quarta-feira, 30 de setembro de 2015

COM OS OUVIDOS NA TOMADA >> Carla Dias >>


Essa minha cabeça é palco. Tudo que me falta, esparrama-se nela. Pensamentos produzem verdadeiros festivais de cinema e música. Já fiz filmes: história com começo, meio e fim e cast dos bons, atores e atrizes brasileiros e estrangeiros, mas estrangeiros de todos os cantos desse mundo. Ricardo Darín e Jean-Huges Anglade que o digam. Quer dizer, não dirão. Eles não sabem de mim e dos meus filmes imaginários.

Os shows que acontecem nesse palco são sortimentos. Há cores, ou tons, ou a tal da pluralidade de estilos. Os shows que acontecem nesse palco permitem jam sessions de fazer meu coração bater mais rápido, em ritmo de samba, funk, rock’n’roll. Nesse clube eu sou VIP.

Quando não há silêncio, e sim barulhos que não me interessam, toco uma playlist de músicas de artistas variados na minha cabeça. Porém, nessa semana tem sido diferente. Apeguei-me ao disco novo de um artista que adoro. Desde então, ele está no repeat.

A primeira vez que escutei Filipe Catto, também foi quando caí de amores por uma música que considero das mais bonitas. Adoração é obra-prima, ao menos para os meus sentidos. Música que tem essa poesia abarcando sua letra. De quebra, essa canção me chegou com belíssima embalagem-interpretação. Filipe é daqueles interpretes que levam o ouvinte a uma verdadeira jornada, a partir de uma canção. Voz de uma lindeza capaz de trafegar pelas emoções contidas em uma música e reverberá-la até emocionar aqueles que são fisgados por ela.



Então, chegou Tomada. Já escutei o disco várias vezes e nele tudo me agrada. Sei que “tudo” parece palavra colocada para qualificar o absoluto, e o absoluto não me interessa. Mais uma vez: não sou crítico musical, escrevo sobre meu gosto, que pode nem ser o seu. Só que escutei o disco várias vezes — e estou escutando o tal neste momento, enquanto escrevo — e nada nele contraria o meu gostar de “tudo”.  Esse tudo cabe bem na minha benquerença musical.

Filipe Catto anda artista presente no meu palco interno. Ele não sai da minha cabeça. Gosto dele, mas de gostar de um jeito, que ele acabou entrando para a lista daquelas pessoas que não conheço, das quais aprecio profundamente a obra e o talento, com as quais adoraria ter uma boa conversa regada a café fresco e questionamentos: como? Quando? Por quê? Tem mais?  E saber a biografia da obra e do autor dela. Não a biografia explícita em encartes e fichas técnicas, autorretrato promocional. A biografia das entrelinhas, das pausas prolongadas por uma reflexão a respeito do que concedeu toques de milagre à feitura.

Agora, não paro de pensar como será o dia em que eu verei Filipe Catto em um palco onde ele realmente esteja.

Tomada é de um escancaro poético e de um requinte musical que tornam o disco próprio para fazer parte do acervo emocional de um bom ouvinte de música. Está tudo lá: sutilezas, confissões, deslumbramentos, mágoas e catarse, entre outras condições e emoções que toda boa canção pede. Nas quais cada ser humano, eventualmente, embarca.

O mais bacana é que você pode conferir o disco clicando aqui. Depois me conte se Filipe Catto não bagunçou seu dentro com esse disco. O meu ele bagunçou...  E continua a bagunçar.



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domingo, 27 de setembro de 2015

MINHA FAMÍLIA >> Whisner Fraga

Era muito gente boa, mas também mimado, um filho de mãe, como diziam. Um filho de mãe era aquele indivíduo apegado à figura materna, protegido debaixo das asas sempre aquecidas da genitora. Um filho de mãe era também o camarada que vinha de uma família estruturada, tradicional, católica, com pais celebrando bodas de prata e tudo bonito por natureza, mas que beleza. E que morava com a família e que tinha um amigo apelidado de Bug, que era dono de um apartamento na avenida Augusta, perto da Paulista.

Também tinha o lance de querer ensinar os fumantes a tragarem. Porra, ninguém ali queria saber o jeito certo de tragar. As pessoas queriam curtir. De forma que matávamos as aulas quase todas as noites para jogar sinuca. Jogar sinuca era muito mais produtivo do que assistir à mesma lengalenga repetida durante quinze anos ou mais sobre Aristóteles. Caramba, estava tudo nos livros e eu podia muito bem ler em casa. O curso de Letras me preocupava: mais um pouco e eu podia sucumbir às amarras da facilidade. Às fórmulas. À Síndrome de Estocolmo.

Aprendi muito mais vendo Bento apreciar solitário seu uísque ali ao lado. Parecia assistir às nossas jogadas. Nunca o convidei a se juntar a nós e é um dos poucos arrependimentos que carrego. Pouco depois ele morreria, sob o provincianismo e o sol achincalhante de São Carlos, a capital do clima. Bento Prado Jr, acho que ficou meio óbvio que era ele, não? Os papos com Deonísio da Silva, que valiam muito mais do que qualquer aula de Teoria da Literatura. As conversas no quiosque, extraclasse, lógico. Embora vira e mexe eu comparecesse às suas palestras sobre literatura brasileira contemporânea. Era o único professor com coragem para ler contos de Lygia Fagundes Telles na academia. Luiz Vilela e coisa e tal.

Mas apesar de meu amigo ser mimado, não tinha essa coisa canhestra e assustadora de hoje de querer definir o que é família. Família é o que chamamos de família, sou obrigado a defender, quase vinte anos depois, quando supostamente a sociedade estaria mais justa e esperta. Meu amigo era filho de mãe, mas um dia fui à sua mansão e lá rolava um jantar entre amigos e havia muitas famílias reunidas, entre casais de homossexuais. Aliás, “casais de homossexuais” cheira a preconceito. Casais.

Eu espalhava que não queria largar nunca esse ambiente universitário, embora reconhecesse que havia um ranço de retrocesso se espalhando pelos estacionamentos recheados de carros do ano e pelos pátios em que desfilavam cocotas empunhando seus celulares da moda. E olha que smartphones eram tema de ficção científica. Bento já se ruborizava, mas não imaginava que o retrocesso pudesse ir tão longe.

Meu amigo era mimado, mas nunca quis fazer valer sua opinião em detrimento das demais. Gostava da discussão, do debate. Vencido, voltava atrás. Jamais ganhou nada no grito, até porque raramente levantava a voz além do audível. Meu amigo era mimado, mas sabia que religiões eram o grande mal da sociedade e que levá-las para a política era pior ainda. Naquela época, ele já poderia ensinar bastante a esses senhores da bancada evangélica. Hoje nos distanciamos, não sei onde se encontra este colega mimado, mas tenho certeza que ele não aceitaria estar em uma roda em que se o tema fosse conceituar família.

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sábado, 26 de setembro de 2015

HABILIDADES DOMÉSTICAS >> Sergio Geia


Na sexta-feira, meu filho chega de São Paulo carregando uma mala entupida de roupa suja. No final de semana, ele toma de assalto a máquina de lavar. Gira os botões como quem gira o botão do fogão, ou aumenta o volume do rádio do carro, ou coisa parecida; uma familiaridade irritante, inaceitável e incompreensível. Despeja o sabão em pó, que não é mais em pó, mas líquido, o amaciante, e ainda me avisa que o “Omo tá acabando, pai!”

Depois põe a geringonça pra funcionar que é uma beleza. Uma, duas, três, nem sei quantas vezes. Dois varais com camisas, jeans, lençóis, bermudas, meias. No final do domingo, carrega tudo de volta pra mala, que irá levar de volta a São Paulo, para mais uma semana de labuta. O elefante branco de outros carnavais, que me assustou quando vim morar sozinho, tornou-se para o jovem de 18 anos um simples e inofensivo gatinho. Se aos 45 eu nunca tinha apertado um botão sequer de uma máquina dessas, ele, aos 18, já domina a técnica com maestria, que o tornará por certo mais independente, livre, autônomo, nesse mundo de dependência e subordinação em que vivemos.

Mas calma, amigo, calma. Hoje posso dizer com serenidade que essa mesma habilidade que ele desenvolveu tão cedo eu também já desenvolvi, he, he, he. Tudo bem, demorou mais tempo, é verdade, mas hoje me viro bem com a geringonça, que não tem nada de elefante branco, ou de tiranossauro rex, que me dava um tremendo medo. É mais um gatinho, sim. Um gatinho inofensivo e útil. Muito útil.

Agora, se tem algo ultimamente que me anda pondo medo; se tem algo que me assusta, que faz minhas mãos tremerem e suarem sem parar, esse negócio, que é mais velho do que andar pra frente, esse negócio se chama ferro de passar roupa.

Antigamente era fácil. Pelo que via, era só pôr na tomada. Havia um botãozinho que mantinha a temperatura no mínimo, no médio ou no máximo. E pronto. Era só começar a passar e aumentar a temperatura ou diminuí-la de acordo com os tecidos. Esse que eu tenho aqui, e que terei que usar até arrumar uma nova ajudante, tem um famigerado botão giratório pra eu escolher o tipo de tecido: acetato, seda, rayon (meu Deus, o que é rayon?!), lã, algodão, linho. Tem dois botõezinhos pra apertar com desenhinhos indecifráveis (não é mais fácil escrever pra que servem, não, ô?!). Tem outro escrito autolimpeza (melhorou). Há um outro que vai pra lá e pra cá, aumentando e diminuindo o filete escuro (Meus Deus, pra que tantos botões!?). E um buraquinho, que na minha ínfima capacidade de decifrar esse monstrengo doméstico, serve pra colocar água.

Mais difícil do que passar roupa é entender como funciona um ferro de passar roupa e seu indecifrável manual. Sinceramente? Acho que escrever uma crônica por dia, um romance a cada seis meses, um roteiro pra cinema, ou arredondar uma encrencada e velha execução trabalhista, são tarefas mais fáceis, mas eu chego lá...

P.S.: Esquece esse último parágrafo, mermão. Tudo resolvido com essa tecnologia massa. Bastaram três minutinhos. Bora passar roupa (com a ajuda do You Tube, claro! he, he, he).


Ilustração: http://gartic.com.br



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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

CHAMAS >> Zoraya Cesar

Não era o sujeito mais brilhante do mundo; era, até, meio bronco, mas Gilmar conseguiu passar na prova para o Corpo de Bombeiros. Raspando. O que o salvou foi a prova física, na qual tirou nota máxima.

Um uniforme, vocês sabem, atrai mulheres como formigas no pão doce. E Gilmar era calmo, pacato. Não gostava de farras, jogatinas, churrascadas.

Não à toa, portanto, que Lucinha, a meiga, simples, sonhadora Lucinha, de crespos cabelos negros e grandes olhos castanhos, apaixonou-se por ele. O bombeiro, como sabemos, era meio devagar para perceber as coisas, mas os amigos, esses o alertaram que a moça mais bonita e valorosa da região estava a fim de um relacionamento sério.

Casaram-se. Casaram-se e tiveram uma filha. Lucinha trabalhava de doceira, quituteira e, eventualmente, faxineira. Tudo pela família, para ajudar nas contas e crescer na vida com seu amado Gilmar. 

A vida seguia tranquila. A vida sempre segue tranquila até deixar de seguir, não é mesmo?

Pois teve uma noite em que a equipe de Gilmar socorreu as vítimas de um sobrado em chamas. Ele subiu até o terceiro andar, para resgatar a última refém do fogo.  

No instante em que a viu, seu coração incandesceu. Lá estava ela, acuada pelas labaredas, seus cabelos tão rubros quanto o fogo que a cercava, os olhos reluzentes e destemidos de quem sabe que a morte é inevitável, mas, nem por isso, deve ser aceita sem luta. Seminua, seu corpo brilhava pelo suor que escorria nas suas ancas grossas e peitos grandes, toda ela exuberando sensualidade.

Agarraram-se ali mesmo, no meio do turbilhão de fogo que os envolvia, um corpo derretendo contra o outro.

Tornaram-se amantes. A incansável espanhola Estelita inflamava Gilmar com o conhecimento que adquirira em sua vida de dançarina da noite, dançarina que atravessara o oceano para perder-se em outras terras e encontrar, enfim, o amor.

Um amor que, a cada dia, mais se alastrava em suas almas, como fogo em campo aberto.

O sereno, plácido, quase bovino Gilmar transformara-se num esfaimado, devorador insaciável, que tinha sede e fome constantes da pele, do cheiro, da presença de Estelita, e dela somente. Consumiam-se nas chamas da carne, cada vez mais vorazes, cada vez mais dependentes do corpo um do outro, numa lascívia imensurável. Gilmar queria que Estelita largasse da vida. Estelita dizia que só casando. Gilmar não conseguia mais ficar sem ver Estelita, tocar Estelita, se perder em Estelita nem um dia sequer.

Convenceu Lucinha a contratar uma ajudante — Estelita, claro — para ajudá-la nos afazeres domésticos, cada vez mais pesados, por causa da criança.

E assim, três vezes por semana, Estelita dormia na casa de Gilmar que, mal a esposa caía no sono, corria para o quarto da amante, sedento, onde se devoravam rápida e vorazmente, numa ânsia quase ululante. Depois, ele passava o resto da noite virando-se na cama, o sono inquieto, tenso como um fio desencapado. A mera existência da esposa o incomodava. Divórcio não estava nos seus planos, Lucinha ficaria com boa parte de seu salário, e isso era impensável. Sua amásia gostava de roupas e perfumes caros, ele não podia prescindir de um centavo sequer.

Engendraram, ambos, um meio para se livrar do estorvo: forjariam um acidente no qual a casa explodiria, junto com Lucinha. A experiência de Gilmar como bombeiro garantiria que não seriam deixadas pistas, e ele daria um jeito de a criança não estar presente.

A explosão foi violenta, seguida por um incêndio arrasador. Da casa, os bombeiros encontraram apenas cinzas, iluminadas, aqui e ali, por umas poucas labaredas alaranjadas e azuis. Uma fumaça escura tentava subir  em direção ao céu, mas era espalhada pelo vento.

Durante o funeral, Lucinha devaneava sobre as ironias da vida. Tanto fizeram, os dois amantes, que passariam a eternidade juntos, as cinzas misturadas e enterradas sob a mesma Terra da qual quiseram expulsá-la.  

O tonto do Gilmar acreditou que ela não perceberia suas mudanças de comportamento, suas maneiras ríspidas, os rancorosos olhares de soslaio, o jeito de andar pela casa como um touro enjaulado. Somente aquele parvo creria no sono profundo da esposa enquanto ele se enrabichava com a ‘ajudante’.

Durante semanas, Lucinha engoliu o choro, mortificada. Não tinha para onde ir, não tinha a quem recorrer, nem como provar a infidelidade do marido. E tinha pavor de que ele tentasse tirar-lhe a criança. Mas a paciência é a arma dos fortes. Esperou.

A grande sorte, porém, foi que, de tão inquieto seu sono, Gilmar falava enquanto dormia. E o que Lucinha ouviu foi suficiente para virar o jogo a seu favor, pois, o que o marido tinha de desapercebido — tomado que estava pela luxúria —, ela tinha de sagaz. Não vivera com um bombeiro sem aprender algumas coisas. Adiantou o relógio que deflagaria todo o mecanismo da explosão num dia em que, ela sabia, Gilmar estaria em casa — com Estelita, claro — e foi passear com a filha. 

Agora estava ela, viúva — não mais meiga, simples ou sonhadora —, com a pensão de sargento do marido traidor, e livre: dos amantes que pretendiam matá-la; da humilhação; do medo de ser mandada embora de casa, ou, pior, de ser mandada pelos ares.

Em homenagem às chamas que a libertaram, pintaria o cabelo de vermelho. Olhou em volta. O tenente do batalhão parecia ser um homem interessante...



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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O AMOR QUE TU ME TINHAS >> Analu Faria

Sempre que um relacionamento termina, terminam sonhos. Não sonhos futuros, planos de viagem, filhos, casa, essas coisas. Terminam o “volta logo” na despedida do aeroporto, o “vou aonde você for” quando se anuncia uma possível mudança de cidade; termina a sensação de que o mundo é melhor quando a gente ouve o “eu te amo” dele/dela. Isso tudo que é bom demais no cotidiano, e que a gente trata com trivialidade, é sonho. E vai embora com o “adeus”.

Esta crônica é uma homenagem ao adeus de um relacionamento a dois. Porque o fim é tão bonito quanto o começo. As dores, é claro, são diferentes. A dor da incerteza, no começo, é quase um prazer. A dor do fim é quase um precipício. Mesmo assim, o fim é um filme que começa com ele subindo em uma árvore — para pegar aquela folha com cheiro de eucalipto que ela ia gostar —, passa por ela pensando “meu Deus, tô fodida, vou me apaixonar”, destaca a cena em que ele, dislexo, demora duas horas para escrever o bilhete pedindo-a em namoro, tem o ápice nas bebedeiras, brincadeiras e sexo no estacionamento e termina com os dois chorando no chão de uma quitinete. Aposto que você viu isso tudo passar pela sua cabeça enquanto eu narrava. E que pensou nos fins dos seus relacionamentos também.

Um brinde aos fins. E vamos esquecer essa baboseira de que eles são o começo de alguma coisa. O fim de um relacionamento é apenas o fim de uma história e a criação de um repositório de lembranças. O que virá depois é apenas outro cotidiano. Outro sonho, talvez. Talvez com outro fim.


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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

AQUI >> Carla Dias >>


Venho aqui, não sei se suficientemente delicadamente, ou se com o charme imprescindível para fazer esse feito necessário. Ainda não sei se a minha mente está no lugar a ela reservada ou se perdida no aconchego de um engano aparente, sujeitada ao cargo de produto recém-lançado exposto em expositor requintado de supermercado.

Acontece que aqui estou e com gana de quem deseja profundamente encher de flores qualquer antessala. Anteceder azedume para curá-lo em tempo com bala de café. Benzer a fronte do deus mais humilde que a vida — ou Hollywood — há de criar.

Venho aqui, porque ali meus pés queimaram em terreno descampado de delícia, e diferente do que dizem os pudicos, delícia é bom de um jeito...

Deliciar-se é imperativo.

Depois de reverberar uma delícia, o ser, ele que há tempo indefinido estava preso entre os dentes da lugubridade, ilumina recintos como se fosse farol indicando caminho. Seu corpo se esquiva da curvatura, aprumando-se como só são capazes de se aprumar os que não têm medo de correr o risco de embebedar-se de felicidade. E se você abriu a boca para soltar palavras contestadoras da existência da felicidade, peço gentilmente, de gentileza empertigada, que as engula. Não em engasgo, mas em reconhecimento de que você, tampouco eu, não somos donos da verdade.

Você pode até não entender bem aonde quero chegar. Quanto a isso, despreocupe-se. Tampouco eu sei aonde esse tempo me levará, ou essa busca, essa vontade singela de me espreguiçar, então me deitar e dormir para visitar sonhos, e neles encontrar aqueles que ainda não conheço acordada, mas que me enchem de um abrandamento necessário para encarar realidade quando ela dá de ser desmedida e salafrária. Tampouco eu sou graduada na ciência da compreensão imediata a respeito de profundidade nada geográfica. Sobre geografia sou teórica, às vezes imprópria, em outras, insana. Meus pés andam raízes, desde que nasci. Gasto quilômetros em passos nos mesmos espaços, desde sempre. Já a alma, essa vive de viagens.

Venho aqui, porque não me incomoda se o seu pensamento diverge do meu, e nem sempre de maneira bem-educada. Nem mesmo se você acha que sou menos que você, fazendo essa conta sobre o que nunca foi contável. Ainda que grite inverdades, a fim de corroborar impropérios, ah, eu venho desarmada para observar essa relutância em compreender matizes, que sempre fui apegada à ousadia emocional.

Quando se trata de pessoas, gosto de observar de perto. Às vezes, é impossível não sofrer um tanto que seja e ter de experimentar da deselegância de quem não sabe pedir ao outro que se retire sem que seja aos berros. Em outras, eu tenho sorte, e alguém me convida para ficar.

Eu fico até chegar a hora de seguir adiante.

Venho aqui, não sei se serenamente como deveria, trazendo esperança de companhia, em nome do que me espera adiante. Esse meu lugar de sempre, de ruas reconhecidas diariamente, pelas quais desfilo a atualidade da minha alma itinerante. Onde me sento no meio-fio para observar os que passam, trazendo novidades e palavras para eu pronunciar pela primeira vez.

Imagem © Berény Róbert

carladias.com



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terça-feira, 22 de setembro de 2015

MEDINHO DE NADA >> Clara Braga

Essa última semana descobri um novo medo. Na verdade, meu medo de altura não é tão novo assim, mas eu nunca tinha me testado a ponto de descobrir que o medinho que eu achava que tinha era um pouco mais grave que isso.

Nunca deixei de ir a lugares altos ou de fazer algo que evolvesse uma certa altura. Sempre senti aquele frio na barriga, sempre evitei chegar muito na beira da varanda do apartamento do meu amigo que mora no 15 andar, mas achava que era só um medo normal diante de uma possível situação de risco. Tanto achava que era algo tranquilo que já cheguei a fazer planos para saltar de paraquedas, imagina! Todo mundo que salta diz que não existe sensação igual, que é uma experiência única, fiquei curiosa! Mas a curiosidade sumiu por completo e já me conformei que meu lugar é com meu pezinho o mais próximo do chão possível.

Semana passada, ficamos dois dias em um hotel fazenda com os alunos da escola, fazendo várias provas da gincana anual. Entre as provas, estava o tal do arvorismo. Desde que falaram que tinha arvorismo eu já fiquei animada, já tinha feito uma vez, mas não tão alto quanto esse! Aliás, quando me deparei com o tal do percurso, descobri que o que eu tinha feito não era nem tão alto, nem tão instável, muito menos tão longo! Talvez o nome nem fosse arvorismo, eu que batizei assim, vai saber! Só sei que tinha gente levando 30, 40 minutos para concluir o percurso completo! Isso, quando se está nas alturas pendurado por uma cordinha de nada, parece uma vida!

Só de subir a escada para chegar à primeira estação, já mal sentia minhas pernas, elas tremiam tanto que parecia que estava tendo um terremoto. Passei pela primeira estação, alívio! Quase não consigo passar pela segunda, mas passei! Na terceira estava determinada, nada me faria desistir! Na quarta, quando tentei fixar o pé e não consegui, percebi que meus braços já estavam extremamente cansados e eu já nem abria a mão direito de tanta força que estava fazendo para me segurar. Era a hora de desistir!

Tem pessoas que dizem que é preciso muita coragem para desistir de algo. Eu digo que essa pessoa não conhece o poder do medo! Gritei para o responsável e falei que queria descer. Nesse mesmo momento, já entrei em pânico, pois antes de subir eu havia feito uma burrada, falei para esse mesmo homem, o responsável por me tirar dali, que eu tinha medo de altura, então que com certeza eu pediria para descer antes de terminar, mas que ele não deixasse, só me tirasse dali quando eu chegasse ao final do percurso. Que burra! Comecei a rezar para santos que eu nem conheço e pedir que ele não tivesse me levado a sério. Ele até titubeou, perguntou se eu tinha certeza mesmo de que queria desistir, mas acho que ele soube reconhecer um rosto em pânico!

Quando vi que ele estava subindo para me tirar dali, achei que o pior já havia passado! HA HA HA! ENGANO MEU! O cara subiu, me prendeu em uma corda e disse a pior frase que eu já ouvi na minha vida: "Pronto, agora para descer é só segurar a corda e pular fazendo rapel!"

Comecei a rir, podia jurar que ele estava de sacanagem com a minha cara, mas era sério! Então eu questionei:

— Moço, se eu estou desistindo porque não me aguento mais de tanto medo, você acha mesmo que eu vou conseguir fazer rapel? RAPEL?

— Consegue, eu te seguro!

Fiquei com dó dele, ele quis me passar segurança com essa frase, mas ele estava muito longe de parecer o herói que vai salvar a mocinha em apuros. Então eu disse:

— Ah tá! Com todo respeito, acho que você não é tão forte assim.

Nesse momento, ele virou para um grupo de alunos que assistia a tudo de camarote e gritou: "Algum homem forte ai embaixo pode me ajudar a segurar a corda? É bom para dar maior estabilidade para ela!" Então virou para mim e disse: "Pronto, agora não tem erro, você está segura!" Olhei para ele, um mero desconhecido, olhei para baixo e vi meu aluno peso pena que bate no meu ombro e, não sei explicar exatamente como, mas uma lágrima rolou no meu rosto. A lágrima era a única parte do meu corpo que se movia, eu estava completamente dura e em pânico. A única coisa que consegui dizer foi: "Moço, acho que essa é a hora em que você começa a me contar sobre a sua vida. Não sairemos daqui tão cedo, seremos amigos íntimos!"

O homem riu, mas era nítido que ele estava puto da vida! Devia estar pensando: se sabia que tinha medo, porque diabos decidiu fazer isso?! Mas não posso reclamar, ele foi muito simpático e até me desceu por uma escada. A maior escada da minha vida. Deu a impressão de que eu estava descendo a árvore de João e o Pé de Feijão. Enquanto descia, tentava engolir o choro para não ser tão zoada pelos meus alunos, mas confesso que pisar em solo firme de novo foi tão bom que eu quis com todas as forças dar uma de papa e beijar o chão! Só não fiz isso pois essa semana preciso ter moral suficiente para entrar em sala e pedir silêncio sem ser sacaneada por adolescentes infernais… acho que cavei minha própria cova.


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domingo, 20 de setembro de 2015

A PENÚLTIMA PALAVRA >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu já fui um sujeito muito polêmico, daqueles que têm a última palavra. Minha chatice argumentativa era mais ingênua que beligerante. Pensamentos e ideias sempre foram para mim uma espécie de brincadeira, feito peteca que não se deve deixar cair. Réplicas, tréplicas, quadréplicas... eram só uma forma de manter os pensamentos e as ideias em movimento.

Mas comecei a perceber que as pessoas se irritavam. E se tem gente que perde o amigo, mas não a piada, eu preferia perder o argumento a perder a amizade. Decidi, então, limitar o número de vezes que argumento a respeito de qualquer coisa. Mesmo que o assunto não seja polêmico, e esteja longe de gerar qualquer tipo de competitividade desconfortável, procuro reduzir minhas falas a duas ou, no máximo, três. E faço o possível para que a derradeira não seja provocativa.

E se o leitor discordar, meu silêncio há de lhe dar razão...

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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

PECADO CAPITAL >> Paulo Meireles Barguil


Esse era o título de uma novela há 40 anos, inspirado em música homônima composta por Paulinho de Viola, que começava assim: "Dinheiro na mão é vendaval / É vendaval!...".
 
Durante os últimos anos, milhões de brasileiros acharam que tinham encontrado a árvore que jorrava dinheiro ininterruptamente.
 
Ao mesmo tempo, poucos, bem poucos, sabiam que chegaria o minuto em que o embuste seria quebrado.
 
As badaladas estão soando...
 
Quem quer ouvir a verdade?
 
E mais, quem tem a coragem de enunciá-la?
 
A massa, atônita e perplexa com a realidade, que começa a ser desvelada, comporta-se tal qual uma criança mimada, que se recusa a ouvir um não e exige a perpetuação e a ampliação de direitos incongruentes.
 
Enquanto uns querem jogar pedra na Geni, outros querem retirá-la, como se ela fosse a culpada pelo esfarelamento da ilusão.
 
Quem quer ouvir a verdade?
 
E mais, quem tem a coragem de enunciá-la?
 
A situação é bem simples de ser entendida: o que acontece quando se gasta mais do que se ganha?
 
A gente precisa pedir dinheiro emprestado.
 
E se a gente continuar a gastar mais do que ganhar?
 
A dívida vai aumentar e a gente vai necessitar de mais grana para equilibrar as contas.
 
E a roda vida continua enquanto se tiver crédito na praça, o qual só se mantém se houver, pelo menos, o pagamento dos juros.
 
Quem quer ouvir a verdade?
 
E mais, quem tem a coragem de enunciá-la?
 
A correlação de forças é desigual, sem dúvida.
 
Ainda mais quando os profetas de ontem, seja por ignorância ou por outros motivos, se negam a assumir sua responsabilidade pelo sucedido e impedem, tal qual os poucos beneficiados com a pirâmide financeira global, de a multidão começar a entender a trama na qual ela, há séculos, é mera coadjuvante. 
 
Há quem diga que sete são os pecados capitais: avareza, ira, inveja, gula, luxúria, preguiça e soberba.
 
Registra-se, também, a existência de sete virtudes: generosidade, mansidão, caridade, temperança, castidade, diligência e humildade.
 
O acúmulo gera morte.
 
A partilha propicia vida.
 
A fatura final pode demorar, mas um dia chega, seja via postal, SMS ou bote inflável...


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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

INSISTENTES E PERSISTENTES >> Mariana Scherma

As pessoas não têm muito a noção exata do que é insistir e persistir. Insistir é ser chato, persistir é ser corajoso. Pra mim, pelo menos. Insistência tem a ver com não aceitar o não ou uma condição e querer mudar o imutável. Meio impossível. Persistência é sinônimo de ter fé e noção, lutar pelo que faz sentido. Tô errada?

Dia desses, um fulano do trabalho virou e me perguntou: “Quem você acha que ganha hoje?”. Pra mim, essa coisa de ganhar tem a ver com esporte e ponto. Por isso a minha resposta: “Mas o Corinthians joga hoje, é?”. O cara riu e disse: “Não, no MasterChef”. Sério, me senti uma ET. Sei tanto desse reality show quanto de física quântica, vidas passadas e como mandar bem no churrasco. Quem me conhece sabe: entendo zero de tudo isso. Eu respondi ao cara que nunca tinha assistido e ele me virou: “Mas você estava dizendo esses dias que não queria spoiler do MasterChef”. Eu não disse isso, avisei. Até porque tanto faz spoiler de algo que nunca vi, mas ele insistiu que eu tinha dito. O fato é que ele me confundiu com outra pessoa e não acreditou nas minhas próprias palavras. Gente doida.

Esse cara é o de menos no problema insistência (apesar de que querer saber mais do que você sobre seus hábitos de tevê é o fim). Mas e aqueles que não percebem que seu tempo passou e seguem insistindo, ligando, mandando e-mail e WhatsApp como se nada tivesse quebrado a relação de vocês? A arte de sair de campo realmente é uma arte. Quem sabe parar de insistir na hora certa acaba sendo lembrado com carinho, naquela “por onde anda fulano(a)?”. Quem vive fazendo a vida girar feito roda quadrada faz os dias serem mais chatos. Cansa dar perdido, cansa responder com poucas palavras e de um jeito blasé. Eu me convenço com duas frases murchas. Talvez eu seja pouco persistente, mas é um jeito de ser.

E isso vai além das relações cotidianas. Saber largar o osso, aproveitar a aposentadoria e deixar o sangue novo fluir. A vida é um palco e, para o show continuar, alguns saem e outros chegam. A gente é viciado em aplauso, mas o aplauso só tem graça quando você descobre o arrepio que o silêncio pode dar e, ao mesmo tempo, tranquilizar.


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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

LUGARES INTERIORES >> Carla Dias >>


Amanhece com o dia ainda no prefácio. Gosta de recebê-lo com olhar a se perder em horizonte. Não é de longas noites de bom sono, mas de poucas horas de olhos fechados e raros momentos de silêncio, quando seus pensamentos se acalmam, assim como sua respiração, e ele consegue se misturar ao silêncio da madrugada.

Ano passado, perdeu emprego e esposa, nessa ordem mesmo. Era bom no que fazia... Não, era ótimo no que fazia. Era tão ótimo que chegou o dia em que aquilo já não fazia mais sentido e não havia como seguir adiante. Não havia promoção, plano de carreira ou o que fosse que acenasse com o próximo passo. E para ele o próximo passo era necessário. Aos poucos, toda excitação de ser quem era foi se esvaecendo. Tudo foi ficando fácil, mas de um jeito tirano.

A esposa, que lhe acompanhara durante longos e aventureiros quinze anos, sentiu essa onda de esmaecimento e se aborreceu profundamente. Para ela a vida ainda reservava uma série de próximos passos. O seguinte ela deu na companhia de um amigo da época de escola. Quando partiu, nem disse adeus, de tão desapontada com o ex-marido, aquele que lhe prometeu uma vida de aventuras e a confinou em um cenário de confusão e abatimento.

Ele não pediu que ela ficasse. Não suplicou para que ela o ajudasse a voltar ao mundo. Silenciou, fumou um cigarro, bebeu uma bebida, gastou alguns dinheiros com banalidades. Fez a partilha, deixando para ela quase tudo o que conquistara ao seu lado.

O quase faz diferença. Ele ficou com esse apartamento em décimo quinto andar, prédio antigo e de cômodos grandes. Tem onde morar, a aposentadoria lhe custeia o resto, que nunca foi de consumir muita comida ou desperdiçar água, luz e telefone. Ainda bem que foi bom, mas ótimo no que fazia, chegando ao último lugar onde caberia um expert feito ele, o que lhe garantiu uma aposentadoria que é para poucos.

Não é jovem, seu corpo já reclama o resultado de uma vida debruçada em longos turnos de trabalho, uísque, energético e um rico histórico de excessos. Sua irmã, na última aparição no apartamento, disse que ele parece melhor do que antes, quando as pessoas o idolatravam. Ele correspondeu à declaração dela com um sorriso e a alegação de que achava o mesmo. A solidão me cai bem. Mas a irmã entendeu a solidão dele de um jeito diferente de como ele a sentia. Caiu no choro, perguntando se ela poderia ajudá-lo de alguma forma, que ela faria de um tudo para vê-lo feliz. Ele levou horas para acalmá-la.

Ele não entende o motivo de a maioria das pessoas ignorarem a importância da solidão. Não que elas tenham de levar uma vida reclusa e infeliz. Mas acontece de sobrar a alguns somente a solidão, mesmo quando parece que todos a sua volta existam para lhes fazer companhia e servi-los.

Gasta o dia com o que mais gosta: livros e música. Até arrisca uns passos de dança no meio da sala. Não precisa de mais do que isso para que as horas não se arrastem. Porém, ele tem se sentido animado a respeito de sua nova paixão. Nessa sua solidão – nomeada pelo psiquiatra que sua irmã fez com que consultasse como depressão -, descobriu-se um ótimo escutador de histórias.

O apartamento onde mora, do qual é proprietário, é o mesmo de sua infância. Ali viveu até a adolescência. Ali seus pais viveram até falecerem. Não quis se desfazer do lugar, então o alugou e se esqueceu dele. Durante a divisão de bens, redescobriu esse lugar – na geografia e na alma – e decidiu que era ali que viveria. Esperou alguns meses, até que o contrato de locação do inquilino vencesse, e pediu o apartamento de volta. Mudou-se para lá no dia seguinte da saída dos moradores.

Quando chegou ao apartamento, caminhou lentamente pelos cômodos a colher lembranças. Lembrou-se do som das vozes de sua mãe e de seu pai, das traquinagens de sua irmã, das horas que passavam juntos na sala, as crianças a brincarem e os pais a conversarem sobre tudo. Ele gostava de escutá-los, de observá-los. Se há uma coisa divina que tem certeza que lhe aconteceu, trata-se de ter nascido filhos dos seus pais.

Acomodou-se no quarto principal, mas foi no seu antigo quarto que encontrou o que o zelador disse que o inquilino não quis levar embora, pódexá que eu resolvo isso e tiro tudo de lá até segunda. Acontece que, antes da segunda, ele já estava encantado com aquilo tudo. O menino que foi pensou logo: parece até que, se eu me esforçar, vou chegar à lua.

Nunca foi habilidoso em escutar as histórias pessoais daqueles com quem tinha de lidar, o que, na verdade, o levou a chegar tão longe no trabalho. Agora, radioamador, é escutador notívago. Já escutou a história de tantas pessoas, que a sua percepção sobre o mundo mudou, assim como sua compreensão sobre a solidão. Pode até não conseguir explicar à irmã que ela não precisa se sentir triste por ele, tampouco refutar o psiquiatra que acredita que o remédio não está surtindo o efeito desejado. Talvez, dia desses, ele traga a irmã ao seu quarto de menino para lhe mostrar seu equipamento e apresentar as vozes que o acompanham durante a noite. Talvez, dia desses, convide alguns dos donos dessas vozes para jantar.

O que importa é que ele recobrou o direito ao seguinte. O passo e o próximo. O outro, o semelhante. Pois não há nada que represente melhor a solidão brutal do que chegar ao momento em que não se tem mais aonde ir.

Imagem ©  freeimages.com | Richard Dudley



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domingo, 13 de setembro de 2015

OS SEM-NOÇÃO >> Whisner Fraga

Não é fácil a gente se descobrir um sem-noção. Aliás, eu acho que nem é possível. O que acontece, com mais frequência, é que alguém descobre pela gente. Do nada a gente faz uma merda e um espectador nos alerta: puxa, que sem-noção. Praticamente toda a humanidade é sem-noção. Aí, julgo importante algum pesquisador bolar uma escala para classificar os níveis de discernimento de um indivíduo.

Como adiantei no primeiro parágrafo, sou um sem-noção. E bastaram pouco mais de dez anos de vida para eu constatar isso. Desde então, acho que, de vez em quando me divirto em ser assim. Faço brincadeiras muito idiotas em horas indevidas. Como quando contei uma piada no velório de meu tio. Muita gente riu, o que, de certo modo, me absolveu um pouco. Ou quando falei para uma grávida que o mundo está muito populoso e que não é mais sustentável.

Mesmo quando o assunto é política, sou um sem-noção. Aliás, todo idealista é sem-noção por definição, porque vive em um mundo que jamais existirá a não ser em sua cabeça labiríntica e estúpida. Política é uma merda, porque os políticos a transformam nisso. Política é a arte de ferrar o próximo em prol da ascensão do próprio umbigo. E, quando digo “política”, me refiro a praticamente toda forma de relacionamento humano. Se vou à padaria e pergunto ao caixa como foi o dia, como está a família, se teve um dia difícil, para logo em seguida pechinchar, estou fazendo política. Ruim, baixa, amadora, mas ainda política.

Agora, eu não sei se é pior do que o sem-noção que vai para a Paulista e convida o amigo, argumentando que a avenida estará cheia de gatinhas e que será um domingo e tanto para flertes. Para depois tirar selfies com a tropa de choque e balançar pixulecos de dez reais. Até parlamentares posaram segurando o boneco. Política é isso: marketing, manipulação de resultados, gente bonita na rua, construção de praças e protesto pacífico.

Acho que algumas pessoas que vão para as manifestações estão um nível acima. Como estavam os cara-pintadas do século passado. No mau sentido. Porque, vamos lá, são manipuladas exatamente como naquela música do Zé Ramalho. Vida de gado, povo marcado e povo feliz. E não estão nem aí para nada além da viagem trimestral para Miami, para o escândalo dos salários das domésticas e para as bolsas Louis Vuitton. Está em andamento um golpe de estado e os sem-noção estão achando que a vida pós-sedição será linda, maravilhosa, que o dia seguinte trará de volta o dólar a 2 reais e a classe média recuperará a autoestima, doa a quem doer, doa ao pessoal da periferia, que está sem água há quase um ano.

Política é a briga pela manutenção e ampliação do status quo. Quando ouço esse termo, me vem imediatamente a figura de um sujeito furando o barco de um lado e de outro vindo atrás, tirando a água e tampando os rombos. O que fura é o político e o que tampa é o sem-noção. Ou vice-versa.

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sábado, 12 de setembro de 2015

O VENTO >> Sergio Geia





Estava caminhando em direção ao Fritz quando fui acarinhado por um ventinho suave. Lembrei-me na hora de um pedaço de crônica da Cristiana Moura. Foi uma das primeiras que li da Cris e que me fez ficar apaixonado pelo seu estilo.

No bar, a caneca de chope brilhando na mesa, fui pro celular encontrar “Um sopro na tarde”: “Era manhã de domingo. Ele tinha cinco ou seis anos. Saímos do mar correndo como numa brincadeira que se pensasse eterna. Sempre que saio do mar me sinto como que emergindo do útero da Terra. Ele fechou os olhos e depois de um curto silêncio disse quase em sussurro, como quem revela um segredo ainda sem a certeza de que pudesse ser revelado: — Mãe, o vento tá fazendo carinho no meu rosto! — Pois deixa ele carinhar meu filho, deixa ele carinhar” – Cristiana Moura.

Era manhã de domingo, mas eu não tinha o mar. Mas tinha o vento, e uma caneca de chope trincando na minha frente. Bebi o chope feliz da vida por aquele instante mágico, as palavras da Cris me inundando com a mais pura e genuína felicidade. Sabe quando a gente torce pra que um momento não termine nunca? Que possa durar mais, um pouquinho mais, muito mais? Pois é... Isso pra mim é felicidade. A felicidade, amigo, está em lugares tão simples que muitos são infelizes simplesmente porque a buscam em locais não frequentados por ela.

Tentei puxar da memória outras poesias que falassem de vento.Mudou a minha vida e mais/ Pedi ao vento pra trazer você aqui/ Morando nos meus sonhos e na minha memória/ Pedi ao vento pra trazer você pra mim/  Vento traz você de novo/ Vento faz do meu mundo novo/ E voe por todo mar e volte aqui.../ E voe por todo mar, e volte aqui.../ Pro meu peito...”. “O vento” mais do que depressa deitou no pensamento. Composição do Márcio Buzelin, interpretada pelo Jota Quest.

“Me leva, o vento me leva pra ela/ me leva, me faça ficar junto dela/ É desse amor que eu preciso, preciso e não posso esquecer/ Eu faço de tudo no mundo pra não te perder, me leva”. Esse samba eu tenho aqui num CD interpretado magistralmente pelo Diogo Nogueira. Tô tirando no violão. Uma delícia.

Gosto especialmente de uma do Roberto Carlos. Aliás, adoro as composições antigas dele. Esta é bem delicada: “Virgem, menina morena, nos cabelos uma trança/ no rosto um jeito criança/ Na voz um canto mulher/ Virgem, menina morena, nos olhos toda a primavera/ No corpo uma longa espera/ Coração banhado em fé/ A tarde corre pra noite/ A lua desperta sorrindo/ A menina na janela/ Botão em flor se abrindo/ Nasceu o primeiro desejo/ Conhecer o primeiro amor/ Na história de um poeta/ A menina acreditou/ Mas o poeta foi um dia/ E até hoje não voltou/ Ninguém sabe o caminho/ Que o poeta levou/ O vento que foi com ele/ Um dia por lá voltou/ Mas só que voltou sozinho/ E a menina chorou/ Na história do poeta/ A menina acreditou/ E dos olhos da menina/ Uma lágrima rolou”. “A menina e o poeta”, e o vento que voltou sozinho.

Fiquei no Fritz tomando chope na companhia da poesia dos grandes poetas. E quer melhor companhia? E do vento, claro, que me acarinhava docemente. “Deixa ele carinhar, Sergio. Deixa ele carinhar”, eu ouvia a Cris.

Ilustração: John William Whaterhouse

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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A HORA DO CHÁ >> Zoraya Cesar

O homem era magro e se vestia comumente — calças jeans usadas e em bom estado, tênis, camiseta azul marinho sem estampa e jaqueta preta, nada de grife. Os cabelos negros, cortados à escovinha, encimavam uma tez branco-pálida. Na multidão, confundido entre todos os outros homens da rua, era apenas mais um. 

À primeira vista.

Pois, se você o observasse por miúdo, repararia que ele parecia um gato em terreno estranho, cauteloso, disfarçadamente olhando tudo ao redor, como que temendo ser atacado de surpresa. Veria que, apesar de magro, seus músculos eram firmes e o corpo, flexível, como o de um atleta de alta performance. Caminhava sempre junto a pequenos grupos de transeuntes, jamais sozinho. Você, porém, passa batido, sem notar nada disso, e é bom que seja assim. Há coisas que é melhor não saber: quem é ele e o que faz ali.

No Centro da cidade, algumas confeitarias mantêm o charme de épocas antigas, com mesas de tampo de mármore e bases de ferro, lustres de cristal, espelhos bisotados e garçons engalanados. Cafeterias que são, por sua antiguidade, bom gosto e relevância histórica, pontos para turistas, encontros românticos, amantes do belo e saudosistas da Belle Époque. São pontos de interesse para muita gente, inclusive para aquele homem. 

Em cada uma delas, entrava, silencioso e discreto, sentando-se de modo a vislumbrar todo o salão. Pedia café com torradas e geléia, e os consumia com as pálpebras semi-cerradas, observando cada freguês. Ali ficava, por mais ou menos quinze minutos, pagava a conta — sempre em dinheiro — e seguia para a próxima, repetindo o ritual com a calma de quem parece não ter outra coisa a fazer na vida. 

Entrou na última confeitaria. A hora do chá estava por terminar sem que ele encontrasse quem procurava. Teria de recomeçar o périplo pelas confeitarias no dia seguinte. Estava cansado, os 19° de temperatura ainda eram infernalmente quentes para ele, acostumado aos ventos gelados e ao frio cortante das ilhas britânicas. E não podia prescindir da jaqueta, onde sua arma estava guardada. Respirou fundo, impaciência era para os fracos. Na sua profissão, qualquer mínima desatenção poderia ser fatal. 

O local estava lotado, ele não pôde escolher o lugar ideal, mas não se importou, qualquer posto de observação é bom para o profissional experiente. A confeitaria era em estilo europeu do final do século XIX, guardanapos de pano, louça inglesa. Um pianista tocava, apropriadamente, Chopin, preenchendo o silêncio entre as conversas. Tudo recendia tradição, até os garçons, grisalhos e circunspectos. O cansaço é um inimigo perigoso. Mas o orgulho é um pecado capital, principalmente para quem está há tanto tempo no ramo.

Ele estava entediado, e achava a missão aquém de sua capacidade, mesmo sendo, o alvo, um mito. Mas ordens são ordens e dinheiro é sempre bem vindo. 

Cometia ele a principal infração às regras do jogo: deixar-se vencer pelo cansaço e pelo orgulho. O garçom trouxe o pedido. Ele bebeu, fez uma careta e colocou mais açúcar, mas o café continuou amargo em demasia. Bebera demais, pensou, talvez as papilas gustativas estivessem muito sensíveis. Sorveu o café em pequenos goles, sem reclamar, para não chamar a atenção. Discrição era uma das chaves do sucesso em seu negócio. 

Rodando os olhos pelo salão, relaxado, viu o garçom que o atendera levar um copo com um líquido que parecia leite até... ela! Uma velha senhora, ereta e elegante em seu vestido preto e colar de pérolas, sentada a uma mesa no centro do salão, sobre a qual viam-se muffins, pequenos sanduíches, uma chávena de chá. Uma grande bengala, de madeira maciça, finamente entalhada, repousava na cadeira ao lado. Ele sabia que, em seu interior, havia uma lâmina, forjada pelo melhor fabricante de Toledo. E que a bebida não era leite, mas ouzo puro. Sentiu um arrepio. Aquela mulher era uma lenda. Mas estava velha. E ele iria segui-la e matá-la, forjando um acidente, tal qual era sua especialidade. 

Fez menção de pedir a conta, para sair antes dela e não levantar suspeitas. O braço, no entanto, parecia pesar uma tonelada. Ele se sentiu tonto e enjoado. O que estava acontecendo? Olhou para a velha senhora, que, sorrindo de lábios cerrados, tocou, com a ponta das unhas curtas, a própria xícara de chá. 

Seu coração falhou duas batidas ao compreender o que acontecera. De caçador, virara caça. O café fora envenenado, daí o estranho gosto que sentira. Que estúpido! Como...? O garçom! 

Seus músculos enrijeciam rapidamente, sua mente embaciava-se. Vou morrer, concluiu, bastante acertadamente, enquanto tentava pegar a arma, os dedos entorpecidos. Lembrou-se da primeira lição que recebera no treinamento: não ser arrogante — jamais negligencie a vigilância ou subestime a argúcia do inimigo. O alvo, enganara-se ele, por perigosa e experiente que fosse, não passava de uma velha, não seria páreo para um jovem, com muitos anos de profissão e inúmeras missões bem sucedidas. Caiu sobre a xícara de café, manchando de marrom escuro a branca toalha de linho, os olhos arregalados naquele estupor de quem morre sem entender como aquilo fora acontecer.

Na confusão que se sucedeu, o garçom levou o corpo inerte para os fundos e a adorável velhinha retirou-se do salão para o fim da tarde. Ela sorriu, rememorando a lição que seu mestre lhe ensinara há tantos, tantos anos, sob um céu parecido com aquele, avermelhado e luminoso, aos pés do Κιθαιρών, o monte Citéron: a missão está cumprida quando o alvo for eliminado e você chegar em casa incólume; o resto era ανοησία, baboseira. 

Marta Atanasiou sorriu ainda mais amplamente, mostrando dentes naturais e perfeitos, feliz por não ter precisado recorrer à Glock modelo G21 gen4, adequada para canhotos, guardada em sua bolsa. Ela sempre cumprira suas missões, e manter-se viva era uma delas. Voltou para casa, apreciando a luz do ocaso. Incólume.

Leia a primeira aventura de Marta Atanasiou:




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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

CAPA E ESPADA >> Analu Faria

Estamos cansados da crise política, do trabalho acumulado em cima da mesa, do domingo sem nada de interessante para fazer. Queremos filmes, queremos bons livros de ficção.E para que essa ficção não seja apenas uma cópia da nossa realidade, queremos seres mitológicos, queremos fantasia, faz de conta, queremos heróis de capa e espada.

Queremos mocinhos e mocinhas que sejam delicados, corajosos, impetuosos, justiceiros, sábios, divertidos, que gostem da vida, que não deem passos em falso — mas se derem, a gente perdoa —, que assumam suas fraquezas, que consigam rir dos próprios erros, que sejam do bem, e que tenham aqueles pequenos defeitos essenciais para que não os achemos chatos.  E queremos que eles enfrentem monstros em terras distantes, bandidos sem escrúpulos, escroques, governantes corruptíveis, os poderosos indiferentes e os vizinhos que não dão “bom dia”.

Mais do que “enfrentar”, queremos que eles vençam. Depois de quase perderem. Depois de anos presos em masmorras ou em solitárias. Depois de, na prisão, perderem a vontade de contar os dias. Depois de perderem a fé e de esquecerem que já foram felizes. Queremos que nossos heróis vençam a pior escuridão que já se viu. E saiam dela maiores, melhores, mais fortes, como aqueles amigos que conseguem sair da depressão. Ou da faculdade de Engenharia.

Estamos cansados dos números da Economia e das barbaridades do Estado Islâmico. E de fanáticos por comida fit. E da falta de empatia. Precisamos urgentemente de nossos heróis. Ou de tirar as capas e espadas do armário.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O TRISTE >> Carla Dias >>

Sim, ele é triste.

Ser triste é o que lhe confere o direito de ser pessoa, já que as outras pessoas não sabem reconhecê-lo de outra forma. É triste de tristeza sombria, das que levam sua vítima ao cúmulo da solidão.

Muitos querem entender como uma pessoa pode ser assim tão triste. Há quem passe horas a aconselhá-lo, que melhor seria se ele mudasse de ares, talvez de país. Quem sabe terapia, grupo de apoio, tarja preta, intervenção religiosa... Esportes? Teve até quem garantisse que isso era falta de intimidade e lhe oferecesse o décimo terceiro salário inteirinho para que ele, o triste, sofresse da alegria de se esparramar nos braços de uma mulher.

Aquele ser triste embrutecia o dia dos felizes de plantão, eles que nem conseguiam sorrir mediante a tristeza que possuía aquele ser. A tristeza dele se tornou tópico de todo o tipo de reunião, principalmente de condomínio.

Mediante o desejo pungente de consertá-lo, o triste até tentou e participou de uma série de eventos: churrascos aos sábados de amigos que ele não fez, almoços em família alheias aos domingos, sessões de carinhos na casa das meninas da Dona Lulu, shows de rock, funk carioca, sertanejo, stand up. Em todos os eventos, as pessoas o abraçavam e fotografavam. Criaram um perfil para ele em rede social que fez o maior sucesso. Mais de oitocentos desconhecidos se tornaram seus amigos.

Ainda assim, nada de felicidade.

Os felizes se tornaram mais carrancudos, tão incomodados que se sentiam por não conseguirem reverter aquele quadro. Tornou-se questão de honra fazer a felicidade do triste. A cada tentativa, um desapontamento.

Com o tempo, as pessoas foram desistindo de fazer o triste feliz. Revezavam-se nas visitas, mas em vez de palestrarem sobre as mil maneiras de arrancar dele a tristeza, sentavam-se ao lado dele, silentes.

O triste nunca compreendeu a necessidade gritante das pessoas de tentar lhe curar a tristeza. Na verdade, julga-se quieto, sem desejo por atos ousados, emoções explícitas. E mesmo sem nunca ter se sentido mal sendo quem é, foi visto como alguém quebrado, que, enquanto não fosse consertado, atrapalharia a existência dos outros.

Não, ele não é somente triste. Seu espírito se entusiasma, mas com coisas simples e cotidianas. Sua felicidade é silente, mas existe. As pessoas podem não reconhecer, por estarem acostumadas ao explícito, mas ele sente contentamento. Aventurou-se a explicar sua essência aos que tentavam ajudá-lo sem que isso fosse realmente necessário, mas eles não quiseram escutar. Continuaram a tentar moldá-lo, adaptá-lo, incluí-lo no que ele nunca desejou. Agora, sentam-se ao seu lado, tristes, infinitamente tristes, porque foram incapazes de compreender as nuances da sua felicidade.

Procurar a si no outro é diferente de conectar-se a ele.

Imagem: Visages © Hedda Sterne

carladias.com

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terça-feira, 8 de setembro de 2015

SURDEZ MUSICAL >> Clara Braga

Não importa o quão bem você escuta, com certeza seu ouvido já te pregou algumas peças e a maioria com certeza rendeu boas risadas. O meu clássico engano foi com um famoso ditado popular: "Quem canta seus males espanta"! Passei nem sei quantos anos da minha vida dizendo: "Quem canta seus mares espanta!" Um erro bobo, mas que faria muita gente surtar sem saber o que escolher: lavar a alma cantando junto às alturas aquela música predileta e nunca mais dar um alô para Iemanjá ou curtir uma prainha ouvindo um ipod tímido só batendo o pezinho no ritmo.

Mas nem só de ditado popular errado vive o homem, no caso, eu. Músicas também são alvos constantes de mudanças drásticas. Costumo me apropriar de uma piada de um desses humoristas e dizer que o parâmetro para saber se você tem ou não ouvido bom são as músicas do Djavan. Não entendeu? Eu explico.

Minha falha mais “grave” até hoje foi com uma música do Capital Inicial. Não vou falar quantos anos da minha vida passei cantando errado a letra de Veraneio Vascaína pois seria muito vergonhoso, mas a verdade é que eu não sabia o que era veraneio. Sim, eu sei, é uma daquelas palavras que todo mundo sabe o significado e você não, mas enfim, isso não vem ao caso. No início da letra, Dinho Ouro Preto diz: "Cuidado pessoal, lá vem vindo a veraneio, toda pintada de preto, branco cinza e vermelho". Como eu não sabia o que era veraneio, decidi que era uma avenida, então sempre cantei: "Cuidado pessoal com a avenida veraneio, toda pintada de preto, branco, cinza e vermelho". Nunca busquei saber onde ficava a tal da avenida, só sabia que não era em Brasília, já que ela tem esquina, então já fiquei mais tranquila.

O legal é o momento em que você descobre a letra verdadeira. Parece que seu ouvido desentupiu. Você fica se questionando como pôde ouvir uma letra tão absurda por tanto tempo. E se esse problema com letras de música não for inerente à raça humana, com certeza é genético. Minha mãe conseguiu fazer uma confusão tão louca com uma letra da Maria Bethânia que eu nem sei reproduzir, misturava palavras não existentes no dicionário português com outras que só os nossos ancestrais usavam. Já meu pai, fez Elis Regina se revirar no túmulo e Belchior estremecer. Enquanto ela cantava, "mas é você que ama o passado e que não vê", na música Como Nossos Pais, meu pai acompanhava: "Mas é você que é mal passado e que não vê". Sim, MAL PASSADO, tipo carne na churrascaria rodízio.

Então as pessoas se perguntam: mas será que as pessoas não percebem que essas letras inventadas não fazem sentido? Sim, percebem, e é exatamente nesse momento que nós voltamos a falar do Djavan. As pessoas percebem que algo não faz muito sentido, mas existe uma coisa na música chamada licença poética que faz com que coisas estranhas, e às vezes fora do que seria considerado a norma, sejam aceitas. Portanto, a regra é clara, se você canta uma música do Djavan e a letra tem tanto coerência quanto concordância, bem vindo ao time, seu ouvido não é muito confiável!


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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

ACORDA, MENINO! >> Albir José Inácio da Silva

O que diz o menino que dorme na praia? Talvez fale dos perigos do mar, da displicência dos pais. Ou de um assassinato a ser esclarecido.

Mas é só um menino. Não deveria nos dar esta sensação de naufrágio da humanidade. Há dias, não adianta acusar governos, etnias, religiões, porque a falta de ar não cessa.

É lágrima que não pinga, não seca nem escorre. É mais que um cadáver, é um assombro, uma dor insepulta de que tentamos nos livrar.

E ainda suspeitamos de nós mesmos.

Em nome dos deuses fazemos coisas que até o diabo duvida. Duvida e se defende, dizendo que não chegaria a tanto, embora comemore o resultado.

Queríamos não ter visto nem sabido — maldito fotógrafo, maldita web e maldita imagem que, mesmo escorraçada da memória, dorme no tapete da sala e à noite repousa no nosso travesseiro, naquela pose mesmo que o mar beijava.

Fica-nos a sensação de que Alá deu de ombros, Jeová lavou as mãos e, embriagados na bacanal do Olimpo, os outros também ignoraram o presente de grego numa praia do Mediterrâneo.

Enquanto isso, no Hades, dançando e atualizando Castro Alves com outras infâmias no mar, ri-se Satanás.

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domingo, 6 de setembro de 2015

O ÍNTIMO DAS COISAS >> Eduardo Loureiro Jr.

As coisas também têm seu íntimo.

Antigamente, eu me sentava aqui, ou acolá, e escrevia uma crônica em vinte minutos, assim como quem abre a torneira e a deixa aberta enquanto escova os dentes ou faz a barba. Era uma mistura de crença na abundância com tolice despreocupada.

Hoje não é bem assim. Hoje eu me pergunto se devo mesmo abrir a torneira. Já tem tanta água desencanada por aí. Eu mesmo, se empregasse todos os meus dias lendo aquilo que quero ler, não daria conta em uma simples encarnação. Então para que acrescentar mais palavras a esse mundo? Não seria a palavra, assim como a água, um bem a ser preservado, a ser utilizado com parcimônia?

Tem dias em que sinto vontade de ficar parado, bem parado, e só espreitar o movimento de tudo ao meu redor. O passeio do Sol bem que merecia um espectador atento que aplaude só no final. Mas existe o íntimo das coisas, e, entre as coisas, eu mesmo.

Meu íntimo é um labirinto de canos percorrendo paredes, subsolos, desaguando em canos maiores, também labirínticos, até o mar, esse labirinto absoluto de água sem necessidade de canos.

Antigamente, eu escrevia qualquer coisa e a publicava assim como quem mostra uma nova maravilha para a mãe coruja. Hoje aperto o botão PUBLICAR quase com vergonha de estar desperdiçando palavras.

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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

CONTAGEM AGRESSIVA >> Paulo Meireles Barguil


A primeira contagem que a gente aprende é a progressiva: 0, 1, 2, 3, 4, 5...

Ela nos permite quantificar objetos, brincar de se esconder...

Depois, a gente constrói a habilidade reversa, expressa na contagem regressiva.

Nos filmes, muitas vezes ela é mostrada quando é interrompida antes do seu final.

Há, também, a contagem agressiva, que é usada para mostrar a alguém a quantidade de coisas desagradáveis que ela, na perspectiva do contabilista, fez.

Ao avançar no tempo, cada pessoa está se aproximando do abismo, que é o passaporte para o próximo salto.

No anterior, choramos ao cruzar o despenhadeiro, enquanto os demais sorriam.

No próximo, quando estivermos atravessando o túnel, alguns chorarão.

Não por nós, mas por eles mesmos.

Desconfio que nessa viagem a gente sorri...

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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O PÉ DE MANJERICÃO >> Mariana Scherma

Toda vez que chego na casa dos meus pais, sou recepcionada por eles, claro. Mas também por um ser vivo que me comove e já virou o aroma lá de casa: um pé de manjericão. Eu saio do carro e ele está logo ali na rampa de entrada, pedindo pra que eu lhe dê aquele cheiro (alô, Bahia!) e eu dou um cheiro tão bem cheirado no manjericão que, praticamente, eu o inalo. Sim, eu cheiro manjericão. Mas é totalmente legal isso, confere?

Eu não lembro exatamente como aquele pé surgiu ali, de certo mami plantou uma mudinha que foi muito em frente. Mais em frente que eu no jornalismo, talvez. Ele é que deveria ser o orgulho da casa. No tempo seco, o pé dá uma murchada. No verão chuvoso, ele exala seu aroma de longe. De tão longe que chega até os vizinhos. E como minha casa não tem muro, os vizinhos vão lá pegar umas folhinhas para o molho e pizza de cada um. E você acha que o pé de manjericão se ressente de ser cutucado por quem não é de casa? Que nada! No dia seguinte, ele aparece ainda mais lindo e folhudo. E verdinho. Como é verdinho aquele manjericão.

Dia desses, mami começou a se chatear. O pé parecia que ia mesmo dessa pra melhor. Ela separou mudas, replantou, fez um carinho, sei lá a mágica que a mami fez, mas o pé virou uma floresta de manjericão. Ele só queria carinho, certeza. Já trouxe várias mudas para o meu apartamento, todas não duraram. Ou duraram dois dias no máximo. A culpa não é do manjericão. É da Mariana, que se esquece do sol, da água, do carinho e da fungada no manjericão. Quem sobrevive nesse mundo sem uma fungada decente?

O que eu acho mesmo é que aquele pé de aroma infinito é a representação do amor dos meus pais. Não há falta de chuva que abale. Não há terra seca que castigue. Não há terceiros que entrem no meio. É amor puro. Talvez por isso ele ganhe o terceiro abraço, sempre. Primeiro meu pai ou minha mãe, aquele que chegar primeiro. Depois, sou do manjericão. Pode parecer bobagem, mas manjericão pra mim tem cheiro de carinho. E que os deuses abençoem a pizza marguerita.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

HOUSE >> Carla Dias >>


Eu sei que frequentemente volto para o mesmo ponto. Mas estou tranquila a respeito, que depois de tanta vida, não acho que mudar esse aspecto irá beneficiar a ninguém, tampouco a mim.

Há três semanas, estive com amigos e falávamos sobre tudo. É o que acontece quando encontro com os amigos: perco o limite e abro a boca, principalmente se houver doses de café envolvidas. Assim, de música a novela, de tragédias alheias a questões pessoais, da época da adolescência ao momento este, agorinha mesmo, enfim, de tudo um pouco entra na conversa.

E sempre falamos sobre House...


Depois desse dia, decidi assistir novamente à série. As que eu estava seguindo chegavam ao fim e eu precisava dar um tempo em toda a informação que pipocava na minha cabeça.

Minha cabeça é esse lugar onde está sempre acontecendo alguma coisa, tipo um salão gigante cheio de pessoas falando ao mesmo tempo, tendo ideias ao mesmo tempo, exigindo atenção ao mesmo tempo.

Decidi que pararia com toda a maluquice do momento, apenas por alguns dias. De escrever os novos livros — sim, eu acabo sempre escrevendo dois ao mesmo tempo — , os textos em inglês para estudar o idioma, a leitura de livros — sim, eu sempre leio mais de um ao mesmo tempo – e minha mania de me apegar a certos filmes e assisti-los várias vezes seguidas. Entre isso e aquilo, há a minha rotina: trabalho que me toma quase doze horas por dia, a casa pra arrumar, a vida pra cuidar.


Pensei que eleger um único alvo para o meu interesse seria uma forma de relaxar mente e espírito, assim como combater a insônia, ao menos por um tempo.

Meu problema tem sido, desde sempre, a demasia. Às vezes, eu aceito me enganar e dizer que tem a ver com eu ser escorpiana. Sim... Eu uso essa desculpa. Mas o fato é que eu acredito completamente em mim, até cometer o primeiro exagero e me dar conta de que já foi... Eu passei do limite e me atrapalhei comigo mesma, mais uma vez.

House, M. D. foi uma série que adorei ter assistido, que me fez sofrer muito quando terminou. Comecei a assisti-la quando estava na quarta temporada, e nem foi porque me interessei pela série, mas porque descobri que no décimo quinto episódio da terceira temporada o Dave Matthews – sim, da Dave Matthews Band — participava. Só que sempre começo as séries pelo primeiro episódio, por mais tentador que seja ir direto ao ponto. Depois do primeiro episódio, eu já tinha sido conquistada.


Acontece que esse bate-papo com os amigos aconteceu há pouco mais de três semanas. Desde então, eu venho assistindo à série e estou no episódio vinte e três da terceira temporada. Isso significa que eu já assisti a sessenta e oito episódios enquanto trabalho quase doze horas por dia, escrevo dois romances, leio livros e tenho insônia. Nada mudou... Apenas o House entrou para a equação.

Tenho sim certo apego por determinados personagens. O médico gênio, excêntrico, sarcástico, viciado e sem noção é um deles. Por meio dessa figura amada e odiada, entre casos médicos e discussões insanas, há muito a ser observado. O aspecto humano é explorado em todas as vertentes, independente do que julgamos certo ou errado. Sem contar que o próprio ator que interpreta House é interessante em vários aspectos e isso claramente contribuiu muito com o sucesso da série.


Hugh Laurie é britânico, teve um programa de humor de grande sucesso com outro artista que eu adoro, o Stephen Fry, A Bit of Fry & Laurie. Tanto Laurie quanto Fry fizeram parte de um grupo de atores que incluía figuras como Emma Thompson e Kenneth Branagh. Assista Para o resto de nossas vidas (Peter’s Choice/1992).

Para o resto de nossas vidas

Ele é escritor com livros publicados. Além disso, é músico, lançou dois discos e fez um documentário muito bacana. Em Down By The River, Laurie mergulha no universo musical de Nova Orleans, trafegando pelo blues e pelo jazz.


O aspecto musical é algo que me agrada muito na série. Como Laurie, House é músico, talvez por isso a trilha sonora da série seja muito boa. Acontece de os pacientes também serem músicos, como no episódio nove da primeira temporada. Em DNR, um trompetista famoso tem uma doença que o deixa debilitado a ponto de ele não conseguir tocar. Também há o Half-Wit, que já citei aqui. Dave Matthews interpreta um pianista muito talentoso que começou a tocar depois de sofrer um acidente quando criança.


Criada por David Shore, House, M. D. é uma série sobre um personagem. Obviamente, ele está cercado de outros personagens interessantes, mas ele é o maestro e conduz a trama como a figura da qual os espectadores esperam qualquer tipo de loucura. House é um personagem que o espectador ama, às vezes odeia, mas certamente admira.

Tenho acompanhado a carreira de Hugh Laurie como ator e músico. Como artista versátil, ainda tem muito a oferecer aos que, feito eu, caem na conversa de um bom artista sem pestanejar.

E tudo bem se não der tempo de dormir...





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