quinta-feira, 30 de junho de 2016

UM CISCO >> Analu Faria

            Tirei as lentes de contato e senti um incômodo, como se houvesse um grande cisco no olho. Pisquei várias vezes, pinguei um colírio, não resolveu. Examinei o olho em frente ao espelho, não havia nada de anormal. Ai, meu Deus, só falta essa lente ter me dado algum problema. Foram vinte e seis anos de amor a elas, sem nenhuma briga. Fui dormir, devia ser algo passageiro e se o tempo curava as brigas de amor, algumas horas de sono deveriam ser suficientes para curar aperreios com lentes de contato.

            Só que não. Amanheci com o mesmo cisco imaginário no olho. Incomodava ao piscar, incomodava quando eu olhava para cima, para os lados, para baixo. Incomodava. Pronto, era a lente mesmo. Ou algum problema bizarro. Tenho alguém com catarata na família? Como é que é que se tem glaucoma mesmo? Corri para o hospital.

            Enquanto esperava o atendimento médico, pensei sobre o quanto a vida anda difícil por conta dessa crise no governo. O amor anda complicado nos tempos de vacas magras também. Lembrei ainda que as férias vão ser curtas, talvez não dê tempo de visitar meus pais. Droga, esqueci de pagar aquela multa de trânsito! E acho que engordei um pouco. E agora esse olho! Por que tudo tem que ser tão...

            “Senhora Ana Luisa.” - me chamaram.


            Era um cisco. Grudado na parte interna da pálpebra. “Quando é assim, eles fazem uma pressão negativa e ficam como ventosas na membrana palpebral. É bem difícil de sair mesmo.” A médica virou minha pálpebra para baixo de novo e pediu que eu piscasse. Tudo certo. Assim meio que do nada, a crise não era tão grave, o amor estava ótimo, as férias seriam lindas, a multa de trânsito não era lá um grande problema, meu corpo estava bom até demais. Um cisco, gente. 


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quarta-feira, 29 de junho de 2016

AS JANELAS VERMELHAS DE CALIFÓRNIA
>> Carla Dias >>


Califórnia é um casarão localizado em uma rua sem asfalto de um fim de mundo qualquer. Ninguém de fora do perímetro sabe o que lá se passa. Ninguém pretende saber. Muitos estão certos de que nada de bom acontece ali.

Califórnia não recebe suas encomendas pelo correio. Seu código postal nasceu na lista negra, aquela que avisa aos carteiros que melhor é ficar longe, que eles correm risco de não fazer suas entregas e ainda voltar para casa sem sapatos e os miúdos dinheiros que frequentam suas carteiras.

Por ali, moram alguns carteiros.

O entorno de Califórnia é o das ladeiras. O casarão de janelas vermelhas e paredes brancas chama atenção pela sua formosura desandada. Tudo parece imenso em Califórnia, mas o que realmente é imensa é a porta de entrada. Vermelha. E lá ele fica, majestoso, no pico entre a Ladeira das Dolências e a Ladeira do Despenteado.

Despenteado é um homem que nasceu por ali e de lá não consegue sair. Até fez planos, arriscou tentativas, mas logo estava de volta, mala e cuia, e um coração partido de itinerante que pensou que seria bem recebido na planície. Desapontamento é o tipo de coisa que Despenteado coleciona. Ainda assim, seu apelido – não há mistério relacionado a isso, ele vive despenteado – batizou uma ladeira, porque ele controla o bairro.

Califórnia pega fogo aos domingos. Daí que a população tem de ter um pouco de paciência. Despenteado já explicou que as domingueiras fazem parte da socialização naquele cafundó. É preciso saber que cara tem o seu vizinho, o tipo de produto do qual ele deseja usufruir. Califórnia é distribuidora oficial dos produtos oferecidos por Despenteado.

Califórnia é o resultado de um movimento de confronto com a miséria do lugar. Castigado pelo tempo, ele abriga histórias. Foi o avô de Despenteado quem o construiu com as próprias mãos e as mãos de alguns amigos. Sr. Ziló sonhou com esse lugar lindo e imponente, onde as pessoas eram bem-vindas, independentemente de cor, raça, religião e tipo de pinga preferida. Acordou do sonho e começou seu projeto de vida. Morreu cinco minutos depois de inaugurar Califórnia, nome que escolheu ao relembrar o dia em que conheceu um estrangeiro que visitara a casa de seus pais, quando ele era menino de tudo. O homem era gentil e, de acordo com o tradutor que o acompanhava, vinha da Califórnia e queria comprar uns feijões. Desde então, Califórnia se tornou sinônimo de sorriso gentil para Sr. Ziló.

Ele nunca vira tanta gentileza exposta em um sorriso.

Sr. Ziló não tinha família grande. Eram somente ele e Despenteado, depois que a esposa e a filha morreram em um acidente tão trágico, que nem vale a pena lembrar. Depois da morte de Sr. Ziló, Despenteado ficou louco, queria colocar o casarão abaixo, estava certo de que aquele lugar levara embora a vida de seu avô. Nunca mais entrou ali. Foram duas décadas sem que uma porta fosse aberta. Sem que suas janelas vermelhas abrissem seus olhos para a linda vista do pico onde o casarão reinava.

Califórnia é um casarão sobre o qual aqueles que jamais botarão os olhos nele gostam de falar. Para esses distantes, aquele é o próprio inferno, onde reinam miséria e baixaria total, sem contar os crimes. Quem não conhece o bairro onde fica o Califórnia, não quer nem passar por perto. Já deu em televisão, rádio, internet e o diabo que o lugar é de gente ruim.

Gente ruim feito Sr. Ziló. Gente ruim feito Descabelado.

Viver no bairro não é fácil. Todos ali sabem que falta muito para que possam se sentir confortáveis com a vida. O básico é negado a eles, diariamente.

Claro que tem miséria, tem crime, tem sacanagem, afinal, ali vivem, como em outros lugares do planeta, seres humanos. Esse bicho que faz besteiras em qualquer lugar, no pico ou na planície. O que não sabem os que açoitam Califórnia com suas ideias compradas, como se compra revista de fofocas, é que Descabelado se tornou prefeito da cidade que aquele bairro abandonado se tornou. Vinte e dois anos depois da morte do avô, e de uma tentativa infeliz de abandonar Califórnia, Descabelado encarou o casarão e entrou nele, descerrou-lhe portas e janelas, e em dois tempos, viu-se apaixonado por Califórnia.

Domingo. Descabelado chega cedo ao Califórnia, a música alta, daquele jeito de acordar vizinho escolado em dormir o dia inteiro. Logo começam a chegar as crianças, usando roupas de sair, de ir à missa, ao culto, ao bate tambor. Seus pais parecem cansados da lida, dos desafios da vida. Ainda assim, sorriem.

Califórnia é uma escola de dança e teatro. Ali, Descabelado ensina as crianças a dançarem samba, reggae, hip hop, tango, valsa e por aí vai. Aos domingos, sempre há algum evento para a coletividade: apresentação de dança, almoço comunitário para arrecadação de comida e roupas para os que estão desempregados, leitura dramática de peças de teatro, brincadeiras, troca de ideias sobre como fazer do entorno de Califórnia o lugar sobre o qual muitos nem querem saber, porque são incapazes de compreender o que o sorriso gentil de um desconhecido pode fazer por muitos outros.

Ah, se eles soubessem sobre o que abriga aquele teto, aquelas janelas vermelhas, aquela porta suntuosamente danificada. Vermelha.

Quando olha para o distante, lá da janela de seu casarão, Descabelado agradece ao estrangeiro e ao Sr. Ziló. Há desejos e sonhos que só vingam no próximo. Ainda assim, é lindo de se ver.

Imagem: As mãos do Dr. Moore © Diego Rivera



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sábado, 25 de junho de 2016

INVENTANDO O AMOR >> Cristiana Moura



Era tanto o encantamento entre palavras e sorrisos — desilusão entre a palavra escondida e a lágrima endurecida. Naquela noite, voltei para casa com escala planejada na padaria. Dirigia e só pensava naquelas tortinhas de morango. Ao avistar a vitrine e não vê-las meus olhos se encheram d'água. Aproximei-me. Estavam lá. Expirei aliviada. Há tempos, não procurava no açúcar cura para as dores impalpáveis. Pensei num banho de mar mas já era  noite. Precisava de algo que me aquietasse os sentidos e a melancolia oriunda da desilusão. Coisa de quem se entregara, desvelando-se em incontinência de palavras e sorrisos para um outro que era quase de verdade.

Fui chegando em casa pensando em me deitar no sofá e inventar um amor para Joaquina enquanto comia os docinhos. Ao menos para Joaquina serei capaz de dar um amor — pensei. Ah, ainda não lhes apresentei Joaquina. Nossa! Ela mal nascera e já a amo. Joaquina é minha personagem. Para ela estou a escrever dez contos. Ela me encanta. Leva uma vida sem graça, sem sabor e num dado momento , como  quem se dá conta de ser motorista da própria vida ela decide mudar e, a partir do desejo de novidade acontecerão os contos para Joaquina. Pensei que lá pelo quarto eu poderia lhe inventar o tal amor.

Pus-me a escrever. Dei-lhe uma viagem. Ela nunca havia saído do Nordeste. Numa feira em São Paulo Jô viu os maiores morangos que já havia visto na vida. Daqueles que são vermelhos por fora e por dentro e por demais suculentos e como não existem aqui pelas nossas terras. Ela os saboreou como jamais fora capaz de sentir tal despudor entre a língua e o céu da boca. O mundo parava para que Jô destruísse cada morango entre os dentes. E fui escrevendo sua viagem e seu encontro com os morangos.

— Querida Jô, me perdoe. Eu quis lhe dar um romance, mas lhe dei apenas um sabor.

Hoje eu não soube inventar o amor.






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sexta-feira, 24 de junho de 2016

CHUPETA DIGITAL >> Paulo Meireles Barguil

Na falta da teta, foi inventada a chupeta.
 
Existem registros dela que datam cerca de 3.000 anos.
 
Assim como a original, a genérica tem sido utilizada para alimentar e/ou acalmar bebês e crianças.
 
Ambas, possuem várias cores e modelos, que costumam agradar aos seus usuários, notadamente a originária.
 
A primeira não tem restrição médica.
 
Quanto à segunda, é recomendada uma cuidadosa limpeza antes do uso.
 
Ao longo do tempo, a chupeta utilizou vários materiais: pano, borracha, látex, silicone...
 
Aspectos higiênicos e ortodônticos impulsionaram a constante melhoria desse importante artefato na vida do Homem. 
 
Digno de registro, também, é a ama de leite, uma modalidade em desuso, mas que desde o século XIII foi adotada na Europa.
 
Nada se compara, contudo, à chupeta digital, uma criação do século XXI.
 
Essa nova modalidade, que é uma melhoria do modelo de válvula e da sua sucessora, feita de transistor, ampliou para todas as idades a sua clientela, em virtude das suas possibilidades de uso e praticidade, além da notável portabilidade e de preços para todos os bolsos.
 
Há quem alerte que essa versão traz grandes perigos, notadamente às gerações mais novas, mas isso deve ser intriga dos saudosistas dos programas de rádio, de modo especial das novelas ao vivo.
 
Que malefício pode existir nesse utensílio que nos entorpece e nos faz esquecer da nossa fome?


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quarta-feira, 22 de junho de 2016

QUANDO URGE... >> Carla Dias >>


Amanheceu com uma urgência se apropriando de seu espírito.

Respondeu a todas as enquetes que encontrou, de revistas às redes sociais. Leu artigos sobre religião, política, música, futilidades. Consultou livros de poesia, culinária, filosofia, atentando para as linhas em destaque que a fizeram se lembrar do motivo de não apreciar marcadores de texto: o feito deles a cercam, ela não consegue seguir para o próximo parágrafo. Marcadores de texto limitam a segunda leitura, e assim como no “à primeira vista”, ela não confia na sua percepção imediata. Preciso aprofundar-me e só então perceber-me ali.

É viciada em marcadores de texto.

Ligou para amigos e familiares, o que você acha? Filosofou para o zelador de seu prédio: e se essa urgência decidir morar em mim? Foi ele quem ofereceu a ela uma versão mais poética do silêncio. Sem saber o que dizer, compadeceu-se por ela em um longo e aflito olhar. Ela agradeceu e comentou sobre os cães da inquilina do vinte e sete, são tão bonitinhos... De repente, desanuviou-se. O olhar aflito deu lugar a um olhar encantado com a beleza dos cães e um deslumbramento sobre como são brincalhões.

Au, au! O zelador imitou o latido de seu preferido, Zaratustra. Depois riu de si, o que a encantou por alguns segundos.

Água com gás, café, guaraná, suco de graviola, chocolate quente e uma dose de pinga. Fez pedido, assim, de um fôlego. O moço que a atendeu achou que era pegadinha, onde está a câmera? Ela – que nada sabe sobre pegadinhas – ficou olhando para ele como se o tal tivesse perguntando onde vivem os anjos. Depois de algum tempo esperando a resposta, ele se deu conta de que o pedido era aquele mesmo. Vou ficar devendo o suco de graviola, mas prometeu que em dois tempos traria os outros itens. Trouxe e ainda colocou sobre a mesa um extra. Para adoçar a vida. Sorriu e ela sorriu de volta, o sonho de padaria entre copos e xícara.

Adora sonho de padaria.

Caminhou pelo centro da cidade. Entrou em tudo quanto era loja e questionou os vendedores, o que vocês acham? Alguns foram gentis, lamento, mas não faço ideia, minha jovem. Outros a expulsaram, minha loja não é lugar de gente maluca! Houve ainda vendedor que a convidasse para jantar. Ela declinou, vai que não encontre resposta para essa urgência. Ah, que pena...

Uma pena mesmo, que não tem um encontro há séculos.

Entrou em igreja, templo, assistiu à palestra motivacional, performance musical na rua. Bateu palmas, escutou história de estranhos, uma delas a fez chorar. Conversou com crianças nas quais os pais não prestavam muita atenção, ajudou um senhor a atravessar a rua. A gente fica velho, lerdo, e daí que nem semáforo quer saber de nos conceder um pouco mais de tempo.

Caminhou sem destino, até a noite cair. Viu a cidade iluminar-se e como as pessoas se apropriavam dela. Nem tudo o que viu foi bonito, mas não conseguia se desgarrar da beleza que era assistir à vida acontecendo.

Voltou para casa, andou pelos cômodos em diferentes ritmos.  Escutou discos antigos, revisitou fotografias, gritou até ficar rouca e o zelador tocar a campainha para ver se estava tudo bem. Uma barata... Desculpe o escândalo, mas eu tenho horror à barata. Ele procurou a barata e ela com o coração apertado por fazê-lo perder o tempo dele com a mentira dela.

Assou bolo de cenoura, chocolate e laranja. Lavou e passou roupas, tomou banho e chorou feito criança, debaixo do chuveiro, para que ninguém a escutasse. Assistiu à novela, à série, ao reality show de culinária, ao de reforma, ao de relacionamento. Relacionou-se intimamente com o desejo de aquietar-se e com os pensamentos em alvoroço. Orou, rezou, declamou, decantou.

O que será de mim, amanhã? Sorriu e deitou-se para dormir.

A urgência continuava lá, incólume e agitada.


Imagem: The Crystal Ball © John William Waterhouse

carladias.com

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terça-feira, 21 de junho de 2016

SIMPLES ASSIM! >> Clara Braga

Foi num piscar de olhos, tenho certeza! Se não foi em um, foram dois, no máximo! Engraçado como o meio do ano chegou rápido e curioso que tenha dado para fazer tanta coisa. 

Me peguei reflexiva esses dias, pensando em como a vida pode ter dado uma volta tão grande em um tempo tão curto e corrido. E quanto mais reviravoltas a vida dá, mais conselhos as pessoas compartilham! É engraçado como as pessoas sempre têm algo para te falar, para acrescentar ou aconselhar nessa sua nova fase de vida! 

Tentei resumir meu meio ano com algumas frases, clássicas ou não, que por algum motivo passaram a fazer sentido pra mim e que hoje fazem toda a diferença:

Não subestime as descidas!

É preciso ser muito forte para desistir!

Amar nem sempre é suficiente.

Vai passar!

Só faltam 20km!

Não compartilhe tudo!

Amigo é a família que a gente escolhe!

Cuidado!

Sorria!

Ficar sozinho sem se sentir solitário é muito bom, mas é uma arte!

Não se justifique tanto!

A culpa não é sua!

Isso é mais comum do que você imagina! 

Enfim, poderia falar mais um monte, mas preciso terminar com a que mais me marcou! Não sei explicar, é muito básico, mas virou meu novo mantra:

Divirta-se!


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segunda-feira, 20 de junho de 2016

SOBRE A GANA DOS TAMANDUÁS >> André Ferrer

A cena remetia à melhor história de Dalton Trevisan: Uma vela para Dario. Corpo estendido. Roda de gente. Lamentos por um anônimo.

"Empatia. Falta empatia nos homens de hoje."

"Seres irracionais!"

"Sim. Coloquemo-nos no lugar do outro."

Naquelas três bocas, o vapor empurrava as palavras. Um fumo branco e fátuo, que se dispersava nos ares da manhã invernal. Então, aproximei-me. Vi os pés ressecados. As únicas partes humanas à mostra. Que alma boa, minutos atrás, cobrira o defunto com a Folha de São Paulo!

Revirado no estômago, eu conservei os olhos na página que escondia os tornozelos e estampava as mais recentes descobertas no ramo da entomologia. Eu tinha lido a matéria na véspera e concordava com quase todos os aspectos da ideia de sociedades artrópodes defendida pelo autor.

As formigas têm o seu equivalente do que chamamos de razão, mas é algo imponderável: não conseguimos nem qualificar nem quantificar uma coisa dessas. O mecanismo evolucionário provê cada ser segundo as necessidades emergentes no contato com o mundo. Bastaria, então, sabermos algo do ponto de vista das formigas, o que, convenhamos, iria muito além de uma simples adaptação no que se refere à estatura.

"Um metro e sessenta e oito mais ou menos. Pele branca. Olhos castanhos. Entre cinquenta e cinquenta e cinco anos."

O outro policial assentiu. Fez o sinal da cruz e se arvorou na nossa direção. Braços abertos, pediu espaço. Rodopiou. Disse retoricamente:

"Morreu de frio."

Um ônibus freou nas nossas costas. Senti a turbulência da nova leva de curiosos. Fui, implacavelmente, rechaçado para longe da minha leitura - ou melhor, releitura.

Um homem abriu os braços. Usava terno e gravata num triste desalinho. Senti o seu hálito nauseabundo. Queria público. Àquelas horas, com o desjejum adiado ou cancelado, as pessoas ficam mais susceptíveis. Todos bem mansos. Até os guardas tiraram as boinas. Relativamente fácil para o homem do terno, ávido por atenção. Tinha conquistado, enfim, o seu público.

Atordoado, eu ainda remoía o fascinante e inatingível ponto de vista das formigas. O pastor, insano, convulso, teatral, abria o Livro Sagrado a esmo.

"Portanto, vos afirmo", leu ele numa voz retumbante. "Não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as roupas?"

Enquanto dobrava a esquina, perguntei-me, absorto, a respeito da gana dos tamanduás.


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sábado, 18 de junho de 2016

FELIX GUISARD E O CELSO >> Sergio Geia



Outro dia caiu-me às mãos o livro “Felix Guisard – A trajetória de um pioneiro”, de Claudia Martins, da Cabral Editora e Livraria Universitária, que adquiri em 2009, que já tinha lido, que adormecia na estante, mas que, por uma curiosidade qualquer, voltou-me às mãos. Na verdade, a história do empresário Felix Guisard, contada por Claudia, se confunde com a história da Companhia Taubaté Industrial, nossa primeira grande indústria que empregava cerca de 2000 trabalhadores, e com a própria história da cidade de Taubaté; Claudia, uma jornalista, resgatou o passado como trabalho de conclusão de curso.
A curiosidade era uma foto que muito apreciei: uma multidão de operários em frente à fábrica por ocasião do cinquentenário da CTI, em 1941. Um magnífico registro histórico. Pois sempre que passo por lá, e vejo a fachada da fábrica, me deita na mente aquela multidão de trabalhadores.
Felix Guisard foi contemporâneo de Monteiro Lobato. No livro, há uma carta muito interessante escrita por Monteiro Lobato a Felix Guisard Filho, dois dias após a morte de Felix Guisard, pág. 155: “São Paulo, 31-03-42. Prezado amigo Felix Guisard: Não me surpreendeu a morte de seu pai. Em Ubatuba ele me contou a história daquele diabetes, com que entrara em maravilhosa entente cordiale e nós sabemos o que valem essas ententes quando oitenta e tantos anos se metem de permeio. Morreu gloriosamente, pois suponho que conservou aquela lucidez e aquele encanto de espírito que nos surpreendia. Seu pai não soube o que foi decadência mental — essa suprema tragédia. Naquele inesquecível regresso de Ubatuba tive ensejo de espantar-me da absoluta perfeição com que aquele cérebro funcionava — e não me lembro de caso semelhante. Curioso, amigo Felix: seu pai, que só conheci por algumas horas, foi talvez a criatura que me inspirou mais respeito pela espécie humana. Luminosas horas foram as em que tive a honra de tratar com um varão de tantas e tão altas superioridades. E, pois, em vez de pêsames com cheiro de cravo de defunto, receba meus parabéns por ser filho de tal Homem. Um grande abraço de Monteiro Lobato.”
Outro pedaço também precioso é o escrito na pág.13, do qual peço a permissão para transcrever dois parágrafos:
“Oito horas da manhã. Para muitos o dia ainda está apenas começando. Na cidade de Taubaté, interior de São Paulo, uma sirene estridente toca por cerca de dez segundos. Boa parte da cidade ouve o sinal e percebe que é hora de trabalhar, mesmo os que já estão trabalhando desde as seis horas ou os que vão pegar no batente às nove. Alguns até estão chegando em casa nesse horário, depois da noite cansativa dentro de uma fábrica. Outros tantos saem à procura da concorrida vaga  no mercado.
Mas o apito, insistente e pontual, avisa que é preciso trabalhar. É o grito do patrão chamando os operários. A cidade ouve, compreende e prossegue com sua rotina, calada. O som, já cristalizado no ouvido desses trabalhadores, tornou-se comum e já faz parte da orquestra do cotidiano.”
Tive enorme satisfação quando terminei a leitura desse livro, que resgata um pouco da história de Taubaté, isso lá pelo mês de outubro de 2009, e a tive de novo agora, ao ler novamente a carta de Lobato e o escrito da página 13.
Por fim, já no crepúsculo desta crônica, imagino que o honrado leitor, se atento for, principalmente com o título dela, como acredito que deva ser, possa estar a se perguntar “mas que diabos de Celso é esse que se impõe diante de figuras tão ilustres?”. E com razão, estimado amigo, e com razão. Mas não se aborreça, pois hei de esclarecer.
Não menos ilustre, meu contemporâneo de ofícios prestados à Municipalidade, Celso Ribeiro, é o responsável pelo acionamento do apito da Companhia Taubaté Industrial nos dias de hoje. Vi outro dia numa reportagem que passou na televisão. A Companhia Taubaté Industrial, há tempos desativada, teve seus prédios ocupados pelas repartições da Prefeitura e pela Universidade de Taubaté, e mesmo não funcionando mais, pontualmente às oito da manhã, ao meio-dia, às quatorze horas e às dezoito, o apito toca.
Uma alegria, uma grandiosa alegria. Passei minha infância ouvindo o apito, ele faz parte da história da Companhia Taubaté Industrial, da história de Taubaté, e, por que não dizer, da minha história. Confesso que hoje, sempre que o escuto, eu penso: “É o Celso. Grande Celso!”.
Ilustração: Nicole Doná (2008) https://www.flickr.com
 


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sexta-feira, 17 de junho de 2016

O PROFISSIONAL >> Zoraya Cesar

Aceitei o serviço. Não porque precisasse do dinheiro. No meu ramo não existe crise e eu soubera investir. Poderia até me aposentar, mas para quê? Engordar de tédio? 

Aceitei o serviço, portanto, para me manter no mercado, pela aventura, e pelo aprendizado - sempre me surpreendia com o ser humano e os estranhos caminhos do universo. 

O alvo era um empresário da indústria farmacêutica, que, ao que parece, fazia ouvidos moucos aos insistentes apelos dos acionistas para lançar uma nova droga no mercado. Não sou moralista, sou profissional. Não questiono as razões do contratante. Não questiono. Mas dobro meu preço se acho que, por algum motivo, o alvo não merecia seu destino. Nesses casos, dôo meu pagamento a obras de caridade. Não sou moralista, repito, mas tenho meus princípios: não mato padres ou freiras, nem pessoas com menos de 40 anos, por exemplo. Se tenho de matar, mato bem e mato rápido, ao contrário de tantos ineptos por aí. Sou profissional.

Ao chegar em casa, ela já estava me esperando. Sei que foi temerário de minha parte dar-lhe a chave do meu apartamento, mas, cada vez que a via, lânguida e provocante, no sofá, esquecia meus instintos e temores. Lavínia era irresistível. 

Conhecemo-nos no bar. Talvez seja meu único hábito, beber uma dose de whisky depois de terminar um serviço. Penso na vida, observo as pessoas – aprende-se muito, observando os outros -, relaxo. 

Ela usava um vestido vermelho escuro de gola alta, as unhas compridas e quadradas pintadas de preto. Os cabelos, louros, estavam displicentemente amarrados. Exalava tanta sensualidade que quase dava para ver sua aura. No meu ramo, é questão de sobrevivência saber analisar caracteres. No primeiro olhar eu soube, de imediato, com profunda e plena certeza, que ela significava encrenca. Mas eu não resisto a uma mulher de pernas compridas.

Tornamo-nos amantes, claro. E, claro, como era de se esperar, ela era casada. Detestava o marido, mas não queria perder a mesada e a boa vida. Só lhe restava, dizia, esperar que ele morresse, para ficar com a herança. Por mim, tudo bem. Nunca fui ciumento e não gosto de compromisso. Ela podia continuar casada o quanto quisesse. Ademais, eu pressentia em seus olhos, bem lá, no fundo, um quê de crueldade e cinismo. Tive pena do marido dela. 

Não me canso de admirar os caminhos do universo. Já vi muita coisa nessa vida, mas confesso que pasmei quando descobri que meu próximo alvo, o tal empresário, era casado com Lavínia.

Sou um homem que acredita em sinais. Se o seguro morreu de velho, o desconfiado ainda vive - tanto que estou aqui, a lhes contar essa história, tão antiga quanto o primeiro homem e a primeira mulher, de traição e morte.

Cheguei tarde naquela noite úmida e quente. O suor colava minha camisa às costas, sentia-me pegajoso como um lagarto. Ela me esperava, daquela maneira sensual e tentadora dela. Trazia um sorriso rubro e desconcertante em seu rosto perfeito. 

Lavínia me esperava,
 a arma em punho
Apontava uma arma para mim. A minha arma. A arma que eu escondia debaixo da mesa da cozinha. 

- Querido, pedi a meu marido que viesse aqui, para conhecer meu amante. Fred já deve estar chegando, armado. Primeiro eu mato você, querido, que, num acesso de fúria, inconformado com o término de nosso caso, tenta me agredir, e eu tive de me defender. Quando ele chegar, eu o mato também, e direi que foi você quem o matou. Lamento muito, mas, sabe como é, business is business. Vou ganhar muito dinheiro, querido, vou ficar rica e livre para sempre.

Ela atirou. Não tive tempo nem de dizer-lhe o quanto era falho seu plano, ela atirou sem hesitar, sorrindo.

O barulho do estampido fez tremerem alguns vidros e o cheiro de pólvora seca impregnou o ar como incenso velho de igreja. 

Ela piscou, incrédula. Mas, como...?

- Acho melhor você chegar em casa antes da policia, Lavínia. Seu marido já está morto, e o revólver usado está no seu carro, com suas digitais. Comprei-o com seu CPF. Não adianta perguntar como fiz isso. Nem por que coloquei balas de festim na minha arma.

- Fred? Morto? Meu revólver...?

Foi minha vez de sorrir. Impossível explicar-lhe sobre a sincronicidade que permeia as coisas, graças à qual eu fora contratado para matar-lhe o marido, por pessoas que ela jamais desconfiaria da existência; sobre como eu antevira que ela pretendia me usar; sobre como eu virei o jogo. Impossível e inútil. 

- Corre, Lavínia. Ou não vai se livrar dos provas incriminadoras que deixei em seu carro. Eu tenho álibi, você não tem. Vai ser difícil sustentar a tese do amante ciumento. Você vai perder sua beleza na cadeia...

Ela correu. Amadores, pensei, nunca têm paciência para engendrar um plano decente, um plano B para o escape. 

Fui para o bar e esperei pelo telefonema que confirmaria a morte de Lavínia após a explosão do seu carro. 

Sentiria falta dela, uma pena. Mas, no meu ramo, não se deixam pontas soltas. Jamais poderia confiar nela. Acompanho o pensamento de Michael O’Hara, personagem de Orson Welles em A Dama de Shangai: “Pessoalmente, não gosto de ter namoradas que sejam casadas. Se ela engana o marido, vai me enganar também.” Sempre se aprende vendo bons filmes. 

A vida não é fácil para os solitários
A vida é muito dura para os solitários, pensei. 

Pedi meu whisky.





Quadro 1 - R. A. Maguire
Quadro 2 - Fabian Perez


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quinta-feira, 16 de junho de 2016

GOTEIRA>>Analu Faria

Um barulinho chato de água gotejando em metal atrapalha minha leitura. Plic-plic-plic. Vou até a pia, fecho um pouco mais a torneira. Dá certo,  por uns trinta segundos. A água volta a gotejar, dessa vez mais devagar. Plic----plic----plic. Tudo bem, tudo bem. Sou um ser humano, um ser racional, aprendi (mais ou menos) a ter paciência, enfim, é só uma goteira, vamos lá: levanto-me de novo, vou até a pia. A torneira já está bem apertada, mas cabe mais um pouquinho de aperto.

Depois de uns dois minutinhos, plic------plic------nada------plic-----------. Saio do sofá mais uma vez. Dessa vez, percebo que já não dá mais para apertar a torneira. E agora? Penso, penso, penso. Algo que abafe o som da goteira? Sim, é isso! Pego um paninho de pia, coloco no lugar onde a água atinge o metal. Dobro bem o tecido, para que o som realmente seja anulado. Funciona. 

Volto ao sofá e ao livro, feliz em constatar o que os economistas tradicionais já sabem há tempos: somos racionais, fazemos escolhas com nosso intelecto, sempre visando à otimização do nosso bem-estar.  Usamos nossa inteligência para resolver problemas. Ah, como é bom ser humana!

Imagina você meu espanto quando percebo que não consigo mais me concentrar na leitura. A goteira havia me tirado do prumo, embolado a linearidade do meu raciocínio e agora eu estava deitada no sofá que eu muito racionalmente havia comprado, com o suor do meu muito racional trabalho, e sentindo que eu não conseguiria racionalizar a importância das goteiras na vida da gente.


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quarta-feira, 15 de junho de 2016

DISTÂNCIA >> Carla Dias >>


É o que acontece quando se deixa de ser o espectador, a pessoa que, ainda que veja o acontecimento ser desfiado em sua presença, consegue manter a distância que oferece a sensação de que não é com ele. É feito filme do qual ele pode se esquecer durante o jantar.

Sente-se incomodado por reconhecer-se incomodado por ter essa distância diminuída, a ponto de ele se sentir íntimo do tema. Como é possível aproximar-se tanto do caos sem pertencer a sua arquitetura?

Duvida de tudo, desde aquele momento, aquela catarse que trouxe ausência pela mão. O que, antes daquele momento, ajudava-o a se acalmar, agora parece ineficiente balsamo. Tanto lhe inquieta como nunca. Há esse ineditismo emocional cerceando a sua sempre tão apurada razão. Essa compreensão atrasada sobre o que importa. Sobre como importar-se.

Aconteceu sem que ele percebesse. Foi de um desejo acanhado de beijar moça que conheceu em uma festa. Amiga da amiga de um amigo. Inteligente, sorriso largo, usuária da ironia para explicitar sua relutância em se sentir à vontade com sua condição de bem-nascida. Ele adorava escutá-la falar, ainda que os assuntos que a apaixonassem lhe soassem quase incompreensíveis. Tivessem nada a ver com quem ele era ou representava.

Deslumbrou-se pela voz aveludada dela a proferir palavras brutais para explicitar zangas, e então sorrir como se não houvesse o que de ruim pudesse lhe roubar a graça. Gostava do som da voz dela, da coreografia dos seus gestos, da conexão que ela tinha com assuntos nos quais ele não se aprofundava.

Havia o mundo dele, onde tudo estava onde deveria estar. Sua vida acontecia a contento, ainda que exigisse grande esforço para que se tornasse o profissional esperado para assumir o lugar do pai na empresa da família.

Havia o mundo dela, aquele que ele não entendia muito bem, tão distante era aquela realidade da que ele vivia. Aquele lugar onde transitavam personagens de histórias que ela contava, às vezes, em lágrimas.

Nunca matou vontade recorrente e silente. Nunca beijou a moça, que andava ocupada com o desejo de mudar o mundo, assim, em um gesto, o certeiro. Porém, consolou a tal, e tantas vezes, que na penúltima exigiu que ela parasse de se embrenhar naquele universo de faltas e precariedades. Ela discursou sobre a boa sorte que os arrebanhara, mas que nunca bateu à porta de muitos. Na última vez, exausto de socorrê-la dos frequentes desapontamentos, das lutas que ela descobria serem vãs, de embalar suas crises, de preocupar-se mais com ela do que com todo o resto, com todos os outros e consigo, desistiu.

Nunca beijou a moça e, durante meses, não assistiu ao seu sorriso escancarado ou conversou sobre importâncias que pertenciam somente a ele e a ela por tê-lo aceitado como confidente. Sentiu saudade, vontade de ligar para escutar sua voz que dizia dolências com uma beleza que ele não entendia como era capaz de brotar durante seus monólogos abençoados pela mais pura melancolia. Durante meses, ele foi exatamente a pessoa que planejara ser.

Então, aconteceu o que o trouxe ao hoje, a essa contemplação.

Ela insistia e ele achava que era doutrinação. Pedia para que ela parasse, que ele não era pessoa ruim, não precisava lidar com aquilo tudo. Não era culpa dele se o mundo era complicado, se alguns não davam certo. Não era culpa dele que as pessoas se machucavam ou tinham necessidades que não podiam suprir.

Não era culpa dele.

Tentar mudar o mundo, agora ele compreende, era o chamado dela. Era a paixão dela. Diminuir a distância entre o conforto que a vida lhe oferecera e a necessidade do outro dava sentido à existência dela. Esse algo que o consome talvez seja essa conclusão à qual ele chega, enquanto a observa sentada naquele banco de praça, pessoas alvoroçadas ao redor dela, ali, sozinha.

Sozinha como ele jamais a imaginara.

É como se ela sorrisse e perguntasse: entendeu agora? Como se ela o pegasse pela mão e o fizesse caminhar, até que aquela distância se revelasse uma péssima desculpa para não se importar.

Reconhece o vestido, presente dele no último aniversário dela que comemoraram juntos. Foram três anos e ela nunca o beijou. Foram três anos e ele nunca foi aonde os sonhos dela estavam. A distância que ele criou entre eles é a mesma que ele reconhece haver entre seu mundo e este que visita agora: famílias vivendo em casas improvisadas, quando não ao relento, dormindo debaixo de marquises. Crianças obrigadas a suportar o que para ele parece insuportável.

A distância de quem se defende da cruel realidade do outro como se ela não existisse.

Era apenas uma amiga de uma amiga de um amigo. Uma moça que ele desejava beijar, desde que a conheceu, mas nunca beijou. Aquela que se tornou sua melhor amiga, a companhia mais desejada, a confidente. Ainda assim, ele foi incapaz de compreender que ela nascera para mudar o mundo. Olhando para ela, a violência estampada em seu corpo; escutando a tristeza escancarada por aqueles que a cercam e berram o que de bom a moça fez por eles. Assim, ele se dá conta, desprovido de dúvidas, de que ela mudou o mundo de muitos, inclusive o dele.

Antes de cair no choro, revirado pela dor de ela não estar mais nesses mundos que o mundo abriga, lembra-se de ela dizer que ele era uma boa pessoa, mas que se negava a aceitar a verdade: a nossa vida não é somente sobre nós mesmos.

Não há volta, depois de aceitarmos tal verdade. A partir daí, importamo-nos com o outro. É assim que o mundo fica melhor, ainda que tentem nos convencer do contrário.

Para ele, essa é uma distância que se dissipou com a ausência dela.


Imagem: Gli amanti in blu © Marc Chagall

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terça-feira, 14 de junho de 2016

A MESMA PRAÇA, O MESMO BANCO >> Clara Braga

Cenário: sala de aula
Personagens: eu e duas alunas de 10 anos

As duas estavam em minha mesa pedindo ajuda para terminar um trabalho sobre festa junina. Quando eu pedi uma tesoura emprestada uma delas logo trouxe, mas avisou:
 - Professora, você não vai conseguir usar essa tesoura porque ela é de canhoto.
 - E agora tem tesoura diferente para destro e para canhoto?
 - Tem!
 - Que ótimo! Mas realmente, não consigo usar.

Então a outra aluna disse:
 - Deixa eu usar!

E nesse momento começou o diálogo mais engraçado que eu já tive com duas alunas em uma sala de aula.

Aluna 1: você também é canhota?
Aluna 2: sou!

Depois de ver que também não conseguia usar a tesoura, a aluna começou a rir e decidiu assumir:
 - Eu estava brincando, também não consigo usar, eu não sou canhota, sou destra.
Aluna 1: é o que?
Aluna 2: eu sou destra.
Aluna 1: alérgica?
Aluna 2: hã?

E as duas saíram da mesa aparentemente decepcionadas por não conseguirem ter um diálogo. Cinco minutos depois, a aluna 2 vem até minha mesa e pergunta:
 - Professora, o que é lésbica?
 - Lésbica? Onde você ouviu essa palavra?
 - Ué, a “aluna 1” disse que eu sou lésbica.
 Então eu, morrendo de rir, disse: vocês duas estão surdas é? Ela não entendeu você dizendo que era destra e perguntou se você era alérgica! Nunca falou de lésbica!
 - Ah tá!

Me senti sentada no banco da praça é nossa! Então, cinco minutos depois a aluna 2 volta novamente na minha mesa: mas professora, o que é lésbica?
 - Lésbica é uma mulher que namora com outra mulher.
 - E tem isso?
 - Ué, claro que tem!
 - Hum! Legal!

Bom, senti que fiz minha parte. Mas depois fiquei pensando, se a diversidade chegou até para as tesouras, porque diabos ainda tem gente no mundo que não aceita a diversidade humana?


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segunda-feira, 13 de junho de 2016

FALTA O QUÊ? >> Albir José Inácio da Silva

Na iminência da prisão de um ex-presidente e dos presidentes da Câmara, do Senado e do Partido, manobra-se agora para salvar couros, mandatos e reputações . As ruas não ajudam: emudecem as panelas - assombradas com o monstro que criaram - e grita-se não ao golpe.

Tem pressa o golpe. Sabe que é insustentável do ponto de vista da legitimidade, mas precisa desmontar algumas políticas públicas alçadas ao patamar constitucional. É um braseiro. A cada medida desmanteladora, a grita nacional e internacional obriga ao recuo do temeroso e assustado interino.

Ele recua quando gritos e vaias impedem seu deslocamento pelo território nacional, mas volta à carga quando silenciam. É longa a pauta de desmonte e ele vai tentar impor o máximo que puder.

Foi assim com o ministério da cultura, considerado perigoso por promover a temida cultura – sempre um entrave ao golpe pacífico e eficaz.

Para a secretaria de mulheres foi uma mulher contrária ao aborto em casos de estupro, num perigo de retrocesso de setenta e seis anos, já que essa proteção à vítima foi contemplada no Código Penal de 1940.

De resto, as mulheres foram excluídas do ministério porque o machismo as quer belas, recatadas e do lar.

O ministro do trabalho quer flexibilizar a CLT, ameaçando conquistas desde Vargas, para agradar empresários, impondo salário menor com a terceirização e recolocando as empregadas domésticas no seu “devido lugar” – o que atende à vontade das “panelas” hoje silenciosas.

O ministro da saúde, cuja campanha para deputado foi financiada pelos planos de saúde, promove o desmantelamento do SUS e do programa mais médicos por motivos óbvios demais para serem expressos.

Contrário às cotas e ao ensino público e gratuito, o ministro da educação ouve escolas particulares e atores pornô.

Na pasta da justiça, o titular é contra movimentos e manifestações por justiça social, que ele chama de atos de guerrilha. Enquanto isso, um policial condenado, preso, solto, aposentado com fraude, reintegrado, vaza informações sigilosas, é recondenado, represo, ressolto, continua trabalhando e prendendo pessoas, usando, ele próprio, tornozeleira eletrônica.

Alguém poderia argumentar que ainda faltam fundamentalistas, racistas e homofóbicos nas secretarias de promoção de igualdade religiosa, racial e de gênero. Mas até quando?

Falta, isto sim, para brindar esse momento triste de nossa história, a frase com que Jarbas Passarinho abençoou o AI-5 em tempos igualmente sombrios.

Passarinho morreu na semana passada, mas os quase-presos por corrupção e o presidente interino, condenado e inelegível, parecem declamar em uníssono jogral:


- Às favas todos os escrúpulos!


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sábado, 11 de junho de 2016

PERTO DO MAR >> Cristiana Moura

Olhei pela janela. Um resto de vista do mar ao fundo. A construção subindo à frente em tamanhos e ruídos indesejáveis. Ele cantava e tocava.

— Filho, eu quero morrer perto do mar com você tocando marimba para mim.

— Tá.

E continuou a cantar e a tocar.

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sexta-feira, 10 de junho de 2016

DESIGNIO SIDERAL >> Paulo Meireles Barguil

 
— Durante todo o próximo ano, você ficará solteiro! — sentenciou o astrólogo.
 
— Tem certeza? — indagou, perplexo, o cliente.
 
— Você pode até transgredir as configurações celestiais, porém eu sugiro você não fazer isso, pois as consequências deverão ser desastrosas! — esclareceu o versado na tradição milenar.
 
— Que chato! Logo agora que eu estava descobrindo os macetes... — murmurou, desolado, o rapaz.
 
O silêncio encheu o ambiente durante alguns segundos.
 
— E no próximo ano? — perguntou o freguês na tentativa de encontrar um consolo para atravessar o sombrio deserto romântico profetizado.
 
— Acho melhor não falar sobre isso agora. Daqui a um ano, você estará preparado para ouvir — retrucou o metódico profissional.
 
A sala, mais uma vez, ficou inundada pela ausência sonora.
 
O paciente, depois de muito refletir, resolveu aceitar os desígnios siderais.
 
Agradeceu ao previso, pagou a consulta e abriu a porta.
 
Antes de fechá-la, interrogou:
 
— Eu posso paquerar?


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quinta-feira, 9 de junho de 2016

PSIU, NÃO SOMOS PRINCESAS >> Mariana Scherma

Segura as suas cabritas porque o meu bode está solto no pasto. Também, quem mandou usar uma saia tão curta. Se tivesse ficado em casa, nada teria acontecido. Ela ficou com mais de três, é uma galinha mesmo. Belas, recatadas e do lar. Você vai ficar encalhada. Tem que aprender a cozinhar. Batom vermelho é vulgar. Ela é uma biscate mesmo. Espera ele ligar, senão vai achar você fácil. Essas frases foram as primeiras que me vieram à mente, mas o machismo está em todo lugar, da propaganda de cerveja ao comentário desmerecedor a uma mulher no almoço de domingo e a gente, mulheres e meninas, costumávamos abaixar nossa cabeça e sorrir sem graça.

Costumávamos. Dizem que as mulheres estão chatas com essa onda de feminismo exarcerbado. Se depender de mim e das minhas amigas, continuaremos sempre chatas porque feminismo é um pensamento necessário. Feminismo não é o contrário de machismo. Feminismo é ter liberdade de agir, de pensar, de beijar, de vestir, de ser. Feminismo é não ter que trocar de calçada ou de caminho porque tem um engraçadinho que vive mexendo com você e lhe chamando de psiu. Se não nos chamamos psiu, não somos obrigadas a olhar. Não somos obrigadas e ficar envergonhada porque o fulano não segura seus hormônios nem usa respeito no dia a dia e precisa falar impropérios.

Quantas vezes ficamos sem graça de olhar em direção a uma buzinada e ver que é um mané querendo aparecer? Eu parei de olhar para carros que buzinam porque me dá raiva. Nessa, já deixei de dar oi a vários amigos no caminho porque pra mim buzina é como ouvir um “nossa, que princesa!”. Quando era adolescente, sempre me sentia mal de usar short ou uma calça mais justa. Sentia-me mal de me sentir bonita. Essa onda de feminismo deveria ter começado bem antes. Porque, se o corpo é nosso, as escolhas devem ser nossas. A gente quer respeito, não assovios. Nenhuma mulher vai mandar o fulano parar o carro e beijá-la só por conta de uma buzinada. Somos movidas a carinho, respeito e confiança.


Eu não compro cerveja que faz comercial tosco. Eu resolvi xingar todo cara que mexe comigo na rua (você deveria fazer o mesmo, é libertador). Eu já repreendi meu pai quando fez um comentário com fundo machista – cabe a gente educar nossos pais também. Eu falei alto quando um sujeito não deixava eu me expressar. Mostrar que é feminista é muito mais que posts na timeline e, na vida real, dizer que a fulana só tem cara de santa. Textão é importante, mas ações são tanto quanto ou até mais. Porque você pode postar textão e desviar da rua do cara sem graça e está sendo contrária ao que posta. Feminismo não é coisa de mulher, feminismo é coisa de ser humano. Estamos na reta inicial de uma revolução. Tem muito ainda pra acontecer. Mas eu estou cheia de coragem, e você?!


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quarta-feira, 8 de junho de 2016

O TAL DO KARAOKÊ >> Carla Dias >>


Até há pouco tempo, eu nunca tinha entrado em um lugar com karaokê como item principal do menu. Na verdade, soltar a voz não é com a minha pessoa, portanto me contento em apreciar as lindezas que cantam por aí. Mas fato é que, há algum tempo, não muito, eu fui a um karaokê. Fui porque uma amiga querida, que vive entrando em roubadas de shows, passeios e decisões complicadas comigo, bom, ela insistiu. Até que...

Karaokê me lembra um tio por quem tenho profunda admiração e imenso afeto. Ele gosta de alugar o equipamento e soltar a voz nas festas de fim de ano. Presenciei o momento somente uma vez. Sempre tão reservado, figura de sorriso bonito, que não deveria economizar tanto nas gargalhadas. Quando presenciei ele soltar a voz, naquela felicidade toda, acabei ficando feliz por ele. Então, depois daquele dia, sempre que karaokê pipoca na conversa, lembro-me daquela cena, uma daquelas coisas boas que a vida registra na memória da gente.

Minha primeira passagem pelo karaokê foi bacana. Minha amiga escolheu o dia menos concorrido, porque o lugar tem fila de espera de horas para cantar. E aquele pequeno grupo de pessoas ADORAVA cantar. A comida era boa, a bebida, as conversas meio berradas, durante a performance de desconhecidos, e eu fiquei confortável na minha posição de espectadora.

Obviamente, o sofrimento faz parte. O dia tem de ser terça, ou seja, para quem não sai por aí na balada, é um sofrimento pensar no dia seguinte. Tem de ser terça porque o tal lugar, badaladíssimo, fica mais tranquilo nesse dia, e meus amigos podem soltar a voz várias vezes... Vezes que, somadas, dariam um pocket show de cada um.

Vejam só, aqui estou, em um dia seguinte, escrevendo crônica sobre a noite passada e bocejando, claro. As terças de karaokê não são para os fracos ou para pessoa destreinada em sair de casa para voltar mais tarde, bem mais tarde do que de costume.

A primeira vez de karaokê foi bacana, mas a segunda me permitiu observar com mais dedicação as pessoas que estavam lá, entre um hit dos anos oitenta e uma daquelas músicas que eu preferia nunca ter escutado na vida. Aquela que não falta na playlist de vários crooners de karaokê em uma mesma noite. E a outra, a que eu não imaginava que escutaria em tal circunstância, porque achava que ela era tão peculiar, que só eu a escutava.

Sim, nós gostamos de nos enganar.

Porém, antes me debandar para desfiar algumas palavras sobre estranhos em palcos de karaokê, devo esclarecer que a experiência foi agradável, em grande parte, por eu estar na companhia de pessoas muito bacanas.

Um dos pensamentos que permaneceram, depois dezenas e dezenas de músicas em português, inglês e espanhol; de pizza e queijo coalho deliciosos, drinques, uma garrafa de água e a ausência espetaculosa de café – como assim não tem café?! -, ah, e de um bem-casado que eu andava com vontade de saborear, mas que não estava tão gostoso quanto o da padaria perto de casa, ou seja, vou ter de passar na padaria... Mas enfim, depois disso tudo me restou esse tal pensamento.

O que presenciei, foi um grupo de pessoas se divertindo ao cantar suas músicas preferidas. Músicas, como todos sabemos, remetem à memória emocional, por isso temos música para isso, para aquilo, trilha sonora para alegria, para tristeza, para passar cantada, para passar vergonha e provocar vergonha alheia e por aí vai. E quando um estranho subia ao palco, no final da apresentação dele, todos aplaudiam fervorosamente.

Para você, que frequenta bares de karaokê, isso pode ser comum. Mas para mim, espectadora, que não saiu do lugar e não cantou, que tem uma vida social que não coloca terças na roda da balada, assim, fácil, o que vi  acabei por traduzir como rara gentileza.

Talvez seja uma questão pessoal, uma necessidade de ver algo melhor em um cenário que eu frequente, vez ou outra, como convidada. Algo que um bom analista possa dar jeito. Mas acho que andamos craques em criticar, em escancarar o que temos contra o outro, o que repelimos nele, que perdemos a grande oportunidade de sermos gentis, cultivarmos empatia e celebrarmos a alegria dele, de permitirmos que nossas alegrias se misturem, ainda que assim, de forma singela: batendo palmas no final da música.

Então, que a noite passada me deixou com esse pensamento que não me sai da cabeça: as pessoas deveriam se comportar, em muitos momentos da vida, como se estivessem em um karaokê.

Palmas!



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terça-feira, 7 de junho de 2016

MÊS DE JUNHO >> Clara Braga

Não sou de acompanhar horóscopo. Acho que nem acredito muito em horóscopo. Talvez eu não saiba ler o certo, mas dos que li acho sempre que parece um texto aleatório, com um pouco de coisas boas, um pouco de coisas ruins e tudo muito superficial. A sensação que tenho é que se embaralharmos os textos entre os signos, não faria a menor diferença.

Entendam, não duvido da influência dos signos, dos astros, nem nada do tipo, só nunca li um que realmente achasse confiável. E esse é um ponto que todos concordam, tem muita gente falando baboseiras por ai.

Um dia desses, um pessoal comentou comigo sobre uma mulher que eles sempre acompanham o horóscopo mensal dela, disseram que é impressionante como as informações batem. A princípio fiquei meio duvidosa, mas ai um amigo super descrente dessas coisas disse que ele estava surpreso, as informações batiam mesmo. Bom, não podia deixar de ver essa então né.

Lá fui eu ler as previsões do mês de junho para o meu signo. Período de mudança, novas oportunidades de trabalho podem surgir e, no final do mês, você irá conhecer uma pessoa que vai mudar a sua vida completamente!

Opa, muita hora nessa calma, mudar completamente? Bom, acho que esse é o momento de ter uma conversa séria com essa tal pessoa. Olha só, eu gosto bastante do meu emprego, não paga essas maravilhas, mas acredite, eu prefiro ter menos dinheiro e ser mais feliz no ambiente de trabalho do que ser muito rica e odiar todos ao meu redor. Eu nunca durei mais de um mês em qualquer modalidade esportiva, mas já estou há 2 anos correndo, fiz minha primeira meia maratona, conheci pessoas ótimas, e até tenho ido a academia para poder melhorar na corrida. Estou com uma alimentação regrada. Sei dividir meu tempo entre trabalho e lazer. Estou com novos ótimos amigos. Tenho uma banda de música própria. Escrevo. Me dou muito bem com minha família. Por causa do esporte acabei emagrecendo, estou com uma cor legal por correr na rua. Resumindo, estou muito feliz comigo mesma. Então pessoa, se você for mesmo mudar isso tudo, espere um bom tempo, não precisa chegar no final desse mês não, eu estou muito feliz com as coisas do jeito que elas estão!


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sábado, 4 de junho de 2016

TARTARUGA MARINHA >> Sergio Geia





Foi na semana que passei em Lauro de Freitas. O tempo amanheceu indeciso. Uma manhã cinza, mas clara. De repente, sol; ardido de queimar as costelas. Depois, chuva. Passou a chuva, voltou o sol. Eu, bobo que não sou, já tinha reparado o mar, as nuvens escuras que se avolumavam no horizonte, a circularidade temporal que se apresentava. Batata. Logo depois, mais chuva, dessa vez densa, incansável, aflita.

De modo que à tarde estávamos meio sem saber o que fazer e o que esperar do tempo. Almoçamos bem e vimos com alegria surgir o sol, como um rei. Tomamos um sorvete no centro e, vendo que o reinado se apresentava ensolarado de vez, seguimos à pé até a praia de Vilas.

Andávamos pela areia e não tínhamos nem pressa nem destino. Pois deve saber, amigo leitor, que o caminhar que realmente vale a pena, que beneficia o ser humano, é o caminhar assim, sem pressa e sem destino. A principal utilidade desse caminhar é o próprio caminhar. E quando ladeia o mar, bem melhor. Na vida, perdemos a conta de quantas vezes andamos pra lá e para cá feito um vira-lata. Na maioria das vezes, um andar apressado, desatento, inútil.

A praia de Vilas tem esse nome porque existe um condomínio construído bem à sua frente, de nome Villas do Atlântico. A areia é fina, boa de caminhar; existem muitas pedras no mar que dificultam o banho. Há quiosques, baianas vendendo acarajé, mocinhas alugando guarda-sóis e cadeiras. Durante semana é vazia e agradável; nos fins de semana, um pouco mais cheia e não menos agradável.

Concentrados no espocar das ondas, fomos surpreendidos pela visão de um filhote de tartaruga do mar andando pela areia. Ele ia bem devagar; andava um pouco, depois parava; em seguida, retomava a andança. Diferentemente de nós, o filhote tinha um destino: o mar.

Segundo dizem, a mãe tartaruga sai do mar e põe ovos que depois vão arrebentar, nascendo os filhotes. Eles se ajudam e, à noite, alcançam o mar. São pequenos e frágeis, por isso, facilmente devorados por caranguejos, aves marinhas, polvos e peixes. Alguns morrem de fome ou doenças naturais. De cada mil, apenas um ou dois sobrevivem. Depois de adultos, seu grande algoz é o homem.

A pobre criaturinha, frágil como uma pétala, solitária como um viajante, sem mãe nem pai, nem irmãos, que na certa, à noite, já tinham puxado o carro, andava claudicante em busca de seu destino. Num certo momento ela parou, feito onça-pintada quando enxerga a presa e não quer assustá-la. Ficamos ali esperando pra ver o que acontecia. Depois de alguns minutos, não tive dúvidas: peguei-a, levei-a ao mar, porém, já era tarde.

Ilustração: www.tartarugas.avph.com.br



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sexta-feira, 3 de junho de 2016

UMA FESTA DIFERENTE NUM LUGAR NADA QUALQUER
>> Zoraya Cesar

O terreno era grande, gramado e bem cuidado, cercado por uma floresta modesta, mas viva, com seus animais, suas árvores, seu silêncio. 

Em uma pequena clareira dentro desse terreno, um grupo de pessoas parecia participar de uma festa. Uma festa estranha com gente que, se não era propriamente esquisita, ao menos era bastante heterogênea. E ruidosa.  

Um quarentão, cujo terno estampado de brocados, calças apertadas e enormes óculos coloridos lhe davam um ar extravagante, dançava com o corpo inteiro, expansivo, braços e pernas se espalhando por todos os lados. Cantava alto, desafinado e rouco. Sua histrionice, no entanto, não incomodava seus companheiros, que, imersos em si mesmos, não davam conta de sua presença. Uma mulher, elegantemente trajada de longo preto e saltos altos, dançava funk, dobrando os joelhos e agachando-se até o chão, a boca arreganhada e vermelha contrastando com seu perfil suave. Junto a ela, uma moça de cabelos azuis fazia movimentos circulares, com os braços abertos, rodopiando, de vez em quando, como um dervixe em transe profundo. Um pouco mais adiante, um senhor encurvado dançava o miudinho como um verdadeiro ás do samba, encantando as sombras ao redor. Havia também mais algumas pessoas, que cantavam, pulavam, gritavam, dançavam.

O estranho é que, embora reunidos em um único espaço, não davam mostras de se conhecerem. Não se olhavam, não se encostavam, não conversavam entre si. Em comum, só o fato de parecerem ter saído, sozinhos, de alguma comemoração particular, deixando os outros convidados para trás.

O dia amanhecia e nenhum deles dava sinais de cansaço, nenhum deles parou um só instante de repetir, como em um looping infinito, os movimentos que faziam desde o primeiro instante em que surgiram na clareira. Quem os olhasse talvez não entendesse o que estava acontecendo, mas poderia tender a concluir que aquela gente toda estivera festejando em algum lugar antes de chegar ali e nada os impediria de continuar. 

…Que comportamento mais descabido, pensou a raposinha, que observava o esquisito grupo de uma distância segura.

aragem fria levantou seus pelos dourados e algumas folhas das árvores. Distraiu-se momentaneamente para olhá-las dançando ao vento. Tão bonitas, cobriam o chão como um tapete fofo, pardo e barulhento, crec-crec, quando pisado. Na ausência de humanos, dava para ouvir o som da chuva batendo nas pedras, a conversa secreta dos galhos murmurando entre si, o pio faminto da coruja, o roçar da pá na terra. A raposinha farejou o ar, feliz. Apreciava imensamente aquele cheiro de terra remexida e húmus. 

Geralmente, não se incomodava com os humanos que frequentavam seu habitat. Eles ficavam por pouco tempo - sérios, lamurientos ou confusos -, sendo esquecidos tão logo iam embora. Raramente eram agitados e espalhafatosos como os daquele grupo. A raposinha olhava-os com curiosidade, desejando que o dono do lugar viesse pôr ordem na situação. Gostava dele, de suas poucas palavras e gestos contidos. Ele mantinha a floresta segura, o campo bem cuidado e a tranqüilidade de todos, homens, árvores e animais. Percorria todo o espaço, cavando aqui, plantando ali, ajeitando lá. Às vezes conversava com alguns outros humanos, mas a raposinha não entendia o que falavam. 

A balbúrdia começou a incomodá-la. 

Deu as costas, irritada. Afinal, perguntou-se, impaciente, o que comemora essa gente de jeito tão desrespeitoso num cemitério? Não perceberam ainda que estão todos mortos?


#zorayacesar #zorayaescritora #zorayacesarescritora #zorayacontos



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quinta-feira, 2 de junho de 2016

MAIO>>Analu Faria

Fato é que pus no prato todo o amor que tinha,
e sem pudor nem perdão,
comi, mais fervor e água,
no corredor da sorte, minha última refeição.
Fiz do grito traço inútil, cocho, tirei-lhe a cor
braço firme, laço forte, colada com a morte, segui livre,
andei logo com o andor.
Refleti na areia a sombra de olhos no chão, eu, triste e velha sem antes ser,
agora altiva e doce, rasgo o verbo, paro a foice,
com as mãos
dei de comer ao monstro diário, fiz da vida um precipício,
pulei, larguei os vícios, joguei fora o escapulário,
uni-me a Deus sem mais,
abri as janela ao frio, nos porquês me vi em paz, esperei o pior da lida,
sem medo da rima feia, pés no asfalto, abrindo fendas
rasguei veias, fio a fio, ao alto entreguei
as oferendas, o medo, a vida.
Vi-me só, nua e sem destino, brilho estável, estrela guia
a trilhar-me só e plena,
eu, magra e pequena,
nas sendas que eu queria.

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quarta-feira, 1 de junho de 2016

INQUIETAÇÕES E AFETO >> Carla Dias >>


Pensa que talvez tudo se deva ao fato de ele não ter religião. Fosse temente a Deus, respeitasse suas leis, não estaria nessa situação. Por muito tempo, tentou educá-lo com base nas leis de Deus, mas nunca teve sucesso. Foi menino curioso, questionador, não aceitava doutrinação. Leu a Bíblia, de cabo a rabo, depois apareceu na sala, enquanto ele e sua mãe assistiam a um programa de auditório qualquer na televisão. O menino segurava um caderno, onde costumava rabiscar seus desenhos, no qual anotou todas as dúvidas que tinha. Eram páginas e mais páginas com perguntas devidamente numeradas. Perguntas que, em sua maioria, os pais não souberam responder. Era uma excitação na espera por respostas que eles jamais haviam presenciado. Pensou, naquele dia, como seu filho foi capaz de sentir tanta curiosidade sem que ele percebesse sua tempestade interior?

Não tardou para que seu menino, aquela criança desejada e esperada, para quem planejaram uma vida simples, porém honesta e sem privações, fosse renegado por aqueles que não compreendiam questionamentos. As perguntas vinham a respeito do que fosse. Mesmo na escola, tiveram de visitar a diretora algumas vezes, porque o menino não se calava. Toda vez que tinha dúvida: por quê?

Eventualmente, ele acabou por entender, contemplando a realidade do filho, que as pessoas têm medo das perguntas, principalmente quando elas desnudam a obviedade. Cotidianamente, quando elas ameaçam seus esquemas, seus itens para manipulação.

Ele mesmo se voltou a Deus muitas vezes em pedidos desesperados para que aquietasse o espírito de seu garoto. Sentia medo do que poderia acontecer a ele por conta de tanto desejo por desvelo. E fazia sentido ele se sentir assim.

Desejou que o filho arrumasse uma boa mulher com a qual compartilhar a vida, que trouxesse seus próprios rebentos ao mundo, e assim compreendesse o medo que o amor faz brotar nos corações dos pais. E o contentamento, também. E que isso o fizesse amansar, contemplar a vida com mais satisfação e menos desejo de desnudar a tudo e a todos.

Pensa que tudo isso talvez se deva por não ter lhe mostrado, de forma efetiva, que a vida precisa de rotina, de afazeres para preencher as vinte e quatro horas do dia, senão a mente pode trafegar por terras áridas.

Apesar de não o entender, ainda que tentasse fazê-lo o tempo todo, não parava de se admirar com a gentileza de seu filho. As pessoas se incomodavam com avidez dele por saber a respeito de origens e resultados, de consequências para as escolhas coletivas, de como a ação de um poderia influenciar a realidade do outro. Ele se incomodava com isso, e havia essa culpa que tentava omitir de si. A culpa por desejar que a vida de seu filho fosse mais simples, compreensível, coubesse na vida deles e de seus afetos.

A mãe vivia entre o deslumbre e o desespero, que, adulto, seu menino seguia somente sua cabeça e coração. Ainda assim, era homem justo, e se preocupava com a preocupação dos pais. Não era raro sentar-se com eles na varanda, um de cada lado, abraçá-los e dizer palavras muito bem organizadas para proferir apaziguamento. Ainda assim, não há pais nesse mundo capazes de se sentirem tranquilos enquanto seu filho defende o que a maioria acredita ser perda de tempo.

Ah, essa chuva minguada, que não é garoa nem tempestade. Ela lhe embaça a visão e não consegue abrandar o afogueamento em suas faces. Esse som que se mistura à enxurrada de pensamentos que lhe vêm: e se tivesse se dedicado mais a responder as perguntas do filho, mesmo que não fossem as respostas que ele procurava ou mais corretas? Será que isso o tornaria mais próximo de sua cria, mais íntimo de seu instinto?

A mãe chora o choro das mães que não se conformam, naquele misto de desolação e raiva. Ele segura a mão dela, mas esse gesto, que sempre consegue acalmá-la, dessa vez não surte efeito. Olha para ela, aquele mar desaguando dos olhos, a boca gritando como jamais. Toda sua doçura ancorada naquele desespero que ele não sabe como calar. Sente um engasgo e ele ressoa, mas consegue segurá-lo, antes que a esposa o veja. Não pode chorar. Não pode desesperar. Não pode esbravejar. Deve a ela o amparo, por mais raso que ele pareça.

Talvez se ele tivesse passado mais tempo com o filho. Não que fossem distantes. Eram apenas pessoas que se afinavam em poucos assuntos. Orgulha-se de tê-lo ensinado a dirigir, de ter sido a pessoa a quem confidenciou sua primeira experiência com uma mulher, a quem pediu permissão – apesar de já ter decidido – para viajar por aí durante um ano inteiro. Ah, ele quase morreu de saudade do seu menino. Até as discussões exerciam o papel de intimidade, apesar de o filho sempre finalizá-las com um beijo demorado na cabeça nua do pai.

Sentados no chão da rua de casa, apenas alguns passos do portão, a chuva a lhes rabiscar as vistas, pai e mãe contemplam o corpo do filho, estirado e sem vida. A cena acabaria foto ganhadora de prêmios, estampada em jornais e revistas, compartilhadas por estranhos em redes sociais. Muitos fariam piada a respeito, porque há esses seres incapazes de acessar a humanidade. Porém, a maioria reconheceria nele uma daquelas pessoas essenciais ao mundo. A curiosidade intensa que causou preocupação recorrente em seus pais, aquela mania insana de questionar a tudo, de tirar os outros do eixo, de fazer com que as pessoas encarassem suas mazelas e sua importância, mudou a vida de muitos, mudou o rumo de tantos acontecimentos.

Observa a fotografia enquadrada e pendurada na parede. Ele e seu filho durante a primeira e única pescaria. A mãe tirou a foto. Não é uma imagem comum para frequentar quadros nas paredes das casas. O menino está bravo e o pai olha para ele com imenso afeto, mas é claro que não entende o motivo de tal braveza.

Desvia o olhar para outro cômodo e vê a esposa curvada sobre seus retalhos, costurando roupas para clientes impacientes, mas que ao menos a distraem da saudade que sente do filho. Foi ela quem fez questão de enquadrar essa foto. Ele não entendeu, a princípio, porque melhor seria uma foto de família em tal destaque, incluindo a esposa, ou ao menos uma em que eles pousassem com certa diplomacia. Nessa foto, tirada sem que eles pedissem, enquadrada sem que eles soubessem, colocada na parede sem que eles desejassem, a esposa contaria, muito tempo depois, que presenciou naquele momento a beleza da intimidade entre eles, como nunca ela acontecera antes. Foi uma das poucas vezes em que o pai entendeu o desejo do filho sem que o menino tivesse de explicar isso e aquilo, até chegar ao motivo. Bastaram algumas palavras e aquela braveza toda - que já naquela época, o pai não soube dizer de onde vinha, mas sabia que era válida - fez sentido.

Eu não vou comer esse peixinho, pai! Olha pra ele! Olha a carinha dele! Parece aquele peixinho do desenho que o SE-NHOR gosta! Ao entender o que angustiava o filho, naquele momento, sentiu-se tão feliz. Era simples e ele podia resolver. Ele devolveu o peixe ao lago e ganhou um raro abraço, daqueles que parecem durar horas.

Pescaria saiu da lista de passeios da família, assim como os rodeios e a temporada de caça. O menino se tornou defensor dos animais, inclusive dos animais humanos. Jogou-se ao mundo em nome de muitos. Para a mãe, aquela foi a primeira vez que ele defendeu algo e o pai compartilhou desse algo. Essa era intimidade que ela via ali. Sincronia.

Volta o olhar à foto e não contém as lágrimas. Chora em silêncio para não melindrar a esposa ou fazê-la doer com ele, mais do que já lhe dói a ausência do filho. Seu menino pode até ter questionado os ensinamentos religiosos, a própria existência do Deus, a legitimidade da polícia, a funcionalidade da política. Pode ter defendido apaixonadamente os direitos alheios, ajudado a muitos a se reerguerem, ter sido considerado a salvação de tantos, e ter se tornado a melhor pessoa possível. Mas para ele, o filho continuava a ser aquele menino que estava sempre o desafiando a repensar a vida. Era sua inspiração no aprendizado de lidar com o outro com mais compreensão, sem tirania.

Entendeu que foi o filho quem veio ao mundo para ensiná-lo o que qualquer outra pessoa não conseguiria lhe ensinar. Sentiu-se grato, disse amém, doeu em saudade.


Imagem: The Boy © Amedeo Modigliani



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