segunda-feira, 31 de agosto de 2015

RUA 7 DE SETEMBRO >> André Ferrer

A história que eu tento escrever se passa em Brasília. Isso, de fato, tem se revelado uma das experiências mais terríveis para mim porque a capital do nosso país não têm ruas. Brasília tem códigos criptografados no lugar de ruas.

Para quem não é leitor contumaz de contos e romances — e muito menos escritor , pode parecer tolice. Não é.

Trata-se do tipo de coisa que interfere diretamente no legado de uma obra literária. Meses, anos, décadas depois de uma leitura, personagens e cenários memoráveis acabam sendo decisivos sobre o que, realmente, permanecerá.

Itinerário e gastronomia são o que há de marcante para mim numa história. A textura e os aromas de ruas e alimentos têm sido responsáveis pelas minhas melhores recordações. Ponto este que, sem dúvida, depende de um fator emocional e estilístico. Não basta, simplesmente, que se enumerem toques, cores, nuanças, ruídos, jogos de luz e sombra. Bem entendido: ruas e pratos devem ser peças e não acessórios da narrativa.

Livros de viagem não são contos nem romances. Definitivamente, guias de qualquer espécie entram naquela categoria de coisas evitáveis ou, no mínimo, sujeitas ao adiamento até que sejam tão necessárias, por exemplo, quanto uma ferramenta de trabalho. Um guia, no meu caso (e, sempre espero, no caso de qualquer autor de narrativas), não passaria de um esboço.

Eis a questão: o plano sensorial de um texto só dá conta do recado se a sensação fizer parte do repertório do leitor.

Já disseram que Brasília é outro mundo. Repetiram à exaustão. Eu concordo. Mas há de existir um eco qualquer de universalidade capaz de unir um leitor brasiliense que nasceu, cresceu e amadureceu na Shis Q1 7 Conjunto 2 ou, então, na Q10 Conjunto BD, e todos aqueles brasileiros que vivem numa das centenas de ruas 7 de Setembro espalhadas pelo país.


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sábado, 29 de agosto de 2015

VELHO >> Sergio Geia





Era só o que faltava. Se não bastassem os poucos cabelos a denunciar. Se não bastasse que esses poucos cabelos são poucos cabelos brancos e querem transformar sua cabeça numa Groenlândia. Se não bastassem os vincos que invadem sua cara por conta do afrouxamento da musculatura. Sem contar que esse afrouxamento muscular infelizmente não se limita à cara, mas se estende a outras partes do seu corpo, até aquelas que você só de pensar sente um calafrio. Se não bastassem os dentes que já não conseguem dar conta de um inofensivo amendoinzinho. Se não bastassem os amigos dos seus filhos te chamarem de tio. Agora até jogador de futebol denuncia que você está velho!?

Eis, amigo, a notícia do jornal que me chamou a atenção essa manhã: “25 jogadores que mostram que você está velho”. Que petulância! E o primeiro parágrafo desta crônica foi se desnudando na minha cabeça na mesma proporção em que a vontade de jogar a notícia no lixo crescia. No entanto, minha autoestima não iria se abalar com uma noticiazinha mequetrefe dessas, ah, não, e logo tratei de saber quem eram esses boleiros que com certeza, não eram do meu tempo.

Pensei nas partidas de futebol de botão que travava com meu tio lá na casa da minha vó. Ele tinha uns botões com fotos do Leônidas, do Pelé, do Garrincha, do Pepe, do Zito, jogadores que, por óbvio, conhecia, mas não vi jogar. Ele tinha um esquadrão branco que dizia ser o time do Santos, uma beleza. Mas eis que para a minha surpresa, nenhum deles estava lá. Tinha outros, aparentemente mais novos; bem mais novos.

O primeiro da lista, vestindo a camisa do Ituano, era o Gil Baiano. O cara teve sua melhor fase jogando pelo Bragantino num timaço dirigido pelo Luxemburgo que foi campeão paulista. Chutava forte, batia bem falta. Desse eu lembro.

O segundo era o Nilson. Um centroavante que apareceu no Internacional de Porto Alegre e que jogou no Palmeiras. Lembro-me de uma final, acho que foi em 1995, ou 1996, em que ele fez um gol no Corinthians. O Palmeiras era pior que o Corinthians, mas saiu ganhando, depois tomou a virada. É, o Nilson; desse eu lembro também. O outro era o Marcelo Passos, jogador do Santos, meio de campo, camisa 10, muito técnico. Parecia que tinha um potencial estupendo, mas não estourou. Lembro dele também.

Nasa: jogador do Vasco, campeão brasileiro em 1997 contra o Palmeiras, num time em que jogava o Edmundo. Sorato: também do Vasco, fez um gol no São Paulo em pleno Morumba numa final de brasileiro. Roberto Gaúcho: DESSE EU NÃO LEMBRO, NÃO!!! A notícia diz que era ponta-esquerda, jogou no Cruzeiro nos anos 90. NÃO, DEFINITIVAMENTE, NÃO SEI QUEM É. Gaúcho eu só lembro do Renato, do Ronaldinho, de um centroavante do Palmeiras que pegava pênalti, MAS ROBERTO GAÚCHO EU NÃO SEI QUEM É NÃO!!! Leto: desse eu lembro. Caíco: lembro também. Maisena: sei. Serginho Fraldinha: hum. Capitão: tá bom.

Resolvi parar de perder tempo com essas inutilidades, amigo. Principalmente quando mansamente me veio à cabeça uma palestra do filósofo Cortella, em que ele falava que a nova geração não tinha visto o Senna correr; e que quando o Senna corria não tinha celular, muito menos internet. E eu vibrava aos domingos com o Ayrton. Inutilidades, amigo. Inutilidades. Deixa desligar essa porcaria e ouvir Ray Conniff que eu ganho mais...


Ilustração: “Velho Homem em Tristeza” de Van Gogh


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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESTE PAÍS
>> Analu Faria

Todas as vezes que um veículo de comunicação anuncia coisas alarmantes do tipo “A inflação deste ano... / A seca que castiga o sertão nordestino... / A taxa de desemprego na região sudeste é a maior desde...”, eu fico imaginando o fim da frase como algo do tipo “… 1938 / a Segunda Guerra Mundial / a Revolução Francesa / a crise do petróleo/ o descobrimento do Brasil / sempre”. A frase então ficaria assim, exemplificadamente: “A inflação deste ano é a maior desde 1938”. Mas as frases ditas com entonação de quem soa as trombetas do apocalipse terminam  mais ou menos desta forma: “… desde o ano passado / ... da última quinzena / ... de 2011”, como em “A taxa de desemprego deste semestre já é a maior desde 2011.” Deveria haver um comentário final a cada reportagem dessas: "Rápido: corram para os bunkers.".

Há algum tempo, um estudo polêmico de um ex-missionário americano mostrou que uma tribo brasileira, os Pirahãs, não guardavam em histórias a memória coletiva ou individual que se estendesse a mais de duas gerações. Ou seja, se você vivesse nessa tribo, a história do seu povo, ou de alguém da sua família, só era contada da geração de sua avó até a sua. E quando a próxima geração viesse, e você morresse, da de sua mãe até a de sua filha. A pesquisa tinha foco na linguagem e não analisou apenas esse traço da cultura Pirahã. Mas deu o que falar, porque os achados de Daniel Everett (esse o nome do pesquisador) pareciam preconceituosos, segundo outros cientistas. Para um monte de gente, o tom do americano sugeria que os Pirahãs eram de certa forma inferiores a outros povos. 

Confesso que não li o estudo. Mas imagino, por diversão, se os Pirahãs fizessem uma análise antropológica dos nossos hábitos, com base nas reportagens jornalísticas e em nossas reações a elas. As conclusões talvez fossem algo do tipo: “Aparentemente, os brancos não guardam em histórias a memória sequer da geração anterior. E falam muito nas adversidades recentes como se seus pais e avós nunca tivessem vivido momentos ruins. Os brancos ficam muito preocupados com essas adversidades e às vezes chamam-nas de 'desgraça' (que parece ser uma contrariedade grande). Também amaldiçoam o tempo presente com frases mágicas, que parecem ter efeitos psicológicos gravíssimos (não sabemos dizer se os brancos percebem esses efeitos). Uma das expressões mais ininteligíveis é 'Desgraça pouca é bobagem!', dita, por exemplo, quando o branco chega em casa, percebe que recebeu o troco da padaria faltando dois reais e, na sequência, bate o pé na quina da mesa. Não queremos nos gabar, mas parece que nossa língua é mais eficiente que a dos brancos.”


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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

REPETÍVEL >> Carla Dias >>


Tudo se repete... Nós nos repetimos.

Até sonho que foi sonhado há pouco cai fácil no loop da existência. Você empresta o seu sonho ao outro, contando a ele os detalhes dos quais se lembra. Se não for sonho sonhado, mas sim construído, você desfia minudências, mas algumas guardadas somente para si, até que algum biógrafo — de profissão ou janela — o desvende.

Quando você escuta alguém dizer “mas conheço alguém que passou exatamente por isso” é como se morresse o ineditismo da sua história. O jeito é sorrir e compreender a complexidade da sua experiência com a versão de um contador de histórias de vida de outra pessoa.

Não à toa as pessoas buscam por quebrar recordes, ultrapassar limites, atingir o cúmulo da superação. Aliás, “superação” é uma palavra que não me cai bem, de tanto que vem sendo usada para justificar o óbvio. Acabou perdendo o cabimento, o sentido ficou esgarçado. Superação anda coisa digna de ibope, sempre inspira compartilhamento, após ler a manchete. Raramente a pessoa quer saber do caminho que levou a tal superação, da história, o todo. É durante o caminho que descobrimos o motivo da nossa repetição ser capturada, assim, num repente, pelo improviso.

Particularmente, os caminhos me interessam.

Mas a questão é que tudo se repete. Provavelmente, você dirá “eu te amo” ao mesmo tempo em que outras pessoas desse mundo, e logo depois, outras tantas farão o mesmo. Se a vida andar complicada, tendendo a sacanear sua existência, pode ser que outra pessoa diga “eu te amo” ao mesmo tempo em que você e para mesma pessoa.

Quem disse que a vida é fácil?

Repetição endossa certeza. Se todos dizem “eu te amo”, todos também tentam ser únicos ao fazê-lo. Nem sempre dá certo, mas quando dá certo, até canção digna de hit parade pode nascer. E filhos, claro.

Comédia romântica é repetição à exaustão. E por mais que você tente esconder, se o diretor é bom na repetição, e a trilha sonora corroborar, a comédia será de lindeza ímpar, como se fosse nova em folha.

Não é. Apenas o filme é novidade, não as armadilhas do amor e do cinema.

Tem coisa que entristece por se debruçar — folgadamente — na repetição. Guerras não mudam de tema, apenas de ano e de modelo. Violência se repete em releituras inacreditáveis. Neste momento, alguém diz tolices para justificar levantes. As mesmas tolices que serão proferidas para convencer ignorantes de que a guerra vale a pena.

Não à toa, brindo aos que sabem repetir com graça, enquanto buscam a descoberta. Aqueles que voltam ao ponto e redescobrem o assunto.

A repetição pode existir, contanto que exista também o risco de sua consequência ser inédita. Contanto que ela nos sirva como aprendizado.


Imagem © Carlos Eduardo Drexler

carladias.com



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terça-feira, 25 de agosto de 2015

ALGUÉM INDICA? >> Clara Braga

Lembro de entrar na faculdade e começar a conviver com aquelas pessoas que você admira pelo conhecimento que elas dominam. Eram professores que, a cada palavra que você dava, tinham um livro para lhe indicar ou algo interessante que você deveria ver já que gosta disso e daquilo. Guardo até hoje listas de livros e filmes que tenho que ver. Sem contar as ementas das disciplinas, que vinham recheadas de indicações bibliográficas. Nossa, aquilo era uma delícia, ir à livraria atrás de um livro com cheirinho de novo, pronto para ficar todo marcado com anotações, não tem preço.

É claro que alguns livros são caros, principalmente os de artes, não dava para cumprir as listas de bibliografia de todas as matérias todos os semestres. Mas não tem problema, fui aos poucos montando minha humilde, porém amada, biblioteca. Biblioteca que me auxilia muito na preparação das minhas aulas. Cada novo tópico a ser tratado é uma nova pesquisa nos meus livros. Pego uma informação desse, complemento com uma informação daquele outro e por aí eu vou, lendo e me informando sempre para não ficar para trás.

Às vezes, demoro muito mais do que gostaria preparando uma aula, mas é impossível ler uma informação interessante em um livro e não seguir lendo. Quando vejo, a aula de arte rupestre já está quase chegando ao modernismo, aí não dá!

Aulas preparadas, é hora de dar aquela relaxada. Nada como um bom livro de cabeceira para embalar o sono que vai chegando. Qual livro vou ler hoje? Educação artística? Sintaxe da linguagem visual? Semana de 22? Didática da arte?

É… parece que a preocupação com a simples porém amada biblioteca foi tão grande que acabei esquecendo que nem só de estudos e trabalhos vive o homem, o ócio deve sempre ser muito bem vindo nos momentos certos. E é por isso que a crônica de hoje é quase um apelo: eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas eu estou aqui humildemente pedindo que me indiquem livros para momentos de ócio, por favor! É urgente, não consigo mais ir dormir lendo sobre a Semana de Arte Moderna e ter que levantar para fazer anotações no meio da noite. Preciso de livros que me permitam desligar, parar de pensar em trabalho e pensar que entretenimento também é cultura. 


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domingo, 23 de agosto de 2015

INIMIGO PÚBLICO Nº 1 >> Eduardo Loureiro Jr.

Sei que o leitor não aguenta mais escândalo, que vem até o Crônica do Dia desejando um refresco das notícias estarrecedoras que circulam pela grande mídia. Mas é meu dever noticiar um absurdo...

O Mar. O Mar continua lá. Entra governo, sai governo. Entra esperança, sai esperança. E o Mar continua lá, absoluto, intocável. Dele ninguém fala. Ninguém atenta para seu líquido latifúndio. Ninguém se indigna com a sua desfaçatez: faz de conta que está tudo azul, mas logo se percebe a fortuna que guarda em verdes esmeraldas.

O Mar vadia o dia inteiro e a noite inteira. É um vaivém sem fim. Puxa o que quer puxar, força o que quer forçar e ninguém fala nada. Fazemos de conta que ele não existe. Diante de nossa indiferença, ele atrai para si os mais ociosos e odiosos tipos: surfistas, pescadores (de vara e de rede), andarilhos que tramam ardilosas e crônicas ironias.

Enquanto se discute esse ou aquele projeto de lei, enquanto se emenda a constituição aqui e ali, enquanto se bate panela, enquanto se delira em impeachments, o Mar continua na sua onda, se locupletando de plataformas de petróleo e tesouros de piratas, vivendo na maior zona do pré-sal, se espumando, ressacando. Ninguém se lembra que seu principal assessor usa um tridente. A bancada evangélica mete o pau nos homossexuais e faz vista grossa para a devassidão marinha.

E o Mar só lá... se refestelando. Nem aí pra jogar o lixo no cesto. Se um arqueólogo ou um historiador de migalhas se desse ao trabalho de investigar uma beira de mar qualquer, ulularia diante do óbvio: o mar bebe muito (água, leite, refrigerante, vinho, uísque), vê muita TV (de última geração, já que os tubos pesadões ele joga todos na praia), toma banho de lua (quantos frascos de água oxigenada!) e, como se não bastasse, ainda engole gente e cospe só as sandálias havaianas. Sem fiscalização, sem denúncia, sem que nenhum apresentador de programa policial se esgoele e encha os bolsos de anunciantes.

Então estão avisado. Deixem a arraia miúda em paz. O alvo a ser visado, o inimigo número um do estado, não é outro, não é pequeno nem é de hoje. Canalizemos todo nosso ódio para quem de fato o merece: o megalomaníaco, o escandaloso, o exorbitante Mar.

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sábado, 22 de agosto de 2015

TRAIÇÕES EM TERAPIA >> Cristiana Moura


Ontem mesmo eu conversava com este colega, trocávamos experiências profissionais. Rodolfo é um terapeuta renomado por esta terra. Discutimos alguns casos. O compartir profissional com ele é sempre muito rico e só nos vemos vez em quando — há de se aproveitar. No entanto, mais do que a riqueza de experiências, o colega sempre me surpreende com sua atuação. Falo daquelas surpresas parecidas com aqueles sustos em que a gente para de respirar por alguns curtos, porém longos segundos.

É que Rodolfo, quando foi para o Sul, foi aluno do analista de Bagé. Vocês já devem ter ouvido falar. Trata-se de um amigo do Veríssimo,  terapeuta controverso mais que conhecido por aquelas bandas. Bagé é um sujeito sem papas na língua, um tanto rude e com métodos, vamos dizer, de certa forma diferenciados.

Pois meu colega contou que o que mais tem ouvido no consultório, nos últimos tempos, são histórias de traições. Pacientes que haviam sido traídos, mas principalmente, pacientes que traíram seus companheiros e companheiras.

— Ah, Cris, meu consultório anda parecendo um confessionário!

— É...

— Pois é. Ontem mesmo, o cabra olhou pra mim e se pôs a confessar sua história. Falou do quão irresistível é a mulher com quem ele está saindo. Justificou-se contando do desinteresse sexual da esposa. E eu ali, ouvindo. Até que, olhando-me de baixo para cima como uma criança que destruiu o brinquedo do irmão, ele disse: — Doutor, fala alguma coisa, vai ficar aí me olhando com essa cara de paisagem? O que eu tenho que fazer? E esperou a resposta como quem aguarda uma penitência seguida da absolvição. Pois Cris, sabe o que eu respondi?

— Nem imagino — eu disse. Mas sabia que ouviria, naquele momento, uma intervenção que só um aluno de Bagé poderia fazer.

— Cris, eu disse o seguinte: Meu filho, reze vinte Pai Nossos, dez Ave Marias, cinco Salve Rainhas, pague o dobro do valor da minha consulta e está tudo resolvido.

— Amém — pensei.



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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O BAÚ >> Paulo Meireles Barguil

Engana-se quem pensa que o baú era usado somente em viagens.
 
De fato, ele se constituía num guarda-roupa portátil.
 
Além da praticidade, outras virtudes suas eram a durabilidade e a discrição.
 
Vários modelos e tamanhos, no passado e no presente.
 
Baú da felicidade: bilhete premiado para um futuro melhor.
 
Felicidade no baú: músicas, lembranças, sentimentos...
 
Cadeado, chave, segredo, lacre: tentativas de proteger quem está fora.
 
Melhor é deixar o baú aberto: quem quiser que olhe.

Quem tiver coragem que mexa.


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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

SOBRE ENVELHECER E SER FORTE >> Mariana Scherma

Se o problema fosse só envelhecer, beleza. Uma coisa é superar o seu cabelo branco, as suas marcas de expressão, aquela ruga que só engrossa perto dos seus olhos e o seu bumbum que, por mais que você faça os agachamentos mais torturantes na academia, não é o mesmo de um tempo atrás. Com esses “problemas”, a gente se acostuma. Descobre outras qualidades e segue a vida. O autoenvelhecimento é isso. Mas e quanto a ver seus pais ficarem cada dia mais velhinhos e ter que admitir que eles não são eternos?

Essa resposta aí eu não tenho. Bem que queria. Uma coisa é aceitar o tempo passando pra você, mas para eles? Poxa, Deus e demais senhores aí da cúpula de cima. Encarar que o ser humano, em geral, tem suas fraquezas em relação aos anos que só correm é quase poético. Mas notar que seus pais enfraquecem com a idade é tenebroso, dói na alma. Essa sinceridade de agora é porque, mais uma vez, meu pai (que também faz bico de meu ídolo, meu grande amigo e meu mestre) precisa encarar mais uma cirurgia. Até hoje, meu dia mais triste foi a primeira cirurgia que ele fez. Superou. Ficou bem.

Com essa vai ser a mesma coisa. O problema é sentir a angústia dele e não poder pegá-la e jogar fora, sabe? Queria dizer para o meu pai que ele vai ser eterno — eterno, lúcido e forte. Queria deixar bem claro que ele não precisa ter medo, que já, já o medo passa. Mas como se eu também estou morrendo de medo por dentro? Disfarço. A sorte é que meu otimismo pesa mais que o medo. Queria avisar que os únicos problemas que ele vai sentir na pele são as derrotas do Corinthians, mas não dá.

Hoje só consegui dizer que ele é o homem da minha vida. Insuperável. Insubstituível. O cara. Pra mim, ele é eterno e imbatível. E ele vai ficar mais imbatível depois dessa. O mundo anda muito cruel, precisa do meu pai pra deixar a vida mais bem-humorada, mais inteligente. A crônica de hoje está curtinha porque as palavras não estão chegando fácil. Mas vai melhorar. Se nada é eterno, a angústia também não pode ser.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

AOS QUE PERGUNTAM >> Carla Dias >>


Vento me leva, inquietude me engoda a alma, e se às vezes tenho vontade lancinante de sumir, assim, sumida, de desejo de colocar pés em Marte — ou no Suriname — é porque me falta repertório para estrear shows particulares aos órgãos competentes.

Não sei sambar obediência cega. Desapegar do respeito — o recebido e o concedido. Às vezes, parto de mim, porque preciso de trégua. Quando volto, inteira, com direito a todos os ângulos da minha benfazeja rotina de acolher silêncios... Antes de dizer o que — respiro fundo, depois vem o dito. Daí que abraço canções e preces. Deito-me com amores vãos e me enrosco em ciladas emocionais.

Às vezes, falta-me delicadeza ao engolir sapo. Descabelo-me, então vou ao cabeleireiro. Ele reclama que quase nunca apareço, enquanto sorri ao contar dinheiros; eu pronta para enfiar meus cabelos cuidadosamente ajeitadinhos debaixo do chuveiro, assim que pisar em casa. Então, chorar fascínios.

Às vezes, falta-me traquejo.

Como naqueles minutos — quase vinte e sete — que gastei anotando informações importantíssimas, definitivamente necessárias, completamente descartáveis logo que se desliga o telefone. Não adianta ligar novamente e exigir do atendente o seu tempo de volta, fornecendo-lhe o número pra lá de correto daquele protocolo pra lá de necessário. Perdeu-se... Nem mesmo foi em Málaga.

É bom saber que protocolos não funcionam debaixo d’água. Também não funcionam quando você necessita de amparo. Protocolos são pílulas para se domar quem anseia por resposta e reparos. É uma versão do unilateral.

Para falta de amparo: espargir-se. Para o excesso de zelo: rio Amazonas.

Há tempos em que desejo destrinchar cordilheiras, assim como beber de fontes, emocionar-me de campos e desertos. Preencher-me com esperas. Em outros, basta-me o quarto de dormir... O debaixo dos cobertores... Os sonhos inventados... Os livros de cabeceira.

Não raramente, coleciono pequenas loucuras, como aquela, a mais doce e menos dócil de todas. A que me leva pela mão por esse caminho acidentado das apostas. Quanto? Dez mil carinhos, duas mil mágoas, uma centelha de amor genuíno. E a brutalidade de tantos mil desapontamentos. Essa pequena loucura que se faz autora de grandes mudanças. Um dia ela ainda me levará para Calcutá, quiçá Vila Velha.

A senhora e seu sorriso contido pendurado em lábios secos e pálidos. Ela passa a mão pelos cabelos, tenta ajeitá-los, como se houvesse maneira de torná-los menos selvagens. “Só lhe fiz uma pergunta para saber mais a seu respeito, para analisar se você está apta à vaga oferecida”.

Ela repete a pergunta da qual dependerá se sim ou se não, se eu sirvo ou não para o trabalho oferecido.

Quem é você?

Perdoe-me, mas nunca lhe disseram? Andar por aí a fazer tal pergunta é como se colocar à disposição para receber resposta que nem sempre cabe em relatórios. Respostas que podem ser muito mais longas e complexas, porque não há quem consiga respondê-la sem enveredar por todos os cantos de si.

Conto a ela porque estou aqui, ofereço-lhe informações que constam na minha ficha. Falo sobre a importância de conseguir um emprego, da funcionária dedicada que sempre fui e as experiências que acumulei, sobre as buscas que pontuam minha existência profissional. Enquanto isso, dentro de mim eu ainda discorro sobre a resposta a tal pergunta.

Quem eu sou?

Sou das que, se pudesse, iria com o vento até chegar ao Saara. No deserto, plantaria meus medos e os deixaria por lá, até se tornarem cactos. Até darem flores. Até se tornarem oásis.


Imagem © Richard Diebenkorn

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terça-feira, 18 de agosto de 2015

AQUELES NOMES >> Clara Braga

Neon teve um rolo com a Pólen, pena que não deu certo, imaginem só os nomes dos filhos! Provavelmente seria algo como o nome da filha daquela outra mulher, a Floresta!

A amiga grávida sempre quis ter uma filha para chamar a menina de Adrenalina. Como? Adriana Lina? Não, Adrenalina mesmo! Imaginem o alívio quando ela disse que sente estar esperando um menino e o nome será João!

Aquele colega antigo de escola que eu nunca mais vi parece que teve uma filha, não vejo a hora da menina ter idade para ter Facebook e eu possa descobrir o nome dela. Lembro que o sonho dele era ter uma menina linda para batizá-la de Feia!

O Letisgo e a Madeinusa nunca chegaram a se conhecer, graças a Deus!

Aqueles alunos com muitas consoantes juntas no nome fizeram a professora repensar, chamada para quê? Juro que estou vendo todos aqui!

A Primavera só é Clara porque não pôde ser Primavera Prateada!

A Raquesh, por intervenção da avó, se chama Ágatha. Se ainda estivéssemos na época do ICQ ou do mIRC, provavelmente seria Hta ou A_gata!

Enfim, poderia seguir com uma lista interminável de nomes que não são comuns, e inevitavelmente passaria por Zabelê, Nanashara e Sarah Sheeva. Nos perguntaríamos como elas puderam continuar com esses nomes e afirmaríamos sem nenhuma dúvida: se fosse eu, já teria trocado de nome! Mas será mesmo?

Nome parece ser isso, a princípio só esse conjunto de letras que nos identifica, mas no final ganha idade, cheiro, cor e sabor. É parte da nossa identidade, e por mais diferente que pareça, a Floresta não seria a Floresta se ela se chamasse Maria. 



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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

ALGUNS MILÍMETROS >> André Ferrer

Você conhece os Beatles. Acha os caras incríveis. Depois, descobre George Martin.

Esse tipo de coisa sempre me fascinou. A maneira como as pessoas se manifestam, boas, más, geniais, medíocres, nunca se esgota em si mesma. Todo relógio esconde um mecanismo perfeitamente explicável no interior da carcaça. Seja qual for a maravilha do comportamento humano e da técnica, malgrado a dissimulação e o orgulho do artífice, pode ser explicada, analisada, sintetizada e aprendida desde que alguém se disponha a fazê-lo.

Entretanto, abrir o relógio e desvendar o seu mecanismo é, muitas vezes, visto com estranheza pela sociedade. Qualquer santo, mártir ou gênio, afinal, merece todo o respeito e reverência.

Não! Nada disso. Todo Niemeyer tem atrás de si um Lúcio Costa.

Crânio desenhado por Da Vinci
O espírito revolucionário da maior obra de Stendhal (1783-1842), O Vermelho e o Negro, é exatamente esse. Julien Sorel, o protagonista, ousa abrir a carcaça da elite a fim de elucidá-la. Claro, para depois empregar o conhecimento em benefício próprio. Sorel galga os degraus da sociedade francesa pós-napoleônica com o elã de um soldado raso (Julien, na verdade, flertava com a carreira militar e a religiosa, duas formas de ascensão social) rumo ao trono de um império. O cânone, evidentemente, já vinculou Sorel a tudo quanto é exemplo de arrivista. O self-made man da cultura norte-americana, é claro, já foi comparado ao personagem em um sem-número de trabalhos acadêmicos. Aliás, um verdadeiro prato cheio nessa história de violação de relógios e aprendizado é a classe média ianque na sua incansável busca do Sonho Americano.

Jobs foi genial, a Apple simplesmente não seria a Apple sem o cara. Ou, pelo menos, é o que você pensa até estudar um pouco mais e conhecer Steve Wozniak.

Isaac Newton (1642-1727) mudou o mundo com as suas três leis. Entretanto, transmitiu a importância da honestidade e da transparência intelectual. A célebre frase que, hoje em dia, fronteia a página inicial do Google Scholar, If I have seen further it is by standing on the shoulders of Giants (Se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes), está numa carta de Newton para o também cientista Robert Hook (1635-1703), datada de 5 de fevereiro de 1676, e foi inspirada numa metáfora criada por outro intelectual, Bernard de Chartres (data de nascimento desconhecida-1124). Em latim: “nanos Gigantum humeris insidentes”.

Pense bem. O motivo de as coisas e as pessoas serem como são, boas, ruins, extraordinárias ou sofríveis, pode estar além do facilmente notável. Na verdade, alguns milímetros após o ponto ao qual você consegue chegar todos os dias.


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domingo, 16 de agosto de 2015

MAIS UMA PASSEATA >> Whisner Fraga

Como não achamos passagem aérea a preços razoáveis e como tínhamos de conhecer o sobrinho de dois meses, resolvemos encarar os seiscentos quilômetros de distância de carro mesmo. Claro que viajar na melhor rodovia do país ameniza todo o stress que a direção pode causar, principalmente quando vencemos longos percursos. O paulista adora dizer que tem as melhores pistas do Brasil a seu dispor. Não é mentira. Mas a que custo?

Os valores dos pedágios na Bandeirantes, na Anhanguera, na Castelo Branco, na Ayrton Senna, são abusivos. Gastamos, de São Paulo a Uberlândia, aproximadamente cem reais. É muito dinheiro. Claro que isso se deve ao modelo de concessão do estado, que foi malfeito às pressas. Os paulistas, normalmente cidadãos de classe média, no mínimo, não se queixam. Pagam com gosto, pois podem se deslocar com segurança e conforto. Ora, eu gostaria de segurança e conforto a preços justos!

O que estou tentando explicar é que a conta invariavelmente cai nas costas do consumidor, mas não há muito o que fazer quando esse mesmo consumidor aceita pagar, passivamente, o preço. Claro que reclama no Facebook, mas não vai às ruas por tão pouco. Normalmente as ruas servem para reivindicar abstrações: “fora presidente”, “volta ditadura” e assim por diante. Não queira que se encontrem grandes debates em uma passeata.

O que não quer dizer que o povo se tornou menos informado. Lembram-se do Collor, quando milhares de adolescentes mal sabiam o que acontecia e foram, caras pintadas, fazer história? Há motivos para uma boa discussão: o sistema de segurança do país e dos estados (recentemente algumas cidades da grande São Paulo foram alvo de chacinas), o projeto pessoal de vingança de Eduardo Cunha, as quebras das promessas de campanha da presidenta, as implicações que a volta dos militares ao poder trariam, a reforma política.

Mas a população em geral continua mal informada. Porque usa meios suspeitos para se manter a par dos fatos. Assim, os boatos se disseminam ferozmente. Isso sim, talvez com mais eficácia que nos anos 1980 ou 1990. Se até pessoas sérias, intelectuais, caem na armadilha de não checar informações antes de disseminá-las! Prova disso é a quantidade de pessoas que foram pegas na história do bebê que ficou cego com flash. O antídoto é simples: usar o google para confirmar as notícias que caem em nossas redes de conhecimento antes de tomá-las como verdades. Partindo dessa ação simples, quem sabe um dia conseguiremos abaixar os preços dos pedágios?

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sábado, 15 de agosto de 2015

SEBASTIÃO, O SACRISTÃO >> Sergio Geia





O Bastião daquela cidadela tinha um metro e meio de altura, cabelos raspados nas laterais com um tufo acinzentado no meio — no melhor estilo milico —, a simplicidade valiosa de um camponês. Quando a bagunça atingia níveis estratosféricos no salão paroquial, ele aparecia, mas não dizia nada. Sua presença impunha respeito, apesar do tamanho, talvez um pouco pelo medo que sentíamos daquele baixinho e do que ele seria capaz, tudo num começo de andança pra muitos. Depois nos tornamos amigos.

O medo vinha mais de suas rugas. Bastião já devia ter passado muito aperto nessa vida, pois tinha nos olhos, escondidos atrás de lentes garrafais encaixadas numa armação antiquada, a expressão cascuda de quem já desbravara densas matas, uma espécie de Villas Boas suburbano. Ficávamos a imaginar, sentados nos jardins da Santa Teresinha, como deveria ter sido a vida daquele sujeitinho de pouca fala, de olhar sério e de raros amigos.

Lembro-me de uma vez em que os coroinhas foram denunciados por um jornalista na rádio AM local, por estarem destruindo a praça, quando na verdade apenas brincavam de esconde-esconde. Bastião me encarou todo sério e sem pestanejar me surpreendeu com seu sorriso lacônico: “Ô Nersinho! (ele tentava encontrar meu nome, mas nunca acertava; na verdade queria dizer Serginho, mas saía Nersinho) Isso é coisa de desocupado”.

Quando ia bater o sino, do altar nós o víamos subir a pequena escada que nascia no coro e terminava na torre. Pensávamos: “Lá vai o Bastião repicar o sino na hora da consagração”. Subia devagar, quase parando. De vez em quando, parava mesmo. Parava para ouvir o padre falar, tudo muito no seu jeito tartaruga de ser, na velocidade que a vida deveria seguir, mas não segue.

As intenções da missa eram marcadas num papel tosco e escritas à mão. Hoje não, tudo é digitado. Mas naquele tempo, antes da chegada da máquina de escrever, os garranchos do Bastião tomavam lugar de honra na mesa do altar. Sinceramente? Não sei como o padre conseguia ler aquilo tudo sem errar o nome de alguém.

Outra mania do Bastião que não me sai da memória era pendurar uma caneta Bic atrás da orelha. Um jeito fácil e prático de tê-la sempre à mão. Era um costume de muita gente. Hoje não. As canetas não vivem mais atrás das orelhas.

Sebastião devia ter uns setenta quando o conheci. Vivia mastigando sei lá o quê, parecia chiclete. Na verdade, não tinha um de nós que não apostava na hipótese de Bastião estar comendo hóstia às escondidas. Não as consagradas, é claro, mas aquelas que eram apenas pão em formato de hóstia, e que ficavam no armário da sacristia aguardando o momento da consagração. Mas haja hóstia, porque ele mastigava sem parar. Até que padre Leite, outro brincalhão, falou um dia que Bastião mastigava a própria língua.

Pois me lembrei de Bastião outro dia e de todas as suas manias, isso às quatro da manhã. Eis que, sonhando que tinha nas mãos um poderoso X-Tudo lá do Toninho, quase arranquei um pedaço da língua no melhor jeito Sebastião de ser.


Ilustração: Santuário de Santa Teresinha, Taubaté-SP, Ricardo Montenegro, Ateliê Montenegro.




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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O BOMBOM SONHO DE VALSA DE IRINEIDE
>> Zoraya Cesar

Liberdade. Que estranha palavra, aquela, sussurrada pelos desvãos e frestas da casa, como um anátema, maldição, coisa do demo. Uma ilusão, que colocava as pessoas a se perderem pelo mundo, sem eira, à beira do precipício. 

“Mulher com liberdade vira mulher à toa”, dizia o severo e sisudo pai de Irineide. A mãe, tão carinhosa, tão alegre e risonha, não gastava tempo com palavras ou sermões. Preferia brincar com a filha e escondia bombons Sonhos de Valsa para que Irineide os procurasse e depois os comessem, juntas, escondidas, para que o pai não desaprovasse a comilança e a bagunça. Era o momento mais feliz da vida da menina.

Com o tempo, as frequentes e acerbas brigas entre o casal foram minando a alegria da mãe, as brincadeiras, os risos e os bombons. Passava horas em frente à janela, triste, ensimesmada. Para Irineide, a mãe lhe parecia um frágil pássaro desesperado, engaiolado num espaço muitas vezes menor que seu próprio corpo. 

Era tarde de outono, o vento soprava pela janela semi-aberta, soando como uma coruja sonolenta, u-uh-u, levando folhas e flores para dançar ao som de uma música inaudível. Irineide observava, encantada, aquele colorido e alegre bailar, quando a mãe entrou no quarto com um bombom Sonho de Valsa nas mãos. A criança comeu o bombom, o coração exultante, os olhos fixos na mãe, que desamassava delicadamente o celofane, enquanto pedia-lhe que jamais deixasse de procurar sonhos de valsa. A menina não entendeu, mas escutou. 

Irineide nunca mais viu seu pequeno pássaro. A mãe, constantemente reprimida e infeliz, bateu asas, voou, levada pelo vento outonal. 

O pai se vestiu de luto e amargor por anos, nunca mais se casou. Baniu da casa toda e qualquer lembrança da mulher e proibiu que pronunciassem seu nome. Dedicou-se à farmácia, da qual era dono, e a podar, sistemática e calculadamente, todo e qualquer devaneio por liberdade que Irineide pudesse ter. A menina, de personalidade dócil e serena, foi criada debaixo do medo da desobediência e de contrariar o pai, coitado, já tão sofrido. Fazia tudo para agradá-lo e diminuir-lhe a dor de ter sido abandonado sem explicações. 

Assim que ela aprendeu a fazer contas, o pai a colocou como sua assistente na farmácia. E, quando percebeu que os hormônios da adolescência poderiam ameaçar o seu reinado, simulou uma doença que carecia de muitos e esmiuçados cuidados. Irineide não tinha tempo nem ânimo para se ocupar com nada que não fosse o negócio, a casa e os cuidados com o pai.

A vida continuou seu curso. 

Alguns anos depois, cansado de bancar o doente, o pai engendrou outro golpe para manter a filha sob seu tacão. Convenceu-a a se casar com o sapateiro, um hipocondríaco que não saía da farmácia — por motivos óbvios. Irineide não sonhava com liberdade, nem sabia o que era isso, mas gostou da ideia de ter a própria casa, ser dona de seu tempo, voltar a estudar. 

Casou-se, pois. E a vida continuou seguindo — como sempre o faz, até ser interrompida. O marido, assim como o pai, acreditava que mulher ocupada não pensa bobagens. E Irineide, ensinada desde sempre a ser submissa e obediente, jamais questionou os dois homens da casa. A liberdade levara sua mãe embora, não devia ser coisa boa mesmo. 

Quem puxa aos seus não degenera, dizem. Irineide podia ser uma marionete nas mãos do pai e do marido, mas não nascera estúpida. Herdara inteligência e sensibilidade suficientes para perceber que havia algo errado em sua vida, muito errado.

O outono dourava a tarde lá fora. Irineide estava inquieta, incomodada por uma angústia indefinível e poderosa, que não cabia em seu peito. Batia com o corpo nas paredes, como se tivesse perdido a noção de espaço, tal qual um pássaro grande em uma gaiola pequena. 

Resolveu faxinar o escritório do marido, aquele ser que não lhe dizia nada e a entediava de morte. Lá encontrou, camuflada embaixo de um móvel, uma pilha de revistas pornográficas, de viagens, carros, tudo o que o marido dizia abominar. Moralista hipócrita, pensou. 

A súbita consciência de que havia vida além daquelas paredes, de que fora usada pelo pai e pelo marido por todos aqueles anos, abriu, no coração de Irineide, um abismo insuportável. Em seu quarto, pegou, escondida atrás do espelho, a embalagem daquele último bombom Sonho de Valsa que a mãe lhe dera. Amassou-a com as mãos e chorou, chorou, chorou. De ódio, pela vida perdida; de nojo, pelas noites de sexo sem amor; de raiva da mãe, que a abandonara nas mãos de um pai obtuso, egoísta e, tinha ela certeza, mentiroso; de sua própria passividade. Nesse momento ela compreendeu a atitude da mãe: às vezes, a fuga é a única saída.

O vento soprava pela janela, um som de coruja sonolenta, u-uh-u. Irineide  teve ímpetos de sair porta afora e ser uma folha ao vento, sem rumo e sem sentido. Sua mãe pagara um preço alto pela liberdade. Teria valido a pena? 

Arrumou uma mochila com poucas roupas e o essencial. Pegou todo o dinheiro que conseguiu, do pai, do marido e do caixa da farmácia. Deixou um bilhete simples: “Vou sumir no mundo, que nem a minha mãe. Não me procurem, que eu não volto. Adeus”. 

E saiu ao encontro do vento, uma folha de outono, solta, dançante. 

Na rodoviária, comprou uma passagem só de ida para o Nordeste. Viveria sem amarras invisíveis. Venderia peixe na praia. E bombons Sonhos de Valsa. Muitos sonhos de valsa.


Amigos, estou de férias, volto a publicar no dia 11 de setembro. Até lá!



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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

PARA ANGIE, COM UM NÓ NA GARGANTA
>> Analu Faria

O Google Tradutor diz que “outcast”, em português, quer dizer “exilado”. Não acho que a tradução faça jus à força da palavra na língua inglesa. Quando penso em Angie, sempre penso em “outcast”, não em “exilada”. Exilados são gente expulsa. Angie não foi expulsa. Veio ao Brasil por vontade própria. Mas sempre me pareceu que tinha seu lugar ao sol subtraído, onde quer que estivesse, talvez porque tivesse um coração enorme e as “qualidades sociais” erradas.

Acho que o mundo tem “outcasts” que estão no mesmo país, no mesmo grupo social, dentro da própria família. “Outcasts” são os que não corresponderam às expectativas. Os que estão no mundo da lua, os intensos demais, os que não se encaixam. Os que, muitas vezes, veem o mundo com a tristeza e a alegria que ele realmente tem. Gente honesta demais (e, portanto, frágil demais) e que talvez também tenha a cor “errada”, os gostos “errados”, o peso “errado”, a orientação sexual “errada.” Gente que comete o erro de falar livremente, de não ter a malícia dos “vencedores”. Gente que acredita nos que as crianças acreditam. Angie tinha alguns desses “erros.”

A vida para os outcasts não é fácil. Há uma dor de sentir que não se está onde se deveria estar. Talvez por isso Angie tenha vindo para o Brasil. Claro que encontrar um amor por aqui ajudou. Claro que deixar um passado difícil para trás contribuiu. Mas, mesmo que não fôssemos melhores amigas e eu não soubesse muito sobre a história dela, eu via uma inquietação que a empurrava para frente, para outros lugares, outros empregos, outros projetos. Desconfio que viver no Brasil, mesmo sem documentos, era resultado dessa inquietação. Havia nela uma procura que, aparentemente, estava chegando ao fim pouco antes de sua morte. No dia em que faleceu, Angie publicou em seu perfil no Facebook que estava encontrando uma certa paz em voltar ao catolicismo. Ia à missa todos os dias.

Rhiannon Khrystyan Black, a Angie, era uma americana vivendo no Brasil, lutava contra uma depressão profunda, morreu de infarto, aos 42 anos, no fim de julho deste ano, no interior do Paraná. Sabia o valor da amizade, dava conselhos sensacionais, dos engraçados e dos bonitos. Não suportava que alguém se aproveitasse da vulnerabilidade alheia, torcia o nariz para os preconceituosos, tomava as dores dos outros, era solidária, transparente. Tinha ressonâncias humanas, essa coisa rara e indispensável.  Alguém que sofreu por estar fora da faixa de comportamento “aceitável”, apesar de todas as qualidades humanas maravilhosas que tinha. Uma outcast.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

MENINA DESCALÇA NO PÁTIO >> Carla Dias >>


A primeira vez que a viu, sentiu que sua vida começara a fazer sentido. Antes dela, tudo parecia meio sonso, uma longa espera em alguma antessala de casa desconhecida. Quando a escutou recitar aquele poema de autoria desconhecida, como se a ela pertencesse autoria não somente daquele poema, mas de todos os já escritos nessa vida, rendeu-se à constatação: para respirar, precisava dela por perto.

Tinha treze anos de idade na época. Ela participava da Feira de Artes da escola, recitando poema no pátio. Era menino quieto, de quietude que inquietava até aos inquietos de sua turma. Mas ele não se importava com isso, que tinha mais o que fazer do que dar crédito à sua incapacidade de ser como esperavam que ele fosse, como planejar a felicidade que conheceria em breve.

“Em breve” tornou-se um tempo longo e arrastado. Mas ele se deu conta, lá pelos vinte e poucos anos de idade, que paciência é a ciência de viver a vida com os pés na realidade. E a realidade proporcionara a ele uma vida distinta, digna de qualquer ser humano que trabalha e sustenta a si e aos seus. Os dele eram o irmão mais novo e a mãe, com os quais dividia uma casa confortável no subúrbio.

Para amansar a aridez do tempo que passa sem que ele descubra quem é ou onde ela está, formou-se arquiteto. Projetou prédios para ricos e para pobres, padaria, açougue, boate, escolas, praças e até um museu. Foi na inauguração desse museu que ele conheceu um pintor apaixonado por Salvador Dalí. Apaixonou-se ele mesmo pelas obras do pintor catalão, fascinando-se pelo surrealismo.

Abarcado pelo tempo anestesiante, dividiu seu escritório em dois ambientes. Em um ele atendia seus clientes como arquiteto. Em outro, mergulhava no surrealismo e arriscava ele mesmo a criar pinturas, enquanto seus pensamentos se enrolavam ao poema recitado, à menina descalça no pátio da escola.

Apesar de saber que jamais se tornaria um artista como Dalí, acabou se tornando um dos pintores mais prestigiados de seu estado, para então ganhar o país. Assim, toda vez que terminava um trabalho como arquiteto, o cliente acabava por solicitar uma ou mais de suas obras para colocar no espaço por ele criado.

Apesar do sucesso em ambas as áreas, havia quem o questionasse por não entender como um homem formado em arquitetura, profundo conhecedor da métrica e da proporção, bandeou-se para o desdém do surrealismo. Para ele se tratava de comportamento repetitivo, porque ainda que fosse questionamento vindo de profissionais reconhecidamente talentosos, ele só conseguia se lembrar de seus colegas de escola, de quando era menino quieto, de quietude que inquietava até aos inquietos. Ele continua a não se importar com isso, que tem mais o que fazer do que podar sua capacidade de ser aqueles que lhe cabem, como arquiteto e pintor surrealista.

E cozinheiro... Definitivamente, ele poderia abrir um restaurante. Mas durante esse tempo de aprendizado sobre a arte de cozinhar, só pensava em como seria o dia em que ele cozinharia para ela, já uma mulher, ali mesmo, na cozinha que ele projetou. Pensa em como ressoaria gargalhada dela pela casa, ou se ela caminharia descalça pelo jardim.

O irmão se casou e mudou-se para o estrangeiro. A mãe foi junto com ele, porque era desejo dela, desde mocinha, experimentar outra cultura. Ele ficou: casa que projetou com muitos cômodos, agora vazios, raramente visitados pela presença dele. Há dias em que se arrasta pela cozinha, quarto e sala.

Casa vazia é coisa difícil com a qual ele não sabe se aprenderá a lidar.

O tempo que passou não lhe rendeu bons frutos pessoais. Viveu dramas e comédias com suas mulheres. Houve quem lhe amasse pela fama, pelo dinheiro, na tentativa de conhecê-lo. Houve quem não lhe amasse, mas fez de conta que sim por conveniência. Houve quem lhe odiasse ao dizer “eu te amo”.

A paciência que ele cultivara, durante quase toda sua vida, dissipara-se. A paixão pela arquitetura, inspirada pela casa que sonhara em construir no quintal da sua casa da infância, hoje é apenas uma lembrança embaçada. Aposentou-se com um currículo profissional impecável. As pessoas disputam para adquirir um dos imóveis assinados por ele, que já avisou que encerrou sua carreira como arquiteto, causando furor entre as imobiliárias interessadas em colecionar suas obras arquitetônicas para vender como se fossem diamantes gigantes.

Seu plano era se dedicar somente à pintura. Porém, parecia ter se esgotado sua capacidade de dançar pincéis sobre telas; de misturar cores e formas. Passava horas por dia sentado de frente à tela em branco, bebendo seu uísque e comendo salgadinho direto do pacote. Lembrando-se daquele dia, de como o sol iluminava o pátio, de vê-la caminhando, cadenciadamente, até o centro dele e erguer os braços, as mangas do vestido branco e leve escorregando neles, antes de ela soltar a voz.

A voz dela era delicada, mas não no dizer palavra. O poema era irreversivelmente dolente, e ele tem certeza de que aquelas crianças não entenderam nada. Ele mesmo entendeu pouco, apesar da fascinação. Mas conseguiu cópia do tal com a professora de Língua Portuguesa da sala dela.

Com o passar dos anos, compreendeu o que ela proferiu por meio do poema, com tamanha urgência. Viveu muito do que no poema eram mágoas e desapontamentos. Tentou, mas nunca conseguiu descobrir a autoria do poema. Hoje, ele acredita que foi ela mesma quem o escreveu. Que ela sentiu certo prazer em dizer “poema sem autoria”, como quem dispensa a própria história para tentar começar uma nova, sem tantos abismos e dolências.

Teve uma longa vida. Uma vida dedicada à lembrança da menina do pátio da escola. O nome dela ele nunca pronunciou, mas sempre reverberou em sua memória. Pouco antes de sua morte, pintou um quadro nada surreal. “Menina Descalça no Pátio” mostrava aquela que lhe embalara o espírito e a imaginação durante toda sua vida. Ele finalmente trouxera a menina para a realidade. O quadro fez um grande sucesso, que era de beleza indiscutível a forma como o pintor retratou o que, ninguém sabia, era uma das cenas de sua biografia. Ele ficou exposto em um espaço especial no museu que ele, o pintor, projetou como ele, o arquiteto.

O segurança avisa que ela não pode tocá-lo. Mas como não? É uma parte da vida dela ilustrada nele. A mulher está acompanhada da neta, que tenta acalmá-la e a afasta do quadro. Acalmar para quê? Acalmou-se a vida inteira e viveu raso, tão diferente daquele momento, no pátio da escola, quando declamou o poema mais sincero que escrevera na sua vida de poeta mediana. Aquele que enterrou junto com o desejo de, assim como no poema, “deixar de carecer de pertencer ao mundo, para então pertencer a si mesma.”

Reconheceu-se naquele dia, naquele momento. Uma alegria tímida lhe invadiu os sentidos. Inspirou-se para um novo poema, desta vez, o último.

Às vezes, uma única vida não nos basta.

Imagem: Trilogy of the Desert. Oasis © Salvador Dalí

carladias.com

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terça-feira, 11 de agosto de 2015

TECNOLOGIAS, APLICATIVOS E ATUALIZAÇÕES
>> Clara Braga

É o que eu sempre digo, as pessoas são criativas, isso é um fato, o problema é que nem sempre sabem utilizar a criatividade de maneira positiva. Se pararmos para pensar, muitos objetos/utensílios que temos hoje são frutos de desenvolvimentos tecnológicos de guerra, ou seja, já tiveram como objetivo auxiliar a destruição em massa. Mas vai dizer que a pessoa que criou tais objetos não foi criativa?

Em uma era na qual o mundo evolui mais rápido que a velocidade da luz, as pessoas tem se aproveitado disso e criado cada vez mais coisas que vem facilitando o nosso dia a dia. Das ideias mais simples às mais complexas, não interessa, quem tem interesse por tecnologia já deu graças a Deus por ter um GPS em mãos ou já passou um bom tempo brincando de tentar bater papo com a Siri.

Seguindo a mesma linha do GPS, existem aplicativos como o Waze que também são uma mão na roda. Não, não digo isso para poder sair, encher a cara e voltar para casa fugindo das blitz, mas saber onde tem trânsito, fugir de um acidente que causou congestionamento e, claro, te ajudar a localizar locais nos quais você não sabe chegar. Isso não tem preço, principalmente para uma pessoa completamente sem noção de espaço como eu.

Descobri que acho muito interessante acompanhar as atualizações dos aplicativos, é muito legal acompanhar a forma como eles se reinventam em muito pouco tempo para convencer o cliente de que vale cada vez mais a pena continuar consumindo aquele produto. Acho tão interessante que outro dia me peguei empolgada com uma atualização que nem vai servir para mim. Vi no jornal que o Waze está proporcionando uma nova atualização para os moradores de São Paulo que auxilia a pessoa a saber por onde ela pode ou não passar com seu carro levando em consideração o rodízio das placas. Confesso que para quem mora em brasília, essa história de rodízio ainda não faz parte da nossa realidade, mas é exatamente por parecer uma história um tanto complexa que até eu me empolguei com essa atualização. Me parece que vai ajudar a diminuir e muito os gastos com multas, isso não é lindo?

Bom, me peguei filosofando sobre essas atualizações por mais tempo do que eu gostaria, e foi assim que eu descobri que eu gostaria de sugerir aos donos do Waze as melhorias da próxima atualização: incluam no mapa os grupos de taxistas revoltados que ficam só esperando motoristas do Uber passarem. Independente de ser contra ou a favor do Uber, a situação já está ficando feia. Caso se interessem, já pensei até no ícone que vai representar os taxistas na espreita.


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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

ATÉ BRUTUS >> Albir José Inácio da Silva

Ando com saudade das ameaças. Sei que o leitor pensa que eu deveria estar com saudade da minha sanidade. Mas é que a ameaça apresenta a violência, prepara-nos. E traz uma alternativa. Ou isso ou aquilo, “ou me dá a carteira ou te espeto a barriga”. E nesse caso sempre se pode preferir ficar sem a carteira.

Mas já ninguém ameaça. Atira-se, esfaqueia-se para depois solicitar a vantagem. Felicitávamos as vítimas de assalto: “ainda bem que foi só o dinheiro!”, hoje felicitamos: “ainda bem que não atingiu nenhum órgão vital!”. Está faltando a clássica ameaça: “A bolsa ou a vida!”
  
As facadas têm vindo antes, e atira-se pra depois perguntar.  Quebram-se as regras também nos assaltos. Eu queria de volta os ladrões sorrateiros, que preferiam o dinheiro ao sangue. A cara e a roupa identificavam o assaltante, e a gente podia entregar o dinheiro ou correr e pular o muro da embaixada.

Agora os malfeitores participam do jogo avisando desde logo que vão descumprir as normas quando lhes aprouver. Quem nasceu e cresceu na América latina sabe que o assalto se esconde em cada esquina. Pois que se esconda! Não se pode é desfilar com placa de assaltante. O descaramento incomoda mais que o assalto e a desfaçatez, mais que a violência.

Golpistas têm de ser sorrateiros, discretos antes do assalto. Devem se mover nos subterrâneos, nas vielas, nas casernas, em cochichos e complôs. Esse acinte que ameaça rasgar a carta, desfralda bandeiras e se arroga direito ao assalto, é que é novidade.

De onde vem tanta empáfia se, dessa vez, não contam sequer com apoio externo, pelo contrário, são vistos como caricaturais e ridículos?

Já não se conspira, propõe-se publicamente o golpe nos locais mesmos em que se deveria cultuar a democracia. Pedem-se quarteladas de dentro das instituições que representam a república. Como se médicos pudessem matar e defensores, condenar.

Não se sussurra pelos becos — são legisladores que quebram as tábuas da lei, são tesoureiros que esvaziam os cofres e são vigias que convidam os invasores. Apostam na terra arrasada porque, mesmo que não lhes sobre nada, estarão vingados.

Não se portam como inconfidentes, mas como monarcas que, confrontados com leis ou costumes, disparam seu direito divino “L’état c’est moi”. Malfeitores que não estão nos becos e esquinas, mas dentro de nossa casa.

Os ladrões de antes diziam roubar por necessidade, os de agora afirmam que roubam porque são mais fortes e porque nós precisamos aprender quem manda. São loucos, sim, mas muito violentos. A história e a vida lhes farão justiça. Mas precisamos sobreviver.

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domingo, 9 de agosto de 2015

EU NÃO SEI >> Eduardo Loureiro Jr.

Semana passada, não sei por que, reassisti ao filme "Rain Man", que eu havia visto há mais de vinte anos. O que mais me chamou a atenção foi a expressão "não sei", dita na maioria das vezes pelo personagem principal, mas também repetida, aqui e ali, por outros personagens. Usando das facilidades da internet, localizei o roteiro do filme, fiz uma busca por todas as vezes em que a expressão "não sei" foi usada e fiz a montagem abaixo. Não sei se fará sentido para um leitor que não viu o filme recentemente. Também não sei se fará sentido para um leitor que viu o filme recentemente. Muito menos se fará sentido para qualquer leitor. Eu não sei.

Eu não sei por que me meti nisso tudo. Eu não sei o que isso significa. 

— O que você teria feito se eu tivesse lhe dito antes que você tem um irmão?
— Eu não sei.

— Você leu isso tudo?
— Eu não sei.
— Você leu MacBeth?
— Eu não sei.
— Você leu todas as histórias deste livro mas não sabe se leu o livro?
— Eu não sei.
— Você gosta de Shakespeare?
— Eu não sei.

— Para o que você está olhando?
— Eu não sei.

— Eles lhe disseram que nosso pai morreu?
— Eu não sei.
— Não sabe se lhe disseram ou não sabe o que é morrer?
— Eu não sei.
— Quer vê-lo no cemitério?
— Eu não sei.
— Isso quer dizer que você talvez queira ir?
— Eu não sei.

— O que você estava fazendo no meu quarto?
— Eu não sei.

— O que está se passando com você, porque eu não sei.

— Como você fez isso?
— Eu não sei.

— O que você estava assistindo?
— Eu não sei.

— Eu não tenho tempo para isso...
— Eu não sei, eu não sei, eu não sei...
— Você não sabe?
— Não.

— Eu lhe comprei uma TV e você está olhando uma máquina de secar roupa?
— Eu não sei.

— O que vou dizer a eles?
— Eu não sei.

— Você está interessado em um encontro?
— Eu não sei.
— Você gosta de mim?
— Eu não sei.
— Você sabe dançar?
— Eu não sei.

— Eu não sei você, mas estou começando a me sentir um pouco tolo.

— Você já beijou uma garota?
— Eu não sei.

— Eu não sei como dizer isso de maneira fácil. Você não sabe nada sobre a gente.

— Você curtiu beijar uma mulher?
— Eu não sei.

— Você não quer mais perguntas, não é?
— Eu não sei.

— Eu não sei se terei chance de falar com você novamente...



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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

FECHADO PARA BALANÇO >> Paulo Meireles Barguil


Essa frase é bastante utilizada quando um estabelecimento comercial está verificando o seu estoque, ou seja, os funcionários são mobilizados para checar se as mercadorias informadas no sistema existem.

Às vezes, esse momento antecipa uma promoção, quando alguns produtos são oferecidos com preços menores aos anteriores.


Uma variação da 1ª versão refere-se àquelas situações em que alguém, após o término de um relacionamento, firma o propósito de ficar um tempo indisponível para avaliar o que aconteceu.

Essa faxina emocional proporciona melhores resultados quando o foco se concentra em si e não no outro, por incentivar a responsabilidade pessoal de suas escolhas em detrimento da opção de se colocar como vítima.

 
É possível, também, utilizar a sentença para expressar a decisão de uma pessoa de se desligar, temporariamente, de suas responsabilidades e, assim, poder oscilar corpo, emoções e pensamentos.
 
Essa digressão contribui para que o indivíduo, ao experimentar situações distintas das habituais, decida modificar algo ou a si mesmo, quando ao seu cotidiano retornar.


Há de se considerar, ainda, a situação em que o balanço é barrado, seja em virtude da sua constituição material, idade, cor ou escora.

Quando isso acontece, balançar é a melhor opção. Sendo necessário apenas decidir um espaço-tempo propício para fazê-lo.
 
Estou fechado para balanço, mas ainda consegui escrever essa crônica.


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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

FAZ FALTA UM INTERLOCUTOR >> Mariana Scherma

Morar sozinha tem suas grandes vantagens. A cama de casa que você ocupa do jeito que quiser, pode dormir na diagonal sem receber chutes suaves (ou não) na madrugada. Pode deixar o livro perto, ou vários livros. Sabe que, quando chegar do trabalho, as coisas vão estar do jeito que você deixou. Inclusive seu chocolate importado vai estar lá, intocável e esperando pacientemente por seus dentes ferozes. Tem o espaço do guarda-roupa todo para suas coisas e aí pode se dar ao luxo de comprar uma coisinha ou outra desnecessária. É bom morar sozinha. Mas tem dia que não.

Bem nos momentos em que não é legal viver by yourself é que as coisas mais bizarras, engraçadas e atrapalhadas acontecem. Não sei se com todo mundo é assim, comigo é. Morar sozinha deixa de ser bom quando você desliga o chuveiro e percebe que a toalha está no varal, você grita mãe no pensamento e nada acontece, sai pingando água pelo apartamento, resgata a toalha e percebe que, ops!, estão pintando o prédio por fora, bem perto da janela. Ai, caramba! Não bastasse o pintor ter visto você meio (totalmente?) à vontade, vai ter que pegar o rodinho e secar o caminho da sua vergonha. Óbvio que na hora de sair para o trabalho o pintor vai estar por perto. A esperança é que ele não a reconheça vestida e de cabelo seco.

Para os momentos de fome, eu tenho 300 revistas de receitas com tortas, bolos, arroz de forno e cia. que super poderia preparar. Mas prefiro só folheá-las mesmo. Você pensa: fazer uma torta só pra mim? Putz, nem tenho farinha. Vou ligar pra pizza/lanche/pão de queijo/melhor amigo. Imagino que seja por isso que os amigos do trabalho adoram quando eu cozinho. Eles sabem que no dia seguinte vai sobrar pra eles... Admiração eterna pra quem faz refeições completas pra si mesmo. Seja quem você for, sou sua fã. Sem contar que a logística dos produtos comestíveis pra quem vive sozinho é complicada: o leite dura muito, o pão dura pra sempre, a manteiga Aviação não chega ao fim. Bom, mas o chocolate acaba. O sorvete também.

Dia desses, minha lâmpada queimou. Só porque ela fica dentro de um globo e eu detesto pedir favor, chamei o eletricista. Ele trocou. Tudo certo? Não. Decidi que subiria na escada e deixaria os parafusos do globo mais soltos, porque aí na próxima vez que a lâmpada queimasse eu poderia trocar sozinha a porcaria. Eis aí o tipo de ideia que, se dita em voz alta, alguém a corrigiria com um necessário “isso é ser burra”. Eu mesma reli a frase e me considerei levemente aquém dos genes intelectuais dos meus pais. Mas fiz isso, estava convencida. Durou uma semana o globo daquele jeito capenga. Bem quando eu estava no sofá lendo a parte mais tensa do meu livro de terror, o globo considerou um bom momento para o suicídio. Precisa falar que eu quase pulei até o teto? Passei minhas horas vagas catando cacos  sozinha. Bom pra aprender. Bom pra contar. Quem disse que morar sozinha é só delícia? Às vezes, falta um interlocutor cheio de razão.


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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

AINDA SOBRE MÚSICA >> Carla Dias >>

Música pode ser delicada e também de protesto. Pode ter letra ou não, e neste caso, espero que os amantes de refrão se acomodem para apreciar o feito. Tem música regional que não sai da região e tem aquela que ganha o mundo. Tem músico que faz sucesso no bairro e aquele que faz sucesso em praticamente todos os bairros de muitos países.

Orquestra Filarmônica de Viena | Star Wars



Há tanta música nesse mundo. Você já deu uma escutada por aí?


All the Same | Vieux Farka Toure convida Dave Matthews
© Vieux Farka Toure e Dave Matthews




Além dos reality shows musicais, dos espetáculos grandiosos. Em tempo... Tenho nada contra espetáculos grandiosos, dos grandes palcos e milhares de ingressos vendidos. Mas garanto que já vi alguns tão grandiosos quanto  se não ainda mais grandiosos, em salas menores , até em sala de casa. 


Permitido | Kleber Albuquerque
© Kleber Albuquerque




Abaixe a câmera, deixe o clique e o record pra depois. Aprecie o show, a capacidade de estar presente.


Since I’ve Been loving You | Led Zeppelin
© Jimmy Page, John Paul Jones e  Robert Plant



Há muita música nesse mundo. Melhor não desaprendermos a escutá-la. Música não é somente trilha sonora para o nosso diariamente. É ótimo tê-la dessa forma  adoro trilhas sonoras , só que música também pede ritual.


Eleanor Rigby | Duofel
© John Lennon e Paul McCartney




Qual é o seu ritual para escutar música? O meu é escutar todas as noites, antes de dormir. Fazendo nada mesmo... Sendo somente ouvinte de música por algum tempo. E assim como em relação às pessoas, interesso-me por uma variedade de estilos musicais.


Travessia | Milton Nascimento
© Fernando Brant e  Milton Nascimento




Meus livros eu escrevo escutando música. A maioria dos personagens que crio é apaixonada por ela. Automaticamente, escutar música me leva a inventar histórias. (Clique aqui para ler um trecho de uma delas.)

A primeira música que se instalou na minha memória é uma que meu avô costumava cantar para a criançada lá de casa: “Acorda Maria Bonita / Levanta e vai fazer o café / Que o dia já vem raiando / E a polícia já está em pé”.


Acorda Maria Bonita | Volta Seca
© Antonio dos Santos (Volta Seca)



A primeira música que me fez chorar me aconteceu quando eu era muito jovem e foi cantada em um filme muito triste, “Sunshine  Um dia de Sol”. Eu tinha três anos de idade quando ele foi lançado. Hoje há muitos filmes com o mesmo tema, mas tenho certeza de que a combinação do filme com a canção é que o tornou memorável para mim.


Sunshine On My Shoulders | John Denver
© John Denver, Michael Taylor e Dick Kniss



As primeiras músicas que ofereci ao primeiro amor da minha vida, dando a ele de presente o compact disc (sim, eu sou daquele tempo), uma música de cada lado do disco.


Me & Bobby  McGee | Janis Joplin
© Kris Kristofferson e Fred Foster




Há música que mexe comigo e não consigo explicar o motivo. Não conseguir explicar o motivo já é um motivo e tanto para estar sempre aberta a escutar música.


Tesoura do Desejo | Alceu Valença
© Alceu Valença



Há música que cantei certa vez para uma das minhas sobrinhas, quando ela era bem pequenininha, e ela achou tão, mas tão linda que não parava de rir, mas de fascinação. Foi um daqueles momentos mágicos.


De tanto amar | Ney Matogrosso
© Chico Buarque



Aliás, adoro apresentar música às pessoas. Na época da fita K7, fui das copiadoras ferrenhas. Porque já foi bem difícil conseguir boa música para se escutar. Lembro-me de quando frequentava as barracas de discos Long Play usados lá em Santo André. Quando tínhamos de encomendar discos daqueles que viajavam para o exterior. Antigamente, por mais incrível que possa parecer, era difícil se escutar música.


Hocus Pocus | Focus
© Jan Akkerman e  Thijs van Leer



Há contos que escrevi inspirados pela música. (Clique aqui para ler um deles).

A música que acho das mais lindas já compostas.


Something | George Harrison
© George Harrison




Há muita, mas muita música boa nesse mundo. Dá até para escolhermos, o que não podemos falar sobre muitas coisas nessa vida.


First Light | Adam Hurst
© Adam Hurst




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terça-feira, 4 de agosto de 2015

BOA TARDE, SENHORA... >> Clara Braga

— Senhora, você gostaria de fazer o cartão Renner?
— Não, obrigada!
— Senhora, se você fizer o cartão Renner você vai ter 10% de desconto na primeira compra. Tem certeza que não quer fazer?
— Muito obrigada, eu até já tenho o cartão Renner, só não gostaria de usar agora.
— Tudo bem senhora, você poderia me passar o CPF então?
— Claro!
— Senhora, aqui consta que você não tem o cartão Renner, você gostaria de fazer?
— Eu tenho!
— Senhora, o cartão é para a vida toda, ele não desativa por falta de uso. Se você tivesse, iria aparecer aqui!
— Eu tenho, não sei por que não aparece para você, mas isso não é um problema já que eu não quero mesmo usar o cartão para efetuar a compra.
— Senhora, pode ser que não esteja aparecendo aqui pois você não é a titular. Caso você faça um cartão como titular, você tem 10% de desconto na primeira compra.
— Então agradeço bastante, mas não! Vou passar no cartão de débito, já posso inserir o cartão, digitar a senha e ir embora? Obrigada.
Enquanto isso, eu ainda pensava: o pior de tudo é que ao sair da loja ainda vão me pedir para avaliar as minhas compras na Renner e se eu disser qualquer coisa diferente de muito satisfeita vou ter que preencher uma ficha justificando minha avaliação...

Já em casa, o telefone tocou. Hoje em dia, se o telefone fixo toca, algo não está muito bem!
— Alô? (com um ar de desconfiada).
— Boa tarde, senhora. Aqui é da Instituição “X”, estamos entrando em contato pois no mês passado você fez uma doação para a nossa instituição e nós gostaríamos de saber se você não tem interesse em nos ajudar com uma quantia mensalmente.
— Desculpe, mas não vou poder, obrigada.
— Mas senhora, você escolhe o valor.
— O problema não é o valor, é que eu já ajudo outras duas instituições e não tenho condições de arcar com mais uma.
— Senhora, uma de nossas crianças já te escolheu como madrinha dela.
— Entendo, mas realmente não vou poder contribuir.
— Senhora, a fome não é algo pontual, a fome deve ser combatida diariamente.
— Sim, eu entendo, é por isso que já estou contribuindo com outras instituições e estou te explicando que para mim fica inviável ajudar mais uma.

O telefone toca novamente. Com raiva já atendo imaginando que vou ter que explicar para a mulher, mais uma vez, o motivo de eu não poder contribuir com a instituição dela. Só que não…
— Alô!
— Boa tarde, aqui é a gerente do banco “X”. Gostaria de saber se você tem interesse em trocar o seu cartão da conta universitária pelo cartão normal.
— Não, obrigada, por enquanto a conta universitária está ótima para mim.
— Mas senhora, você sabia que com o cartão normal você pode acumular milhas e trocar por prêmios ou passagens?
— Sim, mas não tenho interesse, obrigada!
— Você ainda é universitária?
— Não, sou formada, mas me disseram que posso continuar com a conta universitária.
— Sim, mas seu limite pode ser maior também!
— Acredite, é melhor que ele seja menor.

Enquanto isso…
— Vocês gostaram disso aqui que eu criei?
— Não achei ruim, mas tem coisas que podem melhorar!
— Bom, quem não gostar que não compre…

Outro dia me disseram que eu tenho problemas para ouvir não como resposta. Confesso que fiquei preocupada, mas não surpresa, aparentemente, é um mal da humanidade.



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