haver silêncio? Voltando: estou respirando. Respirando e pensando, respirando e pensando, respirando e pensando sem pausa, sem pausa, sem pausa, sem compasso. 


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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

INCRÉDULO >> Carla Dias >>


Em pleno momento caótico, tudo virado ao avesso, uma eterna ressaca de maledicências, eles chegam e tomam o recinto. Como podem se manter indiferentes às ocorrências baseadas no fatídico?

É difícil de engoli-los, eles e suas reverberantes frases feitas, uma mistura de literatura dispensável, música alienável, cinema descartável, comida de micro-ondas, bebida direto de embalagem longa vida.

Quando dão de recitar sentimentos, em monólogos encenados à luz de velas, é como se cravassem um punhal no peito da realidade. Como podem desfilar por aí desse jeito, menosprezando a fatalidade, a miséria que assola o mundo?

Anda tudo tão feio, de feiura que nem campanha de marketing consegue disfarçar. Anda tudo tão peso, dor, desespero, violência. A alma da gente se encharca de tragédias e impotência. Tudo tão berro, soco no estômago, solidão.

E eles caminham por aí, distraídos em ruas abarrotadas de injustiças, preocupados com pormenores, alienados por um egocentrismo amplificado. Curvam-se a um deslumbramento que os hipnotiza, e escolhem se perder nele, assim, em momento de crise, de desespero coletivo, de falta de fé em futuro, políticos, líderes e em si.

Tudo tão soluço, desespero, tédio. Há essa sensação de vandalismo existencial, sabe? Parece que seremos todos rasgados, feito papel sulfite, durante o comercial de margarina. Tudo em nome do superlativo, que estamos em momento em que somente o exagero tem seu espaço.

Enquanto isso, lá vão eles...

Mãos dadas, silêncio aprazível em meio ao caos. Troca de olhares pueris prefaciando luxúria de primeira grandeza. Por certo, rondam um o desejo do outro, e acabarão se enroscando em algum cômodo por aí. Promessas fazem parte do repertório, e eles sabem que elas são frágeis. Ainda assim, eles as usam como se fossem confetes atirados ao ar, em dia de Carnaval.

Como eles podem, em momento de fragilidade constante, mergulhar em amor? A época é de guerra, de corte, de miséria estandarte, de maledicência fazendo a vez de protagonista de manchetes. Momento do “eu e eles”, dos corações partidos, dos homicidas de futuro, dos falsos profetas, dos cortes na verba e do verbo defendendo o indivíduo, em um belo “dane-se” ao coletivo.

Como podem, em tempo de intolerância e separatismo, juntar-se aos pares, caminharem aos sorrisos, misturarem-se a outros, mais tarde, para dizerem bem o amor, que eles sabem, adora passear em labirintos e visitar tempestades?

Daqui, de onde os observo, da minha solidão de consciente das intempéries, eu posso garantir que os amantes não sabem o que fazem.

Imagem: Lovers in the Lilacs © Marc Chagall



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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

UM SEM QUERER QUASE QUERENDO >> Clara Braga

Foi sem querer!

Foi sem querer que eu fui naquele show aquele dia e acabei te encontrando.

Foi sem querer que eu deixei o rádio ligado em uma estação que não costumo ouvir e acabei conhecendo aquela banda que hoje sou fã.

Foi sem querer que eu troquei de bolsa sem nem olhar o que tinha dentro dela e, por sorte, meu guarda chuva estava lá! Me protegeu de um belo pé d’água.

Foi sem querer que eu esqueci a chave do carro no quarto e tive que voltar para pegar exatamente na hora que o elevador chegou. Perdi uns minutos, mas quando voltei o elevador tinha parado! Imagina se eu fico presa dentro dele? Ia ter um treco.

Foi sem querer que eu disse pro universo que não queria conhecer ninguém tão cedo, uma semana antes de você aparecer. Pra minha sorte o universo me ignorou. Aliás, já percebi que o universo sabe muito melhor do que eu o que deve ser feito.

Enfim, tanta coisa boa já me aconteceu como consequência de situações que por mim nunca nem teriam acontecido, que eu venho aprendendo aos poucos a gostar mais e mais dessas situações inesperadas! Quem diria!


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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

AI, MEU CORAÇÃO! - IV >> Albir José Inácio da Silva

Continuação de 23/01/17:

(Bem recebido na delegacia, Bóssi repetiu a história do assassinato em depoimento formal. Saiu satisfeito com o próprio desempenho e com o desenrolar dos acontecimentos dentro do previsto. Nem sombra ainda de preocupação).

Bóssi voltou para o clube, o que não lhe faltava era trabalho até as eleições. E por onde andaria Neném, que não deu notícias até agora? Não estava no clube nem telefonou.

Para Bóssi, Neném era sim de confiança, no sentido de não o trair, mas isso não significava ausência de problemas. Era preciso mantê-lo por perto, sob vigilância. Bóssi tentava se tranquilizar - não havia mais o que dar errado. Mas cadê o Neném?
                                                                         
                                                                         NENÉM

O apelido de Neném quase dá conta de sua definição, se considerarmos os seus quase trinta anos. Não porque pareça um bebê doce e sorridente, mas por suas atitudes a um tempo cruéis e infantis.

Sua mãe sempre o chamou assim, enquanto lhe passava a mão na cabeça a cada novo delito na rua, na escola e na igreja. Ele batia nos colegas menores e fazia escândalo se tinha de enfrentar os da sua idade.

Certa vez, ficou internado em convulsões porque levou um soco no nariz depois de agredir um garoto com metade do seu tamanho. Neném desmaiou ao ver o sangue escorrendo do nariz, teve convulsões e só se acalmou depois de sedado no hospital.

A caderneta de vacinação de Neném deu trabalho para ser preenchida. Eram precisos quatro enfermeiros para segurá-lo, em meio a gritos, pontapés e dentadas.

Roubava, mentia, intrigava e se escondia sob as saias da mãe. Não estudava, não fazia os trabalhos, mas as professoras o iam passando de ano, ameaçadas pela mãe e na expectativa de que saísse da escola ou pelo menos da sua turma.

Quando não estava paparicando o filho, a pobre mulher estava na igreja. Padre Antônio não tinha muita paciência com aquela beata maledicente e barraqueira, mas a contribuição era generosa e ela não fugia das tarefas na paróquia.

Foi por isso que, quando a mãe viu ameaçado o seu rebento por incomodados de todas as idades que quiseram dar-lhe um corretivo, o padre teve de recebê-lo na sacristia e conter os ânimos dos justiceiros.

Não durou quinze dias a paciência do padre. Neném roubou o dinheiro das ofertas, vendeu peças sagradas e seduziu fiéis de todos os sexos. A mãe disse que o padre era mais um a perseguir seu filho. E assim Neném atravessou a adolescência.

Mas não pensem que a falta de fé inspirava esses desatinos. O fervor religioso parece ter sido a única coisa que a mãe conseguiu incutir-lhe na cabeça. Muitas vezes, depois de uma noitada de vandalismo e drogas, Neném sentava-se ao lado da mãe na igreja, mexendo os lábios em contritas orações, sob o olhar furibundo do padre.

E insistia em se confessar, para desespero do Padre Antônio, que ouvia as barbaridades. Crimes perpetrados pelo pequeno Lúcifer, como costumava pensar, sem poder fazer nada por causa do sigilo da confissão. Inocentes foram acusados por atos de seu confidente e ele não aguentou mais. Chamou a mãe e disse a ambos que não o aceitava mais em confissão e nem sua presença na igreja.

A desfeita do Padre, entretanto, não abalou a fé de Neném. Ele e sua mãe passaram a frequentar outra paróquia em que foram bem recebidos porque generosa a mãe e desconhecido o filho. A promessa de Padre Antônio, como exigiu a genitora, era não “envenenar” a cabeça do outro sacerdote contra o seu bebê.

E foi assim que Bóssi encontrou Neném há vinte anos atrás, desprezado e ameaçado por toda Tarietá, sem estudo, sem trabalho, sem perspectivas. Mas Bóssi sempre tinha perspectivas para todos.


(Continua em 15 dias)


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

GRATIDÃO >> Paulo Meireles Barguil


Agradecer, ensinam os sábios, é o caminho para ser feliz.

Ou melhor, é a própria plenitude.

Celebrar o que se tem, o que se é.

Olhar para o presente e nele mergulhar, dissipando-se no Cosmos.

Quanto ao futuro, ele é apenas um talvez com várias possibilidades.

Em qualquer uma delas, o que importa é que você seja um bálsamo de luz!

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

QUANDO NÃO SE É BEM-VINDO >> Mariana Scherma

A gente só visita a casa de quem nos chama, não é? E é bom visitar, levar um pouco de amor, um bolo quentinho, um abraço. Na volta, a gente vem sempre cheio de lembranças. Preguiça de sair de casa sempre há, mas escapar uns dias da nossa bolha pessoal faz bem. Claro que tem as visitas que fazem a gente querer colocar a vassoura atrás da porta (isso funciona?), mas shit happens, ué.

Viajar é exatamente a mesma coisa. O planejamento, a pesquisa de locais pra conhecer, de pratos para experimentar... Qualquer viagem é sair um pouco da bolha da sua vida e voltar transformado em algum sentido. Nem precisa ser uma viagem a Paris. Ir para uma cidade aí do nosso próprio estado já está valendo. Claro que a gente volta com a sensação melhor ainda quando os nativos nos recepcionam com amizade e educação.

Sim, agora vou falar de Donald Trump. Pessoalmente, minha regra de viagem é: conhecer países que aceitem nossa entrada sem visto, sem ter que pagar pra ser bem-vinda. Por isso, nunca fui aos Estados Unidos. Sei que as pessoas falam da modernidade de lá, dos hambúrgueres, de Nova York, do paraíso de compras em Orlando, mas não, obrigada. Eu fico com a Ponte Carlos em Praga, o resto do muro de Berlim (que mostra tão bem que erguer muros para separar pessoas não dá certo), a Cartagena de García Márquez, o Coliseu... Tem um mundo pra ser visto que vai além da turma do Mickey.

Ir a outro país é deixar de ser tão você e absorver novas culturas. Os países também absorvem a cultura de seus visitantes. E a riqueza está nessa troca. A gente nunca vai ser uma ilha. Ou por que raios a comida mexicana é tão presente no hábito dos estadunidenses? Ah, claro, e os prédios maravilhosos que todo mundo visita em Nova York foram construídos apenas pelo povo do país? Vai nessa.


Trump e seus parças andam dizendo que visitar os Estados Unidos não é direito, é privilégio. Eu dispenso esse privilégio. Sei bem onde sou bem-quista e é pra lá que quero ir. Enquanto, isso, assisto curiosa ao encaminhamento desse governante midiático em um sentido estranho, aparecer e polemizar nunca é demais pra ele. Vê-lo em aparições de Sex And The City, Esqueceram De Mim e reality shows é uma coisa. Vê-lo colocando sua ordem em um país é outra. E é estranho, repito. Até porque o estadunidense comum já vive ensimesmado em sua bolha e sua história, mas o mundo é tão grande...


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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

BLUE JAY >> Carla Dias >>


Cinema me agrada. Com o tempo, percebi que por mais eclética que eu seja na hora de conferir filmes, acabo me envolvendo mais com aqueles em que a história conduz os personagens. Menos locações, mais diálogos, roteiros bem escritos, tramas bem amarradas.

Recentemente, assisti a um filme com um ator que aprecio muito, Mark Duplass. Não vou tentar explicar o motivo de gostar tanto dele, porque não saberia mesmo como fazê-lo. Eu gosto. É gosto.

Lançado em 2016, Blue Jay, com direção de Alexandre Lehmann, traz Mark Duplass, e Sarah Paulson em uma trama sobre ex-namorados que se encontram por acaso, mais de vinte anos – e muitas histórias vividas – depois.


O fato de o filme ser em preto e branco me agrada profundamente. Durante o filme, percebe-se o quanto esse detalhe é valioso, pois ele dá mais destaque ao roteiro. Para mim, quando a história mergulha na essência das pessoas, a melancolia se torna uma ferramenta valiosa.

Porém, a melancolia do filme, aguçada pelo preto e branco das imagens, é desafiada pelo humor que conectava Jim e Amanda há mais de vinte anos, hoje refinado pelas experiências de quem se tornaram.

Blue Jay é uma contemplação ao que poderia ter sido e como o tempo nos molda. Mesmo durante os momentos espirituosos, percebe-se uma tensão entre Jim e Amanda, de quem deseja ser reconhecido como antes, não como agora. Apesar da clara profundidade da conexão entre eles, percebe-se certo desconforto. Quem nunca olhou para trás e questionou como teria sido se a escolha fosse outra? No caso deles, ao transcorrer dessa revisitação ao passado, o espectador se pergunta por que eles estão separados. Eventualmente, a resposta vem. Trata-se da vida acontecendo, independente dos nossos desejos.

Para um filme que exige uma boa interpretação, Sarah Paulson e Mark Duplass chegaram lá. É agradável vê-los, escutá-los. É fácil embarcar no que os incomoda, conecta, separa. Aliás, Duplass foi um pouco além, já que também assina o roteiro de Blue Jay.



carladias.com


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