domingo, 29 de novembro de 2015

VOCÊ E O SONHO >> Eduardo Loureiro Jr.

No início, você está dentro do sonho. O sonho é a realidade para você. Tudo que existe é o sonho. Você não pensa no sonho, você nem sabe que está sonhando. Você vive por meio do sonho.

Depois, você acorda. Seu corpo ainda não se mexe, mas você acorda. Você percebe que esteve sonhando. Você não é mais aquele que vive no sonho, você é aquele outro que sabe que viveu no sonho. Mas você ainda está envolto pelo sonho. E você sente que o sonho era bom e deseja voltar a sonhar. Você mantém o corpo imóvel e tenta esquecer que é um sonhador. Você procura dormir novamente na esperança de voltar àquele mundo do qual já começou a sair. Você ainda pode ver o mundo do sonho, as pessoas que estão nele, a natureza, as cores, as texturas, os cheiros, embora todos eles comecem a subir devagarinho. Você tenta se manter sonhando, rememorando a história do sonho, aquela sequência meio ilógica de eventos que você acabou de viver. Não fazia muito sentido, mas era bom. Você consegue voltar ao sonho, mas a consciência não some de todo, e o sonho continuado é uma imagem borrada do sonho que antes era nítido e real. Você não está mais vivo dentro do sonho, as demais pessoas do sonho também não parecem estar mais vivas, a própria natureza do sonho não é mais do que um mundo cenográfico.

Você ouve um barulho do seu próprio mundo. Um canto de pássaro, um bater de enxada, o movimento das pessoas na sua própria casa. Seu corpo se mexe, tenta se espreguiçar. Você procura ficar imóvel, procura se concentrar nas imagens cada vez indefinidas do sonho, mas, quanto mais você se esforça, mais o sonho escorre entre os fios do seu pensamento. Você sente que a batalha está perdida e busca guardar alguns despojos do sonho: reconta a estranha história para si mesmo. Você se ilude de que lembrará daquele sonho para sempre, de que não é possível esquecer algo tão vívido e tão bonito.

Você se espreguiça. Você se levanta da cama lentamente. Você vai, de olhos entreabertos, até o banheiro. Você faz xixi. Você lava o rosto. Alguém percebe que você está acordado e fala com você. Você responde. Você voltou a viver em seu mundo e o sonho é uma lembrança tão leve que não resistirá à água do banho.

Agora o sonho dorme. Talvez o sonho sonhe. Imóvel e silencioso, dentro de você.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

7 QUEDAS >> Paulo Meireles Barguil



 "Então, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou:
'Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão
quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?'. 
 Jesus respondeu: 'Eu digo a você: 
Não até sete, mas até setenta vezes sete.'"
Mateus 18, 21-22

Percorrer a Trilha das 7 Quedas em Mucugê, na Chapada Diamantina, só é possível quando tem pouca água, pois o leito é repleto de pedras de tamanhos diversos.

Por esse motivo, na abundância, o espetáculo proporcionado pela interação da dupla é contemplado apenas de cima.

Na carestia, as pedras, muitas outrora afogadas, assumem o estrelato, sendo a água singela coadjuvante, numa inversão de papéis.

Que bela metáfora da natureza sobre a vida!

Não me refiro somente à dinâmica dos ciclos aquíferos, mas à oportunidade de identificar alguns rochedos que, em momentos de fartura, são escondidos pelo movimento voluptuoso e frenético do líquido.

Enquanto aguardo as nuvens escuras, anunciantes de nova temporada, agradeço a oportunidade de subir e descer pedras, bem como de desculpar aos companheiros dessa jornada, incluindo-me no topo do rol dos necessitados de indulgência.

Quantas vezes ainda terei o privilégio de fazer esse percurso?
 
[Chapada Diamantina - Bahia]

[Foto de minha autoria. Novembro/2015]

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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ERA PRA SER. NÃO FOI >> Mariana Scherma

Você também deve se lembrar que, há nem 20 anos, as pessoas diziam que o Brasil era o país do futuro, que nossas crianças eram o futuro. Nossa biodiversidade, nossas riquezas naturais, a gente tinha potencial. O Brasil era tipo aquela criança prodígio do colégio. Ou aquela criança estrela de Hollywood que, assim que ficasse adulta, ganharia Oscar, Bafta, Globo de Ouro e cia. Ãham. Vai nessa.

O problema é que, para o nosso país chegar estrelando no futuro, as pessoas no comando, as empresas e tudo mais deveriam querer que assim fosse. Ao que tudo, indica esses governantes e demais fulanos do poder não o quiseram. Que futuro, o quê, eles devem ter pensado. Graças a eles, e à gente que votou neles (não estou me escondendo), nosso futuro virou fumaça. Muitas de nossas crianças mal são alfabetizadas. Nossa biodiversidade vai se esgotando pouco a pouco (obrigada, Samarco e suas parças).

Eu não vejo mais ideologia em partidos políticos ou, quando vejo, não acredito que eles vão conseguir governar. Governar tem se mostrado uma tarefa apenas para as pessoas sem alma. A justiça acontece só de forma seletiva (né, Eduardo Cunha?!). Os partidos políticos em que eu acreditava, muito por conta dos meus pais cheios de sonhos, estão falidos. Eu não sei se seria o caso de ensinar aos políticos o que é representar o povo. Quando foi que isso se perdeu? Governar virou a nova Mega Sena para alguns vários. Não é.

O futuro do Brasil era pra ser brilhante, mas nosso país virou o Macaulay Culkin das nações. Nossa biodiversidade foi embalada e se transformou em produtos de beleza com ar de ecologicamente corretos. Nosso sonho virou a maior ilusão. A fé acabou. A esperança está em extinção. Eu não sei mais em quem acreditar. Desculpa a tristeza. 

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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

SOBRE SALAS DE ESTAR >> Carla Dias >>

Houve dias em que me lamentei por coisas que não fiz e pessoas que nunca encontrei, até por sentimentos que não saberia explicar se me perguntassem a respeito. Sentia dó de mim por reconhecer o sofrimento alheio com tanta intensidade. Sentia-me aviltada de tal forma, que parecia que jamais me recuperaria daquilo tudo.

Houve dias em gritei, exigindo que Deus me explicasse... Que tragédias eram aquelas que eu presenciava, como boa espectadora de televisão? Esmurrei minha parede em nome daqueles que sofriam as consequências do descaso e do abandono.

Senti dor, quase certa de que a minha se equiparava à dor do outro.

Levou tempo até que eu me reconhecesse nesse mundo e compreendesse a diferença que há entre viver e ser uma reles espectadora de tragédias, observando-as da sala de estar lá de casa.

Compreendi que colocar-se no lugar do outro não é sentir a dor dele e viver suas experiências. Sendo assim, não tenho o direito de me comportar como se fosse eu a ofendida pela indiferença, espancada pela incompetência daqueles que deveriam zelar pela minha segurança. Não sou eu a sofrer privações do que é de direito de qualquer ser humano.

Com essa compreensão, veio o alívio. Tão bom não me sentir mais pressionada pela dor do outro, como se pudesse senti-la pulsar dentro de mim. Já me bastam as tragédias pessoais, aquelas com as quais todos nós temos de lidar, eventualmente.

Houve dias em que eu culpava o universo pelas mazelas da vida. Também vociferava — entre um gole de café e o pagamento de uma conta pela internet — a respeito de o ser humano não ter mais jeito. Eu literalmente brigava com o mundo, andando de lá para cá, na minha sala de estar. Comovia-me profundamente ao ver na televisão aquela dor toda. A dor, a dor, a dor...

Com aquela compreensão, dei-me conta de que, na vida de quem vive uma tragédia, as bordoadas não vêm em cenas que esperam passar comercial de xampu, celular, refrigerante para então acontecerem, tampouco chegam com textos escritos para ver quem ganha mais audiência. Acostumada a ver o mundo pelos olhos que espreitam, libertei-me do hábito de desvalorizar a dor do outro ao assumi-la como minha. Não era por mal... Era por mau hábito. A dor não é minha, não mesmo. Respeitar essa verdade é respeitar aquele que realmente sofre o impacto do acontecimento; quem terá de conviver com as consequências dele.

O que me dói, na verdade, dói na conta da empatia. Dói porque sou aquele ser humano sobre o qual se fala tanto... O que não tem mais jeito, mas tem.

Quando assumimos nosso papel de testemunha de uma tragédia — mas não reles espectadora, estática —, deixando de lado toda a conversa que gastamos sobre como deveria ter sido, os motivos de a situação ter chegado a tal ponto, enfim, a lamentação toda sobre como “iremos” sobreviver a isso, temos a percepção apurada e tempo para nos dedicarmos ao que realmente importa: pensar em como podemos ajudar essas pessoas a passarem por momento tão difícil, e exigirmos, como cidadãos e seres humanos, que os culpados recebam a devida punição.


carladias.com

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terça-feira, 24 de novembro de 2015

NOVAS REGRAS E SUAS POLÊMICAS >> Clara Braga

Hoje tomei conhecimento de uma nova regra que as escolas deverão seguir, o que me fez lembrar de uma entrevista que assisti com o Gregório Duvivier. Na ocasião, ele contava sobre sua vida escolar e como um dia decidiu concorrer para ser uma dessas figuras de representante da escola, não sei dizer exatamente qual o cargo. Bom, mas isso não importa, o interessante é que ele contou que uma de suas ofertas, durante a campanha, era adaptar o horário do intervalo para que todos tivessem a mesma chance de chegar à cantina. Então, quem estudava nos andares mais altos da escola, teria alguns minutos extras para descer as escadas e não ser prejudicado com a fila que o impedia de comprar o lanche mais gostoso.

Achei muito interessante a proposta, afinal a hora do lanche e a fila da cantina são mesmo uma das maiores preocupações dos alunos. Porém, talvez hoje essa não fosse uma boa pauta para uma campanha, afinal novas regras estão chegando.

Refrigerante? Nem pensar!

Também esqueçam todo e qualquer tipo de fritura. A pipoca que parecia inofensiva? Só se não for industrializada.

Aquele chocolatinho para repôr as energias e adoçar a vida após o intervalo e a educação física? Nada disso! E aquele chiclete básico para tirar o mau hálito daquela cochilada durante a aula de matemática? Esquece, esquece e esquece!

Biscoito recheado, suco artificial, alimentos com alto índice de gordura saturada, tudo estará fora do alcance das mãos dos alunos. Nada disso poderá ser vendido nas cantinas, aquelas que ficam lotadas de crianças sedentas pela coxinha com Coca-Cola ou pelo hambúrguer transbordando ketchup e maionese.

Agora, só suco natural ou de polpa sem ser adoçado, frutas da estação, bebidas lácteas também sem açúcar, e salgado só se for assado.

Vai dizer que está errado? Não! Alimentação também faz parte da educação, e se a função da escola é educar, vamos lá, vamos cumprir nosso papel e oferecer uma alimentação saudável para o aluno. 

Porém, não vamos esquecer que a escola trabalha em parceria com a comunidade escolar, que inclui a figura de pessoas muito importantes mas que estão ficando cada vez mais ausentes, os pais. 

Se não houver um esclarecimento sobre essa mudança, sobre a necessidade e a importância da alimentação saudável, inclusive para um melhor aprendizado, de nada irá adiantar. Sabe o que vai acontecer? Os alunos passarão a não comprar mais lanche na escola, vão levar as mesmas opções não saudáveis de casa e nós continuaremos tirando sarro da Bela Gil que manda batata doce e fruta de lanche para a filha como se fosse ela quem estivesse errada! Não é irônico?


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domingo, 22 de novembro de 2015

NÃO >> Whisner Fraga

Eu não estava em Mariana. Nunca estive em Mariana.

Sou mineiro e nunca estive em Mariana. Isso talvez não se perdoe.

Eu não estava em Mariana quando a barragem sucumbiu, tanta lama colocaram para que ela segurasse. Falaram de um terremoto, como se fôssemos mais ingênuos do que realmente somos.

Eu não estava em Mariana quando um oceano de barro arrastou consigo casas, carros, árvores, ruas e vidas.

Eu não estava em Paris.

Eu não estava no Bataclan naquela noite absurda em que fuzis arrancaram deste mundo a esperança na humanidade.

Eu não era o homem que filmou, voyeur nefando, os fundos do clube, que gravou pessoas penduradas na janela, pessoas arrastando pessoas baleadas pelas ruas charmosas de Paris.

Eu não era o homem que filmou e narrou o horror.

Eu não estava no Bataclan quando a covardia ricocheteou nos corpos atônitos de cidadãos do mundo.

Eu não estava no hoten Radisson Blu, em Bamako.

Nunca fui ao Mali. Se brincar nem sabia que o Mali faz divisa com Senegal. Com a Mauritânia.

Nunca fui ao Mali. E acho que não pretendo ir jamais também.

Portanto, não estava em Bamako quando eles subiram para o último andar e esperaram para atacar novamente.

Os sequestradores gritaram “Alá é grande”. É o que dizem.

Mas isso é boato. Não é nada.

O que é alguma coisa é o grito das pessoas, que irá rebombar pelos ouvidos dessa raça inútil até que o mundo decida se livrar dela.

Eu não estava em Mariana. Eu não estava em Paris. Eu não estava em Bamako. Mas muitas pessoas estavam.

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sábado, 21 de novembro de 2015

MESA DE BAR, SEXO DE AVIÃO... >> Sergio Geia

Estava no Fritz com o pessoal, quando o Pérsio veio com essa — uma notícia lida por ele recentemente no portal R7: num voo de uma companhia aérea norueguesa que ia de Paris, na França, para Estocolmo, na Suécia, um comissário de bordo anunciou em alto e bom som que um casal foi pego transando no banheiro, quando o avião pousou na Suécia. Havia o relato de um passageiro para o Daily News, de que o anúncio fora feito com o comissário dizendo o seguinte: “Nós gostaríamos de desejar boa sorte para uma reprodução feliz ao casal que se aventurou no banheiro mais cedo”. Alguns passageiros deram vivas, outros tentaram descobrir quem era o casal. “No fim das contas, a identidade do casal não foi relevada”, finalizou o Pérsio.

Amanda deu início aos trabalhos: “Fico imaginando os reacionários de plantão que tiveram que engolir seus moralismos idiotas, capitulados pela maioria que tratou a coisa como deve ser tratada. Leveza no concreto de chatices ainda existe, meus queridos!”.

Silvio, também um cronista, e dos bons, entrou na discussão: “Esse pessoal não consegue reprimir o desejo e parte pra guerra em qualquer lugar. Não entendo isso. Tá cheio de gente assim, que resolve a pendenga no elevador, no banco do carro, debaixo de uma pitangueira, nas águas do mar. Um Kilimanjaro explodindo no centro do mundo, a necessidade visceral de explodir, de pôr pra fora, literalmente, ah, ah, ah, ou pra dentro, dependendo do ponto de vista, ainda que seja nas escadarias do coro de uma igreja qualquer, ah, ah, ah!”.

Gabi, então na dela, entrou na roda: “Não deixa de ser revigorante, embora pra mim isso pareça muito mais uma infantilidade. Já imaginou o desconforto da água gelada batendo na hora H? E a areia, então, machucando a pele? E os mosquitos locais comendo o seu couro na ilha deserta na mesma proporção em que você é comida? Já pensou fazer amor em cima da mesa dura? Do capô do carro? Do alto da cobertura? No meio do jardim? Pra mim isso é tudo besteira. Prefiro algo mais confortável: a boa e velha cama”.

Marcão, até então num suspeito silêncio, uma vez que é o mais falastrão da turma, veio com essa: “Tinha uma comissária de bordo que realizava a fantasia sexual de quem topasse pagar. Cobrava cerca de oito mil para fazer sexo com passageiros no banheiro do avião. Mas ela foi descoberta e dizem que perdeu o emprego”.

Me interessei: “Peraí, Marcão! Onde foi isso? Você conheceu? Pegou a comissária?”

“Não, imagina, quem sou eu”.

“Me engana que eu gosto!”, a Gabi ralhou.

“Eu li isso no Diário Gaúcho! Não foi aqui. Acho que foi entre o Golfo Pérsico e os Estados Unidos. Trinta horas de viagem. Mas confesso que fiquei com vontade de conhecer essa mimosa”.

“Mas você viajou praquele lado, não?”

Marcão ficou vermelho, e de seus olhos brotaram gotas de felicidade. Disfarçou:

“Viajei sim, mas nada a ver, Gabi! Nada a ver!”, disse, olhando pra Jéssica, a mocinha que atende nossa mesa, com ares de paixão.



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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

DE FADAS, FEITICEIRAS E ASSASSINATOS (Última parte) >> Zoraya Cesar




Vestida de branco, Maybelline tirou da mala um tambor ritual; um embrulho frouxamente amarrado por uma corda com sete nós; e uma vela. Acendeu-a, ajoelhou-se e rezou. Pediu para não esmorecer, apesar do medo; para não falhar, apesar dos erros; para cumprir a Missão, mesmo à custa de seu sacrifício, se preciso fosse. Agradeceu a honra de participar daquela Batalha e se levantou. 

Algumas Tradições Antigas dizem que, na noite de 31 de outubro, mortos e vivos podem mais facilmente passar de um mundo para outro. Aproveitando a intensa egrégora desse dia, Magos Negros experientes — e, também, amadores ignorantes, influenciados por filmes e leituras de baixa qualidade —, conjuram energias extremamente nefastas, povoando a Terra de seres que jamais deveriam ser lembrados, quiçá invocados. Para combater os efeitos deletérios dessas exortações, a cada Guardião do Bem era designada uma Missão específica, de maior ou menor periculosidade. Por isso Maybelline estava ali, sozinha. A cada um, a sua parte, filosofou. 

Colocou a violeta, o misterioso embrulho, o tambor e o galho de carvalho no chão. Ao redor, formou um largo círculo com as 12 lanternas, acesas, viradas pra cima — ela preferia não usar velas para esse fim quando em apartamentos, por medo de incêndios. 

Cristais, água fluidificada, incensos, símbolos místicos, arrumou todos com o cuidado de quem tem a vida dependendo daquilo. Deu início aos trabalhos, proferindo o encantamento que chamaria a essência de Eoland para a violeta. A Fada estaria mais protegida ali que em qualquer outro lugar, mas sua segurança não estava garantida, e ambas sabiam disso. 

Um forte cheiro de húmus invadiu o ar. Eoland chegara. 

O coração da Feiticeira descompassou violentamente, fazendo latejar suas jugulares. Recuperou a respiração com alguns pranayamas — impossível travar uma batalha estando descontrolada. Já não bastava o medo. Se falhasse, Eoland morreria, e ela, Maybelline, talvez perdesse a sanidade. 

Quase meia-noite. Começou a bater no tambor, que ela mesma fizera e usava há tantos anos. A vibração do lugar elevou-se; a respiração e as batidas de seu coração ritmaram-se com a música; os encantamentos e orações entoados acalmaram-na. 

O ataque começou suave e melífluo, bem ao contrário do que esperava Maybelline. Vozes em sua mente, tão altas que pareciam estar ao seu lado, diziam-lhe para entregar Eoland, pois seria grandemente recompensada com riquezas e poder; recebida com loas e honras pelos antigos colegas. Por que não lucrar, em vez de sacrificar-se por uma Fada que seria morta mais dia menos dia? Com eles, Maybelline estaria protegida, jamais abandonada em um país estranho, enfrentando forças maiores que as dela. Seu corpo amoleceu e sua mente nublou, mas ela resistiu à tentação; conhecia a verdade por trás daquelas propostas. Bateu com o galho de carvalho no chão e mandou as vozes sussurrantes de volta ao baixo mundo de onde vieram.

A ofensiva tornou-se, subitamente, violenta. Maybelline ouvia gemidos, risadas demoníacas, choros, ranger de dentes. Sentia como se agulhas incandescentes estivessem perfurando seu corpo. Imagens pavorosas formavam-se em sua mente. Um cheiro pútrido e nauseabundo entranhou pelas suas narinas, provocando-lhe engulhos quase irreprimíveis. A dor era excruciante; o enjoo, verdadeiro;  e as imagens, sons e odores, tão reais, que ela perdeu o controle. 

Interrompeu o ritual e se largou no chão, gritando, contorcendo-se, encolhida de medo e dor. Percebia que o Mago Negro contra o qual lutava estava tentando tirar seu coração pela boca; se demorasse um pouco mais para recuperar o comando, tudo estaria perdido. De seu nariz, o sangue escorria, profusamente. A violeta começou a murchar.

Todas as forças do Mago Negro estavam concentradas e amarradas à Feiticeira. Chegara o momento azado. Tremendo a ponto de bater os dentes, Maybelline desatou os nós que amarravam o misterioso pacote que trouxera para o círculo, clamando pelos sete maiores Santos exorcistas. Dentro, havia um manto azul de puro algodão — representando a proteção da Virgem Maria, a Grande Mãe. Um vidro de água benta, que ela aspergiu sobre si e sobre a violeta. Uma espada, encarnando a arma usada por São Miguel Arcanjo para derrotar o Demônio. E um Rosário.

Ela começou a desfiar as contas, lenta e concentradamente, apesar das dores e do sangue que inundava sua roupa de vermelho. O ataque aumentou em ferocidade, mas a Feiticeira persistiu, firme na Fé, entregando-se nas mãos da Vontade Divina. Estava ali para trabalhar em nome de Maria Santíssima, e não arredaria de sua Missão. 

The dance of Good and Evil - Curtis Verdun
Seis horas da manhã. Maybelline Oceahn se levantou, alquebrada, exangue, os músculos entorpecidos, dolorida, a mente um tanto estupidificada. Arrastou-se para o chuveiro e depois para a cama, deitou-se e dormiu um sono profundo e sem sonhos, agarrada às contas de Nossa Senhora.

Nada pode subsistir contra um Rosário rezado com Fé e a ajuda de São Miguel Arcanjo. O Mago Negro fora derrotado e destruído, sendo menos um a perturbar o mundo. 

Mais tarde entregaria a violeta a Sleigh Beggey, para que Eoland continuasse sua tarefa de proteger a Terra, os pequenos agricultores, os campos. Mais tarde. Agora ela precisava dormir. 

O Bem venceu. Dessa vez. Até a próxima batalha.



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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

GAROTA, INTERROMPIDA - PARTE II - Analu Faria

Garota, Interrompida (Parte I)


Dois minutos se passaram e Carmela parecia não estar perto de seu objetivo.

— E se eu não me lembrar? — perguntou a velhinha, aflita com o fato de morrer sem ter completado uma última e simples missão.  — Porque, olha, já se passaram dois minutos e...

— Um minuto e cinqüenta e seis segundos.

— O narrador disse que já se passaram dois minutos.

— Ah, Carmela... você está prestes a morrer e ainda confia na precisão do narrador?

Carmela, desconcertada, esperou um pouco mais, antes de quebrar o silêncio.

— Eu não estou conseguindo me lembrar. Você vai me levar mesmo assim?

— Não, eu disse que te esperaria e vou esperar.

Mais alguns minutos se passaram, sem qualquer palavra do anjo ou da futura defunta. Carmela começava a se desesperar, mas já não sabia se era pelo esquecimento ou pela morte iminente. Não pensava em morrer agora, nem nos próximos meses, nem nos próximos anos. Pensou nos filhos que não teve e, por alguns segundos, arrependeu-se de não ter prole. Talvez porque tivesse passado a infância e boa parte da adolescência em orfanatos, não quis ter filhos — costumava dizer que quem não teve mãe não saberia o que fazer quando se tornasse uma. Pensou também em Agenor e em todos os encontros e desencontros da longa vida a dois. Lembrou-se, por último, da prima querida.  Luíza foi quem tomou para si o papel de ser a família de Carmela. O pai desta a abandonara, a mãe morrera no parto. Os tios — pais de Luíza e únicos parentes de Carmela — não quiseram criar a sobrinha. “Você sabe como é, já temos uma menina a caminho, não temos condições.” Nunca se sentiram responsáveis, nunca tiveram remorso. Visitavam Carmela em datas comemorativas e, de vez em quando, depois de algum sermão mais longo na igreja, apareciam no orfanato. Luíza ia sozinha, muitas vezes, à Casa São Judas Tadeu, brincar com Carmela. A proximidade continuou pela vida afora.

Luíza também se fora, há dois anos. Foi interrompida por um infarto no meio de sua viagem dos sonhos. Carmela gosta de pensar que a prima morreu feliz. Emocionava-se toda vez que imaginava a morte de Luíza, ascendendo aos céus com um chapéu de praia e aquele maiô azul chique, que esperara tanto para ser usado. Carmela sentiu as lágrimas nascerem nos olhos.

— Luíza?

— Sim. Sempre me emociono.

— Talvez você possa encontrá-la.

A mulher soluçou. Sentia tanta coisa ao mesmo tempo, que não sabia se expressar. Acima de tudo, porém, teve raiva:

— É assim que você quer me convencer a ir com você? Senhor anjo Gabriel Buendía, o senhor é um... um... enganador! É parte de todo esse esquema.

— Que esquema, Carmela? O anjo disse, com genuína empatia pela senhora.

— Esse esquema que acaba com tudo, que interrompe nossos planos. Nós temos planos, sabe, senhor anjo? A Luíza, por exemplo, só queria ver a água verde do sul da Bahia. Só isso. Aí vêm vocês e mandam um infarto, pronto, acabou-se! Meu Agenor vocês levaram também de repente, nem um aviso, nada. Ainda trabalhava, coitado, aos sessenta e nove anos. Estava no meio de um projeto e aí... aquele derrame. Agora... agora eu é quem sou interrompida.

— Interrompida?

— Sim. Interrompida. Olha, eu vim aqui só pegar uma xícara e...

Uma xícara! Carmela estacou. O anjo sorriu calmamente para ela. A mulher, estupefata, levou a mão à testa. Uma xícara! Uma xícara! Gabriel continuava sorrindo, benevolente. Não se via mais qualquer rastro de irritação em seu rosto. Tinha, porém, um ar de quem sabe que está certo. Carmela desconfiou que aquela criatura era paciente demais para um anjo da morte:

— Você sabia o tempo todo?

— Sim. E a xícara nem está mais aqui — apontou para o criado mudo, que tinha uma marca redonda escurecida, feita pela xícara de chá preto que Carmela havia levado para a sala, um pouco antes.

— Eu me confundi. Já tinha levado a xícara...

— Sim — o anjo continuava sorrindo.

— Mesmo assim, o senhor sentou-se aqui, esperou.

— Sim.

— Por quê?

— Não sei, Carmela. Talvez porque você tenha sido a primeira pessoa que tenha se recusado tão veementemente a ir embora, por conta de um “plano” tão simples como lembrar-se de algo que veio pegar no quarto. Confesso que eu estava meio irritado, mas sua relutância também foi um pouco tocante.

— Eu me sinto uma idiota.

— Vocês humanos são todos meio idiotas.

— Mas é que... eu estava no meio de algo tão simples. O Agenor, por exemplo, estava trabalhando, sabe, era um projeto importante e... a prima Luíza estava realizando um sonho. Eles foram interrompidos fazendo coisas tão... nobres! E eu fui interrompida fazendo uma coisa tão banal!

— E você acha que isso faz alguma diferença? Para mim, para o Depois? Todos deste mundo foram e todos serão, um dia, “interrompidos”. Buscando uma xícara de chá, ou se confundindo em fazer isso, como você fez, salvando a vida de alguém, tomando um café, indo para o trabalho, dormindo, enchendo a cara, parindo, pulando de paraquedas, depois de ter recebido uma promoção, pouco antes de vencer uma corrida, no meio do tratamento, fazendo sexo, limpando a casa, praticando ioga ou narrando uma história: é assim que vocês todos partem.

— Narrando também? Achava que os narradores não morriam.

— Narrando também. Eles são mortais, ora.

Carmela conformou-se. Se até os narradores morriam, ela aceitava, então, a inevitabilidade do fim.

— Você disse que talvez eu veja a prima Luíza. E... Agenor, também?

— Sim, talvez veja os dois. Mas eu não tenho certeza.

— E o narrador? Quando o verei novamente?

— Em breve, Carmela. Já recebi as ordens para “interrompê-lo” — na sua definição.

Carmela levantou-se e tomou um ar solene. Suspirou profundamente, juntou toda a coragem que tinha, segurou a emoção.

— Bem, então, senhor anjo Gabriel Buendía, eu vou com o senhor. Estou pronta.

O anjo também se levantou, ofereceu a mão a Carmela, que aceitou. Em seguida, os dois caminh



Fim.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

COMO VAI SER? >> Carla Dias >>

O pensamento deslocado, que não bate com as notícias dos telejornais e os interesses (dos) políticos. A roupa equivocada, nada trendy, nada suficientemente descolada. A palavra saindo da boca assim, para dizer o que, insistem por aí, ninguém quer escutar. Cabelo que desafia as leis dos bons modos (de quem?) e não se comporta decentemente, de acordo com o “modo de usar” dos cremes de relaxamento e chapinhas.

A pele que não orna com o desejo de alguns — que vociferam em volume máximo, até quando cochicham — de viver uma vida em um único tom, e, definitivamente, o escolhido por eles. As sucessivas condenações autorais, às vezes à mesa do bar ou do almoço de domingo, usadas para se fazer de conta que é possível mudar o rumo da prosa somente ao se posicionar veementemente sobre o assunto aos amigos e familiares, durante uma garrafa de cerveja ou uma taça de vinho, antes do cochilo de fim de tarde.

O conhecimento nascido para ser oferecido a uns e aos outros e a todos, mas que é compartimentado, de acordo com os interesses dos que prezam pela ignorância popular e pelos seus bolsos muito bem servidos. Palavras que antagonizam aquela... Sabe qual? Meritocracia. Palavras que desafiam o mantra de que todos têm as mesmas oportunidades para alcançar os mesmos patamares.

Eu, definitivamente, aprecio tais palavras.

A agressividade que estampa as conversas que deveriam esclarecer e unir pessoas em busca de um mesmo propósito, do benefício mútuo. A mesma que protagoniza desfechos inimagináveis e escolhe quem e quando, para o bem ou para o mal.

Há muitas maneiras de colaborarmos uns com os outros e também com o mundo, que não existe somente lá fora, atrás das nossas portas, das nossas senhas, dos nossos seguranças, dos nossos alarmes. Lá fora apenas parece distante.

Essa é uma crônica óbvia, uma citação do que devemos repensar e até mesmo eliminar das nossas vidas. Porque pensamentos que não cabem no definido para beneficiar poucos são bem-vindos. Eles podem muito bem mostrar caminhos capazes de se transformarem em soluções para questões que, neste momento, parecem inalcançáveis. As diferenças são reflexos da origem, da cultura e da personalidade das pessoas, e enriquecem a existência do ser humano... Quando o ser humano se permite tal enriquecimento.

Um olhar mais gentil sobre nosso mundo colecionador de tragédias se faz necessário. Porque não é o fim dele. Porque depois de ver tanta gente oferecendo o melhor de si para que pequenos milagres aconteçam, inclusive entre os que sofrem em consequência do descaso do outro, não há como concordar que não há mais nada no mundo que valha a pena.

Os estudantes nas escolas — aquelas que não conseguirão fechar — não merecem o fim do mundo. Aqueles das casas de show, ruas, estádios, também não. Os rios não merecem ser tragados pela lama em decorrência da incompetência e ganância de uns e outros. Não merecem fim.

Você também não.

Um olhar mais gentil — ou ao menos honesto — sobre o outro anda pra lá de necessário. Eu sei que é mais fácil dizer que tudo vai piorar, de tão cansados que estamos da violência que nos cerca. Mas há pessoas fazendo o contrário do que fazem os autores das violências que acompanhamos. Há pessoas pensando, vivendo e criando meios para que possamos, eventualmente, perceber ser possível o inimaginável. Assim, futuramente poderemos parar de corrigir nossos erros — como propõe o holandês Boyan Slat, 21 anos, com seu projeto para livrar o oceano do lixo, do plástico — para vivermos nossos acertos.

Um pouco de inspiração:

Apresentação de 2012, é possível ativar a legenda em português.




Apresentação de 2014, legenda disponível somente em inglês.



Então, como vai ser?

carladias.com


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terça-feira, 17 de novembro de 2015

POR DIAS MAIS LEVES >> Clara Braga

Anunciaram as novas datas da turnê! Vai ter Brasil na jogada, hei, preparem-se.

A notícia não podia ser melhor, vai ter Brasília! Quem diria? Eu vou, não quero nem saber! Não perco o show do Pearl Jam por nada, afinal, além de maravilhoso, vai ser super nostálgico, passei minha adolescência ouvindo. Só de pensar no show já sou automaticamente transportada para a época dos shows covers nos teatros de Brasília que sempre tinham uma banda de Pearl Jam, e também para as aulas de inglês que, semestre sim, semestre não, faziam a gente traduzir a música Last Kiss.

As vendas começaram, tenho que comprar logo, mas… é sério mesmo que vai ser na terça-feira? Acho melhor não comprar por agora não, vou esperar mais um pouco, vai que aparece algum imprevisto na escola. Ao mesmo tempo, esse é um daqueles shows que se você não for, vai se arrepender depois. Mas, na terça?

Comprei o ingresso, agora não tem mais reclamação! É na terça.

Será que vai encher? Encheu! E olha que é terça hein!

Poxa vida, dizem que eles não costumam atrasar, será que justo aqui não vão começar na hora? Só fazem isso porque para eles amanhã é um dia como outro qualquer, eles não têm que acordar cedo. Talvez nem saibam que hoje é terça.

Uma hora depois, começou! O som? Perfeito! A voz do Eddie Vedder é incrível! A banda estava colada o tempo todo, misturando clássicos com músicas novas e deixando todo mundo louco. Aliás, deveria ter um atestado comprovando que você foi ao show, terminou tarde e ficou louco. Um dia de atestado não faria mal, afinal, hoje é só o segundo dia útil da semana, muita água ainda vai rolar.

Projetadas no palco, as imagens do show foram feitas de uma forma tão cuidadosa que mais parece que um documentário estava sendo apresentado junto com o show. E o Eddie Vedder lendo um papel com agradecimentos e outras palavras em português para garantir que todos entenderiam? Nunca tinha visto uma preocupação como essa, normalmente nós é quem temos que saber falar inglês a qualquer custo. 

Bom, nem teria mais o que dizer, daqui para frente eu só me repetiria nos elogios. Mas verdade seja dita, só teria sido melhor caso não tivesse sido na ter... quer saber, o bom mesmo foi ter sido na terça. Nada como ter um gostinho prévio do fim de semana. Se tivéssemos mais momentos assim de pausa e descontração durante a semana, os dias seriam mais leves.


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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

ANJO SE NÃO VINGA >> Albir José Inácio da Silva

Quando precisava, minha mãe costurava mortalhas. Eram camisolas brancas fechadas no pescoço. A morte de uma criança enchia a casa de silêncios. Foi assim com Miguelinho.

Na sala da vizinha, as mães sussurravam a eficiência dos seus cuidados para evitar a morte e eventual descuido no acontecido.

— Sarampo não recolhe à toa. É desmazelo! — disparava a mais exaltada, mas logo fazia cara compungida.

Todas as crianças adoeciam ao mesmo tempo. As mães as juntavam para que pegassem de uma vez a doença que acometesse algum menino da vizinhança. Assim ficavam livres.

O restabelecimento ficava por conta da dedicação e habilidade de cada mãe. Às vezes não dava certo. Ou, suspeitava eu, o pequeno recalcitrava no desmerecimento.

Uma olhada rápida no caixãozinho era todo o permitido, depois, para o quintal, sem gritos nem risadas.

Minha pouca teologia não respondia por que o anjo da guarda abandonou Miguelinho. Que será que ele fez? Malcriação?

— Foi doença também, meu filho! — explicava meu pai. O “também” sugeria alguma corresponsabilidade de Miguelinho, um garoto respondão.

Mas não me assaltava o medo da morte, meu pai não permitiria uma coisa dessas. E minha mãe me dava remédio, biotônico e carne de rã.

Já tinha ouvido falar de outros mortos, avôs, bisavós, tios, mas eles nunca estavam presentes. Miguelinho estava ali.

No caminho para o cemitério, era sábado de aleluia, um bloco de sujos, que cantava “índio quer apito” e batucava latas, foi silenciado pelos nossos olhares, e alguns tiraram o chapéu.

Eu gostava das flores do cemitério. Eram as mesmas margaridas de casa, mas lá o declive do terreno lembrava o manto de Nossa Senhora, que na imagem tinha flores nos pés.

A volta era quase festiva, com os adultos ralhando por causa dos nossos gritos e risadas. As mães consolavam:

— Fica assim não, comadre. A senhora tem outros filhos e ainda pode ter mais. Tudo é vontade de Deus.

O nariz vermelho ainda fungava, já mais conformado.

Os pais, embora falando baixo, comentavam Getúlio, Juscelino e a renúncia de Jânio Quadros. Eu queria ouvir as conversas, mas também queria correr atrás dos meninos e puxar o cabelo da prima Ângela.

Fiquei por um momento pensativo, meu pai viu mais tristeza do que eu sentia e consolou:

— Fica triste não, filho. Quando é anjo, vai pro céu.

Eu ainda não tinha sete, mas andava desconfiado de minha angelitude por conta de umas espiadas no banho da Tia Lurdes. Era melhor não morrer, por ora.

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domingo, 15 de novembro de 2015

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
E INTOLERÂNCIA À RELIGIÃO
Eduardo Loureiro Jr.

Começo dizendo que não tenho religião. De criação católica, tive um período religioso bem ativo entre os dezesseis e os dezoito anos — até pensei em ser padre, mas parei por ali. Dos trinta e cinco aos quarenta e três anos, fui sócio da União do Vegetal. Dois períodos muito bons em minha vida, cheios de descobertas interiores e exteriores, além de terem me dado amigos para todo o sempre. Desde 2013, estou sem religião, mas mantenho uma prática espiritual constante, devido a uma abordagem não religiosa chamada Pathwork. Feito esses esclarecimentos, vamos ao que interessa...

O clima de intolerância está no ar. A intolerância mais fácil de ser identificada é aquela de algumas pessoas religiosas em relação a outras religiões ou a certos grupos sociais (homossexuais e afins, principalmente). Essa é uma intolerância longuíssima, de milênios, afinal há muito existem guerras "santas" e "apedrejamentos" de pessoas desviantes da norma. É a tal da intolerância religiosa.

Uma intolerância mais sutil e mais recente, coisa de alguns séculos, é a intolerância de pessoas não religiosas, muitas das quais ateias, em relação às religiões de maneira geral. Pessoas que não toleram qualquer religião porque acreditam que religião é a droga do povo, ou coisa parecida.

Podem parecer coisas muito diferentes, principalmente se o observador for um intolerante de qualquer um dos lados, mas, para um observador neutro, a diferença é pequena: o intolerante religioso não suporta nenhuma religião à exceção da sua e o intolerante à religião não suporta nenhuma religião. Ou seja, o intolerante à religião é, pelo menos quantitativamente falando, ainda mais intolerante que o intolerante religioso. Mas, por outro lado, o intolerante à religião não costuma ser intolerante a certos grupos sociais (embora eu conheça muitos que o são).

A intolerância costuma gerar reação em cadeia: um religioso não tolera outro religioso que não tolera um ateu que não tolera outro religioso que não tolera um transsexual que não tolera outro religioso e por aí vão... se intolerando. Até eu, que não tenho nada com isso, sou tentado à intolerância em relação aos intolerantes, tanto os intolerantes religiosos quanto os intolerantes à religião. Ultimamente, tenho feito um esforço para tolerá-los todos.

A intolerância, até onde consigo perceber, vem do desconhecimento. O desconhecimento proporciona muitas coisas, pode proporcionar curiosidade, mistério, encantamento, mas também é a origem da intolerância. Desconhecimento de si, desconhecimento do outro, desconhecimento da história, desconhecimento de Deus...

Certa vez, numa tentativa de me conhecer em relação a esse assunto,  perguntei:

— O que me irrita nos intolerantes?

A resposta não tardou a chegar...

O que me irritava nos intolerantes era sua certeza, sua força, sua disposição combativa. Claro que eu, um sujeito cheio de dúvidas, fraco de vontade e covarde em relação a qualquer tipo de briga, haveria de me incomodar com essas pessoas que escrevem e falam com veemência, aumentam o tom da voz e desqualificam os adversários.

Então me aquietei. Porque essa é uma briga de cachorro grande — Intolerantes Religiosos X Intolerantes à Religião — e eu ainda sou um filhotinho de vira-lata. Melhor eu ficar na minha, roendo meu ossinho já roído por dobermans, pit bulls e pastores alemães. Meu ossinho de não saber, de não ter forças, de não ser bom de briga. Meu ossinho que, de tanto eu roer, talvez me ofereça sua essência, seu recheio, seu tutano.

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sábado, 14 de novembro de 2015

SAUDADE DA FLORESTA,
ENCANTADOR ESCONDERIJO
>> Cristiana Moura



Ensaiava, ainda antes de abrir os olhos, um espreguiçar lento e desacelerado no amanhecer daquele domingo que seria diferente de todos os outros. Ao esticar o corpo para lá e para cá com gestos mansos e felinos, Gabriela camuflava a ansiedade pelo passeio por vir. Tomou seu café da manhã na padaria para que o dia lhe começasse com raios de cotidiano e segurança. Depositou sua ansiedade em um largo pedaço de bolo como se pudesse transformá-la açúcar adentro. Mas o que estava por vir lhe fugia ao que poderia imaginar tão apaixonada que se tornara pelo cotidiano que aprendera a tecer.

E o domingo diverso veio. E viveu. E o tempo passou em câmera lenta, enquanto passeava por entre os encantamentos da vida que, sem que ela pudesse ter domínio, naquele domingo, fugia ao que conhecia em seu dia a dia.

Foi aquele rapaz, amigo de uma amiga, que a levou secretamente ao seu esconderijo. A floresta era mágica. Enquanto caminhava, as raízes das plantas se misturavam aos seus pés e às suas próprias raízes. O som das folhas, nascido do seu encontro com o vento, se entranhava à melodia das flautas mágicas. Nem todos podiam ouvir as tais flautas. Ele podia. Contou a ela que a floresta sempre o leva para onde ele quer estar.

Enquanto ele, ao compartir com a moça dos seus segredos — seu esconderijo e seus sons —, parecia a cada respiração estar sempre esperando o momento por vir, ela queria mesmo era que o tempo parasse. O nome do rapaz prometi não revelar. Mas o significado do mesmo, não fazendo parte da promessa, vou contar a vocês: Encantador. Sim, seu nome significa Encantador.

Gabriela, que já se encantara com bolhas de sabão, com pores do Sol à beira mar, agora se encantava com o passeio pela floresta e por aquele que a guiava. Seu guia também parecia encantado pela moça. Já não tão moça, mas isso ele não sabia. Passear ao lado dele a fez sentir pingos de saudade da juventude.

Ela viveu o domingo assim, encantada. A Floresta e seus sons, o seu guia, tudo lhe acordava os sentidos. Ah, Gabriela, agora, é só saudade. Quer pisar de novo as raízes da floresta, mas não aprendeu o caminho, não pode ir só. Quando lhe perguntei sobre o moço, ela respirou fundo e me disse que não tem certeza se realmente o conheceu ou se o inventou. Parece que vão almoçar juntos qualquer dia desses. Ela me confidenciou que teme o desencantar possível de quando os olhos vêem simplesmente o que é. Ao mesmo tempo sonha em desencantá-lo para então ser vista de verdade.


Para conhecer mais sobre Gabriela:

http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/um-sorriso-numa-bolha-de-sabao.html

http://www.cronicadodia.com.br/2014/12/uma-alegria-uma-tristeza-e-maresia.html

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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

SONATA DE UMA VIDA >> Paulo Meireles Barguil

Na madrugada, ao som de grilos e à luz de vagalume, a vida é bordada.

Na manhã, ao som de sorrisos e à luz de sol, a vida transborda.

Na tarde, ao som de buzinas e à luz de lâmpada, a vida escorre.

Na noite, ao som de choros e à luz de vela, a vida é recolhida.

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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

ENTRE O PASSADO E O FUTURO >> Mariana Scherma

Era janeiro. Eu estava fazendo planos pra 2015 quando, passando pela rua, vi uma loja toda decorada para o Natal. Já era novembro, um mundo de coisas aconteceu e não senti o tempo voando assim. Sempre imaginei ser um sinal da idade chegando quando você junta a palavra tempo e o verbo voar na mesma frase. Minhas avós sempre diziam e eram minhas avós. Não quero aceitar que a idade está chegando — eu ainda uso saia com All Star, não posso ser velha. Então, vou ficar com a teoria de que o tempo passa rápido quando a gente vive muito. Uma adaptação simplória da Teoria da Relatividade.

Você pensa: ah, isso só vai acontecer em março. Tem tempo. Nem vou me preocupar agora. Aí você acorda e “oi, março”. Tá tudo correndo rápido demais. Ninguém nunca imaginou que o dia 21 de outubro de 2015 fosse chegar, o dia em que Marty McFly chegava ao futuro (desculpa aí se você nunca viu De Volta Para O Futuro). Não existem carros voadores e os tênis ainda não se ajustam sozinhos. Mas ainda tem muita corrupção, gente passando fome, crianças (e adultos!) analfabetos, famílias vivendo em lugares sem esgoto e/ou água corrente. O futuro chegou, mas ainda é passado pra muita gente. Será que falta tempo aos governantes? Ou será que sobra ganância?

Quando eu tinha 10, 15 anos, eu morria de curiosidade pra saber os spoilers da minha própria vida. Tinha certeza de que estaria casada lá pelos 25. Ainda quero spoilers da minha. Não casei aos 25, mas nessa idade já tinha conhecido um bom pedaço do mundo, lido mais livros que muita gente vai ler na vida, faço esporte como nunca (pra Mariana dos 60 estar bem lá na frente), me alimento de forma saudável... A Mariana dos 10, 15 anos ficaria orgulhosa. Mais ainda ao saber que casar não define você. Só você mesma pode se definir. Os tempos evoluíram para algumas coisas, para outras ficou quase num retrocesso. Feliz quem não dá moral para a velocidade do tempo, mas dá atenção para cada pequena mudança que se faz necessária.




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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

CATIVEIRO >> Carla Dias >>


Olhos fechados. Quem sabe há quanto tempo? Ele não sabe dizer. Ela não tem ideia de quanto ou quando. Prostrados diante de quem? Há quantas horas, dias, vidas? Braços ao lado do corpo, estirados, apesar do desejo pelo movimento. Nunca sentiram tanta falta de serem autores de acenos. De sentir o vento bater na palma de suas mãos.

Ouvidos atentos. Escutam palavras de quem? Ele não precisa saber, porque qualquer palavra que não ofenda soa alento. Qualquer conversa que o alcance lembra a ele que há mundo lá fora. Ela é menos otimista, e lamenta não haver como não calar a felicidade alheia que lhe chega a cada vez que abrem a porta que os separa do mundo.

Ao acordarem, uníssono despertar, ele beija a fronte dela, inspirando-lhe um estrangeiro arrepio. Ela se amiúda para caber no abraço que ele não pode lhe dar. Trocam palavras desconexas, apenas para se lembrarem do som de algumas delas. Ele diz “bom dia”, a voz carregada de esperança de que essas palavras prefaciem a realidade. Ela rebate com esgar, “é só mais um dia, depois de outro, antecedendo o próximo”.

Quando não conseguem evitar estar em casa em um mesmo momento, eles se perdem pelos cômodos, e cada qual tem o preferido. Ele cuida de seus assuntos na biblioteca. Ela cuida de sua vida na sala de estar. Encontram-se, solenemente, na hora do jantar, diante de uma mesa posta com cuidado que um dia tiveram um com o outro. Reverberam palavras necessárias, embasadas na cordialidade dos que não sabem viver juntos, mas acreditam ser impossível viver separados.

Não imaginaram, às malhas do pessimismo mais aguçado, que um dia se tornariam prisioneiros um do outro. Viveriam à mercê de um cativeiro emocional, cerceador da espontaneidade que a vida exige, a fim de ambientar levezas em espíritos atordoados. Se não levezas, levantes.

À noite, eles desmontam como se fossem fantoches sendo desprezados pelos seus manipuladores. Caindo um sobre o outro, amontoam-se feito sacas de batatas. Permanecem estáticos por tempo que já não sabem contar. Segundos já se arrastaram como se fossem horas. O tempo pode ter ritmo contínuo, mas para eles, ele é volúvel e quase sempre se arrasta, atuando como coletor de desmedida desesperança.

Assim, eles se perdem fácil um no labirinto do outro. Caem na conversa fiada desse arrebatador silêncio que os cerca, desagrega, aflige e destempera. Caem no sono, em um tímido roçar de pernas, tão cansado está o desejo deles de espiar tais abismos.

Um sofrendo de devaneios e o outro de espanto infinito.


Imagem © Maria Amaral

carladias.com




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domingo, 8 de novembro de 2015

NEWTON SERÁ ESQUECIDO >> Whisner Fraga

Não conheci nenhum bisavô meu. Puxo o assunto com meu pai e ele desconversa. Com minha mãe nem dá para tentar, pois ela perdeu o pai quando era criança e nem chegou a conhecer o avô. Meu bisavô, avô de meu pai, deve ter vivido no início do século XX, 1910, por aquela época. Quem sabe nasceu no final do século XIX? É o que imagino, já que não tenho maiores informações. O mesmo nada eu poderia contar do avô de minha mãe. E mesmo da avó de minha mãe ou da avó de meu pai. Estamos falando aí então de cento e poucos anos de lapso temporal.

Em pouco mais de cem anos, portanto, meu bisavô conseguiu praticamente ser esquecido. É certo que nos lembramos daqueles homens que foram importantes para a humanidade, de uma forma ou de outra, mas ainda assim, recordamo-nos deles de uma maneira superficial e quase aleatória. Isaac Newton, por exemplo, lá do distante século XVII. Quem foi? Acho que, de supetão, muita gente vai derrapar na resposta. Quem foi? Uma celebridade. Lagrange, lá do século XVIII, é ainda menos conhecido. Vou parar por aqui, no ramo da física, tão castigado hoje em dia em nosso país.

Mas sobre meu bisavô não consigo muito. Não quero, é certo, levantar uma árvore genealógica, para tentar descobrir, assim, de maneira fria, matemática, quem foi esse parente já tão distante. Assim, creio até que Newton teve muito mais importância em minha vida do que um bisavô que não conheci. Apesar de que, convenhamos, sem este bisavô eu não estaria aqui, o que, também, de todo modo, não teria importância nenhuma.

Eis que chego, talvez oitenta ou setenta anos após a morte de meu bisavô, ao posto Graal 56, da rodovia Bandeirantes. Um posto chique, metido. Gosto de parar lá para descer a lenha em seus donos, que deixam dezenas de peixes se acotovelarem em poucos metros quadrados. Dá dó. Tudo ali é empolado e sem utilidade. Vou ao banheiro e espero um grandalhão Hells Angels pegar as toalhas de papel para enxugar as mãos. Uma, duas, três, quatro. Seis ou sete pessoas ao meu lado e atrás de mim encaram o sujeito. Em frente a ele, uma placa afirma que duas toalhas são suficientes para executar com eficiência a tarefa. As pessoas se enervam com facilidade e, por isso, resolvo secar as mãos na calça mesmo. E saio dali, apressado. Tento ver um sentido palpável no ecologicamente correto. Na dúvida, faço minha parte.

Cento e poucos anos antes, meu bisavô devia ir à beira do Rio Tijuco (se é que morava em Vila Platina, mais tarde Ituiutaba) e encher algum recipiente com água e carregar para casa. Lá, ele economizava, pois sabia que a bacia era pesada e não queria ser obrigado a fazer cinco ou seis viagens por dia. Mas não ligava para ecologia. Acredito, pelo que conheço da vida de Newton e de Lagrange, que também não estavam nem aí para ecologia. O que queriam da natureza era reproduzi-la em equações. Ainda assim preferimos esquecer meu bisavô e evocar Newton e Lagrange, principalmente em nossas dificuldades.

Mas a Terra, que está sendo tão castigada, não se lembra de Newton ou de Lagrange ou do meu bisavô. Ela sequer se recorda de Lavoisier. Tudo foi transformado. Esse planeta maravilhoso seguirá seu curso de desmemória, mesmo, ou principalmente, quando não estivermos mais por aqui. O bonito disso tudo é que não importará mais saber que algum dia passamos por esse mundo e o devastamos.



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sábado, 7 de novembro de 2015

AMOR ROMÂNTICO >> Sergio Geia



O papo rolava solto quando ele, instigado por alguma coisa — talvez algo que ela tenha falado, perguntou:

“Quer dizer então que você não se acha romântica?”

“Ah, não sei. Me incomoda um pouco o rótulo de romântica que envolve a mulher. Eu sou uma pessoa afetiva. Gosto da estética romântica: roupas, móveis, lugares. Mas não sou ligada, por exemplo, a detalhes; não gosto de surpresas, não idealizo, não crio expectativas, não fantasio... Coisas do gênero. Será que dá pra entender?”

“Interessante. Dá sim.”

“Sabe que esses dias um amigo de infância me perguntou exatamente isso? Você não tem nenhum sonho romântico? Eu acho que não..., respondi. Não me veio nada na cabeça.”

“Cada um é cada um, mas acho que o seu modo de pensar é bem singular, imune às interferências do mundo.”

“Como assim? Que tipo de interferências?”

“Lá vamos nós divagar outra vez...”

“E sem vinho. Tenha dó! Você tá acabando com a minha reputação! Como vou dizer que preciso de um vinho pra divagar se tô fazendo isso a seco?”

“Nessa semana já teriam sido ao menos cinco garrafas, ah, ah, ah! Acho que essa coisa de amor romântico é uma invenção do meio. As pessoas estão envolvidas e não tem muito como escapar, a mídia de uma maneira geral faz isso; se deixam influenciar por sonhos românticos, príncipes encantados, passando a viver uma espécie de alienação coletiva, tipo ilha da fantasia, criando expectativas que não encontram resposta, quando na verdade relacionamento é muito mais construção do que simplesmente a junção das duas metades da laranja.”

“Tipo o Gray de helicóptero me chamando na minha sacada pra jantar num restaurante suntuoso?”

“Isso! Tem mulher que passa a vida inteira sonhando encontrar um homem assim, maravilhoso, jovem, lindo, corpo atlético, rico, sensível, atencioso, educado, sem vícios, bom de cama, enfim, o cara perfeito, quando na real isso não tem.”

“Olha, pra mim o que dá pra esperar de uma pessoa é atitude, ser presente, amigo, parceiro, esse tipo de coisa. O resto é floreio meio desnecessário. Gosto de um certo cavalheirismo. Isso é interessante.”

“Eu assisti ao Cinquenta Tons. O cara nem bem apareceu e as mulheres atrás de mim começaram a suspirar. Olha o grau de lavagem cerebral que o meio faz. Aí elas querem encontrar um Gray.”

“Sabe quem é o meu príncipe favorito?”.

“Quem?”

 “Shrek.”

“Ah, ah, ah!”

 “É o mais normal de todos.”

“Sim, o mais autêntico. Não é uma ponta de iceberg. Você já viu restaurante em Dia dos Namorados?”

“Já, claro!”.

“Existe uma necessidade coletiva de ter de sair nesse dia. E aí se o cara não lembra de dar presente!”

“E ir parar numa fila de motel?!”.

“Nossa, você vai achar que eu sou um cara nada romântico. Nem bem começamos e tô eu aqui a falar mal do romantismo. Já tô perdendo pontos.”

“Bom, já é um alívio. Muitos pontos pra você! Só acho que tem que ter presente sim, eh, eh, eh!

Ao ver seu sorriso, teve vontade de lhe dar um beijo. Não pensou duas vezes.



Ilustração: Henri de Toulouse-Lautrec

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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

DE FADAS, FEITICEIRAS E ASSASSINATOS – PARTE II >> Zoraya Cesar


Foi difícil encontrar a loja. Maybelline Oceahn não conhecia Paris o suficiente para andar rápida e confiantemente. E a Le Gnome Grognon* ficava nos fundos de um beco, discreta e escondida – fato deveras incomum em se tratando de Fadas, sempre tão esfuziantes, brilhantes, ‘tilintantes’... 

‘Fome’, roncou seu estômago. Só maçã não vai me sustentar, decidiu. Comprou dois croissants e uma pequena garrafa de vinho, estava na França, oras, às favas com o regime. Comeu e bebeu vorazmente. Agora sim, hidratada e alimentada, estava pronta para encontrar a Fada Branca – que nada tinha de ‘boazinha’. Ao contrário. Talvez por viver há tantos anos entre franceses, Sleigh Beggey assimilara algumas características deste povo. A impaciência com estrangeiros sendo uma delas.

O portão verde, de madeira, dava acesso a um pequeno caminho de tijolos, ladeado por arbustos e flores. Ao final, uma porta de cor lilás, guardada por um gnomo de pedra, cuja feição emburrada dava nome ao lugar. Maybelline pediu-lhe licença, consciente de que, no mundo, mesmo os objetos têm
vida. Entrou.

Como sói acontecer no que concerne a Fadas, o ambiente era delicado e de bom gosto. A loja recendia a jasmim; nas prateleiras, os produtos que fazem a festa de leigos e curiosos: bolas de cristal, incensos, baralhos... Os produtos e encantamentos verdadeiros, porém, eram armazenados nos fundos da loja, somente para iniciados, não para turistas. 

Ela aguardou, sabendo que estava sendo observada, e que a notória má-vontade francesa de Sleigh Beggey era especialmente contundente no que se referia a Feiticeiras.

Imagine uma Fada. Diáfana, esvoaçante, sutil. Agora esqueça isso. A Fada Branca era gorda, corpulenta, exuberante. Os cabelos brancos, curtos e cacheados, eram divididos por uma grande mecha roxa. Enormes anéis enfeitavam seus dedos rechonchudos. E dizem que bruxas é que são esquisitas, pensou Maybelline, afastando o pensamento maldoso de que já vira Fadas mais magras. Curvou a cabeça e disse:

- Saúdo as Fadas que protegem a vida nos campos. Agradeço à Sleigh Beggey por permitir que eu entre em seu território – e estendeu-lhe o cacho de uvas. 

- Até que enfim, uma Feiticeira com bons modos. – A voz, musical e suave, contrastava com sua opulência física.

Maybelline sentiu enorme alívio. Fadas podem se expressar em qualquer idioma; se desgostam de alguém, no entanto, fingem-se de tontas. O fato de Sleigh falar português era bom sinal. 

 - Me diga, por que você? Nem parece muito esperta e ainda não atingiu o último nível. Ouvi dizer que já andou em más companhias. 

A Feiticeira não se importou com a rudeza, e engoliu a ofensa contra sua inteligência. Esperara pior recepção. 

- Como sabe, Eoland vem ajudando pequenos agricultores franceses a não dependerem dos agrotóxicos da Notsaint. Alguém nessa firma, que mexe com Magia Negra, vai sugar toda a essência de Eoland na noite desse All Hallows Eve. E, há muito tempo, plantei violetas aqui na região, por isso ela confia em mim. 

Maybelline teve vontade de acrescentar que fora chamada porque Fadas não têm forças contra Magia Negra, mas conteve-se. O orgulho é um mau companheiro. 

- E precisava vir de tão longe? – realmente, Sleigh Beggey ia direto ao ponto.

-Sim. As Feiticeiras daqui estão vigiadas. Se Eoland tentar entregar sua essência a qualquer uma delas, será morta antes de chegar perto. Os matadores levarão mais tempo para perceber minha presença.

A Fada Branca deu-lhe as costas e foi para os fundos da loja. Voltou, pouco tempo depois, com uma sacola de pano cru.

- Uma violeta plantada pelas Fadas do Norte, amarela, a cor preferida de Eoland, e o encantamento para chamá-la. Artemísia, colhida na minha horta. Um galho de carvalho do Cemitério de **. Doze pequenas lanternas com pilhas de longa duração. Mais alguma coisa?

Nada, agradeceu. Despediu-se e foi embora. Não havia necessidade de mais palavras. Sleigh Beggey fizera sua parte, cabia a Maybelline Oceahn continuar a partir dali. 

Acordou no dia seguinte, 31 de outubro, nervosa e amedrontada. Se falhasse, não só Eoland – a quem deveria proteger – morreria, como ela, Maybelline, poderia ficar com seqüelas permanentes. Uma de suas colegas enlouquecera combatendo um ataque de santería forte demais para ela. 

Feiticeiras não voam em vassouras nem misturam, em caldeirões ferventes, asas de morcego e rabos de lagartixas. Não existe hocus-pocus, mas muito estudo e prática, além de uma boa dose de coragem, para lidar com energias, tantas vezes, aterrorizantes. 

Passou o dia consultando manuais, misturando seus pós, arrumando seus apetrechos e revendo sua estratégia. Preparou o chá de artemísia com Florais, para melhor se conectar com o Sagrado Feminino. Energizou seus cristais com Reiki. E orou muito, pois a primeira coisa que vacila durante uma obsessão é a Fé. O medo não desapareceu, mas ficou sob controle. 

Às seis da tarde rezou o Angelus e entrou em meditação. Quando despertou, horas depois, estava pronta. A Batalha Ritual iria, efetivamente, começar. 

* O Gnomo Resmungão

A 3a e última parte continua em 20 de novembro. Prometo.



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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

GAROTA, INTERROMPIDA >> Analu Faria

Carmela foi ao quarto pegar alguma coisa. Nem eu nem você saberemos o que é, leitor. Porque Carmela também não sabe. Esqueceu-se do que precisava, no meio do caminho. Aliás, quase na porta do quarto. Entrou mesmo assim. "Vai que eu me lembro." Não se lembrava. Sentou-se na cama e ficou lá uns instantes. "Meu Deus, por que é que a gente fica velha?" Voltou à sala, onde havia iniciado o trajeto. Isso sempre funcionava com a prima Luíza. A parenta era da idade de Carmela, 87 anos, e tinha esses brancos também. Aí era só voltar ao começo do caminho e pronto, lembrava-se de tudo.

Carmela ficou parada no meio da sala espaçosa. Olhou os poucos móveis — será que a resposta estaria ali? Viu que havia deixado a xícara de chá sobre a mesa de leitura, que ficava do lado do sofá. "É por isso que eu não gosto de mesa, a gente acaba colocando tudo ali e não guarda." Lembrou-se da briga que teve com o falecido marido, quando primeiro decoraram a casa, há quarenta anos. Agenor era arquiteto e tinha um olho bom para aquela coisa de arrumação. E queria uma mesa de centro, onde pudesse repousar o uísque e uns livros de arquitetura que o antigo chefe havia dado. Carmela não gostou da ideia. Queria móveis onde se pode guardar coisas, de forma que quando fossem abertos, a coisa guardada - uma joia, um talher, um livro —, não seria simplesmente retirada, mas meio que "descoberta". Carmela riu ao lembrar-se de que Agenor, ao ouvir a explicação para o veto à mesa de centro, cobriu o rosto com a mão direita e disse, pela milésima vez: "Mulher, você é maluca.". O que sempre significava que a vontade dela prevaleceria.

A mesa de leitura, contudo, teve que permanecer. Ganhou de presente da prima Luíza e presente de prima-irmã não se nega. Só lamentava que ficasse colocando a xícara de chá sempre ali em cima, tomando o lugar dos livros. Foi até a mesa, pegou a xícara e se encaminhou para a cozinha, reclamando da idade e dos móveis inúteis. A prima Luíza bem que poderia ter dado um gaveteiro. Ou conselhos melhores. Isso de voltar ao começo do caminho não adiantava nada. Aborrecera-se.

Voltou à sala novamente e pensou que o jeito era continuar fazendo o que fazia antes de ir pegar não-sei-o-quê no quarto. Sentou-se no único sofá da sala e abriu de novo o livro que estava lendo minutos antes daquele aporrinhamento. Não conseguia concentrar-se. Queria porque queria lembrar o que é que ela tanto precisava no quarto. O livro, não era, estava ali. Seria um remédio? Olhou as horas, fez as contas: não, já tinha tomado o da pressão, o da tireoide e o cálcio. Algum documento, talvez? Não, não guardava documentos no quarto. Roupas? Não, ela não ia se trocar. Que diabos! O que era? Deixou o livro de lado e voltou ao quarto.

Sentou-se na cama, fechou os olhos e prometeu a si mesma que só sairia dali quando lembrasse. Inspirou fundo. Tinha medo de ficar gagá e sempre havia se esforçado para não deixar o cérebro envelhecer. Gabava-se de ter memória boa, para uma mulher da idade dela. Não ia deixar a coisa degringolar assim fácil. Expirou. Abriu os olhos. E quase perdeu a fala.

Um anjo, de asas brancas, túnica, aura iluminada, halo e todos os outros enfeites de anjo que se possa imaginar estava plantado ali, na frente dela. A criatura sorriu e estendeu a mão para Carmela, que estava prestes a ter um troço. Olhava a mão do anjo, perfeitamente tocável, perfeitamente humana, e balbuciava palavras soltas, às vezes ininteligíveis. "Mas... mas... o quê?..." O anjo lá, parado, parecendo um homem todo normal, poderia ser o vizinho, poderia ser o padeiro, poderia ser qualquer um, não fosse pelos adereços angelicais.

Carmela abaixou a cabeça. Pensou que pudesse ganhar uns pontos com o gesto, que denota respeito. Mas na verdade queria ganhar tempo. Olhando para baixo, não via o rosto do anjo e não ficava tão atordoada. Assim tinha como botar ordem nas ideias. Alguns segundos depois, mesmo achando os pés do anjo uma coisa fantástica por parecer tão humana, ela conseguiu articular as primeiras frases, a cabeça ainda baixa:

— Você... o senhor... por que está aqui? Eu não sei se sou tão boa assim que... que... mereça uma... uma... visita dessas.

Carmela ouviu a voz do anjo, também humana, demasiadamente humana, e teve coragem de voltar os olhos para ele.

— Eu vim para buscá-la, Carmela. É hora — disse ele, ainda com um sorriso nos lábios.

— Buscar? E onde é que você vai me levar? É hora do quê?

O anjo riu, paternalmente. Era comum que os humanos soubessem, mas não acreditassem que a hora de morrer havia chegado. Já tinha visto a cena tantas vezes! Todos eles, no fundo, entendiam o que estava acontecendo, mas poucos se deixavam levar apenas pela divina presença daquele ser. Era preciso convencê-los, explicar que era tempo de partir. Às vezes era preciso um discurso. Quase sempre era preciso tranquilizá-los. Era preciso confirmar que Deus existia. Era preciso dizer que os parentes iam ficar bem. Era preciso mostrar seu crachá angelical. Era preciso filosofar. Era preciso responder a perguntas. Não, você não tem escolha. Não, eu não posso lhe dar mais tempo, não sou eu quem decide. Pensando bem, era um pouquinho irritante.

— Oi? Aconteceu alguma coisa? — Carmela interrompeu a epifania do anjo.

— Não, Carmela. Está tudo bem.

— É impressão minha ou o senhor está levemente... irritado? Assim... levemente, viu? É só uma observação, eu não estou reclamando. Aliás, o senhor é muito bem-vindo.

 — Como?

 — Irritado. "Bolado", como dizem os jovens aí.

 — Não, Carmela, não estou "bolado". E lembre-se que sou um anjo. Eu não me irrito.

 — Ah, sim, desculpe. Mas o senhor dizia... que ia me levar...

 — Sim, Carmela, está na hora.

 — O senhor quer dizer... morrer? Eu... eu vou morrer?

 — É uma passagem, minha querida irmã, não se preocupe.

 — Mentira, "passagem", "viagem", esses nomes todos são eufemismos. O senhor sabe o que é um eufemismo?

 — Claro que sim, Carmela.

 — Aí, ó: tá irritado.

 — Não, não estou... Ok, talvez um pouco. Mas me perdoe. Eu não devo me irritar. Respondendo a sua pergunta: sim, eu sei o que é um eufemismo.

 — Então eu vou morrer.

 O anjo hesitou um pouco, suspirou profundamente, olhou para cima. Carmela teve a impressão de vê-lo contando até dez.

 — Isso — respondeu, num misto de secura e resignação.

 — Ah, mas não pode ser!

 — Como "não pode ser", Carmela?

 — Ora, senhor anjo... como é mesmo seu nome?

 — Gabriel.

 — Nossa, que clichê! Um anjo chamado Gabriel! Isso é coisa do Agenor, não é? Aposto que está rindo da minha cara agora. Ele sabe que eu sempre detestei clichês.

— Não, Carmela, meu nome realmente é Gabriel.

— O mesmo que anunciou o nascimento de São João Batista e Jesus? O mesmo que conversou com Maomé?

— Não. Sou outro. Somos que nem os Buendía. Gostamos de repetir nomes.

— Pois então, senhor anjo Gabriel Buendía, eu não posso morrer agora. Eu vim ao quarto para me lembrar de uma coisa e eu não vou morrer antes de me lembrar.

Gabriel sentou-se na cama, ao lado de Carmela. Olhou para o horizonte, sem expressão. Como quem perde as esperanças.

— Ok, lembre-se aí. Eu espero.


[Continua no dia 19/11]

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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

PAUSAS >> Carla Dias >>


Quando os dias ficam mais insanos do que o usual, e a cartela de analgésico é esvaziada sem percebermos, o corpo deseja um descanso que você não pode dar. Quando assim, nesse estado de estresse ao cubo, se não nos rendemos à exaustão, observamos a vida de outra perspectiva.

Assim como faço agora...

Escrever, ainda que sobre situações escabrosas, me acalma como nenhum calmante conseguiu, ao menos até hoje. É comum eu rabiscar algo em momentos em que a casa está realmente caindo. Cinco minutos depois, volto mais tranquila, pronta para reconstruí-la.

Agora, por exemplo, escrevendo a crônica da semana, eu apazíguo um pouco. Não é descaso com o que tem de ser feito, mas sim bálsamo necessário. O que tem de ser feito o será, mas precisei dar um passo para trás para observar a situação e aquietar o coração.

Pobre coitado... Açoitado constantemente por taquicardia.

Não vou colocar a culpa dessa necessidade de repensar as loucuras adquiridas, em nome de um trabalho concluído com esmero, na conta da contemporaneidade da loucura que o ser humano abraça ao se jogar ao mundo. Tudo é urgente, pra ontem, pra daqui a pouco, era pra ontem, enfim, não há pausas quando você tenta arcar com a responsabilidade do outro.

Eu adoro pausas.

Escrevo aqui, hoje, neste momento, porque abracei uma pausa. Eu a mereci, vocês podem acreditar. Ela não iluminará minha alma com insights, mas certamente me ajudará com a dor de cabeça. Ela e o analgésico, claro.

Pausas são necessárias. No meio de uma grande confusão, elas operam milagres. Parar, respirar fundo, fazer um algo que lhe caia bem, para então retornar, o espírito mais leve, a capacidade de compreensão mais apurada.

É preciso dar devido valor às pausas.

Pausas nos lembram de que somos limitados, se não física, emocionalmente. Não sabemos — ou somos capazes de — lidar com tudo... Com o absolutismo do tudo. O simples fato de que existe o que não podemos mudar comprova isso. Ainda assim, teimamos.

Sei que levamos uma vida desafiadora. Lidamos, diariamente, com consequências drásticas, oriundas de escolhas cruéis. Mas também encontramos, no meio do caminho, aquelas pessoas que nos inspiram a conquistar mais espaço para as pausas, somente para uma boa conversa sobre levezas. Esses detalhes que nos confortam quando precisamos equilibrar várias situações ao mesmo tempo, e nem percebemos que, na verdade, algumas dessas responsabilidades não nos pertencem.

Fim da minha pausa.


carladias.com

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

É TUDO CULPA DA LUA >> Clara Braga

Relacionamentos são difíceis. Natural que seja assim — tanto pra você quanto pra mim — desculpem, mas não resisti à interferência. Bom, voltando ao assunto, as pessoas são diferentes, foram criadas de formas diferentes, passaram por diferentes situações na vida e quando começam a se relacionar, toda essa diferença de uma vida pode acabar entrando em conflito.

É claro que se tudo está entrando em conflito é porque algo está errado, afinal, se você escolheu se relacionar com aquela pessoa vocês devem ter algo em comum. Agora, se você gosta do quarto sempre arrumado enquanto ele prefere não arrumar a cama no fim de semana, você prefere assistir o show pela tv, ele prefere ao vivo. Sua comida predileta é lasanha, a dele é guacamole. Ele quer saltar de paraquedas, você morre de medo de altura. Você prefere cozinhar, já ele gosta de conhecer novos restaurantes. Você prefere um exercício ao ar livre, ele academia. Você adora comprar CD’s para ler o encarte, ele acha besteira, muito mais fácil baixar a música. Tudo isso é normal.

Esses conflitos podem ser resolvidos com uma conversa, durante a semana a gente cozinha, fim de semana conhece um restaurante novo. Você vai para a academia, eu vou correr no parque e a gente se encontra depois para tomar um açaí, que tal? Agora, claro que se todo fim de semana você pede para ele arrumar a cama, ele diz que vai arrumar e não arruma, toda vez que vocês marcam alguma coisa você tem que esperar horas até ele chegar, nunca consegue cumprir horário, enfim, brigas vão acontecer, depois vão se resolver (ou não) e isso se chama relacionamento.

Isso tudo eu falei pensando em relacionamento amoroso. Fora isso, ainda tem aqueles relacionamentos que você nem escolheu ter e tem que lidar com. Aquele sem noção do trabalho que só faz comentários impertinentes e a ética não te permite responder à altura. Ou então a namorada do seu amigo que é uma chata, mas fazer o que, seu amigo está apaixonado e você vai ter que suportar e se segurar para não dar umas patadas na mulher. Família então nem se fala. Aquele tio que só conta piadas sem graça, fala mal de todo mundo e piora quando fica bêbado no Natal, só pode ser karma. O aniversário do filho daquele primo que quando passa por você na rua nem te reconhece. Ambas as situações são campeãs dos sorrisos falsos, mas é isso, temos que lidar. E o pior é que o relacionamento amoroso a gente ainda pode terminar quando está muito ruim, a família é a família, muito mais complicado.

Bom, e como se já não fosse difícil o suficiente termos que cuidar dos nossos relacionamentos, ainda temos agora que lidar com o fato do Chimbinha ter traído a Joelma. Pô, Chimbinha, Natal chegando, espírito do Papai Noel contagiando todo mundo, tinha que ser agora? Aí, como se não bastasse você já ter que explicar para o seu namorado que você não estava brigando com ele, muito menos querendo arrumar confusão, você só estava pedindo para que da próxima vez que ele for atrasar ele te avise, você tem que parar para entender o que exatamente o Chimbinha fez para que a Joelma desse uma leve surtada e incentivasse a plateia a atirar garrafinhas de água no ex-marido. Quase uma releitura do Carlinhos Brown no Rock in Rio, e ele nem precisou perguntar se alguém estava com sede. E como se não fosse o bastante, você vai ler o jornal e lida com o fato de que o filho do casal está se sentindo usado no meio dessa confusão. E todo mundo sabe, se sentir usado em um relacionamento é um mal sinal, vamos ter que tomar uma atitude.

É tanta coisa que está difícil acompanhar, mas no final das contas eu me pergunto, se já é tão difícil cuidar dos próprios relacionamentos, por que os problemas alheios dão tanto ibope? Será que é uma forma de se consolar, eu tenho problemas, mas a Joelma tem mais, então eu tô de boa? Ou será que é só por causa do barraco mesmo?

Enfim, não quero parecer insensível em relação aos problemas dos outros, afinal, nem sei o que é passar por uma separação muito menos ter que lidar com o fato do Brasil saber que eu fui traída ou que eu traí alguém. Mas acho que já deu né, gente? Vamos fazer um jornalismo um pouquinho mais sério? Até porque nenhum deles deve explicação para ninguém que não seja eles mesmos. 

Já é hora de mirarmos nossa mídia para os alvos certos.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Ó RAIOS! (Final) >> Albir José Inácio da Silva

Leia a Primeira Parte.

Leia a Segunda Parte.

Mas durante todo o dia encheram-lhe o saco perguntando por flores. Não se lembrava dessa procura toda. E a coisa piorou no final do dia, com as caçadoras de brindes florais. Mesmo quando não vinha nem mandava flores, a velha dava trabalho.

Às quatro da matina, como sempre, Seu Manuel arrastou seu jumento pela estrada para buscar frutas, verduras, secos e molhados. Pouca coisa, porque não vendia quase nada mesmo. Mas nesse dia trouxe lá umas flores, a ver se diminuía o aborrecimento causado pelo súbito interesse por lírios e rosas.

No dia seguinte teve de voltar ao mercado, não por causa das mercadorias, mas por causa das flores que acabaram logo, não atenderam às vendas e, menos ainda, à gratuidade. Para aumentar seu agastamento, Pício perguntou:

— Será que Dona Rosa tem o que comer?

A devoção a Santa Rita foi a única explicação que Seu Manuel encontrou para seu comportamento. Nunca se imaginou fazendo isso, mas ao final do dia mandou lá um dinheiro, como se tivesse vendido as flores do jardim da velha. Sobrou para o Pício.

— Pergunta ao teu patrão se ele quer mesmo que eu lhe diga o que fazer com este dinheiro! Por acaso eu posso sair daqui para comprar alguma coisa? Pegue o dinheiro de minhas flores e compre aqui estas coisas que eu preciso! — gritou Dona Rosa, entregando a lista.

O caixeiro amenizou como pôde o destempero da idosa. Mas isso não livrou seu patrão da apoplexia.

— Que dinheiro? Que flores? Ela por acaso me mandou alguma flor? Nunca me casei para não ter de lidar com isso! Agora cai-me no colo uma velha entrevada e louca!

Mas a situação se estabilizou, com Seu Manuel comprando flores todos os dias, vendendo muito e distribuindo o que sobrava. Ele até já gostava do sorriso das moças quando recebiam as flores, das vendas no balcão e das encomendas, que agora não paravam, para casamentos, batizados, enterros e festas municipais. As verduras e os legumes foram perdendo espaço por causa dos supermercados e não passavam agora de uma pequena banca no meio da loja de flores.

Os fornecedores satisfeitos com o volume de compras passaram a entregar as flores todas as manhãs. E Seu Manuel teve de contratar mais funcionários para dar conta dos buquês, coroas e arranjos que a cidade precisava. Mandou também capinar o quintal e cuidar do jardim de Dona Rosa. Ela ia se recuperando, mas sem muita disposição para trabalhar ou entender melhor a situação.

Tem razão o leitor quando pensa que a implicância é irmã da paixão. E isso conduz sua cabeça romântica a pensar em amor, casamento e felicidades outras, já que solitários os nossos personagens. Mas não posso ajudá-lo nisso. Dona Rosa partiu.
  
Ainda agora o leitor prefere pensar que ela regressou a Portugal, aos cuidados dos seus, mas preciso dizer que ela morreu. Seu Manuel cuidou do enterro, das homenagens e chegou a dizer palavras carinhosas que jamais diria em vida, sempre sussurrando de lado que ela era uma velha tinhosa.

Bem mesmo vão os negócios.  A floricultura abriu três filiais na cidade, uma no município vizinho, e não para de crescer. Seu Manuel tem gerentes, compradores, vendedores e passa o dia circulando pelas lojas a ver se tudo está direito.

A única coisa de que ainda cuida pessoalmente é, ao final do dia, distribuir flores em frente às lojas. Tem sempre um sorriso e é conhecido como um simpático e generoso velhinho. Só os antigos se lembram do quitandeiro resmungão.

Uma topada dolorosa ou mesmo uma crise de seu próprio reumatismo sempre dá a Seu Manuel a certeza de que alguém está a reclamar cuidados com o túmulo. E ele grita para o seu agora secretário:

— Ó Pício, troca lá as flores de Dona Rosa!


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