sábado, 31 de outubro de 2015

SOBRE AS MENINAS QUE NASCEM NA LUA NOVA — para Letícia >> Cristiana Moura

Hoje uma amiga me disse: — Escreve sobre os bebês que nascem na Lua cheia!

Será que Letícia nasceu na lua cheia? Letícia é minha sobrinha. É a coisa mais linda, precisam ver. Já tem quatro meses e está esperta como ela só. Impressiona-me mesmo é como um menino e uma menina são tão diferentes desde muito pequeninos. Letícia, diferentemente de Luís Eduardo, o sobrinho de pouco mais de um ano, é dengosa como só uma menina é capaz de ser. A pequena faz caras e bocas, é manhosa, faz bicos e por aí vai. Pequenas nuances do feminino em poucos dias de vida.

E Letícia nasceu na Lua cheia? Fui conferir. Ah, Letícia nasceu na lua nova! Esta crônica é para as meninas que nascem na Lua nova. Minha bela sobrinha veio ao mundo de parto normal. Cunhada de cócoras, irmão sentado atrás, obstetra no chão. Com quarenta e duas semanas sendo gestada, a barriga de sua mãe já não lhe bastava e nasceu assim, sem data marcada, aos vinte e três de junho deste ano.

A Lua nova significa início de um ciclo. Ah, há de ser uma bênção, então, nascer em madrugada desta fase lunar como o fez Letícia. Dizem que as mulheres, uma vez conectadas ao seu sagrado feminino, tendem a menstruar na Lua nova, momento que deveria ser de introspeção, de recolhimento. Camila pariu em Lua nova. Jamie Sams fala sobre a Tenda da Lua: “as mulheres honram o seu Caminho Sagrado quando se dão conta do conhecimento intuitivo inerente a sua natureza receptiva. Ao confiar nos ciclos dos seus corpos e permitir que as sensações venham à tona dentro deles, as mulheres vêm sendo videntes e oráculos de suas tribos há séculos.” Esperar o tempo de um bebê maturar dentro do próprio corpo até poder ouvi-lo nascer que é chegada a hora é esta sabedoria ancestral. Dar do próprio leite como único alimento necessário é instinto, sabedoria e beleza.

Peguei a menina da Lua nova em  meu colo e toquei todo seu corpo para dizer-lhe que a amo. Fizemos Shantala na pequena. Para quem não sabe, é uma massagem indiana específica para os bebês. Ensinei minha cunhada, e nossa menina vai recebendo na pele e no cotidiano o amor que não se diz em palavras.

Desde a Lua nova de junho, Letícia, Camila e Marco vivem uma nova vida, um novo ciclo que é, antes de tudo, de amor. Abençoada seja a menina da Lua nova. Abençoada esta nossa família que cresce por entre sorrisos, choros e amor.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

FLORES >> Paulo Meireles Barguil


Que eu vá
Se tu flor


Se tu fosses
Quando eu flor


Quando eu for
Que nós flores




[Chapada Diamantina - Bahia]

[Fotos de minha autoria. Outubro/2015]


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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

DAS COISAS (E PESSOAS) QUE CONQUISTAM
>> Mariana Scherma

Gente que oferece sorrisos grátis, só porque saiu da cama com uma sensação leve no coração e decidiu dar um sorriso nada amarelo ao primeiro desconhecido que encontrou na rua. Gente que oferece comida grátis, só porque acabou de fazer e a panela está lá, quentinha. Quem mora longe da mãe (e da comida maravilhosa dela) dá valor a uma comida caseira tanto quanto valorizaria fazer os seis pontos sozinho na Mega-Sena.

Pai e mãe. Só porque eles decidiram que você mereceria vir ao mundo e experimentar sorrisos grátis, comida do vizinho, carinho de filhote de gato, seu time ser campeão do Brasileiro, o cheiro da chuva no asfalto quente, uma coca-cola gelada depois de uma ressaca brava, um elogio do nada, um abraço mais do nada ainda e um pedaço de chocolate no dia de TPM mais enfurecido.

Seu sofá que lhe espera todo dia de braços e assentos abertos. Seu sofá que lhe consola depois de um dia tenso e que também sabe guardar segredos sobre amassos bem amassados e suspiros de quero mais. Travesseiros fofos que servem de encosto na hora da leitura, que moldam exatamente sua cabeça, a do seu parceiro e aguentam numa boa o peso dos seus sonhos e das suas aflições.

Amigos que não precisam falar pra trocar opiniões. Amigos que o entendem no olhar ou no sorriso meia-boca. Amigos que com uma palavra salvam seu dia e dividem seu desespero. E na hora boa, então? Deixam a felicidade tão melhor! Amigos que seguem com você, mesmo que insista em fazer as mesmas piadas since 2003.

E aquela pessoa, que do nada, assim, de repente, resolveu morar no seu coração e fez você perceber e sentir melhor tudo em volta. Essa pessoa que fez com que você valorizasse cada noite chuvosa porque dormir junto é bom, mas dormir junto com chuva é milhões de vezes melhor. Aquela pessoa que justamente faz cada sorriso ser mais gostoso e valer a pena. Um brinde àquela pessoa. E que todos possam ter alguém que mostre que a vida junto é tão melhor. Não que sozinho não fosse bom, era. Mas tudo pode melhorar, oras. Nem é uma questão de completar, é mais como multiplicar.

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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

BENNET, DARCY E AUSTEN >> Carla Dias >>


Li uma notícia sobre um filme baseado em Orgulho e Preconceito, livro de Jane Austen. O filme será lançado em 2016, e seu título é Orgulho e Preconceito e Zumbis... Isso mesmo, zumbis.

Jane Austen... Zumbis. Zumbis... Jane Austen.

Ainda não tinha lido um livro de Austen, mas este é o clássico caso de “eu assisti ao filme”. Sim, eu nunca comparo o livro ao filme, que adaptações geram sempre diferenças. Minha última experiência foi com Um Dia (One Day/2011), baseado no livro homônimo de David Nicholls, também roteirista do filme. Mesmo com o autor nas rédeas da adaptação, as diferenças se apresentam, e acaba que adorei o filme, até comprei o DVD. Então, ganhei o livro, aprofundei-me nas características dos personagens, e acho que o filme deveria ter durado três horas e meia e Nicholls aproveitado mais da história registrada no livro.

No caso de Austen, eu assisti a todos os filmes baseados em suas obras, assim como os inspirados por elas. Todos. Também assisti ao Amor e Inocência, baseado na vida da escritora. A partir daí, tornei-me ainda mais interessada por ela, por essa figura que destoava de um período em que as mulheres eram moeda de troca e ponto.

AMOR E INOCÊNCIA | TRAILER

Austen deixava claro,  principalmente por meio de seus personagens, que não abriria mão de sua posição diante da vida.

Ainda que não fosse leitora das obras de Austen, não poderia dizer que desconhecia a trajetória da autora. Acredito que, se até então eu evitara ler seus livros, é porque dos filmes, os de época, agradavam-me muito os diálogos e a construção dos personagens. Eu não queria perder esse gostar, deparando-me com uma diferença imensa entre filme e livro. Foi uma bobagem na qual decidi colocar ponto final.

Apesar desse meu descuido, como leitora, ficou muito, mas muito difícil imaginar Elizabeth Bennet e Mr. Darcy como matadores, ou caçadores, ou aniquiladores, ou o que seja de zumbis. Não há como criar uma história pessoal para um zumbi, certo? Uma que se estenda ao que ele se tornou. Ele simplesmente faz parte da trama, mas não tem a riqueza de um vampiro, lobisomem, ou qualquer criatura na qual se possa imprimir uma identidade. Ele é periférico. É uma criatura que vaga, que não tem vontade própria, ele é guiado pelo o que acontece a sua volta. Sendo assim, os protagonistas aos quais Austen deu vida, criando camadas, pincelando desejos e frustrações, os quais carregam o peso de uma época repleta de restrições, de prisões sociais e pessoais; essas figuras precisam ser despidas de suas peculiaridades, do que mais interessante elas têm para se adaptar a um desejo mercadológico por zumbis.  

Depois de ler a tal notícia sobre o filme, meu interesse pelos filmes e Jane Austen sofreu um upgrade. Assisti a três deles novamente: Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice/2005 | Direção: Joe Wright), Palácio das Ilusões (Mansfield Park/1999 | Direção: Patricia Rozema) e Amor e Inocência (Becoming Jane/2007 | Direção: Julian Jarrold). Então, decidi começar pelo começo, lendo os livros da autora. Obviamente, dei início a minha jornada com Orgulho e Preconceito.

Minha benquerença pelos filmes continua intacta. Mas eu, que sou das que se apaixonam pelos personagens, ando mais apegada que nunca a Bennet e Darcy.

ORGULHO E PRECONCEITO | TRAILER

Alguns de vocês podem até se perguntar o que diabo alguém feito eu, que apenas estreou na leitura de Jane Austen, que é nada fã de zumbis, tem de meter a mão nessa cumbuca. Bom, eu gosto de filmes, sou completamente a favor de adaptações de livros para o cinema, gosto muito de personagens sobrenaturais, mas definitivamente não aprecio filmes que tirem de personagens emblemáticos o melhor deles. E até aqui, desculpem-me, mas não consigo visualizar Elizabeth Bennet sendo especialista em artes marciais, enfrentando mortos-vivos, enquanto se apaixona por Mr. Darcy. Na história de Jane Austen, a trama segue além do amor que Elizabeth Bennet e Mr. Darcy acabam por compartilhar. Apesar do romance, e tão presente quanto, está a dificuldade de ser um indivíduo em uma sociedade em que ser mulher já é um problema e também a solução para problemas financeiros da família. E há o ter de lidar com as questões da cultura, educação, os limites impostos e o desejo de ultrapassá-los.

Pode ser que o filme com zumbis faça um imenso sucesso, que seja premiado e tudo o mais. Ainda assim, eu penso como pontuou uma amiga: por que não uma história original? Será que ser original dá muito trabalho?

Vou continuar com a leitura das obras de Jane Austen, que ao menos para isso os zumbis me serviram. Não, eu não assistirei ao filme. Assisti ao trailer e para mim já está bom.

THE REAL JANE AUSTEN | DOCUMENTÁRIO


Jane Austen | Filmes e séries baseadas em suas obras, documentários sobre a escritora: janeausten.com.br

carladias.com



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terça-feira, 27 de outubro de 2015

OBRIGADA! >> Clara Braga

Vivemos na sociedade do:

"Não tenho problema nenhum com gays, desde que estejam longe de mim."

"Adoro fulaninho, ele nem parece gay!"

"Sou contra violência contra a mulher, mas usando essas roupas que elas usam hoje em dia, estão pedindo, né?"

"Não tenho problema com gays, trato como se fossem normais."

"Besteira no trânsito? Quer apostar quanto que é mulher?"

"Com certeza foi aquele negro que pegou!"

"Falar de violência contra a mulher é como falar de racismo contra o branco!"

"Respeito todas as religiões, mas isso aí não é religião, é macumba!"

"Não acredito que até hoje existam negros na televisão!"

"Sai daí, seu macaco!"

"Professora, tira fulaninha da minha frente, não vejo o quadro por causa do cabelo de vassoura dela. Tem que fazer escova!"

"Meu filho não vai estudar cultura africana, é contra nossa religião!"

Não sei se a ignorância das pessoas está piorando ou eu que estou mais atenta a certas situações, só sei que discursos preconceituosos mascarados de "discursos bonitos" me preocupam mais do que preconceito escancarado. Temos muito para caminhar e muito para debater até quebrar certos conceitos. Obrigada ENEM por ter contribuído com essa caminhada.


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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

EXCELÊNCIA E ÁGUA FRESCA >> André Ferrer

Nosso país é relativamente novo. A História de outras nações, no entanto, pouco tem servido de lição por aqui.  O que poderia ser encarado como um privilégio — todos aqueles anos de tentativas e erros cometidos mundo afora à disposição!  é, quando muito, subaproveitado no Brasil.

"Zé Carioca e o goleiro Gastão", Disney, 1961
Estuda-se pouco. Na maioria das vezes, o suficiente para o canudo. Trabalha-se muito. Sim, no Brasil, trabalha-se muito, porém com qualidade e frequência risíveis.

Em torno de alguns negócios bem sucedidos por aqui, alardeia-se a implantação da excelência estrangeira, principalmente a norte-americana. Oh, my gosh! Olhe mais de perto. Take a closer look! Assim, como o próprio Monument Valley numa fita de John Ford, descortina-se a realidade: I'm sorry, but you cheated. O homem do marketing te pegou! O único contato com a legítima excelência ianque, no mínimo, te custará a obtenção do green card e duas décadas, pelo menos, da mais honesta imersão num vilarejo cravado nos rincões de Utah.

Por falar nisso, Utah é o 45° Estado americano e foi levantado no meio do deserto. Seus fundadores foram os mórmons (quase 70% da população atual). Donos de um estoicismo admirável, os pioneiros enfrentaram uma terra bem mais árida do que, por exemplo, a caatinga brasileira. Utah, entretanto, só repete (e de maneira admirável) o processo de ocupação territorial que o cristão protestante realizou, a partir da independência, na maioria dos 50 Estados daquele país.

Nas escolas brasileiras, ensina-se essa História americana sob o viés do “coitadismo”. Enquanto se apresenta Borba Gato e Domingos Jorge Velho como heróis nacionais, o pioneiro norte-americano aparece como um matador de bisões (antiecológico quando o termo ecologia sequer existia) e de... índios (Domingos Jorge Velho, para quem não sabe, colecionava orelhas de nativos)! Sim, porque o foco não é contextualizar o bandeirante ou o colono ianque e ensinar o aluno a pensar, mas propagar a autocomiseração justificada pelo antiamericanismo. De fato, a pedagogia do oprimido a serviço da opressão. Muda-se apenas o opressor e a tal da revolução libertadora fica só no discurso.

Por que raios, no lugar desse palavrório maniqueísta, não se aprofundam os estudos em busca da verdade? Ora, porque a verdade sobre um povo guerreiro, que valoriza a excelência, o mérito e o suor do seu rosto (e olha torto para a indolência) não serve àqueles que, em vez de educar, desejam minar a inteligência com o intuito de multiplicar a submissão.

Abraçamos o cheeseburger, o For Sale, os rodeios, o Halloween e, de uns anos para cá, o Black Friday. Todas essas coisas, enfim, que já estão assimiladas e entranhadas no dia a dia do brasileiro ou, pelo menos, em vias de. OKAY? Mas não paramos no fast-food e nas confraternizações da nossa turma do inglês.

Um artigo que se importou muito por aqui, dos anos de 1950 para cá, foi o protestantismo à moda norte-americana, o neopentecostalismo. 


Domingos Jorge Velho num bilhete
da Loteria Federal durante a década de 1970
Na década de 1980, dizia-se que o Brasil se tornaria uma grande potência caso a maioria católica perdesse espaço para eles. Mentira. Seria verdade se, além de televangelistas como Jimmy Swaggart (e o know-how que, hoje em dia, é usado e abusado por um sem número de igrejinhas caça-níqueis), viesse para cá, por exemplo (sim, há muitos exemplos que caberiam perfeitamente aqui, como os já referidos mórmons, os batistas, etc.), a doutrina que John Wesley enviou aos EUA recém-independentes pelas mãos de alguns missionários. Em resumo, o protestantismo como um fenômeno que transformou os EUA numa grande potência, e que, infelizmente, não se reproduziu e jamais se reproduzirá aqui.

Por que é tão difícil, para muitos, observar o mundo e retirar dele boas lições independente se as lições venham do amigo ou inimigo? É viável ser capitalista e contemplar as questões sociais. É bem possível ser um antiamericano e aprofundar o tema sem patifarias doutrinadoras. Inúmeros elementos da cultura ianque fazem parte das nossas vidas. É lindo. Lindo mesmo. Seria muito, entretanto, acrescentar alguns itens a esse festivo abraço à sequoia gigante? Por exemplo: um pouco de pragmatismo. Que tal? Hein? E que tal, ainda, esquecer a divina providência política, o clientelismo, o “coitadismo”, arregaçar as mangas e fazer por onde?!

Nada melhor, no final do dia, do que olhar em cima da mesa e sentir orgulho do dinner, aquele T-bone steak besuntado de barbecue sauce... aquelas batatas fritas. Não é mesmo?!


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sábado, 24 de outubro de 2015

AS SENHORINHAS >> Sergio Geia

Dei de cara com quatro senhorinhas andando pela calçada da Professor Moreira. Normal. Ainda mais considerando que era domingo de manhã, dia ensolarado, a igreja a poucos metros dali. Mas a cena me chamou a atenção porque as quatro senhorinhas andavam penduradas umas nas outras. Parecia que cada uma precisava da força e do equilíbrio das demais pra seguir adiante. Ali não eram quatro senhorinhas, mas uma só; uma identidade, coesa, sólida, que se mantinha estável pela força de oito braços frágeis, moles e cansados.

O registro daquelas senhorinhas elegantes, cheirosas e de cabelos de algodão ficou na memória, e tão logo cheguei em casa tratei de dar corpo a alguma coisa que tivesse as velhinhas da Professor Moreira como mote. Fiquei a imaginar, por exemplo, a rotina daquela gente numa manhã alvissareira de domingo. Confesso que tenho até medo. Pois é nessas horas que essa cabeça doida viaja e dúzias de talvez, quem sabe e coisa e tal me enlouquecem. Mas juro, juro que a intenção não é essa. O que me traz aqui é a ideia de crônica leve, bucólica, como essa manhã de domingo que caminha brejeira ao som de pardais e da cachorrada ao longe.

Domingo é dia de reunir a família em torno da mesa. É dia de frango, macarrão e maionese. É dia de conversa fiada, de beber, de dormir um pouco à tarde. É dia de futebol. No mínimo aquelas senhorinhas iriam fazer tudo isso. Menos o futebol, claro. Talvez fossem avós de uma família grande. Talvez a casa estivesse barulhenta pela bagunça da criançada.

Na minha, sempre foi assim. Um domingo almoçávamos na Professor Moreira, na casa da minha vó Lourença. Não faltavam o macarrão, o frango e a maionese. E coca-cola, claro. Íamos pegar no Coleta. Era garrafa de vidro. Um litro. Dava pra todo mundo. Era a multiplicação da coca-cola. No outro, o almoço era na Barão, na casa da vó Ita. O cardápio era o mesmo. E de sobremesa, doce de abacaxi.

Acho que cada senhorinha iria chegar em casa e começar a dar cabo dos preparativos do almoço para reunir a macacada. Se bem que hoje em dia essa tradição de almoço de domingo em casa anda perdendo força. As avós, mais modernas, não querem saber de cozinhar. Preferem um bom restaurante, de preferência na serra, de preferência em Campos de Jordão, por que não?

Mas não, não acredito que seja o caso. As senhorinhas me pareceram muito das tradicionais. O almoço certamente seria em casa sim, com macarrão, frango e maionese. E se bobear, a sobremesa seria doce de abacaxi. A criançada estaria brincando e tomando coca-cola; os filhos, genros e noras bebendo cerveja, discutindo alguma coisa. Cada uma delas estaria dirigindo o fogão, cortando os legumes, administrando o cozido.

Ou, talvez, míope e desatento, eu não enxergue o óbvio. Talvez, um dia, ainda jovens e atraentes, essas senhorinhas deram uma banana para os condicionamentos sociais. Talvez nem se casaram. Talvez vivam sozinhas, não têm filhos, netos nem família grande. Ou quem sabe são casais. Por que não? Dois casais que moram juntos e vivem muito bem. De repente, aos domingos, eles se juntam para almoçar num bom restaurante, de preferência pra comer não macarrão, frango e maionese ao som da tevê, mas pra comer truta com pinhão ao som de um violão. Talvez, na serra. Quem sabe em Campos do Jordão?

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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

DE FADAS, FEITICEIRAS E ASSASSINATOS (Parte I)
>> Zoraya Cesar

Estava exausta, após quase dez horas de voo sem dormir ou comer decentemente. Comida de avião, mesmo vegetariana, causava-lhe náuseas. Costumava levar seu próprio farnel nas viagens longas, mas tem um momento em que o organismo, cansado de lanches, pede uma refeição. E ela, que nem gostava de carne, estava quase ansiando por um filé com fritas.

Tempo para descansar e comer, porém, não havia. Importante era chegar ao apartamento, deixar a bagagem e entrar em contato com a pessoa a quem viera procurar. Comeria nesse ínterim. Se tivesse sorte, poderia, até, tirar um cochilo. Não, alertou seu cérebro disciplinado. Para dar conta do que viera fazer, deveria, antes, comer e dormir adequadamente. Sim, respondeu ela, eu sei.

Carregava apenas uma pequena mala e uma mochila, para facilitar a locomoção, caso precisasse viajar rapidamente.  Como dessa vez, em que saiu do Rio para Paris, às pressas, a única a saber como quebrar a resistência de Eoland, a Tímida. 

Desceu na estação Luxembourg e foi em direção à Rue Le Goff, onde ficava o apartamento, bem em frente ao Hôtel du Brésil. Adorava ficar em hotéis, mas sua missão exigia discrição; ela não poderia se arriscar a despertar a atenção de algum empregado ou hóspede mais curiosos. Ademais, o apartamento era preparado especialmente para gente como ela, o refúgio certo e ideal para quem precisava se esconder ou trabalhar incógnito. À guisa de consolação, prometeu-se que, tão logo terminasse o serviço — estivesse viva, ou, pelo menos, íntegra — mudar-se-ia para o hotel, descansaria alguns dias para desfrutar da cidade-luz.

Luz, devaneou enquanto subia as escadas, luz. Combater as trevas na cidade-luz...

Abriu a porta, pesada, de madeira escura e lisa, comum, não fosse pela ausência de fechadura e pela estranha mandala nela entalhada. Estranha para os não-iniciados — pois a mulher imediatamente reconheceu o símbolo, e, nele pousando sua mão direita, pronunciou a fórmula de proteção ali desenhada, que afastaria energias negativas e abriria a porta. Entrou.

O apartamento ficava nos fundos, com vista indevassável e, todo ele, tratado acusticamente para não permitir o escape de sons. As cortinas, descerradas, deixavam entrar, pelas largas janelas, raios de sol de uma tarde que já se deitava, preguiçosa e amarelenta. A sala, espaçosa, de tábua corrida e paredes brancas, continha uma estante de madeira, na qual estavam dispostos alguns livros e uma Bíblia bastante usada; uma mesa redonda, de mármore negro e pés de ferro, circundada por seis cadeiras também de ferro. Seis móveis na sala onde se realizavam os trabalhos, seis, o número místico perfeito.

No quarto, um armário embutido guardava roupas de cama, travesseiros e toalhas de banho. De um dos lados da cama, coberta por lençóis cor de lavanda, ficava um  espelho móvel de cristal de corpo inteiro, encaixado em uma moldura de madeira; do outro, uma mesa de cabeceira, sobre a qual repousavam um telefone de apenas uma tecla e um caderno de capa preta, cujas folhas estavam repletas de assinaturas e dizeres. Ela folheou o caderno, sorrindo ao ver alguns dos nomes, enchendo-se de respeito ao ler outros. Seguindo a tradição, pegou a caneta da bolsa e escreveu:

Maybelline Oceahn.

Maybelline Oceahn. Maybelline. Nome de rainha em pelo menos um dos Reinos das Fadas. De fada, no entanto, ela nada tinha. 

O poder costuma exercer um encanto especial. Historicamente, o Mal parece ser mais forte, contabilizar mais vitórias e menos baixas, arregimentar mais correligionários que o Bem. Possivelmente venceria no Grande Final. Em compensação, seus servidores eram escravos de um senhor traiçoeiro e nefando que cobrava um preço extremamente alto de seus asseclas por qualquer favor que fizesse. Pertencer à Ordem da Luz, por outro lado, era estar numa luta sem fim pela sobrevivência, perder, tantas vezes, amigos e batalhas; mas significava liberdade — dolorida e sacrificante que fosse —, a verdadeira liberdade, nessa vida e na outra. 

O que escolher? As vantagens temporais, no aqui e no agora? A vida eterna? Sofria, nesse dilema, ora trabalhando em favor de um, ora de outro, ou ficando inerte, sem tomar partido. Contudo, as marés da vida não suportam indecisões prolongadas, e sempre chega o momento em que se há de definir qual estrada seguir. Quando chegou sua hora de escolher, ela escolheu o  improvável. O Caminho mais difícil. 

Maybelline Oceahn não tomou banho, nem trocou de roupa. Pegou a bolsa e saiu, o GPS ligado, para encontrar a loja Le Gnome Grognon, o gnomo resmungão, e tentar falar com a dona, Mlle. Sleigh Beggey, a Fada Branca — e, embora seu nome significasse, em gaulês, ‘a amiga carinhosa”, era conhecida por sua rabugice e má vontade. Precisava convencê-la a lhe dizer como encontrar Eoland, a Tímida, e comprar o material necessário. Talvez conseguisse alguns encantamentos também. Nem que fosse para acalmar seu medo. Sim, porque Maybelline Oceahn, por experiente que fosse, estava com medo. 

Comprou uma maçã e um cacho de uvas. A maçã, comeu-a enquanto caminhava. As uvas, guardou-as para oferecer à Mlle., sendo essa a senha de apresentação. A refeição que tanto ansiava, o descanso que tanto precisava, ficariam para depois.   

Era uma feiticeira, sim, e estava ali para impedir um assassinato. E daria tudo de si, até a si mesma, para cumprir sua Missão.

Continua dia 6 de novembro



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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS II >> Analu Faria

"Eu precisava de ficar pregado nas coisas vegetalmente e achar o que não procurava." (Manoel de Barros)

Estudar na Escola Estadual Messias Pedreiro era um saco. Eu vinha de uma escola particular, onde, apesar de não sermos tratados como minideuses como se vê em muitas instituições privadas por aí, tínhamos certa liberdade e voz. No Messias, a gente só tinha direito de obedecer. Não podia usar boné (não que eu usasse, mas eu achava a regra estúpida), não podia ser vista pelos corredores (sempre tinha uma supervisora chata para te perguntar o que você estava fazendo fora de sala de aula), tinha que ir para a educação física fora do horário da aula (eu acabei arranjando uma justificativa para não fazer). Tinha também que apresentar uma espécie de carteirinha que comprovava presença. Na escola particular, não tinha isso.

Estudar na Escola Estadual Messias Pedreiro foi uma bênção.

No último feriado, viajei para a cidade onde morei quase toda a vida — Uberlândia —, onde fica “O Messias”, como todo mundo chama a escola. Fui com o coração pesado, por uma série de problemas que  tive um pouco antes. Ao embarcar em Brasília, pedi a Deus por um milagre. Um que mudasse minha vida, e que acontecesse naqueles dias de folga, porque a coisa era pra já.

Desde que esses problemas me incomodavam, eu não rezava, porque foi justamente no último dia em que havia rezado, agradecendo a Deus por x e y, que a vida colocou no meu colo umas bombas que atingiam justamente o x e o y. Resolvi que só rezaria se fosse extremamente necessário. E era. Eu estava mais perdida que cego em tiroteio.

No fim do último dia de viagem, ainda nada de extraordinário. Por volta das 18h, chegaram Adriana, Telma e Flávia. Adriana com a família toda, incluindo a Melissa, a filha mais nova, uma menina de cinco anos, que me trollou no mais alto nível. Eu nunca disse, mas a inteligência da Melissa me lembra muito a da mãe. Telma veio sozinha, mas pelo menos veio! Da última vez que fui a Uberlândia, não tive a oportunidade de vê-la. Fez falta não conversar com alguém que parece sempre ter uma resposta — ou pergunta! — sábia para quase tudo. Flávia veio com o marido e as histórias que sempre me fazem rir — geralmente incluem o amor contraditório dela, uma mulher delicada, por coisas como caratê ou caminhões-betoneira.

Dessa vez a Adriana comandou a comida. Fez um churrasco de primeira, dizem os comedores de carne. Meu queijo e meu pão de alho estavam ótimos. Na maior parte do tempo, os homens ficaram conversando com meu pai, que adora a visita deles. Na maior parte do tempo, nós mulheres ficamos juntas, conversando sobre como a vida era há 20 anos, o que mudou, o que melhorou, o que ficou, o que piorou, quem se casou, fulano se tornou advogado, o outro se recuperou de um derrame, meu Deus, minha memória tá péssima, você lembra da fulana? E a Luciana, que não vemos mais? Ela não mudou de cidade? Você lembra da nossa primeira sala no Messias? Ficava atrás da cantina, era pequena, era horrível, eu lembro: o 1º G!

Às 22h todas haviam ido embora. Afinal, todas têm filhos e no dia seguinte era Dia das Crianças. Fui dormir por volta das 23h, com o coração leve e a cabeça mais fresca. Carregava comigo a bagagem que pensava não ter. Tinha um sentimento longe de ser mais que um nó de desejos inúteis. Nenhum milagre aconteceu. Nada mudou minha vida, naquele feriado.

Nada precisava mudar.




“O Lema Olímpico Citius, Altius, Fortius, que em latim significa "mais rápido, mais alto, mais forte", foi proposto pelo Barão Pierre de Coubertin quando da criação do Comitê Olímpico Internacional em 1894.” (Fonte: Wikipedia)


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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

FACILIDADE NÃO É BANALIDADE >> Carla Dias >>


Nasceu no anteontem de um ano pelo qual nenhum calendário se interessa. Seu registro geral já foi esquecido em bancos de dados que não são mais acessados. Suas habilidades profissionais tiveram de mudar conforme o mundo se transformava, mas ainda se lembra de quando a simplicidade presente era o desafio no passado.

Particularmente, ele não compreende certas facilidades.

Facilidades já comprometem seu interesse pelo mundo. Não compreende — ou deseja se valer de — ferramentas e investidas para facilitar o que deveria ser do jeito que tem de ser, aquilo que exige que a jornada seja trilhada do começo ao fim. Esse tipo de facilidade abriu alas a todo tipo de facilitador. Assim, surgiram figuras como traficantes de diplomas que certificam que completos idiotas exerçam profissões fundamentais como a de médico.

Vai ao botequim para uma dose que seja do que for. Não quer conversa, que anda nostálgico a respeito de um de seus muitos amores. Porém, senta-se ao seu lado um homem que se apresenta não pelo nome, mas pela profissão: sou médico. Um médico falante, o que fica mais evidente a cada garrafa de cerveja. Então, o médico lhe conta que, na verdade, ele é esteticista, mas cirurgia plástica estava em alta, e eu precisava de dinheiro, então... 

Então ele estudou medicina pela internet e comprou seu diploma. Deu-se bem, durante anos, mantendo uma clínica que parcelava cirurgias em muitas vezes, em cartão de crédito e cheque. Contou-lhe sobre como sua carreira como cirurgião plástico chegou ao fim.

Pelo jeito, apaixonar-se por uma paciente — e ele o fez logo na segunda consulta — não é nada indicado para quem deseja manter-se ativo em profissão surrupiada. Casou-se com ela, após lhe conceder seios firmes, que ele já sonhava em arrebanhá-los com as mãos, ainda quando eles não eram tão vigorosos, já na primeira consulta dela. Mas nem pense que ele próprio fez o serviço. Temendo errar a mão, e justo no serviço feito na sua amada, delegou a função a um cirurgião de verdade. Além do mais, queria que o serviço ficasse impecável, para que pudesse desfrutar do resultado.

Divorciaram-se alguns anos depois, em meio a uma batalha judicial que lhe custou os tubos, que o deixou sem dinheiro bom de médico que não é médico e que aceita cartão de crédito e cheque pré-datado.

Obviamente, ele conta sobre a série de processos que vem sofrendo, mas sem detalhes. Não tem mais clientes/pacientes/inocentes, porque sua incompetência foi parar nos jornais. Alegou que estava sofrendo por amor, por isso cometeu tantos erros. A culpa é do amor... Do amor... Apesar do repúdio público, mantém em seu consultório — um deserto – o diploma pendurado na parede. Não tem ideia de quando — e se — será preso.

Nascido há tanto tempo, tarimbado quando se trata da indecência existencial que perscruta parte da humanidade, ele bebe um gole de sua bebida, agindo como se pouco lhe importasse a situação do médico de mentirinha. Na verdade, dentro dele pulsam mil palavrões que adoraria verbalizar para esse incompetente ser humano, que ainda consegue se lamentar como se tivesse sofrido um golpe do destino. Como se a facilidade assumida por ele não tivesse custado o sonho e a saúde dos mais de duzentos processos que lhe cabem.

A facilidade pode ser tacanha e cruel. Nunca foi adepto das criadas em benefício de um único grupo de pessoas, ou de uma delas. Ele nasceu há tanto tempo, já assistiu a cada cena de vida, calou-se diante de crueldades cometidas com assustadora naturalidade... Como? Ele se pergunta frequentemente, sem obter uma resposta que lhe satisfaça a pergunta.

Como mantemos a vida com hálito de desejo pelo melhor, diante do esquecimento do que é justo, das regras maleáveis que reescrevem, diariamente, o destino das pessoas? Como sobrevivemos aos que se valem de determinadas facilidades para alcançar realizações que ameaçam a vida do outro? Como sobrevivemos a nós mesmos?

Para alguém que já passou por tanto, ele sabe que se trata de pouco-caso. Bebe seu último gole e abandona o médico fajuto com seu lamento sobre como a vida lhe tratou mal. Volta para casa, para seu calmante de efeito rápido, para os livros empilhados pelos cômodos, para seu gato Nick Cave que canta seu miado quando ele chega.

Não consegue deixar de lado as histórias contadas pelo pseudomédico. De hoje em diante, e sabe-se lá até quando, repetirá cada uma delas a si mesmo. Apaga as luzes, senta-se em sua poltrona preferida, fecha os olhos e Nick Cave pula em seu colo. Nasceu há tanto tempo e não vê a hora de terminar sua jornada. Não vê a hora de abraçar o esquecimento.

Imagem © Róbert Berény

carladias.com

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terça-feira, 20 de outubro de 2015

ME SENTINDO CONFUSA >> Clara Braga

Outro dia estava ouvindo rádio a caminho do trabalho e, durante um programa de entrevistas e notícias, os participantes começaram a discutir sobra a situação política e econômica do Brasil na atualidade. Falavam sobre o quão envergonhados eles se sentiam ao observar que a prisão só existe para os pobres e o quão triste é o fato de nenhum político ser condenado da forma como deveria diante de tamanha roubalheira. 

Todos os participantes comentavam a situação com uma certa revolta e concordavam com o fato de que a lei deve valer para todos da mesma forma, ninguém deve ter regalias, seja lá quem for e seja lá o que essa pessoa tenha feito.

Logo após a discussão sobre política, uma nova notícia muda o rumo do debate. Um detento estuda por conta própria, termina os ensinos fundamental e médio e é aprovado em cinco cursos pelo Enem. Seu pedido de saída para estudar foi negado, uma vez que, pela lei, um preso reincidente em regime semiaberto tem que cumprir um quarto da pena para ter direito a saídas temporárias e o detento em questão ainda tem mais dois anos pela frente para alcançar um quarto de sua pena de 72 anos.

A partir daí as opiniões não eram mais unânimes, mas teve muita gente defendendo o detento e dizendo que, afinal, sempre repetimos o discurso sobre o quão importante é ressocializar o preso para que ele não cometa mais crimes e seja aceito pela sociedade quando terminar de cumprir sua pena.

Confesso que nunca ouvi uma discussão que tenha me deixado tão confusa. Isso aconteceu já tem uns dias, mas até agora me pego pensando no caso e tento definir uma opinião, mas não consigo. Para mim soa contraditório uma hora pedir que a lei seja cumprida de forma mais rigorosa e igualitária, e no minuto seguinte buscar uma brecha para livrar o cara que também, por algum motivo, foi considerado perigoso para a sociedade. 

Afinal, queremos ou não que a lei seja aplicada e cumprida por todos de forma igualitária? Dar a chance do detento estudar é descumprir a lei ou contribuir com o crescimento de uma pessoa que está tentando ser melhor na vida? Não tenho respostas, por enquanto só perguntas que parecem aumentar a cada hora que passa.


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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Ó RAIOS! (Segunda Parte) >> Albir José Inácio da Silva

PRIMEIRA PARTE

Seu Manuel resmungava, mas nada podia fazer, ela estava na rua e a rua é pública. À noitinha distribuía gratuitamente as flores que não vendia, e era nesse momento que o quitandeiro mais se revoltava.

O reumatismo era apenas uma das manifestações da velhice que finalmente descera sem pena sobre Dona Rosa. Na segunda de manhã ela mandou chamar o Pício. Quando ele chegou, o caixote de flores já o aguardava.

— Uma é dois, três é cinco e cinco por dez.

Seu Manuel não subiu nas tamancas parque já estava nelas, mas tamanqueou o chão enquanto esbravejava:

— Agora melhorou! Tenho também de trabalhar para os outros! E ainda por cima é maluca essa velha. Onde já se viu três por cinco e cinco por dez?

Resmungou o dia todo, mas vendeu algumas flores, fez as contas e mandou entregar o dinheiro. Mandou também, de volta, as flores que restaram.

Caduquice ou não, a verdade é que Dona Rosa recebeu o dinheiro e esculhambou o Pício por causa das sobras.

— Ó imprestável, que é que eu vou fazer com estas flores? Não sabes tu, e não sabe a besta do teu patrão, que deves distribuir as flores que sobraram?

Voltou o Pício com as flores, distribuindo algumas já pelo caminho. O quitandeiro esperneou e vociferou que a velha estava-lhe saindo melhor que a encomenda. Quando, no dia seguinte, Pício confirmou a distribuição, Dona Rosa quis saber:

— Aprendeste tu ou aprendeu o paquiderme do teu patrão?

O caixeiro, para evitar os maus bofes de ambos, cumpria a rotina sem comentar com um e outro os azedos comentários que ouvia. Dona Rosa despachava as flores, recebia o dinheiro e, uma vez por semana, entregava uma lista de compras.

A saúde piorou e Dona Rosa não conseguiu mais limpar o jardim e colher as flores.  Pício chegou de manhã e ela continuou deitada. Ele percebeu então que o mato tomava conta do jardim e os botões estavam sufocados pelo capim e ressequidos pela falta de água.

— Seu Manuel, acho que não vai mais ter flores não – disse o Pício quando voltou.

— Melhor! Um aborrecimento a menos!

Mas durante todo o dia encheram-lhe o saco perguntando por flores. Não se lembrava dessa procura toda. E a coisa piorou no final do dia, com as caçadoras de brindes florais. Mesmo quando não vinha nem mandava flores, a velha dava trabalho.


(Continua em 2 de novembro)


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domingo, 18 de outubro de 2015

SANTO ANÓFERO E OUTROS TANTOS
>>Eduardo Loureiro Jr.

Não bastasse fazer o milagre, o santo ainda tem que adivinhar se quem está sendo chamado é mesmo ele...

Esses dias, tive acesso a uns bilhetinhos de fiéis de Santo Onofre. Uns o chamam de Santo Nofre. Outros de Anofe ou Anofi. Há aqueles, talvez os mais chegados, que o chamam carinhosamente de "Nofe". E aqueles outros que, talvez querendo demonstrar algum tipo de erudição, chamam o santo de Anófito ou Anófero. Tem quem confunda as consoantes dentolabiais e chame o pobre Onofre de Santo Onove ou, pra simplificar, Santonove.

Talvez, entre os muitos atributos da santidade, como os de fazer milagres e aparecer em mais de um lugar ao mesmo tempo, exista também um poder especial para saber que se está sendo chamado não pelo que está dito ou escrito, mas pelo pensamento mesmo do fiel.

De todo modo, não seria de se estranhar se o santo em questão, nosso Santo Onofre, negasse o favor do milagre a quem o chama de Santa Antrofe (veja bem, no feminino) ou Santa Antonofre. A não ser que os santos também tenham transcendido essa questão de gênero.

Se o santo atende o pedido torto, não sei. Só sei que está demorando muito para acontecer no Brasil o milagre da completa alfabetização.

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sábado, 17 de outubro de 2015

SEM TÍTULO >> Cristiana Moura

Noutro dia, caminhava no shopping olhando pro tempo e para as pessoas. Smartphones, olhares baixos e várias indivíduos no mesmo espaço, provavelmente conversando com quem não estava lá.
Já não vejo grupos. Vejo aglomerados de pessoas que não se vêem.

Puxar conversa com quem está ao lado é memória guardada no corpo de quem falava com estranhos. Num estranho parece, agora, morar o medo. Parece habitar um estranhamento que, ao invés de instigar, afasta.

Mas e daí? Temos tantas possibilidades de comunicação! Tablets, smartphones, entre outros, nos conectando em redes sociais e tudo o mais. Nada contra a tecnologia, gosto dela. Mas as cabeças estão desalinhadas das colunas, olhando para baixo, enquanto os dedos acariciam as telas. Por vezes, os espaços parecem-me apenas corredores a serem atravessados por corpos desabitados.

Leio a crônica até aqui e parece-me que ainda falta texto a ser escrito. É, faltam-me olhares.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

EX-PROFESSOR >> Paulo Meireles Barguil



"A palavra é de prata.
O silêncio é de ouro."
 Provérbio Chinês

"Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus:
[...] tempo para calar, e tempo para falar."
Eclesiastes 3, 1.7b

"São precisos dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar."
Ernest Hemingway 

Professar ou não professar?

Há alguns meses, ele vinha sendo palco de uma feroz batalha interna.

Etimologicamente, professor é aquele que divulga verdades, crenças, certezas, na intenção de influir na vida dos ouvintes.

A sua trajetória pessoal, incluindo a acadêmica, lhe indicava, cada vez mais, a impossibilidade de cumprir esse mister, ainda mais utilizando palavras...

Na maioria das vezes, o máximo que conseguia fazer, quando percebia alguma acolhida, era partilhar o que tinha aprendido, pois avaliava ser insano distribuir as suas dúvidas.

Professor ou ex-professor?
Vivia como um agente duplo, que brinca de se esconder, sem ter o prazer de se sentir em casa.

Talvez por isso, escolhesse, com frequência, o silêncio.


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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

QUANDO DIZER NÃO É DIZER SIM >> Mariana Scherma

Bem no dia em que eu disse não a um estresse a mais, eu disse sim pra minha paz de espírito. Eu fui dormir na dúvida ai-será-que-eu-deveria-ter-feito-isso e acordei na certeza do que-bom-que-eu-fiz-isso. Sou contra atitudes impulsivas e, na maioria das vezes, de tanto pensar eu deixo a ação pra lá. Penso, logo desisto. Dessa vez foi diferente. O meu não acabou sendo um baita sim!

Não dá pra dizer não pra tudo o que nos irrita. Probleminhas do trabalho podem ser engolidos, digeridos e os restos deixados no trabalho mesmo. Relacionamentos de qualquer espécie também têm seus dias de entressafra. E como a gente não é uma ilha, precisamos da convivência, das pessoas, de suas esquisitices às vezes. Mas também precisamos distinguir o que pode ser abandonado e o que deve ser digerido.

Hoje eu entendi que alguns abandonos não são fraqueza. É ser fraco abandonar algo que várias pessoas estão de olho porque não lhe faz bem? Pra mim isso é mais força que qualquer coisa. Ter coragem de dizer não é mais puxado do que sair dizendo sim pra tudo. Ninguém melhor que nossa consciência pode escolher e, na hora do desespero, a saída mais óbvia é que grita mais pra ser escolhida.

Dizer não pra um pouco a mais de dinheiro é dizer sim pra mais sossego, mas também é dizer não pra uma roupa nova ou um eletrônico diferente. Mas de que adianta ter tanta coisa se falta tempo pra usar tudo? Hoje eu superei o medo de dizer não e vou dizer sim pra um pouquinho de folga. Mas só um pouquinho porque ainda não ganhei na Mega-Sena.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

UM SUBSTITUTO >> Carla Dias >>


Conheçam Graciliano.

Quer dizer, vocês podem tentar. E até que, para alguém que não quer conhecer pessoas, ele conhece muita gente.

Dizem que ele tem talento para atrair clientes para a birosca na qual trabalha. Ele alega que não se esforça, e que adora quando o lugar fica às moscas. Ele gosta do silêncio. Não é sempre que uma birosca tem no seu quadro de funcionários um tão qualificado. Veja, ele sabe conjugar verbos, e eles cabem bonito nas frases. Até parece música.

Desde que as escolas foram fechadas, uma geração inteira de pessoinhas sem escola nasceu. Elas aprenderam o que havia para ser aprendido, apenas o suficiente para sobreviverem em um mundo que se calou por não saber dizer o pensamento. Sendo assim, calar-se é necessário.

Por isso é fácil entender o desejo pungente de Graciliano pelo silêncio. Melhor mesmo é não escutar o que as pessoas até tentam, mas não sabem dizer.

Ele foi filho de dono de faculdade, por isso é cultuado na comunidade dos sem escola.  As pessoas o tratam feito professor, e o cansam de tanto debruçarem no balcão da bodega e pedirem que ele os ensine um algo que seja. Graciliano é bom com os verbos, mas nunca foi estudante dedicado. Essa busca da população pela sua sabedoria, ele acha que é sem pé nem cabeça.

Ele é nada, foi um moleque que teve a oportunidade de frequentar as salas de aula e a desperdiçou, porque imaginar um mundo no qual escolas são fechadas era exagero, até mesmo para ele, que cultuou o comportamento derrotista somente para desmoralizar os pais. Os mesmos pais que o abandonaram de vez quando ter pessoas sem estudo, ou com desempenho inexpressivo, passou ser antônimo de dignidade.

As escolas foram fechadas, começando pelas pequenas, aquelas que, no ponto de vista dos estatísticos, manteriam as pessoas necessárias na ignorância, para que alguns poucos pudessem reinar soberanos. Afinal de contas, quem não conhece o fato? Um povo ignorante não sabe como exigir seus direitos.

E direitos esse povo não tem. Por isso a fascinação por Graciliano.

O dono da bodega lhe deu guarida, depois de Graciliano ser expulso de casa. O rapaz se fechou completamente, porque jamais imaginara que acabaria assim, no meio dos sem estudo, sem escola. Primeiro, maldisse Deus e o mundo e seus pais e o governo e os colegas da escola e as pessoas todas que ele ainda não conhecia. Com o tempo, compreendeu que era melhor lidar com a realidade, e começou a ajudar o bodegueiro em seu estabelecimento.

Apesar de mal-humorado, inicialmente monossilábico e percussor de certa aversão pelo lidar com o outro, foi moldando-se com o tempo. Depois de fecharem as escolas, fecharam as bibliotecas, os cinemas, os teatros, e por aí foi. Para ter acesso a tudo isso, somente com uma riqueza que possa construir esse ambiente na própria casa de quem desejar o tal tudo isso.

Graciliano, vindo de família abastada, trouxe com ele uma pequena biblioteca, e jamais sairia de casa sem sua coleção de LPs. Ele não estava bem na escola, faltava às aulas, não queria saber de nada, criava confusão, mas isso não significava que ele não queria nem gostava de aprender. Ele aprendeu tudo o que podia nas ruas, nos livros e nos discos. Durante longas conversas, nem sempre pacíficas.

Enquanto varre a bodega, Graciliano imagina o dia em que, novamente, as pessoas terão direito ao aprendizado, a ampliar seus horizontes. Porém, nunca acreditou que essa exclusão — porque sim, trata-se de uma exclusão — teria a força necessária para zerar a curiosidade das pessoas a respeito do mundo, o externo e o interno. Por isso dá aulas em sua comunidade nos finais de tarde. Tudo misturado, mas ainda assim vale a pena. Responde às perguntas dos curiosos, mesmo quando não sabe a resposta, faz com que eles pensem qual poderia ser.

Graciliano tem talento para atrair clientes para a birosca. Eles querem aprender a conjugar verbos e a expressar em palavras seus desejos, buscas e sentimentos.


Trecho do filme O SUBSTITUTO (Detachment/2011)


Imagem: Lunch Hour © Joseph Hirsch



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terça-feira, 13 de outubro de 2015

A CONTA, POR FAVOR >> Clara Braga

Noventa por cento dos brasileiros tem o hábito ou mania de ouvir a conversa dos outros. Não, minha afirmação não é baseada em algum estudo sério, até porque estudiosos sérios não perderiam tempo com esse tipo de pesquisa (ou perderiam?). Minha afirmação é puramente baseada na observação. É claro que se você perguntar para as pessoas se elas fazem isso, o número diminui consideravelmente, já que essa prática é considerada feia e as pessoas não têm coragem de assumir que fazem, mas a verdade é que a grande maioria presta atenção na conversa dos outros, e as vezes nem é por querer.

Bom, mas se esse hábito é comum ou não, correto ou não, não vem ao caso no momento. O que importa é que ele rende boas histórias. A que vou relatar hoje nem aconteceu comigo, mas essa não é uma forma de me esquivar e dizer que eu não presto atenção na conversa alheia, eu presto, só não tive a sorte, ou o azar, de presenciar o caso que vou relatar agora. Desculpem-me se estou demorando para ir direto ao assunto, mas preciso dizer que também não vou contar quem foi que ouviu a história, afinal dedurar o hábito dos outros eu já acho sacanagem, mas só acreditei que o caso de fato aconteceu pois confio muito na pessoa que contou.

A história começa quando a pessoa que eu não vou contar quem é foi jantar com a namorada e observou em uma mesa próxima uma mulher estranha. A mulher comia uma sobremesa sozinha, estava um pouco mal arrumada, nenhuma expressão muito feliz. Por algum motivo isso chamou a atenção e a pessoa ficou observando essa mulher, quase com pena dela. Não por ela estar sozinha, mas pela forma como ela estava sozinha. Passado um tempo, a mulher pede a conta e então começa uma pequena confusão. A distância não permitiu que a pessoa ouvisse exatamente o que estava sendo dito, mas aparentemente a mulher não estava conseguindo pagar a conta. Até aí tudo bem, atire a primeira pedra quem nunca ficou refém dessas máquinas de cartão que às vezes decidem ficar sem sinal. Ou refém do banco que saiu do ar. Mais um tempo de discussão e a mulher finalmente vai embora, mas a sensação é de que a história não foi totalmente resolvida.

Passado um tempo, a pessoa também termina seu jantar e pede a conta. Para a sorte do seu lado curioso, o garçom era fofoqueiro e foi logo falando:

— Vocês viram a mulher que estava sentada na mesa aqui próxima de vocês?
— Sim, vimos!
— Vocês não vão acreditar, ela pediu a conta mas teve problemas para passar o cartão, por algum motivo a operação não estava finalizando. Ela mostrou o prédio aqui atrás do restaurante e disse que morava lá, que deixaria a identidade com a gente e iria rapidamente em casa buscar o outro cartão. Peguei a identidade dela e deixei que saísse. Quando fui olhar melhor, percebi que a identidade era falsa!

Inacreditável! É impressionante como a gente nunca imagina que essas coisas vão acontecer tão perto da gente. A pessoa que eu não vou falar quem é, durante o episódio, havia olhado para a mulher e quase ficou com pena dela! Mas muito provavelmente até esse olhar de gato de botas do Shrek estava perfeitamente ensaiado para que ninguém desconfiasse dela na hora de passar o cartão!

O restaurante não era tão caro, a mulher não jantou, apenas comeu uma sobremesa! Vamos exagerar muito e dizer que a conta dela em um restaurante não tão caro, com uma sobremesa, uma bebida e os 10% tenha dado 40 reais. Em tempos de crise, claro, nem todo mundo tem esse dinheiro no final do mês para dar em uma sobremesa, mas dar um golpe desses?

Não gosto de julgar, mas no mínimo é o tipo de pessoa que diz que já paga imposto, já paga conta alta, já tem que lidar com o fato do governo roubar o dinheiro dela, então ela está apenas arrumando uma forma de adquirir o dinheiro dela de volta. E assim vamos nós, vivendo e cometendo “pequenos” atos corruptos, e depois reclamamos do país onde vivemos. O mais absurdo nem é isso, o que mais me revolta nisso tudo é que, no final das contas, nós ainda temos que levantar as mãos para o céu e agradecer. Sim, agradecer e muito, pois, do jeito que as pessoas andam, esse tipo de golpe está fora de moda, o normal agora é sacar uma arma e matar todo mundo logo de uma vez.


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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

TRUQUES >> André Ferrer

Ernest Hemingway - escritor
norte-americano (1899-1961)
Em vários textos, ao longo da sua obra, Ernest Hemingway cita a arte da pintura. Nenhum desses momentos, entretanto, é mais eloquente a respeito das suas reais intenções ao mencionar a pintura do que em um trecho do conto Escrever. Aliás, uma das suas histórias menos conhecidas.

Em Paris é uma festa, Hemingway fala de alguns dos vários pintores que conheceu e, com a propriedade de quem viveu na Cidade Luz dos anos de 1920, relaciona as soluções encontradas por aqueles artistas à sua própria arte, a escrita. Trata-se de um livro de memórias. Nele, o autor relata os anos em que vivera na França e era apenas um repórter norte-americano que aspirava, um dia, tornar-se escritor. Paris é uma festa foi escrito na década de 1950 e só foi publicado após a morte do autor.

Se neste livro Hemingway gasta várias linhas com a tentativa de demonstrar o quanto um escritor pode aprender com a pintura, no conto Escrever ele atinge o objetivo com maestria. Sabe-se, claramente, que o autor valorizava a personalidade como o único caminho para a inovação. Em nenhum outro texto, no entanto, a experiência pessoal é tida em tão alto grau de importância em relação ao ofício da escrita.

Por exemplo, já no meio da pescaria (sim, o conto é sobre pescaria), fica-se conhecendo os pensamentos do protagonista, Nick Adams.

Este, mediante um discurso indireto livre, afirma que James Joyce sabia como Cézanne pintaria aquela extensão de rio. E o pescador escritor lamenta: “Meu Deus, se ele estivesse aqui para pintar. Eles morreram e isto foi mesmo o diabo. Trabalharam durante a vida inteira e ficaram velhos e morreram.”

“Nick, vendo como Cézanne faria a extensão do rio e o pântano, levantou-se e entrou na corrente. A água estava fria e verdadeira.” Exato: uma sensação, a temperatura, que é um argumento de autoridade capaz de sustentar uma proposição verdadeira. Ora, mais Hemingway do que isso não existe.

Papa gostava tanto de pintura (ou da relação entre pintura e escrita), que Thomas Hudson – é claro, mais um dos seus alter egos – não é escritor, mas pintor. Hudson é o protagonista do romance As ilhas da corrente, também uma edição póstuma.

No conto Escrever, que integra o volume The Nick Adams stories (As aventuras de Nick Adams), lê-se ainda: ele (Nick Adams ou, de novo, o próprio Hemingway) “queria escrever como Cézanne pintava.”

“Cézanne começara usando todos os truques. Em seguida, destruiu a coisa toda e construiu a coisa verdadeira.”

Com algum conhecimento de História, detectam-se pistas daquela grande ruptura nas artes, a emergência das vanguardas, enquanto a Belle Époque agonizava. Aquém disso, Hemingway aponta para aquela que constitui a maior obrigação de todo bom artista: o esforço de imprimir a sua personalidade na obra. Sob a pena de ser medíocre, o artista deve substituir velhos truques por novos truques. Seus próprios truques.



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domingo, 11 de outubro de 2015

TÁTICAS PARA UMA NEGOCIAÇÃO EFICAZ,
CASO O INIMIGO SEJA INEXPERIENTE
>> Whisner Fraga

1. Defender a existência de um acordo prévio

Objetivos: Deixar o oponente com medo, colocando-se mais importante do que realmente é. Simular e defender a existência de um pacto, muitas vezes tácito, para explorar os prejuízos que uma possível quebra desse compromisso pode causar ao interlocutor.

Efeitos esperados no adversário: Medo, insegurança, vergonha.

Exemplo de frase: Se você quer romper o acordo agora, por mim tudo bem, pois é evidente que você não precisa do meu apoio.

Antídoto: Concorde com o rival e rompa com qualquer tipo de negociação, deixando claro que esse tipo de atitude, baseada na chantagem e na provocação, não será tolerada.


2. Concluir que o adversário o humilhou, baseando-se em premissas falsas

Objetivos: Fazer com que o oponente pareça ter transgredido uma regra básica da convivência, deixando-o com a impressão de ser mal-educado. Infantilizar as ações do oponente, deixando transparecer que ele não é digno daquele diálogo, daquela negociação, com um adulto. Crianças devem ficar em casa, brincando, e não tratando de algo sério.

Efeitos esperados no adversário: Sentimento de inferioridade, insegurança, demérito, constrangimento.

Exemplo de frase: Assim, você está me chamando de moleque e sou eu que não quero conversar com uma pessoa que tem essa atitude infantil.

Antídoto: Concorde calmamente com o rival que vocês são realmente duas crianças que estão brigando por um pirulito e encerre a reunião, dizendo que, assim que crescerem, retomarão as negociações.


3. Criar um fato baseado na inexistência de documentos

Objetivos: Defender que o adversário disse algo em algum momento e ele se baseou nestas supostas declarações para tomar suas decisões.

Efeitos esperados no adversário: Dúvida, insegurança.

Exemplo de frase: Não foi isso que você disse aquela vez.

Antídoto: Qualquer reunião de tomada de decisões deve ser documentada com atas, assinadas por todos. Deixar claro que toda negociação com aquela pessoa será acompanhada de um relato, assinado por todos, com testemunhas e com firma reconhecida em cartório.



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sábado, 10 de outubro de 2015

DE UNS ANOS PRA CÁ, PASSEI A CHORAR
>> Sergio Geia




O ditado popular diz que homem não chora. Bom. Ou o ditado popular está errado ou o homem que vive em mim está a me abandonar. De repente, meu lado feminino está a expulsar a parte macha. De repente, o Pepeu vacilou e ser um homem feminino fere sim o lado masculino. Não só fere como o expulsa, sem eira nem beira. De repente, a sensibilidade é característica exclusiva do elemento feminino, e ser sensível a ponto de verter um rio de lágrimas por qualquer bobeirinha revela que esse elemento mostra-se acentuadamente presente num corpo que, pelas características, é corpo de macho. Questões ligadas à identidade de gênero? Talvez não, talvez se trate mesmo é de corpo de macho com alma de fêmea.

O que me tranquiliza é que não é nada disso. Que errado é o ditado, que nasceu revestido de preconceitos, fruto de uma sociedade conservadora e patriarcal, que vai demorar muitos anos pra se tornar uma sociedade mais humana, especialmente por ter demorado séculos pra descobrir que não só a beleza e a graça, mas também a sensibilidade e outras características existentes no homem — com a diferença que essas características coexistem com um pouco mais de arrojo — estão presentes no elemento feminino.

O fato é que, de uns anos pra cá, dei pra chorar quando alguma coisa me toca. E pode ser qualquer coisa, até a morte de um cão. A primeira vez que percebi essa minha nova condição foi numa apresentação de balé da minha filha. Eu me esforcei para segurar as nuvens que brotaram nos meus olhos não só na hora da apresentação dela, mas também nas outras apresentações. Algo medonho e molhado. Às vezes, assistindo a uma novela ou a um filme, ou mesmo a um show, sei lá, a doença do filho de uma amiga, a morte da mãe de alguém.

Estava lendo a Martha Medeiros outro dia, e corri atrás de dois filmes que ela citava na crônica “O sentido da vida”. São eles: “O declínio do império americano” e “Invasões bárbaras”. São filmes antigos, produções franco-canadenses; assina o roteiro e a direção o canadense Denys Arcand; um, o declínio, de 1986; o outro, as invasões, de 2003. Um é continuação do outro. Parece que tem ainda uma continuação de “Invasões bárbaras”, que seria “A era da inocência”, mas a esse não assisti. São dois grandes filmes que merecem ser vistos, sem dúvida nenhuma.

No primeiro, um grupo de intelectuais, professores universitários, acompanhados de suas mulheres e amigas (tem casados, solteiros, gay), se reúne para um jantar numa casa à beira de um lago e conversam sobre temas dos mais variados, tais como moral, filosofia, liberação sexual, política, valor da intelectualidade, liberdade, dentre outros.

Mas foi no segundo que me desmanchei como maionese desandada. Esse mesmo grupo volta a se reunir quase 20 anos depois, em razão da doença terminal de um deles. O filme, além do drama, expõe o embate entre duas visões de mundo, a libertária e a pragmática. É inteligente, sutil, sarcástico e tragicômico, e explora questões que estão na cabeça de qualquer um. Quer uma delas? O que dá sentido à vida? A Martha é genial na sua crônica sobre isso.

O fato é que numa parte do filme a enfermeira diz para o filho do personagem marcado para morrer (pai e filho não se dão muito bem) pra ele não deixar de tocar o seu pai e dizer que o ama. E o arrependimento por não ter feito uma coisa tão singela me sacudiu no sofá e me encharcou; mesmo a assistir à morte engolindo o meu dia a dia, mesmo assim não fui capaz de sair da inação, de acender uma luzinha — ô acorda! —, de chegar à sua casa e dizer algo tão verdadeiro, segurando a sua cabeça diminuída e vazia de cabelos junto à minha: “eu te amo, pô!”


Ilustração: Andre Ermolaev

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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

UMA NOITE >> Zoraya Cesar


A sopa estava quente e condimentada, o caldo engrossado pelas carnes do coelho que conseguiram arranjar pelo caminho. Estivesse a comida ruim, ainda assim não lhe perceberiam o gosto, tal a perturbação que se apoderara de suas almas. Comeram em silêncio, cansados e tensos, alerta a qualquer barulho estranho, perscrutando os sons trazidos pelo vento. 

Os batedores voltaram, apagando os rastros deixados pelo pequeno contingente que restara da tribo e que agora fugia, desalentado e furtivo. Sentaram-se, eles também, para comer e descansar, enquanto os outros ajeitavam o acampamento improvisado por entre as pedras e o mato. Quando a primeira estrela apareceu, foi a vez de os vigias se levantarem. 

Calma e resolutamente, os quatro homens se encaminharam para a costa, deixando para trás a tribo, que dormia depois de um dia de fuga, de mortes, de perdas. O ataque à aldeia tinha sido tão feroz, que só mesmo pela proteção de Sucellos, Senhor da Vida e da Morte, eles conseguiram escapar. Malditos romanos, pareciam possuídos pelo próprio Marte, o Cruel, astutos, tinhosos, mortais. Que a Sombria Dama do Mundo Inferior os levasse!

A noite estava úmida, e gotas geladas de mar respingavam em seus corpos, levadas pela aragem fresca que lhes arrepiava a pele. Mas os gauleses eram resistentes ao frio, às intempéries, às desgraças. O medo de serem descobertos e o ódio a seus algozes fazia o sangue ferver e correr mais rápido em suas veias, espantando o sono. E a coragem os mantinha despertos. Alternaram os turnos de observação ao mar, para que os olhos não ficassem cansados e deixassem de perceber qualquer mudança no horizonte, como a aproximação de uma das rápidas e sutis embarcações romanas.

O cão que seguira o pequeno clã por todo o dia uivava, lúgubre e lastimosamente, para a lua amarelenta e baça, que subia por entre nuvens cinza, clareando, ainda que um tanto sinistramente, a paisagem. Belisama veio para acender nossa noite e não nos deixar surpreender, agradeceram os gauleses. 

A vigia prosseguiu, a madrugada também; o frio aumentou, e com ele o cansaço. Para afastar o sono que insistia em dominá-los, os homens simularam combates entre si e ofereceram silenciosos cânticos sagrados ao deuses da guerra e da abundância.

Um vento gelado e brumoso tomou conta da noite, fazendo-a mais longa, quase insuportável. O cão deitou-se, ululando de quando em quando, tornando todo o ambiente algo fantasmal. A fome apertava dolorosamente as entranhas dos guarda-costas e o frio os fazia tremer, enrijecendo seus músculos. A exaustão ameaçava vencê-los a qualquer momento. Mas os gauleses não se entregaram à fome, ao frio, ao medo ou à dor.

A lua foi sumindo lentamente, e, antes mesmo de a última estrela apagar-se, finos raios de sol tocaram a espuma do mar. O turno chegara ao fim. Um turno pesado, sofrido, tenso. E o dia que amanhecia não prometia ser muito melhor. O gaulês que passara boa parte da noite em pé, recostado a uma pedra, o mais solerte, o preferido de Teutatis, o deus da guerra, era o chefe do grupo, e cabia-lhe tomar as decisões.Tudo o que ele queria era descansar um pouco, mas sabia que não havia tempo. Cansados, temerosos, sem alimentos ou abrigo decentes, com algumas mulheres e crianças atrasando a fuga, eles deveriam continuar sua jornada, rápidos e invisíveis, até estarem fora do alcance dos romanos. 

O homem acordou de um salto, enregelado, faminto de doer e possuído por um medo irracional do escuro, do desconhecido, da morte. Nesse instante, a janela do quarto abriu, abrupta e violentamente, empurrada pelo vento gelado que bramia do lado de fora.

Era madrugada, e a casa ainda dormia. Ele se levantou e foi direto para o estúdio, sem parar nem mesmo para acender as luzes. Não comeu, não se aqueceu, não falou com ninguém. Apenas entrou na sala e fechou a porta, um sinal inequívoco de que não deveria ser incomodado sob nenhuma circunstância.  

Das primeiras horas da manhã à noite pintou, frenética e ininterruptamente, até conseguir o resultado desejado. Até expulsar seus demônios. Até saber, em seu íntimo, que o homem que ele fora em outra vida estava salvo para sempre.


Les gardes-côtes gaulois

Jean Lecomte du Noüy en 1888
musée d'Orsay, Paris, France


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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS >> Analu Faria

"Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso."
(Manoel de Barros)

Defendo fortemente a simplicidade. Ainda assim, minha visão é turva, turvíssima, para as coisas boas da vida.

Só agora comecei a fazer o que realmente gosto — escrever e estudar texto. Antes eu quis coisas "grandes" — fiz Direito, tentei carreira diplomática — e falhei miseravelmente nas duas (graças a Deus?). "Mexer com Letras" dava pouco prestígio, pagava pouco e não fazia sucesso com a família nas festas de fim de ano. O máximo de felicidade que permiti à minha alma de artista foi me aventurar por Artes Cênicas, mas isso porque se eu fosse muito, muito boa, talvez ganhasse um bom dinheiro e fosse famosa. Escritor é pobre.

Lembro-me com pesar de que, numa festa, rejeitei um gordinho que me fez rir a noite toda, era simpaticíssimo, me deixou à vontade, era absurdamente simples e gente boa. Mas já havia um bonitão que estava me dando bola. Alto, forte, moreno, pinta de bom de cama, o bonitão falou besteira, foi sem graça e beijava mal. MUITO mal.

Digo que não ligo para beleza, mas a primeira coisa que elogio numa amiga, quando a vejo, é o quanto ela está "mais jovem", "mais magra", "mais elegante" etc.

Penso na minha vida sem todos esses esforços inúteis pelo que reluz (ainda que eu diga que o meu empenho vai em direção contrária, eu sei que não faço o que digo). Fico pensando como seria se eu tivesse a coragem de não impressionar, a mim e a aos outros. Penso na vida como se eu fosse um poema do Manoel de Barros.

Ah, Deus, me dá a graça de ser um poema do Manoel de Barros!

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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

NÃO >> Carla Dias >>


Houve uma época em que eu me joguei ao mundo. Trabalhava e estudava durante a semana, fazia aulas de bateria aos sábados e frequentava um clube para dançar aos domingos. Nos raros intervalos entre isso e aquilo, ensaiava com minha banda, visitava amigos e escrevia.

Queria que o dia durasse 48 horas.

Naquela época, eu estava tão ansiosa pelo que viria que vivia tudo em uma velocidade que já não reconheço. Não... Não digo isso pela idade, já que quase trinta anos me separam de lá. Digo isso porque, quando não temos ideia do que desejamos para a vida, pisamos no acelerador e seguimos adiante sem aproveitarmos a paisagem.

Particularmente, adoro uma paisagem.

Então, décadas depois, compreendi o óbvio: o que desejamos para a vida nem sempre é o que receberemos dela, tampouco o que desejaremos para a vida daqui a vinte e quatro horas ou quase trinta anos.

Para mim, a necessidade de compreendermos a maleabilidade do desejo para a vida também cabe ao que desejamos para cada dia, para os desejos cotidianos. Sinto-me incomodada ao ver a quantidade de pessoas agindo como crianças birrentas ao lidar com assuntos que exigem a compreensão de um adulto, somente porque não receberam o que desejavam. Porque não, você não pode ter tudo o que deseja, ainda que bata o pé, berre e alegue – a voz rascante de raiva – que é o cliente, então está certo. Às vezes, não está certo não, cliente. E para o seu próprio bem, para que você receba o que realmente merece e funcionará para você, alguém tem de lhe dizer não.

Às vezes, temos de dizer não a nós mesmos.

Não até mesmo para a rotina que achamos necessária para alcançarmos o desejo de uma vida. Não pode se tornar aquela pausa fundamental para que não cometamos aquele tipo de erro que enreda o outro, que o prejudica. Que nos prejudica, também.

A ansiedade não muda, mas posso dizer que embarco em mais pausas do que corridas. O mundo ao qual me jogo, diariamente, é interno e tem seu mérito. Lá fora eu vou de vez em quando. As saídas para dançar se tornaram danças na sala de estar e, nos intervalos entre isso e aquilo, gosto de receber os amigos para o almoço e uma longa conversa.

De lá para cá, recebi mais nãos do que imaginaria ser possível uma pessoa receber. Obviamente, chegou aquele momento em que me dei conta de que não era comigo... A vida caminha dessa forma. Nãos me escolhem e escolhem aos outros, também. Porém, após um tempo de lamento próprio de quem não ganha realização do desejo que deseja, reformulo, dou uma boa requintada ao meu desejo, às vezes o simplificando um tanto, e sigo em frente.

Decidi, e há muito tempo, que não permitiria me tornar uma adulta birrenta. Adulto birrento perde tempo valioso tentando desabonar a importância do outro. Adulto birrento grita com caixa de supermercado porque cliente tem sempre razão, xinga o motorista do carro que parou no sinal vermelho, atropela bicicleta porque desaprova ciclovias. Adulto birrento mistura as estações e defende o indefensável, e eventualmente se torna violento – emocional e/ou fisicamente –, somente para provar que seu ponto de vista é o que vale. Também é quase que continuamente infeliz com seu desejo constante de mostrar que tem direito ao que não é de direito de ninguém, como desqualificar o outro como ser humano por conta de sua classe social e/ou raça.

Sem contar que hoje me sinto muito bem com o dia e suas 24 horas, mesmo quando parece que ele precisaria ter 48 para que eu pudesse concretizar meus planos.

Imagem © Jason Cheever | freeimages.com

carladias.com



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terça-feira, 6 de outubro de 2015

MUNDO NOTURNO >> Clara Braga

Desculpe, mas não! Eu não acredito que existam pessoas que de fato acordam felizes às seis horas da matina! Tudo bem, até entendo que algumas já se ajustaram a uma rotina, mas isso não faz com que elas fiquem felizes ao acordar. As pessoas precisam aprender de uma vez por todas que existe uma grande diferença entre costume e felicidade.

Não, eu também não compreendo como algumas pessoas conseguem fazer disso um estilo de vida, optam por acordar cedo para fazer o dia render mais ou algo do tipo. Acho que é uma questão de necessidade, de obrigação ou talvez até de loucura, mas opção eu acho difícil de acreditar.

Eu também não sei onde estão, mas sei que existem aquelas pessoas que, enquanto você ainda está desligando a função soneca pela quinta vez, elas já foram ao mercado, pilates, pagaram uma conta e estão tomando banho para ir para o trabalho. E, pasmem, estão sorrindo enquanto tomam um suco verde supersaudável. Bom, a parte do suco verde foi um acréscimo particular. Posso estar errada, mas não sei por que sempre tive a imagem de que as pessoas que acordam supercedo e fingem estar felizes, dando bom dia para o sol e abraçando árvores, são pessoas saudáveis. Realmente não sei explicar de onde vem essa impressão, mas que suco verde é coisa de quem acorda cedo, isso é inegável. Ninguém do time da função soneca tem tempo de coar a couve do suco batido com abacaxi fresco. Essa galera no máximo passa no McDonald's, pega aquele café da manhã que deve ter tanto sódio quanto um cheeseburguer e come enquanto dirige para o trabalho.

Falem mal o quanto quiserem, mas ponto para o McDonald's que pensou nas pessoas com dificuldades diurnas. Ponto também para quem criou o shampoo sem enxague. Só quem tem dificuldade de acordar cedo sabe o quão difícil é olhar para aquela sua colega de trabalho que chegou com os cabelos ainda molhados e lembrar da sua raiz superoleosa. Graças ao shampoo sem enxágue você pode chegar com um cabelo cheiroso e volumoso. Claro, não vai estar molhado, mas pelo menos as pessoas não vão olhar para você e ter certeza de que você não tomou banho.

Aliás, para pessoas noturnas, tomar banho costuma ser uma das últimas atividades do dia. Você faz tudo que tinha que fazer e, tarde da noite, entra no chuveiro com um ar de superioridade e pensa: vou tomar banho agora para ganhar mais 15 minutos de sono amanhã cedo! Como se 06:15 não fosse tão torturante quanto 06:00, mas, qualquer minuto a mais é vantagem.

Como se tudo isso não fosse constrangedor o suficiente, enquanto você está lá, às 08:30 da manhã tentando fazer o seu cérebro convencer o seu corpo de que o dia já começou e você precisa reagir, você descobre que tomar banho não foi a primeira coisa que a sua colega de trabalho fez no dia dela.

Quando você olha para o lado, vê que ela carrega uma malinha que denuncia o fato de que ela já foi para a academia e tomou banho lá! DEPOIS DE MALHAR POR PELO MENOS UMA HORA! Façam as contas, essa mulher acordou com os galos! Depois de acordar, fez o suco verde dela, tomou o pré-treino, treinou, tomou banho e agora balança seu whey protein na sua garrafinha supermoderna enquanto já responde um primeiro e-mail e você apenas repete o seu mantra: ACORDA!

Por um longo tempo tive vergonha de assumir minha inveja/raiva branca dessas pessoas que acordam cedo e fazem o dia ter 32 horas. Mas com a quantidade de estudos que têm surgido mostrando que devemos dormir mais e que estudar quase de madrugada não necessariamente faz bem para o corpo, não tenho mais tanto problema em compartilhar minha dificuldade. Até porque, pode observar, o número de pessoas que assumem estarem esperando ansiosamente por aquele dia em que vão finalmente poder trabalhar no horário que melhor rendem está aumentando consideravelmente. É quase inacreditável, mas ainda acho que vou viver para ver o mundo onde pessoas que acordam depois das 10h não são consideradas desocupadas.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Ó RAIOS! >> Albir José Inácio da Silva

Dona Rosa tinha mais que nome de flor, tinha paixão, a ponto de não permitir que nenhuma flor se despetalasse ou morresse no pé. Se não as vendia, dava-as. Não fazia isso por amor às pessoas, mas às flores.

Tanto assim que não gostava quando lhe pediam:

— Aguarde a sua vez! — dizia de mau humor, mas logo arranjava um jeito de atender ao pedido.

Depois que o marido morreu, Dona Rosa vivia das flores que cultivava no quintal de casa. Era uma venda irregular, às vezes não ganhava nada, mas precisava de pouco e ninguém jamais a ouviu reclamar.

A poucos metros ficava a quitanda de um patrício, um lugar confuso, que talvez desse prejuízo se alguém fizesse as contas. Seu Manuel comia do que havia nas empoeiradas prateleiras e pagava a conta de luz. Nunca pensou que pudesse ser melhor.

Parecendo sair de seu próprio estoque, ele vivia de mau humor e só abria a boca para reclamar do caixeiro, um moleque a quem ele chamava de Estrupício e, diante dos fregueses, de Pício, numa tentativa de amenizar o assédio.

Dona Rosa passava duas vezes por dia em frente ao estabelecimento. Pela manhã saía para vender, empurrando um caixote, oferecia aos passantes, entrava nas lojas e batia palmas nos portões. No final da tarde saía de novo, com as flores que não vendera e que não durariam viçosas até o dia seguinte, distribuindo de graça às moças que encontrava. Como sabemos, não permitia que elas definhassem no pé, ou depois de colhidas.

Seu Manuel não perdoava aquela heresia comercial:

— Ó Dona Rosa, tu és uma rosa ou uma cavalgadura? Se tu dás as flores, quem é que tas vai comprar?

— Cavalgadura não sou eu, Manuel, e também não foi tua mãe, já que nascestes de chocadeira!

Com o reumatismo piorando, Dona Rosa já não podia andar como antes. O que fez então? Um belo dia parou seu caixote em frente à quitanda. Ficou por ali assuntando, vendendo, sentada ou andando de um lado para o outro. Até água pedia ao garoto.

Seu Manuel resmungava, mas nada podia fazer, ela estava na rua e a rua é pública. À noitinha distribuía gratuitamente as flores que não vendia, e era nesse momento que o quitandeiro mais se revoltava.

(Continua em 19 de outubro)

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