quinta-feira, 31 de março de 2016

AS PERGUNTAS QUE EU SEMPRE QUIS FAZER
>> Mariana Scherma

Xuxa, quantas vezes na vida você usou Monange de verdade? Ah, as gravações para os comerciais não contam.

Redes gigantes de fast food, nunca sentiram um peso na consciência por oferecer a batata gigante ou o refrigerante maior?

Fulano que acabou de cruzar o caminho (e nem é tão seu amigo assim), você quer mesmo saber se eu estou bem ou acha que oi-tudo-bem é o novo oi?

Pessoa que só reclama, você tem visto a situação trágica das pessoas de Mariana, MG? Acha que pode seguir reclamando do chefe só por conta de um estressezinho?

Manifestantes de redes sociais cansados de corrupção, vocês ficam só na manchete ou leem todo o jornal? Ah, qual site vocês acreditam ser mais confiável?

Quantas vezes você falou obrigado por um favor que lhe prestaram? Não vai dizer que achou que os outros têm obrigação de satisfazê-lo...

Mãe, você sente todo esse orgulho de mim mesmo? E quando foi que você cansou de mim? (Por favor, diga nunca pra essa pergunta.)

Pai, você me acha muito burrinha? Pode falar a verdade...

Galera que adora postar uma frase forte nas redes sociais, qual foi o último livro que vocês leram? Ah, você sabe citar três títulos do Caio Fernando Abreu?

Vó 1, qual segredo você deixou de me contar quando foi embora?

Vó 2, e aquele bolo de banana, hein? Me passa a receita dele em sonho?

Ao dormir, você encosta sua cabeça no travesseiro e apaga ou fica repassando tudo o que poderia ter feito de melhor?

Partilhar

quarta-feira, 30 de março de 2016

O TEORIZADOR >> Carla Dias >>


Para quase tudo: teoria. Reconhecendo o valor de pensar a respeito, elaborar jornadas, vitalizar possibilidades, tornou-se teórico de primeira, daqueles de fazer inveja aos que não querem se dar ao trabalho de aperfeiçoar-se na arte.

Teorizar pede por talento com o qual poucos são abençoados. Esqueça-se dos teorizadores eventuais, que não se aprofundam no tema, têm preguiça infinita de se debruçarem sobre aquela listinha básica do pode-ser-que-sim-pode-ser-que-não e dos resultados de pesquisas.

Chegou à conclusão, após dormir quase vinte e quatro horas seguidas, depois de um turno absurdo de três dias acordado, que teoria é a coisa mais insana — e divertida — desse mundo. Pense bem... Há teoria para tudo nessa vida.

As pessoas adoram escutá-lo discursar sobre qualquer teoria, que ele domina o verbalizar probabilidades. De uma forma mais complexa do que deveria ser, ele teoriza como se, na prática, praticasse o teorizado.

Sim... É meio confuso.

Por isso, ninguém entende o que acontece com o teorizador mais eloquente do planeta.

Sim... Do planeta.

As muitas palestras, sabiamente distribuídas entre segundas, quartas e sextas, têm sido um emaranhado de teorias estranhíssimas. Ainda na segunda, especulou sobre o sentimento competente de bambear de pernas. Durante uma hora e trinta minutos, ele falou sobre o que poderia causar tal resposta física. Os escolados em rebater suas teorias ficaram calados, taquicardia cronometrando a tensão de não saberem o que dizer.

Na quarta, o homem palestrou por uma hora e quarenta e cinco minutos rimando tudo quanto era palavra. Abordou a teoria rítmica do que é dito, e seguiu por aí, rimando palavras estranhíssimas aos ouvidos de estrategistas que o acompanham desde sempre. Caraminholas foram libertadas da cachola de muitos participantes.

Já circula por aí a fofoca-notícia-teoria de que o teorizador perdeu o seu talento. Alguns acreditam que ele voltará para a sua cidade, aquele lugarzinho escondido na transversal de lugar qualquer. Lá, ele levará uma vida eremita, tamanha vergonha por ter se permitido perder talento tão caprichoso.

Na sexta, ele decidiu abalar as estruturas emocionais dos presentes. Durante quase cinco horas, dissertou sobre o desejo de sair da teoria. Sair como? Por quê? As pessoas murmuravam respostas, esgares foram desferidos. Houve quem abandonasse o recinto, enquanto fazia uso de um vocabulário esdrúxulo, exigiam seu dinheiro de volta e acusava o teorizador de ter sido infiel à arte de teorizar.

Arte mesmo, ele responderia aos avessos à sua mudança, enquanto eles fechavam suas mentes ao que o teorizador tinha a ensinar, é sair da teoria para abraçar a prática. Assumir esse compromisso pode ser aterrorizador, mas também catártico.

Até então, seus teorizadores-seguidores jamais haviam escutado sua voz sair assim, entrecortada. Nunca houve em seu tom a desordem emocional que eles presenciavam no momento. Mas ele não se fez de rogado e, pela primeira vez em sua longa carreira como representativo profissional das teorias, colocou em prática a mais intrigante delas.

Foram dias e noites teorizando a respeito, recorrendo aos livros especializados de autores consagrados, entrevistando compositores e autores, especialista nisso e naquilo. Descobriu-se, então...

Descobriu-se.

Na teoria, o teorizador era praticamente um poeta. Saiu do que poderia ser para o feito. Abraçou fatos com a delícia das descobertas.


Foto © Anne Brigman



Partilhar

terça-feira, 29 de março de 2016

NÃO DÁ NEM PARA AJUDAR >> Clara Braga

Chegando em casa, ao estacionar o carro, ela foi abordada por um senhor. Ele precisava de dinheiro para completar o valor necessário para comprar uma bombinha de asmático. Sabendo da gravidade do problema, já que ela também era asmática, não demorou para responder: eu não tenho o dinheiro para te dar, mas eu tenho a bombinha em casa, espera um minuto aqui que eu vou pegar para você. Ao voltar com o remédio o cara tinha sumido, a bombinha nada mais era do que uma desculpa plausível.

Um outro rapaz foi abordado por um outro senhor que precisava urgente de um remédio para o filho. O remédio era caro, não estava disponível na rede pública e ele, recém-desempregado, não tinha dinheiro para comprar. Sabendo que saúde é assunto sério e, provavelmente se colocando na mesma situação, o rapaz levantou da mesa de bar onde estava e se ofereceu para ir até a farmácia comprar o remédio para o senhor. Após levantar, se virou para seguir para a farmácia que ficava ao lado, quando foi falar com o senhor para perguntar o nome do medicamento só conseguiu ver o vulto do homem que sumiu entre as mesas. Mais uma desculpa plausível.

Aquela mulher passa de mesa em mesa explicando o problema da sua filha recém-nascida e diz que ela só pode tomar um tipo de leite específico e, claro, nunca é o leite mais barato do mercado. Enquanto você procura seu dinheiro, a mulher se afasta e canta uma música religiosa. Conheço várias pessoas que ajudaram uma, duas, até três vezes. Mas chegou um ponto que ficou difícil, já tem alguns anos que essa história se repete, essa criança continua recém-nascida e, se você ajuda mesmo sabendo que a história é mentira, percebeu que ela nem canta mais a música. Pelo menos decidiu parar de apelar para o lado religioso.

Em outra situação, o homem, acompanhado de sua esposa e um neném de poucos meses no colo, explica que tem apenas 15 reais no bolso, mas precisa comprar um remédio para o filho e, além disso, precisa de passagem para chegar ao hospital. O filho tem uma consulta e ele não tem mais dinheiro, gastou tudo com outros medicamentos que controlam a doença da criança. Pelo que ele disse, naquele momento ele precisa de 45 reais, sendo que desses 45 já tinha os 15. O casal se comoveu vendo o neném, não era possível que alguém fosse tão cara de pau para mentir com uma criança no colo, completaram o valor que faltava. Mas parece que óleo de peroba é a única coisa que esse povo tem dinheiro para comprar. Observaram o homem por um tempo e viram que ele abordou pelo menos mais três pessoas. Para todas ele disse que precisava dos mesmos 45 reais, ele só esqueceu de falar o valor que já tinha conseguido, continuou falando para todos que tinha apenas 15.

Aquele surdo que entrega um panfletinho que ensina você a falar o alfabeto em libras, pois é, pasmem, não é surdo coisa nenhuma.

De todas essas histórias, me senti a sortuda. Fui a única com um resultado positivo na ajuda. Quando fui abordada em um bar por um senhor que precisava de fralda para o filho, disse que estava só com cartão, não tinha dinheiro, mas como tinha uma farmácia perto, não me importava de ir lá com ele comprar a fralda. Para minha feliz surpresa, ele não sumiu, não deu desculpas, não reclamou, nem nada do tipo. Foi comigo até a farmácia, agradeceu muito, pegou a fralda e seguiu seu caminho. Me senti orgulhosa da boa ação, já que parece que não está fácil nem para quem quer ajudar os outros. Mas, como o mundo não é um mar de rosas, a minha história não podia ser a única diferente. Assim que terminei de contar meu final feliz, fui informada: você sabe que normalmente esse pessoal de rua não nega fralda né, afinal fralda e cigarro funcionam como moeda de troca para eles.

É… depois perguntam por que ninguém confia em ninguém. De agora em diante, o lema é ajudar ou não sem peso na consciência, cada um faz sua parte. E para essas pessoas que enganam os coleguinhas, saibam que eu não desejo mal para ninguém porque energia é algo que volta, mas tô rezando para que o tal ser superior que tudo vê seja um ser bem bravo!

Partilhar

segunda-feira, 28 de março de 2016

LIÇÃO DE CASA >> André Ferrer

─ Fui estragado para a política. Tudo o que os meus pais ensinaram, tantos valores, em todos aqueles anos, impossibilita-me a candidatura. Eis o motivo ─ alertou o rapaz na frente dos quatro senhores. ─ Diz respeito a não mexer nas coisas dos outros, a não prometer o impossível, a não enganar as pessoas, a nunca mentir. Peço desculpas aos senhores. Obrigado. Sinto-me honrado, mas não aceito.

Ele apoiou os cotovelos na mesa e descansou um braço no outro. Assim, encarou cada um dos quatro homens e, em três deles, pelo menos, descobriu uma vontade contida, mas notória, de empregar o qualificativo “moleque”. Charles era o mais novo naquela sala.

─ Estimado rapaz, a ideia foi minha. Tenho certeza de que você fará a diferença.

O presidente do partido estava nervoso, mas era um desses homens conciliadores. Apesar da surpresa, conservava o semblante tranquilo. Seus olhos vagavam ligeiramente de pessoa em pessoa como se assim pudessem construir pontes entre elas. O homem prosseguiu. Dirigia-se, agora, aos diretores do partido:

─ Amigos de luta, os motivos pelos quais eu indiquei o Charles são a sua honestidade e a sua força transformadora. Todos admiram este rapaz na comunidade! É o mentor da associação dos moradores. Idealizou e conseguiu realizar vários projetos.

─ Ele não quer. Esqueça.

─ Eu sou da mesma opinião: esqueça.

─ Andrade! ─ fez o presidente para um dos homens que se manifestara.

─ Sinto muito, mas teremos que encontrar, para este bairro, outro representante do partido na câmara.

─ Imagino, Dr. Andrade, que a sua sugestão seja o Pedro Grão!

─ Exatamente.

Aquela ideia não agradava ao presidente do partido.

─ Por favor, Charles ─ pediu, então, suplicante. ─ Pedro Grão, sem pestanejar, aceitará. Depois da convenção, nada mais poderemos fazer. E se você, rapaz, ficar arrependido? Pedro Grão jamais largará o osso! Pense bem.

─ Arrependimento! ─ disse Charles. No mesmo ato, ergueu um braço, puxou a manga da camisa e verificou as horas no relógio. ─ Fique tranquilo. Não existirá qualquer arrependimento.

─ Acho que é só ─ fez, então, o presidente do partido, que soltou muito ar dos pulmões. ─ Charles deve ter algum compromisso importante. Sugiro que o dispensemos. Ele ministra aulas numa escola de informática. Fique à vontade meu rapaz!

─ Obrigado. Na escola, por enquanto, eu só trabalho de manhã ─ disse Charles, que sorria. Levantava-se. Despedia-se. ─ Agora, estou atrasado para outro compromisso e, realmente, é um compromisso importante.

Majestoso, aquele prédio situava-se numa elevação logo na entrada do bairro. Tinha dois andares e abrigava o Q. G. do Dr. Andrade. O ambiente era climatizado.

Lá fora, o sol distorcia os contornos abrasivos do casario. Apesar do declínio, às cinco e meia da tarde, a luz cozinhava o amianto sujo dos telhados. Qualquer improviso de borracha e arame simplesmente derretia sob aquele halo intenso e vermelho que castigava o mundo. Diante do bairro, Charles comemorou a leveza deixada pelo abandono de um verdadeiro fardo e, em seguida, começou a descer. O calor aumentava durante o trajeto bem como as moscas e o cheiro das manilhas.

Por vários dias, Charles carregara um peso avassalador. Incomparavelmente bom, livrar-se daquilo! Nem a oposição da tarde ao ar-condicionado ─ brusca, cruel, violenta e atroz ─ equiparava-se ao suplício encerrado há poucos minutos.

A casa dele ficava cinco quarteirões bairro adentro. Enquanto vencia a distância, Charles procurava se distrair. Pensava no filho. Teria, já, concluído a lição de casa? O que aprontava o pequeno Lauro àquelas horas?

Partilhar

domingo, 27 de março de 2016

SÃO SÓ TRÊS TAMPINHAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Entrance os dedos das suas mãos, mas deixe os polegares livres. Apoie os polegares, perpendicularmente, no chão ou em alguma outra superfície plana. Você tem as traves. Libere um dos dedos indicadores, de modo que ele também encoste no chão e possa se movimentar para um lado e para o outro. Você tem o goleiro.

O outro jogador está sentado de frente para você. Ele tem os demais atletas: três tampinhas de garrafa, plásticas ou de metal, dispostas em um triângulo. O jogo pode começar.

O outro jogador, usando o dedo indicador, dá um peteleco em uma das tampinhas, de modo que ela passe entre as outras duas. Se a tampinha não passar entre as outras, ou se bater em uma das outras, o outro jogador perde a vez e entrega as tampinhas para você. Você desmonta a sua trave e ele monta a trave dele. É a sua vez de atacar.

Você move a tampinha entre as outras duas tampas, procurando se aproximar da trave do outro jogador. Você pode usar uma das mãos como anteparo para fazer uma tabela e facilitar a passagem da tampinha. Se o espaço entre as duas tampas for muito reduzido, você pode até simular um banho de cuia, um lençol, usando os dois dedos indicadores, um de cada lado da tampinha, para fazê-la subir, girar sobre as duas tampas e parar do outro lado.

Após alguns passes entre tampinhas, você pode arriscar um chute a gol. A tampinha ainda precisa passar entre as outras duas, mas você coloca mais força no peteleco para que ela passe também entre os dois polegares do outro jogador sem que o goleiro dele defenda. Se a bola entrar, você grita gol e fica feliz. O outro jogador desfaz a trave e faz cara feia. Se a bola bater na trave ou não entrar, você se lamenta enquanto o outro jogador sorri, desfaz a trave dele e rearruma as tampinhas para um novo ataque.

Na minha infância, o jogo acabava com a sineta do colégio, indicando o final do recreio. Hoje em dia, o jogo termina quando eu e o Enzo, meu sobrinho de seis anos, já estamos com os dedos, as costas e a bunda cansados. Tempo mais que suficiente para Sofia, minha sobrinha de dois anos, entrar de vez em quando no campo de jogo e gritar gol junto com a gente.

É um jogo econômico. São só três tampinhas que iriam para o lixo ou que virariam artesanato nas mãos criativas e habilidosas de minha mãe. São só três tampinhas, mas podem fazer você, o outro jogador e a pequena torcida felizes até que a sineta toque ou que os corpos cansem. São só três tampinhas. Experimente.

Partilhar

sábado, 26 de março de 2016

A TARTARUGA >> Sergio Geia


Comprei uma tartaruga. De carapaça marrom, com bolas avermelhadas dispostas em forma linear. A cabeça não é alaranjada, nem marrom-avermelhada. É verde. E com grandes olhos negros. Não tem pescoço. Pelo menos não o vejo. O que vejo são quatro pernas grossas e fortes. E um rabo.

Nessa minha vida já vi muitas tartarugas andando por aí. Normalmente, a tartaruga é um animal lento, macambúzio, desanimado da vida. Tem ritmo próprio, e devemos respeitar. É certo que quase sempre dá preguiça apreciar uma tartaruga comendo ou andando; pelo menos assim são os relatos que me chegam de vez em quando, de amigos meus que já viveram a experiência.

Pois a minha tartaruga é bem diferente dessas. É alegre. Eu nunca tinha visto uma tartaruga alegre. A minha é. Ela chega até a sorrir. É bem verdade que quando a comprei, as suas irmãs também pareciam ter a mesma alegria, o mesmo entusiasmo com a vida. Decerto é coisa de genética.

Ela fica paradinha na sala fazendo não sei o quê. Eu passo de um lado, e ela me acompanha com a cabeça. Eu volto, ela volta junto. É uma grande companheira e já me afeiçoei a ela no dia que veio pra cá. Se bem que sou daqueles homens que se afeiçoam fácil a um animal de estimação. Já tive dois. Dois cães. Gato não. Não gosto. Peixe também não. Muito menos hamster. Nunca pensei em ter uma tartaruga. Pois não é que a vida me pregou a peça, e cá estou com a minha!

Veja só. Agora que estou a escrever sobre ela, ela está aqui, sobre a minha mesa de trabalho, me acompanhando com sua cabecinha sempre balançando, como se estivesse a concordar com tudo que digo sobre ela. Vou escrevendo e falando em voz alta. Ela, com os olhos grudados em mim, balança a cabeça. Está certo que dela só falo bem, e aí, até um adorno de sala haverá de concordar.

Pois, amigo, não é que me esqueci de avisar dona Zezé, pessoa que me ajuda aqui em casa com a limpeza e os serviços domésticos, sobre a nova moradora? Fui trabalhar, deixei o dinheiro na estante, e só lá pelas cinco lembrei da coisa toda. Aí já era tarde. Como encontrei tudo do jeito de sempre, casa cheirosa e limpa, a tartaruga no lugar, achei que as duas se entenderam.

E realmente foi verdade. Se bem que dona Zezé me disse que levou um baita susto quando viu a pequena. Ela passava com a vassoura e a cabeça ia junto. Ela voltava e a tartaruga a acompanhava. Uma graça. Depois a examinou com cuidado, e viu que sua cabecinha estava presa na carapaça com um pequeno arame, o que a fazia se movimentar ao sabor do vento.

Só sei que as duas se entenderam e isso é o que importa. Já imaginou se desse lide?


Ilustração:http://www.supercoloring.com



Partilhar

sexta-feira, 25 de março de 2016

UMA PRAÇA, UM HOMEM, UM JORNAL E O DESTINO
>> Zoraya Cesar

Há um homem sentado numa praça lendo um jornal.


A praça é suja e arenosa; pedaços esparsos de grama ressequida pareciam sujeiras não varridas, e os chafarizes estavam tão depredados que suas antigas formas estavam, agora, indistintas. Quem a visse jamais desconfiaria que, num passado não muito distante, ela fora famosa, lugar para crianças brincarem, velhos descansarem, amantes e enamorados trocarem juras de amor eterno. 

Apenas os bancos de ferro, indiferentes à deterioração que um dia atinge a todos os seres e coisas, permaneciam tais quais eram. Aquele, no qual estava sentado o homem que lia o jornal, tinha pés em formato de garras, que lhe davam um aspecto de força e perenidade. Um banco sem frescuras ou tremeliques, feito para durar além do tempo dos homens. Não como esses bancos de madeira, desprezíveis em sua decomposição. Não. Um banco sólido e confiável, capaz de presenciar acontecimentos sem deles dizer palavra.

O local, outrora freqüentado por famílias, há muito estava abandonado, tendo se tornado ermo e perigoso. De vez em quando, drogados ou vagabundos apareciam, mas apenas nas primeiras horas da noite — o sol e a falta de abrigo ou sombra tornavam tudo muito desnudo e devassado para quem preferia a escuridão e o segredo. 

O homem que lia um jornal, sentado no banco daquela praça, estava, portanto, sozinho, àquela hora do lusco-fusco, em que as pessoas de bem estavam se recolhendo à segurança de seus lares, e as de não tão bem ainda não haviam saído de suas tocas. Sozinho estava, excetuando as almas dos mortos, mas as almas dos mortos não contam. Mesmo estando presentes. 

O homem sentado no banco daquela praça abandonada era velho, indubitavelmente velho. As roupas não eram novas, mas estavam em bom estado, desmentindo o aspecto de desleixo que lhe davam os cabelos e a barba branco-encardidos. Sentava-se ereto e rígido. Por trás dos óculos, estreitos olhos, de um azul líquido, brilhavam uma luz sinistra e satisfeita. As mãos, grandes e poderosas, terminavam em dedos grossos e nodosos, cobertos por manchas senis. Mãos violentas. Que, no entanto, seguravam o jornal com delicadeza de ourives. 

Há muitos anos, sempre naquela data, não importando eventuais intempéries, doenças, circunstâncias quaisquer, ele vinha à praça, sentava-se no mesmo banco e punha-se a ler aquela mesma notícia no jornal, incontáveis vezes, sempre com o mesmo prazer, aquele mesmo meio-sorriso fino e cruel. À medida que a violência crescia na região, tornando-a cada vez mais inóspita, ele passou a chegar e a sair mais cedo. Não naquele dia, porém. 

Fazia 25 anos do ocorrido, e, de tão emocionado, perdeu-se nas memórias do tempo e deixou-se ficar entardecer adentro, lendo, lendo, lendo.

Uma foto ilustrava a matéria, a de uma jovem quase bonita, de pele muito branca e cabelos curtos e pretos. Seus lábios protuberantes sorriam, largos, parecendo dizer “faço o que quero dos homens e gosto do perigo". Uma boca sensual e desaforada. Abaixo, a legenda: “Marilice de Abreu, estrangulada no banco da praça X...” . A mesma praça e o mesmo banco onde sentava o homem de olhos líquidos.  O assassino nunca fora encontrado.

O homem sorriu e apertou as poderosas mãos, sentindo ainda a resistência do pescoço de Marilice, o último estertor, o lento desfalecer de seu corpo inerte — estranho, pensou, como a ausência de vida deixa o corpo mais pesado, ao invés de mais leve. Sentiu ainda a leveza do tecido do vestido ao deitá-la cuidadosamente no banco. Marilice podia ser desabusada, mas era muito elegante; só porque ousara traí-lo e abandoná-lo, não merecia ser largada de qualquer jeito.

Sorvia o frisson da vingança e a tranquilidade dos impunes, quando sentiu uma dor aguda e ardente no pescoço, por onde o sangue esguichava, um jato de vida colorindo a paisagem árida. 

O vagabundo que o esfaqueara praguejou, ao ver a roupa que cobiçara manchada de sangue. Agachou-se em frente ao corpo quase exangue do velho assassino, roubou-lhe os sapatos e as meias. Ainda tentou pegar, também, o jornal, mas a mão do velho, num último espasmo, segurou firmemente o papel. Que se dane, pensou o vagabundo, afastando-se de volta para seu submundo. 

A última coisa que o homem sentado no banco da praça viu foi a boca descarada de Marilice, pintada de vermelho-seu-sangue, sorrindo para ele.  



Partilhar

quinta-feira, 24 de março de 2016

ENTRE COXINHAS E MORTADELAS>> Analu Faria

Não gosto de coxinhas nem de mortadelas. Aliás, sou vegetariana.

Não sou nem #teammoro nem #teamlula. Ando sendo #teamdeboche.

Não consigo me imaginar apoiando qualquer dos lados, porque isso endossa a falcatrua do lado apoiado e há MUITA sujeira dos dois lados.

Não consigo parar de pensar que essa crise política está fazendo aflorar o pior de nós. Alguns xingamentos fariam Derci Gonçalves parecer um Ursinho Carinhoso. Há opiniões beirando a insanidade, de gente que sempre me pareceu muito sã.

Não estou nem aí para quem exige que eu "saia de cima do muro". Lembro-me de Groucho Marx: "Humour is reason gone mad." Em tradução livre: "O humor é a razão enlouquecida". Se eu for perder cabeça, que seja pelas ótimas piadas que aqui no muro a gente anda fazendo com esse imbróglio todo.




Partilhar

quarta-feira, 23 de março de 2016

PÉS SOBRE A MESA DE CENTRO >> Carla Dias >>


Não se preocupe, sou ninguém. Não vou atrapalhar os seus planos ou sonhos, tampouco desorganizar a sua organização tão precisa. Não colocarei pés sobre a sua mesa de centro, até porque ela é sua, não minha. Na minha, eu confesso, coloco mesmo e por puro desejo de me sentir confortável.

Se um dia se sentir rebelde, coloque os pés sobre a sua mesa de centro, e bem em dia de assistir a um filme preferido, e pela sabe-se lá qual vez. Prometo que não tem nada a ver com deselegância. Lembre-se: conforto pró-apreciação de filme preferido.

Porém, que fique registrado o meu interesse pelo o que você sente e pensa e faz. Não sou indiferente a você, só porque você acredita que não saberei me comportar diante das suas certezas, porque já nasci equivocado. Pode até ser que eu tenha mesmo nascido assim, meio torto. Mas nem de longe isso me incomoda, que a retidão, sobre a qual meu avô costumava discursar, durante o café da manhã, aquela sempre me pareceu frágil, mas ainda assim, ela me convenceu. Por isso não me rendo a essa, a que não tem função de educar, de quando já passamos do ponto do aprendizado e entramos no universo das desculpas. A retidão dos beneficiados pelas facilidades... Essa se verga de acordo com o incômodo de cada um. De acordo com desejos pessoais.

Como dizem por aí, essa retidão “tem sua própria agenda”.

Definitivamente, você não precisa se preocupar comigo. E, por mais absurdo que lhe pareça, não estou aqui para insultá-lo, baseando-me no fato de não ser a mesma pessoa que você. Que chato seria o mundo, não? Estou aqui, porque me interesso pelo outro. Porque a curiosidade a respeito do que não penso e não sinto e não faço é um convite ao conhecimento ou, no mínimo, à compreensão a respeito do caminho escolhido pelo outro.

O outro me interessa.

Lamento por você não saber como é catártico e educativo se interessar pelo outro. É um pouco como colocar os pés sobre a mesa de centro. É preciso que, nesta casa, as pessoas saibam que tal gesto não tem a função de desrespeitar normas, atacar tradição, escancarar com a educação. Trata-se do que é mesmo: um conforto para se assistir ao filme preferido.

Às vezes, a melhor forma de se respeitar o outro é dar a ele a chance de perceber que, talvez, ele queria a mesma coisa que a gente, mas não entendeu que não é preciso travar batalhas para alcançar esse objetivo. É preferível que travemos batalhas em nome de todos, não somente no nosso, ao menos quando se trata do coletivo. É nessa hora, na do coletivo, que temos de olhar a nossa existência como o que somos: parte de um todo.

Você não precisa me amar de paixão. Não se preocupe comigo, que sou ninguém na pauta da sua realidade. Não é necessário que me aprenda ou dispense atenção às minhas histórias, as inventadas e as vividas. Um dos pontos positivos de se aceitar que a vida vai além de nós mesmos, é que também nos damos conta de que não deixamos de existir somente porque nos ignoram. Ao menos, é o que aprendi com meu filme preferido.

Imagem: Christmas Morning © Andrew Wyeth



Partilhar

terça-feira, 22 de março de 2016

MEU PRIMEIRO PÓDIO... OPS, PASSOU!
>> Clara Braga

Brasília, domingo, dia 13 de março de 2016, para ser mais exata. Não sei dar a hora certa, mas sei que não passava das dez da manhã.

Após uma corrida que acontecia no setor de embaixadas, começou a famosa entrega dos prêmios. Primeiro, como de costume, a premiação dos finalistas gerais, normalmente apelidados de quenianos, mesmo não sendo. Depois, a premiação por faixa etária, ou seja, premiação dos quase mortais.

Quando chegou a premiação da faixa dos 17 aos 29 anos, aconteceu o inesperado. O cara chamou: "Primeiro lugar, Clara Braga, inscrição número 274! Clara Braga? A Clara não está ai gente? Bom, então vamos seguir."

Como podem ver, a história não passa de uma livre interpretação, afinal essa é a história de como eu perdi a medalha do meu primeiro e talvez único pódio. Fui embora feliz, tinha conseguido diminuir dois minutos do meu tempo, estava morta, acabada, assisti à premiação da treinadora da equipe, segundo lugar geral, ou seja, queniana, e fui embora, afinal a única certeza que eu tinha era que, embora tivesse melhorado bastante meu resultado pessoal, eu não tinha tempo para pódio. Aliás, a distância entre o meu tempo para os tempos comuns de premiação era tão considerável que não cheguei nem a olhar o resultado final no site nos dias após a corrida, fui descobrir sobre essa classificação por causa de um colega, que olhou e me avisou.

Não posso negar, tive meu momento de vaidade. Na hora em que ele comentou comigo, fiquei toda feliz, nossa, nem acreditei! Bateu aquela sensação de empoderamento, não me sentia nem uma quase mortal, já estava me sentindo a verdadeira queniana, capaz de mover montanhas. Mas como alegria de pobre dura pouco...

Cheguei em casa e nem pensei duas vezes, fui direto olhar o tal resultado. Esse era um daqueles momentos que você fotografa, manda pro grupo da família no WhatsApp, compartilha no Facebook, emoldura o resultado e prende na parede junto com a medalha. Tirando a parte de emoldurar o resultado, o resto aconteceu, mas acompanhado uma uma longa risada.

É, quando abri o site a crise de riso foi inevitável! O pódio era mais que garantido, afinal a corrida estava tão vazia que na minha faixa etária só tinha eu e mais uma menina inscrita. Eu podia ter feito uma caminhada no lugar da corrida e ainda assim teria o segundo lugar garantido.

Não sei dizer se a minha única concorrente estava lá para receber a medalha dela, mas hoje queria dedicar essa crônica a ela, essa desconhecida que assim como eu não teve uma classificação geral muito boa mas, graças a essa corrida supervazia, nós tivemos nossa chance do gostinho do pódio.

Quer dizer, eu quase senti o gostinho do pódio, mas fui embora antes. Se eu conhecesse a menina, com certeza iria falar com ela para rirmos juntas da situação, e falaria para ela não desistir, continuar treinando, afinal o que vale são os resultados pessoais, e esses estão melhorando. Mas como não a conheço, vou deixar o meu lado malvada falar um pouco mais alto: das duas, pelo menos não fui a última, ufa!

Partilhar

sábado, 19 de março de 2016

VERTIGEM, EDUCAÇÃO E AS PALAVRAS DE CECÍLIA
>> Cristiana Moura

Ando atordoada nesses últimos dias. Sim, refiro-me ao cenário político, econômico e, por que não dizer, afetivo do nosso país. São momentos tensos, vertiginosos, de pouca tolerância, com a dificuldade de conviver com as diferenças que faz do mundo um lugar difícil de habitar.

Vivi infância em tempos de ditadura, sem internet, redes sociais, onde os livros de história para crianças contavam histórias outras que não a que vivíamos. Livros que mencionavam negros e indígenas apenas na parte intitulada folclore. O mundo ia passando e eu não o sabia. Hoje acordei assim, tonta de memórias e do presente parecendo visto por véus.  Fui, então, surpreendida pelas palavras de Cecília em sua redação intitulada "Por que a Educação é um Tesouro Valioso?". Cecília tem onze anos e nos disse sobre o que vê:

"É difícil dizer se o mundo está melhorando, piorando ou andando no mesmo caminho, mas de uma coisa ninguém pode discordar: mais bocas estão se abrindo para falar".

Respirei.


Partilhar

sexta-feira, 18 de março de 2016

COMO VOCÊ MEDE O TEMPO? >> Paulo Meireles Barguil

Raios do Sol

Luas

Abraços

Grãos de areia

Velas

Beijos

Gotas d'água

Segundos

Cabelos

Suspiros

Como você mede o tempo?

Partilhar

quinta-feira, 17 de março de 2016

GASTRITE NÍVEL: ENGOLI BRASÍLIA
>> Mariana Scherma

O trabalho não é o que define a gente. Não é só o que define a gente, eu diria. A vida fora da empresa também conta. Então, por que estresse com o emprego? Por que a gente traz tanto problema pra casa e fica mais esgotado ainda do que deveria? Que eu saiba ninguém ganha adicional por estresse. Pelas trezentas vezes que você sentiu uma gastrite parecida com a sensação de engolir o caos político de Brasília, eu sugiro: ligue o foda-se.

Esse botão específico do foda-se não é o do trabalhe mal, faça tudo meia boca, entre nas suas redes sociais enquanto relatórios o esperam, não, isso não. Fazer o trabalho bem feito é pré-requisito pra dormir bem, pra contar piada na mesa de amigos e levar a vida mais leve. Faça seu trabalho bem feito durante o período em que você é pago (ou mal pago, eita crise) pra isso. Não desconte suas frustrações nos colegas, não faça um boneco de vudu do chefe (ou faça, só não poste no Instagram). Trabalhe de uma forma que, ao fim do dia, você pense: fiz meu melhor, agora vou viver a parte 2, 3 ou 4 da minha vida.

Esse conselho é pra mim também. A gente não consegue mudar a política de uma empresa. Nem a cabeça do boss. A gente tem que fazer mais do que consegue em horário de expediente. Ok, é duro. Mas bateu o ponto, guarde seu crachá e vá ser todas as suas outras facetas. Problema de trabalho fica no escritório. Ouviu o que não deveria? Fale. Ou escreva, às vezes sai mais coeso. Não engula. A cada sapo que a gente engole, nos afundamos um pouco mais no brejo que pode virar nossa insatisfação.

A gente vai ter muito motivo pra ter cabelo branco. Mas não deixe que esses motivos sejam seu jeito workaholic de encarar o dia a dia. Estresse deve ser proporcional ao seu cargo and salário. Se você não é chefe, vamos rir mais. Ganhar pouco, afinal, precisa ter seus benefícios, oras.

Partilhar

quarta-feira, 16 de março de 2016

GAROTOS >> Carla Dias >>


Assisti a um filme e gostei. Tudo bem que, neste momento, talvez você esteja interessado em ler sobre outros assuntos. Mas é que realmente gostei do filme, e estou tão zonza com os assuntos que estão em destaque, que acho que melhor mesmo é falar sobre o filme.

Vou começar protestando... Isso mesmo! Protestando, mais uma vez, pelo título brasileiro. As pessoas assistem ao filme antes de dar a eles títulos ou se baseiam no trailer e na sinopse? Bom, considerando que até mesmo a classificação anda capenga — o que já assisti de comédia que não é comédia —, Histórias de Amor (Liberal Arts/2012) pode até ter história de amor, mas não é o romance o tema principal, e sim o condutor da grande questão: a passagem do tempo. A arte de envelhecer. A faculdade como cenário.

Jesse Fisher (Josh Radnor) tem trinta e cinco anos e uma vida bem pacata. São os livros, pelos quais é apaixonado, que dão certa cor a sua realidade. Quando seu professor da época da faculdade, Peter Hoberg (Richard Jenkins), o convida para um jantar de aposentadoria, Fisher retorna ao local onde ele sonhou um futuro bem diferente do que se tornou seu presente.


Após mais de trinta anos vivendo no mesmo lugar, e à mercê das repetições de uma vida acadêmica, Hoberg se sente aterrorizado com a possibilidade de não saber viver outra coisa senão o papel de professor daquela faculdade. Em determinado momento, ele diz a Fischer que se sente como se tivesse dezenove anos, ainda que isso fosse desmentido a cada vez que se olhasse no espelho.

Sim, Fisher conhece uma garota, uma jovem estudante de dezenove anos, Lizzy (Elizabeth Olsen). Ela é madura para sua idade, inteligente e perspicaz, e faz com que ele se sinta mais vivo do que nunca. Ao mesmo tempo, trata-se de um homem de trinta e cinco anos e uma jovem de dezenove. Não são questões sociais que o levam a pensar que, por mais interessante que ela seja, é um risco muito grande se relacionar com ela. Quando ele se comporta como um adolescente, contabilizando diferença de idade entre eles, de forma que ela pareça fazer sentido, ele se dá conta de que a diferença é outra. Lizzy tem um grande repertório de qualidades sedutoras, mas ainda é uma jovem que não viveu o que ele já viveu.

Outros dois personagens tornam o filme ainda mais interessante. Fisher conhece Dean (John Magaro) nessa volta à faculdade. Ele se interessa pelo estudante por conta de ele gostar de um livro que Fisher adora. Os breves encontros entre eles abordam a vida na teoria e na prática. Ambos são intelectuais, o rapaz é super inteligente. Mas ambos, adulto e jovem, vivem mais por meio dos livros do que vivendo.

O excesso, definitivamente, não é bom.

O segundo personagem se tornou um dos meus preferidos. Nat (Zac Efron) vive no campus, mas diz visitar um amigo, então fica por lá, fazendo nada e participando das festas. É um hippie contemporâneo, com diálogos muito bacanas. Efron interpreta Nat muito bem.

Tanto Dean quanto Nat parecem guiar Fischer ao rumo da maturidade. Tenho a impressão que ele via a si nesses garotos.

O filme foi escrito e dirigido por Radnor. É o segundo filme dele. Sei que, como ator, muitos o conhecem por causa da série How I Meet Your Mother. Para mim, que não acompanhei a série, foi a primeira vez que o vi atuando e gostei. Depois, vieram as informações de que ele escreveu e dirigiu o filme, o que me deixou bem satisfeita, que acho Liberal Arts um ótimo filme sobre meninos adultos se descobrindo somente adultos.

Gosto muito de como os livros fazem parte da trama. Também amo livros, Fischer-Radnor!





Partilhar

terça-feira, 15 de março de 2016

ACABOU O AMOR? >> Clara Braga

Ter ciúmes faz parte de amar?

Amar é sofrer independente do amor ser correspondido ou platônico?

Amor e ódio são sentimentos próximos ou opostos?

A paixão acaba quando o amor começa, como se a paixão fosse uma etapa para o amor?

Amar é um sentimento exclusivo de uma pessoa para outra ou é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?

O amor está mais para a tranquilidade da rotina ou para borboletas no estômago?

Existe amor eterno ou só é mesmo eterno enquanto dura?

Só é feliz quem ama?

Você só conhece mesmo a pessoa quando deixa de amar?

Quando a questão é o amor, muitas são as perguntas e poucas as respostas. Mas o que não falta são tentativas de definir esse tal desse amor, nunca vi, as pessoas tem necessidade de explicar tudo, deve ser um jeito de se sentirem no controle, como se não entender algo fosse estar muito vulnerável.

Essa semana, Brasília parou por causa de um crime que chocou todo mundo. Um jovem de 19 anos assassinou sua ex-namorada por não aceitar o término do relacionamento. Ele assumiu o crime, ganhou o direito de ter uma coletiva de imprensa, como se fosse um Michael Jackson da vida, explicou para quem quisesse copiar o passo a passo do crime sem se abalar, chegando até a rir em determinados momentos. Em outro, assumiu que sim, teve vontade de fazer sexo com o cadáver da ex -namorada, mas desistiu, como se tudo que ele já havia feito não fosse o bastante.

O caso vem sendo noticiado repetidas vezes, as pessoas comentam, expõem suas opiniões, prestam suas homenagens, oferecem apoio à família e se perguntam, onde esse mundo vai parar? Porém, uma reportagem específica me chamou a atenção, já nem me lembro onde foi que eu li, mas sei que o jornalista teve a ousadia de dizer que o rapaz matou por amor.

Me desculpem a intromissão, não sou poeta nem estudiosa de linguística para tentar definir palavras, mas entendo um pouco de atitudes e afirmo sem medo que ninguém mata por amor, a não ser simbolicamente.

Como eu disse antes, dos que tentaram definir o amor, poucos foram bem sucedidos, afinal amor não é pra explicar, amor é para sentir e demonstrar. Mas se tem uma coisa que é fácil, é definir o que não é amor, e crime nenhum pode ser considerado amor.

O ato desse rapaz tem nome, chama-se feminicídio, e essa palavra sim deve ser definida, debatida, combatida e tudo mais que for possível. Não cometam o crime de comparar algo tão grave com algo tão belo, um psicopata desses não tem amor, muito pelo contrário, atos como esse só acontecem quando a ausência do amor é tão grande que só resta o egoísmo, isso para não usar outras palavras mais pesadas.

Onde há amor não há qualquer tipo de violência, onde há amor só existe espaço para o respeito.

Partilhar

segunda-feira, 14 de março de 2016

A GRANDILOQUÊNCIA >> André Ferrer

Para Don DeLillo (1936- ), o grande romance americano é um mito. DeLillo é um daqueles escritores que constroem verdadeiros painéis sobre a política e a sociedade do seu país. Como Philip Roth (nascido em 1933 e aposentado em 2012), John Updike (1932-2009), Saul Bellow (1915-2005) e Norman Mailer (1923-2007), DeLillo não parece ter feito outra coisa nos seus mais de 50 anos de carreira a não ser perseguir um tipo de romance capaz de dissecar e explicar a América.

Negar essa corrida do ouro, com uma pitada de humor e sarcasmo, parece fazer parte do jogo nos EUA. Toda a elite literária costuma fazer piada a respeito disso. Em público, o que move os escritores é a distração dos olhos desse ponto crucial. Agora, em seus escritórios, dada a qualidade do produto acabado, a conversa parece ser bem diferente.

O grande romance americano é um ideal mais ou menos inconfessável, mas que tem cumprido a função de ideal. Pode até ser um mito, contudo é um mito que eleva o padrão da literatura, aquece o mercado e dá ânimo aos leitores.

No Brasil, muita gente gargalharia se alguém confessasse andar no encalço do grande romance brasileiro. Em primeiro lugar, existe uma forte rejeição à narrativa por aqui.

Nos anos de 1970, a prosa poética tomou conta de corações e mentes. Nossos narradores, com a exceção de uns poucos como Carlos Heitor Cony (1926- ), Antônio Callado (1917-1997), João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), converteram-se em poetas prosadores (ou prosadores poetas). O processo de análise e síntese da nação brasileira pela narrativa foi, então, adiado. Na verdade, entre 1980 e 2000, ele até mexeu as pernas, muito de leve, alongou os braços, bocejou um pouco.

Em segundo lugar, temos vergonha (ou medo) de uma tarefa tão grandiloquente. Dissecar o Brasil seria, então, um trabalho para os brasilianistas de Yale e Columbia e não para intelectuais nativos? Por quê? Talvez porque a nossa experiência sempre tenha sido péssima em relação a projetos grandiloquentes. Não, nós não temos o equipamento ianque de manutenção de ideais. A grandiloquência cobra um preço muito alto. No mínimo, o preço de se manter no encalço de um objetivo semovente.

Nos EUA, neste caso (e em muitos outros casos), o "know-how" é imbatível.

Partilhar

sábado, 12 de março de 2016

DIÁRIO DE DOMINGO >> Sergio Geia


No final da oitava volta, encontrei tio Milton saindo da igreja. Como sempre, perguntou de minha mãe, que luta contra um câncer, das crianças, e, por último, de mim. Tio Milton também não anda bem. Disse-me que é problema de intestino. Outro dia fez exames. Come pouco, mais cozidos, algum legume, vegetais “brócolis não”, nada de gordura ou abusos. Disse-me que no geral vai indo. Depois acrescentou: “como Deus quer”.

Tio Milton é o mais velho dos irmãos de meu pai. Ou seria tia Dayse a mais velha? Acho que sim. Tia Dayse era a mais velha dos irmãos de meu pai. Tio Milton veio depois. Viúvo, é meu vizinho aqui na JK. Lembro-me dos Natais na casa da minha avó, na professor Moreira. Tio Milton nos presenteava com uma caixa de Bis embrulhada em papel de presente. Todos os anos o presente não falhava. De tudo que ganhava, de brinquedinhos e badulaques, camisas e cuecas, era o Bis do tio Milton o presente que mais gostava.

Sua esposa sucumbiu ao câncer. Ele tinha experiência nesse tipo de batalha. Aliás, toda nossa família tinha. Perdemos tio Ademar, tia Dayse, tia Teresa — a esposa do tio Milton, e meu pai. Disse-me que tia Teresa submeteu-se a dez sessões de quimioterapia e radioterapia simultaneamente. Não aguentou. Nunca mais saiu da cama. O tratamento abriu feridas internas inimagináveis. Ela não conseguia comer.

Baixei no supermercado para uma comprinha. Mas, amigo, como as coisas andam caras!? Já viu o preço do azeite? E do condicionador? Desodorante então! Os produtos sobem todos os dias e o salário é uma galinha morta. Quem é servidor público então, como eu, tá danado. Aumentar salário de servidor público é um crime contra a humanidade.

Roseli, minha prima, esteve aqui em casa pra pegar um violão. Pediu emprestado. Disse que vai esperar pra ver se Brendinha engrena nas aulas. Pois dei de presente. Como diz um velho amigo, temos que simplificar as coisas, e hoje sou daqueles que têm mais passado que futuro. Já tenho um violão aqui na sala, que toco de vez em quando, pra que dois? “Emprestado não, Roseli. É presente meu”.

Fui almoçar com minha mãe no clube. Sonhava com feijoada gorda, torresminho, uns gominhos de laranja, cachaça pra abrir o apetite. Nada. Tive que me contentar com um bom churrasco. Bateu saudades do Pelourinho. Pois lá experimentei uma feijoada dos deuses, biscoito fino. O baiano sabe fazer uma feijoada carioca.

O clube anda cheio aos domingos. O calor empurra a criançada para a piscina. Mesmo assim minha mãe sentiu falta de encontrar amigos. A velha guarda não apareceu. Mas elogiou a coxinha, disse que o tempero estava bom. “Pois se você está dizendo, deve estar mesmo”. Ela me olhou torto.

De volta a casa dei uma espiada na televisão. Os programas de domingo estão ruins. Lembrei-me da manga. Sim, tinha manga na geladeira, uma manga-rosa que não amadurecia. No sábado, tratei de deslocá-la pra fruteira. Não é que deu certo? Estava boa a danada.

Deitei pensando na vizinha. Será casada? Solteira? Mas logo o pensamento me abandonou. Dormi.

Partilhar

sexta-feira, 11 de março de 2016

NOITE NOIR >> Zoraya Cesar

Kairós - em grego antigo: o momento oportuno, perfeito ou crucial, o acerto fugaz entre tempo e espaço que cria uma atmosfera propícia para ação.

A rua estava mal e mal iluminada por um único poste, cuja luz, baça e amarelenta, era sugada pelo beco, que mais parecia um buraco negro. Era uma noite de inverno sem lua, e o frio seco, que o vento espalhava aleatoriamente para todos os lados, gelava os ossos mais duros. Os ossos mais duros, pensou Raymond, também sentem dor.

Encostado ao poste carcomido pela ferrugem, ele acendeu um cigarro, que, por breves instantes, brilhou como um vaga-lume de vida curta. Aspirou a fumaça, aquecendo os pulmões, e soltou-a lentamente, seus pensamentos acompanhando os desenhos que se desenrolavam no ar. Tragou o cigarro mais uma vez; tragou algumas lembranças também, a garganta apertada e ardida. Ele bem queria que as memórias se esvanecessem na noite, junto com a fumaça. Ele bem queria esquecer os momentos de terror que passara há alguns anos, numa noite bastante parecida com aquela — em que foi espancado com tacos de beisebol pelos comparsas de Sore Mal e jogado da ponte, de uma altura vertiginosa, direto para a morte enregelante do rio. Mas a morte não viera: mandou em seu lugar a dor lancinante e interminável; o choque pelo frio causado pela água, que paralisou seu coração por breves, intermináveis, excruciantes momentos; e um desejo imorredouro de vingança, que os anos não arrefeceram. Ele bem queria esquecer, mas seu corpo, cheio de cicatrizes e calos ósseos tão dolorosos que ele mal dormia, não lhe permitia.

Devaneava naquele ermo. Talvez o frio e a solidão o deixassem meio nostálgico. Acreditava em destino. Pois não fora obra do destino, esse senhor arbitrário e cheio de vontades, que o fizera cair em desgraça com o pior bandido da cidade, Sore Mal? E não fora também obra do destino ter escapado com vida do atentado? No entanto, ele também acreditava que a vida se movia em ondas de oportunidades. Se você não as navegasse, elas te esmagavam. Sore Mal já fora rico e poderoso. Seu império decaíra, mas ele continuava no métier, extorquindo, ameaçando, tentando voltar a ser temível, farejando a primeira oportunidade.

Raymond espreguiçou o corpo enrijecido pela imobilidade e pelo frio. Não precisou olhar o relógio para ver as horas. Sabia que seu turno de vigia tinha terminado, sem que o alcaguete que esperava tivesse chegado. Estava cansado, no dia seguinte recomeçaria seu trabalho, resolveu ir embora; o lugar era perigoso, mesmo para alguém como ele, acostumado às sombras, aos desvios, aos desvãos da noite mais escura da cidade. Puxou vigorosamente a última tragada. A cinza, incandescida, iluminou um vulto ao longe, no fim da rua. Raymond apagou o cigarro, engoliu a fumaça e se escondeu ainda mais nas sombras.

Não podia ser! O andar ligeiramente manquitolante, aquela maneira de mexer os braços...

O que ele estava fazendo ali, àquela hora, numa rua onde não havia bares, prostíbulos, pequenos comerciantes, nada que ele pudesse achacar ou explorar?

Encontrar seu Destino, com D maiúsculo. E seu Destino estava nas mãos de Raymond. E Raymond tinha poucos segundos para decidir o que fazer. Nunca mais teria uma chance como aquela, encontrar Sore Mal desavisado, desacompanhado, no escuro, sem testemunhas. Oportunidade. Aproveite-a ou afogue-se. Raymond nunca fora assassino a sangue-frio, nunca matara pelas costas.

Sore Mal passou por ele, sem vê-lo ou pressenti-lo, e quando sentiu a faca cortando seu pescoço já era tarde demais. As últimas palavras que ouviu foram as de Raymond mandando lembranças ao Diabo.

Raymond nunca matara pelas costas, mas sempre tem uma primeira vez. Raymond nunca fora assassino a sangue-frio. Mas seu sangue estava em ebulição.

Ele guardou o distintivo, limpou a faca e foi embora. Livre. Seu corpo nunca mais doeu.




Partilhar

quinta-feira, 10 de março de 2016

O MELHOR LUGAR DO MUNDO >> Analu Faria

A maior agonia do ansioso é o silêncio. E também o menos. A casa sem móveis. O interlocutor de poucos gestos. A folha em branco. No meu caso, a falta de palavras (não necessariamente silêncio) é o mais assustador.

Desde que voltei a meditar, porém, tenho me contentado com sensações mais que com excesso de discurso. Aliás, discurso bom é discurso pouco. Na hora certa, do jeito certo. Chego a pensar até que se não for palavra de impacto, não vale sair do corpo.

No filme “Pegando Fogo”, o personagem principal, um chef de cozinha, diz a alguém: “Quero fazer comida tão boa que faça as pessoas quererem parar de comer.”

Da minha parte, quero que o espaço entre as palavras possa me abraçar. Já seria um feito e tanto.

Partilhar

quarta-feira, 9 de março de 2016

DELICADO >> Carla Dias >>


Tudo tão delicado...

Não de delicadeza de olhar fascinado. Não de delicadeza das manhãs em que se acorda antes da rotina e se amanhece junto com o dia. É delicado nevrálgico, de dor latente, de palavra ferindo fundo, como ferem alguns tons do silêncio.

Estratégicas amarras vestem-se de liberdade, somente para acossá-la. Quando a prisão cai na passarela da vida travestida de liberdade, o abismo parece multicolor, em um primeiro olhar.

Delicado de jeito que melhor é conter a língua, essa doida que anda doida para soltar palavras que reverberem o descabido. Mas desde quando descaber é pecado ou crime?

Delicado, mas não de delicadeza oriunda das emoções esbaforidas, das que transitam pelo corpo, em segredo, apenas para apreciar prazer na solidão de si mesmo. Não da delicadeza do sorriso desarmado, do toque parido para o puro ato de entretenimento da tez do outro.

Delicado que tem na mágoa o alimento, e propaga desconexão no pensamento e na alma. E impacienta, melindra, reverbera ofensas como se recitasse o mais longo poema.

Tudo tão delicado...

Não de tenuidade que provoca o choro de emoção reprimida se libertando do peito. Tampouco da legitimidade das sutilezas do dentro. Delicado como que vociferando indigências.

É preciso tempo para observar e sabedoria para compreender. É preciso, quando necessário, capacidade de se perceber divergente a respeito do que parecia tão claro há alguns minutos. Que tudo anda tão delicado... Delicado de um jeito cruel, de patrocinar fins para relacionamentos em construção, desacordo na conta do que deveria ser desejo de todos.

Tudo tão delicado...

Imagem: Triumph Des Todes © Felix Nussbaum



Partilhar

terça-feira, 8 de março de 2016

DAS COISAS BÁSICAS DA VIDA >> CLARA BRAGA

Quando o despertador toca começa a rotina. Levantar, escolher qual roupa limpinha vou usar, ir ao banheiro e ter sempre papel higiênico. Depois do café é só escovar os dentes com a escova nova, com o tubo de pasta cheio. E se for dias de glória, na gaveta sempre tem um absorvente novinho em folha para segurar o dia. Aliás, se o dia for muito longo, na bolsa vai outro também limpinho, junto com um creme de mão e um álcool em gel para garantir a higiene caso vá fazer uma refeição fora de casa.

Pasta e escova de dentes, papel higiênico, creme, absorvente, desodorante, perfume, álcool, todos objetos tão comuns e tão básicos no nosso dia a dia que ninguém para e fica refletindo muito a respeito deles, a não ser quando falta.

Ninguém pensa no quão importante é o papel higiênico até ele acabar e você ainda estar lá, sentadinho no trono. Ou no quão importante os absorventes são na vida da mulher, até ele vazar te deixando suja e o pacote da gaveta estar vazio! Ou ainda aquele jantar surpresa que seu namorado programa para quando você sair do trabalho e você, desprevenida, percebe que precisa renovar o desodorante, mas não tem um em mãos.

Enfim, poderia citar várias situações desconfortáveis e, ainda assim, nenhuma seria considerada um problema gigantesco, afinal, com uma ida à farmácia já se resolve tudo. E é exatamente por essa facilidade e pelo uso automático desses objetos que quase ninguém para e pensa que, para outras pessoas, todos esses itens são artigos de luxo!

Sim, mais perto de você do que você imagina tem uma mulher que não sabe quando a próxima menstruação dela vai descer, mas sabe que, quando acontecer, ela não vai ter um absorvente para colocar, isso se tiver uma calcinha.

Eu mesma confesso que nunca tinha pensado nisso até ver uma reportagem genial no jornal. Duas meninas, após serem abordadas em mesas de bar por mulheres de rua em busca de absorvente, começaram uma campanha muito legal. Elas juntam bolsas que não usam mais, enchem com esses itens básicos e saem na rua distribuindo para mulheres em situação de risco. Me apaixonei instantaneamente pela campanha, é o melhor exemplo de que para fazer sua parte e ajudar o próximo é só querer, não tem desculpa de dinheiro ou de tempo. Nada mais prático do que pegar uma bolsa que você não usa e encher de itens que você já vai ter que comprar mesmo, afinal, você não vai ficar sem. Deixar a bolsa dentro do carro e quando vir uma mulher que necessite desses itens, você doa. Não precisa ligar para lugar nenhum, não precisa ir doar em um local específico, não precisa entrar em contato com ninguém para ir buscar a doação, é só fazer seu kit e doar quando puder para quem julgar necessário. Poderia ser mais lindo que isso? Acho que não!

Depois de ler sobre essas mulheres no jornal, já vi diversos grupos se movimentando para fazer a mesma coisa. Achei realmente muito interessante, afinal, se pensamos em doação e pessoas necessitadas, pensamos logo em ajudar com comida, dificilmente pensamos em gestos simples como: brincar com crianças carentes, passear com cachorros abandonados e que estão sendo cuidados por ONGs, disponibilizar um tempo para ler livros para pessoas cegas, enfim, é tanta coisa que essa desculpa de dinheiro e tempo começa a se mostrar cada vez mais furada.

E é por isso que hoje, aproveitando esse dia da mulher, estou montando meu kit para doar e convido todos a fazerem o mesmo, aliás, é muito bonito ver que além de estarem cada vez mais conquistando seus espaços, as mulheres estão se unindo para ajudarem umas as outras, acabando de vez com o clichê furado de que as mulheres só se enxergam como rivais e nunca como aliadas. Ajude quem precisa, faça sua parte e vamos em busca de dias das mulheres com mais amor e menos clichê.

Partilhar

sábado, 5 de março de 2016

LÁ — UMA CRÔNICA SOBRE O TEMPO
>> Cristiana Moura

Fim de tarde. Fizemos um castelo de areia. Assistíamos ao mar desfazendo nosso feito. Filmávamos. A mulher que há algum tempo nos mirava se aproximou com olhar e voz curiosos:

— O que vocês estão fazendo?
— Um vídeo- arte.
— Ah, vocês são estudantes de arte?
—  Eu estudei artes visuais, aquele é meu filho que estuda música e a namorada dele que é dá comunicação.
Nem sei porque dei estas referencias acadêmicas, mas enfim, as dei.
— Filho? Quantos anos você tem?
— 43.
— Nossa, não parece. Eu quero chegar lá assim.

Lá? O tempo parou. O som do mar cessou. Eu fiquei ali, num tempo duradouro entre a inspiração e a expiração. Lá, como assim lá? Lá — advérbio de lugar que na afirmação da desconhecida designa tempo. O lá do futuro vindouro no qual ela quer chegar é aqui onde eu estou. Uma leve vertigem me tomou o corpo como se me perdesse entre o tempo passado e o que está por vir. Dar-me conta de estar neste tempo lá, me acordou dores no corpo que há dez ou quinze anos eram desconhecidas.

Entrei no mar como quem quer salvar-se de si mesmo. Talvez seja por isso que eu goste d’água. Ela me tira o peso do corpo. Divide comigo o peso dos anos vividos, das mágoas que não curei, daquilo que não vivi por medo. É um prazer leve que nem comer fruta na beira da estrada em viagem. O prazer não envelhece. Apenas muda. Nas carícias d'água ou das mãos o prazer vai ganhando delicadeza ao ser saboreado com o tempo, com a água de coco à beira-mar, com o chá de fim de tarde.

Sim, para terminar esta crônica preciso de um chá e um fim de tarde. Mal sentei-me e me pus a espreitar a conversa da mesa ao lado.

—  Então ela me perguntou: a senhora ainda dirige? E no outro dia o Fulano também perguntou — A senhora ainda dirige?

Ela olhou para moça à sua frente e indagou:
— Tem uma lei que diz a idade de parar de dirigir.
— Não tia, não tem.

Partilhar

sexta-feira, 4 de março de 2016

VOO >> Paulo Meireles Barguil


Richard Bach relata, em Fernão Capelo Gaivota, obra adaptada para o cinema, as peripécias de uma gaivota que não queria ser igual às demais.

Por ser uma obra de arte, qualquer tentativa de descrevê-la é insuficiente, motivo pelo qual a única atitude que avalio sensata é sugerir a degustação, seja com letras, seja com imagens e sons. 

Foi em Floriano, há 3 décadas, em pleno Carnaval, que meu primo Joaquim me convidou para assistir ao filme.

Da época, pouco me lembro dos diálogos, e, em medida inferior, da compreensão que tive dos mesmos.

Uma imagem marcante é ela andando sozinha na neve...

Tive a oportunidade de revê-lo algumas vezes.

É sempre impactante.

Mais ainda, tentar revivê-lo.
  

A nossa porção animal nos impele, primariamente, à satisfação carnal em três modalidades: alimento, descanso e sexo.

Ultrapassar essa parcela e se relacionar, numa perspectiva cuidadora,  com as variadas manifestações da natureza, incorporando aspectos do humano, é um grande desafio.

Tornar-se um doador feliz é surreal.

Uma adaptação do quadro de Magritte com esse nome adornou o hall do apartamento em que morei durante quinze anos.

Cupins, aos poucos, devastaram a moldura e a tela.

Tenho esperança de que o seu título se torne realidade antes da minha próxima viagem, pois seria terrível constatar que insetos devoraram algo imaterial.
  
 


[Pinturas de René François Ghislain Magritte (1898-1967):
A Promessa (1966)
O Doador Feliz (1966)
O Retorno (1940)]

Partilhar

quinta-feira, 3 de março de 2016

VELHICE E CHATICE >> Mariana Scherma

Vai ser inevitável ficar velho. Ceder espaço aos cabelos brancos. Aceitar as rugas. Trocar o nome de todo mundo. Acrescentar uma ou outra mania à minha lista de tantas já. A idade chega. Mas uma coisa é certa: você pode optar por encarar seus mais de 70 anos como essas pessoas que acham que sabem tudo só porque são mais velhas e reclamam de tudo também ou você pode aceitar a velhice como Keith Richards e Mick Jagger. Depois de vê-los ao vivo, foi inevitável pensar sobre ficar velho.

E aí você diz: eles são ricos. Eles trabalham com o que gostam. Eles viajam um monte. Eles tiram folga quando bem entendem. Eles são muito ricos. Não dá pra refutar isso. Dinheiro, folga e viagem ajudam bem. Imagino. Mas a cabeça e o estado de espírito podem fazer milagres. Pelo menos acredito nisso.

Olha só. No mesmo horário em que faço natação, tem aula de hidroginástica — e não precisa nem dizer: é a aula da terceira/melhor idade. Enquanto estou no vestiário, já vi todo tipo de senhora: as que reclamam da temperatura da água, do professor, do banheiro abafado, da fulana que saiu mais cedo, do neto, do filho, da vida, enfim. Estado de espírito = reclamona! Mas tem as fofinhas que dançam ao som de qualquer música que esteja tocando, que nadam em água quente ou fria, sorriem e brincam com o fato de serem velhas. Quero aprender com elas.

Rosto enrugado todos nós teremos eventualmente. Mas há diferenças nessas rugas. Se você sorri mais, seu rosto fica marcado pela felicidade. Se você só faz cara feia, seu rosto fica carimbado de mau humor. Acredito que faz sentido pensar assim. Dia desses, uma das senhorinhas felizes disse: “quero morrer amiga daquela ali. Que boca!”. Deus me livre ser dessas pessoas que lhe dão tanto medo que você prefere ser amiga. Amizade real não acontece por medo, confere?

Talvez eu não seja como Mick ou Keith. Sei lá, eles são super-heróis do rock’n’roll. São meus ídolos que sobreviveram às overdoses e talvez nem morram mais. Mas vou me esforçar pra ser a senhorinha do bem da hidroginástica. Que já passou dos 70, mas não deixa de falar “dos moços bonitos e fortes” que vão pra piscina da natação. Velhice acontece. Chatice é opcional.

Partilhar

quarta-feira, 2 de março de 2016

CONEXÃO >> Carla Dias >>


Ela se desloca daqui para ali da cidade, ônibus abarrotado de autores de histórias que poucos historiadores apreciariam contestar ou contar, que acabam veiculadas em telejornais ou conversas de vizinhos. Ela gosta de escutar o que esses autores dizem, mesmo quando calados, as histórias saltando de seus olhos. Ela mesma tem a sua história, que se equilibra nesse fio invisível que liga o daqui ao ali.

No daqui, ela é mãe de duas meninas espoletas, porém educadíssimas, que filhas dela não nasceram para dar exemplo ruim. No ali, ela se veste diferente da dona de casa que faz bolo para vender, nas horas vagas: uniforme elegantíssimo, que é trocado, antes de desbotar. Sapato com salto que, apesar de não tão alto, prejudica-lhe os pés, que ela tem de escaldar diariamente, quando de volta para casa. Cabelos devem ser penteados em coque, do jeito que lhe foi ensinado. Um fio fora do lugar pode estragar o dia do patrão.

Funcionário nenhum se atreveria a estragar o dia do patrão.

Particularmente, ela às vezes se pega imaginando como seria estragar o dia dele. Qual seria a reação? Que todos os muitos funcionários da casa temem profundamente o professor que nunca foi bom em lidar com pessoas.

As meninas se sentam à mesa e começam a contar histórias sobre seu dia. Ela escuta, pacientemente, que aprecia histórias outras, que não a sua. Em algum momento, as vozes das meninas se confundem, ficam em plano de fundo, e seus pensamentos ancoram nas cenas da casa do professor, ele sempre com a cara enfiada em um livro ou olhos fechados, cabeça recostada na poltrona, escutando música. Imagina-se caminhando pelos cômodos da casa, vestida em seu vestido estampado, em vez do severo uniforme, usando sandálias, os cabelos livres do coque. Servindo o patrão com chá de gengibre, em vez do café ralo que ele insiste em beber.

Os empregados mais antigos garantem que o patrão tem segredos. Ela só consegue se perguntar — silenciosamente, que eles não a perdoariam por tal infâmia — quem não os tem? A presença do professor não a assusta como acontece com os outros empregados. É claro que não pode se dar ao luxo de perder o emprego por causa de qualquer ousadia, mas isso não a impede de observá-lo detidamente, a ponto de ela ter se tornado perita em desviar olhar. Não a impede de ser curiosa sobre uma pessoa.

Escutou uma conversa do professor com um amigo, o único que o visita, de vez em quando. Servia café a eles, e o professor disse algo sobre astrônomos que observam o infinito em busca do onde começa o fim e tecelãs que desejam dar leveza ao mundo, fio a fio. Ela sorriu, e nem conseguiu disfarçar, que eles botaram reparo nela na hora. Desculpou-se pela intromissão, ao que o amigo respondeu: se toda intromissão fosse um sorriso, o ser humano seria menos intransigente, menos carrancudo. Ela fez um gesto com a cabeça, assentindo, e se virou para sair da sala, mas foi detida pela pergunta do professor: por que você sorriu?

Na imaginação dela, houve esse dia em que ele a convidou para se sentar e se servir de café, e eles conversaram horas sobre assuntos que ela nem tinha ideia que conhecia. Ser a única responsável pela criação de duas meninas, isso combinado às longas horas de trabalho e o extra como boleira, fez com que ela se interessasse pelo o que não fazia parte de sua realidade. Quando ajudava as filhas com a lição de casa, ela também aprendia. Aprender sempre lhe fez bem. A curiosidade ajudou a lapidar seu conhecimento. Então, sim, imaginava-se tendo conversas com o intelectual, e vivia a folhear os livros da biblioteca, sob censura dos seus companheiros de trabalho.

Ela se vira e olha para o professor. Nunca conseguiu olhar de perto o suficiente para arriscar idade. Adora tentar adivinhar a idade das pessoas. Adora quando erra feio.

Foram alguns pares de palavras para explicar que a ideia havia dado a ela uma imagem na qual pensar. Foram apenas alguns minutos de conversa para que o professor e seu amigo, um astrônomo-poeta desvairado, como o próprio se definiu, fizessem com que ela se sentasse e participasse da conversa. Foram horas falando sobre assuntos variados, alguns inéditos, nos quais ela mergulhou com sua curiosidade em polvorosa.

Não, essa não é uma história sobre como uma mulher humilde se tornou uma intelectual respeitadíssima e rica ou se casou com seu chefe intelectual, respeitadíssimo e rico. Essa é uma história sobre conexões humanas, mesmo quando elas parecem impossíveis, tamanha distância há entre o universo de uma pessoa e o de outra.

Ela continua a pegar o ônibus para chegar ao trabalho, a usar uniforme, sapato de salto e coque. Ainda é boleira nas horas vagas e atenta à educação de suas filhas. A diferença é que, às vezes, ele a convida a se sentar com ele na biblioteca. Ela bebe chá de gengibre, enquanto ele bebe seu café ralo. Ela conta a ele sobre sua vida, incluindo detalhes sobre as filhas e a aventura que é conhecê-las melhor ao mesmo tempo em que elas se descobrem. Ele conta a ela sobre a vida que não teve e sobre a que exerce, solitariamente, na sua casa de cômodos vazios.

De um jeito meio secreto, tornaram-se companheiros um do outro. Tornaram-se a conexão mais importante um do outro. E ela, finalmente, perguntou a idade dele, ao que ele respondeu, mantendo um meio sorriso: a idade de um historiador que já não tem certeza sobre o que é fato e o que é ficção.

Ela sorriu de volta.

Imagem: 'La Liseuse' © Marie Laurencin



Partilhar