sábado, 30 de abril de 2016

ENTRE PALAVRAS E CAFÉS — para Márcio Arthoni
>> Cristiana Moura



Ele não dispensa um café. Essa pausa em meio à tarde e aos afazeres. Para os dias de mente inquieta tecida de perguntas aguardamos as respostas do café. Um gole, uma respiração, um pensamento vão ou não. Vez por outra me pego num sorriso que nem sei do quê. Nasce no segundo seguinte ao café escorregar entre a saliva e o céu da boca aquecendo o corpo no dia que já é quente.

Um expresso simples, um café com tapioca, um livro. Esse é lugar onde pensamento e sentimento são um só. Que assim seja. Mas há noites em que seu café dá lugar a um vinho com poesia. O aroma e as notas das uvas fermentadas parecem lhe acordar as palavras das sensações. Para mim, vinho e noite por vezes têm gosto de solidão. Para ele não. Se for solidão é logo acompanhada do tal vinho, de queijos, e do poema nascido ali, fruto da orgia dos sabores e das mãos que escrevem: "Metade sozinha é sempre metade. Faz lembrar de um todo, Faz pensar em algo que a metade não é. Então, existiria a metade?"

Eu, de fato, não o conheço. Apenas tenho notícias cotidianas sobre pensamentos, posicionamentos políticos, palavras e cafés. Assim um tanto de pessoas que, via redes sociais, conheço pela metade. Existiria a metade? Bem, não sei ao certo quem é, mas sei que, como eu, não dispensa um café e o momento em que o tempo cessa café-corpo-a-dentro.

Ainda ontem soube que ele tomava um café com "as lembranças do que ainda vai acontecer".

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sexta-feira, 29 de abril de 2016

LAVANDO AS LETRAS >> Paulo Meireles Barguil

Na crônica passada, discorri sobre a relação entre a felicidade masculina e o ato de lavar louças.
 
As manifestações advindas da leitura da mesma foram surpreendentes, seja pela quantidade, seja pela patia.

No que se refere ao primeiro aspecto, recebemos, eu e o Editor Chefe, dezenas de e-mails, com conteúdos bastante antagônicos.

Em relação ao segundo aspecto, elas se dividiram entre os indivíduos contrários e as pessoas favoráveis ao seu conteúdo.

Aqueles, além questionarem as pesquisas citadas — quantidade de sujeitos e de louças lavadas, período de observação, quantidade de sujeira das louças, temperatura da cozinha, cheiro do sabão, uso ou não de luvas... — sugeriram que eu voltasse à pia e me afastasse do teclado.

Aquelas, por sua vez, foram unânimes em elogiar a minha coragem de abordar uma temática tão sensível ao cotidiano familiar e pediram para que eu também escrevesse sobre a lavagem de roupas, bem como sobre a limpeza e a organização da casa.

Para aqueles, declaro, surpreso, que eu escrevi apenas uma crônica — não uma Lei, nem o 11º mandamento, quiçá uma fábula — e que ignorava que tal palavra expressasse a situação de vocês, mormente os casados.

Para aquelas, sugiro que solicitem ao celebrante do casamento ou quando da renovação dos respectivos votos — Prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel em todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe — a inclusão no juramento, depois de tristeza, de "na limpeza e na sujeira, na organização e na bagunça,".

Aceito, por fim, humildemente, a determinação do Editor Chefe de inserir, doravante, no final das minhas crônicas a explicação abaixo:

As opiniões desta crônica são de responsabilidade do cronista e não expressam, necessariamente, o entendimento do Crônica do Dia.


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quinta-feira, 28 de abril de 2016

INSPIRAÇÃO REAL >> Mariana Scherma

No meu caminho de toda manhã — manhã bem cedo vale ressaltar — passo pela casa de um casal que acorda mais cedo que eu. Ele vai trabalhar e ela fica no abre e fecha de portão, mas o tchau não vem antes de um beijo apaixonado, desses bem dados, logo cedinho. Confesso que quando passo por eles ainda estou em semi-sonolência, mas acordo com essa cena. Eles não me conhecem, não sabem meu nome, nem eu o deles, mas ela já me cumprimenta com o maior sorrisão. Acho que o amor é combustível necessário para o bom humor.

Quando comecei a reparar no casal, estava calor e, vamos combinar, não é nenhuma grande dificuldade abrir o portão e tomar um ventinho fresco da manhã, certo? Mas ontem estava chovendo e ela estava lá de guarda-chuva. Mesmo sorriso. Mesmo beijo bem dado no marido. Mesmo cumprimento simpático pra mim. Mas hoje foi a prova de amor cabal: estava frio. Aquele frio que faz a gente querer mais cinco ou dez minutos de edredom e aconchego. Aquele frio que gera desculpas do trânsito ao despertador. Mas ela estava lá de casacão e mão no portão. Ah, sim, e sorrisão. E beijão no marido. E desculpa pelo excesso de ão.

Tenho vontade de fazer várias perguntas: juntos há quanto tempo? Você nunca deixa de abrir o portão? Quando vocês se conheceram? Foi amor à primeira vista? Quem tomou a iniciativa? Vocês já brigaram? Você abriria o portão mesmo depois de uma briga? Vocês têm filhos? Sei lá, um monte de perguntas, mas a maior resposta é o sorriso dela e dele, ao ir trabalhar. Um sorriso desses não tem a ver com coisa ruim, tem a ver com fazer a própria história, regar a relação com boas atitudes no dia a dia e essas coisas. Esses dois sabem da sorte que foi terem se encontrado nesse mundo abarrotado de gente que não sabe valorizar o sentimento. Serve de inspiração pra mim.

Obrigada, casal. Vocês me ensinaram que a rotina é uma beleza. E o amor é simples e necessário em cada momento do dia.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

DISTRAÇÕES | 1 DE 3 | ELE >> Carla Dias >>


Mundo é vastidão além da sua compreensão. Por que pediram que falasse sobre sua visão do mundo, quando ele vive há trinta e sete anos na mesma cidade? Claro, conhece outros lugares, já saiu de férias algumas vezes.  Mas MUNDO? Como escrever eloquentemente sobre um lugar que não se conhece inteiro e que, por onde se esteve, foi de passagem?

Lembra-se de estar de passagem por muitos lugares. Mais do que por lugares, por pessoas. Esteve de passagem pela vida de muitas pessoas. Nenhuma o fez sentir vontade de ficar. Para muitas, ele até conseguiu fazer algo positivo, banalidades que ganham importância quando se visita lugares onde a violência é amplificada pela pobreza. Fez algo de bom às pessoas que esperavam nada dele. Algo de bom que ele nem sabia que era algo de bom. Banalidades, como o dia em que caminhava pela praia, lugar belíssimo que servia de cenário para suas férias, que pagou em dez parcelas de mais dinheiros do que deveria gastar com prazer. Encontrou lá um menino e sentado na areia, de cara para o mar, ali pelos cinco anos de idade. Perguntou se ele estava perdido, e ele disse que estava cansado. Perguntou a ele do quê? O menino olhou para ele com olhar opaco: de fome. Pagou almoço para o menino, um lanche gigante, que o moleque engoliu numa tacada só. Daí, o olhar dele já não estava mais opaco. Daí, o menino sorriu e saiu correndo pela praia. Não estava mais cansado. Foi bonito vê-lo chutando areia.

Depois disso, ele deu de pagar comida pra tudo quanto é pessoa que dizia ter fome. Nem sempre era algo agradável, que nem todos são meninos como aquele da praia. Houve quem agradecesse, assim, com olhar marejado e bucho cheio. Houve quem menosprezasse o feito, como se ele estivesse fazendo nada mais que a obrigação. Houve quem, depois de bem servido, desse chute na canela dele, para pegar o dinheiro de sua carteira.

O que ele aprendeu é que, independente se pagava comida para quem não tinha como comprá-la ou para quem tinha, mas não gostava de gastar seus trocos, cada um reagia de uma forma. Será que isso tem a ver com o lugar no mundo de cada um ou o quê?

Não entende por que pediram para ele falar sobre o mundo. Ele não conhece o mundo, só algumas partes dele, não há como dizê-lo inteiro. Mas pessoas, aí sim, ele pode falar sobre algumas pelas quais passou. Mesmo que seja breve essa passagem, ele tem a capacidade e de sabê-las e repertório para falar sobre elas.

Pensar o mundo lhe custou noites de sono. Quem diria que sua decisão de alimentar pessoas o traria a este momento. Mas a verdade é que ele não se dedicou ao mundo, sabe que não conseguirá fazê-lo. Dedicou-se às pessoas que foi encontrando pelo caminho.

Para um auditório lotado e silencioso, ele fala sobre como tudo começou. Conta sobre o menino na praia e seu olhar opaco. Sobre como olhares opacos o deixam triste e vazio, feito o estômago das pessoas que alimentou. Confessa que não tem muito a dizer sobre o mundo, que tentar fazê-lo com propriedade seria ir contra o fato de que conhece pouco dele. Mas se quiserem saber, ele pode contar a história de cada uma das pessoas que alimentou, das que agradeceram e das que desdenharam do gesto.

Sabe que o que dizem por aí sobre ele ser um visionário. Acha tudo isso uma grande bobagem. Continua a passar pelas pessoas e isso é solitário. Seu sonho é um dia encontrar alguém que lhe peça para ficar. Alimentar quem precisa de alimento, se ele pode, por que não o faria? Se isso se tornou algo maior do que ele, ótimo. Se outras pessoas desejam seguir o exemplo, boa sorte para cada uma delas.

O que ele sabe é que o mundo é enorme, mas, às vezes, ele encolhe até caber na necessidade de quem está ao nosso lado, a quem podemos socorrer. Distrair-se com a grandiosidade é menosprezar as mudanças possíveis.

Aplaudido de pé, ele só consegue pensar que tentar explicar o mundo é uma distração. Falar sobre aqueles que ajudou diretamente é realização.

Distrações o inquietam.

Imagem © Francis Picabia

carladias.com

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terça-feira, 26 de abril de 2016

OS PINGOS E OS "IS" >> Clara Braga

Como de costume, ela acordou por volta das 6h com seu filho chamando.

Levantou, deu comida pro filho, deu banho, pegou os brinquedos dele e começaram a brincar.

Depois de um tempo foi olhar seu celular e conferir as redes sociais para ver o que estava rolando, e foi nesse momento que ela deu de cara com a notícia que deu o que falar: a bela recatada e do lar vice-primeira-dama. Ficou inconformada com a notícia, foi atrás daquelas fotos do último fim de semana, no qual ela saiu com as amigas para dançar usando aquele vestido justo e acima do joelho, depois procurou aquela outra na qual ela e outras duas amigas estão tomando cerveja em uma mesa de bar e usando um belo batom vermelho e postou com a legenda mais usada do dia: belas, recatadas e do lar.

Não tinha mais muito tempo para procurar outras fotos, tinha que terminar de arrumar a casa, passar roupa, fazer o almoço, dar almoço pro filho, vestir sua roupa até o joelho, deixar o filho com a avó e ir trabalhar.

Nesse momento, se sentindo a própria recatada e do lar, ela entendeu o que parecia ser óbvio mas não era: o problema não é ser bela, recatada, do lar, do bar, da noite ou de qualquer outro lugar. O problema é ser enquadrada em um só padrão e só esse padrão ser considerado bom, faça qualquer coisa fora dele então você não é boa o suficiente.

Para uns parece besteira, para outros é imperdoável, há ainda quem diga que é perda de tempo, mas no final não é difícil de entender, a ideia é simples: ser feliz sendo o que quiser, até bela, recatada e do lar.

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segunda-feira, 25 de abril de 2016

HERÓIS E NABABOS >> André Ferrer

O esporte que faz a cabeça de crianças e jovens, o nosso esporte nacional, tem os dois pés na malandragem. Exemplos contraindicados à formação cidadã fatalmente constituem a alma brasileira. Muito da nossa concepção de mundo fica, portanto, reduzida em termos de símbolos botequinescos.

O futebol e a sua cultura da malemolência ilustram os mais variados discursos, da sala de estar aos palanques oficiais. Tanta informalidade, assim, torna quase impossível não considerar o futebol como algo à parte nos Jogos Olímpicos.

Aliás, o que de fato maravilha nas Olimpíadas é a característica de alto rendimento presente em quase todas as modalidades. No meio de tantos milésimos de segundo, concentração e disciplina, o futebol parece mais um objeto estranho. Não há termos plausíveis de comparação e, neste aspecto, os jogadores de futebol são verdadeiros nababos ao lado dos atletas.

O primeiro medalhista dourado da natação brasileira está fora das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Uma segunda medalha de ouro até poderá surgir na piscina, mas não pelos braços de Cesar Cielo. Na última semana, logo depois da prova que o desclassificou, o nadador surgiu aos prantos na TV e na Internet.

Inevitavelmente, ele foi bombardeado com palavras de otimismo e incentivo. Nas suas vistosas bancadas ou nos rodapés dos noticiários digitais, um batalhão de comentaristas tratou logo de abraçar o nadador exatamente como está acostumado a abraçar jogadores de futebol em plena secura de gol. Todos equivocados. Cheios de boa intenção, mas equivocados. Não pelo ato em si, mas pela forma levemente despreocupada e até festiva empregada naquele discurso “bola pra frente”. Com certeza, uma das metáforas mais usadas neste botequim de dimensões continentais. Algo que todo infeliz dá lá o seu jeitinho de encaixar em qualquer contexto.

A grande sutileza, nisso tudo, está no fato de que, na vida de um atleta de alto rendimento, o próximo domingo no “Maraca” pode, eventualmente, não acontecer no próximo domingo, mas só dali a quatro anos. Tempo, muitas vezes, que supera os anos restantes para o fim de uma carreira. Desejar força para um atleta de alto rendimento é diferente de fazer o mesmo para um jogador de futebol.

Em termos gerais, a reação diante da desclassificação de Cielo — seja do público, seja de formadores de opinião — revela um grande engano brasileiro. Escancara os nossos equívocos, como nação, a respeito de esforço, prêmio e mérito.

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domingo, 24 de abril de 2016

ACHADO DE SI >> Eduardo Loureiro Jr.

Poema feito sobre crônica "Primas de Sapucaia!" de Machado de Assis. Para compor o poema foi usada a técnica de blackout, pintando um texto existente com um marcador preto e deixando visíveis algumas poucas palavras.



Você pode ler a crônica original de Machado de Assis neste fac-símile do jornal Gazeta de Notícias de 24 de outubro de 1883.



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sábado, 23 de abril de 2016

O SAXOFONISTA >> Sergio Geia




Era uma crônica sobre patos; na verdade, sobre um programa que assisti hoje na televisão: a senhora numa casa aprazível cuidando de patos. A reportagem mostrava patos selvagens; por lá apareceram e por lá ficaram. A proprietária tratou de aprender a cuidar, consultou veterinário e autoridades. Alimenta o amor até quando resolverem bater asas. Mas eis que no meio de uma introdução que estava a rascunhar, chega até mim a melodia arrastada de um saxofonista.

Tenho conhecimento de que ele se instala na praça todo sábado, com sua tralha e seu instrumento; fica lá o dia inteiro, lutando dignamente pelo seu ganha-pão. Ao que parece é um bom músico. Tem repertório, maneja bem o instrumento. Executa diversas notas com boa técnica. Ao seu redor as pessoas se achegam; timidamente, um ou outro deixa uma moeda.

A música chega suavemente aqui. No barulho da casa quase não a ouço. Quando tudo para, aí sim a percebo. Tenho certeza que muitos gostariam de usufruir desse privilégio: deitar-se, ter às mãos um livro, uma música boa. Que privilégio... Disse-me uma amiga que mora lá perto, que aos sábados é como se o músico estivesse em casa. Quantas vezes não se sentou à mesa, acompanhada de um bom vinho e Chopin?

Um grupo de moradores local, seus vizinhos, me contou certa vez que um abaixo-assinado foi entregue em mãos ao próprio senhor Secretário de Cultura do município. O objetivo, segundo eles, era fazer com que a cidade, tão carente de cultura, investisse mais e melhor em cultura regional, prestigiando principalmente os artistas de rua. “É um desperdício sem tamanho um talentoso saxofonista como ele ficar amarrado todos os sábados aqui, sendo que tantos palcos espalhados pela cidade poderiam receber um pouco de música boa”, disse-me um deles.

No que assenti: “De fato, somos carentes de cultura. E música clássica nos bairros, não haveria de ter projeto melhor; um projeto valioso e, acredito, de custo baixo. Por que não levar Chopin, Beethoven, Tchaikovsky, Johann Strauss, Vivaldi, ou mesmo artistas populares como Elton John ou Dire Straits até os confins do glorioso Belém, da Gurilândia, do Barreiro, da Estiva, na melodia arrastada de um exímio saxofonista?”.

Na certa, pensei, o pobre músico por si só não teria condições de tocar em outros lugares. Precisava de incentivo. Seu pratinho de moedas estaria sempre cheio com o investimento municipal. A cultura chegaria ao povo e não apenas a alguns privilegiados.

“E qual foi a resposta do senhor Secretário?”, perguntei.

“Disse-me que o município já tem projeto nesse sentido. Que haveria até um edital aberto para os artistas, mas que dependia de inscrição do próprio artista”.

Assim, meu amigo falou que agora o grupo estudava uma forma de chegar até o bom saxofonista para estimulá-lo a participar. Entristecido, ele encerrou a conversa:

“Já me acostumei. Aos sábados vou pra roça. Não quero nem saber”.


Ilustração: Carruço (www.carruco.com)



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sexta-feira, 22 de abril de 2016

A AVENTURA INFLÁVEL DO DR. MÁRCIO >> Zoraya Cesar

Chegara àquela idade em que, pensava ele, deveria aproveitar seus últimos anos de maneira aventureira e libidinosa. Chegara àquela idade em que muitos homens olham a própria mulher como um estorvo à sua liberdade, à última oportunidade de viver la vida loca, de despertar sua latente sexualidade hircina. Depois dos 65 anos, Dr. Márcio voltara a sentir frissons adolescentes.

Ele invejava o irmão de sua esposa. O cunhado solteirão, não mais um playboy, mas um 'playold' que vivia na praia e nos bares, cercado de mulheres mais jovens, frequentador de orgias regadas a scotch, aventureiro dos sete mares. Era também, o cunhado, um falastrão, adorava contar suas proezas com detalhes sórdidos. A irmã o achava adorável. Dr. Márcio o achava um estróina cínico, que vivia lhe pedindo dinheiro emprestado, bebia de seu uísque mais caro e troçava de seus hábitos conservadores. Dr. Márcio invejava e detestava o cunhado tão figadalmente quanto a ideia de se separar. Estava acostumado àquela vida mansa de homem casado que encontra tudo pronto ao chegar em casa, e até gostava da esposa. Não, Dr. Márcio não queria se separar, só queria uma aventura digna das do cunhado odiado.

Não estava preparado para grandes voos, porém. Resolveu começar comprando uma boneca inflável, dessas importadas, japonesas, tão reais que só faltavam casar — Dr. Márcio não quis economizar em sua primeira ousadia extraconjugal. 

Encomendou, pois, a bendita boneca, modelo enfermeira, sua fantasia preferida. Seria entregue no escritório, sábado pela manhã, sem testemunhas. Seu plano era estrear a boneca lá mesmo e depois guardá-la no armário trancado à chave. 

A partir desse momento, Dr. Márcio adolesceu. Até espinhas apareceram em seu rosto. Sentia-se temerário, arrojado, imaginando as peripécias sexuais que faria com a boneca. Trazia nos lábios um sorriso monalisa de quem escondia o segredo mais picante do mundo. 

Infelizmente, a administração do escritório marcou dedetização nas salas exatamente para aquele sábado; gavetas, armários e caixas deveriam ser deixados abertos após o expediente. Dr. Marcio puxou os poucos cabelos que lhe restavam e remarcou a entrega, frustrado, num mau humor absurdo.

Pior, esquecera, no seu afã, que o sábado seguinte seria feriado, o prédio não abriria. Teve de ligar de novo, desmarcando. E ficando no limiar do irascível. Sua esposa, coitada, farta de aguentar o humor bilioso de um marido que, até há algumas semanas era indiferente, ausente até, mas jamais agressivo, resolveu passar o final de semana na casa dos pais. 

Foi a glória! Dr. Márcio imediatamente ligou para a fornecedora e marcou o dia da entrega para o sábado em que sua esposa não estaria em casa. Pronto! Estrearia seu brinquedo lúbrica e tranquilamente e, antes de a mulher voltar, ele o esconderia na mala do carro. 

Sábado, pois, lá estava ele, sozinho, indócil, à espera de seu tão ansiado pacote. Viu alguns filmes pornôs, tomou umas doses de uísque, sentindo-se o próprio transgressor, um James Dean da terceira idade. Bateu, de repente, uma preocupação: ele já não ‘cumpria a missão’ há tanto tempo que se sentiu meio inseguro. Depois, relaxou; provavelmente o artefato vinha com manual de sugestões; afinal, os japoneses eram ‘profissas’, não iam fazer serviço pela metade.

Tais devaneios foram interrompidos pela chave da porta girando, sua mulher, o detestado cunhado, os sogros adentrando barulhentamente. Por quê, perguntou, num pânico de suar as calças. Porque uma obra emergencial no prédio deixara sem gás e sem luz o apartamento dos sogros. Iriam todos ficar ali o final de semana. Afinal, a mulher olhou para ele, desafiadoramente, essa casa é minha também, certo? 

Trancou-se no banheiro de serviço e ligou, desesperado, para a empresa:

 Recuerdos de Ipacaraí Exportações, Janaína falando, bom dia.

 Aqui é o Dr. Márcio — sussurrava, olhando para os lados. — É que encomendei uma boneca inflável e...

 Qual o número do pedido?

 Não sei! Mas é uma boneca inflável tamanho natural vestida de enfermeira e preciso trocar o endereço da entrega, urgente — as mãos tremiam.

 Qual o CPF, por favor?

 222.000.222.00.

 Achei. É a terceira vez que o senhor desfaz a entrega — a voz dela era petulante.

 Eu sei, eu sei, mas minha mulher voltou pra casa com a familiarada toda nojenta dela, entende? A entrega não pode ser feita aqui de jeito nenhum, pelamordedeus, eu faço qualquer coisa!

 Sinto muito, mas a encomenda já foi despachada, não tem como interceptarmos o transportador, tem uma multa e...

 Eu pago. Eu pago, pago em dobro, em triplo, mas..., meu Deus, o interfone, devem ser eles, ai...

Eram mesmo. Quem atendeu a porta foi o cunhado, que, não por acaso, conhecia a loja. E aproveitou a oportunidade para humilhar Dr. Márcio, revelando seu segredo inflável para a família ali reunida. Nosso desventurado herói não aguentou a vergonha. Saiu correndo, ainda vestido com as calças do pijama que, frouxas, escorregaram pelas pernas, fazendo-o tropeçar e rolar alguns degraus.

Calma. Ele não sofreu nada pior que um braço quebrado, um corte na testa e uma profunda mossa na sua já combalida autoestima.  

Saiu do hospital e encontrou suas coisas na portaria. Não adiantou ligar, implorar, chorar para a mulher — teve de dormir num hotel. 

Na segunda-feira, levou o atestado médico ao escritório. Preparara uma história mirabolante para explicar o acidente, mas perdeu tempo. O cunhado ligara antes, contando todo o episódio, às gargalhadas. 

Termina, assim, a primeira incursão de Dr. Márcio no mundo das aventuras extraconjugais. A mulher deixou-o voltar para casa, afinal, a estripulia do marido tinha sido tão infantil e ridícula que era digna de lástima. Deixou-o voltar, sim, mas sob uma condição: o cunhado iria morar com eles...

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quinta-feira, 21 de abril de 2016

PEREGRINAÇÃO>>Analu Faria

Já fui a muitas igrejas e seitas. Era só alguém me contar sobre o quão interessante era o culto/sessão/reunião do lugar, que meu coração pisciano se sentia atraído e levava meu corpo e mente para o templo/casa/salão etc. Piscianos adoram uma macumbinha, um tarô, um mapa astral. E eu obedecia ao meu signo e vivia procurando um meio de fazer de Deus meu “chegado”. Cada denominação religiosa, contudo, parecia ter um defeito que me incomodava tanto que parecia impossível permanecer naquela fé. Há pouco tempo, porém, decidi que talvez devesse voltar às origens e, como fui criada no catolicismo, voltar a frequentar as igrejas católicas. Era Páscoa e eu achava que fosse uma época boa para isso.

Encontrar uma espiritualidade acolhedora é das coisas mais bacanas que podem acontecer a uma adulta buscadora como eu. Experimento, muito no comecinho, essa sensação deliciosa de encontro. Mas o caminho para isso tem suas presepadas.

A primeira igreja a que fui não era grande nem imponente, mas ficava em um bairro nobre da cidade. Ai, minha cabecinha preconceituosa! Acho que já comecei achando que aquele povo ali era muito coxinha para ser cristão. Estava errada.. Todo mundo muito concentrado. Todo mundo muito atento à homilia. Mas todo mundo muito contrito, muito discreto, apesar do esforço do padre em convidar os fiéis a participarem da igreja, mesmo em gestos banais, como, por exemplo, chamar as pessoas a entrarem sempre pela porta da frente da igreja, porque todos entravam pela lateral. “Por que vocês entram apenas pela entrada lateral da igreja? Entrem pela porta da frente! A Igreja é de vocês!”, ao que todos respondiam com um silêncio intelectual esmaga-espírito. E na hora de cantar as musiquinhas? As palmas relutantes e os folhetos de missa balançados no ar com languidez me davam a certeza de que a festa do Cristo Ressuscitado estava perdendo, em animação, para um encontro da Herbalife ou uma reunião de condomínio. Concluí que não consigo chegar a Deus usando só o meu pobre lado esquerdo do cérebro. Deus não podia ser tão blasé.

Resolvi radicalizar e partir para o oposto — uma igreja “animada”. A estagiária lá do trabalho (que virou amiga) me indicou a igreja católica ortodoxa onde ia e que, segundo a descrição dela, de ortodoxa (no sentido pagão da palavra), não tinha nada. Antes de ir, perguntei: “É tipo renovação carismática? Porque não é muito a minha praia, sabe...” A resposta (guardem isso): “Maaaaais ou menos.” Beleza.

No domingo seguinte, fui até lá. A igreja ficava em Taguatinga, uma cidade-satélite de Brasília. O templo era bem menor que o outro, da semana anterior. “Aqui, sim!”, pensei! Ai, minha cabecinha preconceituosa! Pensei que aquele povo era simples o suficiente para ser cristão. Eu não estava errada, mas…

A igreja estava lotada. Até aí, tudo bem. O que estranhei foi tanta gente no altar: um padre, outro padre, mais outro, um monge, umas freiras. Devia haver umas quarenta pessoas lá. Precisa disso tudo para celebrar uma missa? A primeira música, a de entrada do padre principal e de todos os outros celebrantes, era um axé digno de Ivete Sangalo. Palmas mil. Animação total. O padre (esse, principal) chegou carregando um bebê e rodeado de crianças. Coreô. Carnaval de Deus. Homilia intercalada com leitura de versículos da Bíblia por um padre que simplesmente BERRAVA esses versículos. Mais coreô. Mulheres berravam Aleluia. Homens pulavam. Menções a Satanás. Toalhinhas abençoadas, que o padre usava para enxugar a cabeça e o pescoço, eram jogadas aos fieis. E olha...Padre Ribamar era pop, mais que o papa, pelo menos para a comunidade local. Para coroar a coisa toda, minha amiga me sacudia pelos ombros, dizendo “Miga, por que você tá tão tímidaaaa?. Calmaaaa! Você tem que conhecer o padre, ele é ótimo! E pega aí a coreô! É fácil!” Saí de lá com a certeza de que, usando só o lado direito do cérebro, eu também não conseguiria chegar a Deus. A divindade não podia ser tão micareta.

Como eu sou cabeça dura, prometi a mim mesma que visitaria uma outra igreja católica ortodoxa, que, segundo o que eu sabia, não deveria ser assim tão pentecostal. Curiosa, planejei ir até outra dessas igrejas, no mesmo bairro nobre da primeira. “No outro domingo, eu vou.”

Acontece que acabei por acordar tarde demais no domingo. Fiquei com preguiça de cruzar a cidade para enfrentar o que talvez fosse mais um exotismo (será?). Quase desistindo do plano de voltar a ser católica, decidi, meio desanimada, ir até a igreja mais próxima, uma igreja antiga e sem nada de mais.. “Vai essa mesmo. Se for chata, eu deixo de lado isso de ir a igrejas. Pelo menos tentei três vezes”. E fui, apostando que ia ser chata mesmo.

O Santuário São Francisco de Assis é um templo grande, mas sem pompa. A missa estava cheia, principalmente para o horário: meio dia e quinze (nem sabia que se celebrava missa na hora do almoço). Fui gostando da igreja, aos poucos: quando se cantava, era sem exagero, mas com vigor. Os ritos não eram alongados nem tinham aquele quê de teatralização canastrona. Alguma pessoas elevavam os braços, em adoração, em certos momentos, mas de forma natural, sem parecer que estavam possuídas pelo capeta.O importante era a homilia.

Homilia, em grego, quer dizer 'discurso”. Há muito, muito tempo não vejo discursos religiosos bons. Pelo menos desde o cardeal Hatzinger, o papa Bento XVI, parecia não haver ressonâncias humanas nas palavras dos pregadores. Tudo parecia concentrar-se em purismo, disciplina, depuração de comportamento. Tudo o que, para mim, não é igreja. Só que o padre do Santuário roubou meu coração. Aliás, um salve para o papa Francisco, que encoraja padres como esse! Veja só o que eu consegui, rapidamente, anotar das palavras que ouvia no discurso dele:

"A grande dificuldade, ainda hoje, da nossa Igreja, é o acolhimento, porque somos ainda fundamentalmente preconceituosos, porque somos fundamentalmente elitistas. Jesus conversou com prostitutas, com cobradores de impostos, com soldados do Império, teve paciência com os fariseus. Jesus gostava de " gente que não presta". Assustei vocês? Mas é verdade. Jesus não gostava de perfeição. Cuidado com essa doutrina que diz que nós é que somos os bons. O pastoreio de Deus é o de aceitação das diferenças."

Essas foram apenas algumas das frases sensacionais que ouvi. O padre disse ainda de um Jesus humano, sociológico, histórico. Nada disso de Deus-mágico, solucionador de todos os problemas. Olhava ao meu redor e os rostos pareciam serenos, sinceros, respondiam às provocações do celebrante. Riam, mas não loucamente, emocionavam-se, sem chorar (ou, quando isso acontecia, sem chorar compulsivamente). Acho que a harmonia entre os dois lados do cérebro deve ter algo de tocante ao espírito.

Saí de lá certa de que um caminho possível havia sido posto a minha frente e, quem sabe, um caminho duradouro, sem fanatismos, sem “carolismos”, sem apelos, sem charlatanismo. Deus às vezes pode ser um cara que mora ao lado.

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quarta-feira, 20 de abril de 2016

BOLETIM: AMO >> Carla Dias >>


Calou-se ao encará-la. Ela a quem ele corteja com o olhar. Pensou que daria o próximo passo, que diria a ela o verbo conjugado em declaração do que ele traz no engasgo: amo.

Pensou que renunciaria à condição de companheiro de trabalho, conquistando um espaço afetivo nessa jornada comercial que dividem com devoção.

Ausente da companhia dela, ele que é moço que não desvela emoções que nele latejam, permite-se ser tomado pela provocação desses sentimentos. Senta-se na confortável poltrona da varanda. Observa árvores e pássaros e ventos e silêncios. Encanta-se com a lua e imagina coisas.

Não gosta de pensar que imaginar coisas seja o mesmo que sonhar acordado. Sabe que imaginar coisas é o mesmo que sonhar acordado ao imaginar coisas sobre ela.

Imaginou uma viagem por todas as capitais do mundo. Ela sorrindo com os lábios e os olhos. Ele sentindo o corpo dela estremecer ao observar a paisagem cobiçada pelo antigo desejo de conhecê-la. Refestelando-se um na carne do outro. Comprazendo-se um na existência do outro.

Discutindo... Porque o drama existe na vida de quem a vive.

As discussões sempre a levavam a alfabetizá-lo, valendo-se da candura para abordar reprimendas. Ele a aliciava com o despudor da solidão. Um verbalizava o que deixava o outro desconfortável. Algumas coreografias eram criadas para a exaltação do que os unia. Apesar de ignoraram o quê. Havia entre eles o conforto de não se importar com o desconforto. Não se o olhar de um navegasse no do outro sem censura.

Imaginava beijo, abraço, desavenças, reconciliações... Adorava reconciliações, porque elas permitiam que abraçassem a fragilidade e reverberassem a crueza dos seus predicados.

A varanda é cenário recorrente da imaginação dele. Soubesse ela das vezes em que se deitaram naquele chão para trocar confidências e sacanagens. Bebericar vinho, café, palavras inéditas.

Soubesse da dedicação dele em fazê-la feliz.

Há nela a sombra dos que vivem a ruminar lamentos. Sobriedade a define e ele gosta disso. Acredita que há nela o que ser descoberto. Imagina-se descobrindo.

Calou-se ao encará-la. Assustou-se com a realidade de nudez pálida. Abismou-se com a ousadia a buscar por espaço. Libertar a imaginação para dizer a ela todos os sentimentos que acumulou é uma coisa. Estar na presença dela, e pousar o olhar sobre a maciez de sua tez, desqualifica-o para o posto de aventureiro.

Questiona um relatório e ela explica o motivo de estar certo. Ele sabe que está certo. Sorri e pede desculpas pelo inconveniente.

A voz dela é a que ressoa em sua cabeça. Ela já não diz. Ele escuta. Tornou-se habilidoso em imaginá-la, como se ela vivesse em um filme a se repetir em sua memória inventada.

Imagem: Seated Woman © Stanton Macdonald-Wright

carladias.com



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terça-feira, 19 de abril de 2016

PELA ATENÇÃO, OBRIGADA >> Clara Braga

Antes de começar essa crônica, eu queria agradecer as minhas professoras da alfabetização, sem elas eu não seria capaz de escrever essas crônicas. Quero agradecer em especial a Tia Luiza, que foi quem descobriu que eu era dislexa e me encaminhou para a fonoaudióloga, facilitando meu aprendizado.

E claro que não posso deixar as fonoaudiólogas de fora, por vezes me ajudavam até a fazer dever de casa. Foi uma fase complicada, mas fui bem assistida e por isso agradeço a essas pessoas.

Porém, se tive fonoaudiólogas e Tias Luizas foi porque meus pais sempre acompanharam meu desenvolvimento de perto. Sempre fizeram de tudo para que eu tivesse as melhores oportunidades e tiveram a maior paciência com as minhas dificuldades que me deixavam um tanto irritada.

Aliás, não posso deixar meu irmão de fora disso tudo, afinal, além dos meus pais era ele quem me aguentava perturbando a vida dele diariamente. E era ele que aguentava meus choros durante a noite também. Mas essa do choro eu nem me sinto tão culpada assim, afinal que criança não acordaria chorando ao olhar para a parede do quarto e dar de cara com um pôster da banda Kiss? Aos 7, 8 anos de idade aquilo era tão assustador quanto o Fofão na carreta furacão.

Bom, queria aproveitar para dizer que sou grata a todos os professores que fizeram parte da minha formação, e se vocês reclamavam para a minha mãe que eu era tagarela, estou pagando a minha língua. Hoje, também professora, sei o que é tentar dar aula para alunos tagarelas, e vou dizer, vocês foram todos muito pacientes, eu já tirei aluno de sala por motivos muito menores. Mas se passo por essas situações a culpa é toda minha, não foi por falta de aviso. Minha madrinha, para quem eu aproveito para mandar um beijo, me falou diversas vezes: você tem certeza que quer ser professora? Essa profissão não é fácil! E não é mesmo… por isso, aquele beijo grande e aquele abraço apertado para todos os meus colegas de profissão, que dividem sábados letivos comigo e pensam em maneiras delicadas de dizer para os pais que os filhos deles são os próprios capetinhas.

Mas, já que tocamos no assunto da conversa, se eu era tagarela, não posso deixar de mandar um beijo para as minhas colegas de sala, afinal ninguém conversa sozinho não é mesmo? Não conseguiria esse título se não fossem vocês, obrigada! Pena que a gente tenha perdido contato, mas vocês estão todas em minhas memórias e no meu Facebook.

Para terminar, não pretendia me alongar tanto, mas não posso deixar de mandar aquele beijo carinhoso para toda a minha família, para todos os meus amigos, pra todos os meus alunos, para todos os vendedores de churros que fazem meus dias mais felizes, para todos os diretores de cinema que criam filmes maravilhosos e contribuem com meu fim de semana, para a Dona Maria, que cuidou tão bem de mim quando pequena, para a dupla Sandy e Junior que fez a trilha sonora da minha infância e me ensinou que o que é imortal não morre no final, para o compositor da música Lua de Cristal, a primeira música de autoajuda que eu escutei, para as Spice Girls, que já ensinavam sobre feminismo antes mesmo de alguém falar em feminismo, aos Hanson, que veio fazer show no Brasil e me fizeram ficar de recuperação pela primeira vez na minha vida porque eu perdi a prova de biologia para ir ao show e, claro, um beijo especial para você, Xuxa, que depois desse domingo deve estar um pouco triste de não ter patenteado a ideia de mandar beijo para todos os membros da família.

Tendo dito isso, peço desculpas a você leitor, mas a crônica vai ficar para semana que vem já que os agradecimentos já ocuparam todo o espaço que me cabe, pela sua atenção, obrigada.

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domingo, 17 de abril de 2016

HISTÓRIA OU PIADA, SR. DEPUTADO?
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tem aquela história do médico que dizia para os pais gestantes que o bebê seria menino, mas anotava em sua agenda a previsão de que seria menina. Se, após o parto, os pais reclamassem que não foi menino, ele abriria a agenda e provaria que tinha dito que seria menina.

Tem aquela história de Deus criar o Brasil sem desastres naturais e, diante da reclamação de injustiça de um anjo, responder: "Espere até ver que tipo de pessoa eu vou colocar lá."

Tem aquela história da estrangeira que, após alguns dias no Brasil, comentou o que tinha achado mais interessante: "Aqui o sinal verde quer dizer siga. O vermelho, olhe para os lados e siga. E o amarelo quer dizer acelere."

Aquelas histórias se juntam na história de hoje: a da votação da admissibilidade de impeachment da presidente Dilma pelos deputados da Câmara...

Minha previsão é de que pessoas "daquele tipo" vão "acelerar". Mas registro aqui, em minha crônica agenda, a esperança de que a história de hoje seja apenas mais uma piada.

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sábado, 16 de abril de 2016

SOBRE A MORTE DE UM HERÓI >> Cristiana Moura

Era outubro de dois mil e quatro. Eu estava sentada à mesa da cozinha em casa de minha mãe. Foi quando soube da notícia pelo telejornal: ele havia morrido. Sempre senti-me estranha diante do falecimento de ídolos ou pessoas públicas. Não me era conferida nenhuma especial emoção pela partida de um desconhecido. Mas naquele dia foi diferente. Uma lágrima escapou-me escorregando pela face como em que câmera lenta. Suspirei. Abandonei o lanche que perdia o sentido naquele momento. Só queria nutrir-me das suas palavras. Fernando Sabino havia morrido.

Foi tamanho o susto. Talvez eu pensasse que ele fosse eterno. Sofri. Era tamanha a revolução que ele havia feito em minha vida, a forma com a qual me tocou com suas palavras, que sofri por não ter-lhe dito, porque eu sabia dele o que ele não sabia de mim. Ele me disse:

"Para testar, coloco a mão direita espalmada sobre o espelho. Como era de esperar, ele ao mesmo tempo vem com a sua mão esquerda, encostando-a na minha. Sorrio para ele e ele para mim. Mais do que nunca me vem a sensação de que é alguém idêntico a mim que está ali dentro do espelho, se divertindo em me imitar. Chego a ter a impressão de sentir o calor da palma da mão dele contra a minha. Fico sério, a imaginar o que aconteceria se isso fosse verdade. Quando volto a olhá-lo no rosto, vejo assombrado que ele continua a sorrir. Como, se agora estou absolutamente sério?"

Ah, o menino no espelho era uma menina! Era eu! E podia, a partir daquele momento me ver melhor uma vez que Fernando me mostrara que eu era aquela menina no espelho, aquela menina a procurar alguém igual a si mesma, a espreitar a imagem refletida, tão igual e tão diversa.

E foram muitas as outras suas palavras que me tocaram. Lembro como se fosse hoje. A notícia, o aperto no peito, a lágrima a escorrer. Eu não havia agradecido o Fernando. Ah, Fernando, muito obrigada!

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sexta-feira, 15 de abril de 2016

LAVAR LOUÇAS: O SEGREDO DA FELICIDADE MASCULINA >> Paulo Meireles Barguil


E o caos aconteceu: a diarista não veio. 
 
O pior: o xexo foi premeditado! 
 
Ela tinha decidido há vários dias que não iria mais trabalhar naquele local, mas resolveu destilar gotas de maldade na sua ação e não avisou ao ex-patrão, que só soube do veredito no final da manhã, quando ligou para saber o que tinha acontecido com ela. 
 
— Vida que segue — bradou, sem muita convicção, o rapaz, enquanto olhava para as pilhas de louças que, agora, o aguardavam. 
 
Ele acolheu aquela nova situação, tal como lhe ensinara o seu guru, embora em nível abaixo do indicado.

Aos poucos, ele foi aceitando sem resistência e ressentimento o ocorrido e, durante dias, semanas, meses e anos, foi lavando as louças que sujava.

Uma amiga sua, vendo-o, cada dia mais alegre, perguntou:

— O que está acontecendo para você estar tão feliz?

— Estou lavando louças!

— Deixa de me enrolar e diz logo quem é ela!

— Estou sem faxineira há anos.

— Eu sei disso. Eu quero saber o nome da sua namorada!

— Você guarda segredo?

— Claro! Fala logo!

— Tem um estudo científico que afirma que homem que lava louça é mais feliz.

— Eu não quero saber dessa pesquisa.

— Na verdade, são duas. Outra investigação revelou que lavar a louça ajuda a combater o estresse.

— Ok, desisto.

— Guarda bem o meu segredo, combinado?

[Crônica dedicada a K]


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quinta-feira, 14 de abril de 2016

SER OU ESTAR FELIZ, EIS A QUESTÃO!
>> Mariana Scherma

A gente vive nessa de somos ou não somos felizes. Hoje somos. Amanhã tem trânsito e tchau, felicidade. A gente é feliz quando troca o celular, daqui a pouco ele fica lento e somos tudo, menos felizes. Saímos saltitante de alegria para as férias, voltamos todos irritadinhos. Esse sentimento é bem difícil de trancafiar numa gaiola, não? Pode ser um sentimento difícil de ser alcançado quando você transforma a vida numa equação ou numa busca tipo caçada do Indiana Jones. Não acredito na felicidade como um todo. Ela vive nos pequenos momentos. Você pode ser feliz várias vezes ao dia, mas tem gente que quer a felicidade num troféu. Aí fica complicado e você não percebe a alegria das pequenas coisas...

O café da manhã pós-academia. Você malhou e ganhou aquela sensação de dever cumprido logo no começo do manhã. Tem um dia inteiro de deveres, óbvio. Mas aqueles minutinhos com café, banana com iogurte, canela e mel e um pedaço gordo de queijo branco... Senhor! Isso é capaz de me manter feliz por muitos períodos conturbados.

As primeiras braçadas na piscina e aquela sensação de que é você com você mesma e seus pensamentos por pelo menos 50 minutos. Não tem terapia melhor que o barulhinho de água, a sensação dela no seu corpo. É como se os problemas não tivessem exame médico e fossem proibidos de entrar na piscina. Quem não nada deveria aprender. Você fica em paz com sua saúde e sua mente. Até o cheiro do cloro é gostoso. Sem contar que, depois, tem endorfina e toda aquele blá-blá-blá.

Entrar debaixo do chuveiro. Um banho de cinco minutos já resolve, até menos se você tiver cabelo curtinho. Mas quem já ficou sem água em casa valoriza mais um chuveiro com água. Não tem tristeza quando a água toca o nosso corpo. Pra mim é tipo uma mão mágica fazendo carinho. Deve ser por isso o meu amor tão grande pela natação.

Mas fora a água, também é possível ser feliz com um filme começando. Antes de Netflix e cia., ligar a tevê ao mesmo tempo em que um filme começava era o ápice da alegria — mergulhar numa história é demais. Hoje, com as 876 formas de ver tevê você fica contente várias vezes ao dia. Pode ser loucamente feliz no fim de semana.

O cheiro da comida no fogão. Uma conversa gostosa. Uma conversa gostosa seguida de risadas. Uma risada que vira gargalhada. Brigadeiro de colher. Cheiro de roupa limpa no varal. Um corte de cabelo que deu muito certo. Começo de livro. Final de livro. Meio de livro. Seu dia pode ter inúmeros momentos de felicidade. Não dá pra ser feliz 24 horas por dia, mas você pode estar feliz uma porção recheada de vezes. É só prestar atenção.

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quarta-feira, 13 de abril de 2016

IMAGINATIVAMENTE ROUBADO >> Carla Dias >>


Quando no corpo tudo acontece à mercê das surpresas.

Mãos tremem. Coração dispara feito cavalo em dia de corrida. Hoje parece um ontem debruçado em devaneios, feito quarta que se mistura aos compromissos de sexta, e que tropeça na melancolia de quinta, reverberando na maresia do domingo. Quando calendário se torna temporariamente obsoleto, porque o tempo se curva, feito esse corpo onde tudo acontece à mercê do desalinho.

Desassossega-se o corpo por tantos pensamentos que uivam simultaneamente. Desentende-se o corpo com o sentimento, que a mornidão da lógica e o usufruto dos hábitos foram nocauteados pela imensidão das emoções que chegaram sem prelúdio. Nem orientação. Tampouco pistas.

Pernas bambeiam como se dançassem uma coreografia primeira, criada nesse momento, apenas para provocar movimento. Mãos se agarram a qualquer móvel, para evitar queda. Coração ainda toca sua música psicodélica, tendo a taquicardia como louvável maestrina.

Vertigens convencem ao corpo a deitar-se no chão morno de verão indecente e buscar pela aquietação dos sentidos. Entretanto, tudo acontece à mercê do destrambelho desse corpo que tenta manter-se alinhado aos seus princípios, que foi educado para ser pleno e elegante. Porque a ele foi dito que não se deve perder a pose. Porém, adiantaram nada sobre a possibilidade de ele ser tomado por tal frenesi.

Antes de ontem, esse era um corpo que comportava silêncios. Tudo nele acontecia na cadência certa, seguia o roteiro do esperado, adaptava-se aos planos traçados. Tudo nele era passível de entendimento oferecido por uma ótima educação e um bom plano de saúde. Depois de ontem, de um olhar de soslaio, de uma breve contemplação de quem caminhava ao lado, das palavras que recebeu, elas carregadas de significados inéditos, esse corpo foi invadido pela liberdade do desejo, a velocidade da eletricidade a caminhar por ele, dinâmica e dona de si... E dele, o corpo.

Olhos fechados para escutar a canção da respiração. O corpo se rende aos galanteios da imaginação, trafegando pela realidade e pelo imaginado, criando um roteiro no qual o final reserva a ele, e ao corpo relembrado, um encontro arrebatador entre lábios.

Um beijo imaginativamente roubado.


Imagem © Wojciech Weiss



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terça-feira, 12 de abril de 2016

NA HORA >> Clara Braga

Esses dias estava lembrando do período que passei na Austrália. Foi uma época tão boa, mas tão rápida, que às vezes parece que nem aconteceu de verdade.

Lá eu conheci gente de tudo quanto é lugar do mundo, e se teve uma pergunta que eu sempre tinha que responder mas nunca conseguia: Por que os brasileiros estão sempre 15 minutos atrasados? Não adianta marcar uma hora, vocês nunca chegam! Ou então ouvia o seguinte comentário: vocês não deveriam se surpreender com ônibus que chega na hora, esse é o correto, vocês estão errados em atrasar.

Justiça seja feita, eles têm razão. Errados estamos nós, que estamos sempre atrasados. Outro dia fui a uma sessão de cinema que atrasou, isso nunca tinha me acontecido. A ginecologista que eu ia já troquei. Ela é ótima, mas no dia em que cheguei para a consulta das 15h e fui atendida às 18h, eu precisei cortar relações. Não se pode trabalhar no dia da consulta, você tem que parar a vida e ficar lá esperando.

Aliás, falando em esperar, como pode todo mundo ser tão atrasado se ninguém gosta de esperar? Quer ver uma pessoa irritada é só dar um chá de cadeira nela. Até existem aquelas pessoas com evolução nível Buda que não se irritam tanto, mas duvido que exista alguém que goste de esperar. Se existir, vamos dar agora o Nobel da Paz para essa pessoa.

Em alguns locais de trabalho, os empregadores já tentaram resolver esse probleminha com o tal do ponto eletrônico. Experimenta chegar os 15 minutinhos atrasado e o resultado vem no seu salário, rapidinho você volta a escutar o despertador tocando às 6 da matina.

Confesso que não acho o ponto eletrônico de todo ruim, afinal se você precisar fazer hora extra também tem como comprovar, ou seja, ele pode ser usado a seu favor. O problema real disso tudo é que nós desenvolvemos a estranha cultura de que trabalhador é aquele que fica além do horário. Nunca vi isso, se você chegar atrasado descontam do seu salário, se você chega na hora certa mas sai na hora certa, você é padrão, mas se você chega cedo ou na hora certa e fica até mais tarde nem que seja para jogar paciência, parabéns, você é um forte candidato a funcionário do mês. De onde vem isso?

Eu não poderia discordar mais desse pensamento, se eu estivesse contratando um candidato, a minha vaga iria para aquele que tem vários projetos de vida, que gosta de viajar, que tem hobbies e que gosta de passar um tempo fazendo absolutamente nada. Chega desse papo de trabalho extra, certa mesma está a pessoa que sai na hora que deve sair e ainda curte um pouco do seu dia, essa sim não vai ter estresse, depressão, obesidade e afins, a vida é muito curta para disputar quem é que vai ficar para apagar a luz, vamos aprender a respeitar os horários, de chegada e de saída também.

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segunda-feira, 11 de abril de 2016

POKER NA ESCOLA >> André Ferrer

A polarização da sociedade em relação à política tem levado grupos e indivíduos ao embate. Algumas vozes, emitidas de setores diversos, já clamam pela moderação entre governistas e opositores. O perigo de confrontos é uma realidade; não obstante, depois da instalação de uma Comissão de Impeachment em Brasília.

No diálogo, a posição clara de cada um é fundamental. Sem isso, não se tem um diálogo, mas um jogo em que o blefe é livre. Por exemplo, a Ordem dos Advogados do Brasil se manifestou a favor do afastamento da Presidente da República. Todos os dias, a imprensa divulga a tomada de posição de algum setor importante da sociedade, sendo contra ou a favor, o que é extremamente democrático, promove a transparência e previne atos criminosos; inclusive, possíveis atos “anônimos” que, a exemplo de inúmeros ocorridos nas décadas de 1960 e 70, apenas serviriam para aumentar a tensão social e atirar uns contra os outros. Na política brasileira atual, jogar poker é o mesmo que fazer terrorismo.

E a escola das crianças? Como fica a escola, nos seus níveis fundamental e médio, em plena crise política? No que se refere a um apaziguamento social, o seu papel é incerto.

Dentro ou fora do regime democrático, a escola é um instrumento ideológico. Animam-na, todos os dias, os conflitos originados na sociedade e, preponderantemente na democracia, o equilíbrio das forças. A escola, nesse sentido, pode até ser vista como um microcosmo — um micropaís —, contudo a vigilância em relação a licenças poéticas deve sempre existir. Toda e qualquer instabilidade no equilíbrio abrirá espaço para “jogadores”.

Durante a recente ocupação de prédios escolares, no estado de São Paulo, evidenciou-se um grande interesse político dos jovens.

Naturalmente, sob o desenrolar da Operação Lava Jato, as ocupações escolares de 2015 e 2016 despertaram uma espécie de desconfiança quanto à instituição escolar. Diversos movimentos, especialmente nas suas intervenções digitais, passaram a denunciar a escola como espaço destinado ao proselitismo marxista. O surpreendente despertar para a política, daqueles jovens, teria origem nos últimos 13 anos de ostensiva doutrinação.

Realmente, o fenômeno é de difícil análise e o atual cenário, contencioso e confuso, guarda estreitas relações com essa dificuldade. Um indício de que se joga poker na escola seria, mesmo, o fato de que se joga, e muito, fora dela? Eis a dificuldade tanto para quem defende como para quem denuncia. O caos, afinal de contas, integra o jogo.

Em Gramsci, o pulo do gato da revolução tem hora e lugar para acontecer. Hitler, ao contrário do que muitos dizem, não conquistou um país com a sua oratória, mas conquistou um povo enfraquecido econômica e culturalmente; um povo em que a limpeza ideológica já se estabelecera; enfim, Hitler pôs de joelhos uma multidão alemã da qual os alemães de hoje sentem vergonha.

Gramsci e Hitler pertencem a capítulos diferentes da História. Cada um tem a sua particularidade no socialismo. Um foi principalmente teórico — um anônimo na virada dos 1800 para os 1900. Outro botou a mão na massa.

Contudo, há um ponto em que esses dois se sobrepõem. Um ponto elementar e pueril.

Elementar, porque anima toda a Gênese das Revoluções, desde o Cerco de Massada até a França dos Enciclopedistas. Pueril, porque justifica a vergonha dos alemães em relação aos seus avós. Ambos, Gramsci e Hitler, defendem um aparente diálogo enquanto o que ocorre é uma suja partida de poker. A questão é que os outros jogadores não sabem disso.

Em plena democracia defendida por eles — mas só como ardil —, a população custa a descobrir que o blefe sempre foi livre.

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sábado, 9 de abril de 2016

BICICLETA >> Sergio Geia





Olha aquele homem cortando a Professor Moreira. Ele desliza suavemente pelo asfalto guiando a bicicleta. Lembra céu azul, montanhas banhadas de sol, fim de tarde. A mesma paz que eu enxergo no voo sereno da gaivota. A gaivota e o homem. Ele voa pelo asfalto. Suas asas? A bicicleta.

É um homem pobre. Um pobre homem voador. Roupas velhas e puídas, pele enegrecida de sol. Tem bigode grosso e boné na cabeça. Seu voo é calmo e regular. Devagar ele vai, talvez sonhando com dias melhores, talvez sonhando com o dia em que vai dar mais conforto para a família, talvez sonhando com o mar. Devagar e constante ele vai, num pedalar macio, como se a bicicleta estivesse a flutuar, e não dependesse de suas pernas para andar.

O homem me ignora solenemente. Como uma autoridade, segue adiante sem olhar dos lados, elegante, cabeça erguida, olhar no horizonte. Me sinto um asno parado na calçada, olhando não uma bela mulher, mas um homem simples andando de bicicleta. Ah, mas a imagem é inspiradora e me desperta um conjunto de emoções. Como tenho saudades de andar de bicicleta!

Na nossa casa, na Avenida Desembargador, eu ficava na janela do quarto de minha mãe espiando a rua. Devia ter uns quatro ou cinco anos. A rua não tinha asfalto. Chovia e se formavam grandes poças de água. Eu torcia para chover. E aí vinha ela, grandona, bonita, pedalando por entre as poças. Ia e voltava várias vezes. Os homens a olhavam. De vez em quando ela olhava pra mim, sorria, dava um tchau.

Minha primeira bicicleta foi uma Monark. Roxa. Eu sonhava com uma Caloi. Vermelha. Sempre que ia ao médico, minha mãe passava comigo na volta, no Jumbo Eletro, na Monsenhor Silva Barros. Eu paquerava a Caloi. Era do tipo berlineta, linda, cheirosa, formas arredondadas, guidão comprido. Sabia que mais dia menos dia ela seria minha. E eu dela. Sabia que iria andar por entre poças e asfalto com a minha Caloi. Era perto do Natal. Eu pedi uma Caloi. Ganhei uma Monark. Roxa. Na certa foi o que puderam me dar.

De bicicleta andei pra lá e pra cá nessa vida. Era o meu meio de transporte. Fazia tudo de bicicleta: escola, ginástica, passeios, viagens, trilhas. Até namorar a gente ia de bicicleta. E andar em dia de chuva também.

Confesso que tenho saudades desse tempo, do tempo de poucos compromissos e vadiagem. A vida andava mais devagar. Era um tempo de brincar na rua, de olhar o céu, de ter animais em casa, de juntar o pessoal para um futebol, rodar pião, encaçapar bolinha de gude ou simplesmente andar de bicicleta. Era um tempo de coisas mais simples e mais humanas.

Vejo um pontinho preto longe. Ele vai indo com sua bicicleta e me deixou aqui, um bobalhão na calçada ruminando lembranças.

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sexta-feira, 8 de abril de 2016

POR UM ESQUELETO APENAS >> Zoraya Cesar

Faltava somente um período, um mísero período, um mísero e mesquinho período para o maldito curso de técnico em enfermagem da Turma 05 terminar. Um curso que teria duração regulamentar de dois anos e já chegava a quase três. Tudo por causa do ominoso e execrável novo diretor, um ególatra ensandecido que se achava o maior administrador da história desde Dario I (ele ouvira falar, em algum lugar, que o imperador havia sido um grande administrador). Ele mesmo, porém, era menos que um papalvo, incompetente para gerenciar um carrinho de pipoca que fosse. Só estava no cargo porque seu cunhado era influente na política, vocês sabem como são essas coisas.

De forma que, em menos de um ano, o que era uma escola de alto nível estava rapidamente decaindo, ameaçada de perder qualificação no MEC e ser rebaixada à lama.

Dentre os vários problemas apontados, dentre as diversas deficiências relatadas, a que mais se sobressaía, por risível e absurda, era a falta da peça principal do laboratório de anatomia: um morto. Um morto em estado esquálido, desnudado de suas roupas, de suas carnes, de sua identidade — um esqueleto, puro, simples, ingênuo, até, em sua morte esquelética, um reles esqueleto era o que faltava para que o curso terminasse com validação pelo MEC e todos pudessem se formar em paz. Os outros problemas eram contornáveis; esse, não.

Os quase formandos estavam em polvorosa, desesperados para receberem o diploma e assinarem contratos de trabalho. Alguns pensavam em entrar na justiça; outros, em pedir transferência; alguns outros não pensavam em nada, ficavam a bater cabeça nos corredores. Mas havia um pequeno grupo que... bem, falemos deste grupo daqui a pouco. 

E o diretor, no meio de toda essa celeuma? Professores irritados, alunos revoltados, o MEC batendo às portas... Ele, verdade seja dita, não dava a mínima. Dizia que um período a mais, um período a menos para terminar o curso não faria diferença, pois sempre haveria trabalho para técnicos de enfermagem, aquela juventude era muito impaciente. Afirmava que o MEC estava sendo por demais exigente, querendo prejudicar a escola por causa de uns ossinhos à toa. Dizia, às gargalhadas, que, se ele se enfezasse, iria pessoalmente ao cemitério local agarrar algum esqueleto abandonado.

Naturalmente, esse comportamento desleixado provocava emoções as mais diversas entre alunos e professores. E quando digo as mais diversas, eu as apresento: angústia, indignação, ódio, revolta, ódio, aversão, ódio, ódio, ódio. Especialmente em um grupo de quatro alunos — aquele, do qual lhes falei — que tinham propostas concretas de efetivação nas clínicas onde estagiavam, e precisavam, portanto, desesperadamente, do diploma. Entre os professores, havia uma que se desgrenhava de raiva. Decana da classe de dissecção, ela dedicara sua vida àquele que era considerado — até então — o melhor curso de técnico de enfermagem da cidade.

Os quatro alunos não podiam prescindir do diploma no final do semestre. A professora não podia pensar em ver sua escola, a coisa mais importante de sua vida, perder qualificação no MEC. E quando o desejo é muito, quando os sentimentos estão na mesma vibração, bem, vocês sabem, os semelhantes se atraem. O Universo conspira. E o Inferno se regozija.

E foi assim que um dia os cinco se encontraram, talvez por acaso, talvez por sincronicidade, na lanchonete. Puseram-se a conversar, a princípio, por meias frases e insinuações veladas, até que o assunto ficou sério, e as vozes baixaram alguns tons, e os olhares se tornaram cúmplices, os cinco unidos num único objetivo. Dinheiro para comprar um esqueleto, não tinham. Contatos no submundo para traficar um, também não. Saber o lugar certo onde cadáveres eram desovados na periferia, muito menos.  Só viam uma solução. Só não viam, ainda, como implementá-la.

Vocês sabem, claro, que quem procura, acha. E a oportunidade caiu de presente em suas mãos. 

O diretor — que se considerava mais sedutor que Don Juan, mais bonito que o Hugh Jackman (mas era tão interessante quanto um pepino em conserva e tão sexy quanto injeção na testa) — resolveu, por artes do destino, convidar a dita professora para sair, com intenções inconfessáveis, mas explícitas. Era, além de tudo, o safardana, casado. Portanto, todo o encontro teve de ser minimamente planejado, para manter o segredo. Se a esposa soubesse, ele perderia a bocada do emprego de diretor. Foi, assim, em segredo ‘secretíssimo’, que ele e a professora saíram. Nem as sombras da noite os viram. 

Não havendo, portanto, testemunhas do encontro, ninguém viu o rohypnol fazer efeito no sujeito; ninguém presenciou seu assassinato (nem eu, por isso não tenho como entrar em detalhes); ninguém viu seu corpo ser levado ao laboratório, nem assistiu à inesquecível aula de dissecção aplicada ao dito cujo; ninguém viu seus restos mortais sendo corroídos pelo ácido. E, por fim, ninguém viu os cúmplices se esgueirando do prédio ao final da madrugada, exaustos. Exaustos, mas tranquilos — uns, porque iriam ganhar seus diplomas e estariam empregados ao término do semestre. Outra, porque continuaria a lecionar num curso de excelência, ao qual dedicara sua juventude, e não numa espelunca decadente gerenciada por um energúmeno.

Ninguém viu coisa alguma. Mas todos viram, na manhã seguinte, na sala de anatomia, o esqueleto fresquinho, novo, cintilante que os estava esperando para a aula do dia.

E ninguém perguntou de onde viera.



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quinta-feira, 7 de abril de 2016

HISTÓRIAS>>Analu Faria

Uma das minhas grandes curiosidades é saber como as pessoas me veem. Nunca vou saber completamente, é claro, mas queria que elas me vissem não como um corte temporal de mulher, baixinha, loira, servidora pública, fã de livros. Mas como alguém que já morou fora, se lascou, amou, foi feliz, terminou com aquele namorado, levou um pé na bunda daquele outro, luta contra a ansiedade, perdeu o irmão num acidente de carro, fez teatro e dança contemporânea, é vegetariana, quer ter um filho adotivo, brigou com a mãe, já foi gorda, brigou com o pai, perdeu a avó que tinha Alzheimer, sonha em visitar uma praia da Grécia, descobriu o sexo no meio da adolescência, morre de medo de ficar sozinha, tinha medo do escuro quando criança…

Hoje, minhas amigas mais “chegadas” no trabalho são totalmente diferentes de mim. Fico me perguntando por que eu acabo me tornando amiga de gente que não tem a minha idade, não mora perto, não tem os mesmos gostos que eu. Será que é porque essas pessoas enxergam o meu movimento e não meu eu estático?

Acho que sim. Da mesma forma, enxergo as quatro mulheres como as histórias que viveram e podem viver no futuro. Não que eu saiba todas as histórias dessas amigas. Não é preciso saber das histórias de alguém para se identificar com esse alguém. É preciso saber que o sorriso aberto, a cara de dúvida, o olhar malicioso são expressões de quem viveu e vive de forma a não se fechar para o mundo, de forma a dizer, a cada piada e a cada confissão: divida-se em mim, porque eu também sou feita de histórias.

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quarta-feira, 6 de abril de 2016

PASSOS >> Carla Dias >>


Há muitas coisas acontecendo. Há muitas pessoas circulando por aí. Há milhões e milhões de histórias se desenrolando nesse agora, enquanto pensamos nas muitas coisas que acontecem — com um alcance que inclui somente aqueles sobre os quais temos conhecimento — e nas pessoas à nossa volta. E os milhões de histórias, das quais sabemos tão pouco, que esse pouco se torna um parente direto do quase nada.

Assim seguimos: minimalistas flertando com superlativos.

Há o que acontece enquanto caminhamos, alheados, rumo aos lugares aos quais decidimos pertencer para sempre, amém. Ao meu lado, você caminha com mais pressa. Incomoda-me essa urgência, que sou dos contemplativos, gosto de botar reparo na rotina, de gastar tempo a apreciá-la. Já você... Ah, você...

Às vezes, seguro sua mão e puxo o freio. Você me encara como se quisesse me fuzilar por tirá-la do seu ritmo. Depois, desvia o olhar de mim, e em vez de se adequar ao meu ritmo, como metaforicamente eu pedi, ou que cheguemos a um acordo e ao sempre providencial meio-termo, você acelera e eu lhe alcanço.

Eu sempre lhe alcanço.

Sejamos claros, de clareza iluminadora: quantos passos nos mantêm distantes um do outro? Seriam os que colocam a mim na banca de frutas, enquanto você pondera sobre entressafra com o pessoal da banca de legumes?  Ou aqueles que sempre me prendem na cozinha, entre a pia e a porta de acesso à área de serviço, enquanto você desfila na sala de estar dos amigos?

Quantos passos seriam necessários para que voltássemos a nos encontrar?

Porque há muitas coisas acontecendo e ao mesmo tempo. Muitas dessas muitas coisas eu prefiro deixar do lado de fora de mim. Dentro de mim, somente coisas que permito entrar, e quando não, as que me tomam, deixando-me sem a menor chance de lutar contra, de prosperar na revanche. Coisas que me endoidecem, enfurecem meus sentidos, atrapalham minha plenitude planejada cuidadosamente, como foram os armários da cozinha, e que clareiam o recinto — esse lugar cheio de sombras que me sitia — com suas luzes extravagantes.

Como o sentimento que me habita, mas é por você que respira. Ele que se achegou a mim sem que eu tivesse vontade de recebê-lo. Bem quando eu precisava de silêncio, ele chegou aos berros. Desarrumou minha casa interna, elaborou um plano ousado e conseguiu... Arrancou-me de mim.

Fez-me vibrar por nada. Durante muito tempo. Até perder o fôlego. Até perder a hora de ir para o trabalho. Até perder a noção de tempo e espaço. Até conhecer intimamente a saudade. Até desejar o que jamais desejaria, em nome da autopreservação existencial. Até esvaziar garrafas de vinho. Pacotes de bolacha. Armário de roupas. Bolsas e bolsos de casacos. Até me apaixonar por canções de amor. Canções de dor. Canções de guerra. Longos poemas. Até me doer o silêncio durante a espera pela sua chegada, que quando acontece, mesmo que você não me ofereça nem mesmo um olhar, eu respire o alívio dessa volta.

Há muitas pessoas circulando por aí.

Aqui...

Aqui...


Imagem: A Naiad © John William Waterhouse 

carladias.com



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segunda-feira, 4 de abril de 2016

AUTO DA REPETIÇÃO >> Albir José Inácio da Silva

Natimorto estaria mais certo, mas viveu, o embaraço. Escapou de outras mortes por fome, por sede e por decreto.

Sem teto, sem água, sem pão nem pedra pra recostar a cabeça, foi pra Capital. Alimentou multidões com quase nada — cinco pães e dois peixes.

Sem ter estudado, deu lições aos doutores e escolas aos gentios. Distribuiu milagres como não ousaram ou não puderam fazer os santos e sábios. Atraiu multidões, invejas e ódios.

Abominou as ordálias, as fogueiras, as cruzadas. Combateu o quinto, o dízimo, a derrama e as capitanias hereditárias.

Lutou contra a escravidão, os açoites, a compra de gente e a venda de carne humana.

Brigou por salário-mínimo, carteira, férias. Condenou o trabalho das crianças.

Confortou condenados nas câmaras de gás, fornos crematórios e limpou vômitos no pau-de-arara.

Debaixo de vara, para delírio da platéia, estampou as manchetes.

Diverte-se agora o absoluto julgador:

— Sabes que tenho poder para salvar-te ou condenar-te?

— Todo poder emana do povo.

— Basta! Levem-no ao Tribunal.

Espremido entre a mídia, a multidão e o medo da história, o Pretório contemporiza:

— Não provamos nada. Vamos açoitar e soltar. Não queremos mártires ou heróis. Barrabás, ao contrário, tem contas na Suíça, culpa no cartório e batom na cueca.

Mas a turba se inflama, bate panelas e estende os braços na saudação anauê:

— Solta Barrabás! Solta Barrabás!

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sexta-feira, 1 de abril de 2016

GIRANDO PRATOS >> Paulo Meireles Barguil


Após ouvir, atentamente, o cliente durante quase 27 minutos, o psicólogo disse que ele estava parecendo  malabarista de circo que gira vários pratos ao mesmo tempo, sem deixá-los cair no chão.

A única diferença, contudo, era que ele não estava conseguindo fazê-lo de modo satisfatório, pois sua vida estava se fragmentando em todas as dimensões.

O analista, inclusive, alertou o paciente sobre os possíveis efeitos daquele frenético ritmo, tanto para o presente, quanto para o futuro, e da necessidade de alterar alguns de seus valores, com o que ele, após relutar um pouco, concordou.

Em casa, após ponderar sobre algumas possibilidades, na qual incluiu um curso de equilibrismo, bem como a permuta do profissional, concluiu que a melhor opção era trocar os pratos de vidro por pratos de madeira.

Ele assim o fez e, ainda, dispensou o terapeuta.

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