sábado, 30 de julho de 2016

SÁBADO EM SÃO PAULO >> Sergio Geia



Ela buscava Jonatas, mas também Glinda e Elphaba; ele não queria saber de Glinda nem de Elphaba, muito menos de Jonatas, mas nós queríamos saber dele. Foi com esse arranjo de ideias que partimos.
Antes de pegar a alça de acesso à Ponte das Bandeiras, o automóvel foi apanhado por uma chuva dilacerante; até então eram apenas uma ameaça o céu escuro, o vento, as previsões. No entanto, tão logo a máquina avançou marginal adentro, uma montanha de água nos sacudiu, invadindo ruas, criando piscinões, aprisionando-nos num asfalto encharcado e triste. Os sinais pararam de trabalhar, a Avenida Tiradentes virou terra de ninguém.
Ao receber os cartões, já no hotel, descobri que o senhor recepcionista também estivera metido no aguaceiro. Foi o que disse quando mencionei acerca da batalha hercúlea pra conseguir vencer a chuva. Falou-me que em alguns pontos da cidade não chovia, mas que em outros o temporal castigava e impedia o movimento natural.
À noite, comemos um bom lanche na Cesário Motta, ainda debaixo de muita garoa e não menos apetite. Depois pegamos um táxi e seguimos até o 411 da Brigadeiro.
O tempo... O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou, diria Vergílio. Ele e ela... Vendo-os agora, lembrei-me desse tempo, dos desarranjos, de mamadeiras, fubás e dos folguedos infantis; o tempo que nos fez compreender que o viver a partir de então ganhara outra dimensão, noviço sentimento nascia e a cada estação só faria ganhar mais espaço em nosso confuso e emaranhado mosaico de emoções.
Tempo que transforma o mundo, a vida, as pessoas. E que todos os dias se encarrega de lançar humildes servos das letras às felizes lembranças de outrora, às auroras primaveris; que faz jubilar o presente, que glorifica andanças, que preconiza efêmeras luzes de satisfação, e conquistas miúdas de pequenas criaturas que sonham embriagar-se na parcela de belo que o mundo tem a oferecer.
Em Pequenos Poemas em Prosa, Baudelaire diz que “é necessário estar sempre embriagado. Tudo está aí: é a única questão. Para não se sentir o horrível fardo do Tempo que quebranta os vossos ombros e vos curva em direção à terra, deveis vos embriagar sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos”. Pois embriagar-se é o que há; à bebida, caros amigos, à bebida e ao encontro mágico com seu pedaço de felicidade.
Digo-lhes que felicidade foi o que a mim chegou assistindo sua face repleta de brilho; ela a encontrou na Brigadeiro, não em Jonatas, mas em Fiyero; eu mesmo saí de lá embriagado de enorme beleza; apaixonara-me não por Glinda ou Elphaba, mas por Fabi e Myra. No fim, o belo nos encharcou de alegria e não a chuva; saímos de lá embriagados.
Domingo, almoçamos bem num restaurante na Avanhandava; lembro-me do garçom, após a refeição, a nos instigar ao encontro com a mousse dos deuses: “degustem, não vão se arrepender” e depois... 
Dou-lhe um abraço de despedida. Ele segue sua marcha na direção da Caio Prado. Paro um instante para colocar uma blusa e vejo-o atravessando a Augusta. O coração dói. Há dezenove anos um guri. Hoje, homem e homem que solto, desbrava a metrópole, sem medo, sedento de belo.
Ela segue comigo; ainda. Feliz com seu cordãozinho comprado de um boliviano na Paulista.  

Ilustração:  Cliquetando

“O tempo que passa depressa...” Vergílio Ferreira


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sexta-feira, 29 de julho de 2016

ESPERTO METIDO A ENGRAÇADINHO >> Zoraya Cesar

Nasci metido a engraçadinho. Sabe aquele dito ‘perco o amigo, mas não perco a piada”? Pois é, foi feito especialmente para mim. Divirto-me por meses seguidos com minhas brincadeiras sem noção. 

O problema é que nasci, também, com veia de malandro. Não que eu seja exatamente um mau-caráter, mas não costumo ter sérios pudores em me dar bem. E, por injustiça divina, é difícil sobreviver nesse mundo cruel sendo engraçadinho e malandro ao mesmo tempo. Há um momento na vida de um homem em que ele tem que decidir por um ou outro caminho. 

Vejam, por exemplo, aquele episódio em que, de uma só vez, perdi a namorada gostosa, um casamento que ajeitaria a minha vida e o emprego.

Cursava a faculdade de Letras e trabalhava como revisor de apostilas numa gráfica de quinta categoria (eu disse que era malandro, não vagabundo, certo?) quando conheci Vandinha. Era feiinha, a Vandinha, meio desengonçada, mas tinha uma bunda boa e, logo da primeira vez que saímos, mostrou o quanto era gostosa (dizem que mulheres feias tendem a compensar na cama. No caso dela, isso não podia ser mais verdadeiro). Era engraçada e cabeça fresca, graças a Deus, pois tenho horror a mulher neurótica. De problemas, já bastam os meus em pagar o aluguel do apartamento. Ela tinha, além das curvas calipígias, outro enorme atributo: era filha única de uma família com algumas posses. 

Talvez por eu ter sido seu primeiro namorado de cama e banho, ela se encantou comigo. Ficou tão enrabichada, que arranjou um emprego para mim na editora do pai dela. 

Beleza. De uma hora pra outra virei revisor de livros técnicos, ganhando muito melhor e trabalhando muito menos. Sou bom no que faço, e é incrível como, mesmo dentro de uma editora, encontram-se pessoas iletradas e desenxabidas. De forma que logo me sobressaí. Foi assim que o pai de Vandinha interessou-se, finalmente, em me conhecer, ao namorado de quem a filha vivia a falar. 

Não é para me gabar não, mas sei ser sedutor quando quero – e eu sempre quero. Assim como Vandinha, seu pai também me achou um sujeito trabalhador, honesto, eficiente, boa gente. E como ela queria casar e não tá fácil casar filha feiosa hoje em dia, aceitou de bom grado nosso casamento. 

Eu não podia estar mais satisfeito. Como disse, Vandinha era gostosa, tinha dinheiro e nos dávamos bem. Não digo que a amava, mas, caramba, quem disse que essa era uma história de amor?

Só havia ainda um único obstáculo à minha entrada definitiva no paraíso: a aprovação da antediluviana avó de Vandinha, a quem a família prestava obediência de joelhos dobrados. Não sei se por respeito à sua velhice macróbia, ou ao fato de ela, lúcida e ladina, manter com mãos firmes a maioria das ações da editora. Ninguém dava um pio sem seu o consentimento. E Deus livrasse Vandinha de contrariar a sacrossanta e doce avozinha. Doce? Sentia arrepios só de olhar para ela. Chamavam-na ‘matriarca’, mas bem poderia ser a patriarca da família, tal a fartura de pelos em seu buço português. Era mais feia que a necessidade de ir a um banheiro público e seus maus bofes a faziam parecer uma conselheira do diabo. Cruz Credo.

Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que eu precisava da aprovação daquela múmia encardida. Convidaram-me para o aniversário do vetusto fóssil, para que eu caísse nas suas boas graças. Vandinha, ansiosa por casar – mesmo que fosse com um toleirão como eu – aconselhou: “Vovó coleciona livros de culinária com figuras grandes e coloridas”. Aquela mãe de Tutancâmon não fritava um ovo, mas colecionava livros de culinária, vá entender. 

Encontrei o livro perfeito, conforme orientação recebida. Mas, no meio dos livros de culinária, vislumbrei um título que chamou minha atenção: ’"50 modos de cozinhar seu lagartão no coxão mole dela’’. Sei, tenho certeza, que não preciso dizer do que se tratava. As figuras eram bastante elucidativas e fariam corar a mais pornográfica das criaturas de todos os porno-tempos. Algum livreiro distraído guardou-o na estante errada. Comprei-o. Seria meu presente de lua-de-mel para Vandinha, aquela safadinha. 

Senti um impulso irresistível de fazer uma das minhas gracinhas. Xeroquei algumas páginas desse livro, inserindo-as no de culinária que comprei pra velha fuinha. Levei-os de volta à livraria e pedi que os embrulhassem de presente. Quando aquele cupim de sarcófago descobrisse as fotos, todos pensariam que se tratava de um erro da livraria, uma brincadeira de mau gosto de algum livreiro insatisfeito, algo assim. Eu já ria por antecipação. Talvez as figuras até a estimulassem a depilar aquela bigodeira, pelo amor de Padim Ciço!

Na grande noite, entreguei o embrulho pra velha batráquia. Esperava que ela só o abrisse depois da festa, mas o diabo da carochinha resolveu folhear o presente na hora. Engoli em seco. Tudo bem que as folhas proibidas estavam bem coladas e mescladas com as outras, mas…

Eu não precisava me preocupar. Não com isso. Pois o que eu entreguei foi o livro errado, claro. Mesmo que a velha não distinguisse as letras do título, a capa já dizia a que viera.

A morcegóide deu um ataque de gritos que acordariam as múmias do Egito. Foi um escândalo. Até hoje eu não sei como pude confundir os pacotes. Coisa de gente malandra metida a engraçadinha.

Fui expulso sumariamente, claro, da festa, da vida da Vandinha, do emprego e do casamento que parecia tão promissor.

Me dei mal... 
É por isso que digo, amigos, quem quer se dar bem na vida não pode ser engraçadinho. Ou bem uma coisa, ou outra. Desse caso ainda não consegui achar graça. Meu aluguel está atrasado.











foto do pixabay
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quinta-feira, 28 de julho de 2016

TOCA RAUL >> Analu Faria

Não gosto de MMA. Não consigo gostar, já tentei. Também não assisto novela. Além disso, não gosto de manga nem de pipoca. Para piorar, não gosto de axé, sertanejo me deixa irritada e até há pouco eu nem sabia quem era Wesley Safadão.

Às vezes eu me sinto sozinha pra caralho, por não gostar dessas coisas. O pior é que quem geralmente tem os mesmos gostos que eu acaba se identificando com alguma tribo, ideologia ou grupo e eu, nem isso. Eu não sou nerd, não sou hipster, não sou de esquerda, nem de direita (muito pelo contrário).

Meus gostos me fazem pensar que Raul Seixas, em "Ouro de Tolo", se inspirou em mim ao escrever:

"Ah! Mas que sujeito chato sou eu 
Que não acha nada engraçado. 
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã 
Eu acho tudo isso um saco."

O pior é que, apesar da "solidão", eu não vejo problema nenhum nisso. Fico pensando em quem vai ler esta crônica e pensar "Nossa, que infeliz!". É geralmente o que eu penso de quem pensa isso de mim. Engraçado isso, né? Deve ser porque, no fim das contas, deve ter espaço para todo mundo neste mundo. Vai aí de sertanejo, que eu vou aqui de Raul.

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quarta-feira, 27 de julho de 2016

NÓS E O MUNDO >> Carla Dias >>

Fica cada vez mais difícil não se desapontar. Não falo sobre desapontamento básico, daqueles que figuram na vida da gente como trampolim para aprendizado. Falo sobre um desapontamento substancial, daquele que nos faz parar e pensar: onde iremos parar?

De padre sendo degolado às manobras para conter a imigração desencadeada pelo desespero. Das ofensas constantes aos desconhecidos à aniquilação de benefícios básicos aos que, por conta e risco, jamais os alcançariam. Pessoas jogando eu sou melhor do que você.

Será?

Às vezes, torna-se uma jornada complexa se levantar e encarar o mundo. É tanto desamparo, e muitas observações a respeito do outro e não a respeito de si. Estamos afastando de nós a responsabilidade pela decadência da humanidade, mas somos os autores dela. Alimentamos essa decadência a cada vez que violamos o direito do outro de ser, de estudar, de ter casa e comida na mesa. Quando, em vez de pensarmos a respeito da situação que encaramos, saímos discursando intolerância. O outro nem sempre está errado. Pode ser que ele não caiba no seu entendimento, que aquela não seja a vida que você deseja. Mas, e daí? A vida é dele, certo?

A sua vida é sua.

Lembro-me de algumas senhoras da minha infância. Eram carolas, que nunca faltavam à missa, que mantinham seus santos em altares em suas casas, que também eram pontos de parada da procissão. Eram devidamente casadas, algumas cuidavam de seus netos, e estavam sempre envolvidas com projetos sociais.

Olhando mais de perto — o que tive a oportunidade de fazer —, elas não eram boas pessoas, como a maioria pensava ao observá-las assim, a distância. Lidavam com Deus porque foram educadas para fazê-lo, senão iriam direto para ao inferno. Frequentavam a missa pelo status de devotas, recorriam aos santos com pedidos absurdos. Em dia de procissão, disputavam para ver quem decorava melhor a entrada de casa. Para escolher os beneficiados pelos projetos sociais dos quais cuidavam, eliminavam aqueles que julgavam pecadores sem chance de serem perdoados por Deus, o que incluía os mais miseráveis, negros, gays, e por aí vai.

Lembro-me dessas senhoras e percebo que elas são o retrato do mundo. Enquanto observarmos os acontecimentos com essa distância, seremos incapazes de compreender que a maioria das decisões, sejam políticas, sociais ou pessoais, tem sido feita sem observar aqueles que realmente precisam dos resultados delas.

Enquanto não observarmos o mundo, e tudo o que pontua nossa realidade, sem nos antecedermos e decidirmos o que é certo e o que é errado, cometeremos o mesmo erro das tais carolas. Atenderemos a uma agenda na qual não fomos nós que incluímos os eventos, por pura obrigação. E no processo, seremos cruéis, por mais generosos e beneficentes que sejamos na nossa rotina de cidadão que não é do mundo, mas do seu próprio e egoísta universo.

Há dias em que é realmente difícil se levantar e encarar o mundo. Mas continuo otimista, que acredito na parcela de pessoas que já compreendeu que faz parte dele, e que escolheu cuidá-lo.

Há coisas maravilhosas acontecendo por aí. Não é mesmo?

carladias.com

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terça-feira, 26 de julho de 2016

É DIA DO AVÔ E DA AVÓ! >> Clara Braga

Memória não é meu forte, quem me conhece sabe bem. Mas existem certos momentos na vida que te marcam tanto que não é preciso ter boa memória, os momentos são inesquecíveis e ponto final.

Eu nunca vou esquecer, dava a hora certinha do término da aula de ballet, lá estavam eles, me esperando no Opala com cheiro fortíssimo de gasolina. Sempre gostei daquele cheiro. Você acabou de dançar, tem que comer! Então íamos ao Forninho Mineiro. Nossa, que lugar delicioso, o melhor pão de queijo e o mais sensacional pão do amor que pode existir na face da terra. Se fechar os olhos, consigo sentir o gosto.

Chegando na casa deles, eu esperava meus pais me buscarem. Brincava, fazia dever de casa, sofria pra aprender tabuada, fazia perguntas sem sentido, assistia televisão. Enfim, lembro que independente da atividade, era divertido. E lembro que às vezes eu sentia dor no joelho, não sei se por causa das aulas de ballet ou qualquer outro motivo, mas tudo era resolvido com o tal do paninho mágico, provavelmente um paninho com gelol ou algo do tipo, mas que tinha seu valor por sempre aliviar a dor.

Já do outro lado da família, lembro dos lanches. Sempre muita comida pra uma família grande. E claro, da mochila com uma muda de roupa que sempre ia e ficava dentro do carro esperando pra saber qual primo ia dormir na caso do outro.

Meus dois avôs já faleceram, não tenho tantas lembranças e tantas histórias com eles como tenho com as duas avós que estão vivas e cheias de saúde. Com essas tenho histórias para um livro inteiro! E hoje, no tal do dia do avô e da avó, deixo a todos eles, não meu parabéns, mas sim meu muito obrigada.

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sábado, 23 de julho de 2016

SOBRE UM PEDAÇO DE TEMPO >> Cristiana Moura



Tem dias que o coração amanhece batendo desafinado. Foi logo depois de uma noite dessas, quando é difícil dormir. Ou bem o corpo está cansado e o sono não vem. Ou bem o sono quer adormecer o corpo que, agitado, se mantém acordado.

É que dormir, por vezes é alívio, descanso e viagem onírica desejada. Noutras parece temer os próprios sonhos e desejos e camufla o medo numa sensação de que o tempo do sono é perda de tempo.

E passou a manhã, passou a tarde. O peito apertado, o coração desafinado. Acabou por perder o nascer da lua — cochilou.

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sexta-feira, 22 de julho de 2016

SAGRADO HUMANO >> Paulo Meireles Barguil


Na crônica A arte da cura, apresentei, sucintamente, o pouco que aprendi sobre saúde e do que precisamos saber e fazer para conquistá-la e mantê-la.
 
No início da vida aqui na Terra, o bebê acredita que ele e a mãe são um.
 
Mediante um processo de diferenciação, permeado de emoções, por vezes conflituosas, que ecoam durante anos, décadas, cada um de nós se percebe, enfim, separado da mãe.

Melhor dizendo: muitos nós.

Retificando: alguns de nós.

O que costuma acontecer, infelizmente, é que, inconscientemente, buscamos, sem sucesso, substitutos para a mãe que nos proporcione o gozo eterno!

Na fase posterior, o mundo é percebido com a lente do antagonismo, da dualidade, a qual, ao mesmo tempo em que facilita a interpretação do mundo, necessária para as escolhas diárias e noturnas, é fonte também de empobrecimento e doença, pois nos coloca, sem que percebamos, em permanente conflito.

Várias teorias em distintas áreas do conhecimento vislumbram contrários na realidade, seja de modo integrativo, seja de modo excludente.

No Taoísmo, uma das expressões da Filosofia oriental, o yang e o yin simbolizam as forças, os princípios complementares que abrangem todos os aspectos e fenômenos da vida, formando o Tao: o caminho perfeito.

O yang tem a semente do yin e vice-versa.

Enquanto yang representa o masculino — viril, ativo, celeste, penetrante, quente, fogo, luminoso, o dia e o espírito —  yin simboliza o feminino — suave, passivo, terrestre, absorvente, frio, água, obscuro, a noite e a matéria.

Creio que superar a visão cindida e constituir uma consciência holística caracteriza a etapa seguinte no desenvolvimento humano, que propicia serenidade diante de acontecimentos, sentimentos e pensamentos — pois intimamente ligados — tanto para os de dentro, como para os de fora.

Para que isso aconteça é necessário nos purificarmos a cada instante, notadamente naqueles em que, de algum modo, nossas ilusões não se materializam, mas se esfarelam...

Conectar-se ao infinito, nomeado de distintas maneiras, é o que possibilita ao ser humano uma crescente calmaria, a qual precisa ser vivenciada não somente nos momentos de contemplação, adoração, silêncio, mas, principalmente, quando nos relacionamos.

As forças referidas no Tao são humanas e, como tal, podem se manifestar em mulheres e homens, sendo equivocada a crença, por vezes materializada em discursos e atitudes, de associar àquela dita feminina à mulher e àquela nomeada masculino ao homem.

O equilíbrio de cada pessoa, bem como da sociedade, é fruto da vivência de ambas as forças em intensidade variada, mas sempre permeada de muita amorosidade pela vida: a sua e a do outro.

Vislumbro, pois, o momento em que superaremos a cisão da percepção do divino, manifestada em expressões como "sagrado feminino" e "sagrado masculino", e vivenciaremos o "sagrado humano", independentemente do corpo no qual a alma, temporariamente, habita.

Melhor dizendo, o sagrado no ser humano.

Namastê.


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quarta-feira, 20 de julho de 2016

MEMÓRIA >> Carla Dias >>


Hoje é hoje. Que outro dia seria? Não importam as manchetes, as casas de alvenaria, os cubículos e seus códigos postais. Hora de bater cartão já passou, assim como o momento de reescrever histórias falidas.

Recomeços são para histórias sem ponto final.

Mas hoje chega com esse gosto de saudade voluntariosa.

Treinou tanto, dedicou-se muito, foi além da conta para alcançar esquecimento. Ainda assim, hoje é hoje. Que outro dia seria? Daí que toda lógica que atribuiu à própria vida, aquela que vem conseguindo manter elegantemente, desmancha-se diante de uma lembrança acontecida em outro dia, que não hoje. Foi há muito tempo, mas parece que esse tempo é agora.

Só que hoje traz essa coisa de calendário, de celebrar isso ou aquilo, esse ou aquele. Por que diabos nasceu com essa memória seletiva, que pouco se importa com datas significativas para o coletivo, com as vedetes de calendários?

Lembra-se dos pormenores, aqueles detalhes que não se encaixam nos grandes acontecimentos que influenciam a muitos, ao mundo. Nos quais, talvez, ninguém mais tenha prestado atenção.

7 de agosto de 1977
A forma como seus avós se abraçaram, após saberem do falecimento da Lurdes, a cadelinha que os acompanhou por mais de década. Foi abraço de quem se ampara no desamparo do outro e, de uma forma muito intrigante, encontra ali, naquela tristeza profunda, um bálsamo, a esperança de que tamanha dor irá abrandar.

9 de janeiro de 1985
A forma como seus avós se abraçaram, que lembrou muito a de anos atrás, só que com desamparo e desespero amplificados. Foi o dia em que o filho deles faleceu. Seu pai.

11 de março de 1990
A forma como um poema remexeu seu dentro como ninguém e nada fizera antes. Durante dias, não saiu de casa, não falou com amigos, não aconteceu em qualquer quesito. O silêncio foi profundo, a caminhada, pelos cômodos. Encantou-se pelo esvoaçar da cortina do quarto. Chorou, gargalhou, aquietou-se. Transcendeu.

22 de abril de 1992
A mão pequena e fria, de pele macia, encontra abrigo na sua. Espanta-se, mas consegue conter o espasmo provocado pelo susto e render-se ao deslumbre de segurá-la pela mão. O olhar dela disse amabilidades e afeto. O encontro durou a mudança do semáforo. A mãe da menina, em puro desespero, arrancou-a daquele segurar a mão. Deu bronca na menina, que começou a chorar miúdo, magoada por ter visto no segurar mão desconhecida um gesto natural.

Por que não se lembra somente dos dias que importam a muitos?

2 de julho de 1994
A mão lhe tocando o rosto como prefácio de desfecho desejado durante meses. A sensação arrebatadora de que o desfecho-beijo foi um milhão de vezes mais significativo do que aquele do roteiro imaginado.

15 de fevereiro de 2000
Os dedos do amigo a se enroscarem nos cabelos da namorada. Ela e seus cabelos negros e encaracolados. Ele e sua pele pálida. Era como se tal gesto de carinho desenhasse futuro nos cabelos dela. Sentiu-se feliz por eles. Sentiu-se feliz por saber que, nos minutos seguintes, o amigo se sentiria ainda mais feliz, porque a amiga lhe confidenciara que o pediria em casamento. Ele aceitou sorrindo e chorando ao mesmo tempo.

28 de setembro de 2008
Finalmente, cantou sua música preferida, assistindo ao show de sua banda preferida.

Poderia falar sobre muitas datas que nada representam a qualquer outra pessoa. Dedicou-se tanto, fez de um tudo para regrar essa sua memória. Pensou que tivesse conseguido. Mas ela insiste em trazer à tona um calendário de afetos e desapontamentos, de conquistas e perdas. Um emaranhado de percepções confidenciais, confiscadas de olhares atentos ao que vem depois do óbvio.

Hoje é hoje. Que outro dia seria?

Anota compromissos em sua agenda, discute futuros projetos, ocupa seu tempo. Ainda tenta educar sua memória, mas acontece que a tal é de rebeldia escancarada. Entre uma anotação e outra em calendário do dia...

20 de julho de 2012
Então... A lua...


Imagem © Caspar David Friedrich

carladias.com

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terça-feira, 19 de julho de 2016

PARA OS BRAGA DE OLIVEIRA E PARA OS SILVA
>> Clara Braga

Outro dia meus pais vieram falar que assistiram a uma entrevista de uma lutadora na televisão e ela dizia que sofreu por muito tempo por não ouvir da mãe dela que ela a amava. Aparentemente meus pais ficaram sentidos e constataram que eles nunca foram de dizer "eu te amo" pra mim e pro meu irmão, então ficaram se questionando se isso não seria um trauma em nossas vidas.

Consigo imaginar a cena deles falando isso pro meu irmão. A cara dele de "não acredito que esse diálogo está acontecendo", seguida de uma risada e de um ponto final na conversa.

Pra mim não foi diferente, falei logo: "Por favor né, parem com essa frescura!" Mas muita calma nessa hora, ou muita hora nessa calma, não estou falando que a situação da lutadora é frescura. Todos sabemos da importância do amor de uma mãe e da falta que um "eu te amo" pode fazer naqueles momentos mais difíceis. Amor de mãe é algo que todos deveriam ter, seja essa mãe biológica, adotiva, uma vó que é mãe,  uma tia que é mãe ou até uma amiga que é tão próxima e cuida com tanto carinho que parece uma mãe, afinal, o conceito de mãe vai muito, mas muito além do que aquela pessoa que te coloca no mundo. Também fiquei sentida com a história da lutadora. Mas essa não é a situação dos Braga de Oliveira e muito menos dos Silva.

Nessas duas famílias, sair um "eu te amo" é a coisa mais difícil, é assim desde sempre. O que não quer dizer nada, pois apesar de não verbalizar, minha família aguentou 7 anos de apresentações de ballet clássico sem gostar, se enfiaram em locais terríveis para que eu pudesse assistir a shows que eu queria ver, depois se enfiaram em locais ainda mais cheios e apertados para me ver tocar, me levaram para viajar para locais que eu queria, deixaram eu escolher a profissão que eu achava que me faria feliz, me deixaram pedir demissão de emprego que não me fazia feliz e me bancaram até que eu encontrasse outro, fizeram a maior farra quando me formei, me incentivam a estudar sempre, me abraçam quando eu estou triste, me perdoam quando eu sou um poço de indelicadezas, enfim... Como toda família, temos nossos altos e baixos, e se isso não é amor, então não sei mais de nada!

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domingo, 17 de julho de 2016

PERDER >> Eduardo Loureiro Jr.

"Perder é a pior coisa do mundo", disse meu sobrinho Enzo enquanto perdia uma partida de Pokémon (um jogo de cartas colecionáveis, para quem não sabia). Eu discordei do Enzo, e disse que a pior coisa do mundo era adoecer. Depois, já em casa, cheguei à conclusão de que ele estava certo, pois para mim a pior coisa do mundo é perder a saúde.

Perder é mesmo de entristecer. Quem já perdeu ônibus em beira de estrada, tendo que esperar trinta minutos ao sol pelo ônibus seguinte, sabe como é. Quem já perdeu amor por abandono, traição ou morte, sabe como é. Quem já perdeu pai e mãe, amores insubstituíveis, sabe como é.

E não é algo raro, que aconteça aqui ou acolá. Perder é uma experiência quase diária. Perdemos a carteira, o dinheiro, os documentos. Perdemos direitos. Perdemos o latim. Perdemo-nos em argumentos. Perdemo-nos em divagações. Perdemos sangue. Perdemos oportunidades. Perdemos tempo. Perdemos o gosto. Perdemos a esperança. Perdemo-nos, a nós mesmos, simplesmente.

Algumas coisas podem ser reencontradas, refeitas, substituídas, esquecidas, deixadas pra lá. Outras não. Então há perdas que se recuperam em ganhos e algumas perdas que continuam sendo a pior coisa do mundo, dia após dia. Até que o jogo se acaba e uma nova partida inicia...

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sábado, 16 de julho de 2016

VIZINHA CABELEIREIRA >> Sergio Geia




Descobri uma vizinha cabeleireira. Da janela do quarto a observo: ela arruma a tralha na sacada e, enquanto arruma, conversa com alguém na sala; de repente, esse alguém, uma mulher setentona, se senta, e ela começa a trabalhar.
Vai cortando; noto que fuma também; corta e fuma. E fala. Percebo que mais fuma que corta; mais fala que fuma. Cabeleireira parece tudo igual: gosta de conversar e de fumar. Eu tinha uma que conversava bastante; e fumava. Adorava falar de novelas, dos filhos, dos estudos e projetos; o tempo de corte dobrava de tamanho.
Pelo salão improvisado na sacada, concluo que é uma cabeleireira, mas não uma profissional. Deve gostar do ofício. Deve ter aprendido a cortar de curiosa, fez um curso aqui, outro acolá; agora partiu para a prática. Deve fazer de cobaia a parentada; deve cortar da mãe, dos filhos, das tias.
Era assim a minha mãe: cortava o meu, do meu pai, da minha avó, dos meus tios; de vez em quando, de um ou outro amigo. O salão era no quintal. Professora, ela não era cabeleireira profissional, mas gostava e tinha certas habilidades, o dom que todo mundo fala. Cortar cabelos parecia fácil; ela tinha o dom.
Algumas pessoas nascem com um talento para certas profissões. Tive um amigo músico que nunca tinha frequentado um curso de violão. O que sabia, aprendera sozinho, de ouvido, numa época sem internet. E tocava muito bem. Aliás, não só tocava muito bem, como era o melhor.
Minha mãe tinha o talento para cortar cabelos. A vizinha também deve ter. E deve gostar, porque se não gostar não adianta. Imagino que ainda esteja descobrindo o mundo dos cabelos, esteja experimentando, tateando os segredos dos cortes, das melhores tesouras, das maquininhas, dos melhores produtos para usar. E fazendo de cobaia os seus. De vez em quando dá uma tesourada: um pé maior que o outro, um corte mais profundo, um buraco na cabeça de alguém, nada que não consiga corrigir, disfarçar, ainda que usando lápis de sobrancelhas.
São vizinhos novos. Outro dia reparei a mudança, a arrumação das coisas, o movimento diferente no apartamento da frente. Era um sábado quente. Havia uma criançada brincando, pulando na cama, acendendo e apagando a luz. Uma hora a família foi pra sacada olhar o fim da tarde, ficaram emocionados com a paisagem nova, com a luz do dia se apagando. Daqui a pouco se acostumam. Na vida é assim: tudo é efêmero, principalmente o belo.
O corte de cabelo acabou, agora a vizinha toma cerveja. E fuma. Pois me deu vontade de fazer o mesmo. Pego uma cerveja na geladeira. Não fumo, mas resolvo experimentar um cubano que tenho aqui, presente do Toninho que voltou recentemente de Havana. Fazemos companhia um pro outro. Ela lá. Eu aqui. 

Ilustração: aqui


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sexta-feira, 15 de julho de 2016

O CLUBE DOS PROSCRITOS – 2ª e última parte
>> Zoraya Cesar


O Clube dos Proscritos - 1ª parte - Ele tinha uma missão: conseguir a informação, fazer o pagamento e partir. Mas achou que poderia lucrar mais jogando por conta própria.

Ele entrou, regozijante. Os doormen que o revistaram, por experientes que fossem, não descobriram a faca de mola escondida na manga de seu suéter. 

No salão, dez mesas, um grande balcão e uma jukebox, de onde saía a voz de Helen Humes e a guitarra de T. Bone Walker. Nas paredes, pôsteres de grandes jazzistas misturavam-se aos de vários personagens famosos do mundo do crime: piratas como Anne Bonny e William Kidd; os espiões Kim Philby e Mata Hari; bandidos como Butch Cassidy e também os investigadores William J. Burns e os irmãos Pinkerton. Uma enorme bandeira pirata Jolly Roger estava hasteada num canto. Havia também trevos, figuras de Leprechauns e fadas. Se o dono do clube não fosse irlandês, ninguém mais o seria. 
Helen Humes, Memphis Slim e T. Bone Walker: Blues ain't nothing but a woman

(E ele era, efetivamente, irlandês. Fora preso pela Scotland Yard por tráfico de obras raras. Estava casado há mais de 20 anos com o policial que o prendera. Quando o parceiro se aposentou, abriram clubes exclusivos para o submundo de bandidos, mocinhos e simpatizantes. Apenas os melhores eram admitidos — excluídos os serial killers, pedófilos e outros psicopatas. Os sócios faziam parte de uma confraria de elite. Os não sócios poderiam entrar e desfrutar de boas música, comida e bebida, fazer contatos, dizer adeus e ir embora.) 

O recém-chegado pediu a cachaça sul-africana mais forte disponível. O garçom, um jovem lânguido, trouxe uma garrafa de kimbombo. Recostado ao balcão, ele passava a vista nos outros fregueses. Seu olhar, naturalmente, não se demorava em nenhum deles, sob pena de alguém se sentir ofendido. Muito suscetíveis eram os sócios do clube, isso eram. 

Havia de tudo. Mulheres jovens, com ar angelical e jeito de doces-de-coco, outras que pareciam ter saído de HQs alternativas, com seus coturnos pretos e maquiagem pesada; rapazes de aparência militar e hell’s angels cinqüentões; punks, executivos e outros, que ele não percebeu, pois, finalmente, encontrou quem procurava, sentada num canto escuro do salão. 

Ela. 

Era magra, mas não muito. Usava um elegante vestido preto (na verdade, um legítimo Dior), que combinava à perfeição com sapatos marfim, de salto baixo e quadrado. Os cabelos eram curtos, totalmente brancos, a não ser por uma larga mecha negra, que caía, elegante, sobre sua face. A suavidade da tez contrastava estranhamente com as várias rugas que o tempo marcara em seu rosto. Um observador mais atento notaria que algumas daquelas marcas não eram rugas, mas cicatrizes, finas e indeléveis. Suas mãos eram delgadas e algo nodosas, com poucas manchas senis; as unhas, curtas e pintadas de púrpura profundo. A seu lado, uma imponente bengala de madeira maciça — talvez ébano ou pau-ferro — dentro da qual havia uma fina e afiada lâmina de aço, forjada pelo melhor fabricante de Toledo.

No todo, uma figura impressionante. 

Mas estava velha, pensou ele. E velhas tendem a ser descuidadas. Haveria de conseguir a informação desejada e, por sua própria conta e risco, ficaria com o dinheiro do pagamento e mataria a mulher que todos consideravam inatingível. Bobagem, pensou. Todos morremos. Hoje seria a vez dela, como, algum dia, seria a dele. Mas, até lá, sorriu internamente, até lá usufruirei de fama e fortuna, por ter enganado e matado uma lenda urbana. 

Sentou-se em frente à mulher. De perto, observou com um certo desprezo, era franzina e miúda demais. Deve ser mais velha que meu bisavô, pensou ele.  Não era uma lenda, mas apenas um mito, uma mentira criada para acender a imaginação dos espiões mais jovens. Perdeu todo o resquício de medo que o acompanhara antes de entrar no clube.

— Meu empregador, Sr. **, precisa saber onde está enterrado o homem que assassinou o Secretário da Casa Civil do governo de *** (ele citou o nome de um país africano). 

Ela espantou-se com a rudeza da abordagem. O Sr.** era conhecido pelo respeito com que tratava os antigos companheiros e pela generosidade do pagamento. Aquele jovem estava jogando com cartas perigosas, ao não se comportar como, certamente, lhe fora ordenado. Atrás dos óculos de aros dourados, suas íris azuis e ácidas olharam para o rapaz.

— O corpo está enterrado no jardim da casa de verão do próprio Sr.** — disse, a voz baixa. 

Foi tão fácil, exultou ele, tanto barulho pela tal mulher e não passava de uma coitada. Far-lhe-ia um favor em mandá-la para outro mundo. Sorriu, inclinou-se sobre a mesa, a faca já engatilhada, debaixo da manga da blusa. Na semi-escuridão em que estavam, e com o talento mortal que lhe era característico — os músculos ainda um pouco enrijecidos não o atrapalhariam —, cortaria o pescoço dela tão rapidamente, que só descobririam quando ele já estivesse longe. E quem se importaria com uma velha decadente?

O primeiro golpe foi seco e violento. O segundo foi definitivo e mortal. 

Ele morreu sem entender o que acontecera.

A bengala atingira sua cabeça, deixando-o sem ação, e, em seguida, a comprida lâmina de Toledo terminou o serviço. 

Nascida e treinada nas montanhas gregas, sobrevivente a inúmeras missões e atentados, ela não cairia naquela armadilha vulgar. Tolo, pensou, pagou um alto preço por sua ganância e soberba. Agora ela ficaria com o dinheiro. E ele, sem a vida. 

Chamou o garçom, pediu-lhe que levasse o corpo embora e lhe trouxesse mais uma dose de ouzo. Com limão, por favor.
Depois de retirado o corpo do morto,
ela pediu mais uma dose de ouzo

Os outros fregueses olharam a cena e, como que combinados, levantaram-se ao mesmo tempo e se inclinaram respeitosamente para a mulher que, embora aposentada, há anos encantava o mundo de espiões e assassinos, policiais e proscritos com sua elegância e eficiência mortal.

Ela, Marta Atanasiou. A lenda. 


Outras aventuras de Marta Atanasiou


A hora do chá

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quinta-feira, 14 de julho de 2016

PRECISA-SE DE GENTE ANTIPÁTICA >> Analu Faria

Ir atrás dos seus direitos é um troço de gente antipática. Pelo menos é o que pensa um usuário de um fórum público de discussão no qual entrei dia desses. O "deixa de ser antipático" é a versão século XXI do conceito de "homem cordial".

Era um fórum sobre direito do consumidor, área na qual atuo hoje. Um leitor perguntava se o dono de uma academia tinha direito de recusar o pagamento em dinheiro. Pelo que entendi, o tal dono só aceitava cartão de crédito. Logo depois da pergunta, havia vários comentários apagados, de um tal de Eduardo, seguidos de uma resposta do leitor, que dizia mais ou menos: "Desculpa se minha pergunta te ofendeu, mas eu só estou tentando entender que direito tenho." Daí o Eduardo solta uma resposta bombástica: "Ser antipatizado é escolha de cada um."

Meu Deus, é isso! Acabo de resolver uma grande equação existencial! Eureka: eu sou antipática! Eu nasci antipática. O anjo da antipatia visitou meu berço quando eu era bem pequena e disse: "Serás antipática até umas hora. Beijo." Eu respiro ar antipático. Eu como pão de antipatia, com manteiga extra-antipática. Na minha testa deveria estar escrito "Cuidado, sou antipática". Aliás, eu deveria me apresentar como a Miss Antipatia: eu quero processar o cara que bateu no meu amigo só porque meu amigo é gay. Eu quero Bolsonaro na cadeia. Eu quero poder denunciar o cara que parou com seu carro nas vagas destinadas a motos e mandou ir à merda a motociclista que o pediu para sair do local (será que mandaria à merda se fosse um homem dirigindo a moto?). Eu quero que o mundo saiba, nestas Olimpíadas, que nós, carinhosos brasileiros, não damos o assento a grávidas e idosos. Gente, eu sou antipática!

E já que eu me assumi, convido a todos a serem antipáticos também, igual ao meu amigo que, apesar das humilhações na delegacia, foi até o fim e denunciou o agressor. Ou igual ao procurador que fez Bolsonaro virar réu em duas ações no STF. Gente, vamos ser antipáticos "que nem" a mulher que tirou o celular da bolsa e, diante da recusa do motorista em tirar o carro da vaga de motos, começou a tirar fotos do carro e, ao final, ligou para a polícia! Sejamos superantipáticos como a grávida que saiu do metrô possessa e apontou ao repórter o grupo de garotos que fingiu estar dormindo para não dar lugar a ela! Vamos ser antipáticos, galera! Vamos criar a grife "Le Antipatique" e, junto com o amor, espalhar antipatia pelo mundo. É só começar! Vamos juntos?


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quarta-feira, 13 de julho de 2016

DIA DO ROCK >> Carla Dias >>

Hoje celebramos um merecedor de celebrações, o bom e velho Rock. Conheço algumas pessoas que se dizem avessas a ele, mas que já citaram, em alguma situação em que insinuaram gostar mais do que desgostar de algo, It’s only rock’n roll but I like it.

A primeira banda da qual participei era bem rock and roll. Aos meus companheiros de jornada, devo o mergulho para o conhecimento do gênero, que eles me apresentaram uma série de gente boa da música. Lembro-me de passar horas no quarto, escutando os discos que eles me emprestaram, tentando compreender o motivo de tanta fascinação. Veja bem, escutar Hocus Pocus, da banda holandesa de rock progressivo Focus, pela primeira vez, foi um atiçador de sentidos.

Havia, ainda, o repertório que fui conhecendo ao ter de tocá-lo. Made in Brazil, Casa das Máquinas, Rolling Stones, Little Richard e por aí vai. Aquela banda foi uma escola para mim, não apenas como instrumentista, mas como ser humano aberto às descobertas musicais.

Uma das histórias que mais me marcaram, em tempos de banda e rock and roll, foi de um evento no qual tocamos. Um amigo dos meninos arrumou esse show que contaria com apresentações de várias bandas. Nós decidimos participar, mas não tínhamos ideia do que encontraríamos. Veja bem, éramos uma banda de rock and roll, bem na boa, e entramos nesse lugar repleto de punks. Quando olhamos ao redor, pensamos que não daria certo.

A grande questão, naquela época, é que havia uma séria rixa entre punks e roqueiros. Sentimos um pouco o peso dessa rixa ao entrarmos naquele lugar. Pensamos em não tocar, mas o amigo dos meninos, um cara muito bacana, nos convenceu de que estava tudo certo, apesar dos olhares punks sobre nós.

Subimos ao palco certos de que seria bem complicado, mas nos surpreendemos. Eles não apenas gostaram, mas também foram muito gentis conosco, depois de perceberem que, para nós, aquela rixa não fazia sentido, e que só queríamos tocar rock and roll.

Eu não sei o que para você significa o Rock. Para mim, significa a descoberta da liberdade de ser e a abertura para conhecer. Sempre duvido de quem torce o nariz para ele. Normalmente, cinco minutos depois a pessoa já entregou de que gosta sim de rock, só não o chama pelo nome. Sabe como? Acontece o mesmo com a poesia... A pessoa diz que não gosta de jeito nenhum, mas então comenta uma citação linda que leu em um muro da cidade, em uma postagem em rede social, ou que escutou alguém dizer.

Sim, é apenas rock and roll. Sim, eu gosto. Ok, não é apenas. É preciso compreender que o Rock é mais do que música. É um universo de sons e comportamentos. É uma manifestação musical e cultural. Mas como não sou especialista no assunto — e conheço muitos especialistas no assunto —, decidi escrever sobre o que realmente conheço: o meu gostar do Rock.

Um ótima celebração para nós!




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terça-feira, 12 de julho de 2016

QUE HORAS? QUE DIA? >> Clara Braga

Quer fazer mestrado? Só se dedicar um pouquinho todo dia, escrever um bom projeto e se preparar bem pra prova que dá tudo certo!

Tocar melhor? Nada que umas horinhas por dia na frente da bateria não resolvam! Já sabe o que estudar, agora é só investir pesado!

É professora? Realmente, o momento em sala de aula é só parte do trabalho, mas nada que umas horinhas por dia na frente do computador não resolvam. Prepara aula, preenche diário, lança nota, prepara material para reunião de pais e mestres! Ufa!

Está trabalhando com fotografia, né? Ah, que ótimo! Nada como um tempinho todo dia para fazer aquelas vídeoaulas, aprimorar a técnica, descobrir um novo público alvo e sair para a batalha!

Escreve crônicas? Que interessante! Deve ler muito não é mesmo, afinal, de onde arruma tanta inspiração? Mas nada que umas horinhas do dia lendo e outras escrevendo para praticar não resolvam!

Tudo na vida é questão de dedicação! Mas a dedicação tem que ser diária!

Nesses momentos eu me pergunto, quantas horas tem o dia dessas pessoas, pelo amor de deus?!


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sexta-feira, 8 de julho de 2016

A ARTE DA CURA >> Paulo Meireles Barguil


Saúde.

Quem não a deseja?

Há quem diga que, com ela, a pessoa pode correr — voar, andar, pular... — atrás do que deseja.

Eu acrescento: e também fugir do que não almeja!

Saúde.

Dente, cotovelo, dedo do pé: eu nem me lembrava que os tinha antes de eles doerem!

Ainda bem que o protesto deles é isolado: um de cada vez...

Acho que eles são parentes de cometas adolescentes, cujas aparições são esporádicas e não esperadas.

Saúde.

De quem?

Do corpo, da alma, da mente?

É possível separá-los?

É possível uni-los?

Seria a doença a manifestação da cisão da harmonia entre eles?

Saúde.

Arte, Ciência, Filosofia e Religião: qual construto cultural tem a poção curadora?

O outro pode cuidar de mim?

Pajé, curandeira, xamã, rezadeira, mago, clérigo, médico, psicólogo: múltiplas opções.

Escolha uma, se assim desejar, ou até mais de uma!

Saúde.

Afinal, por que adoecemos? 

Buda declarou que a causa do sofrimento humano é o fato de que a felicidade está sempre acabando, pois o que caracteriza a vida é a impermanência, mas, como desconhecemos isso, nos apegamos ao que é agradável e sentimos raiva quando algo ou alguém destrói essa ilusão, fruto da nossa ignorância.

Ah, essa raiva...

Esse desejo insano — literalmente, doente — de vingança que nos arrasta para o inferno.

Saúde.

Como adoecemos?

Jesus falou: "Os olhos são como uma luz para o corpo: quando os olhos de você são bons, todo o seu corpo fica cheio de luz. Porém, se os seus olhos forem maus, o seu corpo ficará cheio de escuridão." (Lc 11, 34). 

O mirar do corpo: separação, focado no passado ou no futuro, queixa...

O fitar da alma: unidade/totalidade, imerso no presente, gratidão...

Saúde.

Tão simples.

Olhar também para dentro e não somente para fora.

Substituir culpa por compreensão.

Mudar intolerância por paciência.

Converter raiva em compaixão.

Afastar-se do ressentimento e aproximar-se do perdão.

Trocar guerra por paz.

Permutar falar por silenciar.

Comutar o correr em parar.

Transformar o apego em desprendimento.

Olhos, mente, coração: todo o nosso ser.

Desejo-lhe saúde!


[Crônica dedicada a Fabiana Portante e Kelli Gisse, que me instigaram a escrever sobre a temática]


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quinta-feira, 7 de julho de 2016

CASO DE TERAPIA QUE É UM CASO DE AMOR >> Mariana Scherma

Uma suposta amiga me disse que eu tinha problema em gostar tanto de ler romances, que era melhor levar esse assunto pra terapia. Veja bem, eu nunca achei que isso fosse um problema. Ela só sabia que gostava de devorar livros, dos romances com final feliz aos com protagonista serial killer, passando por algumas histórias fantásticas. Biografias também, não só romances. Sei lá, mas sou mais eu quieta na minha poltrona com o livro que transforme um pouco o que sou. Por que raios ela achou que isso seria um problema, eu não sei.

Mas na semana seguinte da terapia, lá fui eu com a dúvida: “seria mesmo um problema trocar um dia de compras no shopping ou um café da tarde com pessoas que nem lhe acrescentam nada por eu, eu mesma e meu livro?”. Óbvio que a psicóloga já sabia que eu não tinha problemas de socialização, era bem falante e estava longe da depressão. A resposta foi: “isso é seu charme. Seu hobby. Uma paixão. Ninguém tem nada com isso”. É bem por aí: ninguém tem nada com isso. Nem essa suposta amiga. Hoje eu penso que talvez eu devesse mandá-la a terapia por ficar comparando salários entre a turma. E tentando ver etiquetas da marca das roupas. Ou talvez ela tenha me mandado ao psicólogo por tanto furar com ela. Meus livros estavam mais divertidos. Vai ver foi ciúme.

Ao longo da minha vida, muitas pessoas entraram, saíram e entraram de novo. Ou nunca mais voltaram. Mas livros novos (ou usados, sem preconceito) só entraram. Se saíram, foram para empréstimos. Livros funcionam como pessoas. Depois que eles entram na sua vida, você dificilmente volta a ser igualzinha a antes deles. Hoje eu posso dizer que minha personalidade tem um pouco da ironia seca de Brás Cubas, uma pitada do desastre divertido de Bridget Jones, tem uma colher (das de chá) do amor louco de Anna Kariênina, tento ter uma dose investigativa tal qual as protagonistas de Gillian Flynn e por aí vai. Assim como também sou um pouco do humor sarcástico do Claudio, meu amigo, da insegurança do meu pai e do carinho sem medidas da minha mãe.


A gente não é mesmo uma ilha. E ao meu redor tem gente e personagens da literatura. Se às vezes eu passo a morar em algumas páginas, paciência. Sonhar é necessário. Levitar da realidade para pensar como seu personagem preferido. A vida não é tão exata como parece. A gente escolhe como é melhor viver. E eu escolho algumas páginas de papel cujo cheiro é uma mistura de felicidade e empolgação. Nunca mais alguém vai me fazer acreditar que isso é um problema pra terapia resolver.


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quarta-feira, 6 de julho de 2016

O BOM OUVINTE >> Carla Dias >>


Seu pai está cansado de lhe dizer, a voz rascante, que ele pare de ser infeliz. Que a vida não espera os infelizes encontrarem a felicidade em um esbarrão. Que a vida quer nem saber dos infelizes. Diz, ainda, que infeliz feito ele, se não tomar rumo, jamais deitará lábios nos seios fartos e macios da felicidade.

Ele escuta o pai desfiar suas teorias sobre infelicidade, vida, lábios e seios fartos e macios. Ele é paciente, bom ouvinte, e até acompanha com o olhar as voltas do velho pela sala. Ultimamente, sente o pai mais atuante na sua função de curar infelicidade de filho. Semana passada, ele organizou festa surpresa de aniversário para seu rebento, mesmo a data sendo daqui a três meses. Contratou bufê, DJ e dançarinas exóticas em roupas minúsculas. Proibiu a esposa de dar as caras, isolando-a de seus atrevimentos ao mandá-la para a casa de uma de suas filhas.

As filhas dele sabem ser felizes. São parideiras de primeira grandeza, além de profissionais freelancer, que assim sobra tempo para cuidar de suas proles, porque elas podem trabalhar em casa. É o que ele imagina, mas segue longe da verdade. Freelancer? Vinte e quatro horas se dividindo entre maternidade, profissão e ocasionais orgasmos.

Não interessa o trabalho que dê, seu pai se diz correndo atrás do prejuízo, porque cansou de ser pai de filho escravo de infelicidade. Os amigos comentam, as amantes perguntam sobre o motivo e receitam rezas e unguentos, os cães da casa detestam sair com o infeliz de seu filho.

Não é de falar muito ou de sair de casa. Ainda assim, aprendeu um ofício e se tornou mestre na sua profissão. Saiu cedo da casa dos pais, comprou um bom apartamento, leva uma vida cercada por prazeres que cultivou, como aprender a tocar um instrumento, o violino. Recentemente, tornou-se spalla em uma orquestra da qual assistiu muitas apresentações quando criança. Gosta de pensar que este é um dos raros milagres que a vida oferece.

Não atendeu às expectativas do pai, quem nunca conseguiu arrastá-lo para o boteco para exibi-lo como belo exemplar de homem feliz, debochador de bobagens do cotidiano. Ele que tem verdadeira fixação pela felicidade do filho, ou melhor, pela falta dela. Acha um desperdício que um homem bem-apessoado feito ele não tenha uma mulher em cada bairro das redondezas, nem mesmo o perdoa por ter escolhido outra profissão que não a dele. Com o tempo, tornou-se perito em listar as falhas do filho, e de elucidar o desapontamento que é ter filho infeliz.

O pai diz e o filho escuta, atento, porque é bom ouvinte e jamais deixaria o pai falando sozinho. Herdou a paciência da mãe e o talento avô. Tornou-se um brilhante alfaiate. Por conta e risco, tornou-se um violinista inspirado. Para seu pai, alfaiates são ultrapassados e infelizes escolados. Músicos de orquestra são palhaços em finos trajes, executando música desnecessária.

Ofereceu outra festa ao filho, desta vez alegando que ele pretende mudar de profissão, tornar-se advogado feito o pai. Estranhos brindaram, ainda que não entendessem o teor da comemoração, porém completamente satisfeitos com seus drinques. Alguns vieram dos botecos gourmet que o pai frequenta, outros dos tribunais. O que importava era celebrar o fato de que ele, em breve, não teria mais filho infeliz. Teria filho advogado.

O que o pai ignora - e o filho acredita que por temer tal verdade -, é que o filho não é infeliz, apenas não precisa do deboche, das conversas gritadas, das mulheres seminuas e seus codinomes, do exibicionismo profissional. Não precisa da ilusão de ser melhor do que o outro. Sua melancolia, que o pai confunde com infelicidade, é matéria-prima de sua capacidade de se situar no mundo sem dar aos dissabores mais espaço do que eles merecem. Sem gritar suas vitórias.

A melancolia o ampara, o mantém humano. O humano o mantém capaz de ser o bom ouvinte que seu pai precisa, enquanto se debate na realidade trincada que vem construindo.

Imagem: Nós © Ismael Nery

carladias.com

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terça-feira, 5 de julho de 2016

EU JÁ, EU NUNCA >> Clara Braga

Já parei de ler livros na metade.
Já fingi estar prestando atenção em algo só para ouvir a conversa dos outros.
Já comprei roupa por causa do atendimento que foi tão bom que eu não tive coragem de dizer que não levaria nada depois de experimentar um monte de peças!
Já fingi estar doente para matar trabalho.
Já deixei de comprar livro porque a capa era o cartaz do filme e não a capa original.
Já conversei com estranhos achando que algum amigo meu estava por perto, mas eles já estavam bem longe.
Já fiz discurso de agradecimento do Oscar na frente do espelho segurando um desodorante.
Tenho vários sapatos, mas uso sempre o mesmo.
Já dei o número do meu telefone errado para pessoas que eu não queria que me ligassem.
Tenho mania de deixar tudo para a última hora.
Já critiquei alguém por fazer algo errado e quando fui tentar fazer errei também.
Sempre confiro mais de uma vez se realmente acionei o alarme do carro, mesmo quando tenho certeza de que já fiz isso.
Já ouvi a piada de uma conversa alheia e não consegui segurar o riso.
Até hoje sei a letra inteira de lua de cristal.
Já mandei mensagem para a pessoa errada de propósito só para ver se começava um assunto!

Mas tudo isso foi só uma tentativa de amenizar o que eu realmente preciso assumir:

Nunca assisti Game of Thrones e nem pretendo!

Ufa, falei!


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segunda-feira, 4 de julho de 2016

INSTINTOS AMEBIANOS >> André Ferrer

Abraham Maslow (1908-1970) foi um psicólogo norteamericano. Seus estudos dizem respeito aos conflitos entre comunidades culturalmente distintas.  Por conseguinte, ele propôs uma hierarquia das necessidades humanas, a famosa Pirâmide de Maslow, em cuja base estão as necessidades fisiológicas (respiração, alimentação, sexo, etc.) e, no topo, a autorrealização humana (autonomia, moralidade, trabalho criativo, etc.).

Maslow é arroz de festa no Data Show de quem estuda e ensina Humanas. Portanto, não é um Maslow na íntegra e em profundidade, mas a Pirâmide de Maslow, um signo, um ícone, enfim, uma representação bastante superficial e conveniente de Maslow, que tem presença garantida nas aulas. Ou melhor, nesses verdadeiros jorros de tópicos que se acostumou, nas últimas décadas, a chamar de aulas.

Maslow trabalhou na Universidade de Cornell e no MIT. O pesquisador se debruçou, por exemplo, na difícil convivência entre negros e judeus. Um dos motivos pelos quais a ideia de que o trabalho do psicólogo (bem como de inúmeros outros importantes pensadores) é, simplesmente, resvalado nas nossas escolas e, ainda assim, de acordo com uma flagrante agenda ideológica.

Cornell. MIT. Harvard. Yale. A primeira coisa que vem à mente é a excelência. Por dentro e por fora: a excelência. Faz-se o elogio dela tanto no espírito como na boa aparência. Tweed. Black tie. Heráldica. Em tudo, vive o orgulho explícito de se pertencer a um grupo distinto. A era dos andrajos, mental e corporal, ficou, bem lá atrás, na adolescência. Algo diametralmente oposto ao elogio da pobreza que desfila nos campi das melhores universidades brasileiras.

Questão de se olhar no espelho, pensar em Maslow (ainda que apenas na sua pirâmide) e decidir se o espírito universitário combina com a vestimenta de quem se deixa aprisionar por instintos amebianos.


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sábado, 2 de julho de 2016

ESPIANDO >> Sergio Geia



Na casa de muro verde duas pessoas conversam no portão. A dona, do lado de dentro; a outra, do lado de fora. Ficam algum tempo, depois a dona da casa entra, mas a outra não vai embora. A dona da casa volta e a conversa recomeça. A que está do lado de fora usa roupas brancas, parece uma enfermeira. Deve ser cuidadora. Deve haver doente naquela casa, ou idoso que requer cuidados.
São sete horas. O domingo é cinza e frio. Não tem ninguém na rua. O Pops está fechado. Nos bares que funcionaram madrugada adentro reina o mais inspirador silêncio. A quietude só é quebrada de vez em quando pela cantoria que vem da igreja. É canto de comunhão e a missa deve estar terminando; missa das seis e meia. Não ouço mais o sino chamando pra missa das seis e meia. Decerto, alguém reclamou.
Um homem se instala em frente ao Pops e começa a espiar. “Não há nada a espiar aí, amigo!”. Desiste. Fuça o lixo. Cata latas. Vai embora.
Dona Teresa caiu doente. É o que diz Braga, a respeito de sua empregada. Achou-se pega por reumatismo. Depois, refez o diagnóstico, culpando uma corrente de ar do apartamento dele por sua enfermidade. Corrente de ar é um perigo. Disse-lhe que a última vez que se viu doente de cama fora há quinze anos, e tudo graças a uma corrente de ar.  O fato é que Braga ficou sem sua empregada graças a uma corrente de ar. Corrente de ar é uma tragédia.
Lá embaixo a Marechal vazia. Nada de gente, nem de corrente de ar. Mas logo a missa termina e as pessoas se achegam. Uma senhora, com mecha branca no cabelo, caminha na calçada parecendo me observar. Noto que realmente me observa. “Oi”, “Bom dia”, digo. Ela pode estar se perguntando: “O que faz um homem na sacada a uma hora dessas?”.
“Pois sou homem do dia, minha senhora! Questão de biorritmo. Pela manhã, tudo funciona melhor. Acordo cedo. E se acordo para caminhar, ou ler, ainda melhor. Pois somos parecidos. A única diferença é que a senhora, pela manhã, prefere Deus, e sua casa; eu prefiro a minha casa, e o Braga”. Nem bem termino a frase e ela já anda longe. Na certa, mais feliz que eu, por ter começado bem o dia, afinal, domingo é o dia do Senhor.
Vejo num quintal uma mãe tentando fazer o bebê dormir. Não dormiu no horário que devia, ora, pois; atrapalhou a noite da casa. Ou trocou dia por noite; bebê tem dessas coisas. Pais de primeira viagem se desesperam. Simples dor de barriga transforma a casa num inferno. As experientes, como fez minha sogra quando João era um bebê chorão, tratam de esquentar pano a ferro, colocar na barriguinha da criança, e tudo bem. Se deixar por conta dos ingênuos pais, o bebê amanhece soltando gases num pronto-socorro.
 


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sexta-feira, 1 de julho de 2016

NO CLUBE DOS PROSCRITOS - Parte I >> Zoraya Cesar

Estava fria, a noite. O vento soprava em rajadas intermitentes, insinuando-se por entre as frestas da roupa. O homem sentia-se mal. Não acreditara que pudesse fazer tanto frio numa cidade tropical e não saíra convenientemente preparado. Seus músculos estavam travados e enrijecidos, seu corpo doía. 

Mas não era apenas isso que lhe trazia desconforto. Ah, não.

À medida em que ele se embrenhava por vielas escuras, os transeuntes rareavam. Havia vigilantes escondidos, espreitando por entre os vãos das janelas, disfarçados de sombra pela luz baça dos becos. Não se meteram com ele, apesar de nunca o terem visto. Afinal, nenhum desavisado entraria ali, àquela hora, sem saber o que estava fazendo. Ou pagaria o preço, alto, cobrado aos incautos. 
Estava acostumado a andar no submundo de qualquer cidade

O homem caminhava devagar e compassadamente, os olhos se movendo de um lado para outro, pelo hábito de constante alerta no qual vivia. Percebia o escrutínio ao qual estava exposto, mas não se incomodou. Estava acostumado a ambientes estranhos e hostis e se sentia à vontade no submundo de qualquer cidade. Não era, tampouco isso, o que lhe trazia desconforto. Com certeza, não. 

Continuou andando, calmo e resoluto, arrependendo-se por não se ter agasalhado o suficiente. Isso poderia ser perigoso. O frio é psicológico, pensou, preciso me concentrar em encontrar o lugar que procuro. 

Tinha de acertar de primeira, não podia ficar entrando e saindo dos bares, espeluncas, casas de jogos ilegais, inferninhos e redutos outros que a comum das gentes nem sonha existir. Os vigilantes poderiam desconfiar que estava ali para fazer algum malfeito; caso isso ocorresse, seria expulso ou morto, sem cumprir sua missão. Mas ele era bom no que fazia, prudente, e trazia na memória a descrição perfeita de onde deveria entrar. Era uma questão de paciência. 

Ao longo de seu caminhar, podia vislumbrar, de vez em quando, escadas sujas, bares à meia-luz, sombras dançantes, mesas de bilhar. Nada daquilo lhe interessava. Estava quase preocupado que tivesse deixado passar o lugar certo quando, finalmente, encontrou-o.

Apesar de todo o treinamento e preparação, seu coração acelerou, o esôfago fechou. Se fizesse tudo direito, seria considerado um herói. Mas, agora, precisava de foco. Uma missão só acaba quando o agente chega em casa vivo. 

A porta, larga, estava aberta, os batentes de madeira pintados de verde, encimados por uma placa de neon azul onde se lia o nome do clube e seu lema: The Outcast Club - Tomorrow is no one's land (*). Ele leu a mensagem e absorveu seu significado, concordando com o dito. 

Mal pisou no hall que antecedia ao salão, e foi imediatamente interceptado por dois homens, que surgiram como que do nada. Um dos doorman era enorme, um imenso gorila branco e louro, de aguadas íris azuis e traços eslavos. Vestia-se com o apuro de quem comprara o terno numa loja Armani. O outro, ao contrário, parecia ter saído de uma rave. Era um jovem magro, quase esquelético, coalhado de piercings. Usava uma camiseta estampada com o rosto de Sid Vicious. Lembrou ao homem uma versão punk de Billy the Kid, e igualmente perigoso. 

Os dois o examinaram com olhos experientes. sem pressa. Notaram que estava mal vestido para o frio da noite. Não parece um amador, seja qual for sua especialidade, mas cometeu um erro tolo, pensou o gorila. Se seus músculos não estão relaxados, suas reações ficam mais lentas, e, na hora de salvar sua vida, um segundo pode fazer toda a diferença. O outro, com seus olhos agudos, percebeu que, debaixo da suéter larga do homem havia uma arma. Tão discreta e profissionalmente alojada, que só mesmo um outro atirador perceberia. 

- Deixe a máquina aqui conosco, parceiro. Lá dentro você não vai precisar – disse. O homem entregou-a, sem reclamar. Era praxe, não esperava outra coisa. 

Eles se entreolharam e, de comum acordo, deixaram-no entrar.

Chegara a hora. Teria de encontrá-la, a mulher, e ganhar sua confiança. Ela era velha, aposentada, seus reflexos estariam lentos, e, a essa hora, provavelmente já bêbada de ouzo. Parecia um serviço simples. Então, por que estava ele tão nervoso?

Porque nada era simples em se tratando de Marta Atanasiou. A lenda.

(*) O Clube dos Proscritos - O amanhã é terra de ninguém, numa tradução livre.

Continua dia 15 de julho a 2a e última parte

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A hora do chá

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