quarta-feira, 30 de novembro de 2016

TRAVESSIA >> Carla Dias >>


Houve dia em que não saiu de casa. Calou-se até diante de si. Quis nem saber quem estava do outro lado da porta a cutucar campainha. Esqueceu-se de comer, beber, banhar. Permaneceu naquele mesmo lugar, durante horas.

Esvaziado de desejos e alegorias, varreu de si os ecos das palavras, que durante ávido tempo guardou naquele canto de si que nem tão bem conhecia. Sabia que ele existia, que evitava confrontá-lo. E então, assim, esvaziado, o tal canto se parece com uma cidade vazia.

Como único ser dessa cidade vazia, nesse dia ele se nega a assistir ao telejornal de todos os dias, de escorregar o corpo no sofá e provocar a sensação de conforto, enquanto observa o mundo ruir naquele lá fora. Ri de si ao compreender a proximidade dos eventos, não importa quantos mares se coloquem entre aqui e ali. Lá fora é sempre do outro lado da janela. Esse falseado conforto é uma forma covarde de se manter distante do que o incomoda.

Nesse dia em que não saiu de casa, depois de um vazio abissal ter tomado seu dentro, não recusou cada incômodo que o invadiu. Foi assim que chorou em vários tons e durações, gritou aflições e deleites. Espancou paredes e teve uma longa crise de riso. Foi uma sinfonia de emoções contradizendo aquela cidade vazia que o habitava há algumas horas. Foi uma repatriação do que importa.

O que importa já não se identifica com tudo o que importava antes desse dia. Despertou-se de si mesmo para a vida com o desapego às certezas. Elas não são mais soberanas, as regentes de sua jornada. Percebeu-se disponível para o entendimento com questões que evitava confrontar porque o tempo era curto, a paciência era rasa, o conhecimento de causa era parco.

De acordo com o que no momento o rege, a vida tem matizes, cheiros e cores, e até mesmo o horário comercial carece de pausas. Lá fora não acontece somente em telejornais. Amor não é sentimento nascido exclusivamente para embelezar canções. Sorrisos são rebeldes e nos escapam quando bem entendem. Dor tem a força de desarranjar nosso dentro, mesmo quando é a dor do outro. Jardins colaboram com o olhar. O olhar se espalha pelo mundo. Às vezes, é o olhar que capta. Em outros, é o coração, que mesmo sendo músculo, reina supremo na poesia como símbolo do sentimento.

Há dias em que o melhor é sair de si, dar uma volta por aí e voltar. Quem sabe, mais sábio.

Imagem © Jan Mankes

carladias.com

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

MÁGUINO - final >> Albir José Inácio da Silva

MÁGUINO I 

MÁGUINO II 

MÁGUINO III 


(Continuação de 14/11/2016 – Feliz com o convite dos ex-patrões, que poderia dar o impulso que faltava aos seus empreendimentos, Máguino se envolveu em negócios fraudulentos e foi preso pela polícia federal. Abandonado na cadeia pelos empresários, só lhe restava a sofrida companheira). 

O telefone foi desligado do outro lado da linha, a solidão desceu sobre o nosso empreendedor, e ele pensou na sua Jacira.

Tinha gritado com a Jacira quando ela mencionou a possibilidade de ele estar sendo envolvido em alguma trama. Ela não conhecia gente como os Labac, estava acostumada a lidar com  trambiqueiros da comunidade.

- Tem gente que não precisa ser desonesta, Jacira. Entenda isto! – tinha dito.

Mas agora só tinha ela. Não que concordasse com suas desconfianças. Entendia que os Labac não podiam ter seu nome em manchetes policiais. Se nesse primeiro momento não queriam se envolver, era porque tinham de se preservar a empresa. Devem ter sido enganados também, é assim o mundo dos negócios. Lobo comendo lobo. Só os fortes sobrevivem.

E ele ia sobreviver. Estava orgulhoso da pressão que fez nos Labac, dizendo que iria contar a verdade ao delegado. Isso apressaria as providências e a solução. Não era mais aquele empregado que abaixava a cabeça e dizia sim senhor. Queria que soubessem com quem estavam tratando.

Mais uma vez contou com a generosidade, agora desiludida, de Pedrada – depois falam mal da polícia! Mais um telefonema.

Jacira era mulher prática, de poucos sonhos, que aprendeu a sobreviver, desconfiar e a fazer o que precisava. Aquele marido não era grande coisa, mas era o que tinha.  Quando recebeu a ligação chorosa, saiu como estava, de chinelos, pano na cabeça e roupa de trabalho.

Pedrada, acostumado aos escândalos por causa de maridos na delegacia, não permitiu que Jacira passasse da porta. Era só o que faltava! O fato de ter pena daquele “bucha” não significava permitir alterações na rotina do seu ambiente de trabalho. Visitas só na quinta-feira. Mas, disse que ela procurasse ajuda, a Defensoria Pública, porque seu marido estava enrolado. Os ex-patrões negaram saber do que se tratava e, pelo jeito, ele ia segurar sozinho. Nada provava o envolvimento dos Labac, nem cheques, nem depósitos. Nem sequer telefonemas ou mensagens. Se havia algum principiante ali era o Máguino.

Jacira e suas lágrimas voltaram para a comunidade, encontrando na subida algumas companheiras de infortúnio, marido preso, mas por razões mais graves e menos idiotas. Acostumadas a esses contratempos jurídico-policiais, foram elas que sugeriram acompanhar Jacira numa visita aos Labac, já que na delegacia – adiantaram - não se consegue nada.

Na sede da empresa, Jacira não teve dificuldades em passar pela portaria, identificando-se como esposa do Máguino, conhecido agora por ser o queridinho dos patrões. Estava ela sendo barrada pela secretária que já se dispunha a chamar a segurança, quando um displicente Dr. Pedro voltou do almoço.

- Máguino está na cadeia. E vocês têm que fazer alguma coisa!

- Minha senhora, não podemos ficar resolvendo problemas de ex-funcionários com a justiça. Já dissemos isso ao Máguino.

Mesmo com a janela fechada por causa do ar condicionado, o som da passeata se fez ouvir:

- LI-BER-DA-DE PA-RA MÁ-GUI-NO! LI-BER-DA-DE PA-RA MÁ-GUI-NO!

Um Dr. Simão assustado apareceu na porta do gabinete para perguntar o que era aquilo. Jacira sabia.

Correram pra janela, e um alto-falante fanho repetia palavras de ordem. Mas tudo pode piorar e piorou. Duas câmeras de TV enormes e antiquadas chegaram acompanhadas de entrevistadores com microfones de cabos grossos ligados a baterias. Trânsito parado. Buzinas.

Jacira foi instalada na sala do Dr. Simão em um sofá tão macio que ela teve medo de cair. Água e cafezinho foram servidos. Os irmãos procuravam as palavras. Jacira só esperava a pergunta pra despejar suas verdades. Mas não perguntaram nada. Só pediram, terminado o café, que ela aguardasse com a secretária.

Começaram ligando pra delegacia, e um Pedrada descrente até dos poderosos disse que o delegado estava em Mangaratiba, e que não ia ser fácil de resolver porque a federal estava no meio. Por mais de uma hora Jacira assistiu à secretária fazendo e passando ligações em ritmo frenético.

Orientados pelo zap de Jacira, os manifestantes aguardavam na calçada, comendo biscoitos e conversando tranquilamente. Nem parecia a mesma turba.

- Pronto, Dona Jacira! – disse Dr. Simão quando ela voltou à sala. – Cumprimos o nosso dever. Máguino foi ótimo funcionário e será sempre um amigo desta empresa. Leve o meu cartão, e pode buscar o seu marido na delegacia.

Dr. Pedro, na janela, ficou intrigado com os câmeras e repórteres que na calçada confraternizavam com os manifestantes.

- Que emissoras são essas, Dona Jacira? Vocês que chamaram?

- Emissora nenhuma não, Dr. Pedro. Isso é material velho do curso de cinema lá da comunidade. O pessoal veio dar uma força.

Antes de ir à delegacia, Jacira colocou vestido novo, bijuterias e fez escova. Pedrada nem a reconheceu. Máguino já tinha sido retirado da cela e aguardava dignamente sentado na sala de espera.

Ao receber o cartão das mãos daquela mulher elegante, Pedrada perguntou obsequioso e sorridente:

- A senhora é secretária do Dr. Simão Labac?


- Não! Sou esposa do Dr. Máguino Babac!


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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

DESAFIOS DE APRENDIZAGEM >> Paulo Meireles Barguil


Meus neurônios, de todos os tipos e em várias regiões do cérebro, sofrem de espasmos com intensidade diversa, do axônio ao dendrito, quando escuto ou leio a expressão "dificuldades de aprendizagem".
 
Para mim, não é difícil identificar alguns motivos dessa crença, que, apesar de tantos discursos construtivista e sócio-interacionista, dentre outros, continua inabalável.
 
É-me dolorido, todavia, ver as consequências da mesma em tantos cenários, sobretudo nos escolares.
 
Ressalto, de modo especial, a tendência de nomear de dificuldade, principalmente a do outro, o fato de alguém não ter desenvolvido alguma habilidade específica.
 
Para mudar esse roteiro, é necessário admitir que se desconhece o que alguém já sabe, igualmente o quecomo essa pessoa pode aprender.
 
Essa ignorância decorre de alguns aspectos: i) a impossibilidade de efetuar uma ressonância magnética dos sentires, agires e saberes do outro, sendo a petulância um bom exemplo de quem acredita possuir tal capacidade; ii) a complexa (e, talvez, infindável!) determinação do ápice; e iii) a incapacidade de qualquer humano de determinar o trajeto, seja esse reto, curvilíneo ou com buraco de minhoca, entre pontos que ele não avista.
 
O aprendizado é fruto de experiências, ou seja, do que fazemos, sentimos e pensamos de modo distinto.
 
Se, por qualquer motivo, apenas repetimos o viver (ou o morrer!), não é possível a mudança.
 
Quão intrigante é a dor: pode ser motivo para permanecer ou sair!
 
A alegria, embora não seja uma boa mestra, uma vez que não nos prepara para aceitar o efêmero – muito pelo contrário! – é uma ótima companhia, pois com ela nos lambuzamos com odores, sons, texturas e sabores agradáveis do Universo.
 
Não tardará para que a vida toque uma sirene inaudível para nos avisar o término de um folguedo e o início de outro...


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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

COMER PRA LEMBRAR >> Mariana Scherma

Era pra ser um almoço rápido e trabalhado no carboidrato: legumes, arroz e purê de batata. Mas foi só dar a primeira garfada que me transportei para o fim da década de 80, criança com pouquíssima memória dessa fase, mas com a memória boa pra comida. Minha mãe sempre fazia purê eu comia com arroz. Repetia. “Tripetia”. O que deveria ser um almoço normalzinho em um dia qualquer da semana fez o maior carinho na alma e me encheu de uma felicidade boba, mas necessária. Na verdade nenhuma felicidade é boba. São esses momentinhos de felicidade boba que enchem o pote da vida. Sorte a minha notar esses detalhes.

Amo comer. Amo um pratão de arroz e feijão bem temperados porque, ah, o cheiro de feijão é muito o cheiro da casa da minha mãe na hora do almoço. Amo o aroma da cebola e do alho sendo refogados porque esse é o cheiro do arroz e, quando o arroz vai para a panela, é porque está chegando a hora de almoçar. Precisa dizer que essa é minha hora preferida? Minha mãe sempre deixa o arroz por último porque a gente gosta mesmo é de “arroz da hora”. A comida da minha mãe é da hora, isso sim.

A única coisa que minha mãe não fazia era café. Eu, com uns cinco anos ou menos, não sei, comecei a fazer minha mãe me levar na vó Ana pra tomar café. Ah, o cheiro do café da vó... Minha mãe cansou de me levar todo dia e começou a fazer café em casa, a vó já foi para outra dimensão, mas ainda hoje, quando raramente passo na rua em que ela morou, sinto cheiro de café. E chego em casa querendo café.

Na estrada, a caminho da casa dos meus pais, tem uma fábrica de suco de laranja. O cheiro nesse pedaço de mundo tem o mesmo cheiro do bolo de laranja da mami. Obviamente que eu respiro bem fundo e engulo um pedaço desse ar. Tô chegando em casa e o apetite vai abrindo. Aliás, meu apetite cansa de comer fora e, em dado momento, o estômago grita: COMIDA CASEIRA. Depois desse apelo, vem o COMIDA DA MÃE.


Mais do que amar comer, eu amo as lembranças que um alimento feito com carinho me desperta. Talvez por isso eu tenha um pouco de pânico de praças de alimentação: muito cheiro misturado, pouca lembrança. Até porque eu como pra lembrar, diferente dos que comem pra viver ou vivem pra comer. Beijo, mãe. Essa é toda pra você.


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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

NAQUELA SALA, EU ENTENDI. >> Carla Dias >>


O mundo entrou em colapso. Ele sabe, ele vê. Assiste a tudo, enquanto a vida segue. Como pode o mundo continuar a girar diante de tantas tragédias? Como pode sua mãe continuar a cozinhar almoço e jantar, sua irmã a se dedicar ao curso de violino, o pai a concluir trabalhos de marcenaria? Como pode sua namorada continuar a se perfumar para ir até ali, visitar amigos? E os amigos? Como pode esse grupo de pessoas tão esclarecidas continuar a sorrir e almejar alegrias?

O mundo entrou em colapso.

Ele vê tudo tão claramente, sem intervalos. Seu coração está aprisionado por essa realidade. É quase insuportável perceber que o padeiro continua a lidar com farinha e fermento, o empresário a detalhar estratégias, o professor a educar. Os dançarinos... Como podem continuar a rodopiar suas coreografias por aí?

Quer que as pessoas enxerguem o caos em que vivem. Não compreende como elas se levantam da cama e saem para as ruas e fazem o que vêm fazendo há tanto tempo. Ele aceita que não há rotina no caos. Por que os outros não aceitam? Por que gastam tempo falando sobre filmes e livros, discutindo desejos indiscretos e tecidos apropriados para vestidos de festa? Por que saem para passear com seus cachorros, trazem filhos ao mundo, cometem o amor deliberadamente?

Não há amor no caos.

O que sabe é que o mundo entrou em colapso. Sabe com essa certeza que derrubou sua teoria de que certezas são flexíveis. Porém, essa certeza é concreta, tem peso, é desmedida. Então, por que ignoram o óbvio e continuam a comprar casas pelo financiamento, a gastar pequenas fortunas para financiar ousadas jornadas? Por que insistem em ir ao cinema, frequentar restaurantes e palestras “de mudar tudo na gente”?

Senta-se diante da vida dessas pessoas e não consegue aceitar a indiferença delas em relação ao mundo que entrou em colapso. Qual a receita para se ignorar algo tão poderoso, que pontua um iminente fim? Seu tio lhe explicou o fim do mundo, certa vez. Disse que ele acabaria diante da indiferença, essa que é das armas mais poderosas para a execução de um fim.

Ele tentou e está consciente disso. Explicou que o mundo entrou em colapso a todos os conhecidos, durante eventos que prometiam outras coisas, como prazer e alegria. Quem pode pensar nisso quando está à beira do abismo? Discutiu fatos importantes, que endossavam sua certeza. A plateia não tem sido muito receptiva, distraindo-se com café fresco e comerciais da televisão.

Como não percebem? Há tantas coisas ruins acontecendo ao mesmo tempo. Elas comprovam o que ele diz: o mundo entrou em colapso. Política, economia, a violência. Como podem permanecer indiferentes à violência que se alastra por aí?

Senta-se em um sofá de canto, da grande sala de estar da casa de sua mãe. É dia de celebrar mais alguma coisa ou alguém e isso não faz sentido. Porém, tem sido filho presente, desde sempre, e aqui está. As pessoas conversam animadas, comem e bebem e o ignoram. Ninguém quer saber do que realmente importa. O mundo entrou em colapso e elas preferem se empanturrar e dar altas gargalhadas na conta de piadas tolas.

O avô se senta ao seu lado. Esse senhor que cheira à naftalina e perfume cítrico, de cabeça lisa e roupa amarrotada. Esse senhor de mãos trementes e óculos grandes demais para o rosto ossudo. Nunca foram íntimos, raras foram as conversas que tiveram. Ele não se lembra sobre o quê.

- Não entendo como conseguem...
- Nem eu, vô. O mundo por um fio e eles fazem festa...
- Sentem-se felizes tão fácil. E em um mundo que entrou em colapso.
- Pois é! Não deveriam se preocupar com isso?

O avô, com toda a dificuldade que a idade somada à uma saúde precária lhe oferece, ajeita-se no sofá para olhar melhor para o neto. O avô sorri e o neto se sente desconfortável. O avô segura a mão dele, e o neto se sente ainda mais desconfortável. O avô o encara, e ele não consegue desviar o olhar.

- Imagino como estaria o mundo se todos embarcassem nas mazelas dele com completa entrega. Pode imaginar? A vida pontuada pelo caos. Somente pelo caos. Preocupar-se e trabalhar para melhorar o mundo não é render-se ao pior dele. O que essas pessoas fazem é viver com o que têm, tirando da vida o melhor possível. E, acredite, festas de comemoração de sessenta anos de casados contam muito. Eu e sua avó assistimos à tantas infelicidades. Não teríamos sobrevivido até hoje, a essa comemoração, se tivéssemos nos dedicado ao pior do mundo... Ao pior do ser humano.  Ao pior de nós. Porque a indiferença à felicidade e ao prazer, às conquistas cotidianas e às grandes realizações, aos relacionamentos que a vida nos oferece, essa indiferença é letal. Essa indiferença mantém o mundo em colapso.

O avô se levanta, levando o tempo oferecido pela idade e pela saúde precária. Então, junta-se aos outros.

Ele pensa no mundo em colapso, mas dessa vez, também presta atenção às pessoas na sala de estar de sua mãe, e ao prazer que sentem por estarem ali. Seu tio tinha razão. Seu avô tinha razão. A indiferença é letal, porque aponta sempre para um único caminho, ceifa opções.

O mundo entrou em colapso. Ainda assim...

Imagem: Hope ©  George Frederic Watts



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terça-feira, 22 de novembro de 2016

15 ANOS DEPOIS >> Clara Braga

Lembro como se fosse ontem, era janeiro de 2001, 14 de janeiro de 2001 para ser mais exata, e no Rio de Janeiro acontecia a terceira edição do festival Rock in Rio, dez anos depois da segunda edição!

Eu sempre fui apaixonada por música, e esse ano com certeza foi um ano marcante pra mim. Como minha família tinha um apartamento no Rio de Janeiro, aproveitamos as férias para curtir o Rock in Rio, mas a primeira missão já era difícil, eu tinha que escolher quais shows assistir e quais não assistir, pois não poderíamos ficar lá as duas semanas inteiras de festival e nem teríamos dinheiro para ir a todos os shows, principalmente porque eu tinha só 13 anos e não podia ir sozinha.

Entre os dias que queria ir, uma coisa era certa: o dia do Guns and Roses tinha que estar na lista, podia ser Guns e Foo Fighters ou Guns e Red Hot Chilli Peppers, isso eu ainda tinha que decidir, mas que eu tinha que assistir a um show do Guns isso eu tinha certeza!

Fiz minha decisão e no dia do show estava lá cedo. O figurino não podia ser diferente, fui com a minha blusa que tinha uma foto enorme do Axl em preto e branco na frente e o nome da banda atrás!
Peguei sol, passei um calor típico do Rio de Janeiro, mas estava feliz com meu figurino de roqueira! Pra espantar o calor jogavam água, fiquei ensopada e, mais pro fim do dia, peguei vento e passei bastante frio. Por causa da água que jogaram o chão virou lama, e eu lá no meio do povão pulando e ficando toda enlameada. Antes mesmo do Guns entrar no palco a blusa já não era preta, era marrom, e a bermuda que usei nesse dia foi direto pro lixo. Mas a verdade é que não importavam as circunstâncias, a emoção de estar pela primeira vez em um festival de música daquele tamanho, esperando para ver uma das bandas que eu mais amava e que até pouco tempo eu nem imaginava que teria a oportunidade de ver, isso não tinha preço, valia cada bermuda que teve que ir pro lixo, cada blusa enlameada, cada momento de frio e calor extremo, cada copinho de água que eu vi jogarem no Carlinhos Brown e cada música que o vocalista do Oasis cantou fazendo questão de não demonstrar qualquer emoção aparente.

O Guns era a última atração do dia, mas a adrenalina não deixava o cansaço bater! Bom, pelo menos não em mim que mais parecia ter entrado em um armário e ido pra Nárnia, mas meus pais já demonstravam indícios de cansaço!

O show, como era comum, demorou pra começar. E há de se ter paciência para esperar o senhor Axl Rose. Quando o show começou meu coração quase para, lembro de cantar os clássicos com o coração na boca, que show! Pra mim o momento mais esperado era Paradise City, mas eles saíram do palco sem cantar essa! Tudo bem, eu me consolava, todas as outras que eu queria eu ouvi, não tinha do que reclamar! E tinha mais, vai que eles voltam, aquilo podia ser uma pausa dramática, todo artista deve gostar quando as pessoas pedem o famoso BIS! Mas todos que estavam comigo acharam que não, já estava tarde, estávamos todos molhados, sujos, cansados, com fome e com frio, o show acabava por ali mesmo, e fomos pra casa!

No dia seguinte, no jornal, a notícia que eu não queria ter tido: Guns and Roses volta ao palco para delírio dos fãs! O show que já era histórico terminou perfeitamente, a música de encerramento? Paradise City, aquela que eu fiquei esperando para assistir o show inteiro. Preciso confessar, chorei e não foi pouco, estive tão perto de ver e perdi, como pude deixar isso acontecer? 

Anos depois o Guns foi a Brasília, turnê de um CD que eu não tinha gostado e com um Axl que todos criticavam tanto pelos atrasos quanto pela voz, já não cantava bem. Decidi não ir. Alguns anos mais tarde foi a vez do Slash vir. Esse eu não perderia, a única coisa que faltou no show do Rock in Rio além de Paradise City foi o Slash nos seus solos mirabolantes! Mas já que não era possível ver o Slash no Guns, vamos nos contentar em ver o Slash tocando algumas músicas do Guns durante o show do Miles Kennedy, que por sinal manda muito bem cantando Guns.

O que eu não esperava era que anos mais tarde o Guns iria decidir fazer uma turnê com a formação quase original, Duff, Axl e Slash juntos, como tudo deveria ser, cantando os clássicos mais maravilhosos do universo! No momento em que anunciaram o show na minha cidade eu fui automaticamente levada de volta para 2001.

15 anos depois, ao entrar no estádio, senti a emoção que senti ao pisar no Rock in Rio, o coração batendo forte e o olho cheio de lágrimas! Ao cantar november rain embaixo de chuva em pleno novembro, lembrei dos fortes jatos de água que me deixaram ensopada e enlameada naquele Rock in Rio! Quando o Slash fazia seus solos eu tinha a certeza de que essa é a formação da banda que me fez gostar de rock! E no final do show, lavei a alma daquela garota chorosa de 2001, eles fecharam o show com Paradise City, mas dessa vez eu estava lá pra ver tudo bem de perto! 


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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

DEUS DA GUERRA >> André Ferrer

A bola caiu das mãos do menino e rolou até o canto mais obscuro da praça. Ele, que já conhecia o mundo em termos de seco e molhado, sombra e sol, bravo e feliz, engatinhou e cruzou o canteiro de relva. Sob um emaranhado de galhos, a bola branca se transformara! O arbusto fazia sombra, mas também filtrava uma tinta que pintava a bola de verde.

“Saia daí menino. É perigoso!”, a mãe de repente.

Pois um mendigo ali se abrigava. Um espécime das trevas, que jamais tomava banho e se alimentava da carne fresca das crianças.

“É mentira”, fez o menino. “A minha bola...”

Branca. Novamente branca sob a claridade das quinze horas. Por qual magia ocorrera aquilo? No quarto escuro, que contrariava o dia e tudo o que o dia representava de bom e divino, a bola, os carrinhos, a máscara do Batman, o cavalinho de madeira, enfim, tudo... o mundo inteiro desaparecia! Por que no arbusto – naquele canto proibido da praça, o antro do terrível monstro – havia mais luz do que, à noite, em seu quarto? Ainda por cima, era mágica! Uma luz capaz de transformar a sua bola branca numa bola verde! Realmente, algo de muito estranho acontecia quando os adultos faziam as suas descrições do mundo.

A questão é que o Deus da Guerra custa a nascer. Muitas bolas brancas trocam de cor até que o Deus da Guerra cresça e comece a desconfiar até de si mesmo. A espera é longa até que os instrumentos ganhem acuidade. Quando se desvelam as faces do não, da vergonha e do dinheiro, ele amadurece.


“Abra na página vinte e cinco do catecismo!”

Na orla de um abismo, um anjo detém uma criança prestes a cair. O desenho é realístico – “tirando, é claro, esse moço... ou moça... com asas nas costas”, o menino pensa.  A professora é minuciosa e parece falar com cegos. O desenho, por causa disso, fica mais severo. Enquanto explica o propósito dos anjos e o modo como eles barganham com os humanos, a mulher beira a fúria. Uma fúria inexplicável. Gratuita. Nos rostos das crianças, o amor e a culpa se confundem.

“Professora”, o menino chama. Está intrigado e a coragem do Deus da Guerra, que é sagrado, pagão e legítimo, fagulha dentro dele. “Professora, eu preciso perguntar uma coisa”.

“O que é?”

Para confirmar, ele abre bem a página do livro e tenta se lembrar de outra ilustração, também realista, a respeito de pássaros. Se havia um verbete da Barsa que o menino realmente adorava era aquele sobre as mais variadas espécies de pássaros.

“O que é?”

“Esse anjo tem asas.”

“Sim.”

“Asas cheias de penas.”

“Sim.”

“Penas iguais às de um pássaro?”

Mais corajoso, agora, o Deus da Guerra comemora. Na sua curta existência, ele jamais rira tanto na companhia de outras crianças.

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Imagem: Marte, região de Cydonia Mensae, onde está o suposto (e, hoje, midiático) "rosto". A sequência de fotos, cuja resolução melhora ao longo dos anos, confirma que se trata de pareidolia.  


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sábado, 19 de novembro de 2016

MEDITAÇÃO >> Sergio Geia

 
 

Breve prática
Embora não haja garantia, após aprender com livros e com alguns doutos conhecedores do assunto, escrevo num pequeno papel três coisas fundamentais para uma vida e uma velhice com qualidade: boa alimentação, exercícios físicos regulares, meditação. Incluo também, entre parênteses: “visitas periódicas a médicos”. Infelizmente, depois de certa idade, temos que visitá-los mais do que gostaríamos.
Duas dessas coisas os senhores já estão carecas de saber. A meditação talvez seja novidade. Confesso que há muito venho brincando com a ideia; já tentei algumas vezes. Porém, agora, estou disposto a incluir de vez essa prática em meu cotidiano; principalmente, depois das lições sobre o assunto ministradas aos seus leitores pelo doutor Chopra, em Cura Quântica.
Fecho a porta do quarto; apago a luz; sento confortavelmente numa cadeira; programo o despertador para 20 minutos e inicio minha prática matinal.
Com os olhos fechados procuro me concentrar na respiração; conforme me foi ensinado pelo senhor Pierre Neruda, a quem visitei em seu consultório, preciso ser testemunha de minha respiração; apenas observá-la, e nada mais; a cada inspiração e expiração, associo o movimento ao meu mantra...
Se o senhor estiver em Ubatuba e desejar comer uma pizza delicada, saborosa e de excepcional qualidade, sugiro que procure a Pizzaria São Paulo, cujo proprietário é filho do Lino, do Bardolino, cujo estabelecimento ladeia a pizzaria, cuja família é proprietária de um armazém no mercado de São Paulo.
Se o senhor estiver em Ubatuba e desejar curtir uma boa praia, onde possa descansar, beber e comer dignamente, passear pela areia e banhar-se num mar calmo e limpo, sem enfrentar estrada, sugiro que vá ao Perequê-Açu.
Se o senhor estiver... Dou-me conta; volto. A sensação, às vezes, é de um flutuar macio, mas o pensamento me desloca para outro lugar. Noto, e imediatamente volto ao ponto inicial.
Querida Zoraya. Peço perdão pelo atraso, mas a vida corrida acaba por nos afastar de tudo quanto é belo e bom, e hoje, somente hoje, pude concluir a audição de sua delicada obra. Confesso que foi minha primeira experiência nesse novo ramo que a tecnologia moderna nos apresenta, e apreciei; sim, muito apreciei. A qualidade de seus contos é superior; a delicadeza com que sua voz nos oferece personagens ambíguos, decentes, indecentes, cruéis, frios, as vicissitudes da vida pinceladas com delicadeza e habilidade por suas mãos...
Volto; volto com a ideia da carta que escreverei à escritora Zoraya Cesar, com minhas humildes impressões sobre seu audiolivro “O Porteiro e outros contos urbanos”, cuja audição recentemente terminei.
Segundo o senhor Pierre, a prática efetivamente se resume ao ato de sempre voltar ao ponto inicial quando pensamentos nos levam para outro lugar. E, por ser assim, de uma simplicidade tosca, muitos acabam por não levá-la a sério.
Fico passeando do respirar ao pensar, do pensar ao respirar, muitas vezes; o barulho do João indo pra lá e pra cá, a quentinha que pedirei pro almoço, o canto dos pitaguás, Didi Wagner, o horário da cabeleireira, até que o despertador toca. Penso que mais pensei, mas não importa; sinto-me bem, muito bem. 

Ilustração: universomistico.com.br


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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

AMOR E REDENÇÃO >> Zoraya Cesar

O dito ‘pobre, mas limpinho’ seria até injusto, se aplicado ao apartamento. Era, perdoem o superlativo - limpíssimo. E de uma simplicidade espartana.

Na sala, uma mesa, duas cadeiras, um sofá onde mal cabiam duas pessoas, e cujo estofado merecia uma troca, uma televisão de tubo. Banheiro e cozinha só continham o absolutamente essencial. Aliás, no apartamento inteiro não se viam enfeites ou adereços, nada de toalha na mesa, quadros nas paredes – descoloridas num soturno tom de branco gelo – ou flores em qualquer canto. Tudo seco como um osso.

Ali vivia um casal.  Vamos nos concentrar na mulher, afinal, ela é a protagonista dessa história. 

Pequena, não gorda, mas rechonchuda – ficava muito bem no uniforme de enfermeira, que mal tirava, por conta dos inúmeros plantões. Devia ter 40 anos, um pouco mais, um pouco menos, impossível dizer pelo rosto, onde as rugas apenas se pressentiam. Seus cabelos louros e cacheados eram curtos, naquele corte prático do tipo ‘lavou, tá pronto’. Os olhos, claros e doces, não deixavam transparecer qualquer tristeza, guardiões implacáveis que eram da verdade que se escondia no peito da mulher.

Melinda apanhava do marido. Sempre? Não. Mas apanhava.

Quando se casaram, ela, jovem e pobre, morava num quarto alugado. Trabalhava e estudava, vendendo o almoço para comer o jantar. Ele lhe ofereceu estabilidade e um lugar para chamar de seu. Houve alguns momentos bons, sim, houve. Mas que foram escasseando até desaparecerem, substituídos por abusos verbais e, mais tarde, físicos.

E por que, perguntaria você, ela não o abandonou, denunciou, por que não fugiu? Talvez porque nada seja simples assim. Talvez porque ele ameaçasse matá-la. Talvez porque ele tivesse uma arma. Não sei. E nem vamos adentrar nesses méritos. Estamos aqui para contar uma história. Uma história de amor.

Naquele breu que era a vida de Melinda, surgiu uma luz. E seu nome era John Marcos.

John Marcos era policial, fazia bico de segurança no hospital no qual ela trabalhava e era 15 anos mais moço que Melinda. Sempre reparara na enfermeira baixinha e gentil, de olhos mansos e poucas palavras, que trazia um ricto de amargura no canto da boca. Uma noite, tomou coragem e sentou-se em frente a ela na lanchonete. Notou a mancha arroxeada em sua têmpora, mesmo disfarçada sob a pesada maquiagem. Não disse nada, não demonstrou curiosidade ou pena. Apenas olhou-a no fundo dos olhos, severo e triste. Melinda percebeu duas coisas: que ele descobrira seu segredo; e que aquele era um homem de verdade. Seu coração triturado pelo sofrimento calado caiu de amor.

Encontravam-se nos plantões, e, sempre que podiam, davam-se as mãos, ainda que por breves instantes. Nada de beijos escandalosos, sexo, sarros, nada. Apenas romance. Quando ele propôs que ficassem juntos, Melinda não aceitou, apavorada que seu marido o matasse. John Marcos não insistiu, não seria ele que transtornaria ainda mais a vida da mulher que amava. Mas, num dia em que ela apareceu machucada de novo, ele se trancou no banheiro e chorou.

Resolveu tomar uma atitude. Se Melinda iria ficar com o marido, que pelo menos não apanhasse mais. Ele acertaria a vida dela e se afastaria, deixando-a em paz e segura. Se algum dia sua amada precisasse, era só chamar. Bem pensado e assim feito.

Acompanhou-a à distância, como sempre fazia, para se certificar que, ao menos até chegar em casa, ela estaria a salvo. A rua estava escura naquela noite que já ia alta. John Marcos esperou. Sabia que o marido descia, todas as noites, depois que ela chegava, para beber e farrear. Pretendia dar-lhe uma prensa, mostrar que maltratar Melinda poderia acabar muito mal para ele.

O plano, porém, não correu como esperado. O sujeito desceu armado e alterado pela bebida que tomara em casa. Sacou a arma contra John Marcos, que passou a brigar pela própria vida, numa luta terrível em que não dava para saber quem estava levando a melhor. E que só acabou quando o marido de Melinda recebeu dois tiros no peito.

Mesmo quando os envolvidos não têm dinheiro, a justiça às vezes funciona. O defensor de John Marcos conseguiu provar que seu cliente agira em legítima defesa. Nem mesmo o fato de que ele e a mulher do falecido tinham um envolvimento amoroso empanou a tese da defesa. John Marcos ficou preso? Sim. Por pouco tempo, mas ficou.

E o que aconteceu? John Marcos está solto. Melinda, viúva.

Se você entrasse, hoje, no apartamento de Melinda, teria dificuldade em reconhecê-lo. Continuava – peço licença para repetir o superlativo – limpíssimo. Numa das paredes, agora coloridas, havia quadros pendurados. O estofado do sofá era novo. Sobre a mesa, uma toalha bonita, um bolo recém-feito e duas xícaras de café. Havia flores, também.

Dê, por favor, uma rápida e discreta espiada no quarto. Você verá John Marcos dormindo, exausto e abatido, mas sorrindo. Abraçada a ele, Melinda esperava seu amado acordar para que pudessem começar a viver o resto da vida juntos.

Uma vida que ele lhe dera ao assumir a culpa pela morte do marido que ela matara.







Pessoal Querido, Leitores Amáveis: estou de férias. Volto em dezembro. Obrigada por tudo. E me aguardem!

Foto: Daria Sukhorukova in Unsplash / Free HD Photos




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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

CASA DE CHÁ >> Carla Dias >>


Sabe pouco sobre a vida. Surpreende-se com ela frequentemente. Acreditava ter nascido com defeito. Depois, que tivesse entendido tudo errado. Então, compreendeu que leva tempo.

Viver leva tempo.

Não adianta colocar o relógio para despertar duas horas antes para tentar chegar adiantado ao importante. Não adianta colocar o relógio para despertar cinco minutos depois, apenas para aproveitar a espera. Ainda que pareça escoar pelos dedos, deixá-la para trás, aporrinhá-la com sua displicência, enlouquecê-la com a indiferença aos seus desejos, o tempo ainda é dono de tudo.

Da dor ao encantamento. Da tristeza à celebração. O quanto dura e o quão rápido se dissipa.

Quando entendeu isso, passou a gastá-lo com mais propriedade. Compreende que os grandes eventos são oportunidades para cultivar alegria. Porém, alegria para ela também é o silêncio diante de uma paisagem que diga mais que o lógico e ela consiga escutar o dito. Onde possa encontrar inspiração entre os prédios, beleza escancarada em um cenário de feiuras infligidas. A feiura do abandono, do descaso, das mentiras. A beleza dos que se importam, dos que colocam seu tempo à disposição da melhoria. A paisagem da natureza exuberante, do urbanismo ora capenga, ora extraordinário.

Dos acontecimentos redesenhando o cenário do mundo.

Aventurou-se, certa vez, pelas encostas das aventuras ousadas. Viveu cinco minutos como se fosse outra, uma versão de si, uma releitura. Cinco minutos em que sua voz saiu com entonação diferente, seu gestual foi repaginado pelo improviso e até os cabelos ela desalinhou, entre algumas palavras. Cinco minutos se valendo da capacidade de se intrometer com a imaginação a ponto de se sentir outra. Foi como uma lufada de novidade, um desprendimento das mágoas de estimação, a ruptura com a formalidade que cerceava seu emocional.

Cinco minutos.

Ali, em pé, na rua, diante de duas senhoras sorridentes, perdidas pelo bairro e ansiosas por chegar aonde queriam. Uma festa, que pode até não ser tão produzida quanto um grande evento provedor de alegrias pré-definidas, mas que é importante para as alegrias que importam, que ficam, que são fisgadas na memória a cada necessidade de se aprumar o espírito.

Ela explica o caminho, que conhece de cor, porque fica logo ali, onde nasceu e foi criada, de onde se mudou, adulta. Para onde voltou alguns anos depois. Explica como chegar a esse onde como se fosse forasteira. Porém, sente-se uma personagem de propaganda de televisão tentando vender produto que promete isso e entrega um péssimo aquilo.

O plano das senhoras é passar uma tarde agradável em uma casa de chá da região. Uma amiga de uma amiga, que encontrou a prima com a filha mais nova em um parque, então, essa filha comentou sobre a casa de chá. Mas ela conhece o lugar, sabe que é apenas marketing para mascarar um lugar que oferece serviços dos quais elas provavelmente não gostariam de desfrutar. Certamente, a filha mais nova da prima da amiga de uma amiga delas estava sendo sarcástica.

Sua catarse ao se passar por outra durou cinco minutos. No sexto, já estava engajada numa conversa sobre casas de chá. Já recuperada e completamente ela mesma, explicou para as senhoras o que elas encontrariam no tal lugar. Elas riram, fizeram piadas pueris, outras nem tanto. A moça riu junto, fez piadas pueris, e continuou nas pueris, porque as senhoras lhe lembravam a mãe e a tia.

Foram cinco minutos sendo outra, para então retomar a si com mais gentileza, mais sabedoria. Foram apenas cinco minutos para que aquelas senhoras a encantassem de tal forma, que ela se atreveu a oferecer a elas um chá, lá em sua casa. Elas se entreolharam e uma delas disse, sorriso brincalhão nos lábios: “eu sabia que hoje viveríamos uma aventura.”

Sabe pouco sobre a vida. Surpreende-se com ela frequentemente, assim como as pessoas que ela abarca. Sentadas à mesa, três mulheres conversam sobre a vida e se divertem ao detalharem certas lembranças. Na casa de chá improvisada, há música, há sol invadindo o recinto pela janela, há essa outra pessoa que sempre foi a pessoa que conheceu, mas que somente agora, tempos e experiências depois, consegue se reconhecer nela.

Imagem: The Tea Party ©  Frederic Soulacroix



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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

MÁGUINO III >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 31/10/16 – Enquanto tentava convencer Pedrada a lhe conceder mais uma ligação para os Labac, Máguino lembrou da vida difícil como motorista, da demissão, do trabalho duro para recomeçar a vida e, claro, do convite dos ex-patrões, que lhe pareceu a redenção depois de tanto sofrimento. A voz do mensageiro soou como música nos ouvidos).

Sorriu lisonjeado. Primeiro porque não o esqueceram como chegou a pensar. E depois, teria o prazer de não aceitar de volta o emprego porque agora era empresário e os negócios iam muito bem, obrigado. Mas apressou-se em atender porque não se deixa pessoas tão distintas esperando.

Mas a alegria estava só começando. Indescritível a sensação de voltar àquele lugar, em que tantas vezes foi humilhado, vestindo roupas de marca, sapato engraxado e usando um relógio igualzinho ao do Dr. Simão
.
Cumprimentou benevolente o porteiro e os funcionários que ia encontrando pelos corredores até as salas da diretoria. Os antigos colegas o olhavam com quase reverência. Ele conseguiu. Bem que dizia, em meios aos esforços pra agradar os patrões, que aquela vida não era para ele. Aí estava. Voltava agora como amigo, como celebridade, respeitado pelos ex-colegas e festejado pelos donos. Mas o que o trazia ali?

- Café ou champagne? – perguntou o Dr. Simão, depois de falar da alegria de tê-lo de volta àquela casa, da sua lealdade no tempo de empregado e do sucesso que, ouviu dizer, Máguino experimentava nos seus negócios.

- Eu vou de champagne, – disse o Dr. Pedro – é tempo de comemoração!

- Queremos falar de negócios, Máguino, de sua participação num contrato nosso que, além de capitalizar sua empresa, ainda pode incluí-lo definitivamente no seleto clube dos bem-sucedidos – acrescentou o Dr. Simão.

- Dr. Simão, tenho me dedicado muito, mas meus negócios são ainda em pequena escala, não sei se estou à altura de...

- Sabemos nós, Máguino! Não escolhemos você à toa. Sobram interessados em participar de nossos empreendimentos, mas era uma questão de reconhecimento. Jamais esquecemos sua lealdade.

- Bem, eu fico lisonjeado, mas ...

- Não se preocupe, Máguino, já providenciamos tudo. Pode se dirigir agora mesmo para o Porto do Rio de Janeiro. Saiba que atrás de atrás de você tem uma estrutura eficiente.

Não houve de fato qualquer dificuldade. Máguino estranhou que os documentos estivessem todos em seu nome, já que conversou com os Labac há poucos minutos. Mas é assim mesmo o mundo informatizado, precisava se acostumar.

Assinou umas notas e foi pra casa, feliz por participar de negócios com aquela gente e pelo dinheiro que era muito bem-vindo. Dinheiro mesmo, estranhou, nem cheque nem depósito. O mundo, de vez em quando, corrigia umas injustiças.

                                                                             A PRISÃO

Sonhava Máguino em sua residência com novos negócios com os Labac quando a polícia federal chegou. Não ouviu direito a leitura do mandado, mas sabe que tinha receptação, contrabando, descaminho e outras coisas de que nunca ouviu falar.

Era um mal-entendido, tentou dizer, mas foi algemado e colocado na caçamba para desespero de Jacira e regozijo dos vizinhos invejosos - ou que tinham sido ludibriados na construção da birosca.

E aqui está o Máguino, sob a vigilância benevolente do Pedrada, tentando ligar para o Dr. Simão. Àquela altura o policial já desconfiava da possibilidade de aquela bondade render alguma coisa, mas gostava de ser bom às vezes e começava a sentir alguma pena do Máguino.

- Interrompa a reunião! É urgente! É caso de vida ou morte! – vociferava Máguino para a secretária do Dr. Simão.

- Mas o Dr. Pedro já falou com o senhor hoje. O que mais o senhor quer?

Percebendo que estava perdido, Máguino mudou de estratégia.
- Diga-lhes, então, que contarei a verdade: de quem é a mercadoria, quem me contratou, quem fez o transporte e com quem está a carga. Acho melhor me ajudarem a esclarecer logo essa situação!

O telefone foi desligado do outro lado da linha, a solidão desceu sobre o nosso empreendedor, e ele pensou na sua Jacira.


(Continua em 15 dias)


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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

SUSTENTABILIDADE (OU 10 < 11) >> Paulo Meireles Barguil


Era uma vez...
 
Na verdade, foi mais de uma vez.
 
De fato, incontáveis vezes.
 
O querer, o prazer não possuem limites, já dissera Freud, nomeando essa energia de id.
 
O que me satisfaz agora daqui a pouco é sem graça.
 
Soberbos, alguns bradam: "Que venham mais manjares!".
 
A Humanidade construiu inúmeras maravilhas.
 
Quantos de nós as usufruem?
 
Milhões ainda padecem por falta de água e pão.
 
Já não tememos os monstros no final do Oceano.
 
Alguns, sim, receiam o fogo do inferno.
 
Outros se angustiam por não possuírem os males de consumo destinados a raros.
 
Inebriados, muitos gritam: "Todos merecem o banquete!".
 
A tecnologia digital avança, cada vez mais rápida, rumo ao ignorado, desprezando qualquer linha imaginária.
 
O tsunami consumista arrasta a todos, triturando corpos e esmagando almas.
 
Necessário, pois, que existam trincheiras, alcunhadas pelo psicanalista suíço de superego.
 
Sem barreira, a vida, individual ou coletiva, brinca de roleta russa.
 
Há algumas décadas, vozes dispersas nos alertam que a Terra não dispõem de recursos infinitos, sendo necessária mudar algumas (várias!) práticas para que continuemos nela habitando por mais alguns séculos.

Triste situação de quem ignora as consequências de gastar 11 quando ganha 10.

E o que dizer de um povo que desconhece a realidade contábil da sua cidade, do seu estado, do seu país?

Egoístas sugerem: "Os outros que renunciem! Eu mereço o que tenho...".

Alguns acreditam que a acrobacia financeira é eficaz porque, mês após mês, conseguem driblar o cobrador, quando, na verdade, estão aumentando a sua dívida!
 
A fatura espiritual, também chamada de Juízo Final, Lei do Karma, é inexorável: cada pessoa recebe a sua, diariamente...


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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ACUSADO >> Carla Dias >>


Não vai se arriscar a dizer palavra que seja para explicar seu silêncio. Que aprendam a decifrá-lo, caso ainda haja algum interesse sobre ele. A dívida é antiga, vem de antes de terem lhe cerzido o destino com invencionices. Foi na conta de um olhar impaciente, uma suposição lançada ao mundo por puro desejo de cutucar o desconhecido, o descuido de reescrever fatos para embelezar monólogo baseado no desejo de chamar atenção de um ao esgarçar a honra do outro.

Honra...

Sorri ao pensar na palavra. Conheceu poucas pessoas capazes de compreender e viver o sentido dela, sem que o desejo por algo ou alguém não tivesse atiçado o nascimento de uma versão mais flexível, para benfeitoria exclusiva de seus autores. Ele mesmo ainda não foi capaz de mergulhar no sentido dessa palavra a ponto de vivê-lo sem se sentir seduzido pelas suas versões. Dedica-se a adquirir tal habilidade.

Talvez por isso tenha oferecido a eles o seu silêncio. Disse nada a respeito, não se manifestou se valendo da tecnologia, para que suas palavras ganhassem o mundo tão rápido quanto as histórias inventadas sobre ele. Não se explicou aos familiares e aos amigos, nem mesmo retratou-se no trabalho.

É claro que seu silêncio o levou a perder tudo o que tinha naquela época: amante, amigos, companheiros de jornada, colegas de trabalho. Sim, também perdeu credibilidade diante da família e dinheiro, o que lhe custou muitas noites mal dormidas, uma pilha de contas não pagas sobre a escrivaninha, corte de luz, água, despejo, ter de morar nas ruas.

Nas ruas, conheceu pessoas tão desconectadas da realidade que ele conhecia, que se deu conta de que não importava mais. Quem ele foi, antes de reescreverem sua biografia, não fazia mais sentido.

As pessoas ainda o observam com curiosidade afiada. Hoje sorriem quando ele passa, cumprimentam-no como se fossem amigos de infância, oferecem-lhe gentilezas, tentam chamar sua atenção e conquistar seu afeto. Ele não se importa com essa atenção. É atencioso com todos, respeitoso. Ainda assim, silente. As pessoas não se conformam com não conseguir tirar dele um comentário a respeito dos tópicos do momento: o que você acha? Ele sorri e as pessoas seguem em seus monólogos vazios, preenchendo o tempo na companhia dele com o som das próprias vozes.

Não importa como ele se reinventou, tampouco que hoje seja o que alguns tolos chamam de “exemplo”. Os exemplos que preza não se debruçam nos infortúnios das pessoas, mas em quem elas são, com toda a variedade de predicados que um ser humano coleciona dentro de si. E muitos deles nem mesmo sabem que são exemplos.

Mantém os longos passeios pelas ruas da cidade, comparece aos almoços de domingo da família, celebra a chegada de novos membros a essa sociedade que se liga pelo sangue, pelo afeto, pela cumplicidade e, às vezes, pelo oposto disso tudo. Se há algo que compreendeu, ao ter sua vida modificada de forma tão agressiva e alheia a sua vontade, é que uma mentira desferida em um sopro pode ganhar a força de uma tempestuosa verdade. Ainda assim, trata-se de uma impostora. Eventualmente, ela retomará seu lugar de invencionice.

Quem o acusaram de ser ele nunca foi. A princípio, esperneou, na tentativa de mostrar o óbvio. Então, compreendeu que, diferente do que pensava, a verdade nem sempre é óbvia ou palatável aos que apreciam um escândalo para assistir. Quem é não se tornou impecável ser humano, tampouco deseja isso. Suas mazelas têm sido desafio que ele encara cotidianamente. Seus defeitos ele apenas não permite que liderem seus desejos, mas os aceita e os enfrenta. Ninguém o conhece melhor do que ele mesmo.

Quem ele é, sorri e silencia.

Imagem: Jaune-rouge-bleu © Wassily Kandinsky

carladias.com

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terça-feira, 8 de novembro de 2016

GRAÇAS À INTOLERÂNCIA >> Clara Braga

De onde surgiu a tradição do primeiro pedaço do bolo? Aliás, o ato nem deveria ser chamado de tradição, mas sim dilema do primeiro pedaço do bolo. Se eu fosse fazer uma lista de momentos anuais embaraçosos quase inevitáveis, o momento do primeiro pedaço seria um dos primeiros da lista.

A ideia é que o primeiro pedaço vá para uma pessoa especial que esteve ao seu lado durante aquele ano, certo? Bom, não vejo como não dar o primeiro pedaço para meus pais. Mas só eles já são dois, então não resolve a questão do primeiro pedaço. Também não tem como escolher um e deixar o outro com o segundo pedaço, eles sempre são importantes em doses iguais, não tem como dizer que um é o segundo.

O dilema dos pais se expande para a família, não tem como escolher uma tia e não a outra, uma prima e não a outra, uma vó e não a outra, o irmão e não a cunhada. Enfim, nesse momento decidimos que família é família, eles estão acima da questão do primeiro pedaço, portanto, esquece família e faz a brincadeira do primeiro pedaço contando só com amigos.

Ops. Como escolher um amigo e não o outro? Cada um esteve presente em um momento, cada um teve a sua importância, cada um te remete a um momento especial diferente, não tem como dizer que um foi melhor que o outro. Até mesmo porque você não quer criar climão, então mesmo que você consiga escolher um momento mais especial com um amigo, você não vai querer causar discórdia entre eles.

Foi assim que eu resolvi o dilema do primeiro pedaço do bolo e criei minha própria tradição. Se família está fora da brincadeira e você preza pelo bem geral dos seus amigos, faça como eu: o primeiro pedaço do bolo é meu e de mais ninguém, quem quiser que vá até a mesa e se sirva.

Pode soar estranho, até um pouco egoísta talvez, mas nada mais justo do que me homenagear no dia do meu aniversário. E digo mais, ninguém deveria ter que começar o seu novo ano resolvendo um dilema, por isso mesmo que eu, ao invés de resolver um dilema, decidi começar meus últimos anos todos de uma forma bem doce: comendo o primeiro pedaço do meu bolo.

Tudo bem, até confesso que nesse último ano me deu vontade de dar o primeiro pedaço para uma pessoa especial, mas quando estava quase anunciando quem receberia o primeiro pedaço, lembrei que essa pessoa é tão especial que não poderia nem me fazer quebrar a minha tradição particular de comer o meu primeiro pedaço, ele é intolerante a lactose. 


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sábado, 5 de novembro de 2016

CAFEZINHO LITERÁRIO >> Sergio Geia

 
 

Alguém começa: “E depois de fazer tudo o que fazem, os dois se levantam, tomam banho, passam talco, passam perfume, se penteiam, se vestem, e assim vão voltando progressivamente a ser o que não são” (“Amor 77” – “Um Tal Lucas” – Julio Cortázar).
Uma mulher fala de Hamlet, e reproduz Polônio: “Ainda estás aqui, Laertes? Para bordo! Que vergonha! O vento está soprando na popa de teu navio e só se espera tua chegada. Aproxima-te. Que minha bênção te acompanhe, bem como estes poucos preceitos que confio à tua memória. Pensa antes de falar e pensa antes de agir. Sê familiar, mas nunca vulgar. Os amigos que tiveres e cuja adoção puseres à prova, sujeita-os à tua alma com arcos de aço, mas não calejes a palma de tua mão com apertos a todo sujeito mal saído ainda implume da casca do ovo. Tem cuidado em não entrar em querela, mas, uma vez, nela, faze tudo para que teu contrário sinta temor. Presta ouvido a todo mundo, mas a poucos a tua voz. Escuta as censuras dos demais, porém reserva teu juízo. Que tua roupa seja tão custosa quanto tua bolsa o permitir, mas sem afetação; rico, mas não extravagante, porque a roupa revela o homem e, na França, as pessoas de mais alto conceito e posição são, a este respeito, modelo de finura e distinção”. E ela conclui: “Adeus! Que minha bênção faça frutificar tudo isto em ti!” (“Hamlet” – William Shakespeare).
Dr. Paulo sempre me chama; desta vez, fui. É assim: convidam-se amantes de literatura, gente que escreve coisas ou gente que não escreve nada (mas aprecia uma boa composição); preenche-se o formulário na chegada, ao lado do nome, o título do texto; depois, quando todos estão reunidos no salão, chamam-se os oradores para a leitura; pode fazer comentários, pode contar os bastidores do texto, pode falar qualquer coisa, além de ler a crônica, ou o conto, as trovas ou declamar um poema. O convite também pede um livro para sorteio entre os presentes. A iniciativa foi batizada de “Tertúlia Literária Periódica”, e é organizada pelo MMCL – Movimento Médico Paulista do Cafezinho Literário. O nome é pomposo, mas o encontro é singelo e prazeroso.
O Geia não levou Cortázar, nem Shakespeare; levou os seus “Vizinhos”, crônica muito simples e absolutamente verdadeira, fato corriqueiro que deve acontecer com qualquer bom cidadão. Muitos na rua ainda me perguntam se é verdade o que digo, ou se há um pouco de imaginação; pois sempre respondo que em “Vizinhos”, tudo, mas tudo mesmo é a mais pura e impoluta verdade. Desde a história da compra da chacrinha, dos finais de semana na roça, do cachorro chorão, e até das cheiradas e do ovo. Perguntam também se arranjei encrenca por causa da crônica; não arranjei. Está certo, devo confessar, que me mudei antes da publicação, o que não me permite afirmar com total segurança se a relação azedou ou não; outro dia passei por lá e tudo estava nos conformes. Se bem que a crônica é despretensiosa, ingênua, incapaz de macular qualquer relação honesta e harmônica de amizade.
Mas não são todas assim; esse gênero dito “menor” está com um pé na realidade e o outro na ficção. O divertido é ver o amigo se perguntar: “Mas será? Isso, de fato, aconteceu mesmo, ou ele está inventando?” Ah, isso é bom. Escrevi uma vez sobre uma borboleta que encontrei morta no chão. Essa parte é verdadeira; de fato, caminhando pela Avenida José de Angelis (aqui, se o senhor me permite, honrado leitor, preciso fazer um adendo: conheci o bom cidadão José de Angelis, fazendeiro probo e sanfoneiro dos bons; trabalhamos muito tempo juntos, aos domingos, pela manhã: ele com sua sanfona, o Geia com seu violão; pois agora o saudoso amigo que se foi, deixando enorme saudade, virou avenida, uma homenagem muito merecida) mas caminhando pela Avenida José de Angelis, me deparei com uma borboleta morta na calçada; e depois, em casa, encontrei outra; tudo isso, de fato, aconteceu; porém o resto... Se tiver curiosidade, procure por este mundo eletrônico e vai achar “A borboleta”, do Geia; foi puro exercício de imaginação.
No final do encontro tive a honra de ser agraciado com o livro “O Verão e as Mulheres”, do não menos saudoso Rubem Braga. Para mim isso foi de uma enorme satisfação, pois acompanho a obra do Braga, e se minhas crônicas lembram alguma coisa do velho Urso, não é mera coincidência.
E de onde o velho Braga estiver, se escuta esse humilde discípulo seu, peço-lhe a anuição para arrematar esse cafezinho com uma delicada pétala de seu imenso e olente jardim:
“Procura-se um caderninho azul escrito a lápis e tinta e sangue, suor e lágrimas, com setenta por cento de endereços caducos e cancelados e telefones retirados e, portanto, absolutamente necessários e urgentes e irreconstituíveis. Procura-se e talvez não se queira achar, um caderninho azul com um passado cinzento e confuso de um homem triste e vulgar... Procura-se, e talvez não se queira achar” (“Procura-se”, outubro de 1948, “O Homem Rouco”, Rubem Braga). 

Ilustração: www.poemasfrasesetextos.wordpress.com


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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

SINAIS DESENCONTRADOS >> Zoraya Cesar

Não sou homem questionador. Aceito os acontecimentos conforme se sucedem e acho que espantar-se com os fatos é para os fracos.

Um eclipse lunar lunar deve ser uma coisa bonita.
Nós não saberíamos dizer, pois a tempestade
 obscureceu o céu. E derrubou telhados.
E provocou blecaute.
 E outras coisas
Tudo começou depois do eclipse lunar – que ninguém pôde ver por causa da tempestade que destelhou casas, derrubou postes, causou blecaute. Somente no dia seguinte pudemos avaliar os estragos e perceber que todos os gatos da vizinhança tinham sumido. Quando nos demos conta que até mesmo os de D. Crisálida, que viviam presos dentro de casa, desapareceram, criamos um acordo tácito de não tocar no assunto, não levar ao noticiário, nada. Até porque os gatos podiam ter sumido, mas os donos continuavam a ouvir seus miados e a encontrar cortinas rasgadas e sofás arranhados.

Não tenho gatos. E, como disse, aceito as coisas como são. Mas confesso que me surpreendi um pouco ao encontrar um bilhete pendurado no espelho do meu banheiro:

Querido, bom dia. Por favor, não se esqueça de trazer pão e leite quando voltar do trabalho.

Moro sozinho. Não tenho namorada. Não como pão e detesto leite. Mesmo assim, achei que seria rude ignorar pedido tão educado e, à noite, levei pão e leite para casa.

No dia seguinte, recebi, pelo correio, uma caixa endereçada a mim, contendo nove latas de tahine e um livro bilíngue de receitas árabes. Havia uma dedicatória no livro

عصديق، شكرا على كل شيء. العناق
وصولي بعد ظهر هذا اليوم
البشير

Tive uma certa dificuldade em traduzir do árabe, mas era algo como:  Amigo, obrigado por tudo. Chegamos essa tarde. Bashir.

Não conheço nenhum Bashir, não estava esperando ninguém e jamais tive contato com qualquer árabe, muito menos a quem houvesse prestado algum favor. Bashir, cujo nome significa “portador de boas novas”, é, certamente, pessoa educada, que agradece um favor supostamente prestado e ainda tem a consideração de avisar sua chegada com antecedência  Aprecio gente assim. Resolvi prestar-lhe uma homenagem e fiz algumas receitas. Ficaram saborosas.

No dia dos Pais recebi um cartão de Oneida, felicitando-me pelo dia, dizendo que me amava muito e que adorara o presente que lhe mandei de aniversário. Dessa vez, não tive como não estranhar, afinal, sou solteirão convicto, fiz vasectomia aos 20 anos e acho que saberia se tivesse uma filha, ainda mais com esse nome. Mas me alegrou saber que Oneida gostara do presente.

Nessa mesma noite, ao deitar, encontrei um bilhete na cama, no qual estava escrito, com letra cuidadosa e precisa:

Prezado Senhor, pedimos incontáveis desculpas pelos inconvenientes. Pode estar certo que estamos envidando todos os esforços para que a situação seja regularizada.

Achei realmente muito gentil da parte do missivista anônimo em tentar esclarecer as coisas.

Não obstante, nos dias seguintes continuei a receber correspondências endereçadas, nominalmente, a mim, mas que não me diziam respeito. Desejei sinceramente que os remetentes não estivessem encrencados por conta de seu engano. Eu nada podia fazer, não havia uma única pista de como encontrá-los e desfazer o engano.

Uma vez, quase saindo para o trabalho, um grande envelope negro foi passado debaixo de minha porta. Parecia terrível, e tive medo de abri-lo. Mas senti medo ainda maior ao pensar em não o fazer, e foi bom que tivesse encontrado coragem. Um personagem auto-intitulado Conde Sânge, dizia que, mais tarde, viria buscar o litro de sangue que eu lhe havia prometido, e pelo qual pagaria regiamente em Leus Romenos. Acrescentou que a oferta só valeria até o amanhecer. Tenho certeza que não fiz esse trato com ninguém, e, embora tivesse muita vontade de conhecer um conde, decidi que seria sensato não voltar para casa àquela noite.

De outra feita, ao sair do banho, recebi um SMS de número privado me instruindo para que usasse uma gravata estampada com melancias e calçasse sapatos roxos. Era isso ou meu primo Krung não voltaria para casa. Não tenho, claro, nem nunca tive, qualquer primo, mas, como, ao abrir o armário, deparei-me com a gravata e os sapatos descritos, achei prudente usá-los. Em algum lugar do mundo, tive a certeza, Krung voltaria para casa. E isso aqueceu meu coração.

Alguns dias depois, ao preparar meu desjejum, encontrei, na caixa de cereais, um bilhete, escrito em papel de arroz azul, com a mesma letra bonita da mensagem que encontrei em minha cama havia algumas noites:


Prezado Senhor, nem sabemos como nos desculpar pelos erros cometidos e pelos problemas que lhe causamos. A tempestade conjugada com o eclipse misturaram diversos canais de comunicação, mas fique certo que essas inconveniências não mais o aborrecerão. Afiançamos que tudo já foi esclarecido junto aos fornecedores e demais clientes.

Achei simpática a mensagem e fiquei feliz em saber que tudo voltaria ao normal, que ninguém saíra prejudicado com aquela confusão. Fiquei mais feliz ainda em ver, horas depois, que todos os gatos voltaram a seus lares.

Declaro, aqui e agora, que, durante os dias seguintes, não encontrei bilhetes na minha cama ou na caixa de cereais, e nenhum pacote foi-me enviado. Só chegavam correspondências cujos remetentes eu conhecia e cujo conteúdo fazia sentido. Admito que todas as mensagens, avisos, SMS que recebi depois que tudo voltou ao normal eram, realmente, para mim.  Inclusive um recado que Tia Magritte deixou na minha caixa postal hoje, ao final da tarde:

Querido afilhado, chego hoje à noite pra te buscar. Esteja pronto, não podemos nos atrasar.

Minha tia Magritte está morta há nove anos. Em todo caso, tendo em vista que tudo voltara ao normal, e que o recado era, realmente, para mim, pus a melhor roupa que encontrei, deitei no sofá e esperei.






foto: Pixabay

Esse conto foi inspirado a partir de um exercício de escrita criativa. A tarefa seria emular um conto. Escolhi um sem nome de Neil Gaiman, cuja referência era apenas 'conto de maio'. Confesso que o resultado ficou muito aquém do que eu gostaria, mas, confesso, também, que foi enormemente divertido escrevê-lo.



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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

NO BANHEIRO>> Analu Faria

Lá estava eu ansiosíssima para ver Adélia Prado em carne, osso e lirismo, na Bienal do Livro, aqui em Brasília. Eu nem achava que teria uma oportunidade dessas na vida, nunquinha. Tudo bem que eu nunca tinha tentado. Eu poderia ter ido a Divinópolis, que, aliás, fica bem perto da cidade dos meus avós, onde ainda mora um tanto de família minha. Eu poderia ter procurado na internet algum evento em que ela daria uma palestra ou algo assim, lá na cidadezinha mineira, sei lá. Eu poderia ter sido uma tiete mais competente, confesso. Não fui. Talvez por isso eu estivesse ansiosíssima, achando que a vida me sorria à-toa ao me dar de mão beijada uma palestra da Adélia Prado, na cidade onde eu moro, a muitos quilômetros de Divinópolis.

Cheguei cedo. Queria pegar um bom lugar na plateia. Uns quinze minutos antes da hora marcada, eu já estava sentadinha no meu lugar, quando me  bate aqueeeela vontade de fazer xixi. Õ Meu Deus, bexiga é que nem mandato político - funciona nas horas mais inconvenientes! Saio do meu lugarzinho, em direção ao banheiro, morrendo de medo de que aconteça alguma coisa no caminho que me impeça de ver Adélia. 

Quase na porta do banheiro, vejo uma mocinha correndo loucamente pelos corredores da Bienal. Pensei que era RPG, que era cosplay de qualquer coisa. Mas a moça estava vestida como as pessoas comuns do século XXI. E não era adolescente. Chego perto da entrada do banheiro e vejo a tal mocinha comentar com o segurança, já com cara de quem vai perder o emprego: "Não tem papel para a convidada! Não tem papel no banheiro!"

Agora deixa eu te explicar uma coisa, se você nunca foi a um evento "cult" (bienal é cult): sempre tem aquela renca de convidados - secretário de cultura, filho do secretário de cultura, assessor parlamentar para assuntos extraordinários do governo federal, do governo estadual, do governo distrital, do município vizinho, parente da Marcela Temer, sobrinho de não-sei-quem etc.. E esse povo fica na frente, nos melhores lugares da plateia, bem ali pertinho de quem está palestrando ou se apresentando, mesmo que eles nem saibam de quem se trata. Então quando ouvi a mocinha dizer que uma "convidada" tinha ficado sem papel no banheiro cheguei a esboçar um sorrisinho de brasileira indignada (e um tantinho rancorosa, porque eu nunca estive entre os "convidados") e entrei no tal banheiro com a cara de triunfo que Deus permite a uma mortal ter - eu tinha papel higiênico na bolsa; a convidada, não.

De dentro da baia onde fica o vaso sanitário, ouço uma voz "Ah, obrigada. Sem papel não dá, né?"Atrás de mim, a mocinha chega esbaforida com um rolo de papel daqueles de banheiro público na mão. A moça suspira de alívio e estende a mão para a voz de dentro da baia. E de dentro daquele cubículo sai Adélia Prado, com cara de mulher-de-todos-os-tempos, propriamente vestida e esperando um papelzinho higiênico. Adélia Prado com problemas de gente comum. Adélia querendo fazer xixi que nem eu. Adélia, ali, no banheiro, a uns dois metros de distância de mim, que fiquei com a boca aberta e não consegui articular uma palavrinha sequer. 
Olhei para a mocinha e cochichei, enquanto Adélia entrava no cubículo e fechava a porta, para fazer seu xixi com dignidade: "É elaaaa!!!" A mocinha me olhou como quem diz: "Quem se importa? Eu não vou mais ser despedida!"Acho que, por educação, ela me confirmou com a cabeça que sim, era "ela".

E o que é que EU ia fazer? Tietar a mulher enquanto ela fazia xixi? Ficar lá parada, estalqueando uma das maiores escritoras do país? Pedir para ela me dar um autógrafo num pedaço de papel higiênico? Eu pensava nisso tudo enquanto mecanicamente olhava para dentro de uma outra baia, para checar as condições do vaso sanitário. Nem sei se dava ou não para fazer xixi ali. Sei que duas vozinhas tomavam toda a minha atenção, me impedindo até de raciocionar direito: "Você tem que fazer alguma coisa!!! É a Adélia Pradooo!!!" E a outra puxava a orelha da primeira: "E o que é que ela vai fazer, ô tonta! A escritora vai pensar que ela é psicopata, que fica seguindo gente até o banheiro, tá louca?"
Por fim, a segunda voz venceu. Voltei meu estupefata para o meu lugar lá na plateia, ainda sem acreditar que tive a oportunidade de ficar quase a sós com Adélia Prado. O xixi? Esqueci. Só lembrei quando sentei de novo e a bexiga deu aquela apertada. 






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