terça-feira, 31 de maio de 2016

NÃO É SÓ, MAS É TAMBÉM >> Clara Braga

Fui lá e fiz! Completei meus primeiros 21km na meia maratona do Rio de Janeiro.

Parece muito, e realmente é, mas é tanta coisa envolvida que é até difícil explicar.

Não é só pelos 21km, é pela paisagem maravilhosa do sol nascendo no mar enquanto as ondas batem nas pedras e você está ali para presenciar.

Não é pelos 21km, é pela vontade de estar com aquelas pessoas que têm um objetivo em comum e que se apoiam a cada km, seja da prova, dos treinos ou de qualquer outro momento necessário.

É pela sensação de superação, de adrenalina.

Não é pelos 21km, é por cada treino que foi difícil de completar por menor que ele fosse, mas a gente vai aprendendo a não desistir.

Não é pelos 21km, é por cada momento que o corpo quis desistir, avisou que não estava aguentando, mas a cabeça foi mais forte e fez o corpo seguir em frente mais um pouco.

Não é pelos 21km, é pelos 5km, pelos 10km, pelos 15km que um dia pareciam impossíveis de serem alcançados.

É pelo aprendizado de que impossível pode ser um conceito relativo.

Não é pelos 21km, é por aprender a ouvir quem te diz que você vai conseguir ao invés de ouvir quem duvida de você, só assim aprendemos a acreditar em nós mesmos.

Não é pelos 21km, é por entender que as vezes é preciso ser muito mais forte para desistir do que para continuar.

Não é pelos 21km, é pelo choro emocionado no momento de abraçar quem sabe o que significa estar ali. Até porque estar ali nem sempre é só alegria.

Não é pelos 21km, é por entender que as vezes é preciso abrir mão de muitas coisas para conseguir outras, embora essas conquistas nem sempre estejam muito claras.


Enfim, poderia falar um monte, mas tem coisas que não foram feitas para serem ditas, mas sim vividas, e é por isso que hoje essa crônica é especial para todas as pessoas que me ajudam e me ensinam a viver cada dia de uma vez, da forma mais intensa possível!

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sábado, 28 de maio de 2016

SOBRE FAZER CAFÉ E MEDITAR >> Cristiana Moura



Penetra-me as papilas gustativas ao mesmo tempo em que escorrega-me corpo a dentro. Aqueço-me do líquido negro. Aconchego-me em seu sabor, em seu aroma, em seu frescor. Por um instante cerro os olhos e ainda o sinto lá no fundo da língua, como se quisesse ser um chocolate dos mais amargos. Não. Compará-lo deve ser coisa de memória pessoal. Ele não quer ser. Café é café. Um prazer negro, aromático, longo.

— Um expresso por favor!

Até agora há pouco, este era um pedido cuja resposta me parecia simples. Alguém aperta um botão e o café sai da máquina mágica. Por passatempo decidi fazer um curso de barista. Já que tomo frequentes cafés, por que não fazê-los?

Ah, a máquina não faz parte de uma fábula. Há de se conhecer o café. Há de saber moer. E para tanto é preciso saber o tempo certo, encontrar a textura desejada e a quantidade minuciosa. São de dezoito a vinte gramas para um café expresso. Minuciosidade esta escondida do cliente. Há de prensar com a força exata o café já moído. Só então levá-lo à máquina e continuar o passo a passo.

Hoje fiz café. Foi como ser criança com um brinquedo que não tem em loja. Hoje fui criança com um brinquedo que se constrói ao brincar. Hoje fiz café. Morri em sabor e aroma. Renasci em força e delicadeza entre o café ser grão, ser pó e ser líquido.



E isto sem falar de tudo que veio antes: o plantio, a colheita, a separação do café. Vocês sabiam que café só amadurece no pé? Se tirar antes era uma vez. Fiquei pensando que é que nem gente. Quem vive com a cabeça nas nuvens tende a viver meio longe da possível maturidade. Gente é assim, que nem café, há de ter os pés bem fincados ao chão para amadurecer.

Máquina mágica de café expresso? Meu respeito aos baristas. Eles sim são magos! Fazer café é que nem meditar. O barista quando faz o café, faz uma meditação a ser servida ao outro. Lembrem-se, quando vocês bebem um café, bebem também a meditação de quem o fez.


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sexta-feira, 27 de maio de 2016

CÓDIGO MATERNO >> Paulo Meireles Barguil

No final do dia, para fugir do calor confinado nas casas, muitas pessoas iam para a praça, o que possibilitava que as crianças gastassem um pouco da sua infinda energia.

Dentre elas, estavam Maria e sua filha Emília.

Instantes depois de chegarem à praça, a menina pediu à sua genitora:

— Eu posso ir brincar com a Glaucinha? — apesar do receio no veredito, ela acreditava que seria positivo, pois a convidada era filha do dentista da família.

— Pode ir — respondeu a mãe, sem demonstrar qualquer contrariedade.

Depois de poucos minutos, Maria chama a rebenta e anuncia:

— Vamos voltar agora para casa!

A criança a obedeceu, mesmo sem entender o motivo do retorno tão prematuro ao lar.

Quando chegaram em casa, a mãe explicou para Emília:

— Quando eu disser "Pode ir" é porque não pode ir!

— Eu não sabia! E qual é a sua resposta quando eu puder ir? — indagou-lhe a atônita criança.

— Vá!


[Crônica dedicada à minha avó materna, Maria Nunes Meireles, a mãe da história]

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quinta-feira, 26 de maio de 2016

SÓ ACHO >> Mariana Scherma

Eu acho que você anda lendo pouco e sendo ignorante em todas as suas publicações. Quando você se refere à presidenta Dilma, eleita pela maioria do povo, de vagabunda, você perde qualquer direito de retórica. Você também me faz começar a pensar em unicórnios nessa hora, porque eu não vou perder meu tempo discutindo com quem gosta de ser ignorante. A verdade é que você fica no rasinho da discussão política e acha que todo o mal envolve só o PT. O PT fez cagadas, sim. Mas você fez mais e mais fedida ao apoiar um governo só de gente corrupta.

Eu acho que você, pessoa da classe C, D, E... Z, não está percebendo que este governo ilegítimo não foi pensado em você. Diminuição do SUS. Cortes no Minha Casa, Minha Vida. Mensalidades para universidades públicas. Passaportes diplomáticos para pastores. Cortes na Educação. Se você tem casa própria e plano de saúde, desculpa, mas se não tem... Repense. Você não está sendo nada beneficiado. Andam fazendo no governo uma festa estranha com gente esquisita. A verdade é que eu não tô legal e preciso de birita pra aguentar.

Eu acho que você não sabe da missa um terço quando desdenha do Ministério da Cultura. Você critica o fato de a então namorada do Chico Buarque ser beneficiada, assim como a Claudia Leitte, mas sabia que Lobão (desnecessário, porém...) e o instituto FHC também já foram beneficiados? E vamos combinar que eles não têm nadinha a ver com PT, até porque nunca existiu gente mais de direita que esse povo. Você diz que o Brasil não tem e não precisa de cultura, mas quem não tem e parece não querer é você mesmo. Não me coloque no mesmo barco (furado) que você.

Eu acho que você não sabe que seu querido presidente ilegítimo, Michel Temer, é ficha-suja e está inelegível pelos próximos oito anos. Temer fez doação ilegal, como pessoa física, mas, ainda assim, pode assumir a presidência. Ele é nosso primeiro presidente ficha-suja, sabia? Que coisa. Você, essa pessoa que saiu às ruas de verde e amarelo, aceita isso? Nosso presidente em exercício não parece melhorar sua imagem ao dizer que a mulher é advogada e merece assumir um cargo. Marcela Temer não consta na lista de aprovados da OAB. Mas sei lá, né? Mal temos mulheres nesse governo. Deixa ela, não sei se tem como piorar.

Mas eu só acho. Ah, também acho que seu ódio pelo governo do PT é localizado. Você não odeia a corrupção, você sabe bem conviver com a corrupção, caso contrário continuaria se manifestando contra esse novo ministério sujo. Mas eu não vou ter ódio de você, vou focar nas próximas eleições e vou prestar atenção em quem apoiou impeachment — esses não terão meu voto. Chega de ódio. Apesar de que o seu ódio será minha herança. Minha, porque sou brasileira.

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quarta-feira, 25 de maio de 2016

SALA ESCURA >> Carla Dias >>


Houvesse alguma divindade disposta a atender desejos apimentados pela necessidade de saber a respeito, esse contemplador que sou  e que não tem mais o que fazer, a não ser cultivar curiosidade sobre o que não lhe cabe mudar — a tiraria de lá.

Daquele lá onde ela resiste, pausando acontecimentos no ponto em que eles deveriam enveredar pela mudança necessária. Eu sei, atento que sou aos detalhes, que mudanças também podem ser tratadas como item cosmético, apenas para se ajeitar aqui e ali, até que a coisa toda fique aprazível aos olhos, e o resto dos sentidos que se danem. Porém, não é o caso...

Ela vive em sua caixa, como se fosse boneca à espera de se tornar presente para alguém que a tirará desse lugar ao qual pertence em solidão de dar nó. Quando sai para tomar ar, age como personagem em episódio de série estrangeira, som original, sem legenda, assistida em televisor de tubo, valendo-se da falta de tecnologia para se esconder dos olhares, do pertencimento a um mundo de pessoas que se vigiam, que esgueiram olhares aos outros o tempo todo.

Essa privacidade existencial que a ronda, ela abraça feito filho fugido que volta para casa, depois vinte e quatro horas, um boletim de ocorrência e muitas lágrimas.

A pele entrega informação crucial: o sol não lhe toca há tempos. A palidez estampada em sua pele me lembra a necessidade de meu avô em me benzer uma vez por semana, quando eu era menino, garantindo que eu jamais me transformasse em leito de quebranto. No caso dela, não posso deixar de pensar em contradição, daquele tipo em que a tristeza se torna a beleza de uma imagem.

Quando em público, seus passos são cadenciados em Adágio, com aquela vagarosidade e ternura que vivem entre os 66 e 76 BPM. Raramente a notam, que ela tem a sua capacidade em passar despercebida como amiga mais querida, das quais se sente saudade, mesmo quando no mesmo recinto.

Eu que aprecio a observância do díspar, que tenho esse talento nato para cravar olhar naqueles que passam a vida a fugir da lâmina da revelação imposta, e sem vocação para a modéstia a respeito da minha habilidade em ler pessoas, eu sei que ali, naquele universo-ela, há mais do que ela entrega ao mundo.

Assim, descubro, a base de muita contemplação e paciência, que quando não está no mundo, cuidando para passar em branco, ela está em sua caixa, esse pequeno cômodo onde ela espera por quem a resgate, mas não de resgate feito os que acontecem em filmes americanos de ação.

Na sala escura, ela se ilumina. Naquele lugar onde ela se despe de suas máscaras, e dança por horas, não de maneira graciosa como as dançarinas do Bolshoi, ainda assim, primorosa em sua coreografia-catarse.

Na sala escura, ela se comporta como protagonista de si. Há tanta energia a circular pelo espaço. Há tal esperança desavergonhada a gritar vontades ao silêncio. Alguns dos seus desejos deixariam encabulados muitos dos despudorados assumidos. Ela expõe ali cada segredo, até mesmo os que aprendeu a esconder de si. É uma exposição digna das mais badaladas galerias de arte-de-ser.

Ela grita, chora, esperneia, gargalha, descontrola-se em todos os tons, maldiz seus sonhos, para então assumir que eles lhe são caros. Descabela-se, desnuda-se, permite-se ser invadida pela intromissão da consciência em seu estado de espírito de doidivanas. Acalma-se, pranteia. Cobre a nudez com a singeleza do lençol, este que ela anda a arrastar pontas pelo chão, feito a barra de um vestido que alta-costura não reconhece como obra de arte.

Talvez eu não devesse observar de tão perto, espiar essa sala escura na qual ela solta seu ser para ser quem lhe dá na telha. Talvez seja importante para ela manter segredo sobre fascinante criatura se esconde sob a palidez daquela que sai todos os dias de casa para encarar o mundo.

Por que não ser essa criatura lá fora? Por que ater-se à sala escura?

Ocorre-me, então, que também eu tenho minha sala escura, aquela parte de mim que não se misturo ao mundo. Entristece-me pensar que ela possa esconder o mais apaixonante de si pelo mesmo motivo que escondo essa parte de mim. Por medo de que, além dessa sala escura, aquilo que é o melhor, o mais apaixonante de si, não seja reconhecido como tal diante dos olhares observadores, da curiosidade dos censores de plantão, da necessidade de adjetivos para endossar conteúdo, da vitalidade dos profissionais da conversão, amém. Então, melhor manter viva a percepção, ainda que a sós, em sala escura, para si e seus fantasmas.

Houvesse coragem em mim capaz de manter em curso a beleza de quem ela é, assim, da forma como essa beleza a assola, quando na sua sala escura, eu rezaria aos santos e piscaria aos demônios, depois a tiraria de lá e a levaria para, junto a mim, perder-se por aí. Sem retoques.


Imagem: La Dormeuse © Tamara de Lempicka



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segunda-feira, 23 de maio de 2016

UM OUTONO CATARINENSE >> André Ferrer

Três ou quatro horas antes, em plena madrugada, havia tirado o último peixe da grelha. Entrou, puxou um dos bancos e sentou diante da churrasqueira onde, aqui e ali, a brasa permanecia viva. Por este motivo, a temperatura estava tão agradável na cozinha.

Era sábado e os amigos voltariam, em torno das nove, conforme o combinado.

A ideia partira de Chris, o filho do senhorio. Edu, que morava no térreo, arvorou-se de pronto, desceu as escadas e trouxe os seus apetrechos. Luís Bernardo concordara, mas agora, com o corpo bem aquecido, julgava ter sido uma estupidez. Após vinte dias, a primeira semana livre de avaliações na faculdade estava para começar. Haveria um bom intervalo antes das últimas provas semestrais, no final de junho, e ele já tinha planos para aqueles dias frios.

Luís Bernardo se levantou e espalmou as mãos na tepidez agradável do braseiro. Em seguida, abriu a janela e admitiu que o frio sentido, há pouco, entre o quarto e a cozinha — e também na rápida escala no banheiro , nem chegava perto da geleira externa. Assim, diante da boca e das narinas, ele viu crescer a nuvem de vapor, o seu hálito. Uma névoa que também se estendia lá fora. Esbranquiçava o mundo próximo. O distante.  A perspectiva. A calçada do outro lado da rua. O topo dos prédios vizinhos.

De repente, escutou a varrição de todas as manhãs. O senhorio, naturalmente, já estava de pé. O corredor, lá embaixo, ou talvez o vestíbulo que dava acesso à escada, recebia as vassouradas do homem e, a intervalos curtos, ouvia-se fragmentos de uma conversa. Um minuto depois, Luís Bernardo reconheceu a voz de Chris. O garoto, logo cedo, levava uma descompostura.

No quarto, Luís Bernardo teve pressa de encontrar uma blusa pesada, mas ficou estático diante da escrivaninha. Vestiu a blusa que, afinal, estava no espaldar da cadeira e se apressou. Queria se livrar do trato. Uma pescaria na Penha, francamente, num dia como aquele! A temperatura e o vento nos costões deviam estar de matar. Ademais, havia o conto inacabado, a crônica mensal para o Líder de Terracota, o planejamento do romance, enfim, a tão esperada trégua dos compromissos estudantis.

Luís Bernardo desceu os quatro lances de escada e deu de cara com Edu e Chris. O velho, que ora varria ora falava, resmungou, olhou direto para o inquilino e apoiou os braços no cabo da vassoura.

"Bom dia, moço", fez ele. "Nada de Penha. O Chris e essa peste jogaram o anzol ali em cima."

Do outro lado da rua, havia um sobrado e o ponto indicado pelo homem já era suficiente para que Luís Bernardo compreendesse algo a respeito da façanha dos dois amigos em plena madrugada. No sobrado, residia uma vizinha implicante, que Chris e Edu chamavam de bruxa. "Lá em cima" era a área de serviço dela. Os dois rapazes, de acordo com o velho, tinham "fisgado" uma roupa íntima da mulher com o molinete de Edu. Assim, Luís Bernardo segurou o riso.

"Tudo bem", disse ele. "A gente não vai."

"É justo. Muito justo", disse o velho. "Ontem, vocês compraram peixe e cerveja. Beberam e comeram até altas horas. Eu entendo. Só que vocês precisam respeitar os vizinhos. Por favor! Hoje, nada de pescaria. Nada de Penha!"

"Tudo bem, rapazes. Outro dia. Fiquei de comprar o pão para os sanduíches. Lembram? Pois é! Estava justamente indo à padaria. Tudo bem. Até mais."

Luís Bernardo subiu as escadas, fez café e aninhou-se diante da escrivaninha.

O conto era sobre o ano anterior. Estagnara no trecho em que a moça, namorada de um ex-morador do apartamento, também estudante, compartilhava uma cuia de chimarrão com o próprio Luís Bernardo. Felizmente, ninguém mais morava naquela casa além dele. A crônica, por sua vez, era a respeito de um episódio da sua infância e, a exemplo do conto, ele trocara os nomes das pessoas. Mesmo assim, os leitores do pequeno jornal da sua terra saberiam de quem se tratava.

Com o romance, acontecia o mesmo: a incapacidade de simplesmente inventar dominava o incipiente esboço. Entre um verão e outro, Luís Bernardo admitia que precisava experimentar o mundo e, assim, aumentar as páginas do seu livro. No outono, contudo, época de recolhimento e reflexão, podia se dar ao luxo de dispensar uma pescaria.

Luís Bernardo releu a crônica e, finalmente, chamou-a de "Aula de descrição". Puxou a Lettera 32, enrolou uma folha de sulfite no carro da máquina e começou a escrever. De tempos em tempos, bebia um gole de café. O texto seria remetido já na segunda. Estaria na redação do jornal antes do dia 15 de junho. Sairia, como de costume, na página 2 do Líder de Terracota. 


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domingo, 22 de maio de 2016

COMO ESCAPAR DESTE MUNDO (01): JOGOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Nasci a fórceps. Isso talvez explique minha resistência a este mundo e minha vontade de escapar. Esta é uma forma de ver a minha vida: uma série de tentativas de escapar deste mundo. Comecei pelos jogos, depois descobri os filmes, os livros, a matemática, a música, as paixões, a espiritualidade, o sono, a morte, a astrologia, o futuro, o saudosismo e outras coisas que devo estar esquecendo no momento.

Vou tentar recuperar uma pouco dessa trajetória de tentativas de fuga. Em si, esta recuperação de memória é também uma tentativa de fuga: escrever sobre o passado com um fone de ouvido gotejando anestésica música em minha mente é uma fórmula infalível para escapar por alguns minutos. Começarei pelos jogos...

Minhas memórias mais antigas envolvem jogos.

Lembro de jogar damas e firo com tabuleiros artesanais, feitos por minha avó, e talvez também por uma de minhas tias, desenhados em grosso papelão, tendo tampinhas de tubo de pasta de dente ou mesmo caroços de feijão e de milho como peças.

Lembro de ganhar estojos de jogos clássicos de minha mãe: além de damas e firo, ludo, bingo, resta um... Ludo era meu preferido. Eu gostava de lançar dados. Ainda gosto.

Meu pai me iniciou no xadrez. Quando comecei a escapar também por livros, reparava num velho livro de bolso, mas tão grosso que não cabia no bolso, capa dura marrom, um livro de xadrez, com imagens de tabuleiros e combinações de números e letras indicando posicionamentos de peças. Meu pai chegou a contratar um professor para me ensinar xadrez. Minhas aulas duraram até o dia em que meu professor particular chegou lá em casa bem na hora em que eu assistia a "O Mágico de Oz" pela televisão. Naquele dia, larguei o xadrez: ele representava a realidade da qual o filme poderia me fazer escapar.

Uma vez por ano, perto de meu aniversário, eu ia com minha mãe a uma loja de departamentos para comprar jogos. Parentes mais próximos me presenteavam com dinheiro, minha mãe juntava tudo e íamos nós para o dia mais feliz dos meus anos pré-adolescentes: eu olhava as caixas coloridas, minha mãe olhava as etiquetas de preço e eu voltava para casa com três, quatro, cinco jogos novinhos. Nos finais de semana seguintes, e por todas as férias de final de ano, eu jogava com meus primos. Horas muito bem escapadas com War, Detetive, Cartel, Scotland Yard, Escrete (criado pelo Chico Buarque!)...


Depois apareceram os primeiros computadores e os primeiros video games. Eu tive o PC 200 e o Telejogo. Aquela junção de jogo com televisão era uma bela forma de escapar, mesmo com gráficos que não passavam de tracinhos e quadradinhos.

E havia os jogos de carta, desde a infância, com todas as suas muitas variações: pife-pafe, oito-malucos, buraco mole, depois o duro...

Os jogos sempre estiveram por ali. Com os familiares. Com os amigos (como esquecer a primeira aula gazeada para jogar porrinha?). Com desconhecidos, quando surgiram os jogos online via internet. Muitas vezes sozinho.

Quando fiz 30 anos, os jogos voltaram a se tornar minha forma preferida de escape. Eu estava saindo de um profundo escape de paixão e, fazendo um doutorado com bolsa de estudos, tinha tempo e dinheiro suficientes para me dedicar ao hobby. Descobri os jogos de tabuleiro modernos, vindos principalmente da Alemanha, e entrei profundamente nesse mundo, a ponto de retomar estudos do idioma alemão, que eu havia abandonado, para ler as regras dos jogos no original. Comecei a fazer uma coleção dos jogos vencedores de um prêmio alemão anual de jogos de tabuleiro. Todo final de semana, reunia familiares e amigos em casa, formávamos três ou quatro mesas simultâneas e jogávamos desde a tarde de sábado até a madrugada do domingo. Escape perfeito. Durante a semana, havia novos jogos para pesquisar na internet, listas de discussão virtual para conversar e, quando chegava uma nova caixa dos Correios com dois ou três jogos, eu e minha então companheira não esperávamos pelo final de semana, colocávamos uma toalha sobre a cama e aprendíamos um novo jogo: Catan, Adel, Café Internacional...


Quatro anos depois, acabou o doutorado, acabou o casamento e quase acabaram-se os jogos. A morte parecia ser a melhor alternativa de escape, mas, de alguma forma, eu sobrevivi. E os jogos também. Não como protagonistas, mas como coadjuvantes. Hoje vejo com muito espanto a proporção que tomaram os jogos de tabuleiro modernos no Brasil: são sites, canais do Youtube, luderias, jogos nacionais... De vez em quando, dou uma espiada nesse mundo, mas não possuo as condições financeiras para escapar por essa via no momento.

Relendo o que escrevi até agora, percebendo quantos jogos e quantas situações vividas ficaram ainda por registrar, me impressiono com a força dessa forma de escape em minha vida. A forma lúdica. Talvez a mais pura das formas. A forma mais infantil. Mais ingênua. Mais inofensiva (não gosto de jogar apostado). Se eu fosse escapar agora, neste exato momento, por algumas horas, eu gostaria de escapar aprendendo a jogar "CV — O que aconteceria se...", um jogo em que, lançando e alocando dados, vamos acumulando cartas com experiências de vida, desde a infância até a velhice.



Mas é hora de voltar para este mundo. Ele me puxa da forma mais categórica: a fisiológica. Não há mais como escapar escrevendo, ouvindo música e sonhando com jogos de tabuleiro. Preciso ir ao banheiro. Volto outra hora, lembrando e contando como muitas vezes escapei deste mundo com os FILMES.

E você, caro leitor, o que usa para escapar deste mundo? Ou você gosta deste mundo e não tem vontade de escapar dele?

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sábado, 21 de maio de 2016

NA PROFESSOR MOREIRA >> Sergio Geia




No 327 da Professor Moreira existe um prédio largo, vistoso, com muitas janelas, pintura nova, piso de granito, flores, jardim e um brasão. Na frente, um letreiro informa de que se trata tão pomposo imóvel: Mitra Diocesana de Taubaté.

Há uma mesa logo após a porta de entrada, uma funcionária bem vestida carrega pastas; deve cuidar da burocracia da igreja. Há também uma placa, um pouco menor, com o horário de funcionamento: das 8:00 às 12:00 horas e das 13:00 às 17:00 horas; uma boa garagem; grandes portões cerrados.

Lembro-me de que ali funcionava um pensionato de freiras, cujos quartos, amplos e aprazíveis, eram alugados para moças estudantes que chegavam a Taubaté, atraídas por faculdades. Ali encontravam um teto decente; para pais e família, decente e gerenciado por freiras, o que é bem melhor.

O prédio fica numa região privilegiada, com fundos para a Professor Moreira e frente para a Praça Santa Teresinha. A poucos metros dali está a faculdade de medicina, a faculdade de educação física, a faculdade de comunicação social e a faculdade de fisioterapia. Com um pouco mais de esforço, mas nem por isso longe, chega-se ao campus da Ecase, onde funcionam as faculdades de economia, contabilidade, administração e odontologia, de modo que o lugar, além de bem gerenciado, situa-se num ponto favorável da cidade para quem vai frequentar faculdades.

Foi com tristeza que vi aquela casa jovial e alegre de outrora, frequentada por moças bonitas e felizes, ser transformada de uma hora para a outra numa sem-graça Mitra Diocesana de Taubaté, e no seu vai e vem de padres.

Recordo-me de que sempre tinha algo bom de ver por detrás daquelas janelas. Eram divertidas as moças, além de graciosas, e regularmente havia conversa fiada quando estavam a espiar a rua. Certa vez executamos uma serenata que foi muito bem recebida por elas, até que uma das freiras, mal-humorada que só vendo, tratou de nos pôr pra correr. Pois hoje sei que vou olhar pra cima e nada verei além de pobres janelas mortas, quando muito um padre idoso plantado num daqueles aposentos com história.

Mas a vida é assim, o que se há de fazer? Outro dia foi o Colégio Anchieta, que vi parte no chão. A Villa Santo Aleixo, dizem que sai reforma. Na Professor Moreira mesmo, no 267, hoje existe um comércio. Pois ali moraram os Castilhos, nobre família da cidade e meus amigos de longa data. Frequentava aquela casa e sempre fui acolhido como filho. Às vezes víamos filmes. Outras, jogávamos detetive ou truco. Ou corríamos ao centro atrás de propaganda comercial para o serviço de som da igreja.

Eram tempos de vadiagem; bons tempos. Vejo que a saleta da residência dos Castilhos se transformou num abafado escritório. Naquele mesmo lugar de tantas histórias, espio um rapaz perguntando o preço de um seguro qualquer. Saio de lá com aperto no peito.


P.S.: foto da rua Professor Moreira, em Taubaté

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sexta-feira, 20 de maio de 2016

A BOA SOGRA >> Zoraya Cesar

O rapaz caíra doente de repente. A prostração foi num crescendo até que passou a não reconhecer as pessoas ou a andar e comer sozinho, numa estranha e inexplicável inconsciência.

Os médicos desistiram, era mais uma daquelas doenças sem nome, sem lenço e sem documento que surgem do nada e desaparecem junto com a vida do desinfeliz. 

Assim que o rapaz apresentou os primeiros sinais de decadência, sua mulher entrou em pânico, não estava acostumada a lidar com doenças. Monica chamou a doce sogrinha para morar com eles e ajudá-la a cuidar do acamado — remédios, alimentação, higiene, atenção e o que mais fosse. Esse acerto trazia duas grandes vantagens à Monica: a consciência tranquila de ver o marido bem cuidado; e a liberdade de viver a vida. Pois era jovem, bonita e rica. E, embora gostasse dele, não estava muito disposta a passar o resto da vida ao lado de um enfermo que sequer a reconhecia. 

Decidiu esperar alguns poucos meses antes de se separar, ou pegaria mal, socialmente falando, abandonar o marido. Era tão bonito ver as amigas espalhando nas redes sociais que ela era um anjo, um amor, uma mulher e tanto por suportar aquela situação!

No entanto, os prazeres da carne despertaram e aquele negócio de ter um vegetal por marido estava começando a incomodá-la. Queria viajar, sair, transar, varar noites sem fim. E como fazer isso sem escandalizar a sogra, os porteiros, os amigos?

Se bem que, com a sogra, ela não se preocupava. D. Cotinha... ah, eu ainda não apresentei a sogra? Pois bem, eis D. Cotinha, magra, de tendões repuxados sob a pele ressecada e pintada de manchas senis, as mãos trêmulas, a aparência frágil, os olhos miúdos atrás das lentes grossas, o olhar cândido e conformado. Tratava a nora como uma deusa e nunca proferiu um lamento, uma recriminação, nada. Uma fofa. Com a sogra, portanto, ela não se preocupava.

Quando  começou a se interessar por seu personal trainer, Monica resolveu dar um jeito naquela situação. Chamou a sogra para uma conversa de mulher para mulher. E disse, sem meios rodeios ou palavras cantadas que, em breve, daria entrada nos papeis de separação.  Que era hora de D. Cotinha voltar para casa, levando o filho. E calou-se, esperando a reação. 

Que não poderia ser mais terna e compreensiva. Deu-lhe toda a razão, afinal a nora era moça nova e bonita, tinha que aproveitar a vida, fora uma boa e paciente esposa, merecia seguir em frente. Monica sentiu-se aliviada ao extremo. E livre para viver sua vida. 

Naquela noite mesmo, chegou de madrugada, bastante alcoolizada. D. Cotinha estava acordada, esperando por ela. Disse que estava quase tudo pronto para sua partida, agradeceu-lhe por todo o carinho com seu filho e perguntou se não poderiam beber um uísque de despedida. 

Afagada em sua consciência e em seu ego, Monica aceitou a bebida oferecida pela sogra. Aceitou, bebeu e caiu numa estranha letargia, talvez por conta da noitada, talvez pelo excesso de álcool. Talvez.

Entorpecida, mal notou que D. Cotinha a arrastava até a piscina. Ainda sentiu o baque do mergulho e o choque da água gelada, mas não teve forças para subir à tona, com as mãos fortes da sogra empurrando sua cabeça para baixo.

D. Cotinha deixou o corpo boiando na piscina, voltou à casa e bebeu seu uísque, limpo do poderoso sonífero que oferecera à nora. A polícia concluiria que a jovem, bêbada, ingerira o sonífero e fora para a piscina, ali desmaiando e ali morrendo. Um terrível acidente. 

Pobre Monica, sorriu D. Cotinha, que tola foi você, querida, tão rica e tão ingênua. Manipulei você e meu filho desde o início do namoro para que vocês se casassem, você e meu filho tão forte, tão bonito, tão sexy e tão vazio quanto você, norinha querida.  

Meu filho vai herdar seu dinheiro, Monica. Aí decidirei o que fazer. Se paro de trocar os remédios e o tiro desse estado em que eu mesma o coloquei. Ou não tiro. A lei me instituirá sua curadora legal, e passo a administrar todos os bens. Ou se deixo morrer esse filho ingrato, que seria bem capaz de me passar a perna. Mas, de qualquer maneira, ficarei com toda sua fortuna, queridinha, conforme planejei desde a primeira vez em que os vi juntos.

A polícia concluiu conforme planejara D. Cotinha que, de sua piscina, fazia planos.

O caso, no entanto ainda não fechara.  

Em seu apartamento, Felipe Espada examinava a papelada e as fotos do inquérito. Olhava, olhava, tentando encontrar o que lhe causara estranhamento ao ver o corpo na cena do crime. 

Finalmente. Os calcanhares da morta. Os calcanhares da morta estavam arranhados como se tivessem sido arrastados no cimento. Ou na ardósia, pensou. Dinheiro, concluiu ele. Se fosse chegado a apostas, apostaria seu distintivo que fora assassinato, e assassinato por dinheiro. Jamais confiou em velhinhas fofas.

Preparou-se para agir. Se havia algo que Felipe Espada detestava, era ver um assassino impune... 


Mais aventuras de Felipe Espada:








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quinta-feira, 19 de maio de 2016

CULPA DA ADÉLIA PRADO >> Analu Faria

São meus dias de Adélia. Olho o moço sem paletó — nunca o vi sem paletó — e penso: põe de volta, moço, põe de volta...

Sem paletó, o moço mostra a tatuagem mal escondida por uma camisa. E tatuagem costuma arredondar meu quadril. A aliança no meu dedo é de ouro, brilha até quando eu não quero.

Imagino Adélia vendo o moço que acaba de almoçar . Adélia é de Minas, como eu. Adélia vai à igreja e olha moços, como eu. Adélia, sempre fascinada pelo divino, como eu também sou.  Adélia, que tem coração de cadela, como eu tenho.

Um dia vou encontrar Adélia. Quero perguntar se Adélia também é tímida como eu e se consegue conter Eros e Tânatos dentro dela. E se sim, como o faz. Quero saber se Adélia acorda descabelada e xingando a si mesma por ter preferido aquele corte de cabelo totalmente errado para quem tem a juba volumosa. (Procuro fotos de Adélia na Internet, para conferir se tem cabelos volumosos.) Quero saber se Adélia fica olhando os próprios pés e se perguntando como conseguem resistir ao uso contínuo dos scarpins tamanho 35.

O moço pôs de volta o paletó. Mas como Adélia me abriu, há um tempo, o caminho das palavras, vi na tatuagem escondida meu quadril saliente, apontando na direção de um poema concreto. Agora, moço, quem te sente é o verbo e o verbo sempre se faz carne.

Vou à missa e rezo. Graças a Adélia, o moço vive em rima no meu quadril, sem que tivesse me tocado uma só vez. Quando pego o terço, sei que todas as santas me entendem: sou quase sem pecado.



Adélia Luzia Prado de Freitas, mais conhecida apenas como Adélia Prado, é escritora, educadora e filósofa brasileira. 

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quarta-feira, 18 de maio de 2016

MAIS SIMPLES >> Carla Dias >>


A vida anda mais complicada do que nunca. Quer dizer, nós andamos mais complicados do que nunca. Mesmo quando optamos pela simplicidade, baseados na lógica, no que se mostra, cometemos lá nossas complicações.

Complicar faz parte de nós.

Até buscar pela simplicidade complica tudo. Se tivermos de repensar quem somos e as escolhas que fizemos. Se tivermos de aceitar que a ideia que tínhamos sobre determinado aspecto da vida não está bem embasada e pede por reflexão e mudanças. Se tivermos de lidar com os erros que cometemos, na maior clareza, então que o processo que deveria simplificar tudo se tornará bem complicado.

O que aconteceria se aceitássemos que complicamos, mesmo quando a questão é simples?

Eu sou das que complicam o simples. Sofro por antecipação, quero eu mesma resolver o que não dá para resolver sozinha, principalmente porque não quero dar trabalho ao outro. Sou ansiosa a respeito do que acredito ser óbvio para qualquer ser humano quando se trata de direitos e deveres. Não tenho medo do trabalho que dá ser complicada.

Simplificar é que dá trabalho.

Tenho tentado levar a vida com mais simplicidade. Comecei aceitando que meu espírito merece certo aprazimento. Então, vou a todos os shows e espetáculos teatrais possíveis, retomei a leitura dos livros que fui empilhando, nos últimos anos, e voltei a cozinhar, sendo que, neste aspecto não somente o espírito agradece, mas o corpo também.

Decidi aceitar minha idade. Não que não a aceitasse, com aquele peso da aceitação, todas aquelas direções que o sentido da palavra pode tomar. Não a aceitava porque acreditava que, com mais de quatro décadas de existência, eu não havia feito o necessário com a minha vida. Mas acontece que, olhando de perto, eu vivi bem esse tempo, fiz com a vida o que deveria ter feito, e ainda tive a boa sorte de conquistar amigos extraordinários pelo caminho.

Tornar a minha vida mais simples tem sido um processo complicado. Ainda assim, decidi que é o único caminho pelo qual posso seguir nesse momento. Venho tentando deixar as complicações para as histórias que invento e coloco nos meus livros, e até nesse aspecto o resultado tem sido positivo.

Isso não significa que a pessoa que sou deixará de ser complexa do jeito que sempre foi, ou que abandonarei as minhas peculiaridades. Tornar a vida mais simples tem a ver com criar espaço para o que faz mais bem do que mal, sem que isso faça mais mal do que bem a qualquer outra pessoa.

Dar um passo para trás, a cada vez que sou desafiada a lutar pelo óbvio, pelo o que é meu por direito. Assim posso avançar sem me tornar incoerente a respeito do valor de quem tenho de enfrentar nesse processo. Ser mais justa comigo e com os outros, em todos os aspectos.

A partir do momento em que compreendemos que levarmos uma vida mais simples traz complicações como prefácio, passamos por isso com um pouco mais de gentileza e graça. Também descobrimos os excessos que cometíamos, tanto em relação ao afeto quanto ao desafeto. É primordial priorizarmos a companhia daqueles com os quais podemos conversar, discordar e, ainda assim, não colocar o afeto em risco. Essa sintonia que mantemos com as pessoas que nos acompanharão pela vida afora.

Nesse processo, venho tentando meditar. Como da primeira vez que tentei, não está dando muito certo. Depois de tornar a vida mais simples, quem sabe minha cabeça se aquiete também, e eu possa, finalmente, meditar em um tom mais budista.

Imagem © Inês Mesquita

carladias.com

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terça-feira, 17 de maio de 2016

SOBRE TRABALHAR COM CRIANÇAS >> Clara Braga

Sempre ouvi aquele clichê de que se aprende muito com crianças. Que demora muito até que a gente tenha maturidade suficiente para se deixar ser um pouco criança. Bom, por mais bonito que eu achasse esse discurso, esse é um daqueles clichês que é difícil entender quando você não passa pela experiência.

Só depois que eu comecei a conviver com crianças diariamente no meu trabalho foi que eu entendi que sim, todos deveríamos deixar nosso lado criança aparecer mais.

Com meus alunos, eu aprendi as lições mais básicas da vida, mas que a gente insiste em deixar de lado. Por exemplo, se alguém te pede desculpas e você aceita, é porque você de fato desculpou a pessoa. Parece óbvio, mas nem todo adulto consegue agir assim. Temos a mania horrível de ficar ruminando aquilo que a pessoa fez até nem lembrarmos direito o que nos deixou chateados. Crianças pedem desculpas e vão brincar. Por que elas brigaram? Não importa, é passado.

Segunda lição: eu tenho direito de estar triste. Todo mundo tem problemas e dias ruins, pra que fingir ser o Super-homem? Crianças quando estão tristes choram e pronto, depois ficam bem. A gente que observa acha que é quase um milagre, como podem ser tão resilientes? Posso estar errada, mas o segredo está em um fato específico: elas choram meeeesmo! Nós fingimos ser mais fortes do que conseguimos ser, temos vergonha de compartilhar nossos sentimentos, guardamos tudo até explodir e pra quê? A máxima "aceita que dói menos" nunca fez tanto sentido pra mim e, se disserem que ela foi dita pela primeira vez por uma criança de 7 anos, eu não duvido de jeito nenhum.

Terceira lição, e talvez a mais importante: crítica construtiva não é mito. Existem formas delicadas de dizer que algo não está legal. Esses dias uns alunos disseram: "Professora, a aula assim está um pouco cansativa, não podemos transformar essa matérias em um jogo de forca? Vai ficar mais divertido!" E foi jogando forca que aprendemos quais são as cores primárias e secundárias. Teve também o dia que o aluno disse: "Professora, seu cabelo está um pouco bagunçado, amarra direito, você vai ficar mais bonita."

Ah, e é sempre muito importante lembrar que, onde há espaço para críticas, há espaço para elogios. Se apegar ao lado negativo é definitivamente uma característica dos adultos. Do mesmo jeito que dizem que não gostaram, as crianças não medem palavras para dizer que foi legal, ou te elogiar, como no dia em que coloquei uma blusa nova para ir trabalhar e meu aluno perguntou se eu tinha um encontro, pois estava muito bonita! Mal sabe ele que o único encontro do dia era com eles!

Enfim, no final das contas, acho que a lição que fica é, me perdoem os clichês, mas a espontaneidade é um bom caminho para a felicidade.

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segunda-feira, 16 de maio de 2016

PLACAS >> Albir José Inácio da Silva

Um apetitoso naco pode significar não um deleite ao paladar, mas a morte, se pensarmos em caça e pesca. Belas e escorreitas palavras podem ser armadilhas que escondem interesses e perigos só revelados quando já é tarde para qualquer defesa.

Se alguém de troça, má-fé ou santa ignorância, considerando possível tamanha ingenuidade, trocasse a placa da jaula do leão por uma onde se lesse gato, quem entraria aí com um pires de leite na mão?

Mas o que é óbvio quando falamos de feras e animais domésticos pode não ser tão simples se pensarmos em ideologia e manipulação. O nazismo não convenceu milhões de pessoas por seu conteúdo, execrável sob qualquer interpretação, mas por sua forma, por sua embalagem, sua retórica.

É obvio que o nome está contido na retórica.  Por má-fé ou inocência, é comum encontrarmos afirmações de que Hitler era de esquerda porque o nome do partido era Nacional Socialista. Isso não é casca de banana acidentalmente caída na rua da história.

É placa que foi colocada, e tem sido frequentemente renovada por má-fé ou ignorância, para fazer acreditar que tal abominação tem qualquer coisa de socialista. É manipulação de quem nega conflitos de interesses e fica em cima do muro para melhor observar, engodar e oprimir os incautos. A placa no portão de Auschwitz dizia “o trabalho liberta” e recepcionava os humanos para quem a única liberdade costumava ser a câmara de gás.

Se considerarmos apenas os nomes de alguns partidos brasileiros, não faremos, nem de longe, ideia dos interesses e da alma que escondem. Referem-se a democracia, socialismo, cristianismo, ecologia e bondades que tais. Nada de fascismo, plutocracia, ditadura, desmatamento ou contaminação.

Placas trocadas que enfeitam de flores os pântanos destinados aos plebeus, deslumbrados e inocentes — úteis ou inúteis.

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domingo, 15 de maio de 2016

SE A DILMA FOSSE EU >> Eduardo Loureiro Jr.

Mal a presidente Dilma foi afastada, a hashtag #SeEuFosseADilma estourou no Twitter. Se os internautas brasileiros fossem a Dilma, fariam as coisas mais esdrúxulas no Palácio do Planalto: desceriam a rampa de patinete, mudariam a senha do wi-fi, demitiriam todo mundo, dariam cotoco para as câmeras de televisão, começariam uma guerra bruxa e resolveriam o assunto na base da varinha, etc.

Divertido, sem dúvida, mas fiquei me perguntando o que a Dilma faria, em 140 caracteres, se fosse eu...

#SeADilmaFosseEu, acordava sem despertador, se espreguiçava um pouco na rede, dormia um pouco mais na cama e só então levantava.

#SeADilmaFosseEu, bebia um copo d'água, comia uma laranja, esquecia do regime e comia também uma tapioca.

#SeADilmaFosseEu, não acessava mais sites de notícias. Acabou, acabou, ia cuidar da vida.

#SeADilmaFosseEu, ia à praia: pegava o avião presidencial e vinha curtir os verdes mares aqui no Ceará.

#SeADilmaFosseEu, fazia um programa com a família e com os amigos sem falar de política.

#SeADilmaFosseEu, tomava um bom banho frio e vestia uma roupa velha, rasgada e confortável.

#SeADilmaFosseEu, dava uma olhada na programação e via o que tem de cinema e shows para os próximos dias.

#SeADilmaFosseEu, acompanhava a reta final da NBA. O melhor basquete do mundo tem tido jogos maravilhosos.

#SeADilmaFosseEu, desligava o telefone antes de dormir e pedia ao anjo da guarda uma boa noite de sono.

E você, caro leitor, cara leitora, o que a Dilma faria se fosse você?

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sexta-feira, 13 de maio de 2016

CIFRANAVA: UMA GRANDE AVENTURA
>> Paulo Meireles Barguil


Entre frutas e bichos, o Homem, há milênios, aprendeu a representar o que tinha.

Em cada sociedade, distintos símbolos e modos para fazê-los e agrupá-los.
Alguns desses são ainda conhecidos.

No Ocidente, prevalece, após vencer o Sistema Romano numa secular batalha — epistemológica e com fortes pigmentos religiosos —  aquele que foi criado pelos Hindus e difundido pelos Árabes, motivo pelo qual é nomeado como Sistema Indo-Arábico.

Sua aprendizagem é motivo de sofrimento para muitos e de júbilo para poucos.

Os mestres, infelizmente, na maioria das vezes, em virtude dos seus fragmentados e, por vezes, confusos conhecimentos, não auxiliam os estudantes na aprendizagem desse fantástico produto cultural, cuja autoria é coletiva.

Algarismo, numeral e número: afinal, o que é cada um?

Ah!, você nem imagina o embaraço cognitivo e o pedagógico do professor diante desses conceitos.

E o que balbuciar, então, sobre a mistura que acontece nas crianças?

Essas, entre cópias e recitações, vão entendendo cada vez menos e odiando cada vez mais a Matemática.

É essencial que eu lhe diga: isso não é Matemática!

Ela é muito mais do que essas duradoras aberrações, as quais expressam tanto a incompreensão de como se aprende como do que é essa bela Ciência, a qual, na escola, é dividida, conforme a novíssima Base Nacional Comum Curricular, em vários eixos: Álgebra, Aritmética (Números e Operações), Estatística e Probabilidade, Geometria, e Grandezas e Medidas.

A Matemática e a Língua Materna ocupam posição de destaque no início da vida escolar, com primazia para essa última.

Grandes são os desafios para que os discentes possam, na escola, ampliar seus conhecimentos constituídos fora dela.

Na Língua Materna, os estudos de Emilia Ferreiro, iniciados em 1980 e ampliados por ela e outros pesquisadores, contribuem para que os processos de leitura e a escrita sejam melhor compreendidos pelos docentes e, assim, ensinados.

Enquanto na Língua Materna, há uma conexão linguística entre alfabeto, sistema alfabético e alfabetização, o que contribui para uma melhor prática profissional, na Matemática, no âmbito da Aritmética, inexiste tal nexo, entre o conjunto, o sistema e o processo.

Para começar, o conjunto nem batizado é, o que contribui para que muitas pessoas não compreendam a diferença entre algarismo, número e numeral.

O Sistema é alcunhado de Numeração Decimal, mas, na verdade, a grande maioria dos sistemas que a Humanidade criou era de base 10, ou seja, a cada 10 elementos agrupados, outro elemento o representa.

A grande peculiaridade desse Sistema é o fato de ser posicional — todo algarismo tem valor absoluto e valor relativo, pois, enquanto o primeiro é fixo, o segundo depende da ordem em que ele está e da ordem a que se referencia — mas essa característica nem é ressaltada na denominação!

Quanto ao processo, são diversas as alcunhas: numeralização, numeramento, senso numérico, sentido de número...

Considerando que uma das funções da linguagem é organizar a compreensão do sujeito sobre o mundo, não é laborioso imaginar o que essa desarticulação linguística proporciona, tanto aos professores como aos estudantes.

E foi pensando nisso, que uma criança, com inspiração divina, propôs uma solução.

Tendo em vista  que a palavra alfabeto é uma referência às duas primeiras letras (alfa e beta) do conjunto das letras gregas, que originaram as latinas, ela resolveu nomear o conjunto dos algarismos indo-arábicos em deferência a esses povos.

Adotando como parâmetros o zero e nove, extremos desse conjunto com dez itens (0, 1, 2... 8, 9), e após um mergulho etimológico, associou o zero à sifr, árabe, que originou cifra e zero, e o nove a nava, sânscrito, uma língua da Índia, resultando dessa adição, pois, o vocábulo cifranava.

Depois disso, ficou fácil: diante daquela imprecisão — Sistema de Numeração Decimal — sugeriu a expressão Sistema Cifranávico, num paralelismo ao Sistema Alfabético, pois os numerais, os registros numéricos utilizam algarismos do Cifravana.

E, por fim, chamou de Cifranavização o processo no qual as pessoas aprendem a utilizar o Sistema Cifranávico, incluindo naquele as operações fundamentais.

Estupefata com seu folguedo, tentou partilhá-lo nos espaços apropriados, mas sua sugestão não foi valorizada pelos sábios, afinal ela era coisa de infante e eles estavam preocupados com coisas mais importantes!

Outros adultos, contudo, o incentivaram a prosseguir, mesmo que, muitas vezes, sem entender bem do que ela falava.

Resoluta, decidiu ir adiante e continuou a bulir e a aperfeiçoar a sua criação, bem como a si mesma.

Depois de muitos meses do seu lampejo inicial, ela a propagou.

Quer conhecer um pouco mais essa peripécia? Clique aqui.


[Pintura rupestre na Serra das Paridas, município de Lençóis - Bahia]
[Foto de minha autoria. Outubro/2015]
[Crônica dedicada ao meu irmão José, que não conheci, morto com um dia de vida, que, se vivo fosse, faria hoje 49 anos]

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

PSIU! SILÊNCIO >> Mariana Scherma

Medo de ficar sozinho é fato que muita gente tem. Eu tenho. Aquela história de passar a velhice sem ninguém e, em um dia, sair dessa pra melhor e só ser descoberto depois de uma semana por conta do cheiro. Não queria começar depressiva, mas talvez seja bom causar um impacto. O negócio é que ter medo da solidão, ok. Mas sentir medo do silêncio, ah, não. Eis um medo desnecessário. Mas aí vem você falar: não tenho medo do silêncio — nem conheço alguém que tenha. Será?

Vamos testar. Você está em uma fila, não conhece ninguém e começa a falar coisas aleatórias (tá calor, tá frio, e essa chuva, e o impeachment, tá tudo caro no supermercado...)? Ou você se senta na sala de espera de um médico e começa a ligar pra toda sua lista de contatos para tratar de assuntos nada importantes (sim, porque não dá pra ficar parado pensando na vida ou folheando uma revista de 2007, melhor é falar um monte sobre nada)? Você está no banheiro da academia tomando banho e começa a destilar seu rol de assuntos aleatórios para banheiro de academia (meu cabelo ressecou, cheiro bom do seu creme, acho que engordei mesmo malhando...)? Vou encarar uma resposta sim como medo do silêncio, duas ou três respostas sim seriam pânico de silêncio, mas não é nada científico, tá? Só necessário para o desenvolvimento desse texto.

Acredito que a gente funciona melhor no silêncio. As melhores ideias vêm do nada e no quietinho do dia ou da noite, mas falo por mim. Sei trabalhar com música e tevê ligados, mas às vezes foco no assunto ou letra da canção e não desenvolvo como pretendia. Gosto de caminhar sem música pra ir tendo flashes de coisas novas. O silêncio funciona como um espaço que você pode preencher. Uma página em branco no meio de um mundo tão rabiscado. Aí o conteúdo de depende de você: ideias, pensamentos nunca antes imaginados, novidades ou tá frio, tá calor, que chuva, caramba. Na fila pra entrar na piscina, uma senhora atrás de mim só fala mesmices: preguiça de acordar cedo, e se a água estiver gelada, e se... Pode parecer sem educação da minha parte, mas parei de responder bobagens.

Hoje, são cada vez mais raros esses momentos em paz com você mesmo. São tantas redes sociais e opiniões rasas que silêncio virou ouro cravejado de diamante.

Já trabalhei de fone de ouvido sem nenhum som ligado várias vezes, só pra abstrair de todo mundo. Meus momentos de silêncio me fazem feliz e me inspiram. E você, já pensou na sua relação com o mute ligado?

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

DISTRAÇÕES | 3 DE 3 | ELES >> Carla Dias >>



DISTRAÇÕES | 1 DE 3 | ELE 

DISTRAÇÕES | 2 DE 3 | ELA


ELE | Sentado na cama de quarto de hotel, olhando para o chão, a respiração revelando o ritmo de quem se perdeu no caminho. A mãe tem dito, sempre que o filho dá sinais de cansaço, que acontece sim de as escolhas nos escolherem. Que pensar que somos donos de todas as escolhas que fazemos é renegar as influências que sofremos a cada dia. Elas nem sempre cabem no nosso desejo por sim. Acontece de sermos contra ao que nos acontece, apesar de serem resultado das nossas escolhas.

Ele não escolheu ser esse homem sentado em cama de quarto de hotel, sofrendo de taquicardia, porque tem crises de pânico a cada palestra. Aliás, como chegou até aqui? Seu pai, se fosse vivo, diria que ele pegou a sua capacidade de ser falastrão na sala de estar de casa e levou para os palcos do mundo. O que ele não sabia, era do quão difícil seria olhar nos olhos de tantos e ao mesmo tempo. E ter de escutar suas histórias, algumas impossíveis de se imaginar como personagem. E de quando engoliria o choro, porque seria péssimo desmoronar, enquanto uma pessoa conta a ele como sobreviveu a todos os sentidos da miséria.

Sente-se traidor de algo bom, esse algo bom que não acontece na vida de uma pessoa só porque ela desejou e trabalhou para isso. O universo, assim como os políticos, os líderes de todas as vertentes, o povo e os artistas teriam de estar alinhados para abençoarem e colaborarem em seu benefício.

É raro o que ele tem. Ainda assim, só consegue pensar que fez o que tinha de ser feito, nada mais. Alimentou quem tinha fome, fosse de comida, fosse de atenção, fosse de companhia. Não é isso que um ser humano deve fazer? Seus pais disseram que sim e ele acreditou nisso.

Agora, é essa pessoa que nem sempre se reconhece no espelho, que passa noites longas em quartos de hotel de tantas estrelas que ele não se importa em contar, que fala para milhares, milhões quando ao vivo na televisão, e, de acordo com muitas delas, inspira mudanças essenciais em suas vidas.

Ele se sente bem em saber que há quem se beneficie de forma positiva de quem ele é. Porém, não acredita que caiba aí todos os adjetivos que usam para descrevê-lo. Como diz seu assistente: 90% de aceitação e 10% de rejeição é muito, mas muito bom.

Não para ele.

Apesar de apreciar as conversas que têm com pessoas interessantes, e de como se sente vivo ao falar sobre o que acredita, acha que faz mais mal do que bem a todos que enchem auditórios, assistem seus programas ou leem seus livros paridos ao modo ghost writer. Porque, depois dessa iluminação que eles alegam ter por meio da vida e obra dele, eles param. Torna-se tão confortável sentir esse contentamento, que feito uma droga, as pessoas se permitem distrair pelo raso de tudo o que ele acredita. Elas se distraem e se distanciam do que de fato importa.

Ele nunca apreciou distrações.

ELA | Há mais de hora que está assim, observando paisagem. Sentada em um banco de praça, olhar zanzando pelo restaurante, onde algumas pessoas que conheceu, com quem trabalhou, que alegaram com veemência que ela era a mulher mais interessante que já conheceram, que confiavam nela, que a respeitavam, fiam-se em invencionices para colocá-la no lugar.

Lá está o mestre de cerimônias de tal espetáculo de demonstração de poder e desrespeito. De desafeto, ela ousa considerar. O pai continua a tentar qualificá-la como incapaz de gerir seu próprio dinheiro. Ele se sentiu tão ofendido com a atitude dela, que vem alimentando esse desejo de dar o troco, de tirar dela a capacidade de ser quem se tornou. Enquanto enche a barriga daqueles advogados brilhantes, que ganham uma fortuna para fazer seus planos funcionarem.

Sente uma tristeza imensa por ele preferir se privar de um amor tão sincero quanto o dela a aceitar que ela descobriu que passou muito tempo distraída com a vida, em vez de vivê-la. E por ser amor, ser sincero, ser desde sempre, ela não se curva ao mau uso do sentimento.

Sendo assim, hoje ela ama seu pai do banco da praça. Quem sabe, dia desses, volta a ser amor cabendo em um abraço.

Acontece que ela é não é desiquilibrada como seu pai atesta, e isso o tem deixado bem desiquilibrado. Pode estar na fase de cometer inconsequências mais voluptuosas, de elucidar excentricidades, de amainar a agudez de sua afiada ambição. Ainda assim, nunca se sentiu mais sã, presente e útil do que agora.

Sã porque sua mente está livre de estratégias. Elas são úteis e necessárias, mas não devem dominar a vida de uma pessoa. É preciso criar espaço para a espontaneidade, para o risco não calculado, para o atirar-se. Presente porque há até mesmo partes de seu corpo que ela não se lembrava de sentir. Ainda pela manhã, passou algum tempo tocando o próprio rosto, mas não daquele jeito de quem tem de se maquiar com perfeição em cinco segundos e estar em uma reunião de negócios, que definirá o destino de muitos, em dez. Foi livre de urgência, com a languidez de quem se reconhece, e se questiona sobre a falta daquela linha delineada pelo sorriso. Útil porque se desapegou da grandiosidade à qual dedicava sua vida. Tudo era superlativo em sua existência, inclusive as diárias de hotel e chá preto.

Chá preto!

Hoje ela consegue pensar sobre o que a levou a desfrutar disso, sem se debruçar em resposta pronta: porque você pode. Descobriu, assim, em um engasgo, distraída da verdade absoluta que protagonizava, que tinha um tudo que não a agradava. Que tudo não é sinônimo de contentamento. Que sem o mínimo de contentamento, a pessoa desfalece internamente, coloca mágoa, dor, desalento, e mais uma série de palavras bonitas, que nasceram para dizer sentimentos feios, no vocabulário de sua rotina. Desaprende a alegria.

Distrair-se é fácil. Ela pensou que gostasse da distração, daquela fuga que praticava durante as longas e complexas reuniões, e que nunca a prejudicaram, porque ela conhecia o jogo muito bem. Crescera a jogá-lo. Pequenas distrações, como pausas que o departamento pessoal jamais ofereceria, porque a empresa tinha de atingir metas, vencer obstáculos.

Só que distração desse naipe não é somente fuga, mas também encarceramento. Deixa-se ali, no meio do palco da vida, o cadáver do desejo que em nada tem a ver com conquistas catárticas, das que chegam às lufadas de vento e tempestades e mudam tudo. Trata-se dos pequenos e transgressores desejos, daqueles que rezam outra reza, que cavoucam segredos infligidos, que começam hoje a pincelar o daqui a pouco.

Levanta-se e caminha para longe do restaurante. Seu pai continuará a tentar interná-la em uma clínica, porque nunca soube dar bronca. Talvez, se ele tivesse passado mais tempo a compreender quem colocou no mundo, estivessem almoçando juntos ali.

Não quer mais se apegar ao que o outro poderia fazer de si por conta de quem ela é. Passou a exercer o direito de fazer nada na conta de quem o outro é. Viver não é fácil, mas nem por isso, menos valioso, casto de prazer e aprendizado. Há o que descobrir, coisas e pessoas das quais ela se distraiu, e por muito tempo. Há ideias tão diferentes e ousadas em sua cabeça. Há vazios em seu espírito, que ainda não sabe se poderá preencher.

Há distrações que ela descobriu, depois de muita contemplação, que não são distrações, mas deslumbramento, daquele que amplifica a capacidade de viver da vida o que for. Hotel tantas estrelas ou estação de metrô.

Ele e Ela nunca se encontrarão. Um mora aqui, o outro tão para lá, que é um tanto improvável. Não é apenas a geografia que os separa, que isso uma companhia aérea resolveria fácil. Os médiuns dizem que eles nasceram onde nasceram para lá permanecerem, que são lugares que precisam de pessoas que compreendam a importância de acordar de certas distrações. E eles são peritos nisso. Não importa o quão difícil seja.
Os escritores preveem um futuro digno de romance adaptado para o cinema, tamanha a comoção que causará o encontro dessas pessoas. Estão certos de que os diálogos sobre as experiências que passaram serão dos mais significativos.

As bruxas, ah, as bruxas são sempre tão atrevidas. Para elas, se não for nessa vida, será na outra. É inevitável, ainda que todos os encantamentos não sejam capazes de colocar esses dois no mesmo lugar hoje. O futuro bendirá esse feito.

Mas posso garantir: Ele e Ela não se encontrarão. Só resta saber de quem é a culpa por essa distração.

Imagem: Imagem: Dispar © Francis Picabia

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segunda-feira, 9 de maio de 2016

A SALVADORA DANÇA ACROBÁTICA >> André Ferrer

Joaquim catava material reciclável nas ruas. Há dois meses, ainda era o Mickey. Depois, as coisas mudaram, conforme ele tentava explicar para o senhorio, que também administrava a Lancheria Satisfaction.

"Garçom. Posso trabalhar aqui em troca do aluguel."

Do outro lado da rua, doze jovens aguardavam numa fila. Vinte e quatro pés equilibrados numa tira de sombra. Às três da tarde, o sol não perdoava.

O dono da Satisfaction coçou o queixo.

"Queira me desculpar", disse o homem. "Dois meses de atraso. Eu sinto muito, Quim."

O ex-Mickey assentiu.

"Tudo bem. Assim que arrumar o dinheiro, pago."

"É como eu disse: você pode pagar quando puder. Apenas, agora, preciso do lugar desocupado."

Joaquim sinalizou com o polegar e caminhou até a porta. Rubens, o ex-patrão, naquele exato momento, dava as caras do outro lado da rua. Como um pastor, apascentou metade dos candidatos até a entrada do seu escritório. Os outros ainda lá fora. Imediatamente, ouviu-se música alta. Os candidatos a Homem-Aranha e Capitão América testaram a coreografia. Todos equilibrados na estreita sombra desenhada no chão.

O velho Quim deu de ombros. Voltou-se para o interior da lanchonete onde o proprietário trabalhava atrás do balcão. Por um segundo, Joaquim teve a impressão de que ele observava, compadecido, aquele momento definitivo do seu drama.

Nas duas peças, que ficavam em cima da Satisfaction, ele tratou de arrumar os poucos pertences. Abriu o armário. Dobrou as três trocas limpas. De cima do móvel, tirou a mala empoeirada. Na face interna da porta do armário, Mickey Mouse — ou, pelo menos, o seu corpo murcho e, como sempre, incapaz de realizar a salvadora dança acrobática — pendia, morto, decapitado. A cabeça estava embaixo da pia, no outro cômodo, mistura de sala e cozinha.

Quando terminou de arrumar a mala, enfiou Mickey Mouse num saco de lixo. A cabeçorra dificultou a amarração. Depois, Joaquim desceu a escada, jogou o saco num tambor e, surpreso, descobriu que, do outro lado da rua, a calçada estava deserta e a música havia parado. Com toda a certeza, a equipe de Rubens já se renovara.

"Boa sorte", fez o dono da Lancheria Satisfaction no momento em que pegava as chaves.

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sábado, 7 de maio de 2016

A MORTE >> Sergio Geia




A morte andou a me espiar. Primeiro na padaria. Cheguei, sentei na única mesa vazia, uma mesa de canto, escura, apertada, chamei a mocinha. Estranhei o movimento. Frequento a padaria regularmente e nunca esteve tão cheia. Sempre encontro mesas vazias, tranquilidade, ou mesmo o balcão, que bem me serve. Naquele dia, porém, não. Tudo tomado. A mocinha que sempre me atende veio como a notícia: “É o velório”, ao que prontamente respondi: “Ah, sim, o velório. Que Deus o tenha”. Havia um morto a me atrapalhar o café. A família, que de morta não tem nada, tratou de encher a barriga.

No dia seguinte, de novo na padaria. Em outra, agora, na Praça Felix Guisard. Não estranhe, honrado leitor, não estranhe. Sou assim mesmo: um frequentador de padarias. Em alguns dias, tomo café aqui em casa; porém, na maior parte deles, saio pra caminhar e encerro na padaria. Muitos ralham: “de que adianta caminhar?”; porém, nada sabem. Tudo é questão de comedimento. Sejas comedido e terás o mundo. Não mergulho no rio de guloseimas. Tomo o meu café, simples, como um boi no pasto.

Pois estava quase a levantar para tomar rumo quando sou surpreendido pelo funeral: o passar de um luxuoso automóvel branco com adesivo de funerária, levando consigo mais um morto para a morada eterna. Seleto grupo de automóveis, carregado de familiares e amigos enlutados, formava o comboio que seguia hirto a marcha fúnebre rumo ao cemitério, com a lentidão que exige a cerimônia.

De volta pra casa, fazendo o balanço da jornada, concluí que a morte me espia. Uma conclusão óbvia. Se você for como eu, que lê as sutilezas da existência, vai concordar. Já vi de tudo nessa vida, inclusive morte. Já vi a morte morrida e a morte matada. A sorrateira, a cruel, a torpe, a inesperada, a lenta, a rápida, a natural. Mas não sabia que ela era dada a espionagens. Talvez espie. Talvez sempre espiou. Talvez muitos de nossos mortos estiveram sob seu olhar minucioso e cruel antes de encontrá-la. Não perceberam. Aliás, ninguém percebe. Eram vivos distraídos, abobalhados, agitados, que no outono não percebiam as folhas que escorregavam dos ipês; não perceberiam os sinais da morte. Tornaram-se mortos, e mortos complacentes e satisfeitos.

De outra sorte, digo que eu, atento aos sinais da vida, percebi. E reputo a essa fina percepção o alargamento de meus dias. Os motivos, desconheço; mas desconfio. De repente, contrariada por ter sido descoberta, ela tenha me deixado à margem e procurado outra vítima, digamos, mais distraída; um simples caso de orgulho ferido. Não sei. Talvez até seja arrogância de minha parte tecer tais considerações. Não era candidato e ponto. Foram meras coincidências. Tanto que cá estou, tempos depois do ocorrido, contando ao estimado amigo as intercorrências da morte. Mas afirmo que arrogância não é, de jeito nenhum. Sou temente, medroso, desconfiado e desejoso que ela me esqueça. Pelo menos, que me conceda mais tempo para escrever banalidades. E amar. A vida é cheia de banalidades e amor. As crônicas também. E esse honrado homem do Senhor e humilde cronista ainda guarda apetite para muita produção. E derivativos.

Mas confesso (que a morte não nos ouça) que no terceiro dia, após a minha caminhada matinal, preferi o café aqui mesmo, em casa. Cautela e caldo de galinha não prejudicam ninguém, embora cônscio de que não seriam os muros do Santorini que me protegeriam de suas garras. Mas cá estou (por enquanto). E é isso o que importa.

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sexta-feira, 6 de maio de 2016

O JARDIM MALDITO >> Zoraya Cesar

Combinamos, minha prima e eu, de nos isolarmos de tudo e de todos, num derradeiro e desesperado esforço para passarmos em nossas provas finais para a magistratura.  

Foi assim que alugamos uma casa no cimo da serra, na qual chegamos depois de rodar por horas em uma estrada de terra meio barrenta e movediça. À medida em que nos aproximávamos do local, desapareciam as casas, os pastos, as plantações e as almas vivas, até que, nos últimos quilômetros, só havia matagal e sombras.

Chegamos nessa hora, a hora das sombras, quando o Sol recolhe apressadamente seus últimos raios, como se ameaçado estivesse a dar logo espaço à noite faminta. 

Acendemos os faróis para enxergar o portão, de madeira leve e apodrecida. Ao empurrá-lo, minha prima escorregou, caiu de joelhos e xingou alto. Sua voz espraiou-se pelo ar parado, qual asas negras de corvo, e quebrou o silêncio de maneira tão abrupta, que me arrepiei toda. 

Iluminada pelos faróis do carro, a casa assemelhava-se a uma velha de olhos vazados e boca escancarada, com suas janelas e porta pintadas de preto. Sua pintura estava descascada e os degraus do alpendre gemiam sob nossos pés. Tive vontade de sair correndo; minha prima, no entanto, não era chegada a frescuras, por isso, engoli minhas impressões e calei-me.

Entramos. 

Meus medos bobos se desvaneceram. Por dentro, a casa era limpa e bem conservada. Cozinha e sala formavam uma peça única, na qual havia uma mesa grande o suficiente para nós duas estudarmos. No quarto, duas camas, banheiro e uma porta, que dava para a garagem. Deveras estranho, mas nos servia. 

Arrumamos nossas coisas, comemos e fomos deitar, exaustas. Antes de dormir, olhei para fora: sob a luz baça da lua, duas estátuas - um anão e um querubim - se encaravam. Estavam distantes da janela, mas, ao vê-las, um mal-estar quase ancestral tomou conta de mim. Não dormi. Passei a noite ouvindo os profundos roncos de minha prima e ruídos vindos de fora que não soube identificar.

No dia seguinte, minha prima, mais disciplinada que um hussardo, mergulhou nos livros. Insone e irritadiça, não consegui estudar. Resolvi sair e queimar meus medos sob a luz do Sol. 

Aquilo lá fora não merecia o nome de ‘jardim’. Era um terreno árido e abandonado, que mais se assemelhava a um cenário de guerras há muito lutadas, há muito perdidas. Troncos cortados e queimados estavam largados desordenadamente; monturos de objetos velhos e quebrados; um caramanchão aos pedaços, terra seca, infértil. Ruínas. Desolação. E as estátuas.

De pedra, ambas, e também sofridas pela exposição ao tempo – em seus corpos viam-se fraturas, rachaduras, pedaços perdidos. O querubim era tão soturno quanto aquelas figuras de cemitério: branco marmóreo, o olho que lhe faltava e a fenda em seus lábios davam-lhe um ar leporino e feroz. Levantava uma espada, cuja lâmina estava trincada. O anão em nada lembrava os da Branca de Neve; seu rosto contraía-se num esgar rancoroso e cruel. Em suas mãos, não um pote de ouro, mas um machado que, Deus me ajude, tinha uma mancha que parecia de sangue.

Não sei por que fiz o que fiz, mas  – depois de muita labuta e suor, pois ela era pesada – virei a estátua do anão de lado, para que ficasse de frente para a casa. Pronto, pensei, brincando, agora vocês não vão mais brigar. 

À noite, porém, ao ver, pela janela, o anão olhando em nossa direção, senti-me tão mal que quase vomitei, de pura angústia. Tive a vontade, mas não a coragem, de sair e virá-lo novamente. Minha prima, muito prática, nem tomou conhecimento de meus medos inexplicáveis e disse que eu deveria tomar um calmante. 

Enquanto ela, como sempre, dormia mais pesadamente que um porco, eu permaneci acordada, os olhos esbugalhados. Tinha a íntima certeza que, se dormisse, algo horrível iria acontecer. 

Dessa vez, distingui os ruídos lá fora: gritos abafados, pisadas fortes, entrechoques de materiais diversos, como metal, madeira, rocha. Passei a noite estática, mal respirava, que dirá levantar para ver o que estava acontecendo. Quando amanheceu, olhei pela janela e, Deus de Bondade, tanto o anão quanto o querubim estavam nitidamente mais perto da casa e eu devia estar ficando louca, pois poderia jurar que seus braços estavam em posições diferentes de quando vira as estátuas no dia anterior.

Contei tudo para minha prima, que sem tirar os olhos dos livros, disse para eu parar de bobagens e começar a estudar. 

Aproveitei a luz do dia, e desvirei o anão (mais pesado que antes!), colocando-o de novo frente a frente com o querubim. Eles que se matassem, pensei. Quando terminei, percebi, juro, que eles me olhavam com ódio. Voltei para a casa e de lá não mais saí. Mecanicamente, sem pensar no porquê, arrumei nossas malas e as coloquei no carro, enquanto minha prima, concentradíssima, estudava.  

Depois de duas noites sem dormir, o cansaço me venceu. Adormeci e sonhei com os ruídos da noite anterior, bem mais altos, próximos e vívidos. Comecei a me debater, assustada, sentindo  solavancos tão fortes que acordei.

Era minha prima quem me sacudia, chorando e gritando que ‘eles’ já estavam chegando no alpendre... Os berros e canglores lá fora estavam tão altos, que não admira até ela ter acordado. O que foi a nossa sorte. Corremos para o carro. Antes de chegar ao portão, olhei pelo retrovisor. A casa estava às escuras, mas a luz das estrelas me permitiu ver a porta da frente arrombada e sombras dentro da casa. A estátua do querubim estava caída junto ao batente e a do anão tinha sumido. Minha prima chorava ao meu lado.

Passei direto pelo portão, quebrando sua madeira podre, e acelerei sem mais olhar para trás. Sabia, no meu íntimo, com toda a certeza, que, se continuasse olhando, jamais escaparíamos de lá.




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quinta-feira, 5 de maio de 2016

A FOFA>> Analu Faria

Detesto ser chamada de “fofa”. Eu sei que a maioria das pessoas diz isso para elogiar. Vá lá: ser fofa é um elogio. O problema é que toda vez que alguém me diz que sou fofa, imagino que a pessoa que me elogiou me vê como uma bola fofa de algodão doce ou como aquele bonequinho da Michelin. É engraçadinho, divertidinho, docinho, tudo inho. Na sociedade capitalista, ser chamada de fofa é mal sinal.

Não consigo evitar. Não posso “desouvir” o “ai, que fofa!” direcionado a mim. Mais ainda: aparentemente, não consigo evitar um quê de fofura em muito do que faço. É claro que tenho um lado que às vezes dá um coice aqui, outro lá, mas estes são raros. O que me sai pelos poros mesmo é esse irritante vomitar de arco-íris, um troço perene, grudado à alma.

Como nesta vida quem tem um megafone para o ego é rei, os “fofos” como eu geralmente são vistos como “inhos” mesmo. Em áreas em que é preciso dinamismo e atitudes fortes, precisamos provar nosso valor dez vezes mais que a categoria dos humanos não-fofos. Também somos vistos com desconfiança, porque quem neste mundo fica tentando te ajudar à toa? Quem fica fazendo pequenos favores a quem quer que seja possível fazer favores? Não existe almoço grátis, não é mesmo?

Além disso, todo fofo é um pouco tímido e sobre as agruras de ser tímida não vou nem me alongar, só relembro ao leitor o que provavelmente já ouviu: uma pessoa tímida não aproveita as oportunidades, é confundida com alguém pedante, é ansiosa, parece insegura etc..

Então, você aí que está lendo, pode me fazer um favorzinho e, quando quiser dizer que sou bacana, me diz aí que eu sou adorável, formidável, sensacional, especial, mais que demais, super, massa, show, lindinha… pode até dizer que eu sou “top” (arrrgggghhhhh), mas não me chama de “fofa” não, por favor!

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quarta-feira, 4 de maio de 2016

DISTRAÇÕES | 2 DE 3 | ELA >> Carla Dias >>

DISTRAÇÕES | 1 DE 3 | ELE



Muito acontece ao seu redor. Nada tem realmente a ver com ela. Tudo a influencia, pouco lhe cabe.

Sacode o casaco, que pela manhã era inverno, mas agora: verão.

As pessoas a observam, talvez por ela atrapalhar a passagem, o que desperta efêmera curiosidade. Alguns comentarão a respeito com os colegas de trabalho: que doida! Naquele chão imundo! Como se tivessem presenciado o mais profano dos pecados.

Ela acredita que alguns pecados fazem bem à saúde.

A irmã anda inconformada. Suplicou para que ela se consultasse com um psiquiatra bem-apessoado, rico e, de quebra, ótimo profissional. Ela declinou, com toda amabilidade, alegando que psiquiatra é o tipo de bom-partido que ela própria prefere escolher, já que será para seu usufruto, e ela que pagará a conta.

Até há pouco tempo, sua vida era alinhada com as expectativas da família e da sociedade. Isso fazia bem à família e à sociedade. Comportava-se com elegância, até mesmo em situações absurdas, que as revistas adoravam incluí-la em seus artigos, utilizando-se de manchetes que, muitas vezes, contradiziam a lógica da Língua Portuguesa. Isso não a aborrecia. A vírgula mal-empregada, essa sim era capaz de arruinar seu dia, pelo poder que tem de mudar tudo na vida de uma pessoa que não pediu para ser alvo da pontuação — e da falta de noção — de estranhos.

A mudança começou quando conversava com um de seus funcionários. Ele cometera um erro crasso, que custara um montante substancioso ao caixa da empresa. Os empregados estavam apavorados, carregando no semblante o peso de tal cometimento, sussurrando indelicadezas ao funcionário em questão e lamentos a si mesmos. Prometendo serem mais exigentes com o culpado da vez, transformarem a vida dele em um inferno, para que ele pagasse a conta desse incômodo coletivo ao qual o dito arrastou a todos.

Afinal, ele estragou a camaradagem da hora do cafezinho.

Ela assistiu a tudo, o olhar distraído com o amarrotado da camisa do funcionário execrado, que passara a noite no sofá do escritório, alternando infelicidade com desespero e consumindo energético. O rapaz, jovem e inexperiente, faltou ajoelhar-se, durante sua aceitação de culpa, enquanto silentes diretores, chefes com currículos invejáveis, observavam a cena, como se não tivessem nada a ver com isso.

Ela acreditava que sim, eles tinham.

Eles achavam que aquele jovem e inexperiente profissional deveria carregar a culpa pela indiferença deles em compreender que ele ainda não era capaz de arcar com tal responsabilidade. Ele precisou aceitar o trabalho, mas eles não precisavam delegar tal função a ele. Estavam preocupados com negócios mais rentáveis, viagens requintadas, que aquele projeto para saciar sede de consumidor pelo politicamente correto era um engodo, uma enfadonha realização.

Sua vontade era imperativa naquela empresa, que por mais de década, ela só fez melhorar o serviço e, consequentemente, o faturamento.  O pai tinha por ela um orgulho de vitrine: dizia a todos como se orgulhava da filha, menos a ela.

Credita o acontecimento ao momento em que se distraiu com a camisa amarrotada do jovem funcionário. Enquanto ele se defendia, já ciente que sua punição seria a rua, ela imaginava como seria a vida dele. Será que ele mesmo passava suas camisas? Seria sua mãe, sua esposa? Haveria pessoas na vida dele capazes de amenizar o caos que ele enfrentaria, no final do expediente?

Distraiu-se da vida pronta e se pegou curiosa a respeito de todo o resto.

Aquele foi seu último dia de trabalho. Porém, antes de se demitir, ela tomou decisões impossíveis de serem desfeitas, mesmo ela não trabalhando mais na empresa. Assim, o funcionário do prejuízo milionário foi inscrito em um programa de treinamento para que, em poucos meses, pudesse se tornar diretor exclusivo do projeto social que sofreu com suas decisões. Ela também fez com que todos os funcionários assistissem a uma palestra com um filósofo do qual ela gostava muito, na tentativa de que, eventualmente, entendessem que, colocar-se em primeiro plano é saudável, contanto que isso não envergonhe, martirize, prejudique o outro. Para finalizar, demitiu a equipe de silentes gerentes.

O pai já quis interná-la, algumas vezes. Acredita que ela enlouqueceu, mas não há médico que ateste isso. Ela nunca esteve tão sã, tão inteira. O jovem funcionário está empolgado com o programa de treinamento. Ele contou a ela o que planeja modificar quando for responsável pelo projeto social, enquanto tomavam café na padaria da esquina da empresa. E sim, ele mesmo passa suas camisas, não seu esposo.

A irmã lamenta que ela esteja tão descompensada. O pai diz que não tem mais aquela filha, que ela morreu e foi enterrada em outro país. A mãe, bom, essa nunca prestou muita atenção nela mesmo. Mas o que importa é o que ela tem a dizer sobre si, e que, agora, ecoa tão diferente. Muito mais profundo, intimamente conectado com o que acontece no mundo, além das fronteiras demarcadas por status e desejo herdado.

Um ou outro comentará com os colegas de trabalho, apenas para aquecer bate-papo da hora do café, que viu essa mulher louca, nojenta, deitada na calçada, atrapalhando o trafego de pedestres. Dirá que até que ela não estava assim tão malvestida, suas roupas nem estavam sujas, e parecia que tinha lavado os cabelos ainda há pouco. Haverá uma série de comentários a respeito de como o ser humano está em declínio, a vida difícil, um horror!

Distraídos com detalhes aos quais escolheram se agarrar, deixarão passar o mais interessante da história dela.

Naquela tarde, ela caminhou pela cidade, desprovida de conhecimento sobre sua geografia, que nunca saiu de casa sem chofer, nunca precisou prestar atenção ao caminho. Caminhou durante horas, o coração repleto de novidades. Era como se fosse a primeira vez que saia para um passeio. Tudo a afetava: cores, cheiros, cabelos, roupas, trejeitos, palavras, a cadência dos passos.

Em êxtase, despida da distração que a mantinha engaiolada pelo permitido e delimitado, ela se deitou na calçada para observar o céu cinza. Tivessem lhe perguntando o que fazia, em vez de tecerem teorias a respeito, ela diria: estou sendo tocada pelo mundo.  

Imagem: Salomé © Francis Picabia

carladias.com




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