segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

TUDO RESOLVIDO >> André Ferrer

Hoje, no momento em que você lê esta crônica, todos já sabem. De DiCaprio ao “nosso” representante no Oscar, tudo resolvido.

No que se refere à animação “O menino e o mundo”, ontem, 28 de fevereiro, domingo, 20:45 horas, permaneciam as minhas dúvidas. Uma vez mais, era a temática social da obra que me colocava uma pulga atrás da orelha.

Desde 1963, quando “O pagador de promessas” foi indicado (mas perdeu para a produção francesa “Sempre aos domingos”), todos os nossos longas indicados trouxeram, no fundo, aquela mensagem sociológica que, se ajuda na indicação, não tem força suficiente na etapa seguinte: a decisiva.

Será que os realizadores do cinema nacional só conseguem grana para produções desse tipo?

“O menino e o mundo” e “Central do Brasil” (1999) contam a mesma história da criança em busca da figura paterna. Suas peripécias habitam uma terra cheia daquelas misérias de que já nos cansamos de ver nos noticiários.

Não tardará e os estrangeiros também se cansarão.

Antigamente, o Brasil tocava de outra maneira o imaginário dos gringos. De uns tempos para cá, graças à falsa decolagem da nossa economia (originada no populismo) e, ainda, por causa da onda de corrupção amplamente coberta pela mídia internacional, percebe-se uma significativa mudança. O clamor do exotismo, sempre vago e feérico nos panfletos das agências de turismo, cede lugar a constatações bem realistas.

Toda vez que o meu país está em jogo, torço como qualquer brasileiro. Nesta segunda-feira, enquanto você lê esta crônica, estando ou não tudo resolvido em Los Angeles, não deixa de ser assim.

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sábado, 27 de fevereiro de 2016

MANUEL E FRANCISCA >> Sergio Geia

Se você me permite, caro leitor, hoje vou contar a história de dois amigos meus. A permissão deles eu já tenho, lavrada e assinada em cartório. Não quero perder a amizade desses dois lusitanos, nem sofrer um processo de indenização.

Manuel e Francisca se conheceram no curso de Letras, em Coimbra. Estudaram na mesma classe e se tornaram amigos. Era uma amizade honesta, tão pura quanto uma flor de jasmim. A amizade durou até o último ano, quando Francisca estilhaçou com o muro do amor fraternal, para incluir um elemento novo que distingue todos os amores do amor conjugal: o sexo.

Na visão de Francisca, Manuel também queria o mesmo, mas era tímido. Nesse tempo estudávamos todos juntos. Eu, meio que intrometido, fazendo um curso rápido de especialização em poesia lusitana. Um dia, Francisca, já cansada da lentidão de Manuel, inventou uma desculpa de que seu carro estava com problemas. Manuel prontamente a socorreu. Levou-a até um mecânico em Torres Novas, conhecido como Variante do Bom Amor. Depois, foram beber na Sá de Miranda e, quando a bebida já produzia um barato legal, ela beijou Manuel.

Eu sou testemunha de que desde o início Manuel sempre fora a fim de Francisca. Quando se tornaram amigos, Francisca namorava um marrentinho brasileiro chamado Lobão, e a amizade foi a única coisa que sobrou para o meu amigo, criado com rigidez espartana por uma família tradicional da pequena cidade de Alcobaça, a 88 km a sudoeste de Coimbra.

No meio do terceiro ano, Lobão e Francisca terminaram, e Manuel achou que agora era a sua vez. No entanto — e Manuel me confessou isso certa vez em São Paulo, num bar na Vila Madalena —, Francisca estava certa em suas suspeitas, ele não sabia como transformar uma amizade em amor. Sempre fez alusão a um muro, um muro enorme que ele não sabia como vencer, até aparecer a história do carro enguiçado, do mecânico em Torres Novas, e do bar na Sá de Miranda, quando Francisca deu um jeito na coisa. Tudo isso há mais de vinte e cinco anos.

Manuel e Francisca estão no Brasil curtindo férias. Comemoraram mês passado vinte e cinco anos juntos. Manuelzinho não é mais Manuelzinho, é um moção tatuado que segue o caminho dos pais. Mês passado lançou em Coimbra um romance de dar gosto.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A SECRETÁRIA (Final) >> Zoraya Cesar

Leia A Secretária – parte I
(O plano era simples: Dr. Roberto casaria com a filha do presidente da empresa e, após a morte do sogro, assumiria seu lugar. Tempos depois, já consolidado no cargo, pediria o divórcio à mulher. E se casaria com D. Volga, sua secretária, sua amante secreta.)

Leia A Secretária – parte II
(Foram necessários dez anos para as peças se encaixarem. Dez anos de solidão para ela. Dez anos de inferno para ele. E, ainda assim, a última jogada não dera certo: a esposa de Dr. Roberto não só negou o divórcio, como ameaçou usar toda sua influência de sócia majoritária para tirar o marido da presidência.)

E agora? D. Volga não podia viver sem o homem que amara desde o primeiro momento, nem passar o resto de seus dias sendo, apenas, ‘a secretária’. Dr. Roberto não prescindiria do cargo que tanto almejara, pelo qual trabalhara 12 horas por dia e casara com uma mulher insuportável. E nenhum dos dois queria perder o emprego, ambos já não tão jovens, já mais cansados. Mas ainda muito determinados a conseguir seu intento.

Só havia, portanto, uma solução. A esposa de Dr. Roberto tinha de morrer. Morrer deixando-o livre, desimpedido e insuspeito. E como fazer isso? Com paciência e método, concluiu a pragmática D. Volga, enxadrista que era. 

Sua mente ardilosa rearranjou as peças daquele delicado e perigoso jogo. Dr. Roberto desistiria do divórcio, portando-se, em público, como o mais amável e dedicado dos maridos, enquanto espalhava a história de o quanto sofria com a esposa, cada vez mais intratável, por conta da bebida (o que não era de todo inverdade). Aconselhado por D. Volga, fez um seguro milionário, colocando a esposa como beneficiária, afastando, assim, qualquer suspeita de que a morte da esposa lhe seria vantajosa.  

Três anos se passaram. Nesse ínterim, ele, realmente muito competente, fez-se cada vez mais indispensável na empresa. Acionista gosta de lucros e estabilidade, e Dr. Roberto era muito estável. O mesmo não se podia dizer da esposa, sempre bêbada, sempre escandalosa. E todos viam como ele era tolerante, compreensivo, amoroso, até. 

Foi durante uma festa da empresa. Antes de saírem, Dr. Roberto provocou a esposa de tal forma, que ela já chegou inteiramente alcoolizada ao evento. Alcoolizada e envenenada com cianeto extraído do caroço de pêssego. Uma receita do avozinho russo de D. Volga. 

Com os sentidos totalmente alterados, a esposa do Dr. Roberto foi presa fácil para a atlética e ágil secretária. Ao descerem, juntas, a longa escadaria que levava ao salão, D. Volga pisou no vestido longo da desafortunada esposa de seu amante e, fingindo que tentava segurá-la, ajudou-a cair, rolar a escada e... morrer. 

As investigações da polícia não foram muito longe. Houve testemunhos de que a vítima chegara bêbada; de que as escadas eram perigosas, uma outra convidada (D. Volga, quem mais?), também escorregara. O IML não procurou por vestígios outros que álcool, e por que procuraria? Um terrível e lamentável acidente, concluiu o inquérito, configurando a causa mortis como quebra do pescoço. Dr. Roberto saiu limpo: estava longe da esposa no momento da queda; e não lucraria em nada com sua morte, ao contrário, quem se beneficiaria era ela, caso o ele morresse. Inquérito arquivado. Ponto final.

E para que nunca, jamais, desconfiassem de crime passional, D. Volga, em mais um lance astucioso, definiu que ela e Dr. Roberto deveriam deixar de se encontrar pelos dois anos seguintes. A paciência, dizia o avô russo de D. Volga, era a arma dos fortes.

Durante esse tempo, Dr. Roberto continuou trabalhando mais de 12 horas ao dia. Ela, sozinha, aguardava, como boa fatalista russa, que o amante fizesse o próximo movimento — casar com ela.

Esse movimento, no entanto, ele não fez.

Acostumara-se à vida de solteiro, e não via razão para casar àquela altura da vida — nem mesmo com D. Volga, sua amante e parceira de tantos anos, cúmplice de seu crime. Ademais, o tempo cobra seu preço. D. Volga, por bonita que ainda fosse, já não era nova. Dr. Roberto queria novidade.

Ele foi direto ao ponto, como era seu feitio. Por ele, continuariam amigos, amigos somente. E acrescentou que, graças a alguns investimentos que fizera em nome dela, D.Volga poderia se aposentar praticamente rica. Por que, sugeriu, não aproveitava para ir à Rússia?  

D.Volga olhava para ele com aqueles seus olhos amarelos e profundos de gato cigano,
Olhou para ele
com seus olhos amarelos de gato cigano
sua mente sistemática revendo cada lance de todos os planos, ações, conversas, sexo que os uniram boa parte de suas vidas. Esperara por quase duas décadas por aquele homem, seu amor. Ajudá-lo a matar a mulher era o que menos a incomodava. 

Aliás, não se arrependia de nada. Aprendera com seu avô: todos na vida têm um papel. Cumpra-o dignamente ou jogue-o fora. Ela cumprira seu papel de amante com louvor. Falhara, no entanto, como enxadrista, ao não perceber que o amante trocara de lado no tabuleiro, já quase no final da partida. 

A secretária, porém, não pensava com o coração, mas com a cabeça. Balançou os ombros, como a dizer "c’est la vie”. Ou pelo menos assim entendeu Dr. Roberto, que, como todo homem, pensa conhecer as mulheres. Afinal, pensou, ela era russa, sabia aceitar os reveses da vida. E bebeu a caipivodka de pêssego que ela lhe ofereceu — bebida que D. Volga preparava para ele sempre que se despediam. Um ritual de quase 20 anos.
O cianeto do caroço de pêssego...

(Rezava uma lenda familiar que o avô de D. Volga envenenara a tropa de bolcheviques que invadiu sua fazenda durante a Revolução Russa. O cianeto extraído do caroço do pêssego). 

Sozinha, sentada em frente ao tabuleiro de xadrez, ela calculou que o amante morreria no meio do caminho. Agora, refletiu, uma nova lenda familiar seria contada: a da amante desprezada que envenenou o amante infiel. Sentiu seu coração diminuir. Amara-o tanto. E o amaria para sempre. Cumprira seu papel. Estava na hora de rasgá-lo e jogá-lo fora, como ensinara o avô russo. 

Olhou longamente para o copo de bebida. Estava com tanta sede...


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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO
>> Analu Faria

Somos o maior país católico do mundo. Era de se esperar que fôssemos solidários, compassivos, abnegados. Não somos. Gostamos de levar vantagem em tudo (ou quase tudo). Aliás, nem sei se “gostamos”. APRENDEMOS que isso é o certo a fazer. Se não seguirmos a lei de Gerson, seremos idiotas, seremos passados para trás.

Somos considerados um povo caloroso e cheio de amor para dar. Era de se esperar que nos preocupássemos com o próximo como quem se preocupa com a família. A verdade é que vemos a coletividade como inimiga e nossos “chegados” como aliados. A estes, tudo. Àqueles, bem... que Deus os proteja.

Somos tidos como criativos. Era de se esperar que valorizássemos os inventores, os artistas, os estudiosos. Só que não: quem expõe nas galerias é o amigo do amigo de não sei quem ou, quando muito, artistas visuais conseguem expor com ajuda governamental (isso porque ficamos só nos artistas visuais). Inventores e estudiosos têm que lutar para convencer a família, os amigos, o governo de que ciência não é perda de tempo. A criatividade que se valoriza por aqui é a do jeitinho, é a gambiarra, a burla que torna a vida mais fácil — para si mesmo — em detrimento dos outros, de preferência.

Passou da hora de sermos menos “caridosos” e, em vez disso, sermos mais solidários. Caridade é coisa que se faz dependendo das circunstâncias. Por mais que nos vejamos na obrigação de fazer caridade, se o dólar subir, se a crise piorar, se o bolso apertar a caridade deixa de ser feita. Além disso, costumamos “fazer caridade” para nos sentirmos bem com a consciência, enquanto vemos o outro como um coitado e, por consequência, acabamos por diminuí-lo. Caridade é um negócio egoísta para caralho! Solidariedade é mais constante, é livre do medo da consciência. É uma espécie de “responsabilidade” com o bem-estar do outro. Prefiro um amigo solidário ao “calor” do caridoso.

Passou da hora de acharmos que ser religioso significa ser ético. Religião pode, inclusive, justificar um monte de atitudes antiéticas e de preconceitos. Uma amiga que trabalhava com pessoas com deficiência disse que ouviu de uma colega espírita o seguinte: “Cuidado no seu trabalho. As deficiências geralmente significam que a pessoa tem muito o que resgatar.” Em espiritismo, “resgatar” significa, muito grosseiramente, ter que passar por algum perrengue para “pagar os pecados”, uma espécie de penitência. O que a moça quis dizer, portanto, é que minha amiga estava lidando com gente que foi ruim na vida passada. E, veja bem, se foi ruim na vida passada…Nem preciso dizer que o comentário foi muito pouco ético. A ética PRESSUPÕE a aceitação das diferenças e minimiza preconceitos. Ética é um compromisso com o outro. O compromisso de que você agirá de forma transparente e honesta, não importa o quão diferente aquele outro seja de você. Prefiro estar cercada de gente ética do que de religiosos sem noção.

Passou da hora de sermos “malandros” e chamarmos isso de criatividade. Ser criativo em proveito próprio, em detrimento do direito de alguém — da idosa no supermercado à coletividade como um todo —, é pura babaquice egoísta. Aliás, é burrice. Se todo mundo se guiar sempre pela política do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, quando o pirão for suficiente para todos, o comportamento egoísta tenderá a permanecer, mesmo que as condições não sejam mais de escassez. É por essa lógica que grandes empresários e políticos dão seus golpes. Precisar, não precisa. Mas o comportamento já está tão arraigado… Além disso, a malandragem cria um sentimento de desconfiança e desconfiança gera conflitos. Não é à toa que somos uma sociedade violentíssima. A violência não começa na agressão física, mas muito antes.

Passou da hora de assumirmos que não somos um povo afetuoso em um país abençoado por Deus e bonito por natureza. Sem ética, solidariedade, empatia, valorização do coletivo, senso de comunidade, esse pretenso amor e essa pretensa alegria que parecem nos caracterizar são puro discurso demagógico.

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

CAÇADORA DE LAMBRIS >> Carla Dias >>


Minha avó tinha uma disposição inesgotável para conhecer lambris. Era de uma indecência a forma como ela praticamente invadia o emocional das pessoas, valendo-se de histórias sobre sua infância, apenas para ser convidada a entrar nas casas delas e botar seus grandes e azuis olhos em tal peça. Minutos depois, desejo saciado, ela bradava: belíssimos!

Ela nunca encontrou lambris que pudessem mudar sua palavra final, aquela que, com o decorrer dos anos, compreendi como sendo o ponto final de sua jornada na casa alheia. Depois dela, a senhora esquisitinha, de um jeito aprazível, com a elegância que sempre lhe coube, partia e deixava ao dono da casa a sensação de ter sido visitado por alguma entidade.

Penso em minha avó nesse cenário tão diferente daquele que marcou minha infância; de pessoas que falam mais alto do que as outras, temerosas de não serem ouvidas e perderem seu espaço.

Mas que espaço é esse?

Eu tentei ser caçadora de lambris, quando menina. Sonhava em herdar o cargo da minha avó, só porque desejava profundamente dizer a última palavra, antes de deixar o recinto. Costumava ficar repetindo "belíssimos!" bem baixinho, enquanto acompanhava minha avó, que não era mulher de conversa, muito raramente me oferecia um longo abraço e um copo de leite.

Silenciosamente, conversávamos saudade e pausas.

Minha mãe me alertou que melhor era eu parar com aquela história. Preocupou-se com a minha teimosia em me tornar caçadora de lambris. Houve um dia em que, decidida como jamais me sentira antes, abri a porta e saí para testar minha habilidade em fazer as pessoas abrirem as portas de suas casas e me deixarem observar seus lambris, por alguns minutos. Logo na primeira porta, fui devolvida ao meu lar pela nossa vizinha, que ainda me passou um pito sobre o perigo de criança andar sozinha por aí.

Sendo sozinha quase o tempo todo, pergunto-me: que solidão é essa?

Eu cresci, minha avó envelheceu ainda mais, o que me parecia impossível quando menina. Ela raramente me dirigia uma palavra. Quando o fazia, belíssimos era o que lhe escapava. Suas ideias já andavam confusas e minha mãe já não me convencia mais com suas explicações sobre como era irreverente aquela senhorinha.

A senhorinha partiu desse para outro mundo, quando eu ainda relutava em deixar de ser criança.

Deividimateus disse mais alto, só que Edilberto o superou. Getulina sacudia a cabeleira, mostrando, aos cachos soltos, o quanto era contra o que os outros dois berravam. Marconildo chegou ao cúmulo de subir na cadeira e abrir os braços, reverberando sua opinião, o que só inspirou Leidilaura a sair do seu sempre profuso silêncio para escancarar com a gritaria dos outros.

Segredos contados porque você é uma criança têm data de validade. Se os adultos se lembrassem do quão doloroso pode ser desvendar alguns deles, talvez os mantivessem também quando adultos. Mas acontece que adultos gostam de desfiar segredos na hora do chá ou durante o comercial, na pausa da novela. Adultos gostam de perguntar mas como você não sabia?, fazendo questão de que o receptor de tal revelação se sinta, além de surpreso, um incapaz de ter percebido.

Durante parte da minha infância, meu sonho foi me tornar caçadora de lambris. Achava de uma lindeza aquele olhar que se apossava de minha avó, quando decidia entrar na casa de alguém para conhecer os seus lambris. Eu queria aquele olhar. Por incrível que pareça, enquanto assisto a essas pessoas defenderem ponto de vista, espaço e identidade, e seus empregos, obviamente, lembro-me daquela senhorinha estudando portas... As portas que a separavam de sua adoração por lambris. O frenesi dessas pessoas me leva ao apaziguamento que eu encontrava naquele momento com minha avó.

Quando minha avó morreu, nasceu em mim uma saudade imensa. Minha mãe tentou me explicar que eu aprenderia a lidar com a perda. Não entendi, na época, mas lidei com a perda, eventualmente... Não sem antes rabiscar cadernos e mais cadernos com histórias sobre a caçadora de lambris, aquela menina que entrava na casa das pessoas, admirava lambris e partia, deixando na casa um tanto de si, aquele tanto que fazia bem às pessoas que abriam suas portas para ela. Na verdade, essa menina fazia mais do que minha avó. Ela se envolvia na vida das pessoas, gostava de escutá-las e, antes de partir, entregava a elas um voucher para que realizassem um sonho próprio, mais tarde. E a menina observava tudo, de uma tela de computador enquadrada em lambris.

Revelaram-me os segredos que somente a infância poderia manter. Meu avô eu nunca conheci, morreu antes do meu nascimento. Mas soube, finalmente, que ele era um artista e sua especialidade era fabricar lambris. Em plena modernidade, com a tecnologia colaborando para facilitar a vida de todos, imaginar meu avô construindo lambris artísticos me refrescava o espírito, mesmo sem entender muito bem o que eram lambris artísticos.

Minha avó não se recuperou da ausência de meu avô. Não tardou, ela deu de vagar pelo bairro, pedindo aos vizinhos para deixá-la ver se os lambris de suas casas eram tão belos quanto os que seu marido criava. Com o tempo, todos já sabiam do que se tratava e das suas crises, permitindo sua entrada.

Onde eu via sutileza, beleza e encantamento das pessoas pela minha avó, havia somente conhecimento de causa e um bom tanto de gentileza.

A Caçadora de Lambris se tornou mais do que rabiscos em cadernos. Tornou-se personagem que vem inspirando o imaginário infantil. Mais do que livro, tornou-se a editora que fundei há alguns anos. Esses seres espalhafatosos trabalham comigo, e eu não poderia estar cercada de pessoas mais generosas... Apesar de ser quase impossível perceber isso durante as reuniões.

De certa forma, tornei-me quem sonhei me tornar, enquanto caminhava com minha avó, passando pelas casas do bairro, entrando e saindo de lá como se fosse conduzida por mágica. Meus lambris, devo dizer, são belíssimos. Às vezes, eu me perco do presente e chego ao passado, abraço a mão de minha avó e a acompanho a mais uma caçada por lambris.

Sempre pensei que atrás dos lambris moravam histórias. Não estava completamente errada.


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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

APENAS UM DESABAFO >> Clara Braga

Um professor, entendendo seu papel em sala de aula, se sentiu na obrigação de explicar naquele momento que Noé e a arca são um mito. Não demorou para que um se ofendesse e ficasse emburrado no canto, achando ruim o fato do professor estar desrespeitando a religião dele.

Em outro momento, um pai contacta a instituição e afirma: "Caso algum outro professor diga que as feições de Jesus eram mais parecidas com as de um muçulmano do que com esses traços europeus que estamos acostumados a ver, vou processar a instituição! Vocês não têm direito de desrespeitar a minha religião!"

Durante uma festa das regiões, vários grupos se apresentaram dançando músicas e ritmos típicos de cada região. Dançar funk jamais seria um problema, mas "é sério que vocês querem colocar essas crianças dançando maracatu? Elas não merecem ter suas religiões desrespeitadas!"

Em uma loja colaborativa de Brasília, os vendedores estão com medo de serem apedrejados. A todo momento, passa alguém na porta xingando e ameaçando a loja, já que uma das artistas expositoras cria imagens de santos em gesso, mas os representa vestidos de personagens como Chapolin, Batman, Frida Kahlo e outros. Um movimento já começou e as pessoas estão se mobilizando, vão processar a loja, afinal a loja não têm direito de desrespeitar a religião deles.

Em uma rede social, os perfis de três fotógrafos brasilienses foram desativados, afinal eles trabalham com a temática ofensiva do nu artístico. Quem não entende a diferença entre a imagem desses artistas e a incitação ao erotismo ou algo do tipo, se ofende mesmo, mas de quem é a culpa?

No Brasil, pessoas morrem por terem crenças diferentes. Elas não têm o direito de acreditarem naquilo que acreditam, a crença em algo diferente do que é considerado correto por uma maioria é uma ofensa.

Não gosto de falar sobre polêmicas, corro de discussões políticas e, principalmente, religiosas, mas peço licença para o desabafo, até porque em meio a essas histórias cheias de ofensas e desrespeitos, acabei me ofendendo também. Não consigo aceitar que estamos nos movimentando em busca de uma sociedade na qual existem duas opiniões: a minha certa e a sua errada. E como é lógico que eu estou certa, nada mais justo do que eu me sentir no direito de fazer justiça com minhas próprias mãos!

Me preocupa seriamente saber que enquanto tivermos pais que ameaçam, avós e avôs que apedrejam, teremos meninos emburrados no canto da sala que podem se tornar o próximo a matar uma jovem que está saindo de um centro religioso, afinal é ela e, com certeza, sou eu com a minha religiosidade pouco desenvolvida que estávamos entendendo tudo errado: a lição não é o amor ao próximo, a lição nunca foi a tolerância, a mensagem nunca foi de caridade, a mensagem é clara: se não estão do nosso lado, estão contra a gente, e ninguém tem o direito de nos desrespeitar!

Imagino Jesus, com feições europeias, claro, assistindo a tudo isso lá de cima...

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

REVERTERE AD LOCUM TUUM (Final)
>> Albir José Inácio da Silva

[Continuação das partes 1 e 2]


Sem documentos, Augusto acordou três dias depois e informou o único telefone que sabia de cor, e a assistente social fez a ligação pra funerária, interrompendo a compra e venda que já estava assinada.

A angústia do naufrágio e as longas horas na enfermaria deram a Augusto o tempo para refletir sobre a vida, a família e a pobre Quinca. Ela passou os últimos anos tentando convencê-lo da loucura do seu empreendimento.  A Bíblia era o principal argumento:

— Deus disse a Adão, “tu és pó e ao pó tornarás”. Ao pó e não ao palácio! E Jesus disse, “deixe que os mortos enterrem seus mortos”. É pecado ficar se preocupando com o corpo que já morreu. E é viva que eu preciso de conforto!

Augusto chegou ao Rio com a cabeça enfaixada e cheia de remorsos. Era sua culpa. A pobre Quinca estava doente, sedada e algemada numa maca, e ele nem sabia se ela iria se recuperar. Havia ainda o prejuízo da funerária que chegava a milhares de reais. Mas era tempo de agir, não de lamentar.

As Recaídas


Em poucos dias, Dona Quinca era outra mulher. Paparicada por Augusto, recuperou rapidamente a saúde, a razão e a fé. Não tinha dúvidas de que o marido era também outro homem. Ficou todo o tempo ao lado dela. Chegava com flores todos os dias. Confessou-lhe pecados e desvios de verba para as obras no cemitério.

Augusto só saía do hospital para cuidar da fiança e outros embrulhos legais, porque Dona Quinca estava presa em flagrante. Mas o delegado era compreensivo, foi ao hospital conversar com ela.

— Dona Quinca, a senhora não é bandida, é uma mãe de família. Não pode ficar fazendo essas coisas. A senhora agrediu mais de dez pessoas, quebrou a loja inteira, mordeu os médicos e chutou os policiais. Não faça mais isso! Eu vou deixar a senhora sair, mas que isso não se repita!

Não foi diferente com os médicos. Reconheciam todos que ela era uma boa mulher, dedicada à família, dócil e educada. Aquilo fora uma caso isolado. Até as admoestações do médico da alta foram carinhosas.

— Dona Quinca, a senhora não merece isso que a senhora fez consigo mesma. Cuide-se bem. Cuide da sua família. Espero nunca mais vê-la por aqui, a não ser para me cumprimentar!

Ela distribuiu sorrisos e beijinhos para a enfermagem e deixou todos emocionados ao sair amparada pelos braços de Augusto. Quanta diferença daquela endemoninhada que chegou há alguns dias!

Dona Quinca chega em casa paparicada por Augusto e é acomodada na sala, entre almofadas e copos de refresco. Mas os carinhos não param por aí. Quincas pega a bíblia, o que faz exultar o coração da mulher, eram uma família e Augusto estava mesmo mudado.

 — Todo aquele que escuta as minhas palavras será como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Mateus,7:24 — lê Augusto, acrescentando, à guisa de comentário: — Vê como é importante edificar a morada do futuro?

Uma ruga de preocupação aparece na testa de Dona Quinca, mas ela está feliz, abafa a preocupação e mantém o sorriso.

Quando acaba a leitura, Augusto senta-se ao lado da mulher, pega sua mão e aponta o trecho que acabou de ler:

— O que você acha de colocar este versículo acima dos nossos nomes? — antes que ela responda, Augusto pega a placa de bronze que trouxe da funerária.

Só temos o áudio, mas ouvem-se vidros e móveis se quebrando. Depois sirenes.  Aos poucos uma calma diazepínica se estabelece.

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

ONDA >> Paulo Meireles Barguil


Na semana passada, foi anunciada a 1ª detecção de ondas gravitacionais, tal como previra Einstein há um século.

A explicação técnica desse fenômeno e as consequências para a Astronomia você encontrará em vários sites, mas não nesta crônica. :-)

Uma síntese do que entendi: quando objetos muito maciços interagem, em virtude da magnitude da força da gravidade entre eles, há uma produção de ondas que se propagam no espaço-tempo, as quais podem ser captadas.

Intriga-me, contudo, ainda não ter visto alguém relacionar isso com o fato de que, há milênios, vários povos, não sei quem foi o primeiro ou quem será o último, afirmarem que o Homem é composto de campos energéticos, os quais suscitam variadas interpretações e terapias.

Só continue a leitura se seu nível de misericórdia estiver razoável, pois ousarei redigir sobre algo em que me considero bronco.

Chacra, oriundo de chakra, em Sânscrito, significa roda de luz.

Não vou explicar aqui aspectos de cada chacra referentes a formato, localização, órgãos, glândula, elemento, cor, pedra, mantra..., pois isso é — ou deveria ser — uma crônica!

Irei, contudo, usufruindo da liberdade de imprensa, partilhar algo bem modesto que (creio) tem me ajudado a viver melhor.

O Homem, conforme razoável consenso, possui sete chacras, os quais estão relacionados a estados opostos: confiança-medo, criatividade-culpa, poder-vergonha, equilíbrio-pesar, sabedoria-mentira, conhecimento-ilusão, espiritualidade-apego.

Se quiser fazer uma rápida avaliação de sua harmonia energética, verifique em quais polos você tem vibrado, ou seja, que energia ressoa do seu organismo e, de alguma forma, é responsável pelo que acontece na sua vida.

Acredito que esse princípio rege todos os corpos celestes, independentemente de massa.

Identificar, em meio a tantos sons internos e externos, tais sentimentos, os quais geram pensamentos e comportamentos, numa ciranda indecifrável, é o grande desafio de cada pessoa.

Aliás, é o único.

As outras atividades são distrações, que podem nos ajudar (ou não) na nossa epopeia terrestre.

Se o seu nível de misericórdia estiver crítico, pule para última a frase, caso contrário, prossiga.
 
Eu também poderia narrar sobre a Aura, manifestação energética de um determinado corpo, que contempla quatro dimensões: física, emocional, mental e etérea.

Atração e repulsão são pistas interessantes sobre o que reside no nosso íntimo, sendo o exterior um intrigante espelho para se autodescobrir.

Para quem gosta de música sobre essa temática, partilho duas: Como uma onda, de Lulu Santos, e Eu sou a onda (composição e som).

Gostaria de prosseguir, mas meus créditos deste mês de dígitos no Crônica do Dia estão acabando.

Algo que ainda não gosto é quando alguém me diz: — Deixa de onda, Paulo!


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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

NÃO É UM SPOILER >> Mariana Scherma

Quando eu era adolescente, a gente não falava spoiler. A gente só dizia: “não me conta o fim do filme/do livro/do episódio". Não me lembro de ler, na infância-adolescência, páginas com avisos de alerta de spoiler. Essa palavra é meio nova para uma coisa antiga: pessoas de língua solta. Eu sou alguém da língua solta assumida. Quando vejo, falei demais e falei rápido demais. Foi mal, todo mundo que já quis me matar.

Mas em minha defesa acredito que as pessoas estão muito cheia de não-me-. Essa coisa de spoiler precisa ser mais definida. A gente sempre leu uma coisinha ou outra disso e daquilo. Agora tudo virou spoiler. Exemplo um, quando você vai comentar um filme com um amigo que detesta spoiler:

— Então, porque aí o protagonista viaja...

— Para de falar spoiler!

Senhor dos Cinemas, isso não é spoiler. É o começo da história, que você lê em qualquer sinopse pequenininha de jornal.

Exemplo dois, quando você vai dizer que filme viu.

— Aí o filme que vi nesse sábado...

— Não quero saber!

Como assim não quer saber? Não quer saber o quê? Eu só disse que é filme e não série.

Essa coisa de spoiler anda acabando com os diálogos. Fui criada pelo meu pai, um sujeito que vai primeiro para o final de livros pra saber se vale a pena lê-lo todo. Tem gente que acha estranho. Eu aceito, porque é meu pai, enfim. Papis já me fez ligar para um tio pra saber se o cavalo morre no final de um filme X, porque, se morresse, ele não assistiria mais. O fato é que meu pai me fez aprender algo importante: o final não é o que mais conta, o legal é a caminhada para o final. Talvez essa lição do papi tenha valido pra tudo na vida, não apenas ficção.

Tenho um amigo que chega dizendo: “viu, não é spoiler”. Ele esqueceu que spoilers não me incomodam. Sempre aviso porque umas das coisas mais gostosas de se falar em mesa de bar é de filme, livro, seriado... Mas qual o limite? E quando alguém é um leitor lento, como proceder? E quando alguém nem começou a ver uma série e você está na temporada 20? Os spoilers estão acabando com a boa conversa de bar. Eu acho.

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

DE PASSAGEM >> Carla Dias >>


Há momentos em que se sente uma boa pessoa, daquelas dadas à benevolência na sua essência, sem expectativas, espera por recompensa.  Em outros, segue seu caminho acabrunhada, sem nem mesmo rasa vontade de tentar compreender seu semelhante. E há quando se aprofunda na vida de uma pessoa, por pura curiosidade.

O que pode garantir é que não nasceu para a plenitude. Quem a conhece, já sabe que dela não se pode esperar isso ou aquilo, que ela soa nesse mundo feito improviso. Há quem tente desvendá-la, mas em vão. Como aquela moça que a conheceu, ainda outro dia, na fila do caixa de um bar. Elas conversaram durante toda a espera, e a moça do bar acreditou que encontrara uma amiga para a vida. Saíram juntas, algumas vezes, até que...

O moço, sem sal, monossilábico e deveras arrogante, destoa da moça do bar, uma figura alegre, comunicativa. A moça do bar se mostra animada por, finalmente, apresentar à outra seu noivo de longa data: quatro anos, sete meses, vinte e sete dias.

A outra segura a mão do homem como se ele a tivesse convidado para um passeio pelo parque. Ele aprecia isso, o sorriso que lhe escapa é comprobatório. A noiva sente aquele calafrio, de quando se pega diante de uma constatação contrária a seu desejo.

Diante do interesse do noivo pela amiga para a vida, a moça do bar murcha como se fosse flor em vaso de casa com janelas fechadas. Silenciosamente, confabula consigo sobre como sacana é a ex-amiga para a vida. Porém, esse pensamento não dura muito. No fundo, ela sabe o que acontece.

O noivo desata a falar, e sobre assuntos que ela nunca escutara sair de sua boca antes; sobre os quais a moça do bar jamais imaginara que ele fosse capaz de discursar.

O sonso, agora com faces rosadas, tamanha excitação em dizer tanto a uma mulher que acabara de conhecer, mostra-se repleto de desejos, conhecimento e perspectivas, tudo o que a noiva, ainda que nos dias mais felizes, não conseguira identificar.

A outra observa a moça do bar, enquanto o noivo dela se revela completamente disponível para aventuras que, provavelmente, ela já desejara experimentar, mas pelas quais ele não demonstrara interesse. Todos os matizes que são revelados no momento, a inundação de ideias, planos, opiniões... Tudo é claramente inédito para a noiva.

Sobre ela, sabe-se que não contraria desejo de se colocar na vida das pessoas, somente para dar uma espiada. Intrometer-se na vida delas é algo que raramente acontece. No caso da noiva, bateu-lhe uma vontade tamanha de compreender o motivo de ela insistir em se manter em tal prisão.

Intrometeu-se.

Convenhamos, às vezes cometemos o erro de escolher prisão, ao invés de liberdade. Ela sabe que relacionamentos podem ser correntes, e os vem evitando há muito tempo.

A noiva, já sem disfarçar descontentamento, pediu que lhe servissem uma dose de uísque. A outra, delicadamente curvada sobre a mesa, de modo a ficar mais próxima do noivo, escuta o que o homem diz, mas não tira os olhos da escrava emocional dele.

É assim que acontece. Ela não é boa ou má, não é uma pessoa para se encaixar aqui ou ali. Porém, sabe que tem talento para compreender o que, silenciosamente, as pessoas sentem. Às vezes, não nega uma inspiração para a catarse alheia e nunca errou ao ler uma pessoa. Como a noiva, que bebe a terceira dose de uísque, sem que seu noivo tenha notado tal ousadia. Ela sabe que, daqui a uma ou duas doses, em vinte ou trinta minutos de monólogo do noivo sobre como ele pretende conquistar o mundo, a noiva chegará ao seu limite, e em vez de chorar sozinha, por horas, como já lhe confidenciou, ela dirá adeus ao seu noivo desinteressante e desinteressado.

A noiva, já desprovida da amabilidade da qual tanto se orgulha, debruça-se sobre a mesa, a boca tão próxima ao ouvido do desatento noivo. A outra se ajeita na cadeira, quer ficar em boa posição para assistir ao que virá. Então, ele sente a mão dela pousar nada delicadamente em seu braço. Irrita-se, pergunta o que acontece, sem nem mesmo olhar para ela.

Não é ciúme por ele se interessar mais por uma estranha do que por ela, que vem ajudando o tal a construir sua vida. Não é isso... Seria mais fácil se fosse. Vai além, é mais profundo. Envolve anos construindo uma falseada segurança e a certeza de que é apenas isso que merece da vida.

Imprevisível, diz o que poucos desejam escutar. Tal crueza não faz amigos para a vida, as amizades acabam durando somente enquanto ela se comporta de forma que os prováveis amigos possam compreendê-la. Bebida amarga essa, comenta a noiva, sem se referir ao uísque. Então, vira-se e cochicha algo ao ouvido do noivo que, imediatamente se vira para ela, olhos esbugalhados de surpresa e desespero.

Dali em diante, ela prefere não fazer parte. Pega sua bolsa e sai sem dizer palavra que seja. Despede-se sem adeus. Alguns passos adiante, ela se vira para observá-los: noivo dizendo tanto à noiva; ela sem a menor vontade de escutá-lo. Sabe que não continuará a ser a amiga para a vida que a moça do bar reconhecera nela. Mas, definitivamente, fora amiga para aquele momento em que a noiva estava pronta para abrir os olhos e perceber o mundo... Prisões à parte.

Imagem: The Sorceress © John William Waterhouse

carladias.com

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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

FECHANDO UM, COMEÇANDO OUTRO >> Clara Braga

Ano passado fiz questão de fechar meu ano com chave de ouro. Fui para São Paulo e completei os 15km da São Silvestre. Muitos devem estar se perguntando: e isso lá é fechar o ano com chave de ouro? Bom, para mim e outras 33 mil pessoas, sim, isso é fechar o ano da melhor forma possível!

De lá pra cá, orgulhosa e feliz que estou com a minha conquista, sempre que me perguntam sobre meu Ano Novo eu digo: espero que aquela lenda de que o que você faz no último dia do ano você vai fazer o resto do ano todo seja verdade, assim vou passar meu 2016 correndo! Sério, correndo? Sim, correndo!

Os comentários são os mais diversos: não vejo algo mais idiota do que corrida, fechar a rua para um monte de idiota sair correndo não faz sentido algum! Ou então: você está correndo? Que legal, não esperava isso de você! Ou até: nossa, muito legal, mas eu costumo usar minhas férias para descansar e não cansar mais!

Além dos comentários sempre tem quem pergunte sobre o caso daquele senhor: você viu o senhor que surpreendeu todo mundo chegando em uma classificação ótima, mas depois começaram a desconfiar que ele cortou caminho? Sacanagem, né?

Sinceramente, só ouvi falar desse caso depois que me perguntaram sobre ele pela primeira vez, mas acabou que nem dei muita importância. Se eu imagino o que pode ter acontecido? Olha, até imagino. Das duas uma, ou ele não deu conta mesmo e precisou desistir, o que é mais do que compreensivo, afinal, o percurso é cruel! Ou então quis mesmo dar uma de esperto, o que eu acho bem difícil, mas vai saber né, hoje em dia é um perigo colocar a mão no fogo pelos outros.

Mas quando digo que acho difícil o pobre senhor ter tentado dar uma de esperto não digo por acreditar que senhores idosos são pessoas confiáveis ou qualquer teoria furada dessas, digo isso pois sei com toda certeza que se ele tentou burlar o percurso, o único que saiu perdendo foi ele mesmo. Aliás, esse é o mal do mundo, não entendemos que somos sempre nós que perdemos quando fazemos algo nos preocupando mais com o que os outros vão pensar de nós do que no quanto podemos ganhar com aquela experiência.

Se me ofendi quando disseram que só idiota acorda cedo para correr 15km? Nem um pouco! Ver São Paulo do jeito que eu vi, participar da farra que é a São Silvestre, me sentir capaz de expandir meus limites, conhecer as pessoas que conheci desde que comecei a correr, ter um estilo de vida mais saudável, enfim, nada disso pode ser diminuído por comentário algum, sabe por quê?

Porque eu faço pra mim e não pros outros.

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

TEREZA >> André Ferrer

“Entre, meu amigo!”, disse eu para ele.

Magro, sempre magro, mas um monte nas atitudes. Pior, achava-se, muito inconvenientemente, um divisor de águas.

“O que foi desta vez, meu amigo?”

“Tereza.”

“Ainda!”

“Tereza.”

“Ah, sim! Tereza.”

“Tereza.”

“Pois, então, eu vou repetir para você: meu amigo, todo ingênuo é, antes, um maniqueísta”, pausei. Eu precisava respirar e, muito a contragosto, admitir que me prestava àquele papel de Maomé desde o jardim de infância.

“Monte, meu amigo”, não falei. Disse o de sempre. Evasivo, mas direto, eu repeti que o mundo não podia ser visto sob tão simplória cartografia. Tirante a do Equador, havia um sem-número de linhas possíveis e imaginárias: a Kundalini, as paralelas, a Sorocabana, as cortantes, a linha do meio de campo.

“Enfim, a vida não é um jogo simples.”

“Não! E Os Com Camisa versus Os Sem Camisa?”

“Esqueça”, respondi, contendo-me outra vez.

“Tereza.”

“Tereza. Cruzar ou casar. Trepar ou casar. O bem e o mal.”

“Tereza.”

"Escute, aqui, uma coisa”, não disse. Você, meu amigo, sabe o que são irmãos xifópagos? Então! O bem e o mal dividem o mesmo tórax. Na cabeça dos ingênuos, pode até ser viável uma separação. Agora, no mundo de verdade, bem e mal andam esfumados. Imunes a cirurgias, eles vibram no mesmo lugar e não. Eles habitam posições tão dinâmicas e imensuráveis quanto a posição do elétron. A natureza do bem e do mal é quântica, meu amigo. Trata-se de uma dupla tinhosa. Ela rende muita obediência ao Princípio da Incerteza.

“Tereza”, ele repetiu. “Ela se foi e o sofrimento, não. Diz alguma coisa. Diz.”

“Tudo bem. Vou dizer: faz um ano, já, e você a perdeu, idiota”, disse, finalmente, naquele triunfo adiado desde que brincávamos numa caixa de areia.

“Que grosseria. Estou decepcionado. Um amigo nem pode mais se abrir contigo?”

“Ah! Como não? Faz um ano que deixo pistas!”, retruquei furioso. “Você namorou a Tereza durante cinco anos e jamais conseguiu resolver aquela sua dúvida imbecil. Agora, fica aporrinhando todo santo dia! Chega-se, logo, a um limite.”

“Puxa vida! Eu só descobri depois que a Tereza era mulher pra casar”, fez choroso. “Tarde demais.”

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domingo, 14 de fevereiro de 2016

DE COMO ABRIR UM COFRE >> Whisner Fraga

Final de semana e o patrão liga para meu pai, aflito:

— Mamede, você se lembra do segredo do cofre aqui de casa?

— Uai, não lembro não, sô. Aliás, nem sei se você já me contou algum dia a combinação. Mas não tem problema, já abri vários cofres sem saber a numeração. Se o senhor quiser, dou um pulo aí e tento.

O patrão quis. E claro que meu pai nunca destrancara nenhum cofre, com ou sem segredo.

Verdade também que era sábado início de noite e meu pai já havia bebido umas duas cervejas, de modo que estava mais animado e corajoso que de costume. E meu pai mais animado e corajoso que de costume era um perigo.

Disparou para o corredor, pegou a lambreta e rumou para a casa do patrão.

Foi bem recebido. Muito bem, aliás.

— Aceita um uisquinho, pra relaxar, Mamede?

Não, meu pai não era disso. Mas se tivesse uma Brahma, aceitava.

Tinha.

Encarou o cofre: nunca tinha visto mais gordo. Puxou pela lembrança. Verdade, o patrão tinha lhe passado uns números anotados no verso de uma nota promissória. Se não se enganasse, três números estavam no papo. Só faltava o quarto. Não falou nada sobre a memória praticamente fotográfica. Valorizava expectativas e ilusões. Não podia falhar, o chefe considerava muito esses heroísmos.

Fisgou o copo: precisava calibrar os dedos. Verteu um demorado trago. Esfregou as mãos uma na outra: precisava agir. Fez uma cara de profunda meditação, como se buscasse lá do fundo de todo o seu conhecimento sobre cofres uma solução para o problema. Queria mesmo, entretanto, era a saída que Mortimer (Lee Van Cleef) apresentara no filme “Por uns dólares a mais”, seu preferido.

Girou o disco até chegar ao primeiro valor que estava anotado no verso da promissória. Depois até o segundo e uma vez mais até o terceiro. Sabia que, atrás de si, o patrão e a esposa assistiam à operação. Gostava de público. Sentia-se mais confiante. Era como se lhe transmitissem uma energia que nutria o seu desembaraço.

E o quarto número? Então evocou, desconfiado, aquelas constantes perguntas. Uma, duas vezes por semana, o patrão lhe questionava:

— Mamede, que dia mesmo é seu aniversário?

Ora, ele estava careca de saber. Afinal já fazia década ou mais, que não deixava de ir aos churrascos natalícios do empregado.

Estava claro, descobrira o número faltante. Arrisca: 24. O cofre cede. Ouvem-se palmas, tapinhas nas costas, elogios, suspiros. Tudo perfeito, mas o herói precisa ir embora. Já na saída, o patrão lhe dá um abraço forte, entusiasmado. É muito bom receber um abraço, mas preferia mesmo era uma pequena recompensa, uns trocados para mais duas ou três cervejas, já que as de casa haviam acabado e estava sem nenhum centavo para o resto do fim de semana.



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sábado, 13 de fevereiro de 2016

VIZINHOS >> Sergio Geia

Meu vizinho comprou uma chacrinha. Lembro-me que quando se deu a assinatura dos papéis ele estava feliz da vida. Disse-me que não tinha intenção de mudar pra lá. O que queria mesmo era poder se retirar nos finais de semana. Levar a família, a criançada, estender rede, dormir ao som dos bichos. Falou-me que não havia coisa melhor na vida que tomar uma cachaça bem de tardezinha, quando a noite começa a cair, sentir o bafo frio do mato a invadir a casa, a patroa já cuidando do ensopado no fogão.

Pois assim ocorre sem falhas. Nos finais de semana, meu vizinho some com a patroa e as crianças, deixando coisa nenhuma pra trás, exceto um moço que já não comunga mais da simplicidade da roça, e um pobre cachorro. Ah, e a minha desgraça, que hei de lhe contar.

A primeira vez que ele chorou não dei muita importância, afinal é comum a família sair e o cão ficar a resmungar de saudade. Logo acostuma, pensei. No entanto, quando a choradeira começou a se repetir todas as semanas, eu comecei a prestar mais atenção. O desespero (você pensou do cão?) tinha início na sexta, de noitinha, e invadia madrugada adentro. Sábado, durante o dia, acho que o pobre se cansava e dormia; porém, à noite, voltava; um bebê recém-nascido trocando a noite pelo dia. Há domingos em que meu sono da tarde é pacífico e sereno. Há domingos em que não há sono da tarde.

Pela graça de Deus, no começo da noite a família chega e o final do domingo é passado ao silêncio, como deve ser todo final de domingo, só quebrado de vez em quando pela voz insaciável do Faustão que reverbera de algum lugar.

De modo que meus finais de semana não são mais os mesmos. Sabe que até pensei em ter uma palavrinha com o amigo, explicar-lhe a situação, a dificuldade deste seu amigo de cá, digno trabalhador, de descansar a cabeça justamente nos dias que foram erigidos para esse fim. Mas você sabe como é espinhosa essa relação de vizinhança, não? Qualquer diálogo em termos de acerto por mazelas tão corriqueiras, quase sempre afeta a confiança, a amizade, o carinho que nutrimos um pelo outro, e que não podem ser quebrados por causa de resmungos caninos.

Outro dia, por exemplo, encrespei com um ovo. Sim, amigo, um ovo, um grande ovo, ou vários ovos, talvez uma grande omelete, preparada com carinho numa omeleteira enorme, que trabalha sem fim todas as manhãs. Pois sou daqueles que não têm muito estômago nas primeiras horas, cafezinho, um carequinha, suco. De modo que abrir a porta às seis da matina e sentir as narinas sendo tomadas por um aroma de ovo frito não é uma tarefa das mais fáceis. Até andei dando uma cheirada pela vizinhança pra saber quem se metia a perturbar o bom aroma matinal, mas sem sucesso. Contudo, um simples comentário largado na padaria já foi capaz de provocar desafeto com um ou outro vizinho. Pois é...

Mas vizinhos bons eu tenho. Não posso reclamar. Não será um ovo, quanto mais um cão que vão abalar uma amizade de muitos anos. E nem uma crônica. Espero.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A SECRETÁRIA (2ª parte) >> Zoraya Cesar


Então, conforme sabemos, o sogro do Dr. Roberto morreu, deixando a filha muito bem de vida, possuidora de polpuda carteira de ações com direito a voto e a vetos. Sabemos, também, que Dr. Roberto e D. Volga, sua secretária, eram amantes de longa data. 

O que não sabemos? O que eles, chefe e secretária, pretendiam. 

O plano era simples: Dr. Roberto assumiria a presidência da empresa, aumentando seu poder financeiro e esfera de influência (coisa que o sogro, enquanto vivo, jamais permitiu), minando, aos poucos a ascendência da esposa — uma das acionistas majoritárias — sobre seu destino. E, assim, pedir o divórcio, sem correr o risco de ficar ao léu. Passados, ambos, dos 30 anos, nem ele nem D. Volga tencionavam fazer dos classificados de emprego uma leitura obrigatória. Somente algum tempo depois da separação ele assumiria seu romance com D. Volga — tudo cuidadosamente orquestrado para não causar escândalo dentro da empresa, nem parecer que fora tudo... cuidadosamente orquestrado.

D. Volga, boa enxadrista que era, planejava as minúcias e orientava o amante na execução do plano. Para ela, todos têm um papel a cumprir na vida e, se você não está feliz com o seu, rasgue-o e jogue-o fora. Ou cumpra-o à risca. Era função da secretária ser fiel ao chefe. Era papel da amante apoiar seu homem. Era papel da esposa histérica ser enganada pelo marido. E era papel do marido ter uma amante e com ela se casar. Tudo estava em seus devidos lugares.

Aconselhou ao amante que não se candidatasse para assumir a presidência, sob a alegação de estar abalado com a morte do sogro; ademais, havia outros sócios-diretores muito mais experientes que ele. Talvez alguns o tenham admirado ante tal demonstração de humildade; talvez outros o tenham desprezado, diante da flagrante hipocrisia. Dr. Roberto era conhecido por não pregar prego sem estopa — mas a esposa, ah, essa acreditou piamente no discurso, e começou a angariar apoio para que ele assumisse, por definitivo, a presidência da empresa.

Se nos filmes as coisas e os fatos se sucedem de maneira rápida e simples, na vida real o ritmo é bastante diferente. Quase um ano se passou antes que a primeira parte do plano se cumprisse, e Dr. Roberto fosse entronizado, por assim dizer, na cadeira da presidência. Quem o apoiou não se arrependeu; quem era contra, logo esqueceu o assunto, ao ver as planilhas dos lucros. Como dissemos, Dr. Roberto era muito competente.

Os amantes seguiram seu plano de esperar que a posição dele ficasse consolidada, antes de Dr. Roberto pedir o divórcio. Nesse ínterim, ele facilitava que a esposa bebesse e se drogasse cada vez mais, solapando sua reputação junto aos outros acionistas. Essa era uma parte importante da estratégia, pois quem acusaria Dr. Roberto de desleal por querer se separar de uma esposa que não lhe dera filhos e ainda descia ladeira abaixo? 

Num mundo ideal, a esposa de Dr. Roberto perceberia que era apenas um peão no tabuleiro da vida do marido e viraria a mesa. Mas o mundo ideal não existe e o fato é que ela o amava com aquela possessão que só os doentes e inseguros têm. Por isso, quando ele aventou a possibilidade de uma separação, ela fez um escândalo digno de filme hollywoodiano. Que se ele ousasse sequer pensar em abandoná-la, ela arregimentaria todas as suas forças, ações e influências junto aos antigos sócios do falecido pai para destruí-lo tão completamente que ele iria morar na sarjeta. 

D. Volga entendeu a reação da mulher, sendo ela, também, apaixonada por Dr. Roberto. D. Volga, no entanto, pensava com a cabeça, não com o coração. Sugeriu ao amante que não mais falasse em separação e voltasse à rotina matrimonial, acalmando a esposa. Sugeriu também que eles, amantes, se afastassem um pouco, a fim de não serem descobertos — uma mulher desconfiada é capaz de tudo, inclusive pagar alguém para seguir o marido. Para evitar tal desastre, recomendou que ele, Dr. Roberto, colocasse um detetive atrás da esposa, a fim de antever  todos seus movimentos e, assim, se proteger. D. Volga era, como dissemos, excelente enxadrista.


E esperava por aquele homem há quase 15 anos. Não podia vislumbrar sua vida sem ele. Não depois de tanto sacrifício. Era preferível a morte. E Dr. Roberto não podia perder o cargo. A ficar desempregado e morrer pobre, era preferível a morte.

Era preferível a morte. Sim, mas de quem?


Dia 26 de fevereiro, a 3ª e última parte, prometo. 



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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

ALL YOU NEED IS INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
>> Analu Faria

A Lexicon é uma companhia que trabalha com dar nome a empresas e produtos. Não é um empreendimento de marketing exaaaatamente. Quero dizer, na verdade, é, mas não cuida da estratégia de marketing como um todo. A Lexicon é especializada em uma parte bem específica da identidade da empresa ou do produto: o nome. Foi ela quem deu o nome de “BlackBerry” ao aparelho que deveria se chamar “EasyMail”. Se o BlackBerry já não é uma unanimidade, imagina com esse lindo e funcional nome de “EasyMail”…

Vi uma entrevista na TV, feita com um dos executivos da empresa. Ele falava sobre a sonoridade do “b” e sobre como essa sonoridade poderia definir o que se pensa da marca. Também falou sobre o fato de ser uma palavra “curta e grossa” (tradução minha para as muitas palavras que ele usou, em inglês, para dizer que os fonemas de “blackberry” denotam algo que “vai direto ao ponto”) e de como essa ideia se encaixava bem no que o aparelho oferecia de diferente ao consumidor. Disse, ainda, que blackberry (“amora preta” em português) é uma frutinha bem gostosa, o que é ponto positivo. Imagine um eletrônico chamado “Jiló”.

Eu nem sabia que existiam empresas especializadas em “brand naming” (esse é o nome do ramo da Lexicon). Existem muitas. Lá fora e aqui. Essas empresas usam o conhecimento de linguistas, de gente que esquentou banco de faculdade por anos, que pesquisou, que fez mestrado, que varou noite estudando, que quebrou a cabeça com artigos científicos, que aguentou orientador que não orienta nada (ou que exige demais). Dar um bom nome a uma empresa não é tirar coelho da cartola.

Começa a crescer no Brasil uma área chamada linguística forense. Uma parte da linguística forense cuida de analisar evidências linguísticas a fim de detetar autoria, intenções e significados de um texto. Também lida com identificar se um texto é original ou foi plagiado. A página http://linguisticaforense.pt/ traz casos de pessoas que foram condenadas ou inocentadas por evidências linguísticas.

Usei dois exemplos fortes de como a linguagem pode mudar a vida de alguém. É lamentável que muitos brasileiros considerem inúteis os estudos da linguagem — qualquer linguagem, verbal ou não — e que entendam a comunicação apenas como “meio” para atingimento de algum fim. (Já disse um cara muito esperto, “o meio é a mensagem.”). Estudar linguagem e contexto é uma coisa séria, não para fazer prova, mas para fazer a vida. Recentemente, em uma roda de amigos, comentei que a pena de morte no Brasil só era possível em caso de guerra. Em todos os outros casos, não poderia ser aplicada e que essa regra — da não aplicação da pena capital — era cláusula pétrea, o que significava que a regra não poderia ser mudada, de acordo com nossa Constituição. Para que a pena de morte fosse aceita como legítima, seria preciso haver uma outra constituição, o que só ocorreria em caso de revolução ou golpe. Uma amiga me interrompeu. O diálogo que se seguiu foi meio surreal:

Amiga X: Pois é, eu acho que a Constituição precisaria, sim, ser revista.

Eu: Ok, mas essa regra, especificamente, não pode “cair” — não pode haver pena de morte no Brasil e a regra não pode ser tirada da Constituição. É uma regra jurídica, entende? Isso é que quer dizer uma cláusula pétrea — você não pode se livrar dela, nem por emenda à Constituição.

Amiga X: É, mas nisso aí eu acho que deveria haver uma revisão, quanto à pena de morte, sabe.

Eu: Ah, só com outra constituição. E isso só em caso de revolução ou golpe, né, que são os casos em que você teria, digamos assim, bem grosseiramente, uma mudança de poder, imposta ou não. São os casos em que se muda uma constituição, entende? Mesmo que o golpe não seja uma coisa legítima e...

Amiga X: Não, não precisa ter golpe, nem revolução. Eu acho que podia rever isso da pena de morte com esta Constituição mesmo.

Sem saber o que dizer, balancei a cabeça: “Entendi.” E saí da roda.

Lembrei, na hora, de uma frase de um conhecido: “Falta amor neste mundo, mas falta interpretação de texto também.”

Pior que isso são aqueles que não querem “discutir” sobre qualquer coisa relacionada à linguagem. “O importante são os atos, não as palavras”. Enquanto isso, linguistas e marqueteiros espertos vão dar nome a bons produtos e fazer rios de dinheiro. Marqueteiros e linguistas picaretas vão vender produtos ruins com linguagem boa e passar a perna em um monte de gente para quem "nome não vende produto". Políticos vão continuar nos engambelando com seus discursos “mais do mesmo” — mudam-se as palavras e muita gente não vê que não mudam as intenções. Peritos vão identificar se aquele texto que você adora não foi puramente um CTRL+C + CTRL+V do texto de outro alguém. Líderes mal preparados vão transformar vidas de bons profissionais num inferno, enquanto puderem encantar com frases de efeito ditas de um jeito original. Líderes tecnicamente bem preparados vão penar para colocar em prática suas ideias, por pura falta de comunicação.

Quem não se comunica, baby, se estrumbica.

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

MINUTO DE SILÊNCIO >> Carla Dias >>

Sorri, faz reverência e então...

Ao seu redor, boquiabertos e arrítmicos, os outros o observam. Alguns até ousam lançar ao vento seus comentários destecidos: o que pode um ser humano desses querer da vida, dando-se ao desfrute de desfilar tal afronta durante o minuto de silêncio?

Há muito tempo, o minuto de silêncio se tornou a forma mais cativante de angariar compadecimento, vencendo todas as campanhas publicitárias de tarimbadas agências. Quem lançou a moda, e ajudou a torná-la orgulho mundial, foi um ator não muito conhecido, que, por puro partidarismo emocional — era marido da estrela principal — acabou ocupando o cargo de mocinho corajoso em um badalado filme de Hollywood. O fiasco foi inevitável, que não houve roteirista e diretor que desse jeito na falta de talento do moço. O que os envolvidos com o filme não esperavam é que seria ele — quem se tornara a piada da vez e o ex da estrela principal do filme — que mudaria o mundo.

A atriz principal se retirou do relacionamento valendo-se da deselegância gritante de romper com ele durante um popular programa de entrevistas, enquanto o desergenizado mocinho jantava com a mãe, assistindo ao programa. A mãe achou que “até que ela foi fofa, meu filho”. Ele chorou a noite inteira.

Na tentativa de se desculpar pela falta de talento e dedicação à nobre profissão, pediu que o mesmo programa o recebesse, e foi atendido de imediato, que não há nada que dê mais ibope do que lavação de roupa suja de celebridades em programa de tevê ao vivo.

A entrevistadora, uma experiente jornalista, especializada na arte da dramatização da vida alheia, excitadíssima com a exclusiva — e por estar ao lado de tão bem-apessoado ator —, fez logo três perguntas para o moço, que, contradizendo a fama de falar mais do que devia, calou-se, encarando o vazio, como se nunca tivesse se colocado de frente às câmeras.

Todos se calaram com ele. Durante um minuto, devidamente cronometrado, o silêncio foi total e em uma grande parte do mundo. O olhar dolente, o aspecto de quem vem ruminando sofrimento, aquele desalento todo fez com que os olhos da entrevistadora marejassem.

Um minuto depois, o ator se mostrou digno do título, mas foi sem querer. Coração partido, ele levantou os olhos, encarou a câmera e disse, voz rascante, “perdoem-me por existir”.

O ator, que de ator realmente tinha nada, arrebatou os espectadores com a conclusão a qual chegou. Não foi atuação... Era claro que ele se sentia tão desvalorizado, e estava completamente ciente de sua inabilidade como interpretador de personagens, que realmente não via motivo para a própria existência.

Não há nada mais poderoso do que um momento de crendice absoluta a respeito de um absurdo. As pessoas que realmente não mereciam existir — desculpem a honestidade escancarada dessa narradora, mas há pessoas que fazem por merecer serem incluídas nessa categoria —, bom, elas jamais diriam isso ao mundo, tampouco pensariam dessa forma sobre si mesmas.  Mas o ator, por mais desprovido de talento que fosse para o ofício, interpretou sua verdade de forma tão delicada, daquele jeito que faz coração apertar, olhos lacrimejarem (isso nunca tinha acontecido com a apresentadora escolada em escândalos!), consciência ser acessada sem defesas, que suas redes sociais, que sempre foram palco para destilarem as piores frases feitas, foram empanturradas, em horas, com mensagens de apoio.

Após o ocorrido, um político, assumidamente apaixonado por cinema — secretamente, um ator que deu muito certo, mas não nas telas de cinema, e sim nos palanques —, fez um pronunciamento em rede nacional. Todas as emissoras de tevê e canais da internet transmitiram ao vivo... Porque ao vivo é mais emocionante. Com esse pronunciamento, sobre a divindade do espírito do ator, ele alcançou a todos, até porque a sua equipe de tradutores garantiu legendas de primeira. Foi assim que o péssimo ator ganhou não um dia do ano para ser comemorado, mas um dia por semana para ser celebrado... Ainda que por apenas um minuto.

Silenciosamente.

Isso se deu logo após o ator pular do quadragésimo terceiro andar do seu prédio, o que tornou sua declaração no programa de tevê ainda mais significativa. Ficou estabelecido, então, o minuto do silêncio, quando o mundo se cala para escutar esse milagre livre dos sons das britadeiras que nunca param de trabalhar. O momento em que todos lamentam os que já passaram por esse mundo complexo, repleto de programas de entrevistas ao vivo e celebridades tão instantâneas quanto certas sopas. E tão insossas quanto, também...

Com hora marcada para acontecer — uma forma de pagamento adiantado pelas perdas que virão, não importa quais ou as condições do ocorrido —, toda sexta, às três da tarde, o mundo para e silencia durante um minuto.

Esse outro homem, que nunca desejou ser ator e gosta do emprego que tem, ele até que aprecia o silêncio. Porém, cansou-se de silenciar em nome do que ninguém sabe explicar do que se trata. Pobre do ator, que foi uma pessoa que morreu foi de coração partido sendo completado com uma bela queda. Mas esse silêncio... Ele gosta de silêncio, mas os da sexta às três da tarde lhe parece infligido, feito uma lei criada para desamparar cidadão.

Ele sorri, faz reverência, e então começa a cantar. Canção preferida, com mensagem que é uma lindeza. Além de cantar, ele dança pela praça, como se ela fosse palco. Ao seu redor, trinta segundos de pessoas em silêncio, loucas para repetirem refrão, que é mesmo uma ótima canção. Eles se seguram até os quarenta e cinco segundos, quando o homem volta ao refrão, e com eles, milhões soltam a voz.

Ele foi convidado para o programa de tevê ao vivo. Educadamente, não aceitou o convite. Ganhou milhares de amigos íntimos em algumas horas, mas não deu certo. Amigo mesmo ele já tem, e não é fã dos instantâneos. Aos poucos, as pessoas aprenderam a esquecê-lo, apesar de, às vezes, mencionarem a quebra do silêncio magistral que ele protagonizou, durante suas conversas.

O político até tentou inventar um dia inteirinho para ele, com direito a ser incluído no calendário como feriado. O homem sorriu, mais uma vez, e pediu ao político que apenas cuidasse bem do seu ofício, que assim, estaria cuidando bem das pessoas que acreditaram nele.

Às vezes, o cantor se lembra do ator, e faz silêncio durante um minuto, às sextas, às três horas da tarde.

Imagem: The Actor © Pablo Picasso

carladias.com

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

DIA DO AMIGO >> Clara Braga

O Facebook quase me enganou! Aliás, eu e muitas pessoas ficamos nos perguntando: mas já é dia do amigo de novo? Ou então: tem mais de um dia do amigo por ano agora? Mas não era nada disso, era apenas aniversário dessa ferramenta que nos aproxima de amigos antigos e perdidos, mas que as vezes nos afasta dos que podiam estar mais próximos.

Dei uma olhada no vídeo que me foi sugerido, provavelmente uma escolha de amigos que se baseia na interatividade na própria rede, o que fez com que algumas pessoas ali nem fossem assim tão amigos, mas valeu pelos momentos que foram relembrados. Mas os insatisfeitos tinham a opção de editar e colocar lá as fotos que eram mais significativas.

Se eu tiraria alguma foto ou algum amigo? Talvez. Mas com certeza adicionaria uma pessoa com quem não tenho contato há muito tempo, mas que é muito significativa: a minha primeira melhor amiga!

Já pararam para pensar na importância do primeiro/primeira melhor amiga/amigo? É com o primeiro melhor amigo que começamos a aprender regras básicas de convivência. Aprendemos a dividir quando compartilhamos nossos brinquedos, aprendemos a ajudar quando sentamos pra fazer a tarefa de casa juntos só para descermos mais rápido para brincar, aprendemos a controlar nossa primeira crise de ciúmes quando aparece uma amiga nova para brincar e sentimos nosso posto de melhor amiga sendo ameaçado, até que percebemos que para brincar tem sempre espaço para mais um.

É também com o primeiro melhor amigo que compartilhamos as primeiras broncas. Nunca vou esquecer do dia em que eu e minha melhor amiga trouxemos um filhote de cachorro escondido dentro de uma mochila da chácara dela. O pai dela já tinha avisado: nada de levar cachorro da chácara para casa! Mas ele era tão bonitinho que nem pensamos que estávamos quase matando o cachorro sufocado dentro da mochila. Quando chegamos em casa foi só o tempo de dar uma água para o cachorro, levar uma bronca e voltar para a chácara para deixar o bichinho lá. Pelo menos a viagem de volta foi fora da mochila.

Uma vez levamos bronca do porteiro do prédio também, já que toda data comemorativa a gente gostava de colar mensagens de feliz ano novo ou feliz páscoa com papel e durex na parede branquinha. Tenho certeza de que os vizinhos gostavam.

Enfim, foi com minha primeira melhor amiga que dormi fora de casa pela primeira vez. Mesmo sendo na casa dela, e ela sendo minha vizinha de porta, parecia que eu estava em uma super-aventura de gente grande. Foi com ela que fui ao shopping sem meus pais para assistir a um filme que era proibido para a nossa idade e ainda jogamos pipoca na cabeça das pessoas que estavam sentadas na frente. Foi com ela que gritei até não poder mais naqueles brinquedos super-radicais dos parques de diversões, que andei de cavalo, que chupei cana de açúcar, que andei de patins e de bicicleta, que joguei jogo de tabuleiro, que inventei muitas histórias brincando de Barbie e mais um monte de coisas que não caberiam em um crônica só, mas o mais importante é que é com a primeira melhor amiga que a gente aprende a ser amiga, e essa é uma das lições mais importantes da vida.

Hoje em dia não tenho mais contato com a minha primeira BFF, mas às vezes acompanho suas fotos no Facebook e vi que o tempo passou mesmo, ela já é mãe! Quem diria, parece que faz tão pouco tempo que estávamos brincando no bate-bate e comendo promoção do McDonalds por 5 reais apenas.

O Facebook não teria como saber, mas essas sim são lembranças que não devem ser esquecidas, afinal as que hoje estão registradas lá só foram possíveis por causa dessas que estão registradas em fotos antigas em algum álbum perdido por aí e, claro, na minha memória, que pode ser ruim para muitas coisas, mas essas lembranças não teriam como serem esquecidas!

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

REVERTERE AD LOCUM TUUM (2ª parte)
>> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 25/01)

O telefonema que desencadeou a crise tinha vindo de um hospital em Angra dos Reis.

Na semana passada, deslumbrado com uma escultura que viu no Cemitério do Caju, Augusto foi à Ilha Grande procurar o artista e encomendar um busto em mármore para coroar o seu chalé.  Disse à família que viajava a trabalho, a verdade só o Durval sabia.

Durval sempre sabia. Era o único que apoiava a empreitada de Seu Augusto. “É o desejo dele. Tem que ser respeitado”, dizia. Numa tarde sonolenta, Augusto tinha chegado à funerária, humilde e falando baixo. Durval, acostumado com a dificuldade desses momentos, também falava baixo, atencioso e prestativo. A conversa avançou e ele descobriu que Seu Augusto não tinha um defunto, mas tinha muitas perguntas.

— Seu Augusto, tem jazigo de todo preço, mas, uma vez adquirido o espaço, o senhor pode ir melhorando, valorizando, é como uma casa.

Augusto não se preocupava com a morte, “todos morreremos algum dia e isso não é bom nem mal, é a vida”, dizia. Mesmo o pós-morte, assunto que considerava mais sério, não lhe tirava o sono. O que lhe coubesse, aceitaria. Também não se importava com roupas, carros e casas. Andava de ônibus, só tinha roupa de trabalho e morava de aluguel.

Mas de alguma vaidade ninguém escapa e a de Augusto, mais que uma vaidade, era uma obsessão: não ser enterrado como viveu, repousar num lugar que recompensasse sua vida de privações. Há anos visitava cemitérios para observar a arte, a arquitetura e a beleza dos túmulos. Em casa, escondido da família, visitava sites especializados, fazia desenhos e planos.

Quando conheceu Durval, foi amizade à primeira vista. Juntos planejaram e executaram, de modo a caber no orçamento de Seu Quincas — não sem sacrifícios — a compra, construção e embelezamento de um “lugar decente, debaixo de uma árvore frondosa, numa alameda discreta, longe da via principal, mas encantadora”, dizia Durval.

O NAUFRÁGIO


Agora Dona Quinca estava sedada e algemada numa maca, sem previsão de alta. Tinha apanhado bravamente de policiais e enfermeiros antes que a injeção a tranquilizasse. Já estava sonolenta quando ouviu a voz de prisão por desacato, lesão corporal e dano de mais de vinte mil reais.

Mas onde estava o Augusto?

Na volta da Ilha, Augusto imaginava já a escultura pronta, enfeitando o seu mausoléu, quando a lancha bateu numa pedra e afundou. Felizmente salvaram-se todos, resgatados por outra embarcação, mas Augusto chegou desacordado ao hospital por conta de uma pancada na cabeça durante os embates do naufrágio.

Sem documentos, Augusto acordou três dias depois no Hospital de Angra dos Reis e informou o único telefone que sabia de cor, o da funerária. A assistente social fez a ligação, interrompendo a compra e venda que já estava assinada.

(Continua em 15 dias)

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domingo, 7 de fevereiro de 2016

10 VERGONHAS DUPLAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Estou com vergonha de escrever esta crônica e tenho vergonha de ter vergonha.

Tenho vergonha de dormir enquanto outras pessoas trabalham para mim e tenho vergonha de lhes pagar um salário que eu mesmo não aceitaria se fizesse aquele tipo de serviço.

Tenho vergonha de ganhar dinheiro e tenho vergonha de gastar dinheiro.

Tenho vergonha de me vestir bem e tenho vergonha de ficar nu.

Tenho vergonha ao ser repreendido e tenho vergonha ao ser elogiado.

Tenho vergonha dos meus sonhos e tenho vergonha de invejar os sonhos realizados dos outros.

Tenho vergonha de olhar e tenho vergonha de ser olhado.

Tenho vergonha de dizer o que sinto e tenho vergonha de não sentir o que digo.

Tenho vergonha de escrever coisas bem específicas e tenho vergonha de estar escrevendo coisas genéricas.

Tenho vergonha de falar das minhas vergonhas e tenho vergonha de lhe perguntar: Quais são as suas vergonhas?

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sábado, 6 de fevereiro de 2016

NA FAIXA >> Cristiana Moura

E por um segundo a menina parou. Doou-me um sorriso. Não sei quem é nem seu nome. É miúda, penso que tenha quatro ou cinco anos. Eu sorri quase que por um reflexo pleno de gratidão.

Puxada pela mão ela atravessava a faixa de pedestres saltitando. Quase ao fim da travessia olhou para mim novamente como se fôssemos velhas conhecidas. Já do outro lado da rua, após uma lenta lambida num picolé cor-de-rosa, seu olhar mais uma vez cruzou o meu com a cumplicidade de quem explicava sua alegria prévia ao atravessar a faixa.

— Meu Deus, que possamos compartir os sorrisos que nascem das pequenas coisas.

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

POSSIBILIDADES NO EXISTIR >> Paulo Meireles Barguil



ASSISTIR

CONSISTIR

DESISTIR

INEXISTIR

INSISTIR

PERSISTIR

RESISTIR

SUBSISTIR

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

À PROVA DE LÁGRIMAS >> Carla Dias >>


Conversava com um amigo sobre séries de tevê, especialmente sobre uma que outro amigo me indicou e eu não consigo parar de assistir, How to Get Away with Murder.

Acho que devemos ser gentis com uma conversa. Quando entro em uma, estou pronta para seguir o rumo que ela apontar. Nesse acaso, acabamos nos filmes e séries em que a tecnologia impera soberana, como acontece em Black Mirror. A partir daí, as coisas ficaram mais complexas. Entraram na conversa as questões existenciais, e meu amigo começou a me explicar o quão científico é muito do que penso em tom poético.

Black Mirror | Episódio: Fifteen Million Merits | 1ª temporada
Tudo o que remete à inteligência artificial me assusta, não pela descoberta em si, mas pelo hábito do ser humano de se deslumbrar com o poder que adquire e consigo mesmo. Tenho essa impressão, que me incomoda de um jeito, de que não estamos prontos para tratarmos as descobertas que já estão ali, batendo na porta, com a responsabilidade que elas exigem.

Algumas horas depois dessa longa conversa sobre séries, filmes, inteligência artificial e a longevidade do planeta, eu observava outro amigo usando o celular para anotações de voz... Desculpe, mas não sei dizer diferente. Você fala e o aplicativo anota na agenda do celular.

Antes de continuar, e para que vocês entendam o motivo de eu me sentir, como posso dizer... Impressionada, saibam que eu uso o celular como telefone mesmo. Tenho um único aplicativo de mensagens e um para fotos, e pronto. Ah! Às vezes, mentira, muitas vezes, eu me esqueço de que ele existe.

Perguntei se a agenda do celular funcionava para ele, porque eu nunca fui boa com agendas, de papel ou eletrônica. Enquanto me mostrava o funcionamento do aplicativo do celular, botei reparo de que o tal respondia a ele. Comentei que achava interessante e ele decidiu me mostrar uma forma diferente de usar o aplicativo. Ele fez a mesma declaração três vezes:

Hoje estou muito triste.

A moça do aplicativo deu a ele três respostas:

Você pode chorar, se quiser. Minha superfície de vidro de aluminossilicato é à prova de lágrimas.

Eu ofereceria um ombro para chorar... Se eu tivesse um.

Pelo o que eu entendo, a vida é triste, bela, e tudo o que há entre uma coisa e a outra.

Ela (Her)
Depois disso, fizemos alguns testes, mas a moça parece não ter gostado muito das nossas perguntinhas. Mas o que não deu para evitar foi pensar naquele filme, Ela (Her/2013), em que Joaquin Phoenix se relaciona profundamente pela voz que comanda um sistema operacional de seu computador.

Falar sozinha? O tempo todo. Pedir conselhos a si mesma? Idem. Responder ao “Boa noite” do âncora do jornal? Sempre. Aconselhar personagem de filme a não abrir a porta? Definitivamente! Abrir o “Minutos de Sabedoria”, antes de sair para uma viagem ou dar segmento àquela mudança? Pois é...

Lembro-me de quando tive de ligar para o Serviço de Atendimento ao Consumidor de uma operadora de TV a cabo, e me peguei morrendo de raiva, e não pela falta de profissionalismo que reina pelos SACs da vida. As mensagens gravadas, que respondem às informações cedidas pelo cliente, foram gravadas como se uma pessoa conversasse, em linguagem bem informal, na tentativa de criar certa intimidade com quem ligava. Percebi ali que boa parte das pessoas poderiam sim acreditar que falavam com um ser humano presente, não com uma voz emprestada a um software, que tem uma agenda a seguir. Fiquei imaginando as pessoas conversando com as atendentes, sem obter resposta. Mas não é o conforto de não escutar uma voz metálica ao telefone que me intriga, mas sim o fato de que, se com as pessoas já era difícil obter respostas rápidas e justas, com as máquinas, programadas para ignorarem a necessidade do cliente, e guiá-los como desejam, aonde iremos parar?

A tecnologia não me assusta. É natural o caminho da descoberta. O que me assusta profundamente é a forma como o ser humano lida com ela. Assim como oráculos, política, religião e opinião própria, quando o intuito é a manipulação.

E o que será que será? Vou perguntar ao celular do meu amigo.

O que não negocio são as emoções. Não sou à prova de lágrimas, tampouco de gargalhadas. E que assim continue.


BLACK MIRROR





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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

DEPOIS DE TODO AQUELE TEMPO >> André Ferrer

O problema estava naquilo que era ser um professor de Química e sempre discutir a vida em termos de reagentes e produtos. Naquilo que sempre tinha sido transpirar e urinar Lógica. De repente (à luz de um sol que degelava um embrião esquecido), descobriu-se.

Na padaria, inacreditavelmente, deixou passar o tubo de reações "desbalanceadas" do “tiozinho” da caixa. Tolerou, minutos depois, a entrópica ignorância do jornaleiro.

No carro, à “Rádio Que Toca Notícia”, preferiu uma que tocava música e o repórter do helicóptero, dito “fodão do real time”, nem foi lembrado. Trânsito sem oráculo. Dia deixado à ventura.

“Noto que comprou jornal! E que tal?!”, disse o chato na entrada do colégio. “Derrapou, de novo, aquele ‘seu’ herói delator! Hein? Hein? Hein?”

Mesmo sendo minoria — no pátio e na vida —, o bedel não incomodou. Quis. Ardeu. Desejou. E, decerto, como se aquilo fosse o ar de todas as manhãs, aspirou! Inútil. O professor de Química deu de ombros para a política (depois de todo aquele tempo se importando, até que estava feliz).

“Hein?”

Na sala dos professores, uma cordilheira de caninos, molares e incisivos contra um céu escarlate de bocas. Enfim, a matilha. “Tantos anos”, ele não perguntou, “e quando foi mesmo que o macho alfa rejeitou um recém-nascido?”

“As notícias! Ontem. Você já sabe.”

“Lobo”, não disse, “olhe para trás e aprecie a fila de cheiradores de traseiro!”

“Hein?”

Na sua defesa com alma de ataque, o professor de Química disse apenas “bom dia” (porque, afinal, tinha renascido).

“Queridos”, não disse.

“Queridos, a guerra por mim não é.” Com todas as forças, não quis dizer (porque renascer é duro é duro é duro). E foi nessa calma, nesse paraíso, nessa tranquilidade em forma de um cancã de pernas e rabos entremetidos que tudo mais, a manhã e a tarde e o dia, transcorreu.

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