terça-feira, 31 de janeiro de 2017

PLANOS >> Clara Braga

Eu me planejei, juro que me planejei! 

Não sou a mestre em planejamento, sei que em muitos pontos os meus planejamentos são falhos, mas fiz minha parte, isso ninguém pode negar.

Ia abrir meu próprio negócio. Tinha arrumado as melhores sócias, tinha certeza disso. Já tínhamos o espaço, as ideias, o público, era só começar.

Tinha me livrado de tudo aquilo que me ocupava um tempo desnecessário. Para que investir em algo que não vai dar frutos? Agora só invisto no que for importante e também prazeroso.

Preciso ter mais tempo pra mim. Quero estudar, quem sabe tentar um mestrado, enfim, evoluir na minha carreira, só assim consigo novas oportunidades.

Já tinha na agenda todas as corridas que queria fazer esse ano, com a quilometragem e o tempo que queria completar. Dessa forma, os treinos seriam focados e as chances de alcançar os resultados seria maior.

Comecei a testar uma nova dieta. Radical? Sim! Mas estava dando resultado, e isso estava me animando a continuar.

Planejei ter mais tempo com amigos e família.

Planejei ir mais ao cinema, ouvir mais música e ler mais livros.

Planejei viagens curtas de fim de semana para deixar a semana mais leve.

Enfim, planejei! E quando terminei pude ouvir o universo dando uma grande risada irônica. Mal sabia eu que alguém dono de uma força muito maior já tinha planejado coisas completamente diferentes para mim e meu planejamento era só eu tentando nadar contra a maré! Que coisa, desde então fico me perguntando qual a função real do nosso planejamento se no fim das contas as coisas serão como o universo planejou...


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sábado, 28 de janeiro de 2017

QUEM FOI TEÓCRITO? >> Sergio Geia



Pra tirar um dez, culto leitor. Faço-lhe apenas esta pergunta pra tirar um dez. Na verdade, é dez ou zero, mas uma pergunta, apenas uma, e nenhuma outra mais: afinal de contas, quem foi Teócrito?
Ah, amigo, não fique vermelho, não se envergonhe por não saber, e esqueça essa bobagem de avaliação pedagógica numa simples crônica. Acontece que essa foi a única questão de uma prova oral de Direito elaborada pelo latinista Geraldo de Ulhoa Cintra, ao meu amigo Téo, isso lá pelo ano de 1962.
Téo precisava de uma nota alta, um sete ou oito e o professor Geraldo de Ulhoa Cintra, um escritor muito famoso e respeitado, especialista em civilização greco-romana, autor de grandes obras como De Actione Sacramento, Verbetes Franceses, Dicionário Latino-Português, Textos Arcaicos, O Conceito Perene de Filologia, dentre outros, encarou o novato, e, para sua surpresa e de todos, disparou sem o mínimo rodeio: “O senhor tem hoje comigo uma responsabilidade muito grande. Pois vou lhe fazer uma única pergunta e o senhor vai tirar um dez; é dez ou zero”. O dedicado aluno não esperava por essa, coçou a cabeça e concluiu que se metera numa grande enrascada. “Quem foi Teócrito?”. Foi então que Téo respondeu sem pestanejar: “Então o senhor pode anotar aí um dez!”.
Ah, grande Teócrito, o escolhido do Senhor! Teócrito foi um poeta, o poeta grego de maior destaque no período helenístico, tendo exercido forte influência sobre a obra de Virgílio. Escreveu pequenos poemas, os chamados Idílios, e epigramas curtos, de temática bucólica, pastoral ou mitológica, alguns ainda bem conservados em bibliotecas como o “Ambrosianus 222” que está na Biblioteca Ambrosiana de Milão, e o “Vaticanus 915”, na Biblioteca do Vaticano.
Eis um pequeno trecho do Idílio “A Seresta”, encontrado na tese desenvolvida por Érico Nogueira, sob a orientação do professor João Angelo Oliva Neto, e apresentada no Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas e Vernáculos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, para a obtenção de título de Doutor, intitulada “Verdade, contenda e poesia nos Idílios de Teócrito”, no ano de 2012: 

“ ... Graciosa Amarílis, por que, debruçando-te nesta caverna,
não me chamas mais, a mim, teu benzinho? Odeias-me?
Acaso, de perto, pareço ter narigão adunco,
ninfa, e barbicha de bode? Acabas levando-me à forca.
Olha, trago para ti dez maçãs: colhi-as de lá,
donde mandastes colher, e amanhã te trarei outras mais.
Vê: cardialgia é o que tenho. Quem dera, então, eu virasse
 a abelha que zune, e aí nesta tua caverna adentrasse,
passando por meio da hera e do feno que a ti te recobrem.
Agora conheço Amor, pesadíssimo deus...” 

Que monumento a tua poesia, ó Teócrito! Que simplicidade, que doçura! O amor não correspondido de um cabreiro sem nome, que oferta à jovem Amarílis, como prova do sentimento, maçãs, flores e cabra, e uma canção, uma canção de amor, amor campestre e juvenil. Ah, quantas vezes o Geia não cantou uma canção de amor?
Pois voltando ao mundo real, Téo tirou um dez e tinha as respostas na ponta da língua. Diferentemente do senhor, caríssimo leitor, meu amigo se chama Teócrito, daí a pergunta e a resposta certeira; muito culto, interessado em coisas diversas, e um grande leitor, ele sabia tudo sobre Teócrito.
 


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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

JOGO DE MENTIRAS >> Zoraya Cesar

Sempre fui de opinião que, se existe conhecimento tácito de ambas as partes, então, não há engodo. É o jogo jogado.

E, coerente com minha opinião, aceitei quando aquele homem bonito se aproximou de mim na semiescuridão do bar e disse que me conhecia de algum lugar. Conversa vai, conversa vem, descobrimos alguns interesses comuns. Nada muito profundo, claro. Afinal, não vou a bares à procura de Mr. Goodbar; nem de conversas edificantes, nem mesmo drogas. Vou atrás de algo que preencha o vazio deixado por Fernando, algo qualquer, que me faça companhia à noite.

O tal sujeito falou que era a primeira noite dele na cidade, que não conhecia ninguém, sentia-se sozinho. Era recém-separado, disse, estava à procura de uma nova parceira, completou, cheio de melosidades. Senti-me aliviada - graças a Deus, era tudo mentira. Eu já o vira na noite anterior, naquele mesmo bar, numa roda de amigos que pareciam bem íntimos. E, quanto a ser descasado, bem, eu percebi que ele tirou a aliança antes de vir falar comigo. Essas, as mentiras dele. As minhas, em fingir acreditar.

A noite prometia ser boa. Cheia de mentiras de um lado, repleta de carência e fingimentos de outro.

Três uísques depois eu me considero a presa perfeita. Ricardo (nome falso, naturalmente, sempre é), fiel ao jogo, portou-se à perfeição, e, em atenção ao meu estado etílico, ofereceu-se para me acompanhar.

Tudo que eu precisava era que ele representasse bem o seu papel, que não atuasse como um canastrão. Faz parte do jogo. Mentir bem faz parte do jogo.

Ele foi perfeito. Ao chegarmos, abraçou-me tão ternamente que derreti. E assenti que subisse quando se declarou solitário, carente, e que eu tinha sido a única mulher interessante que encontrara na cidade.

(Está vendo, Fernando? Ainda sou atraente. Homens mentem para ficar comigo. Acham que vale a pena o trabalho. E eles nem me conhecem. Mas você, você dizia que me amava!)

Não vou mentir. A noite foi maravilhosa. Sexy. Voluptuosa. Aconchegante. Durante toda a performance ele não cessou de sussurrar palavras doces no meu ouvido, no meu umbigo, na minha pele. Que eu era linda, gostosa, feminina. Que ele estava se apaixonando, nunca encontrara uma mulher como eu, que estava pensando em ficar alguns dias comigo... Oh, quão generosa pode ser a mentira.

Ele dormiu. Permaneci deitada, imóvel, com medo de acordá-lo e estragar tudo. Pensei em Fernando. Por que ele não mentiu pra mim? Pensei que me amasse. Quem não é capaz de mentir não sabe amar. Esse negócio de dizer a verdade sem se importar com as consequências só dá sossego a quem diz, nunca a quem ouve.

Depois de cinco anos morando juntos, compartilhando tristezas e alegrias, trocando juras de amor, dividindo tudo, até salários, sonhos e senhas eletrônicas, ele me abandonou.

Cheguei em casa, nessa mesma casa em que estou agora, deitada, nua, com um estranho que me esquecerá tão logo amanheça o dia – serei mais uma aventura para ele se gabar aos amigos. Cheguei em casa e encontrei Fernando na cozinha, as chaves na mão e a verdade na boca: “Não te amo mais. Vou morar com a Eliane, que está grávida de meu filho”.

Como assim? Não me ama mais? Grávida? Minha prima? Sei que a maioria de nós jamais saberá o que é um soco no estômago. Eu sei. E doeu tanto que vomitei o almoço todo ali, na frente dele. Que ainda teve o desplante de dizer que sentia muito, mas que era melhor eu saber a verdade por ele, e não pelos outros.

Se não estivesse pondo a alma pela boca naquele momento, eu o matava. “Melhor”? Pra mim é que não foi. Ele estava apenas limpando sua consciência da traição que fizera. Quem quer ouvir esse tipo de verdade do homem amado? Que ele mentisse, que se dissesse arrependido, que ia mudar de cidade por causa do emprego, qualquer coisa, para que eu tivesse tempo de me acostumar.

Mil vezes preferível uma mentira generosa e sublime. Não sou de fazer escândalos, eu o teria deixado em paz. A verdade acabaria vindo à tona, com os amigos dando voltas e rodeios, para que eu me magoasse o mínimo possível. Eu aceitaria suas pequenas mentiras, agradecida. Fernando foi egoísta e cruel, não quis se dar ao trabalho de inventar uma história e me poupar o choque. Ele poderia ter dado sinais que não mais me queria. Ele poderia ter feito qualquer coisa, menos aquilo. Eu me esfarelei toda.

Não sei se algum dia vou me recuperar. Depois de cinco anos dormindo com um homem a meu lado, não consigo mais dormir sozinha. Eu deito. O sono só vem pela exaustão.

Já me acostumei. Mas há noites em que a solidão é insuportável e eu preciso de alguém que durma comigo. Que me abrace. Que me diga coisas bonitas. Que minta pra mim.

despertador não tocou, mas o cara devia ter um relógio biológico interno suíço. Levantou assim que amanheceu, nem tomou banho, botou a roupa e, antes de sair, beijou-me e disse que tinha sido incrível, que mais tarde ligaria (ele não pediu e eu não lhe dei meu telefone. Mas isso faz parte do jogo).

Fechei a porta atrás dele, feliz. Ele mentira até o último ato. Eu fingi acreditar até o fim, sem chorumelas. É o jogo jogado. E, afinal, ele fora tão gentil, por que eu arruinaria um encontro que fora bom para os dois? Ele teve a transa que queria e eu não passei a noite sozinha.

Voltei pra cama. Quer me fazer feliz? Tell me a lie.

Tell me a lie - minta para mim, em tradução livre
Vídeo: Sami Jo in Tell me a lie - 1974
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

DIREITO BÁSICO >> Carla Dias >>


Seu pai vivia bronqueado com ele. Desde moleque de tudo, ficava dançando pelas ruas, enquanto ele arrastava a carroça e catava latinhas e garrafas pet. A culpa sempre foi do avô, tocador de sanfona e bebedor de birita, que ensinou ao neto a doçura das palavras cantadas, tocadas, dançadas, vividas.

O pai tentava fazer com que o filho fincasse pés na realidade. O avô mandava o neto para as paragens da imaginação, contando a ele histórias que o avô dele lhe contara na sua meninice. Umas loucuras que envolviam animais ferozes, cabanas desalumiadas, barulhos não identificados e o breu da noite destacando olhos que não dava para saber se eram de gente ou de bicho, ou de mistura de gente com bicho. O menino se assustava fácil, mas de jeito maneira saia correndo para debaixo da saia da mãe. Ficava ali, sentado em frente ao avô, enquanto ele fazia a cadeira balançar ao ritmo das palavras saindo de sua boca.

O menino entendia o que o pai dizia. Sabia que melhor era prevenir do que remediar a miséria. Não que fossem completamente infelizes. A mãe era criativa, tanto na cozinha, quanto nas brincadeiras. Depois de uma longa jornada de trabalho, limpando casas nas quais nem se atrevia sonhar em viver, ela ainda tinha ânimo para cuidar de seus meninos, e ser cuida por eles, que todos colaboravam com os afazeres de casa e com o afeto a ser mantido.

Relações sem afeto desmantelam famílias. Isso ele aprendeu com a avó, que sempre gostou dos livros e vivia de passeio pela Biblioteca Pública. Ele adorava o jeito que ela dizia as coisas, mesmo que não entendesse tudo. Havia um frescor naquela alma arredia, que preferia os livros aos churrascos de domingo. Preferia o silêncio à música provocadora dos jovens que ainda não descobriram a sabedoria provocada por silêncios.

O menino assistia à rotina dessas pessoas, como se elas fossem personagens de um livro ainda não escrito. Respeitava a preocupação do pai a respeito dos estudos. Era meio preguiçoso na escola, mas porque se aborrecia com a facilidade dos assuntos. A professora descobriu, em um misto de orgulho e desespero, que o menino sabia o que ela sabia e um pouco mais. Tratou de comunicar à diretora que, sussurrando o pecado, ordenou que a professora o mantivesse em rédea curta, que a escola não tinha como lidar com gênios.

O menino não era gênio, apenas mais curioso do que a maioria. O pai ficou fulo da vida quando viu que o menino assaltara seu carrinho e levara todas as garrafas de um dia de catação. O menino levou uma sova, porque disse que precisava das garrafas e não as devolveria. O pai quase morreu de remorso quando viu a surpresa que ele fez para sua esposa. Construiu um sistema de irrigação para a horta da mãe, lembrando-se de uma palestra na escola sobre reciclagem e garrafas pet.

Nunca mais o pai bateu no moleque daquele jeito, de arrancar o coro. O menino justificou que não podia contar ao pai o que fizera, porque era surpresa, e surpresa tem de ser segredo. O pai pensou que, assim como muitos dos moleques da rua onde moram, o dele se tornara ladrãozinho. Amargou esse pensamento para o resto da vida.

O menino sabe que viver não é fácil. Porém, também sabe que a vida pode ser divertida. Passou um pito no pai, certa vez, durante o jantar, quando ele disse que diversão era coisa para quem tem a vida ganha. O filho disse, a voz firme de quem presta atenção ao entorno, a todos a sua volta, ao tudo que lhe acontece, que diversão é direito básico. Que soltar pipa é direito básico. Que dançar, jogar bola e correr na rua é direito básico. Que beber água é direito básico. Tomar banho de chuva é direito básico. Aprender tabuada é direito básico. Pirulito de manga é direito básico. Gargalhada é direito básico. Cobertor no frio é direito básico. O avô, a avó e a mãe gargalharam baixinho com a singeleza da manifestação. O pai ficou assim, mudo e calado, os olhos marejados, pensando que ainda não sabia se tal percepção sobre a vida era boa ou ruim ao menino.

O menino se levantou, foi até o pai e o abraçou, deitando a cabeça em seu ombro. Todos se comoveram com o gesto, até o pai amoleceu o corpo sempre rijo. O filho contou a ele, a voz abafada pelo abraço, que aprendera naquele dia, na escola, durante uma conversa com uma professora, na hora do intervalo, algo que ele já sabia, que tinha aprendido com o vento antes, só que ainda não tinha entendido inteiro.

Direito básico de cada um é ter chance de viver a vida, lamentos e diversão. Alegrias para aquietar tristezas.

O menino não é gênio, apenas presta atenção à vida. Diverte-se com o que lhe é oferecido e aprende seriedades no processo. Na hora do choro, da tristeza, da falta, ele pensa que seria bem pior se morasse em uma das histórias que seu avô lhe conta. Se tem uma coisa que ele morre de medo de encarar, mas trabalha para enfrentar, só que sem sucesso, é escuro enfeitado com olhar de gente-bicho.

Definitivamente, ele prefere morar em uma das músicas que o avô toca e canta.

Imagem: Meninos Brincando © Candido Portinari

carladias.com

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

AI, MEU CORAÇÃO! - III >> Albir José Inácio da Silva

(Depois de ouvir Bóssi e os vizinhos na cena do crime, o Dr. Mouro retornou à delegacia para abertura do inquérito. Acreditava na história de Bóssi que, além de seu compadre, era um cidadão acima de qualquer suspeita e dedicava sua vida ao bem-estar da família tarietense)

Minutos depois do delegado, Bóssi chegou à Delegacia para depoimento na condição de testemunha, distribuindo sorrisos e cumprimentos. Era amigo da polícia. Contou sua versão sem interrupções. No momento mais dramático da narrativa não pôde evitar as lágrimas. O delegado ouviu compassivo e ditou para o escrivão:

 “Aos vinte e três dias do mês de setembro de 1986, nesta cidade de Tarietá, na Delegacia de Polícia, onde se achava o Dr. Mouro, Delegado, comigo Escrivão, ao final assinado, compareceu o Senhor Antônio Vieira dos Santos, já qualificado,  socialmente conhecido como “Bóssi”, sabendo ler e escrever, aos costumes disse nada, testemunha compromissada na forma da lei, sendo inquirida pelo Dr. Delegado, disse: que às sete horas da manhã de hoje foi até a sede do Grêmio Recreativo Tarietense para se encontrar com o presidente eleito e tratar de assuntos ligados à transmissão do cargo; que estranhou portão e porta abertos, mas tinha entregado as chaves a Arakém logo após a apuração; que encontrou a secretaria revirada e, ao entrar na sala de reuniões, se deparou com Arakém caído sobre o próprio sangue; que, ato contínuo, tocou o alarme e correu para a porta no alto da escada e começou a gritar por socorro; que neste momento ainda pôde ver o ladrão encapuzado, carregando um saco nas mãos, que pulou o muro e fugiu numa motocicleta dirigida por um comparsa também encapuzado; que, depois disso, ligou para a polícia; que vizinhos e transeuntes testemunharam a fuga do meliante; que muitas pessoas se dirigiram ao local até que chegou o ilustre Delegado. Nada mais disse. Lido e achado conforme, vai devidamente assinado por mim, escrivão, pela testemunha e pelo Dr. Delegado”.

                                                                                BÓSSI

O apelido Bóssi quem deu foi o Neném, depois de umas aulas de inglês, dentre outros cursos que o chefe insistiu em matriculá-lo, a ver se conseguia um ajudante mais apresentável. Não conseguiu ilustrar o ajudante, mas ganhou essa alcunha, que é uma corruptela de “boss” – chefe em inglês. E Bóssi gostava do apelido, mesmo sabendo que era fruto de ignorância bajulatória.

Não havia mais o que dar errado. Todas as etapas transcorriam conforme planejado. Sua maior preocupação era o Neném, um garoto neurastênico, que dava piti quando via sangue, mas era o único em quem confiava. E ele se saíra bem, mesmo com alguns espasmos na hora agá. Neném era uma besta quadrada, costumava dizer, mas era sagaz e de confiança.

Em “off”, ao Dr. Mouro, Bóssi disse que pessoalmente gostava de Arakém, para ele um ingênuo, um sonhador. Desses que acreditam em igualdade, luta de classes, e esquecem que quando o patrão vai bem, o empregado também vai, e quando melhora para o rico, sobra mais para o pobre. Mas essa gente parece não ter jeito, fica sonhando enquanto a vida passa. Um inocente útil, mas um bom homem. Um adversário combativo, nunca um inimigo, embora tenha tentado atrapalhar sua gestão desde que chegou ao Conselho.

Apertou a mão do delegado, que mandou recomendações à família e lhe desejou boa administração à frente do Clube.

Bóssi deixou a delegacia aliviado. Ria-se com a máxima de que não existe crime perfeito. Ora, se um crime não pode ser esclarecido, permanece silencioso nos arquivos da polícia, ele é perfeito.

Enxergava-se longe de um assassino, pelo contrário, era um cidadão de bem. Os fins justificam os meios, e situações extremas exigem soluções extremas. Se tomou providências mais enérgicas, foi em benefício do clube e da cidade. Não foi à toa que ganhou da Câmara Municipal o título de “Cidadão Tarietense”.

Bóssi voltou para o clube, o que não lhe faltava era trabalho até as eleições. E por onde andaria Neném, que não deu notícias até agora? Não estava no clube nem telefonou.


(Continua em 15 dias)


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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

HOLOGRAFIA: A PROFECIA DO SÉCULO XXI >> Paulo Meireles Barguil


Profecia, conforme o Houaiss, significa "Predição do futuro, que se crê de inspiração divina; vaticínio.".

Holografia, por sua vez, deriva do grego holos (todo, inteiro) e graphos (sinal, escrita), e indica, portanto, um método de registro com relevo e profundidade.
 
Cada pessoa tem suas crenças, que as guiam mundo afora ou a dentro...
 
Reconheço que o mapa astral é uma estratégia interessante para orientar o andarilho nessas jornadas.
 
Lembrando: a carta celeste não é um roteiro!
 
Ela indica as nossas diversas habilidades e fragilidades, bem como os nossos desafios, as nossas missões.
 
Estou cada vez mais desconfiado de que o tempo realmente não existe, como afirmam alguns, sendo uma invenção que permite ao Homem viver na tridimensionalidade.
 
Ah, a casca corpórea é realmente intrigante.
 
Sedutora: nos faz acreditar que somos separados do Cosmos.
 
Misteriosa: é repleta de indicações do que experimentamos.
 
Há algumas luas, aprendi, cognitivamente, que somos capazes de holografar a nossa realidade.
 
Será mesmo que, há séculos, construímos, individual e coletivamente, o mundo, não somente com ações, mas com emoções e noções?
 
Para saber o futuro, os nossos antepassados estavam no rumo certo: é só remexer as entranhas!


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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

SOBRE DIVIDIR A COMIDA >> Mariana Scherma

Esqueça presentes caros. Bolsas. Joias. Vestidos e sapatos. A coisa que mais amo ganhar no mundo é comida. Um bombonzinho fora de hora. Um pedaço de bolo na hora do café – ou um convite pra tomar café seja onde for. Quem dá comida a alguém também dá carinho. Sei lá, mas eu só dou um pedaço de algo que fiz quando fica gostoso. E também só dou comida pra quem mora mesmo no coração. Você não vai dar beijinho (o doce, tá?) pra alguém duas caras ou pra alguém que não tenha intimidade, certo?

Essa história de dar comida, eu aprendi com meus pais. Em todo almoço feito em casa, sai um prato para o porteiro. Meu pai sempre guarda um pedaço de bolo/pavê/o que for para o personal trainer (o personal põe meu pai na linha e meu pai tira o personal da linha, vamos resumir assim). Quando era mais nova, detestava sair com o prato de comida até a portaria, achava nada a ver, "que mico, pai". Hoje sei que essa é uma baita demonstração de afeto.

Por sorte, vim morar vizinha de uma senhora que pensa parecido com meus pais. Ganho um teco de tudo o que ela faz e ela ganha outro de tudo o que eu faço. Quando não tenho nada, não devolvo o prato vazio. Nem que for um bombom comprado. O importante, segundo minha mãe, é não devolver pratos nem tappewares vazios. “Isso é falta de educação”. Na real, acho que isso seria mais “falta de carinho”, “cuidado”. É mais ou menos assim: você dá um pedacinho do seu coração num pote transparente e a pessoa o devolve vazio? Ah, sacanagem. Só não é pior do que não devolver o pote... Mas isso não entra nessa coluna.


Felicidade pra mim é um brigadeiro no meio do trabalho. É um pão de queijo no fim da tarde de sábado. É um respiro no meio do turbilhão. É um carinho no estômago e na alma. Quem divide comida também divide o coração. Só não vamos exagerar: dividir Ouro Branco é a maior sacanagem do mundo. Quando você oferece um pedaço do seu Ouro Branco, está subentendido que a outra pessoa vai dizer “não, obrigada”. Não vamos apelar, minha gente.


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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SACOLAS REUTILIZÁVEIS>> Carla Dias >>


Vou apresentar a vocês uma moça arretada. Veio de lugar nenhum, vai sabe Deus aonde. Apesar da falta de rumo traçado, é das mais sábias quando se trata de decidir sobre o que seja. Claro que isso significa que ela dá com os burros n’água com mais frequência do que uma biografia bem polida suportaria. Ainda assim, avexa-se de jeito nenhum, porque essa loteria que é a vida jamais contará com a falta de participação de sua pessoa.

Sua pessoa, melhor esclarecer, é uma pessoa que não oferece informação a quem não lhe encanta. Falar sobre ela sempre pede um tanto de floreio, que poucos são os que sabem dela o suficiente para dizer verdades. Por isso mesmo são muitas as lendas que incluem sua pessoa, quer dizer, personagens inspirados em sua pessoa, porque posso garantir que ela não se transforma em jaguatirica às quintas à noite, depois da novela, não fala a língua das águias, não vive de beber água de chuva, somente em dias de chuva. Ela não dança nua para lua cheia, mas nesse caso, ela já considerou transformar essa invencionice em uma provocada verdade.

Talvez você se interesse em saber que ela trabalha dezoito horas por dia, seis dias por semana e sustenta cinco filhos. São cinco filhos que não são seus, mas dos quais decidiu cuidar, já que ninguém dava conta do recado. Passou por eles, ali, sempre sentados à porta do supermercado, durante meses, antes de se decidir sobre assumir papel de destaque na vida deles. Demorou-se na decisão, não por achar que eles não mereciam, mas porque tinha de ter certeza de que não os deixaria na mão, no meio do cuidado. Foi assim que arrumou um segundo emprego.

Malana, Inocêncio, Patrício, Lidiana e Marinete embarcaram na jornada oferecida pela mulher, embalados pela promessa de que, em um futuro que ela tornaria possível, eles poderiam entrar no supermercado e sair com sacolas cheias... Sacolas reutilizáveis, claro. Até lá, ela mesma sairia do supermercado com sacolas cheias para eles, contanto que eles apresentassem o boletim para ela acompanhar o desempenho deles na escola.

Aquelas crianças só conheciam a porta do supermercado. Tinham entre oito e quinze anos, viviam por ali pedindo moedinha, comidinha, biscoito com recheio. Às vezes, cantavam uma música de quem não se sabe de onde veio, sobre um moleque que se tornou o rei do mundo. Os mais jovens, com suas vozes miúdas, erravam a letra de um jeito gracioso. Quem prestava atenção, acabava caindo na gargalhada. Mas não eram apenas gargalhadas que eles ganhavam com frequência. Já teve pontapés, palavrões, sermões, orações e até puxões de cabelo.

Negociaram rapidinho com a moça, que só de pensarem em ter sacolas cheias de comida, bom, isso já os assanhava que só. Juraram fidelidade ao acordo e, a partir daí, considerou-se a mãe dos filhos de outra. Não queria tirar direito de ninguém, mas a deixava feliz oferecer alguns àquelas crianças.

E o cenário mudou.

Veja bem, Patrício, o mais velho da turma, atrasadíssimo nos estudos, tomou a frente da organização do tal projeto. Garantiu que, na semana seguinte, a mulher da promessa tivesse motivo para manter a tal de pé. As crianças apareciam todos os dias, depois da escola, com seus cadernos, aqueles que a benfeitora deu a eles. Ele até fez com que cada um deles, inclusive o próprio, aprendesse uma palavra nova para dizer para a mulher.

Patrício confessou a ela, eventualmente, que fez aquilo para poder tirar o melhor proveito possível da situação. Ele não poderia prever o que se seguiria. Na verdade, não tinha nem repertório para que sua imaginação fosse tão longe.

Ela tem cinco filhos para criar. No final da tarde, antes de correr para o segundo emprego, passa pelo supermercado para saber da criançada. Malana e Inocêncio correm e se jogam nos braços dela. Os mais velhos são menos ousados. Ficam em pé em frente a ela, esperando o início da conversa. Ela não se faz de rogada, que não veio ao mundo para ter medo de comprometimento emocional. Vai logo beijando os arredios, que, em cinco minutos, já falam pelos cotovelos.

Em alguns meses, Malana lê algumas histórias, Inocêncio se apaixonou por aprender tudo que remeta à tempestade, Lidiana faz planos de se tornar doutora, enquanto Marinete se mostra resoluta sobre aprender inglês. Patrício dança de acordo com a música, não sabe quem se tornará, diante dessa aventura, mas confessa a sua benfeitora que nunca viu os irmãos tão interessados pela vida.

A tia cuida deles como pode, que já tem certa idade e ainda umas dores no corpo que nunca param. Não preciso detalhar a miséria, então a resumo assim mesmo: uma vida de cão. Mas ela é senhora de bom coração, e essa é a sorte da criançada. Foi Inocêncio que organizou o “trabalho” na frente do supermercado. Entre um resmungo e uma declaração de que não passavam de um bando de vagabundos, ele diz que recebeu muita ajuda e muito carinho.

Quem passa em frente ao supermercado, hoje vê uma cena bem diferente. As crianças e seus uniformes, cabelos penteados – Lidiane anda sempre com um pente para garantir o alinho –, sentados no chão e de cara com os cadernos, dedicados aos estudos. As pessoas falam com elas, querem saber o que fazem ali. Patrício explica o acordo com o maior orgulho, porque foram escolhidos para essa mudança.

Patrício não se cansa de agradecer à mãe da situação. E ela, que aprecia muito quando a vida dá uma volta na má vontade alheia, sorri bonito e alega que mais do que ela faz por eles é o que eles fazem por ela.

A mulher continua com dois empregos e sustentando cinco filhos. Mês passado, recebeu o boletim da escola e foi com os olhos aguados. Qual mãe não se orgulharia de filhos tão dedicados?

No dia em que Patrício entrou no supermercado e saiu com sacolas – as reutilizáveis, claro -, elas cheiinhas, sentiu-se tão emocionado que teve de se sentar na escada e chorar, antes de tocar para casa. Seus irmãos não precisam mais pedir comida, agora se dedicam exclusivamente aos estudos. Estudando, ele aprendeu tantas coisas sobre as quais não tinha ideia, que até serviu para se tornar empregado. Agora ele cuida da família, e junto com a mãe de escadaria de supermercado, garante que os irmãos possam ter um futuro no qual seja inaceitável ser tratado como escória do mundo.
Eu disse que apresentaria a vocês uma moça arretada. Ela veio de lugar nenhum e acabou aqui, mudando o destino daqueles que não tinham ideia de onde poderiam chegar. Ela defende o uso de sacolas reutilizáveis e o direito do ser humano de não ser descartado, como são aquelas sacolas plásticas que embrulham o estômago do mar.

Ela adora sacola de palha de milho e pessoas.




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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

PERDIDA NO MEIO DO CAMINHO >> Clara Braga

Um dia, enquanto aguardava em uma fila, ouvi um senhor avisar para as pessoas que um casal havia perdido o filho de 2 anos, caso alguém visse uma criança perdida, que avisasse a ele. As pessoas logo começaram a olhar para os lados e ficaram mais atentas. Mas o que me chamou a atenção foi um jovem que devia ter mais ou menos seus 16 anos, logo olhou para seu pai, que o acompanhava na fila, e disse: nossa, perder uma criança de dois anos, quanta irresponsabilidade!

No mesmo momento me lembrei do dia que encontrei uma amiga que não via tinha um tempo e ela estava com o filho, que também tem dois anos. Nos demos um abraço um pouco mais longo, daqueles de quem não se vê tem um tempo e estava com saudade. Esses segundos foram suficientes para que ficássemos olhando para os lados procurando o filho dela, que havia apenas sentado perto da gente para brincar com seu carrinho.

Lembrei também de quando meus pais contam que o grande desespero deles era levar eu e meu irmão para lojas de departamento, pois nós tínhamos a mania de nos escondermos no meio das roupas, sem ter a menor noção de que podíamos acabar nos perdendo de verdade no meio dessa brincadeira.

Coitado do menino de 16 anos, não tem noção do que é cuidar de uma criança de dois, por isso faz um comentário desse. Não teve maldade no que ele disse, mas fiquei me perguntando, porque diabos temos mania de querer opinar sobre tudo, até sobre o que não sabemos? Julgar parece mais fácil do que se colocar no lugar do outro. E sejamos sinceros, quem nunca?

Eu sempre achei um absurdo pais que usam aquela espécie de coleira nos filhos quando estão em locais muito cheios, até minhas amigas começarem a ter filhos.

Sempre julguei professores que passam um monte de exercício em sala para poderem usar o tempo para preencher diário, até que me tornei professora e entendi o quão difícil é conciliar sala de aula com a parte burocrática de uma escola.

Já achei que velhice era questão de idade, até acompanhar o dia a dia das minhas avós, que dão de mil em muitos jovens que mal conseguem sair da cama, esses sim são velhos.

Já cheguei a achar uma pessoa de 28 anos velha para ainda estar morando com os pais, até fazer 28 e estar feliz morando com eles, continuaria por mais tempo sem problemas.

Enfim, poderia falar sobre vários conceitos que vim mudando ao longo da vida. Mas não era exatamente esse meu foco. Dei esses exemplos para dizer que o que me preocupa de fato não é o julgamento que as pessoas fazem, é a forma como se sentem no direito de fazer, como se elas fossem as verdadeiras donas da verdade e, principalmente, o que realmente me preocupa é que as pessoas parecem estar cada vez menos interessadas e menos abertas a mudarem de opinião.

Quando foi que mudar de opinião passou a ser algo ruim? Me perdi no meio do caminho, sorte a minha! 


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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

INFLAMA E ALIMENTA >> André Ferrer

Ela está em tudo: nos conselhos, nas reclamações, nos ataques de inveja e despeito. Definitivamente, já não causa tanta estranheza. Numa conversa, muitos conseguem pronunciá-la na primeira tentativa. Nos textos, alguns até já escrevem corretamente a palavra! Falo de procrastinação.

Até pouco tempo, ninguém sabia o significado. Hoje, todo mundo sabe e ainda se esforça para enfiá-la em qualquer cantilena.

Para o bem e para o mal, a extensão do uso da referida palavra é tão democrática que surpreende: “proclastinação”, “plocrastinação”, “procrastinassão”. Enfim, há de tudo. O mais cuidadoso para e pensa. O mais ladino, sobretudo quando aconselha, escolhe dizer ou escrever “bora lá”. Isto é: opta, justamente, pela vereda procrastinadora do idioma.

A turma do “bora lá” está sempre com o celular a postos. Colado ao ouvido, é sempre uma garantia de sinalizar ocupação e, ao mesmo tempo, presença. Simultaneidade, aliás, é o que fundamenta o “bora lá”. “Bora lá” estar aqui e em nenhum lugar ao mesmo tempo. “Bora lá” partir daqui para onde não se perde tempo enquanto se perde tempo. A procrastinação disfarçada é uma tela sensível ao toque abarrotada de ícones e “gadgets”. A plenitude nunca foi tão respeitavelmente vazia. O trabalho – que não pode esperar –, pode... esperar. E a espera, inclusive, pode ser uma jornada de quarenta e quatro horas semanais. Tudo previsto nas CLT.

Sim. É definitivo e parece duro, mas só é duro para os ingênuos. Aquela mania de empurrar as tarefas com o umbigo estaria mesmo entre as piores faltas? Poderia, inclusive, cerrar as entradas do Éden para você e, também, para este cronista? Não se preocupe. Como subitem do sexto Pecado Capital, a procrastinação também entrou para o rol das ações mais criticadas e praticadas pelo ser humano.

Fique tranquilo(a). Nunca se condenou tanto a procrastinação. Em contrapartida, nunca se procrastinou tanto. A preguiça  bem como os demais tópicos da celestial prescrição  é gasolina pura. Combustível da mais alta octanagem, que inflama e alimenta a hipocrisia.


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sábado, 14 de janeiro de 2017

MEU PASSO ERA UMA FOLHA VADIA >> Sergio Geia

 

As cigarras chiavam, não no pátio de cinamomos caiados, mas na ruazinha boba mesmo, de arvoredos chinfrins, a Domingos Cordeiro Gil. Pois bobo também era ele, sentado no chão da sala, sozinho, com o campo sobre o tapete, mirando o ângulo com seu melhor jogador de botão. Na mesa da cozinha havia uma jarra de plástico vermelha com suco de abacaxi que sua mãe deixara pronto; no fogão, arroz e feijão pra esquentar. Seu pai chegava, o encontrava pronto para o colégio; fritava o bife, almoçavam e juntos saíam, por volta das vinte pra uma.
Foram algumas vezes. Estava tremendo, confuso, mas saiu do carro sem cometer gafes; depois de uma reprovação, conseguira enfim a habilitação. Estava tremendo, confuso, mas venceu a timidez e fez seus lábios se colarem ao dela. Estava tremendo, confuso, mas conseguiu digitar o texto e ser aprovado. Estava tremendo, bravo, mas, assim como Caio, conseguira que o Exército Brasileiro o dispensasse, mesmo depois da briga com um milico.
Pois esse cidadão, às vezes melancólico, às vezes perdido, às vezes alegre e entusiasmado e senhor de si, pois esse cidadão que cresceu sozinho, esse cidadão tímido, ansioso, que apesar de calmo não era de levar desaforo pra casa, esse cidadão aí era o Geia; e em todas essas vezes, e em algumas mais, ele experimentou um sentimento tão bom, tão belo e fresco, tão renovador e altíssimo, que seu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha.
Em que pese o tom imperativo, e com a devida vênia, eu lhe peço, estimado leitor: pare! Neste momento, pare! Agora volte. Volte um pouquinho até o parágrafo anterior e releia saboreando o final da penúltima linha até o fim.
Se você atendeu ao pedido do Geia, deve ter lido “(...) que seu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha”.
Ah, essa poesia fina que salva tudo o que foi escrito até agora, essa poesia delicada e rica, monumental e simples, não é do Geia, mas do Caio Fernando Abreu, e foi pescada outro dia, em “Morangos Mofados”, no conto “Sargento Garcia”. Era um trecho em que o personagem acabara de ser dispensado do exército: “Pois, seu filósofo, o senhor está dispensado de servir à Pátria. Seu certificado fica pronto daqui a três meses. Pode se vestir. – Olhou em volta, o alemão, o crioulo, os outros machos. — E vocês, seus analfabetos, deviam era criar vergonha nessa cara porca e se mirar no exemplo aí do moço. Como se não bastasse ser arrimo de família, um dia ainda vai sair filosofando por aí, enquanto vocês vão continuar pastando que nem gado até a morte. Caminhei para a porta, tão vitorioso que meu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha. Abriram caminho para que eu passasse. Lerdos, vencidos. Antes de entrar na outra sala, ouvi o rebenque estalando contra a bota negra. — Sen-tido! Estão pensando que isso aqui é o cu-da-mãe-joana?”.
Não há, certamente não há ― que me perdoem os grandes mestres, literatos, poetas, cronistas, romancistas, contistas —, não há nesse imenso mundo das letras, metáfora tão singela e bela, que represente esse estado de espírito que parece fazer flutuar.
A folha vadia, a folha vagabunda e largada, a folha que voa e pula e sobe, e que dança ao sabor da brisa da tardezinha, essa folha esvoaçante um dia foi o senhor, a senhora, o adolescente que pela primeira vez sentiu o calor da caverna vaginal, o estudante que enxergando nomes e números, descobriu que sua jornada na escola terminara; foi o amigo que se deleitou com uma notícia do jornal, o taxista que se entregou a uma conversa fiada, a estagiária que recebeu um elogio honesto; foi o agreste que se atirou faminto a um prato de arroz e feijão, foi o Geia; são todos aqueles que num instante desta confusa vida, experimentam o gozo de um naco de felicidade, que parece pleno, mas que levará o tempo de uma chama de fósforo para se apagar.
Pois as cigarras não chiavam no pátio de cinamomos caiados — como nos Morangos, mas numa ruela mesmo, em toscas e velhas árvores, a Domingos. E no sol intenso do meio do dia, no calor excessivo do verão, às vinte pra uma ele saía de casa, ao lado do pai, e sentia uma coisa leve, macia, difícil de entender. Hoje ele entende essa coisa que o fazia se sentir um verdadeiro vitorioso, e o deixava tão feliz e tão satisfeito, tão contente da vida, que seu passo era uma folha vadia... 

Ilustração: oglobo.globo.com.rio


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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

EU, A NORA QUE TODA SOGRA PEDE AO DIABO>> Zoraya Cesar

Angélica é o meu nome (Angélica Cândida de Azevedo Lima, muito prazer), e tenho, ironicamente, o physique du rôle compatível com o de uma criatura angelical: pálida, louros cabelos cacheados, olhos azuis, feições delicadas e algo infantis, o corpo pequenino e magro. Meu apelido é, desde criança, ‘bibelô’, tão frágil pareço. 

Marlon Brando, meu marido, por sua vez, nada tinha em comum com o nome. Era ríspido, pouco comunicativo, muitas vezes grosseiro, bebia demais, demais da conta mesmo, chegando às raias da violência. Ora, ora, ora, perguntam vocês - com esses ares de quem nunca foi enganado pela vida, de quem nunca fez uma aposta errada - se ele era assim, casou por quê? 

Por vários motivos que, à época, me pareceram bastante pertinentes. Quando nos conhecemos, Marlon me tratava como a uma princesa, contribuía com minhas despesas, nunca se embebedou na minha frente, era um sonho de homem, sério, trabalhador e ganhava bem. E ainda havia a mãe dele. Caí de amores pela velha mãe de Marlon assim que a vi. Era pequenina e delicada, e sua única família era o filho, de quem dependia financeiramente – tudo igualzinho a mim (talvez, qual Narciso, eu tenha caído de amores pela minha imagem e semelhança). Sempre que ficávamos a sós, ela me abraçava longamente e me aconselhava a pensar bem antes de casar, pois as aparências enganam. Eu não entendia. Eles moravam juntos e Marlon parecia ótimo filho. Não dei trela, portanto, pois estava apaixonada e doida pra sair do muquifo onde vivia e morar num apartamento bom, com o homem que eu amava e com a sogra que me tratava a pão de ló. 

Casei-me, portanto, de papel passado e assinado e fui morar com eles. 

E foi aí que entendi. 

Além de tudo o que já lhes contei, meu marido tratava mal a própria mãe. Apoderava-se de toda a pensão que ela recebia e a deixava quase à míngua – a velha só não tinha morrido ainda porque era sertaneja e, como disse Euclides da Cunha, o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Aquilo me mortificava, mas desempregada, sem família e sem ter para onde ir, dependendo do Marlon para tudo, eu pouco podia fazer. Com o dinheiro do seguro desemprego eu ajudava minha sogrinha, tentando aliviá-la um pouco daquela vida miserável. Não tem nada mais triste que um filho ingrato. Mas ela chorava era por mim, arrependida de não ter impedido o casamento, por ter acreditado que meu amor por Marlon o transformaria. Dizia que jamais se perdoaria pela minha infelicidade.

Era eu infeliz? Não sei. Sei que sentia revolta e ódio por tudo. Por ter sido ingênua; por estar sem dinheiro; por ser traída (o cretino tinha um caso com a telefonista do escritório); por ser obrigada a fazer sexo, sob pena de apanhar ou ser expulsa de casa; pelos gritos e empurrões que eu levava quando ele estava bêbado; por ver a maneira abjeta com que ele tratava minha sogrinha. Como todo psicopata cafajeste, ele percebeu meu ponto fraco: cada vez que eu tentava contrariá-lo, ele descontava nela. Na própria mãe! 

Recebi uma proposta de emprego numa outra cidade. Finalmente, teria o que mais precisava: meu próprio dinheiro (não me venham com chorumelas hipócritas de que dinheiro não é tudo. Sem dinheiro você fica de mãos atadas, relegada ao Diabo, que, ainda por cima, toma o que Deus dá). Poderia, portanto, abandonar Marlon Brando, fugir, denunciá-lo, mas isso deixaria minha sogra querida abandonada àquela malsinada sorte. 

Não fiz, portanto, nada disso. Fiz outra coisa. 

Existem vários tipos de monstro. Marlon é de um tipo. Eu, de outro. Sou um monstro com aparência angelical.

Dizem que beber faz mal à saúde.
Faz mesmo.
Peguntem ao Marlon, meu marido.
Pena que ele não possa mais responder.
Um monstro que misturou metanol na bebida do marido. E que assistiu à sua morte, sem mover uma palha, trancando a porta do quarto para que ele não conseguisse sair nem receber socorro médico. 

Eu tinha duas cópias da chave do quarto. Quando vi que Marlon Brando tinha morrido, deixei uma chave nas mãos dele e, com a minha (da qual depois, naturalmente, me livrei), tranquei a porta por fora. Chamei o Corpo de Bombeiros, chorando convulsivamente, vocês precisavam ver, merecia o Oscar. Eles arrombaram a porta, a polícia chegou, a maior confusão. 

Minha sogra ficou estupidificada, ininterruptamente repetindo ‘meu filho, meu filho’... Não sei se ela desconfiou de alguma coisa ou se, no final das contas, preferiria continuar sofrendo, mas com o filho vivo. Acho que nunca saberei, pois ela jamais deu a entender uma coisa ou outra.

A vantagem de ser pobre é que a polícia não se importa muito com mais um ou menos um morto. É só mais um desgraçado que morreu. E morreu porque era um alcoólatra que se trancou no quarto e bebeu o que não devia. Fim de caso.

Aceitei o emprego e fui embora, aliviada, sabendo que ninguém mais ia maltratar minha sogra, velhinha e sofrida. De vez em quando vou visitá-la. Agora ela só se veste de negro, enlutada da cabeça aos pés. E sempre, ao me ver, me abraça, me beija as mãos e me chama de ‘meu anjo’. 

Talvez eu seja um monstro. Não me importo. Tenho uma boa vida, minha sogra querida também, e eu conheci um cara, Rodolfo - vamos morar juntos. Ele parece legal. É bom, pra saúde dele, que seja mesmo.

(Não aguentava mais ver minha nora sofrer. É uma boa moça, poderia ser minha filha, em vez desse capiroto que saiu de minhas entranhas. Ela é jovem, bonita, inteligente. Merece um marido melhor que o excomungado que se diz meu filho. Desconfio que ele matou a primeira esposa, uma moça boazinha também, mas muito fraca. Não vou permitir que ele faça isso com meu anjo. Sei que ela não vai embora por minha causa. Então, diluí rivotril e diurético na bebida dele, que Deus me perdoe. Não sei se foi isso o que o matou, mas, até o dia em que prestarei contas ao Criador, vestirei luto e trabalharei incansavelmente na caridade. Se me arrependo? Não sei. Minha amada Angélica quer que eu conheça seu novo marido. É bom que ele a trate bem, se não...)


Foto: Visor69 in Pixabay


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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MEDICINA>> Analu Faria

Sempre acontece com uma amiga de uma amiga: gripe, virose, infecção, tosse. Um mês de molho, um mês de arrebentar os pulmões, um mês de médicos-videntes (sim, colegas, a Medicina, no fundo, sabe muito menos do que imagina nossa vã filosofia). O mais divertido: um mês, talvez mais, de medicina de boteco. A amiga da minha amiga (vamos chamá-la de A.L.) não vai a botecos quando está doente, é claro, mas como o termo "psicólogo de boteco" é epifanicamente inteligível e conhecido, A.L. entendeu que seus leitores saberiam o que ela queria dizer com "médico de boteco". 

A.L. entende que todo médico de boteco é um ser humano de coração enorme, com as melhores intenções deste mundo. Médicos de boteco adoram receitar chás e gengibre, e gengibre é vida, gente. Então A.L. gostaria, por meio destas linhas, agradecer a todos que receitaram gengibre. Chá é só falta de café mesmo, mas a amiga da minha amiga agradece ainda assim. É uma atitude bonita você receitar coisas para os outros que nem você tomaria. 

A. L. está, no momento, parte grogue de remédio, parte aceitando o mistério da vida - cuja face mais sarcástica é adoecer o que ainda não morreu -, parte pensando que quem deveria mesmo saber o que ela tem é ela mesma. Já que os médicos parecem ainda tatear no escuro, mesmo depois da inteligência humana ter criado exames quase sobrenaturais como a videonasofibroscopia (Satanás, é você?), resta a A.L. conhecer-se mais profundamente (de preferência, sem o auxílio de uma videonasofibroscopia). E, talvez, nutrir-se do carinho dos médicos de boteco.




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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ELES NÃO MORAM MAIS AQUI | RONALDO CAGIANO >> Carla Dias >>


Há esse livro de Ronaldo Cagiano que, vez ou outra, eu revisito. Canção dentro da noite tem sido um dos meus preferidos de poesia, desde quando eu o conheci, em 2000. Para mim, ali mora uma beleza que não se abstêm de enveredar pela melancolia e isso me agrada.

Ao ler o Eles não moram mais aqui, livro de contos de Cagiano publicado pela Editora Patuá, percebi o olhar poético a se aprofundar em distâncias geográficas, sociais e emocionais, assim como em abandonos.

Cada conto traz um tema que deságua em desespero silente. Desespero pela impotência diante da tragédia, da indiferença ao lidar com o presente e a persistência em se agarrar ao passado. A ausência faz seu papel, mas nem sempre se trata de alguém que não está mais presente. Às vezes, trata-se da ausência de si, o não se reconhecer diante da própria biografia.

Eles não moram mais aqui é um livro intrigante, porque leva o leitor a uma viagem que passa por várias versões da ausência e do abandono. O primeiro conto, que dá título ao livro, mergulha no vazio que fica quando os filhos deixam o lar. A saudade ferina da infância deles que digladia com as histórias sobre as quais os pais saberão somente por relato, não por terem acompanhado, vivido o momento com os filhos.

O luto se mostra de forma contundente em Sombras. “E com constrangimento e dor, os que ficaram não entendiam ainda o sorriso interrompido, a felicidade interditada pela carreta assassina e seu feixe de madeiras destroçando a nuca.”

A prosa de Cagiano se banha em poesia ao destacar as emoções mais rebeldes, mantidas sob o cabresto da condição do personagem.

Há ainda os assuntos que remetem à completa indiferença pelo outro. Como no conto À maneira de João Antônio e Samuel Rawet, quando um funcionário não aparece há dias para trabalhar e a ausência dele se torna mais representativa do que sua presença.

Eles não moram mais aqui é um livro no qual vale a pena mergulhar. Ronaldo Cagiano criou uma coleção de contos da qual o leitor sairá contemplativo a respeito da própria percepção do mundo. Não há como não se envolver com seus personagens e as situações que eles encaram. Não há como não se identificar com seus desafios, mesmo quando eles escolhem se desviar deles. E ainda há esse algo, que não me atrevo a definir – que ele me apraze assim, em suspenso – que conecta os personagens, apesar de suas experiências e cenários distintos.

Eles não moram mais aqui | Ronaldo Cagiano
Contos | Editora Patuá
Para comprar:
http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=378

carladias.com



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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

RITUAL DO PRIMEIRO ENCONTRO >> Clara Braga

Esses dias estava acompanhando uma amiga enquanto ela se arrumava para o primeiro encontro com um cara que havia conhecido. Enquanto conversávamos fui percebendo que essa coisa de primeiro encontro é mesmo um verdadeiro ritual.

Colocamos nossa melhor roupa, aquela que emagrece, disfarça as gordurinhas laterais, aquelas bem difíceis de sair. Além de emagrecer também afina a cintura, combina perfeitamente com um decote que não diz nem que você é santa nem que você é fácil demais. Ou seja, buscamos uma roupa que é o verdadeiro santo milagreiro, mas é bom ela chamar a atenção nessa primeira vez, pois é difícil achar alguém que tenha mais de uma roupa com essas características dentro do armário.

Colocamos uma maquiagem leve, realçamos o olhar, mas nada de batom muito vermelho, vai que rola beijo, vai ficar todo mundo pintado de palhaço. Para compensar a falta do batom chamativo colocamos nossos melhores acessórios e um salto, não muito alto, para não ficar maior que o cara. E na verdade tamanho nem seria problema, você nem tem salto muito alto, afinal, sua melhor amiga mesmo é a bela rasteirinha.

Enquanto se maquia aproveita para olhar a validade dos produtos, já tem um tempo que não usa metade de suas maquiagens. Aliás, você vai ter sorte se conseguir passar o delineador de primeira.

Na hora do encontro repassamos as várias regrinhas que ninguém sabe quem inventou, mas dizem que funciona então é melhor não questionar. E você até se convence de que as regrinhas devem funcionar mesmo, afinal, a tia do vizinho do amigo da vó que é mãe da irmã do primo do meu amigo usou todas as técnicas que falaram para ela usar e está casada com o cara até hoje.

Entre as regras estão as seguintes máximas: não fale muito para não ser tagarela, mas também não fale pouco para não parecer uma pessoa sem papo.

Beba moderadamente para não ter que ficar indo ao banheiro o tempo todo e também para não ficar pagando mico.

Mexa no cabelo de vez em quando para mostrar interesse.

Pergunte sobre a vida dele.

Sorria.

Não assuma ser uma pessoa ciumenta.

Não fale de relacionamentos antigos, principalmente demonstrando ter raiva do ex, raiva parece coisa de gente mal resolvida.

Não fale sobre casamento ou conhecer família. Ou melhor, não fale nada que demonstre que você quer um relacionamento longo e duradouro.

Não fale que está apaixonada, vai parecer desesperada.

Enfim, é quase como ser uma pessoa um pouco bipolar, demonstra que está interessada sem estar.

E se realmente funcionar? Ah, se realmente funcionar reza para a pessoa também se interessar por você quando ela descobrir que você não curte usar maquiagem, sua roupa predileta é short, regata e havaiannas, você adora tomar umas cervejas com as amigas, fala que nem matraca, se enquadra na porcentagem de pessoas que têm ciúmes não delirantes, fica mal humorada quando está com sono e com fome, curte umas músicas que todo mundo acha ruim e não está nem um pouco interessada em se envolver com alguém que não tenha a pretensão de casar e ter filhos. Ou seja, reza para ele gostar de quem você realmente é e não quem você achou que era melhor ser.


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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

AI, MEU CORAÇÃO! - II >> Albir José Inácio da Silva

AI, MEU CORAÇÃO! - I

(Continuação de 26/12/16 - O novo presidente do Grêmio Recreativo Tarietense é assassinado assim que tem acesso às contas e contratos da administração anterior, os demais componentes da diretoria eleita se recusam a tomar posse, e o antigo presidente faz discurso de candidato:)

- Uma boa gestão é a melhor maneira de homenagear o presidente assassinado. O Tarietense não se furtará às suas responsabilidades e continuará encantando a vida da cidade – disse Bóssi, já em franca campanha.

                                                                     O DELEGADO

Concluídos os trabalhos na cena do crime, o Dr. Mouro foi pra delegacia com suas anotações instaurar o inquérito policial. Antes intimou Bóssi, mera formalidade, já conhecia a história toda. E Bóssi estava acima de qualquer suspeita. Era seu parceiro em contratos com a prefeitura e outros empreendimentos, apoiador de sua candidatura a prefeito de Tarietá e compadre. A derrota de Bóssi o deixou preocupado.

Desde candidato que Arakém ameaçava vasculhar as contas do clube. Isso podia mexer com coisas muito incômodas pro Bóssi, pra administração municipal e pra muito figurão da cidade, incluindo ele, delegado. Mas o susto passou, os documentos estavam de novo em mãos confiáveis.

Embora lamentando a morte de uma pessoa – sempre lamentável sob todos os aspectos, sabia que Bóssi era o melhor para o clube. Bastava olhar o que era o Tarietense antes de Bóssi e o que se transformou depois.

O aumento das mensalidades e o controle rígido na portaria mudou o perfil dos frequentadores, dos atletas, dos bailes e desfiles de carnaval. Ali se reunia de novo a sociedade tairetense. Não mais  desdentados e pés-de-chinelo, só mensalidade em dia e trajes adequados.

O Dr. Mouro lembrou que Bóssi sempre conduziu com mãos de ferro aquele clube. Há quinze anos ninguém conseguia vencer as eleições e, de uns anos para cá, ninguém ousava se candidatar.

Não que concordasse com tudo na gestão de Bóssi. Aquele seu vice, Neném, por exemplo, lhe dava engulhos. Sujeitinho medíocre, covarde, nervoso e indigno de confiança. Sempre pediu a Bóssi que o deixasse fora dos assuntos mais sérios. Mas sabe que isso não acontecia, o compadre confiava nele e dizia que pessoas de confiança são difíceis de encontrar. Pelo menos, até o momento, ele parecia controlar o estrupício, e tudo ia bem.

Até que surgiu esse Arakém, de uma família de encrenqueiros esquerdistas da capital, e começou a fazer perguntas impertinentes, a andar com estatutos de outros clubes nas mãos e a colocar caraminholas na cabeça de um povo pacífico e ordeiro.

 Avisou ao Bóssi para não permitir alterações no estatuto. Arakém e seus já agora correligionários queriam regulamentar a propaganda e o apoio dos empresários, garantir igualdade das chapas e fiscalização externa das eleições.

Não se mexe em time que está ganhando! Por acaso o Tarietense estava precisando de alguma mudança? Não funcionava bem assim há tantos anos? Mas Bóssi fez concessões, quis agradar, foi fraco, frouxo. Excesso de confiança.

Deu no que deu. Mexeu-se no estatuto, Arakém e sua gente foram  pras ruas, praças, andaram de casa em casa, pediram liminar garantindo voto de inadimplentes, trouxeram gente de fora pra contar os votos. E ganharam.

Bem, mas um “acidente” – como diz um certo jurista - veio resolver o que poderia ser outra tragédia. Deus escreve certo por linhas tortas.

Minutos depois do delegado, Bóssi chegou à Delegacia na condição de testemunha, , distribuindo sorrisos e cumprimentos. Era amigo da polícia. Contou sua versão sem interrupções. No momento mais dramático da narrativa não pôde evitar as lágrimas. O delegado ouviu compassivo e ditou para o escrivão:


(Continua em 15 dias)


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

COMO ESTÁ O SEU MESENTÉRIO? >> Paulo Meireles Barguil

Há cerca de cinco séculos, Leonardo da Vinci, um traquina inigualável, descreveu o mesentério.
 
Durante todo esse tempo, quase toda a Humanidade continuou a ignorá-lo.
 
Na Medicina, era considerado apenas como uma membrana que une o intestino fino ao abdome.
 
Numa analogia hidráulica, seria um cotovelo.
 
No início desta semana, cientistas iniciaram o resgate existencial do mesentério, descrevendo a sua anatomia e estrutura, bem como o elevando à categoria de órgão.
 
O próximo capítulo será determinar a sua função e, assim, compreender a sua importância para a saúde do Homem, uma vez que possui nervos, vasos sanguíneos e gânglios linfáticos.
 
No início de 2016, as ondas gravitacionais anunciadas cem anos antes por Einstein, foram detectadas, tendo sido considerada a descoberta mais importante da última revolução terrestre ao redor do Sol, e inspiraram uma crônica.
 
Não sei se o mesentério terá o mesmo sucesso, embora seu padrinho seja bastante afamado, mas pelo menos minha crônica ele já garantiu!
 
Sugiro que você o inclua na lista da próxima revisão de saúde... 


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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

FECHAMENTO É O CARAMBA >> Mariana Scherma

Fechamento, em termos jornalísticos, é o pior dos tempos. Na prática, é quando se fecham revistas e jornais para a impressão (notícias em papel, lembra?). Mas na realidade é o cataclisma das comunicações. É um período de tempo curtinho, ok, mas que aparentemente dura um mês. É a fase em que tudo pode acontecer. Tudo de estranho, improvável e complexo rola. Sério, quando há um fechamento calmo, pode esperar que no dia seguinte uma bomba explode (metaforicamente, fato, mas com boas doses de estragos).

“Ai, nossa, como jornalista exagera”. Não, jornalista, quando sente pavor de fechamento, tem suas razões, não é exagero. Sou jornalista de papel e internet há mais de 10 anos. Já passei pelos fechamentos mais bizarros da vida: alguns mais trágicos (o casal da capa se separa, alguém noticiável morre, a gráfica avisa que a concorrência vai usar a mesma foto na capa...) e outros mais tranquilos (a publicidade quer mais ou menos páginas, a publicidade quer um publieditorial... A publicidade paga as contas e a gente corre pra fazer). O único problema é que só jornalista e designer entendem a loucura do processo, por isso o pânico. A maioria das pessoas julga ser simples mudar a capa, alterar a matéria principal, diagramar três pagininhas NO DIA em que se entrega o produto. A vontade que dá é soltar um: “vem fazer, então”, mas há toda uma educação que impede isso.

Em termos de adrenalina, fechar um produto impresso deve equivaler a um dia de médico em pronto-atendimento: não dá pra atender ao telefone (aliás, a gente assusta quando o bendito toca), não dá pra ir ao banheiro, esquece o cafezinho e a água, trabalha, trabalha e trabalha. É puxado, mas sobrevivemos. Só que aí vem um funkeiro com uma música e diz “meu fechamento é você”.


NÃO. NUNCA. Jamais meu fechamento vai ser alguém que eu ame, goste ou por quem sinta um mínimo de simpatia. Dizer que alguém é seu fechamento, no mundo das publicações, é chamar essa pessoa de seu carma, seu tudo de ruim, seu desespero, seu medo de atender o telefone, seu estresse, sua zica, sua dor de cabeça que dura dois dias. Me recuso a apoiar essa gíria. Sinto muito.


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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

DIANTE DO TUDO >> Carla Dias >>


É tudo para ele. O próprio não consegue acreditar e se mantém no lugar, punhos cerrados, coração acelerado.

Tudo para ele.

Para quem viveu com mais nada do que a maioria, impossível não se sentir assustado. É muito tudo para um nada recorrente. É muito tudo para se aceitar sem susto, desconfiança, a sensação de desmerecimento.

Mas é tudo para ele.

Quem tem vivido problema a problema, resolução a resolução, abandono a abandono. E que se apressa a resolver o simples, porque sabe que o complexo toma tempo, saúde e requer paciência turbinada. Sem contar a colaboração rareada de outros.

Aprendeu muito cedo a contar desgraças. Nem pense que por isso se tornou um lamentador. Mas não foi por iluminação espiritual, superação, ou qualquer termo que se use para se escancarar, em prol do marketing sensacionalista, quem sobrevive à miséria e a contínua humilhação à própria existência. Não se tornou lamentador porque acreditava que o futuro lhe reservava felicidade. Ele escolheu não se tornar lamentador. Evitou expor suas auguras para dar chance às mínimas oportunidades de um passo adiante.

Nunca imaginou que seria assim, tudo para ele. Almejou um pedaço, um canto, uma fração disso. Sonhou com menos do que contempla no momento. Agora, sente-se estranho. Na verdade, experimenta o novo, o que sempre causa estranheza, independente da natureza do sentimento. É a primeira vez que tudo é para ele.

Enquanto a sua volta os poucos e fiéis amigos dizem palavras de alegria, ele só consegue se escorar nas lembranças daqueles nadas. Não consegue extirpá-los para se entregar ao assombro de ser tudo para ele. Mas sabe que tem de ser assim. Não nasceu para o esquecimento ou para a negação de sua trajetória, tampouco para minimizar o que as dores lhe ensinaram. Foram elas que o catequizaram sobre importâncias. Mas não é de se apegar à autopiedade, não quer ser possuído pela nostalgia das lamentações, apenas por não saber como se comportar diante de tamanho tudo.
É tudo para ele. Tudo dele.

Demora-se num sorriso bobo, de menino diante do sorvete preferido, escolhido durante os comerciais de televisão, e que irá experimentar pela primeira vez. Está a um passo de mudar o ritmo de sua vida.

Os amigos e suas gargalhadas de celebração. Aqueles que o aceitaram carrancudo, silente, arredio. Eles se deram ao trabalho de conhecê-lo, ao que ele será grato pelo o resto de sua vida, porque acredita que não há generosidade mais bonita. Aventura-se a sorrir aos seus, os cabelos meio desgrenhados, que a ventania canta em sua homenagem.

Quem diria que ele, o detentor de nadas, conseguiria tudo.

Dá um passo adiante. Sente-se pronto para abraçar o seu tudo. Um tudo que cabe em espaço tão pequeno, porém ocupa toda sua alma.

Qual é o seu tudo?

Imagem: The Entire City © Max Ernst

carladias.com

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