domingo, 31 de janeiro de 2016

HELENICES >> Whisner Fraga

O título foi ideia da Zoraya Cesar. A ela, por isso, minha gratidão.

1.
Helena diz que a picada de pernilongo está coçando. Busco uma pomada que promete aliviar coceiras e besunto o machucado. Ela pergunta se pode passar o dedo em cima. Pode, digo. Ela cutuca o creme e leva a ponta do indicador à boca. Que gosto horrível, reclama. Menina, pare com isso, vai lá lavar os lábios, que é perigoso, é veneno!, recrimino. Ela corre. Pouco depois, volta com a boca toda cheia de espuma, se queixando que agora estava sentindo um gosto horrível de sabonete.

2.
Helena me alerta, assustada: pai, isso daqui está com gosto de guacamole. Caramba. Um robalo com gosto de guacamole? Era o coentro.

3
Fui dar outra moeda para Helena: é para seu cofre. Ela responde que não quer, obrigada. O cofre já está bem cheio. Tão cheio que nem consegue mais carregá-lo.

4.
Na saída do médico, Helena falou: já que o doutor disse que não tenho alergia a frutos do mar, quero almoçar só lula e camarão, tudo bem?

5.
Quando Helena viu o tubinho com o sangue dela, no laboratório, gritou, radiante:
— É vermelho!

6.
Helena: Não vou fazer aniversário nunca mais.
Eu: É mesmo? Por quê?
Helena: Porque mamãe falou que eu parei de crescer.

7.
Helena, logo cedo, depois de jogar restos de uma fruta em cima do meu telefone: Tem uma banana presa no celular do meu papai. Coitada da banana!

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sábado, 30 de janeiro de 2016

EM COPACABANA >> Sergio Geia

O calor era insuportável naquela tarde de verão em Copacabana, mas não queria perder o evento literário; não é sempre que um escritor brasileiro best-seller mundial, que se mudou de mala e cuia para a França, vem falar para seus fãs em seu próprio país. Parei antes num botequim, peguei duas garrafinhas de água, esbarrei na Claudia, uma amiga de faculdade, depois seguimos juntos até o hotel onde aconteceria o encontro. Sentamos nos últimos lugares disponíveis: eu, numa ponta; a Claudia, noutra. Chegamos a tempo de vê-lo entrar vestindo seu inseparável All Star vermelho, sua calça jeans rasgada e uma camisa azul estampada de mangas compridas.

“Boa tarde, pessoal”.

Assim ele começou o bate-papo, cujo início reproduzo pra você.

“O brasileiro não tem o hábito de ler. E em cada nova pesquisa você percebe que ele vem lendo menos. No tempo livre, o brasileiro prefere a TV ou ouvir música, descansar, praticar esportes, sair com os amigos. Poucos são aqueles que têm o hábito de ir a uma livraria ou a uma biblioteca, folhear livros ou mesmo sentar num café e ler alguns trechos. E como não faz isso, não ensina aos filhos. E nós temos gerações e mais gerações de não-leitores sendo formadas.

"Antigamente no Brasil era muito comum a gente comprar CD para ouvir nossos artistas preferidos. Todo mundo tinha um aparelho de som em casa e uma coleção de CDs. Agora, e livros? Alguém tinha livros? Uma biblioteca ou uma pequena estante que fosse? Quase ninguém. As pessoas têm o hábito de ouvir músicas, o que é maravilhoso, mas não têm o hábito de ler, o que é lamentável. É uma questão profunda de educação.

"A gente sempre escuta, e na minha cidade isso era realmente verdade, que antigamente a escola pública era boa. Os nossos políticos viraram as costas para a escola pública.  Se não houver investimento, se não houver políticas públicas sérias que privilegiem a educação, se não houver ações políticas de verdade, cada vez mais as novas gerações vão ler menos.

"Veja o caso da biblioteca. Já está comprovado que nas comunidades onde elas existem o rendimento dos alunos é bem superior em relação àqueles que vivem em comunidades que não possuem biblioteca. Aumenta o índice de aprovação. Diminui o índice de abandono. E é tão difícil assim investir em bibliotecas? E o professor? Todo mundo acha que o professor ganha mal, que o investimento deveria ser no professor, pagando bem, reciclando-o. Agora se ele faz greve por melhores condições de trabalho, de salário principalmente, todo mundo cai de pau, a sociedade organizada é refratária, a própria mídia é. Mas com político, infelizmente, meus amigos, só funciona assim. Você só consegue alguma coisa protestando, fazendo greves, indo até os meios de comunicação. Sem pressão, ele não aumenta o salário do professor. Aliás, não aumenta salário de ninguém, a não ser o seu e de seus apaniguados.

"A Marcia Tiburi diz que por trás disso tudo existe um certo ‘fascismo’, a vontade do sistema de deixar o outro ignorante, porque se ele for ignorante, melhor para a manutenção do governo do jeito que está. Gente esperta, culta, informada é insubmissa, inventa coisas, pode criar outros mundos possíveis.

Minhas desculpas por esse desabafo, mas estou cansado de tanta demagogia”.

Depois disso, ele respirou fundo, aguardou cessar o barulho das palmas, tomou um pouco de água, e começou a falar sobre um de seus livros.

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A SECRETÁRIA (1ª parte) >> Zoraya Cesar

No mundo, cada um com seu papel, e, se você não gosta do seu, rasgue-o e jogue fora. Assim acreditava D. Volga.

Para ela, no entanto, jogar fora seu papel de amante estava inteiramente fora de cogitação. Assumira que cabia à secretária cair de paixões pelo chefe casado, e, ao chefe, levar alguns anos para ajeitar as circunstâncias, separar-se da mulher e, só então, juntar-se publicamente com seu verdadeiro amor, ela, a secretária.

Por acreditar nessa filosofia do each one to his trade, ou, no popular, cada macaco no seu galho; por estar profundamente apaixonada; e por acreditar que era, essa paixão, recíproca, D. Volga recebia de corpo e coração abertos a lascívia e as explicações, confidências, segredos e, também, as tergiversações e evasivas do amante, o chefe.

O chefe. Roberto era seu nome, Dr. Roberto, melhor dizendo, e devo confessar que, quando ele e D. Volga se encontraram pela primeira vez, dentro da empresa, a atração foi mútua e imediata. Eram jovens e sedutores — ela, esguia e arguta; ele, forte e implacável. Os dois, ambiciosos. 

E a ambição pode ser um componente bastante definitivo na composição de um novo elemento químico. Principalmente quando há sexo e dinheiro envolvidos. E quando não houver mais sexo? A ambição permanece. Mas ainda é cedo para falarmos disso. Acompanhemos o desenrolar da história. E voltemos à ambição. 

Dr. Roberto era casado com a filha do principal acionista e diretor-presidente da empresa de incorporações onde era advogado. Conquistar a moça tímida e meio feiosa, que se encantou pelo jovem promissor e arrojado, foi moleza, perdão, foi facílimo para ele, bonito, musculoso, assertivo. Mais difícil foi suplantar a desconfiança do pai, que enxergou ali — acertadamente, aliás — um golpe do baú. Como, no entanto, a filha parecia feliz, e o rapaz era, realmente, muito competente, o velho foi baixando a guarda até chegar ao ponto de fazer, do genro, seu sócio. 

D. Volga chegou à empresa mais ou menos na época em que Dr. Roberto fazia corte cerrada à filha do patrão, e não só percebeu a manobra como a aprovou inteiramente. Tudo estava dentro da filosofia do cada um com seu papel.  Quem não está satisfeito, que o rasgue e jogue fora.  Ela foi, inclusive, ao casamento, cumprimentou os noivos e desejou felicidades ao — já, então — amante. 

E, dentro do papel de secretária-amante do chefe, cabia-lhe ajudá-lo nas pequenas falcatruas, ouvir suas queixas, fazer sexo alucinante, guardar segredos inconfessáveis, passar os finais de semana sozinha. E esperar o momento certo de ele se separar para ficarem juntos. 

E quando seria isso? 

Bem, primeiro, o velho pai tinha de morrer ou se aposentar. Enquanto ele fosse influente nos rumos da empresa, Dr. Roberto não poderia abandonar sua galinha dos ovos de ouro. A mulher lhe dava estabilidade e projeção. E ele ainda não estava rico e independente o suficiente para largar o osso. Estratégia que D. Volga apoiava plenamente.  

(Não estranhem o uso dos pronomes de tratamento “doutor” e “dona”. Era assim que eles se dirigiam um ao outro, até na intimidade — fazia parte da dinâmica do casal.) 

O dia chegou, como chega para todos, e o velho patriarca, finalmente, morreu, para desconsolo de todos os que o conheciam — menos para o casal de amantes, que só gostava de si mesmo e um do outro. Talvez. O patriarca, então, como dissemos, morreu, e deixou uma herança bastante significativa para a única filha, essa mesma, casada com Dr. Roberto. 

Falemos um pouco dessa moça, que se apaixonou e casou com o rapaz arrojado e trabalhador, apesar da contrariedade da família. Após dez anos de casada, continuava a olhar seu querido Roberto com os olhos esbugalhados de admiração e incredulidade com os quais o mirara pela primeira vez. Autoestima não fazia parte de sua personalidade e o vácuo emocional deixado por essa importante característica foi ocupado por um ciúme faminto, e uma fragilidade psíquica que a fazia beber em demasia, fumar e, desconfia-se, cheirar o que não devia. Esse somatório desditoso cobrava seu preço em doenças e achaques. E pronto. Falamos o essencial, voltemos à história principal.

Um momento. Eu disse dez anos de casada, certo? Sim, disse e mantenho. O caso entre Dr. Roberto e D. Volga continuava em não diria pleno, mas constante e estável vapor. 

Isso quer dizer que eles mantinham o relacionamento extraconjugal havia dez anos. Sob as mesmas condições. Sim, significava. E, tão discretos os dois, que nunca, ninguém, jamais desconfiou. 

Com a morte do patriarca chegara a hora, portanto, de Dr. Roberto cumprir o acordado sob os lençóis de D. Volga, separar-se da mulher e assumirem seu caso. Não foi, todavia, o que aconteceu. Embora ele fosse sócio na empresa, a esposa oficial era, agora, a única herdeira do falecido diretor-presidente, tendo herdado, inclusive, as ações com poder de voto. Uma separação, assim, de repente, poderia colocar ambos os amantes no olho remelento e glaucomatoso da rua. Algo soberanamente inadmissível, tanto para ele quanto para D. Volga. Até porque, a essa altura dos fatos, nenhum dos dois era jovem o suficiente para enfrentar a acirrada competição do mercado.

Cada um no seu papel. Era papel da amante ajudar seu amor a sair de uma situação difícil. Era papel do homem enganar a esposa e tentar sair de um casamento que já cumprira sua função. 

O que fazer? Esperar, decidiram. Saber viver em segredo e esperar, ensinara o avô russo de D. Volga, era a arma dos fortes.


Continua dia 12 de fevereiro.



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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SIGNOS>>Analu Faria

Como boa pisciana, eu ligo para astrologia. Não olho o horóscopo todo dia, nisso eu não acredito. Mas acho que aquelas características gerais, aquela descrição da personalidade do "nativo" de Peixes, ou de Touro, ou de Capricórnio etc. , isso bate com o real.

O problema é quando alguém não tem nada a ver com a descrição. Como é que explica, gente? Tenho duas colegas de trabalho do mesmo signo que são totalmente diferentes. TEM QUE TER UMA EXPLICAÇÃO! E eu descobri qual é. Astrologia é como um sistema — se uma coisa parece fora da regra, é porque é preciso harmonizar essa exceção com as regras do sistema como um todo. Em Direito isso tem até nome (concordância prática ou harmonização).

Quando alguém parece fora da curva demais, dê uma olhada no ascendente, na Lua (ou signo lunar) e  onde está o "Vênus" da pessoa. Procure em qualquer site de astrologia e eles te explicarão o que é a Lua e o Vênus (já tô vendo o Eduardo Loureiro me matar por usar esses termos de forma tão "popular"; confesso: não sei o termo técnico).

Descobri isso quando ouvi a estagiária daqui do trabalho dizer que Lua e Vênus explicam muita coisa. Fui ver a minha Lua e meu Vênus. Meeeeeu Deeeeus! Não sei por que paguei tanto psicólogo a vida toda. Todas as minhas contradições se harmonizaram ali. Sabe quando alguém superfechado faz alguma coisa boa para você e você fica desconfiado? Já fui vítima dessa desconfiança muitas vezes. Sabe nego te olhando com cara de "o que é que essa baixinha tá querendo com isso?" Portanto, se você alguma vez desconfiou da minha generosidade e quis saber qual era a minha, seus problemas acabaram: sou PEIXES com ascendente em Touro. Isso significa que PAREÇO avessa a mudanças, conservadora, certinha e "na minha" (Touro), mas na real eu me sacrifico pelos outros, faço o trabalho dos outros, penso muito nos outros, enfim... sou uma altruísta compulsiva (Peixes). Eu não tô "querendo nada", é o meu signo.

Se você também já se relacionou comigo de alguma forma, saiba que minha Lua em Leão e meu Vênus em Áries explicam muita coisa. É por isso que, mesmo generosa, quero ser a estrela de qualquer relacionamento (amizade, família, namoro etc.). Não me culpem, gente, leão é foda. Além disso, a todos os namorados que tive, meu Vênus em Áries tem uma parte bem divertida, não? Mas também...  enfim, põe lá no Google pra ver.

Então toda vez que você vir alguém que você não entende muito bem, faça um exercício de empatia e procure saber as características astrológicas da pessoa. Pode ser que ela seja fã de comida boa e seja  humilde, ao mesmo tempo que queira dominar os relacionamentos e seja superdivertida, podendo também ser generosa e séria, intrometida e passiva-agressiva, criativa e conservadora, mandona, emburrada, emotiva e abnegada.  Tranquila em geral e um furacão na intimidade. Tipo eu. Mas juro que a culpa é do meu mapa astral.

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

UM CONTO SOBRE NINGUÉM >> Carla Dias >>


Pessoa essa, que caminha sem pressa, entre apressadas presenças. Não tem hora marcada, lugar aonde ir, não tem o que a guie. Há esse infinito de lugar nenhum e hora que seja; de revoltoso silêncio margeando sua alma.

Seu espírito sempre foi agreste, inóspito. Acanhou-se, e de tal forma, que nele não cabe serenidade. Nele tudo é inquieto e evita proximidade com o alento. Pessoa essa é tão desacostumada a receber gentileza, que duvida quando ela dá as caras, que só faz maldizer essa benfeitoria, e de tal forma, que a seca, aniquila.

Para pessoa feito essa seria o fim desapontar-se com a gentileza. Melhor evitá-la.

Dizem por aí que tal pessoa é dos infernos, um demônio com fervoroso desejo de acabar de vez com a felicidade do outro. Que acha esse deleite uma afronta, já que sofrimento e escassez marcam a realidade do ser humano. Dizem até que não gosta de música, que dançou sobre túmulos de poetas, que vandalizou declarações de afeto, por puro prazer de desmenti-lo. Que acredita que afeto fragiliza, colocando a pessoa na posição de ser enganada.

Pessoa essa que observa seus semelhantes, durante um passeio marcado por passos lentos. Debaixo desse sol escaldante, sente-se confortável, como poucos, ambienta-se facilmente aos incômodos oferecidos. Aliás, essa ambientação se tornou sua habilidade mais afiada. Não precisa se esforçar para adaptar-se ao que o destino lhe desfere. Tem facilidade em defender-se de abismos.

Talvez se resuma a isso: a capacidade de adaptar-se aos infortúnios, diferente da leitura do outro, para pessoa essa é o único talento que lhe foi concedido por um Deus que escolheu ignorá-la, logo após a oferenda. Talvez Deus não tenha nada a ver com isso, os políticos que a ignoram, sim, quem sabe os incrédulos, os leitores de biografia a partir de rótulos e pré-julgamentos.

Trata-se de sobreviver aos recôncavos de sua reles existência, tendo um número de documento que a inclui em estatísticas, e a maioria delas não recita ganhos. Pessoa essa que, sim, já conheceu pessoa outra de mesma formação, com o espírito açoitado pela má sorte de nascer onde o amor não era bem-vindo. Limitada aos quintais das avenidas, aos solavancos da excentricidade da violência, e que ainda assim reverberava – o olhar lindo de beleza que não se pode nomear – a tal da felicidade, pelo simples fato de estar viva.

Lembra-se a pessoa essa de ter se emocionado com a honesta felicidade da pessoa outra. E de como lhe doeu o estômago ao perceber que ela jamais seria como a outra. Que seu espírito carecia de tal envergadura.

Aos que se acham bem-afortunados, providos da elegância dos desejos atendidos, da excelência das oportunidades oferecidas, da silhueta do que é dito perfeito, acredita que deveria ser proibido analisar alma feito a sua, que não quer, além de tudo, abraçar a culpa de ter enveredado devotos da felicidade pelas entranhas de seus abismos, rasurando-lhes o deleite.

Pessoa essa, que aprendeu a dizer muito com longos silêncios, e compreende lamentos como se tivesse sido doutrinada para isso, sabe que seguir em frente é uma questão de fôlego, quando o estômago dói pela ausência de alimento. E que raramente a decifrarão a contento, sem trocar sua condição de sobrevivente pela inadequação do negligente.

Imagem © Johann Heinrich Füssli



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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

MEUS DIAS DE PINK E CÉREBRO >> Clara Braga

Em uma segunda-feira o SINPRO anunciou: hoje é dia de esquecer um livro! Isso mesmo, esqueça um livro em algum local, outra pessoa irá encontrar, ler e depois esquecer o mesmo livro em um outro local. Dessa forma, estamos compartilhando conhecimento. Iniciativa genial, mas confesso que me deu uma invejinha básica e uma certa nostalgia.

Há alguns bons anos, logo que entrei na faculdade, eu e uma amiga fizemos um curso de literatura e fomos incentivadas pelo professor a esquecer alguns livros em locais diversos. Como boas calouras que éramos, com a cabeça fervilhando de ideias e vontade de engolir tudo que era novidade, abraçamos a ideia como se tivesse sido nossa e partimos para a saga.

A princípio foi complicado, não tínhamos muito dinheiro para comprar livros, o que tornou difícil a escolha de qual livro conseguiríamos nos desapegar. Lembro das capas dos livros como se fosse hoje. Os dois eram livros infantojuvenis, um sobre um hotel mal assombrado e o outro uma adaptação de Romeu e Julieta. Na contracapa, um texto que nós criamos, explicando que aquele livro havia sido deixado ali de propósito, para que quem achasse fizesse o melhor proveito possível e depois deixasse em outro local. Ao final do texto, um email para que as pessoas contassem para a gente onde tinham encontrado o livro e o que tinham achado da ideia.

O primeiro deixamos em um parque e ficamos observando de longe, esperando e filmando as pessoas que achariam. Duas meninas pequenas foram brincar no balanço e acharam o livro. Levaram para os pais, que leram o texto, riram da ideia e guardaram o livro. A sensação era ótima, realmente parecia que estávamos fazendo um bem para a humanidade, espalhando conhecimento e essas coisas. Nos sentíamos como o Pink e o Cérebro: iríamos dominar o mundo!

Foi uma experiência tão divertida que nem pensamos muito, já partimos para o segundo local: um banco de um shopping. Mais uma vez nos escondemos e assistimos ao guarda encontrar o livro, rir do texto e começar a andar pelo shopping com o livro na mão contando a história para seus colegas. Na nossa cabeça todos tinham se surpreendido com a ideia e não viam a hora de esquecer um livro por aí também. Estávamos tão empolgadas que já tínhamos várias versões dessa história de esquecer, queríamos esquecer poemas, reproduções de obras de artes, enfim, tudo que pudesse ser esquecido nós estávamos esquecendo.

Não sei dizer bem ao certo o que aconteceu com a nossa ideia genial, só sei que, como o Pink e o Cérebro, não dominamos o mundo. Acabou que depois desses dois livros nunca mais esquecemos nada em lugar nenhum, pelo menos não de propósito. E também nunca recebemos notícias dos livros que deixamos, ninguém nunca mandou um email dizendo se tinha dado continuidade para a ideia, e acabou que a pequena corrente de compartilhamento acabou muito antes do que deveria ter acabado.

Depois de ver que agora já existe um dia para celebrar e incentivar o esquecimento de livros percebo que nossa ideia (que na verdade era uma proposta do professor, mas como ele propôs e não fez, virou nossa ideia) era realmente genial. Fiquei com uma invejinha básica desse tal paulistano que está sendo colocado como o idealizador da parada, porque respondem os emails dele com a localização dos livros e os meus não?

Bom, mas apesar da leve inveja, é muito bom ver que as pessoas estão se empenhando nessa ideia de compartilhar livros, afinal, o que é bom nós temos mesmo é que compartilhar. Sem contar que as vezes podemos encontrar um livro que, se não fosse o acaso, jamais iríamos ler.

Já estou doida para estar do outro lado da história e encontrar um livro por aí dando sopa. Mas podem deixar, depois eu juro que esqueço outro livro para dar continuidade para a corrente, não vou deixar minha inveja ser maior do que essa ideia genial e essa sensação ótima de estar fazendo algo positivo, mesmo que agora eu seja só mais uma reprodutora da ideia desse paulistano e de meio mundo que já participou de diversas iniciativas como essa, droga...

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

REVERTERE AD LOCUM TUUM
>> Albir José Inácio da Silva

A Reunião


A família dispensou os detalhes, bastava de lenga-lenga, o preço servia. O comprador também tinha pressa e medo da desistência. Era um grande negócio.

Não chegava a ser um castelo como os que ficam na entrada do cemitério, mas era imponente. Granito, esquadrias de aço escovado e vidro fumê — mais de uma década de horas extras e sacrifícios.

Contrariando sua natureza de comerciante, o único com escrúpulos por ali era o Durval:

— Mas e Seu Augusto? Talvez fosse melhor esperar! A gente ainda não sabe o que aconteceu.

— Sabe sim, ô papa-defunto! Virou comida de peixe! A mim você não enrola, não. Vê se eu tenho cara de Augusto!

Papa-defunto era como Dona Quinca humilhava o Durval, que era, na verdade, como ele dizia, corretor de planos funerários, jazigos, urnas e utilidades afins — ramo que cresce muito pelo poder que dá ao cliente vivo de jactar-se da opulência e conforto de que desfrutará no futuro.

Onde, diabos, ia o dinheiro do marido, que trabalhava tanto, perguntava Dona Quinca. A família passando dificuldades, andando de ônibus porque o carro foi vendido, segundo o Augusto, para pagar dívida de cartão de crédito. As crianças com roupas velhas, ela pintando em casa o cabelo e fazendo a própria unha porque não tinha dinheiro.

E não perdoava Durval que, segundo ela, se aproveitou da fraqueza de cabeça de Seu Augusto, explorou sua ingenuidade para vender um elefante branco.

Mulher de fé, indignava-se com o materialismo do esposo. “Deixe que os mortos enterrem seus mortos” e “Tu és pó e ao pó tornarás”, citava a Bíblia, dizendo que o traste do Augusto era tão ruim que nem corrente da prosperidade melhorava a família.  “É viva que eu preciso de conforto”, esbravejava.

Durval respeitava o sonho do cliente e amigo, era testemunha do trabalho duro, com jornadas duplas, que Seu Quincas enfrentava para investir no que, como ele mesmo dizia, “não era só para ele, era para toda a família”.

A reunião de urgência na Sancta Pax tratava da venda do patrimônio deixado pelo morto, mas, antes da chegada do comprador, a coisa já havia desandado. Durval tirou do armário uma placa de bronze com moldura trabalhada:

— Isso pertence à família, ficou pronto ontem. Seu Augusto nem chegou a ver — e entregou à viúva, explicando que ali poderiam ser colocados nomes, mensagens e fotos. Tinha também uma nota fiscal.

— Dois mil cruzeiros! — gritou a mulher.

— Mas não se preocupe, ele já pagou — disse o Durval, como se isso pudesse acalmá-la.
                                                                           

A Crise


Negociações, acertos, cheques, contratos, Dona Quinca já tinha assinado as quatro vias, quando o telefone tocou. Durval atendeu, cochichou com o comprador e ela arregalou os olhos. O que era agora?

— Dona Quinca, o defunto tá vivo! Não tem mais venda nenhuma! — disse pausadamente o comprador.

— Tem venda sim! Já tá assinado e eu quero o meu dinheiro!

— Dona Quinca, a senhora não pode vender o que não lhe pertence.

— Posso sim, já vendi e quero o meu dinheiro, ou então vou quebrar tudo por aqui, inclusive algumas caras.

Irritado, o comprador rasgou o contrato em duas partes. E ela quebrou vidraças, cadeiras, computadores e caixões. Os presentes foram poucos para contê-la. Comerciantes vizinhos também. A polícia colocou algemas, mas ela continuava chutando. Depois, SAMU, diazepan injetável e o sono, finalmente.

O telefonema que desencadeou a crise tinha vindo de um Hospital em Angra dos Reis.


(Continua em 15 dias)

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domingo, 24 de janeiro de 2016

A RUA DO AMOR >> Eduardo Loureiro Jr.

A Rua do Amor — quem saberia? — começa à praia, num porto de jangadas, que maravilha. Mas tem uma rampinha de lixo, mal acaba a areia, que porcaria. Depois tem subida íngreme, esculpida pela água que escorre na ladeira, o barro é enrugado, o calçamento é desordeiro. A vista é bonita, mas o  terreno é baldio.

A Rua do Amor — quem preveria? — tem galpão à venda, de muros tão altos e sem pintura que não se sabe o que se vai por dentro. O que se vê um quarteirão à frente faz até supor que a rua é sem saída. Já não se olha para trás, para o verde, para o mar, tudo que se vê é um encurtamento da perspectiva.

A Rua do Amor — quem andaria? — como qualquer rua, tem esquina, e dá vontade de dobrar à direita ou à esquerda só pra não ter que seguir em frente. Já no terceiro quarteirão, fica estreita, e é guardada por um cão tão sentado, tão triste e tão despelado, que dá pena, muita pena, pena até de si mesmo.

A Rua do Amor — quem cheiraria? — tem um caminhante fixo, um fluxo de água intermitente, que vem com restos de peixe, óleo, mijo e caquinhas. Não se caminha em linha reta, desvia-se de poças, de galos, de gente, de bons-dias.

A Rua do Amor — quem lutaria? —, tem som alto com música de extremas rimas, chão que não bate sol e bagulho adolescente na mais estreita esquina,

A Rua do Amor — quem amaria? — tem uma prosa tão íngreme, tão alta, tão estreita e tão torta, que até parece que é poesia.

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sábado, 23 de janeiro de 2016

SOBRE PEQUENAS FRATURAS >> Cristiana Moura

— O que foi isso no seu pé?
— Quebrei o dedinho.
— Derrubou o peso da academia no pé?

E, ao longo da semana ouvi várias perguntas assim: Foi fazendo stand up? Foi dançando? Bem, parte dos amigos e conhecidos sabem do meu apreço por algumas atividades físicas. Um funcionário do prédio onde moro perguntou: "Foi jogando vôlei?" Vôlei? — pensei. De onde ele tirou que eu pudesse jogar vôlei? Não importa. Ao final da semana, eu tinha acumulado horas de repouso e leituras de perna para cima e a sensação de ser atlética e dinâmica aos olhos dos outros.

Priscila perguntou:
— Quem você chutou? Em poucos segundos me veio à mente uma lista significativa de pessoas que eu gostaria de ter chutado. Desde a professora do colégio de freiras em infância remota vivida em São Paulo até, até... Bem, melhor não fazer citações mais recentes. Cheguei a sentir saudades dos chutes do passado que não existiu. Fariam valer o dedo quebrado.

— Os xamânicos dizem que machucar o pé significa mudança de rota — me disse Ana. Gostei. Se assim for, que sejam bem aventuradas as novas rotas.

Das semanas de pé enfaixado ficaram duas coisas: A primeira é que a fantasia parece ser sempre melhor que a realidade. Fraturei o dedinho em uma topada na cadeira da cozinha quando ia fazer uma tapioca para o café da manhã. Nenhuma aventura. Nenhuma emoção. Alguma dor. Ninguém imaginou a realidade óbvia. Precisamos da fantasia. A segunda é que a vida vai acontecendo em claudicação, sem grandes controles. Assim é o tempo sendo vivido dia a dia feito de caminhar e caxingar em pisos irregulares e diversos.

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

CRÔNICA EXPRESSA >> Paulo Meireles Barguil

— Boa tarde, Paulinho — falou-me o editor chefe.
 
— Boa tarde, Duju — replicou o cronista.
 
— Rapaz, o que aconteceu? A sua crônica ainda não foi publicada... — indagou-me pacientemente o escritor-cantor-astrólogo-professor.
 
— Pois é... [eu nunca imaginei que ele iria me ligar para cobrar uma crônica] Estou finalizando! Dentro de uma hora ela estará no ar — respondi com um sorriso maroto.
 
Está inaugurado o serviço de escrita e entrega de crônica.
 
Espero que a estreia agrade o cliente, pois o prazo eu cumpri!
 
Tem algum outro cliente?


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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

NÃO SEJA CHATO, POR FAVOR >> Mariana Scherma

Quando você estiver mal-humorado, contenha-se. Você se lembra da professora que dizia que uma batata podre estragava o saco inteiro? Pois é! Ao conversar com seus amigos, tente falar coisas agradáveis em vez de destilar todas as suas lamúrias. De repente, é melhor marcar com um terapeuta do que abusar do ombro amigo. Ser amigo não inclui abusos de chatices. Tá bom, às vezes inclui, mas só de vez em quando. Você é mãe e tem amigas sem filho? De repente, é uma boa não falar apenas da sua criança-mais-linda-do-munddo-cuti-cuti, viu!

Vai sair com alguém? Esqueça o celular na bolsa ou no bolo, converse olhando nos olhos, sorria mostrando os dentes. Suas redes sociais super podem esperar. Ah, e se estiver desesperado pra postar alguma coisa, segure-se: as pessoas não estão enlouquecidas pra saber o que você anda fazendo. A não ser que você seja o Barack Obama ou o Papa. E se for mandar uma mensagem ou fazer um comentário, por favor, desligue o caps lock. Caixa alta é grito e é chato — a não ser que você tenha levado a Mega Sena.

Você está empolgado com o resultado da academia no seu corpo? Que bom! Mas falar só disso enjoa: nem todo mundo é tão fitness assim. Aliás, se estiver na academia, pare de guardar o aparelho que não está usando, o mundo, infelizmente, não gira ao redor do seu umbigo localizado em sua barriga sarada. Ainda na academia? Por mais que tenha comido batata doce, não faça pum fedido perto dos outros. Aliás, não faça pum perto dos outros em lugar algum. Eca!

Em qualquer conversa, exercite a arte de conversar, não de apenas monologar sobre sua vida. Você é tão interessante quanto as outras pessoas são. Divida aí, meu amigo. Você viu alguém gordinho comendo o maior lanche do mundo? Não censure, você não sabe se essa pessoa teve um dia do cão raivoso. Se der vontade de divulgar a sua felicidade, faça isso com moderação. Eu aprendi que a alegria dura mais quando não se faz propaganda dela.

Quer ser politicamente correto? Seja pra você mesmo e não apenas nas redes sociais, aliás, não lote a timeline alheia com suas razões, explicações e demais blá-blá-blás. A vida é mais legal quando a gente é menos chato. Chatice às vezes pega, questione sempre seu nível de importunar os outros.

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

MAIS INDICAÇÕES DE FILMES >> Carla Dias >>

Quando se trata de cinema, sou bem democrática. Obviamente, há categorias que não me agradam, mas é questão de gosto, não significa que geram somente filmes ruins.

Há muitos filmes sendo produzidos. Assim como na música e na literatura, há uma demanda enorme de obras disponíveis. Em meio a tantas opções, às vezes é difícil de se escolher.

Vou citar cinco filmes que assisti e achei muito interessantes. Filmes para pensar, refletir mesmo, ainda que os temas pareçam óbvios.



Conectar-se ao outro em tempos da falsa sensação de que #estamostodoshiperconectados, tornou-se um desafio. Apesar de estarmos cientes disso, Os Desconectados (Disconnect/2012) conseguiu tocar no assunto de uma forma tão profunda, que não há como ser indiferente à narrativa e aos personagens.

A trama entrelaça histórias de pessoas que utilizam a tecnologia de forma a afastá-las da realidade, assim como para atacar outros. Vida exposta online, roubo de dados, bullyng virtual, está tudo lá, mas colocado de forma tão crua, valendo-se de histórias poderosas, que há momentos em que me peguei questionando como podemos nos permitir estar tão alheios a nós mesmos.

Os Desconectados é filme para se assistir com o questionamento aguçado. De tudo sobre o tema que já assisti (confiram a série Black Mirror!), esse filme é dos mais angustiantes e que mais se aproxima da nossa condição de deslumbrados e guiados pela tecnologia, do quão poderosa pode ser essa ferramenta, para o bem e também para o mal.





Não gostei muito do filme de Adam Sandler e Drew Barrymore, Como Se Fosse A Primeira Vez (50 First Dates/2004), que fala sobre um homem que se apaixona por uma mulher que sofre de perda de memória recente, fazendo com que ele tenha de conquista-la diariamente.

Como Não Esquecer Essa Garota (Remember Sunday/2013) é um filme que foi direto para a tevê. Trata do mesmo assunto, mas de uma forma muito mais interessante do que o filme estrelado por Sandler e Barrymore. O filme não é comédia, mas impossível não haver momentos hilários mediante a confusão de quem lida com alguém que sofre de perda de memória recente, mas sem saber do problema.

Gus (Zachary Levy) conhece Molly (Alexis Bledel). Eles se dão bem de imediato, mas a solitária Molly não entende muito bem o que se passa com Gus, quem sofre de perda de memória recente e reluta em contar a Molly, utilizando um método criado pela irmã para “lembrar-se” do que aconteceu ontem.

As sutilezas pontuam e enriquecem a trama. A princípio, o espectador pode se perceber à espera de um filme com seus clichês, ainda que mediante ao inusitado. Porém, aos poucos, ele se vê envolvido em uma trama mais profunda, que o conduz a uma viagem interior sobre até onde ele iria, o que ele suportaria em nome do amor.





Conquistas Perigosas (The Necessary Death Of Charlie Countryman/2013) é um filme peculiar. Ele faz uma conexão entre o imaginário inspirado por uma grande perda, neste caso, Charlie Countryman (Shia Lebeouf) perde sua mãe, e a realidade da violência alimentada por gangues.

Após a mãe morrer, Countryman se vê sozinho no mundo. É o espírito de sua mãe que sugere que ele vá embora, que vá para Bucareste, na Romênia. Durante essa jornada, ele conhece Gabi Ibanescu (Evan Rachel Wood), uma jovem pela qual se sente atraído de imediato. Os encontros entre eles são pontuados pela presença marcante do ex da moça, Nigel (Mads Mikkelsen).

Trata-se de um filme com uma boa história e grandes atores no comando. Mikkelsen é um ator e tanto, e apesar de não protagonizar a trama, ganhou toda minha admiração interpretando Nigel.





Quando um amigo me indicou Locke (Locke/2013), demorei a assisti-lo. Não por algum motivo específico. Havia outros filmes na lista de espera.

Uma das coisas mais interessantes sobre as indicações é que tudo pode acontecer. Neste caso, fiquei pasma ao ver que um filme que tem como cenário um carro, do qual um personagem – Ivan Locke (Tom Hardy) – não sai, durante 90 minutos, e toda a trama acontece por meio de telefonemas, prendeu-me do início ao fim. Claro, Tom Hardy fez o trabalho direitinho, porque atuou dirigindo o tempo todo e passou o recado. E atuou lindamente. Enfim, Locke é um daqueles filmes que provam que é possível contar uma boa história em qualquer situação, principalmente com um bom roteiro e um talentoso ator.





Simplesmente Acontece (Love, Rosie/2014) é sim um filme sobre o amor. O interessante sobre essa história é que ela ilustra como ao deduzirmos, e seguirmos o rumo apontado por essas deduções, podemos nos afastar do que realmente importa, e perdermos um tempo valioso longe de quem amamos.

Rosie (Lily Colins) e Alex (Sam Claflin) são amigos desde a infância. Confidentes, dividem um com o outro as suas experiências de vida. Apesar de ser clara a atração entre eles, ambos optam por manter a amizade. Durante o filme, os romances e desapontamentos de ambos os afastam, colocando a intocável amizade em apuros, e levando-os a cultivar certos segredos. Mas cada etapa sempre os leva para o mesmo lugar.



Bom filme pra vocês!



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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

ENFRENTANDO OS IDEAIS >> Clara Braga

Esses dias estava assistindo a uma entrevista com a atriz Denise Fraga na qual ela falava sobre uma das reflexões que ela pretende deixar para os espectadores em sua peça mais recente. A reflexão vem de uma simples pergunta: por que você trabalha? A intenção é fazer as pessoas refletirem, também, sobre o fato de hoje a questão financeira estar se sobrepondo a questões diversas que deveriam ser mais importantes, mas aparentemente já não conseguimos mais viver assim. Pensar em um trabalho que talvez não te traga tantas alegrias ou em um trabalho que não tenha a ver com sua área de formação, é luxo ou necessidade? Existe uma fórmula que funciona a longo prazo?

São tantas as questões que surgem dessa primeira pergunta que uma crônica só não seria capaz de abordar todas elas, talvez nem um livro inteiro desse conta. E eu com certeza não sou a pessoa mais indicada para tentar fazer isso, mas não posso negar, me peguei pensando nessa pergunta. Por que trabalho? Bom, pra responder sem ser clichê ou superficial, tive que passar um tempo pensando no meu trabalho.

Meu trabalho me permite experiências boas e ruins, me permite o contato com outras pessoas, me ensina a ouvir, me permite errar — o que é um alívio — me permite conhecer histórias que eu jamais conheceria se passasse o dia todo atrás do computador. Meu trabalho me faz lidar com pessoas, o que pode ser difícil, mas me torna mais humana. No meu trabalho, posso me permitir as vezes ser mais sensível do que racional. No meu trabalho estou sempre mostrando que no mundo não existe só o certo e o errado, existem diversas interpretações de um mesmo fato. Meu trabalho é democrático, você pode entender ou não, gostar ou não, sua opinião conta muito, você pode e deve ter voz ativa. Meu trabalho é dinâmico, posso dizer com toda certeza que um dia nunca vai ser igual ao outro. Além disso, estar preparado faz parte, mas jogar o roteiro pro alto e mudar tudo de forma inesperada também é bem-vindo.

Bom, teria várias outras coisas que eu poderia dizer sobre meu trabalho, mas vou tentar começar a responder a tal pergunta que gerou isso tudo. Vai parecer pretensioso, mas juro que não é assim que quero soar: eu trabalho porque acredito que a arte é transformadora. Acredito que, fazendo com que as pessoas tenham contato com a arte, elas podem se tornar pessoas questionadoras e, aos poucos, vão transformando seus mundos particulares e isso é extremamente importante.

Não posso mudar o mundo, isso sim seria muito pretensioso, mas posso mudar pequenos mundos. E sabe o que é melhor? Quando percebo que mudei o mundo de alguém, por menor que seja essa mudança, automaticamente estou mudando o meu também.

Resumindo, trabalho porque quero ser uma pessoa melhor em um mundo melhor. Ixi, agora deixou de ser pretensioso para ser idealista. Bom, fazer o que, acho que sou um pouco assim.

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domingo, 17 de janeiro de 2016

OUTRA PESCARIA >> Whisner Fraga

Até noticia em contrário, os peixes preferem o silêncio. E também não podemos considerar que são bobos ou imperitos. São peixes, como se sabe e, outras vezes,se desconfia. As entranhas de um rio são mistérios. De forma que recomendo um anzol adequado. Isto é, quando se tratar de tucunarés. Gosto de pescar tucunaré, porque é um bicho valente, rebelde. A isca também precisa estar de acordo com a dieta do danado. Gosto de levar uns lambaris ainda vivos para o barranco, o que tem agradado tanto pescadores quando pescados.

Silêncio. Quietude. A chumbada, quando alguém optar por uma, não deve ser encorpada. É sabido que as correntes carregam linhas para debaixo de pedras e de troncos, de forma que não convém que a chumbada chegue muito rapidamente ao fundo. Escolha um lambari vivo e o espete com o anzol. Afrouxe o molinete, deixe a linha correr à vontade. O lambari deve tentar encontrar o ninho dos peixes. Lance-o para todos os lados, recolha lentamente a linha, simulando o movimento de barbatanas.

E tenha paciência. Aguarde o bote, que pode ser que venha, pode ser que não.Se há tucunaré por ali e você fez tudo de acordo, a fisgada virá. Esquadrinhe o rio, teste vários pontos. São raras as águas sem peixe. E a pontada vem breve, normalmente somos pegos de surpresa, cochilando, pensando em nada, matutando. Você terá milésimo de segundo para reagir: ação e reação. Se perder o tempo, pode ser que o bicho fuja com o lambari entre os dentes.

Não se trata de sensibilidade, pois o baque é realmente pesado. A linha é tensionada, o caniço emborca, os sinais são evidentes. Ação e reação. Uma vez pego, continue calmo. Saboreie o feito. Deixe o tucunaré lutar, deixe o peixe tatear o rio. Ainda resta alguma esperança de fuga. Muitos pescadores experientes dizem que isso fará com que o bicho se canse. E trazer à tona uma criatura cansada é mais fácil. Observe o alvoroço na água.

Venha recolhendo a linha, até que você consiga avistar as escamas refletindo um sol impiedoso de meio de tarde. Nesta hora o peixe reconhecerá a derrota. Traga-o para a superfície e retire o anzol, sem pressa. Se puder utilizar um alicate para a tarefa, melhor. O tucunaré tentará uma última abordagem, se debatendo no casco do barco. Este movimento pode machucar alguém. É bom ter cuidado.

Às vezes tenho inveja do peixe.

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sábado, 16 de janeiro de 2016

CAPITAIS >> Sergio Geia

O assunto passa léguas de distância das grandes capitais do mundo. Não vou falar sobre São Paulo, Rio, Porto Alegre, BH; ou Paris, Madri, Roma, Londres. Estou interessado em outro tipo de capital.

Dizem que Novo Hamburgo é a capital nacional do calçado. Sua economia nasceu e se desenvolveu em torno dessa modalidade de indústria, sendo que todos os anos a cidade sedia duas importantes feiras do segmento: a FENAC — Feira Internacional do Calçado, e a FIMEC — Feira Internacional de Máquinas para Curtumes, Couros, Componentes para Calçados e Acessórios. É o maior polo calçadista do país. Até museu sobre o assunto tem: o Museu Nacional do Calçado.

Dizem que Jaú é a capital nacional do calçado feminino, que Franca é a capital nacional do calçado masculino, e que Birigui é a capital nacional do calçado infantil.

Do calçado pros vinhos. Dizem que Bento Gonçalves é a capital nacional do vinho. Segundo reportagem do portal UOL, você encontra em Bento Gonçalves um museu dedicado à bebida, degustações sensoriais com tons lúdicos, piquenique entre parreirais (com direito a edredom e almofadas espalhadas sob pés de Niágara Rosada), cantoria italiana acompanhada de passeio de trator e até uma igreja construída com vinho.

Há outras capitais interessantes. Dizem que Inconfidentes é a capital nacional do crochê; que Piranguinho é a capital nacional do pé-de-moleque; que Botucatu é a capital nacional do saci; que Cunha é a capital nacional do fusca; que Saquarema é a capital nacional do surf; que Ituporanga é a capital nacional da cebola; que Itabaiana é a capital nacional do caminhão; que Nova Venécia é a capital nacional do granito; que Mirabela é a capital nacional da carne de sol; que Salinas é a capital nacional da cachaça; que Passo Fundo é a capital nacional da literatura; e que Taubaté véia de guerra é a capital nacional da literatura infantil, por ter nascido aqui o Lobatão, criador do Sítio do Picapau Amarelo.

Mais eis, meus queridos, que nesse dia sufocante de janeiro, me deparo com a seguinte notícia: “Desde a década de 1980, a cidade de Cabrália Paulista, a 363 quilômetros de São Paulo, se especializa na fabricação de urnas funerárias. Caixões saem dali para todos os Estados brasileiros e, inclusive, para a África; mais especificamente, Angola. Por conta disso, a alcunha de "capital brasileira dos caixões" é levada com orgulho pela maioria dos moradores que dependem da indústria”. Mais abaixo, a notícia reproduz a fala de um proprietário de uma das indústrias de caixão do município, que diz que há caixões para todos os gostos, para católicos, israelitas, umbandistas e maçons. Inclusive, de times de futebol. O do Corinthians é o que mais sai.

Meus amigos da Fiel — eu tenho alguns —, ao lerem a notícia, vão se interessar pelo negócio. Quer coisa mais mimosa que deixar este mundão dentro de um caixão personalizado com as cores do Curintcha?



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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

FELIZ DIA NOVO >> Analu Faria

Conversava com minha fisioterapeuta sobre as expectativas para este novo ano e ela me contou que recebeu uma mensagem dessas prontas, que se passa para todo mundo, via aplicativo de mensagem, que dizia: “O que te espera para 2016 – a gasolina vai aumentar, a conta de energia vai aumentar, a conta de água vai aumentar...” Era logo de manhã. Nem rolou um “bom dia” para amaciar.

A gente tende a ser absurdamente negativa quando se trata do lado ruim da vida. Acho que quase todo mundo é assim. Começo a achar que é preciso tentar combater isso, se a gente quiser viver melhor.   Ser realista é preciso, é preciso correr atrás, é preciso vencer o comodismo, a preguiça etc.. Mas o medo do futuro não parece ser o motor mais eficiente para isso. Afinal, a gente se acostuma a tudo, inclusive a condições negativas. Dizer que o futuro vai ser pior que o presente pode não surtir muito efeito.

Aos trinta e cinco anos de idade, não sei nada da vida. Aliás, sei cada vez menos. Mas observo. Vejo que muita gente que tem sucesso na vida, isto é, cuja abordagem da vida é exemplo para os outros, tem uma visão minimamente otimista sobre O PRESENTE. E deixa o futuro ser. Uma outra fisioterapeuta, de quem sou amiga, escreveu, dia desses, em seu perfil do Facebook: “Sou uma espécie de paranoica ao contrário. Desconfio que todos conspiram para que eu seja feliz.” Não sei se a frase era dela, mas sei que se encaixa ao estilo de vida que tem:  sem muito luxo, mas com muitas viagens, bons amigos e um ótimo senso humor. Para mim, a vida dela é exemplar.

Portanto, apesar de a gente saber que o futuro talvez seja truncado, pode ser melhor se concentrar no hoje e não no porvir. Manter o olho no agora, no estudo, no trabalho, no cultivo das boas relações atuais. Quem sabe assim, ao final de 2016 a gente olhe para trás e pense: pois é, a gasolina aumentou, a conta de luz aumentou, a de água aumentou, mas eu me dei muito bem. Quem sabe. Por enquanto, vamos viver janeiro. Por enquanto, vamos viver esta quinta-feira.



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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

ENREDADOR >> Carla Dias >>


Nasceu...

Então?

Escreveu muitas histórias, assim, vivendo cada uma delas, nem todas por gosto. Descobriu-se autor de apenas parte de sua vida, que a outra se esbarra frequentemente às escolhas de outros. Vem exercitando a capacidade de lidar graciosamente com essas escolhas que têm o poder de modificar o desfecho das suas próprias, tentando minimizar o poder delas de afetar sua biografia.

Aconteceu de se interessar pelo improvável, desde cedo. Sendo assim, céu e inferno se misturam aos seus interesses.

Quando no céu: encanta-se.
Quando no inferno: inquieta-se.
Quando mergulhado em ambos: deleita-se.

Estudou dedicadamente a arte da manipulação. Há dias em que a usa em benefício alheio, em outros, exerce o direito ao egoísmo, mas sempre a usa de forma elegante. Há os que o temem e os que o respeitam, mas também há os que dele duvidam e sem reservas. São essas pessoas que mais lhe atraem a atenção. Observá-las é como requintar sua habilidade, já tão afiada, de levá-las aonde ele deseja.

Considera-se uma pessoa comum, de rotina desinteressante, cuidadoso no trato com suas expectativas mais poderosas e seus desejos teimosos. Dedicadamente, ele tenta ser o indivíduo que cabe nessa definição. Porém, como ser considerado comum ao ser inspiração até mesmo para os intelectuais e suas filosofias? Quando o que diz reverbera nos mais importantes – e imponentes – círculos?

Gosta de pensar que continua a ser um homem de história a ser escrita, com mais poder autoral sobre ela. Mais poder que qualquer outro para decidir seu caminho. A ironia se debruça no fato de que ele não tem um algo ou um alguém que lhe impulsione a prospectar possibilidades. O que vem vivendo, desde sempre, é à sombra do seu talento de se infiltrar nas histórias de outros, de tal forma que, eventualmente, ele se torne mais dono dos desfechos delas do que das suas próprias.

À noite, deita-se em sua cama, sozinho, fumando um cigarro atrás do outro, bebendo sua bebida preferida e se lembrando das conquistas vazias do dia.

Nasceu...

Então, que a vida lhe caiu feito roupa de domingo, a mais bonita, de melhor caimento, que serve para orientar a fantasia de que se é o que se demonstra em um único dia, quando, por gosto ou por necessidade, tem de se atuar como se a vida não oferecesse menos do que o aprazimento.

Ele sabe que tem todas as ferramentas necessárias para ser uma pessoa mais útil a si e aos outros. Sabe que tem inteligência para se tornar participante ativo dos seus enredos e da vida daqueles que aprecia. E que existe a possibilidade de o deslumbramento que muitos sentem por ele se tornar mais robusto se baseado na realidade. Ainda assim, escolhe continuar a se esgueirar pelas histórias alheias, furtando delas restos de prazer, tecendo nelas fragmentos de seus reais desejos, construindo uma realização falseada, de quem não soube, depois de nascido, render-se à vida.

Imagem: foto da obra “The Burghers of Calais”, de Auguste Rodin.



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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

ON/OFF >> Clara Braga

Desde que escolhi Artes como minha profissão, sou constantemente questionada sobre qual a função da arte, ou então, qual o motivo de se estudar Artes. Não vou me atrever a responder essas questões aqui, até porque quando começo não paro mais de falar, mas se tem uma coisa que eu acho que a arte faz é tornar concreta — seja da forma que for — questões que permeiam nosso cotidiano. Não acho que seja uma obrigação da arte fazer isso, mas enxergo como uma consequência, afinal, o artista cria com base em suas vivências, e suas vivências passam, de uma forma ou de outra, pelas questões que todo ser humano está enfrentando na contemporaneidade.

Isso que coloquei já seria o suficiente para um longo debate com diferentes entendimentos, mas essa não é minha intenção. Coloquei isso para dizer que venho observando que cresceu a quantidade de obras, isso claro inclui filmes, que tratam da questão da relação, e até da dependência, do homem com as diferentes formas de inteligência artificial. A temática nem é tão recente assim, é verdade, mas é no mínimo assustador observar como verdadeiras ficções científicas antigas retratam uma realidade que já não está tão longe da nossa.

Robôs que interagem diretamente com o ser humano? Aparelhos que funcionam por comando de voz? Carros quase 100% automáticos? Celular que conversa com você? Sistemas de segurança que funcionam com base em reconhecimento facial, digital ou pela íris? Imprimir peças com as quais podemos construir casas com baixo custo? Imprimir partes do corpo humano? Por favor, isso tudo mal chegou e já quase faz parte de um passado recente, afinal, é assim que as coisas funcionam!

Agora, posso até estar errada, mas uma coisa vem mudando nessas obras que retratam essa realidade digital: a abordagem. Não vou citar os últimos filmes que vi para não dar spoilers ou acabar virando uma crônica sinopse, mas a verdade é que tomei pequenos tapas de luvas ao ser confrontada com desfechos que fogem daqueles finais felizes ou clichês entre homens e máquinas.

O que vem sendo mostrado quase como uma forma de alerta é o quanto nós nos permitimos nos apegar a coisas incapazes de retribuir sentimentos sinceros e verdadeiros, o quanto confiamos nossas memórias e alegrias que deveriam ser eternas a aparelhos com tempo de vida útil cada vez mais curto e, o mais grave, o quanto nos deixamos dominar por pequenos aparelhos abrindo mão de um dos únicos poderes que ainda temos que é o de apertar o botão de ligar e desligar.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

BABÁ DOS BEATLES >> Albir José Inácio da Silva

Lando baixou os olhos do suplemento esportivo e viu que uma das guias estava frouxa. Amassou de susto o jornal, pegou a alça em baixo da perna e puxou as cordas com força. Três cães latiram, reclamando porque foram esfregados nos galhos do arbusto. Mas onde estava Ringo?

Lando correu até a borda do canal e olhou a água até onde a vista alcançou, olhou em volta e viu que ele desaparecera. Logo o Ringo!

Dona Honorina tinha duas grandes paixões na vida: os Beatles, mortos ou vivos, e os cães. Não qualquer cão — os seus  cães:  John, Paul, George e Ringo. Quanto aos Beatles, ouvia-os durante todo o dia e não lhe davam trabalho, a não ser apertar o play. Mas com os cães era mais complicado.

Na entrevista de emprego com Dona Honorina, Lando jurou paixão pelos animais, chorou ao lembrar seu gato falecido e disse que sempre sonhou com esse trabalho. A velha ficou encantada.

—Seu Lando, sei que o senhor tem amor pelos bichos, mas cuidado principalmente com Ringo. Além de desobediente, ele é atrapalhado e não tem medo de nada. Teve problemas no parto e foi abandonado pela mãe, o que deixou o pobrezinho cheio de traumas — exortou a senhora.

Acostumado a trabalhos pesados e ameaças de patrões, ele estava no céu com o novo emprego —quatro cãezinhos fofinhos que dormiam na cama da dona. Levava-os a passear duas vezes por dia, munido de sacos plásticos e garrafas de água. Três vezes por semana bebiam água de coco, que só podia ser comprada na barraquinha de confiança da Dona Honorina.

Obviamente ele não teria esse emprego se ela pudesse pessoalmente passear com seus bichinhos, mas o reumatismo não deixava. Lando era já a quarta tentativa de arranjar uma babá. A primeira foi embora porque gritou com George. O segundo resolveu cortar uma mecha do cabelo de John porque achou que atrapalhava sua visão. O terceiro comprou água de coco em barraquinha desconhecida, o que desarranjou o pobre Paul.

Dona Honorina não precisava saber, mas para Lando cachorro era cachorro, ele os acompanhava quando iam na direção certa e os arrastava quando cismavam de andar para outro lado. Não entendia de psicologia animal, de traumas e da necessidade de tratar esse assim e aquele assado. Jamais maltrataria ninguém, nem cachorros, mas entende que a educação passa às vezes por cascudo e beliscão.

Não podia dizer que nada o incomodava naquela história. Ele comprava ração, remédios, xampus, levava para consultas, banho e tosa no “pediatra” — como dizia Dona Honorina —e sabia o preço de tudo. Sabia também que seu salário não cobriria meia semana de gastos dos totós. Mas era conformado, cada um tem no mundo o lugar que merece — meritocracia.

Mas e agora? Onde estava Ringo?

Lando arrastou o trio remanescente pelas calçadas, vagou por ruas e becos, perguntou a comerciantes, porteiros e transeuntes. Ganhava salário-mínimo, quanto custava um cachorro daqueles? Existe crime de abandono de cachorro como de criança?  E se a velha morresse de desgosto, seria responsabilizado? Por que não conferiu as coleiras? Por que tinha de ler jornal?

Entrou no elevador social para desespero do porteiro. Suspendeu no colo os sobreviventes, desgrenhou os cabelos, acelerou a respiração e entrou na sala.

— Dona Hororina! O Ringo, sabe como são os meninos nessa idade, viu passar uma cadelinha, soltou-se da coleira, disparou atrás dela e desapareceu — foi o que Lando conseguiu arranjar.

Ela resfolegou um gemido, os braços caíram e a vista escureceu. Lando soltou os cães para socorrê-la, mas ouviu um latido e virou-se pra porta que tinha ficado aberta. O porteiro trazia Ringo no colo.

Antes que Seu Onofre falasse, Lando pegou o baterista, agradeceu, fechou a porta e emendou:

— Como eu dizia, Dona Honorina, Ringo desapareceu. Mas eu vasculhei o quarteirão e o achei num beco. Corri atrás dele com os outros no colo. Ele deu a volta e entrou aqui no estacionamento. Eu vim deixar os três para buscá-lo, mas Seu Onofre fez esse favor.

Dona Honorina respirava ainda com dificuldade quando Lando colocou Ringo no seu colo. Os outros se aninharam em volta. Ela olhou para o Lando — um herói.

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domingo, 10 de janeiro de 2016

REPOUSO ETERNO PARA UM SONHO?
Eduardo Loureiro Jr.

Houve um tempo em que era muito fácil escrever. Em trinta minutos, eu conseguia escrever uma pequena crônica ou um pequeno livro infantil. Textos maiores levavam mais tempo, mas eram escritos também sem esforço. Não existia falta de assunto, eu poderia escrever sobre qualquer coisa, até sobre um provérbio sorteado ao acaso. Nem tudo era bom, mas era fácil, e o que era realmente bom dava aquela sensação de fluidez e alegria.

Aqueles dias acabaram.

Não tenho tido vontade de escrever. Mesmo quando me vem alguma ideia e penso, como antigamente, que aquilo daria um bom texto, não consigo me motivar para sentar e escrevê-lo. Sinto que não tenho mais o que dizer. Tento justificar, dizendo que tudo já foi dito, que nada mais há por dizer, mas sei que isso não é verdade: é sempre possível encontrar uma forma nova de dizer algo que já foi dito. Outra justificativa é dizer que não há quem queira ler o que escrevo, o que também não é verdade porque, de vez em quando, alguém comenta que gostou de algo que escrevi e manifesta o desejo de ler algo novo.

A falta de vontade de escrever, de fazer algo que para mim um dia foi tão prazeroso, é um mistério que tenho dificuldade de desvendar. Talvez esteja relacionado à leitura. Já faz alguns anos que leio cada vez mais não-ficção. Será que esse tipo de leitura tem desestimulado minha escrita? Mas eu não gostava de escrever também sobre assuntos do momento, de forma argumentativa? Talvez seja por causa da frustração de não ter me tornado um escritor profissional, que vive apenas daquilo que escreve. Os anos foram passando, as realizações foram poucas, a pressão para conseguir dinheiro para se manter foi aumentando, outros trabalhos foram tomando um tempo que seria dedicado à escrita. Mas há tantos escritores que têm empregos fixos, de oito horas, e conseguem escrever satisfatoriamente nas noites e até nas madrugadas. O mistério para mim permanece.

Eu, que escrevia no Crônica do Dia não apenas quinzenalmente, mas pelo menos uma vez por semana, e também quando o escritor do dia deixava de publicar sua crônica, hoje mal consigo escrever dois textos por mês. Quinzena passada não escrevi, e hoje estou recorrendo ao clássico assunto da falta de assunto, e não uma falta de assunto eventual, mas uma falta de assunto crônica e progressiva.

Será que um dia voltarei a ter letras fluindo do pensamento aos dedos, passando pelo coração, à velocidade da luz? Ou será que, qualquer dia desses, simplesmente desistirei de insistir e me conformarei com a realidade de que, além de não ser um escritor profissional, não sou sequer um escritor amador, pois não há mais amor à escrita.

Talvez tenha chegado o ponto em que já começo a aborrecer o leitor. Talvez eu seja, neste texto, como o sem-teto que perambula pelas ruas: desperto a piedade do leitor, que fica constrangido e tenta sorrateiramente se afastar da cena...

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

CRISÁLIDA >> Paulo Meireles Barguil


Crisálida estou.



Ignoro se borboleta fui ou serei...



Ou se larva serei ou fui.


[Borboleta Euploea core]

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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

SABER ESPERAR >> Mariana Scherma

Fila pra mim é o momento de soltar a imaginação e me perder nas minhas próprias terminações nervosas. Eu penso no que preciso fazer, no que quero fazer, no que sonho fazer, enfim, eu penso. Por isso, posso dizer que não me importo em encarar uma filinha. Costuma ser necessário. Mas também não pense que eu sou o tipo que vê um aglomerado de gente e entra atrás. Sim, porque tem gente que nutre um amor doido pela fila de qualquer espécie. Já vi gente em fila sem saber pra que ela servia. Eu entro só quando não tem volta, tipo na da lotérica pra Mega Sena da virada. Ou na da padaria para o pão quentinho.

Me esforço pra ir pra fila com bom humor. Esperar já é chato, esperar reclamando não é nada agradável. Fila é um espaço pra trocar uma ideia, um sorriso... É um mal necessário, às vezes, portanto não precisa ser um terror. A gente pode junto construir uma fila divertida. Imagina uma com concurso de melhor piada, pior mico no trabalho, essas coisas. Mas tem gente que prefere fazer o inferno na Terra, digo, na fila. Enfrentar a fila, ok. Agora enfrentar fila com gente bufando e/ou batendo o pé dói absurdos. Todo local com potencial pra formar fila devia ter um cartaz escrito:
Senhores, bater o pé não faz a fila andar mais rápido, assim como bufadas ou reclamações não farão sua vez chegar mais rápido. Que tal virar para o coleguinha de trás e puxar papo?”.

E como se não bastassem os reclamões, existem os espertinhos que não veem a fila e entram na vez de mais de 10 pessoas. Se eles fossem deficientes visuais, ok. Mas não são. São sem educação mesmo. Os próprios que devem reclamar dos nossos políticos, pedir impeachment, dizer que o Brasil não presta. Alô, pessoal fura-fila, se o Brasil não presta (não acredito nisso), a culpa também passa por vocês. Dia desses, eu perdi a boa com uma sujeita que furou a fila e ainda passou no caixa preferencial. Ela, mais nova que eu, não pediu desculpas, fez de sonsa. Aposto que esteve em manifestações contra a corrupção também. Sem saber que ela é tão corrupta quanto nosso presidente da Câmera e demais políticos. Esse tipo de gente me acerta em cheio, porque boa parte das pessoas acredita que essa é a média do Brasil. Quero acreditar que o Brasil tem gente direita e de bom coração.

Ah se a gente pudesse mandar para uma viagem espacial sem volta pessoas que fazem as filas esse infortúnio... Se o ônibus fosse grande o suficiente, eu mandaria uns políticos a mais neles. Esses políticos fazem a gente ficar eternamente na fila esperando um Brasil melhor. Mas olha, entra no busão espacial a galera que não sabe votar também, viu! Que em 2016 fiquemos espertos!

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CLARO-ESCURO >> Carla Dias >>

Encontrou a si há cinco minutos, durante uma reflexão profunda. Sente-se atordoado ao se perceber, enquanto esperava o trem. O trem que atrasou quarenta minutos, veio abarrotado de pessoas. Conseguiu espaço para colocar os pés dentro do maquinário, seguir seu rumo, porque lutou muito. Lutou para embarcar nesse trem como já viu pessoas lutarem entre si por comida. Sabe como? Quando há tanta gente faminta que entregar as doações só é possível se os alimentos forem lançados do caminhão. É a sorte — e o fôlego — que define quem fará e quem ficará na vontade de fazer ao menos uma refeição no dia.

No trem, escuta histórias que preferia não conhecer, seus tons, suas vozes e seus cheiros. A proximidade é tanta que ele sente o suor de outros escorrer em seu corpo. Não há espaço para reclamações sobre tal proximidade. Estão todos — quase sempre desarticuladamente — preocupados com questões mais imediatas do que as existenciais, exaustivamente ruminadas por filósofos e intelectuais de barriga cheia. Eles pedem por aquilo que deles é direito desde o nascimento: respeito pela sua existência. Pedem pelo o que é tirado deles, diariamente.

Ainda que suas histórias não sejam dignas de ganharem versão de roteiro de cinema, que frequentem diariamente os telejornais sensacionalistas. Mesmo que o nascimento deles não seja celebrado em grande estilo, mas nos quintais de pais nem sempre amorosos, em vez de torteletes de frutas vermelhas, bolo de aipim, não há como permanecer indiferente ao escutar o que ele escuta. O que ele gostaria de não escutar, mas não por zelo, por não querer vergar seu espírito no tom do chicote da dor alheia, mas sim por compreender, com a clareza que a maioria ignora, que as aflições são voláteis, e apesar da empatia, às vezes tememos até mesmo tentar nos colocar no lugar do outro. O medo é de nos identificarmos com ela, de recebermos essa clareza que jamais sumirá de nós, e ficará ali, lembrando-nos de que somos abençoados mil vezes mais que alguns outros.

Só que ele entendeu isso como deveria. Acontece de ser mil vezes mais, assim como mil vezes menos. Acontece de a vida ter seu jeito de equilibrar as coisas.

Em pé, pendurando o corpo em um agarro frouxo, o pé perdendo espaço, vez e outra, quando o levanta ao tirá-lo de debaixo da pisada de outro. Uma mulher fala com ele, meio chorosa, sem se importar se ele nem mesmo olha para ela. Do outro lado, um senhor fala com ele sobre a história triste da mulher, de dar nó na garganta. Ele olha para frente, atem-se à paisagem de janela. Escuta o que dizem, mas sem identificar palavras. Não quer compreender suas histórias. Não hoje, quando a sua própria o alfineta.

Antes de hoje, ele era apenas ouvinte dessa miscelânea de alegrias e tristezas desfiadas em transporte público. Achava inconveniente as pessoas exporem a intimidade de suas biografias, enquanto lutam, mais uma vez, por espaço. Aprendeu a se esgueirar de jeito a garantir seu canto no trem lotado. Era tudo o que precisava: de um canto. Agora, enquanto dança desengonçadamente para manter os pés no chão, compreende que é apenas mais um nessa fila de pessoas que não são ouvidas, mas que insistem em dizer, porque, vai que...

Naquela estação o trem quase esvaziou. Estranhou o espaço ao seu redor, chegou a cambalear, percebendo que, desde o embarque, largara o peso do seu corpo para outros carregarem. Sentiu-se culpado por não ter dado atenção aos que lhe contavam suas histórias.

Senta-se, observa as poucas pessoas no vagão, aproveitando tanto espaço e o vento bom que entra pelas janelas. Respira fundo, reconhecendo que está há três estações depois da sua. Mas não importa, ele voltará sentado, feito um rei. Segurará a bolsa de alguém com dificuldade em se equilibrar. Escutará sua história. Fará comentários gentis, inspiradores. Talvez faça isso por algumas viagens, até, quem sabe, ele mesmo crie coragem de contar sua história, passando a existir, ainda que timidamente, naquele vagão de trem.

carladias.com



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domingo, 3 de janeiro de 2016

A ÚLTIMA PESCARIA DO ANO >> Whisner Fraga

Carlinhos ajeita o braço de Pedro nos ombros da mãe. Mãe é colo. O menino se aquieta e avança em seu sono cômodo e legítimo. O barulho, a música, o céu encrespado não o incomodam. Uma toalha cobre as costas nuas da criança e sua cabeça repousa na segurança da mãe. Mãe é colo. Pedro nem de longe lembra o menino arteiro e festivo de minutos antes. Cansou de levar o peso das coisas. Uma criança de dois anos não deveria ter fardo nenhum para transportar. Mas tem. É preciso entender e respeitar a carga de cada um.

A água está hostil. As ondas encrespadas surram o casco da embarcação. Nos equilibramos naquele marulhar sonolento, à espera dos peixes. Carlinhos desiste da pescaria e resolve se sentar ali perto de nós, ajudando na troca de anzóis. Estamos todos, até onde possível, em silêncio. Bebericamos uma cerveja enquanto os lambaris se escondem na bacia. Em breve serão iscas. Meu irmão, mais experiente, já está no terceiro tucunaré. Não temos inveja, pois a bebida está gelada e o dia está bonito.

É o último dia do ano, embora não saibamos ao certo o que isso significa. Não há ninguém saudoso, aparentemente. O vento se esfrega em nossa cara. De repente, algum animal espreita entre os arbustos. É raro algo silvestre se esgueirar pelos barrancos. Há muitos resorts transgredindo todas as leis de conservação ambiental. O bom é estar bem perto do rio e algumas toneladas de concreto não fazem diferença em nada. Algumas multas não tiram a vontade de viver. É o que devem pensar.

A chuva nos rodeia e um chuvisco nos pega de surpresa, nos refrescando. Há cerveja para todos e ela está gelada. Pedro vai para o colchão arrematar o sono. Miltinho cochila na proa. Dali a pouco, se as traíras não aparecerem, iremos para outro ponto. Ainda não se consegue interpretar precisamente o comportamento dos peixes, de forma que é preciso esquadrinhar o rio. As linhas se entrelaçam, mas não importa. Recolhemos os anzóis e trabalhamos os nós.

De vez em quando uma canoa atravessa. Um barco. O movimento não é grande. Esperávamos mais gente no último dia do ano. Não que desejássemos um rio cheio de naus. Sei que em breve haveria um réveillon, mas isso não me comove. Os calendários, como bem se sabe, são todos ficção. E só me sensibilizam ficções mais elaboradas. Quantos papas se meteram nessas minúcias? Quantos legisladores? Nem a simbologia do ano novo é instrumento que valha.

Em breve seria réveillon e eu talvez dormisse um pouco mais cedo do que de costume, devido ao barulho estúpido de rojões manchando o céu. Não gosto de ruídos inúteis. Findo o passeio, convoco Ana e Helena. Minha mãe também retorna conosco. Com o correr dos anos, não nos importamos mais com essa história de ano novo. Calendários são ficção. E o tempo?

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sábado, 2 de janeiro de 2016

SENTADO À BEIRA DO MAR (DOIS ANOS DEPOIS)
>> Sergio Geia




Ubatuba. Praia da Almada. Vejo-o sentado olhando o mar. Sobre a mesa estão dispostos cuidadosamente em forma de pirâmide: uma carteira de documentos preta, na base; um maço de cigarros Marlboro; um isqueiro cinza, no vértice. Pela cara tomada de rugas, ele deve ter uns setenta. Está sozinho. Veste uma bermuda démodé bege, uma camisa de botão listrada, sandálias de couro.

É uma tarde de verão especialmente linda. O mar nunca esteve tão verde (o mar é azul! — uma voz me buzina no ouvido). Não, amigo, neste caso, o mar que está agorinha à minha frente, este aqui que estou vendo com os olhos que Deus me deu, este mar é verde. Ah, é verde! Radiantemente verde! As espumas que brotam da arrebentação são brancas, mas são tão brancas, e tudo é de uma nitidez tão impressionante, que a cena toda parece irreal, uma imagem digital, trabalhada, coisa de cinema. Deveria estar no mar, isso sim, lá dentro, sentindo o sol e o vento na pele, a água gelada a refrescar o corpo. Mas confesso que a coisa aqui fora também me interessa. E muito, apesar de estar rabiscando tudo isso precariamente numa maçaroca de finas folhinhas de guardanapo. Mas é o que tenho, oras. E quando iria imaginar que fosse me deparar com um personagem de uma de minhas crônicas fumando seu Marlboro em plena praia da Almada?

Na verdade, o que me chamou a atenção nele foi sua atitude de balançar as mãos como se tivesse avistado alguém. Sabe aquela cena clássica do cara perdido numa praia deserta pedindo socorro? Pois é. Igualzinho. A diferença é que ele não tirou a bunda da cadeira, mas o movimento das mãos, dos braços, igualzinho.  Logo percebi que ele queria chamar a atenção de um vendedor de queijo coalho. E num certo momento parecia mesmo ter conseguido. Doce ilusão. Ele ficou ali, triste, solitário, irritado. E sem queijo. Desde então minha atenção abandonou o mar, a paisagem, o copo de cerveja, e ficou nele. E aí, meu querido, a mente viaja. Será que tem filhos? Netos? Onde estão? E sua mulher? Morreu? Separou? Ou será que nunca se casou? Não tem filhos, nem netos, nem mulher, nem ninguém?

Percebo num dado momento que ele fica imóvel olhando as ondas que vêm e vão. E fica assim por um bom tempo, segundos, minutos. Nem uma mulher gostosa, bronzeada, que passa à sua frente é capaz de fazê-lo se desconectar do mar. Ah, ele sofre por amor. Olhar as ondas, totalmente desconectado do mundo? Só tem uma explicação: amor não correspondido. Meu amigo sofre, e sofre por amor.

Fico com vontade de puxar conversa, de saber mais sobre o meu personagem. Sinto que ele tem vontade de falar com alguém. Talvez seja tímido. Puxa vida, vir à praia neste dia lindíssimo e não conversar com ninguém? Deve ser triste demais. A única pessoa a quem ele se dirigiu nessas horas em que ficou olhando o mar foi o vendedor de queijo coalho, uma linguagem corporal muito bem feita, mas inútil. E o garçom, obviamente, a quem pediu as cervejas que tomou (foram três) e um quibe. Levanto-me com a intenção de dar um mergulho. Me aproximo de sua mesa. “Boa tarde”, digo, como quem não quer nada. Ele me olha desconfiado. Toma o último gole de cerveja, desmancha sua pirâmide, põe tudo no bolso e se levanta. Vejo que seus olhos parecem molhados. “Boa tarde”, me responde emburrado. Faz um gesto com as mãos que não entendo. E vai embora.

P.S.: Esta crônica foi escrita há quase dois anos. De volta a Ubatuba, de volta à Almada, eu encontro o meu amigo na mesma mesa, fumando o mesmo Marlboro, olhando o mesmo mar com o mesmo olhar perdido. E solitário. Tristemente solitário. Seu nome é Jamil. Só tive tempo de lhe desejar um ótimo 2016. Ele pegou sua carteira, seu Marlboro, seu isqueiro e se mandou. Desconfiado.


Ilustração: Edouard Manet

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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O AMOR DE JORCIVAL >> Zoraya Cesar

Viera do interior de Minas, naquela época em que as malas não tinham rodinhas, em que capiau tinha cara e porte de capiau, mas que gente de pouco estudo, desde que trabalhadora, tinha alguma chance de subir na vida. 

Viera sem grandes ambições, não almejava riqueza, festas, luxos; só queria duas coisas: olhar para o infinito e ganhar a vida honestamente. O combinado era morar na Rua do Riachuelo, com um primo, que lhe havia arrumado um emprego de vendedor em loja de sapatos femininos. “Só tem mulherão, primo, é trabalho de primeira, o dia inteiro tocando o pé delas sem marido empombar”, dizia o tal primo, entusiasmado. Jorcival até gostou da ideia.

No primeiro final de semana, porém, os dois rapazes foram passear à beira-mar do cartão postal mais famoso da cidade. O recém-chegado ficou embasbacado. Nunca vira nada tão lindo. As calçadas, com suas pedras portuguesas desenhando linhas sinuosas, lembravam-lhe as curvas do corpo feminino, e eram, certamente inspiradas nas Certinhas do Lalau. A orla lhe pareceu ter vida própria, e nem mesmo o céu límpido de sua terra era tão bonito quanto aquele. Disse-lhe o primo que aquela região tinha o apelido de ‘princesinha’, e, nesse momento, Jorcival caiu, irremediavelmente, de amores. Nunca mais poderia viver longe daquele bairro, daquele lugar. 

Foi, portanto, para espanto do primo, que trocou o emprego na sapataria por um de porteiro, em um prédio na Av. Atlântica. Antes de começar o expediente, todos os dias, amanhecia junto aos pescadores, ajudando a puxar a trama de cordas repleta de peixes. Ao final do dia, sua rotina era molhar os pés na água salgada, estudando as marés, sentindo no corpo as variações do tempo, do vento, da vida. 

Eram bons tempos aqueles, em que um trabalhador conseguia economizar e até comprar um conjugado em um prédio de muitos apartamentos, a quatro quadras do litoral que, havia muitos anos, enchera seus olhos e seu coração. Depois que se aposentou, arranjou trabalho na banca de jornais de um amigo, um luxo, bem na esquina da sua princesinha, era só esticar o pescoço e olha ela lá! Linda, linda, mesmo depois daquela obra sem sentido que fizera do areal um deserto. 

O trabalho mudou, mas a rotina continuou a mesma, durante anos, anos. Nos últimos tempos, porém, já não caminhava toda a extensão da orla; fechava a banca, pegava uma cadeira — dessas modernas, leves, de alumínio — e sentava-se às margens, apreciando o dançar dos últimos raios solares e o surgimento das primeiras luzes — dos postes, dos apartamentos, das estrelas. Jorcival dizia que só começara a viver no dia em que pusera os olhos e os pés naquele lugar abençoado, e era ali que queria morrer. 

Uma dessas noites, Yemanjá, que ouve todas as preces daqueles que amam a sua morada, pediu a Yansã que soprasse uma brisa fresca e cantante nos ouvidos do velho homem, e fechou seus olhos com maresia amorosa. Aos poucos, o som das vagas foi diminuindo, e, com elas, as batidas do coração de Jorcival. 

A Rainha do Mar o recebeu em seus braços maternais, Jorcival feliz, pois não teria desejado nada diferente.






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