segunda-feira, 29 de junho de 2015

DE CORAÇÃO PARA CONTINENTE
>> Albir José Inácio da Silva

De um lado o Forte de Copacabana, do outro Niterói e as montanhas, e no meio, invisível, a África. África, segundo os mapas, porque eu, o que vejo é uma reta ligando as duas pontas. Abaixo dela o azul verde do mar, acima o azul claro do céu na manhã de inverno.

Tenho a sensação de que da África alguém, como eu, olha pra cá. Por que não olharia? O sol é o mesmo, o mar é o mesmo e as histórias se cruzam. Além disso, a linha tropical e pontilhada de Capricórnio nos liga. Será que alguém sentado na areia não tem os olhos apertados pelo sol na direção do Rio de Janeiro? Ah, tem!

Cisma o irmão africano, e atrás dele o enorme continente negro, berço da humanidade, tão aviltado pelos humanos portadores da pólvora, que homens livres fizeram atravessar o mar em correntes para a morte no mar ou a morte em vida.

Será que o sangue do irmão pulsa fraterno pelo Brasil que ele também não vê? Pode ser que se convença de que nós aqui neste século XXI não somos mais que seus irmãos para o bem e para o mal. Mas talvez tenha herdado, e dedique a nós, todo o rancor pelos traficantes de escravos, senhores, capatazes e capitães do mato que arrancaram de lá ou receberam aqui seus ancestrais.

Faço votos que não. Tomara que ele compreenda que seu sangue também corre nas veias deste continente e que, como eles, aqui ainda sofremos exílios, extermínios e tentativas de escravidão. De tempos em tempos, do muro da vergonha lá no fim do México à Terra do Fogo, não nos faltam suseranos a pedir décimos, quintos e primícias, e a nos dar tiros pela ousadia de sobreviver e alimentar os filhos.

Levanto o braço na direção do horizonte, sem me importar com os circunstantes, e declamo para uma praia da Namíbia que não vejo:

— Se Portugal chorou o mar para conquistá-lo, irmão africano, nós choramos um oceano porque fomos conquistados. Estenda sua mão para as águas, como se fosse apertar a minha e como se pudéssemos, puxando, reunir os continentes. Num abraço em que choremos nossa alegria e cantemos nossas dores. Saudações atlânticas!


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sábado, 27 de junho de 2015

O PADRE E O CARTEIRO >> Sergio Geia






Escolho uma mesa que fica encostada na parede, a última na verdade, lugar que me dá uma boa visão do lugar. Peço pra mocinha o de sempre: pão com manteiga na chapa; café expresso com leite, pequeno; um suco de laranja coado e com gelo.

É mais uma manhã comum do meu dia. Já tinha corrido na Santa Teresinha, agora tomo café, depois uma ducha, para enfim trabalhar. Mas sinto que minha curiosidade de cronista está aguçada e, enquanto espero o café, me ponho de butuca atento ao ambiente, às pessoas, tudo, à cata de matéria-prima.

Normalmente, amigo, faço isso naturalmente, como respirar. Quando dou por mim, estou lá, um abelhudo concentrado no sujeito lendo jornal, nas meninas conversando, no casal tomando café, até num papo de doença entabulado com alegria por dois velhinhos. Há muito material pulsante esperando pra virar crônica. A vida é a minha matéria-prima.

Mas hoje sinto que estou com os sentidos mais aguçados do que o normal. Infelizmente, porém, vendo o tempo passar, já tomando suco, vejo que não encontro nada interessante no simples caminhar de uma padaria numa fria manhã: pessoas chegando pra comprar pão; outras, como eu, pra tomar café; as mesinhas sendo preenchidas por trabalhadores do entorno, o balcão com aqueles que preferem algo mais informal, café preto no copo americano, a leitura do jornal.

Como o carteiro. Deve ser íntimo da turma, pois vai abraçando todo mundo, falando em voz alta como se estivesse em sua casa. Noto que ele deixa a correspondência no balcão, senta, pega o jornal e pede um pingado e pão com ovo. Depois olha pro seu vizinho – um mauricinho, a barba por fazer, camisa comprida por fora da calça – e aponta o jornal, caçoando de alguma coisa. Deve ser corintiano, penso, mostrando a classificação e tirando sarro do Palmeiras.

Chega o padre. Eu o conheço da Santa Teresinha. “Bom dia!”. A voz se impõe, muita gente olha. Ele só olha pra mocinha e diz: “O mesmo de sempre”. O padre toma café todos os dias ali, as meninas já conhecem as suas preferências. Uma figura simpática, alegre, bem quista por todos. Outro dia o encontrei num restaurante, na Professor Moreira. Acho que almoça sempre lá. Acho uma ironia a vida de um padre. Cercado por uma comunidade inteira, por bajuladores dos oito aos oitenta e oito (principalmente), e uma vida tão solitária. Acho que padre sofre de solidão. Acho.

Levanto para pagar a conta e encaro uma filinha. Olho de lado, e vejo agora o padre e o carteiro conversando. Amigos íntimos. Na ducha, faço um pequeno resumo. Concluo que nada de interessante aconteceu. No entanto, ouço uma voz dizer que o charme de uma crônica é exatamente isso, escrever sobre as banalidades da vida, o cotidiano simples das pessoas, coisas que passam despercebidas pra muita gente. Um olhar na insignificância. Depois escuto Prata, o pai, falar: “fazer crônica é transformar banalidade em arte”. Sim, é isso. Como eu poderia ter esquecido? Desligo o chuveiro com a nítida sensação de que a crônica já está pronta.


Ilustração: Romeo y Julieta ante el padre Lorenzo – Karl Ludwig Friedrich Becker



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sexta-feira, 26 de junho de 2015

O PREÇO DO RÓTULO >> Paulo Meireles Barguil


Quantas descobertas em pouco mais de 500 anos...

De centro do Universo, a Terra, diante de infinitos espaços-tempos, buracos negros ou coloridos, com ou sem minhocas, foi reduzida à mera coadjuvante!

Esse conhecimento, contudo, só é partilhado e compreendido por poucos humanos.

Emocionalmente, quase todos ainda estamos, com muito otimismo, no primeiro milênio da Era Cristã.

Os rótulos e as máscaras, que usamos para tentar não nos perdermos na floresta encantada, nos afastam desse raro entendimento.

O Homem, para celebrar a vida, necessita perceber as mudanças, que estão sempre acontecendo e que escapam ao rótulo, editado no passado...

As máscaras empobrecem o nosso viver. Como jogá-las fora? Como não colocá-las no outro, sob a forma de rótulo?

Nos comunicamos para decifrar os mistérios ou tentar enquadrá-los (e a nós mesmos)?

Diferentes linguagens criamos durante essa aventura:

Mímica

Som

Pintura

Palavra

Texto

Fotografia

Código de barras

Resposta rápida (quick response)

...

É engraçado ouvir o discurso dos que julgam acreditar terem encontrado a verdade, como se ela pudesse e precisasse ser transmitida por palavras...

Como usar as tecnologias digitais, as sereias do século XXI, sem ser por elas inebriado, tendo em vista seu poder hipnótico?

Vejo, atônito, as pessoas correndo num sentido, enquanto eu sigo, lentamente, no contrafluxo...

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quinta-feira, 25 de junho de 2015

TÁ COM PREGUIÇA? VAI CORRER >> Mariana Scherma

Uma coisa sempre me diverte: pessoas explicando por que não fazem atividade física. Não tenho tempo. Não tenho dinheiro. Tenho um problema no joelho (que foi diagnosticado pela própria pessoa – que nunca estudou medicina). Dá preguiça. Ando estressado. Tá frio. Tá calor. Hoje não. Amanhã também não. Eu suo muito. Fui semana passada já. Não tenho roupa. Não gosto de academia. Quantidade meio sem fim! Com a recente pesquisa do Ministério do Esporte, várias dessas desculpas invadiram os jornais na semana e, caramba, como eu me diverti.

Eu sou dessas com zero preguiça pra esporte. Amo mexer o corpo por alguns motivos: é o único corpo que eu tenho, motivo suficiente pra ser bem cuidado. Depois da atividade física, fico mais feliz, cientificamente comprovado. Meu cérebro funciona melhor, fica mais oxigenado, sei lá... Qualquer roupa veste melhor. Quando bate a vontade, repito a sobremesa (ou a refeição principal) sem culpa. Por tudo isso, não entra na minha cabeça qualquer desculpa contra o esporte.

Até entendo a questão da grana, mas é possível caminhar e correr em parques e avenidas. É só querer. Mas parece que reclamar é mais fácil, tipo ficar no sofá e soltar sentenças sobre celebridades como: “é fácil pra ela ter esse corpo, tem tanto tempo livre, não precisa lavar louça, cuidar da casa, do filho”. É muito cômodo deixar pra depois ou nunca mais e ir aceitando a preguiça. Pra mim, não é uma delícia acordar cedinho no frio, mas meu foco fica sempre no depois, os benefícios que vêm. A gente acaba sendo um pouco desonesto com nosso próprio bem-estar por pura preguiça. Afinal, é frase feita, mas é verdade: quem quer faz, quem não quer arruma desculpa.

Depois, vem o esporte preferido da turma da preguiça: reclamar. Ai, não entro mais naquela calça. Estou sem fôlego. Minha celulite aumentou. Engordei demais. Odeio quem gosta de malhar. Que raiva de quem é magro. Enfim... Eu não estou criticando quem é sedentário e só, o questionamento é sobre sentar no sofá e julgar a galera fitness. Quando temos preguiça de cuidar de nós mesmos, como vamos cuidar bem dos outros? Vou dividir com vocês uma frase da atriz Jennifer Aniston que disse algo como, “não importa se você se exercita 20 minutos ou duas horas, o importante é dar uma suada. Sair do conforto”. Isso não vale só para o esporte, vale pra tudo na vida: a gente só conquista o que quer quando corre atrás.

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quarta-feira, 24 de junho de 2015

AS PESSOAS E A SUA PESSOA >> Carla Dias >>


Ele chega com seu olhar adequado, procurando pelo que lhe cabe, o que há de ser palatável à sua compreensão adotada por puro conforto. Avista pessoas lidando com a felicidade dos ébrios e das invencionices, determinados a desfilar pelas colunas sociais da percepção de seus contatos comerciais.

Ele se demora na contemplação distante, como a fazer contagem regressiva para o final do comercial e a volta ao reality show preferido. Respira fundo e tica itens, mentalmente: melhor roupa, ok, sapatos lustrados, ok, melhor perfume, ok, barba bem feita, ok, cartão de crédito com limite nas nuvens, ok. Tudo e todos parecem estar onde deveriam.

Inclusive ele.

Caminha até os amigos recém-conquistados, assim como o cargo de diretor geral de prestigiosa multinacional. Os adjetivos, adquiridos com o posto, ainda lhe soam estranhamente. Porém, não é difícil se acostumar a eles, tampouco à mudança de salário ou ao aroma de um Henri Jayer Richebourg Grand Cru. Lembra-se, então – enquanto beija as faces da moça que pretende cortejar, percebendo-se arrebatado pelo seu perfume –, de que o valor do vinho é quase o mesmo da entrada que deu na compra da sua primeira casa.

A noite segue tranquilamente. Todos sabem que ele é um homem reservado e, como profissional, tem demonstrado habilidades fundamentais para a construção de uma carreira de sucesso. Sua vida parece ter se adequado a um espaço que lhe fora reservado pelo destino ou o que seja responsável pela troca de dedicação por sucesso. Sua mãe, uma senhorinha miúda de voz estridente, nega-se a sucumbir ao novo status do filho. Negou-se a se mudar para o apartamento dele em área nobre da cidade, alegando que ficaria muito longe da bodega que herdou de seus pais, e na qual vem trabalhando desde menina. São mais de cinco décadas se debruçando naquele balcão, que já foi reformado tantas vezes, mas continua no mesmo lugar.

Essa é a grande questão para ele. A questão que ele tenta ignorar na companhia de seus novos amigos, diante da deslumbrante vista da cidade que o restaurante oferece. As nuances sempre lhe desafiaram o autoentendimento. Sente-se grato pelo conforto e pelas facilidades, ciente de que trabalhou duro para conquistar seu espaço. Que ainda trabalhará muito para mantê-lo. Ainda assim, sua mente lhe boicota, mostrando-lhe que trocaria, facilmente, a companhia dessas pessoas por uma boa conversa com a mãe sobre como foi o dia dela, cada um deles debruçado de um lado do balcão, bebendo café.

Não demora e a comemoração pelo sucesso de um novo projeto da empresa evolui para conversas sobre eles mesmos: a casa que um comprou na Europa, o carro que outro adquiriu para sua seleta coleção, as ações que tornaram a outra mais rica do que já era. Enquanto escuta as histórias, observa a moça que pensara em cortejar, mas não teve coragem de seguir adiante. Funcionária do departamento jurídico da empresa, ele se encontrou com ela algumas vezes, durante reuniões. Ela é a única pessoa do grupo que parece alheia ao que acontece, além dele. Porque ele escuta o que aquelas pessoas dizem, mas logo perde o interesse.

Não vê nada de errado em ter dinheiro e status. Ele mesmo encheu o armário de ternos que nunca imaginara poder usar na vida, e muitas das regalias que recebe são bem-vindas. Mas a verdade é que ter dinheiro e status não dá direito a ninguém de desvalorizar o outro. Logo, a conversa sobre posses é direcionada às pessoas. Porque a “empregadinha” pensa que pode frequentar o mesmo bar que ele; a mãe pobre do noivo acredita que irá morar na mesma casa que ela e o “pretinho” comentou que está estudando para ocupar um cargo melhor, onde já se viu? “Aquelazinha” é gorda demais, feia demais, brega demais, e aquele cabelo pixaim?

Toca o celular e ele pede licença para atender a ligação. Vai até a varanda do restaurante, encara aquela vista com mais intimidade. A mãe quer saber o que ele quer comer no domingo. Os irmãos e noras e sobrinhos vão aparecer para o almoço, para a comemoração do aniversário daquela senhora gentil, que o criou para respeitar a si e aos outros. “Qualquer coisa, mãe, contanto que a sobremesa seja canjica”. Ela gargalha baixinho, que não entende como ele, desde molequinho, é apaixonado por canjica.

Seu olhar já se desenquadrou da tentativa de gastar sua simpatia com quem não respeita ninguém que não faça parte do seu círculo, da sua tribo. Há vida acontecendo além desses muros que pessoas criam para se protegerem do que não entendem, tampouco desejam compreender.

Enquanto o garçom lhe serve, ele pensa em seu primeiro apartamento. Foi lá onde estudou muito, teve as melhores conversas com seus amigos e familiares. A empregada que sustenta a si e aos três filhos com seu trabalho, a sua mãe que sempre foi humilde, ainda assim, das mais gentis e sábias. Pretinho, Pretinho... Tocou guitarra na banda do Pretinho, um cantor de voz potente e afinada. E aquela moça...

Ele a observa da varanda, sentada à mesa com aquele grupo de pessoas, definitivamente alheia a elas por escolha. Compreende que estar ali é compromisso de trabalho para ela. A moça olha adiante e o encara. Sorri o sorriso de quem sabe que ele sabe. De quem sabe que é ela a “aquelazinha”, gorda, feia, brega e de cabelo pixaim. Como ela consegue ficar indiferente a eles?

Ele sorri de volta. Sorri o sorriso de quem a enxerga de maneira afetuosa. A partir daí, nem se dá ao trabalho de escutar o que os outros dizem. Só consegue imaginar como seria navegar dedos nos cabelos dela.




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terça-feira, 23 de junho de 2015

ESTOU INDO PARA A FACULDADE DE ARTES
>> Clara Braga

Esses dias estava lembrando daqueles memes, famosos no Facebook, que mostram imagens indicando o pensamento dos pais, dos amigos e da namorada/namorado quando o cara diz que está na faculdade tal em contraste com a imagem real. Alguns eram divertidíssimos, me parecia que quanto mais "de humanas" o curso era, piores eram os pensamentos, principalmente os dos pais e da namorada/namorado.

Nunca soube exatamente o que meus pais pensavam quando eu falava que estava indo para a faculdade de Artes. Talvez eles pensassem que eu estava de mudança, por causa da quantidade de coisa que eu levava, fora isso eu nem imagino. Meus amigos eram divididos, alguns achavam que eu ficava vendo gente pelada o dia todo, o que não estava totalmente errado, já que desenho 1 e 2 era com modelo vivo e nu. Mas na época em que eu fazia faculdade de Artes e Letras ao mesmo tempo, saía da aula de gravura e ia direto para a aula de gramática. Com certeza, o pessoal de Letrasachava que eu era drogada, chegava sempre fedendo a querosene ou a algum tipo de ácido que a gente usava para gravar as chapas de metal. Se decepcionariam se descobrissem o quão careta eu fui! Outros pensavam apenas que eu tinha vocação para ser pobre, pensamento que eu acho bem questionável, mas não vou entrar nessa discussão.

Depois que me formei, fui batalhar meu espaço no mercado de trabalho. Consegui trabalhar em algumas escolas. Ponto negativo de Artes: como a carga horária é pouca, não dá para trabalhar em uma escola só, mas enfim, daí em diante comecei a ver o que a comunidade escolar pensa quando você diz que fez faculdade de Artes:

Primeiro semestre — elaborando cartões: como ser criativo e surpreender seus parentes nos dias do pai, da mãe e dos avós.

Segundo semestre — Dia do Índio: criando fantasias de papel crepom.

Terceiro semestre — decoração de interiores: como arrasar com belíssimas decorações de festa junina, Páscoa e Natal com um preço super em conta!

Quarto semestre — caça ao tesouro: conhecendo os lugares mais baratos para comprar elementos básicos de decoração e descobrindo as costureiras mais barateiras para confecção de fantasias.

Quinto semestre — habilidades manuais: como transformar qualquer tipo de papel em um belíssimo enfeite de mesa.

Esses são os semestres focados em artes, especificamente. Além dessas disciplinas, temos também as matérias com grade compartilhada com outros cursos:

Sexto semestre — Psicologia 1: o que responder aos pais com olhos marejados na reunião de pais e mestres quando os ouvir dizer: não sei mais o que fazer com meu filho!

Sétimo semestre — psicologia 2: não, a resposta certa não é "mata o infeliz"!

Oitavo semestre — esquema tático: seja um ninja e pegue no flagra todos os alunos que estiverem tentando colar durante a prova.

Nono semestre — faculdade de Dança pra quê? Aprenda a montar coreografias básicas de diversos gêneros musicais.

TCC: pra que se estuda Artes mesmo?

Com isso cheguei à conclusão de que não tenho sido um bom negócio para as escolas que trabalhei/trabalho. Até que sou boa professora, com a prática as coisas vão melhorando, mas sou uma péssima decoradora. Tomara que os professores de Educação Física tenham cumprido com todas as disciplinas obrigatórias do curso. Já dá uma ajuda!


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domingo, 21 de junho de 2015

DO PERDÃO >> Whisner Fraga

Naquela época, o Brasil vivia uma crise e minha família também. Com o divórcio, minha mãe, uma dona-de-casa esperta e temerosa, tentava sobreviver. Da separação ficara com uma casa razoavelmente grande, que alugava. Tinha uma pequena renda, oriunda dessa locação e da pensão de um salário mínimo ao mês. Como morava apenas com meu irmão, não precisava de um imóvel tão grande, de modo que ambos locavam um apartamento de dois quartos.

Minha mãe é uma pessoa muito correta, de forma que prefere sacrificar o que for possível e o que não for para não ficar devendo a ninguém. A família que habitava a casa dela não era rica, mas os parentes sim. Era um irmão o responsável por todas as despesas deles. A coisa ia razoavelmente bem, a não ser pelos constantes atrasos no pagamento. Os milionários não eram pontuais na liquidação de suas dívidas.

Minha mãe, acostumada, explicava para o Enio da farmácia, para o Sebastião do mercado e para o Vilela, do varejão. Todos entendiam que a senhora era uma boa pagadora e que um dia receberiam o que vendiam fiado. Só que um dia a coisa degringolou. O locatário atrasou quatro meses seguidos. Recebi um telefonema da velha, se eu não podia ajudá-la. Financeiramente não. Naquela época eu mal tinha para a comida. Vivia da ajuda do pai, de bolsas da universidade e de pequenos trabalhos para os colegas.

Logo ela esclareceu que queria outro tipo de força: que eu ligasse para o Fulano riquíssimo e tentasse resgatar o que ele lhe devia, de preferência com juros. Então telefonei para a casa do senhor e quem atendeu foi a filha dele. Pedi a ela que chamasse o pai e ela perguntou qual seria o assunto. Adiantei o expediente e fui humilhado ali mesmo, virtualmente. Que eu não sabia com quem estava falando, que a família dela não era afeita a calotes, que ela iria me processar, que eu não era ninguém, que ela era isso e aquilo e muito mais e assim por diante. Inexperiente, me rendi aos aparentes fatos e decretei o fracasso a minha mãe.

Lógico que a vontade que tinha era de ir lá e tirar tudo a limpo. Se fosse hoje, a coisa não ficaria assim. Mas como não desejo mal a ninguém, só espero que a família tenha se ferrado aí pela vida afora e ficado pobre graças a algum investimento malfeito. Mais do que isso seria maldade. Hoje eu entendo que o que aquela moça fez é parte de uma cultura machista que ainda está tão em voga e que tem como objetivo simplesmente humilhar os mais fracos.

Voltei para meu curso de engenharia, chateado porque naquele momento experimentava a maldade e a falta de solidariedade típicas do ser-humano. Minha mãe passou por aquela, conseguiu quitar suas dívidas, um pouco, paradoxalmente, graças à boa-vontade dos comerciantes da cidade. E nesse momento experimentei também a benevolência e o altruísmo típicos do ser-humano. E descobri que a vida é injustiça e perversidade, mas também mistério e clemência, como deve ser.

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sábado, 20 de junho de 2015

CANTIL >> Sergio Geia


Deixa eu lhe contar essa: o programa era um churrasco com amigos, com direito a violão, pagode e piscina. Nada mais ordinário nesse mundo de encher o bucho. Forrei a sacolinha de supermercado com as cervejas que encontrei na geladeira, mas o que eu queria mesmo, amigo, era levar minha cachaça que guardo aqui no cofre dos destilados, para poder, nos intervalos entre uma malpassada picanha e outra, dar uma bicada no líquido precioso.

A cachaça que tenho aqui, muito bem armazenada por sinal, num espaço de minha sala que alcunhei de “cofre dos destilados”, é de bálsamo, produzida num alambique esplêndido da cidade de Guararema, e trazida até mim pelas mãos sagradas e embriagadas do Julio, grande amigo cuja sogra mora lá, numa aprazível chácara nos arredores da estradinha que vai dar em Mogi. Pra quem não sabe, Mogi e Guararema são unha e carne; como Taubaté e Tremembé, Santana de Parnaíba e Barueri.

Tenho certeza que meus amigos cachaceiros apreciariam a delicadeza do gesto, e assim, além de me proporcionar um grande prazer, faria a alegria da moçada. Mas onde depositar o precioso líquido a fim de salvaguardá-lo das impurezas do caminho, pra que pudesse chegar são e salvo aos braços da galera? E aos beiços também? Não tinha o recipiente adequado e levar a garrafa inteira seria no mínimo deselegante, sem contar a desagradável possibilidade de eu voltar pra casa de bucho cheio mas de garrafa vazia.

Lembrei-me daquela garrafinha pequena de uísque, quadrada e prateada, de aço inox, tão comum de se ver nos bolsos dos pinguços da novela da Globo, que no escritório, num momento de fuga profissional, escondidos na bolha imaginária do ambiente vazio, tiram do bolso do sóbrio paletó e a levam até a boca, bebendo de forma tão prazerosa o bicho, que nos faz pensar de onde vem substância tão estimulante, que Ricardo, meu camarada de São José dos Campos, não se cansa de chamar de “líquido dos deuses”.

Mas esqueça essa história, amigo. Já foi. Para lhe matar a curiosidade, se é que ela brotou, informo que naquele dia não tinha o cantil porta-bebida, e tratei de levar o garrafão mesmo, que nem voltou pra casa, pois secou nas duas primeiras horas de festa.

Pois outro dia, caminhando no calçadão, lembrei-me do ocorrido e tratei de procurar o tal cantil. Entre meandros e corredores de lojas e armazéns, a grande dificuldade que encontrei foi me fazer claro na informação do produto que desejava. Ou sou um péssimo comunicador, ou essas atendentes jovenzinhas não entendem nada de cantil. Depois de muito espiar, pois não queria incomodar e nem ser passado por bebum, eis que me via sempre em apuros sendo obrigado a perguntar. De repente, a vendedora saberia o caminho das pedras, ora bolas.

Que nada. Ela sequer atingia o nível de sofisticação da minha solicitação. E isso não foi em apenas num lugar, mas em vários. No entanto, já quase desistindo da empreitada, eis que me surge no caminho um simpático varão; coreano. A loja tinha lá suas miudezas, e eu o procurei imediatamente, já cansado de tanta desinformação. “Uma garrafinha de bolso pra transportar cachaça, amigo”. Confesso que não entendi nada do seu português. Mas nem precisou. Ele mais do que depressa se enveredou pelos corredores escuros da loja e logo voltou trazendo o meu cantil.


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sexta-feira, 19 de junho de 2015

ESCOLHAS >> Zoraya Cesar

Miranda queria um amor. Um amor suficiente, dizia, que fosse para sempre. Não queria paixões, não queria arroubos, suspirares românticos, melosidades. Queria mão na mão, cumplicidades, silêncios, um amor suficiente para colorir a alma e fazer da vida uma experiência melhor. Um amor para o dia a dia; para a noite também. 

Em junho, mês de Santo Antonio, Miranda pediu-lhe que a ajudasse a encontrar o seu amor suficiente. E, coincidência ou não, assim que saiu da igreja, Miranda encontra o homem que fora o grande amor de sua vida. Coisa de cinema. Eles pararam, olharam-se longamente, aproximando-se em câmara lenta. Primeiro, encostaram as testas, depois o nariz, depois a boca. O beijo foi longo, profundo, e, aos poucos, os braços dele a envolveram como se nunca mais fosse soltá-la, como se os 15 anos de afastamento nunca tivessem existido. Só se largaram quando a necessidade de respirar foi mais forte.

Jonas! O beijo, o cheiro, a maneira de abraçar, de sorrir, nada mudara. Estava um pouco grisalho, um tanto barrigudo, usava um brinco na orelha. E uma enorme aliança envolvia seu dedo anular esquerdo. Jonas casara.

Estava casado, sim, mas mal-casado. A mulher era bonita e boa pessoa, mas tinha um gênio intragável, brigava a troco de nada, implicava com tudo, desde a maneira dele dirigir (e Miranda lembrava de como ele dirigia bem) até o tempo que ele passava no banho. Não tinha separado ainda por pura inércia. Escolhas.

Vindo de qualquer outro homem, Miranda acharia que seria o velho golpe aplicado por homens casados, mas Jonas sempre fora correto, uma das qualidades que ela mais admirara nele.

O coração, esse ser rebelde. A paixão e o amor ressuscitaram em Miranda ainda mais fortes do que foram um dia. Ela entrou num dilema existencial: não pediria que Jonas se separasse, nem seria amante de homem casado. Mas o vento que sopra cá também sopra lá, e em pouco tempo Miranda percebeu que não era a única a ter caído de amores.

Ela nada pediu. Estava feliz, amando um homem que já conhecia, sabia o caráter, experimentara o sabor. Por enquanto, tê-lo novamente em sua vida lhe bastava. Não precisava de sexo, nem finais de semana, telefonemas a todo momento, nada dessas ‘adolescências’. Nunca ligara para ele, receosa de causar constrangimentos. E talvez tudo ficasse por isso mesmo se Jonas não lhe comunicasse que decidira se separar. Escolhas.

Disse que não perderia, de novo, a mulher de sua vida. Garantiu que, tão logo a esposa se mudasse, eles ficariam juntos, casariam de papel passado, na Igreja, tudo nos conformes. 

Miranda perdeu o norte e o equilíbrio que mantivera até então. Agora que existia a real possibilidade de realizar o seu amor, nasceu nela uma urgência, uma necessidade, de andar de mãos dadas, dormir na mesma cama, de passar o resto da vida com ele, e quanto antes, melhor.

Ansiosa, sim; descontrolada, não. Feliz com a perspectiva de ficar com o homem que amava -, Miranda esperou. Primeiro, que a esposa de Jonas terminasse as reformas do apartamento. Depois, que ela extirpasse um cisto do ovário. Esperou, por fim, que ele entrasse com os papeis da separação e tirasse a aliança do dedo. Miranda tudo esperou e tudo entendeu, a vida não era simples mesmo. Escolhas.

Ademais, no passado, Jonas sempre dera sobejas provas de ser bom caráter, reto, honesto; Miranda não tinha por que duvidar de sua sinceridade ou amor. 

Os fatos, no entanto, falaram por si. De repente, Jonas deixou de enviar mensagens carinhosas; não ligava na hora combinada; conversavam apenas sobre os problemas dele, nunca os dela. Até que ele sumiu por uma semana, ao final da qual ligou para Miranda, apenas para dizer que estava resolvendo sérios problemas, e que eles tinham de conversar. E desligou sem mais explicações. 

Miranda ajoelhou-se aos pés de Santo Antonio e rezou. Não entendia o que estava acontecendo, mas pediu para que tudo se esclarecesse, ela aceitaria a vontade Divina. E esperou. Esperou duas, três semanas, mas Jonas não ligou de volta. 

Humilhada e arrasada de tristeza, Miranda resignou-se, respirou fundo e seguiu em frente. Jonas se transformara em um velhaco mentiroso. E ela não queria um homem assim. Portanto, nunca o procurou, nem para saber  que acontecera. Aceitou a resposta do seu Santo de devoção. Escolhas.

Os meses passaram, claro, pois é característica dos meses passarem assim, sem nos pedir licença. 

E eis que chegamos, de novo, em junho, e eis que vemos Miranda saindo da Igreja de Santo Antonio e encontrando... quem? Jonas, claro, quem poderia ser? O príncipe encantado? 

Nada mais longe disso. Jonas envelhecera muito, a barriga enorme, o cabelo ralo. Discutiam, ele e uma mulher, asperamente. Miranda reconheceu-a, era a esposa de Jonas. Então, pensou, eles continuavam juntos. Voltou à Igreja. Ajoelhou-se. E agradeceu, por se livrar daquele covarde mentiroso. 

Aliviada, Miranda achou que já era hora de voltar a pedir por um amor suficiente. Continuou, portanto, ajoelhada.

(Os meses passam, mas, também, às vezes, trazem algumas surpresas, portanto, não se preocupem. Se Jonas continuou numa união infeliz, e nós nunca saberemos o porquê de sua escolha, Miranda, finalmente, encontrou o seu “amor suficiente”. Se foi pra sempre, também não temos como saber, pois, como diz o Oswaldo Montenegro, pra sempre não é todo dia)





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quarta-feira, 17 de junho de 2015

DESASSOMBRO >> Carla Dias >>


Quanto mais o tempo se coloca entre nós e algumas das nossas histórias, mais essas histórias se parecem com a de outra pessoa. Poderíamos até contá-las como se falássemos sobre algum conhecido, com quem mantemos uma relação de afeto, apesar de estarmos distantes.

Acredito que o mesmo aconteça com os desejos para a vida. Não são apenas planos, projetos ou sonhos, mas desejos aos quais dedicamos muito tempo e trabalho para realizar, e que postergamos essa realização com a sensação de autoria desse ato, quando na verdade se trata de um cancelamento do destino. Não à toa, todos nós acabamos por conhecer – ou nos reconhecermos em – pessoas que não conseguem aceitar que esses desejos já não cabem mais na realidade delas.

Quando aprendemos que o indelével é tão frágil quanto o perfeito, nos tornamos capazes de reconhecer a riqueza da troca que a vida nos oferece. Os desejos podem não ser aqueles de há duas décadas. Eles podem ter sido transformados não somente pelo tempo que passa - proporcionando números a mais ao frescor da nossa idade -, mas também pelas experiências que acolhemos. Por mais experientes que possamos nos tornar com a passagem do tempo, é preciso nos despedirmos dos desejos para a vida que compusemos quando corpo e alma tinham todo tempo do mundo para realizá-los. Havia essa sintonia inspiradora, capaz de nos fazer alcançar o quase impossível. De duração que, mais tarde, vai nos soar como mais breve do que jamais imaginaríamos.

Apesar das mudanças oriundas do irrealizável, ainda temos todo o tempo do mundo. Pode não ser mais todo o tempo do mundo que tínhamos quando abraçamos aqueles desejos que, de acordo com a tenacidade do momento - regalia da ignorância sábia que incita possíveis corajosos -, eram nossos e tudo era questão de tempo e empenho. Ainda assim, é todo o tempo do mundo, o de cada um de nós, planando sobre o conhecimento adquirido, a sabedoria que conquistamos somente vivendo o muitas vezes desconhecido, compreendendo que há espaço para nós no improvável.

Extrair desses desejos para a vida a longevidade de um para sempre. Revê-los, abrir mãos de alguns, ainda que sejam marcantes na nossa biografia, praticamente definidores daquela pessoa que nos tornaríamos e que vendemos aos patrões - por meio de currículos e projetos -, e durante as conversas com os amigos - como desfecho decidido, sem espaço para mudanças. Negar a esses desejos o poder de nos guiar pela vida é o mesmo que oferecer espaço para o deslumbramento diante de uma surpresa. E essa é das liberdades aprazíveis.

Temos todo o tempo do mundo quando nos damos conta de que, com o tempo, somos capazes de abrir mão do que nos mantém estagnados, tamanha ansiedade por realizar desejos para a vida que nem mesmo condizem com a nossa história.

Assim, escolhemos o tempo de quem fala sobre si, reconhecendo-se.

Foto © Mônica Côrtes



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terça-feira, 16 de junho de 2015

FELICIDADE X TRABALHO, A ETERNA BATALHA! >> Clara Braga

Outro dia ouvi a conversa de duas alunas minhas. Elas estavam angustiadas por terem que fazer a inscrição para o vestibular e não estarem certas sobre o curso que escolheram. Na hora dei aquele risinho interno, me lembrando de quando passei por essa fase e descobri que até hoje, depois de formada, ainda tenho dúvidas sobre qual curso escolher no vestibular. Preferi não comentar nada, afinal, não seria exatamente uma boa forma de acabar com a angustia delas, acabaria piorando a situação. Continuei ouvindo, quando uma delas disse:

 - Você tem que escolher o curso que te faz feliz, pois depois você vai trabalhar com isso e se você estiver feliz, nunca vai precisar trabalhar de fato.

 - Nossa, profundo isso!

Cheguei a dar aquela respirada de quem se prepara para falar algo, quando ela voltou a dizer:

 - Essa sempre foi a lição que minha mãe me passou, ela sempre fala isso para mim e eu guardei.

Engoli a seco e continuei corrigindo umas tarefas como se nada tivesse acontecido. Nesses ensinamentos que mãe dá, ninguém mexe. Mas preciso admitir que, apesar de entender, eu sempre tive problemas seríssimos em aceitar essa afirmação de que se você estiver feliz no trabalho, nunca vai ter a sensação de que está trabalhando. Aliás, quer ver pessoas com cara de que não estão entendendo nada? Fale que está saindo para trabalhar e coloque um lindo sorriso no rosto! Sorriso e trabalho não pertencem a mesma frase, com certeza as pessoas vão te olhar de canto de olho!

Não gosto disso, queria começar o Movimento Trabalho Feliz, acabar de uma vez por todas com essa ideia de que se você está feliz não sente que está trabalhando! Está trabalhando sim, suando a camisa e feliz! Trabalhar, como tudo na vida, tem seu lado positivo e negativo. Eu amo dar aula, mas tem dias que eu sinto que estou fazendo trabalho que nem deveria estar. Professor é psicólogo, é amigo, é aquele que precisa dar um puxão de orelha, precisa entender que naquele dia o aluno não está bem, precisa administrar as fofocas de sala, as vezes precisa se meter em brigas alheias, precisa saber quando não interferir, enfim… me prepararam para entrar em sala e ensinar uma disciplina, mas tem dias que eu faço isso e mais um pouco de tudo! Vai dizer que eu não sinto que estou trabalhando porque estou feliz? NUNCA! Estou trabalhando duro, chego em casa cansada, tem dias que fico de mau humor, dias que não tenho a menor vontade de sair da cama para ir trabalhar, dias que tenho vontade de jogar todos os deveres que preciso corrigir para o alto e pedir demissão, a diferença é que esses dias são poucos em comparação aos dias que estou bem disposta, que estou, de fato, feliz de estar indo trabalhar!

Meu receio é ficarmos divulgando por aí essa mentira - sim, quem diz que não tem nenhum dia ruim no trabalho, por mais feliz que seja, está mentindo - e acabarmos confundindo mais ainda a cabeça desses jovens que, cada vez mais jovens, estão precisando escolher suas carreiras. O primeiro dia ruim que ele tiver já vai achar que não é aquilo que faz ele feliz, então vai entrar nessa busca eterna de algo que vai fazer dele uma pessoa 100% feliz, e vai esquecer daquele ensinamento básico: só existe felicidade porque existe tristeza, um conceito não é possível sem o outro! Ah, e vale lembrar também que o que te faz feliz não é o trabalho, é você mesmo!


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segunda-feira, 15 de junho de 2015

CADÊ O GATO? >> Albir José Inácio da Silva

Melhor que fosse acusação ou ameaça, dessas gritadas, das quais a gente se defende também com gritos, contra-ataca e deixa desmoralizado o acusador. Mas não era. Nem mesmo uma insinuação. Era só um lamento. Um choramingo.

- Já tem três dias que ele não aparece.

- Alguém matou. Covardia.

- Deve ter sido veneno, tem gente que é ruim.

Ao contrário das acusações e ameaças, das carapuças não se foge nem se responde. Mesmo quando passam ao longe, apenas entreouvidas, parecem atraídas pelas cabeças onde cabem. Aquele “tem gente que é ruim” me disparou uma taquicardia e não consegui evitar um gemido. O adulto mais próximo percebeu e não deu importância.

Mas quem sumiu? Não era um gato preto, misterioso e mal-assombrado, desses que lembram bruxas e demônios.  Era simpático e malhado de cinza e amarelo. Esfregava a cabeça e o dorso nas pernas das pessoas querendo carinho. Brincava com os outros animais, até com os pintinhos, sem ferir ou ameaçar ninguém. Os que não gostavam de gatos diziam que ele era imprestável, porque já o tinham visto brincando até com camundongos. Mas quase todos gostavam dele. Era um bom gato, e isso aumentava o meu remorso.

Como não tinha dono, nunca lhe deram um nome. Era simplesmente gato. Um gato comunitário. Todos lhe davam comida e ele dormia onde queria, sem ser incomodado. Fazia parte da comunidade.

O caminhão da loja de material veio sem o ajudante naquele dia. O motorista precisava fazer manobras complicadas para entrar no terreno e descarregar a terra de emboço. Só eu estava por ali, soltando pipa sobre a montanha de areia lavada que ele trouxera no dia anterior.

- Oh moleque, vê se dá pra ir! – gritou Seu Manuel dando ré na jamanta, antes de inclinar a carroceria.

- Vaai! – gritei, preocupado com a pipa, mas dando uma olhada no terreno atrás do caminhão. Por um momento me pareceu que as folhas da aboboreira se mexeram, mas devia ser o vento, que aliás quase me arrancava a pipa da mão.

Em segundos uma montanha de quatro metros de terra preta foi basculada e Seu Manuel acelerou sem olhar pra trás.

Dois dias depois, começaram a perguntar pelo gato. Ele nunca tinha sumido assim. No terceiro dia foi aquela história de “tem gente que é ruim” e eu já não dormia mais, pensando no gato.

 Além da tristeza, eu ainda vivia um dilema. Sentia-me na obrigação de movimentar toda a terra pro lado, para encontrar o gato e dar-lhe um enterro decente. Mas eu levaria dias para mexer aquela montanha, as pessoas fariam perguntas e eu teria de confessar meu terrível segredo.

No quarto dia não acordei porque não tinha dormido, mas levantei e fui para o quintal olhar o monte de terra, a ver se resolvia o que fazer da vida, agora arruinada pela tragédia do gato. Por um segundo me pareceu ter visto alguma coisa se mexer no alto da terra preta. O sol que nascia atrapalhava meus olhos, mas de repente eu vi. Não era um gato. Eram dois.

Uma gatinha branca, dengosa, esticava o pescoço, enquanto o nosso gato, desaparecido, lhe lambia o pelo. Não sei aonde ele tinha ido buscar aquela coisinha imaculada, mas, com certeza, não foi embaixo da terra preta. E era longe, porque demorou quatro dias a vigem.


Subi correndo com ajuda das mãos e a gatinha saltou de lado, desconfiada. O gato ficou lá, paradão, aguardando. Espero que outros olhos não tenham visto a cena: um molecão crescido, ajoelhado no alto do monte, beijando um gato que não tinha nome nem era de ninguém.


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sábado, 13 de junho de 2015

O CAMINHO >> Sergio Geia






A imagem é a de uma lata de salsicha. Pode ser de ervilha. Milho. Grão de bico. Mas ele não consegue encontrar a ideia de prisão de que tanto falam, de alguém escravo de suas próprias peles; embutido. Foi criando, eles dizem. Achando que era assim ou assado. De repente, estava escondido debaixo de uma fileira de edredons.

Tudo aconteceu de forma rápida e natural, eles prosseguem. Imperceptível também. Nada forçado, empurrado. Mas ele ainda não percebe tão claramente. Tudo está escondido num nevoeiro denso. Se bem que tem o tal do feeling. Ele tem. Na verdade, no fundo, mas bem lá no fundo mesmo, ele sabe. Sempre achou que estava fazendo a coisa certa, que percorria uma estrada segura. O que não podia imaginar era que essa estrada aparentemente segura e charmosa pudesse ser uma armadilha. A pele foi cortada. A natureza, transmudada. A alma, mutilada.

Elas gritam. Até então, viviam lá, tranquilas, pescando bacalhau na Noruega. Tipo sujeira debaixo do tapete. A ficha cai e ele resolve olhar com mais cuidado, levanta o tapete e encontra uma pasta enegrecida. Tem medo. Muito medo. Abaixa o tapete. Prefere ignorar, seguir adiante. Mas não dá. O adiante dura nada, e quando vê, está lá novamente. Agora, com coragem, encarando o negrume.

Ficam amigos e passam a trocar figurinhas. Com o tempo, descobre que não era nada daquilo. Um bebê. A inocência pura. O pensamento o fortalece. Estranho esse mundo que transforma maus em bons, complicado em simples, morte em vida. O tempo. Descobre que de todos, todos os seus amigos, até os mais íntimos, ninguém, mas ninguém tem o abraço do conforto mais apertado e curativo que o tempo.

Mas esse mesmo amigo revela que de candura o bebê não tem nada. Se estava pensando que era fácil, danou-se. Nada é fácil nessa vida. Descobre coisas novas, fissuras que precisam ser cuidadas, vazios que precisam ser preenchidos, nevoeiros que precisam ser dissipados. Descobre que precisa reencontrar sua natureza essencial para ser quem verdadeiramente é. Descobre que precisa encarar seus monstros intocáveis para tornar-se alguém de verdade, um ser de luz. Uno.

Ele se espanta com as luzes da cidade. Depois de mais uma boa e exaustiva caminhada, enfim um lugar para comer, fazer amigos e descansar. Sabe que é a primeira de muitas paradas. Sabe que o caminho pode ser ao mesmo tempo atraente e enriquecedor, perigoso e fatal. Mas tem a nítida sensação de que será bom, e que vai chegar são e salvo ao seu destino. Como o alquimista, até tem a intuição de que sabe onde seu destino vai dar. No entanto, não há atalhos. Se quer ser alguém de verdade e encontrar a sua essência, precisa correr riscos, precisa do caminho.

 

Ilustração: Renoir

 


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sexta-feira, 12 de junho de 2015

MADRUGADA DOS ENCANTADOS >> Paulo Meireles Barguil


Foi de madrugada.

No comecinho dela.

Os relatos são contraditórios.

Uns dizem que foi ela.

Outras sussurram que foi ele.

Todos concordam que aconteceu.

Umas declaram que foi repentino.
 
Outros suspeitam que foi planejado.
 
Ninguém sabe ao certo o que de errado aconteceu.
 
Alguém duvida de que o equívoco levou à virtude.
 
Há quem acredite que Deus ajuda quem cedo madruga.
 
Eu suspeito que Deus, também, ajuda quem tarde anoitece.
 
Há quem acredite que quem canta seus males espanta.
 
Eu suspeito que quem silencia seus bens encontra.


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quinta-feira, 11 de junho de 2015

SOBRE O AMOR INTEGRAL E BOICOTES >> Mariana Scherma

A primeira vez que eu vi a propaganda do Dia dos Namorados, de O Boticário, pensei comigo: “que lindo! E que bom que as pessoas estão tornando o amor mais real, sem preconceito!”. Depois, vi com meus pais e chegamos à mesma conclusão. É em casa que a gente aprende que preconceito só atrasa. Amor vai ser sempre amor, não importa se hetero, homo ou qualquer outra denominação. Todo mundo tem direito de gostar de alguém, seja ele branco, negro, amarelo, homem, mulher ou inventado.

Mas aí teve até uma reclamação no site Reclame Aqui de uma mulher insatisfeita por “ver a banalização das famílias no modelo tradicional”. Oi?! Ela diz mudar de canal toda vez que vê uma cena gay e não quer que seus filhos assistam à propaganda. Oi?! De novo. Toda vez que eu me deparo com esse tipo de preconceito, cresce uma revolta tão grande dentro de mim que fica impossível engolir e continuar, tipo engolir sapo, sabe? Dessa vez, não vou engolir e ainda vou dizer umas duas ou três coisinhas a esse tipo de gente carregada e pesada de tanto preconceito neste espaço. Desculpe-me você que não pensa como essa senhora, mas vamos lá:

Alguns de meus melhores amigos são gays. E também são as pessoas mais honestas que eu já encontrei pelo caminho. Eles doam sangue, doam brinquedos para as crianças mais necessitadas, pagam seus impostos em dia, votam com consciência, não param em vagas de idosos, enfim, agem com consciência de cidadão, que sabe ter deveres e direitos. Você, pessoa cheia de preconceito, acha que um homossexual, só por gostar de alguém do mesmo sexo, perde seu valor como pessoa? Jamais.

Uma vez, um amigo gay me disse que ele gosta da alma de um parceiro, independente de ser mulher ou homem. Você, pessoa carregada de preconceito, já se apaixonou pela alma de alguém? Ou prefere dar valor às posses, porte físico e cor dos olhos?

Conversando ainda com um amigo, disse a ele que não veria problema se meu filho fosse homossexual, porque me considero sem preconceito e blábláblá. Sabe o que me amigo me respondeu? Que seria melhor que meu filho nascesse hetero mesmo, porque o mundo é mais duro com os gays. Fiquei pensando nisso e hoje tenho a resposta ao meu amigo: não é o mundo que é duro, mas algumas (muitas) pessoas que são e fazem o dia a dia de pessoas tão pessoas como a gente mais difícil, mais sofrido.

Não deveria ser assim. Eu, hetero, nem faço ideia de todo o sofrimento que os homossexuais enfrentam, mas sei que eles não deveriam sofrer nenhum tipo de preconceito só porque amam. Amar deveria ser sinônimo de liberdade. Amar deveria ser fácil.


Boicotar marcas que sejam gay friendly é o mesmo que boicotar gente sem preconceito, gente que não distingue amor. Que triste dia dos namorados esse pessoal vai ter, sem saber o que é amor de verdade. Talvez esse já seja um grande castigo. Nem vou desejar mal.


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quarta-feira, 10 de junho de 2015

A MENINA DO PÔSTER >> Carla Dias >>


Nasceu meio torta, esquisita mesmo, como gostavam de dizer as meninas descoladas da rua onde morava, as mesmas da escola que frequentava. Beijar pôster de artista, antes de dormir, e bater papo com eles sobre seus sonhos para quando se tornasse adulta, renderam muitas zombarias, algumas capazes de magoar naquele tom de poesia pós-aquisição de tristeza porreta e completamente indesejada.

As meninas ficaram sabendo do seu segredo, porque, sem querer, o irmão comentou com elas. Ele é popular, adora impressionar as meninas, então embarcou na curiosidade delas sobre a irmã. Foi o que bastou para que elas tivessem assunto para semanas.

Tirando essa zombaria sem fim, a menina acredita que pode falar com quem quiser, ou com o quê. Ela conversa com o zelador e com Soraia, do apartamento 32, que vive no prédio desde muito antes que a menina e adora incenso. O Ludovico, moleque danado do apartamento 34, disse que ela é Hippie Chic. A menina não sabe o que é isso, mas gosta do cheiro dos incensos.

Outro dia, teve uma longa – e exaustiva – conversa com seu reflexo no espelho do elevador, que quebrou e o zelador, Seu Genival, demorou a resolver a questão. Ela bate uma caixa com os santos, às vezes até revigora a rebeldia, e convoca alguns demônios para o disse-que-disse. Tem pudor nenhum essa menina, quando se trata de conversa. E o beijo antes de dormir? No pôster? Ah, vá... Vocês nunca beijaram nada parecido? Capa de disco modelo Long Play, foto na revista, anúncio de iPhone de última geração? iPhone de última geração?

Hoje a menina não está para conversa. Andando de cabeça baixa, quando não de cara amarrada, como se tivesse letreiro na testa: “não fale comigo!”. O zelador estranhou por demais, quando ela passou por ele sem lhe oferecer o rotineiro – e sempre agradável – “bom dia”. Seu Genival sentiu uma dorzinha no peito, acostumado que está a ser agraciado com a graça da menina.

Ela encontra Soraia voltando do passeio com o Hendrix, seu Rottweiler preferido. Os outros três ficam no sítio dela, em Jaboticabal: Joplin, Morrison e Cobain. A menina levanta o olhar e cala o sorriso da mulher com a tristeza exposta neles, que lhe pergunta se está tudo bem. A menina se ajoelha no chão, faz um carinho no Hendrix, e diz que ainda bem que a Soraia tem um apartamento enorme, onde ele cabe folgadamente. Depois, vai embora, sem responder a pergunta de Soraia.

Sim, ela está extremamente chateada nesse dia. Conversou quase uma hora com o pôster do seu artista preferido, tentando entender o motivo de tal descabimento. Ele não tinha nada a dizer, e ela entende. Esse é um assunto delicado. Daí sua mãe gritou “café na mesa!” e, quase que ao mesmo tempo, seu estômago roncou. Ela beijou o pôster, desejando um ótimo dia ao artista e foi tomar café da manhã. Comeu tudo, como a mãe ordenou, e mais três ou sete bolachas. Depois, foi para a escola, o coração apertado.

O que deixou a menina cabisbaixa, intrigada, com vontade de nunca mais pentear os cabelos, em sinal de protesto, foi o jeito com o qual as meninas-zombeteiras trataram uma nova aluna da classe, na semana anterior. As cascas-grossas disseram que se a menina pronunciasse uma palavrinha que fosse elas treinariam tiro ao alvo com elástico, e a menina seria o alvo. Além disso, teve a outra coisa...

A aluna nova não disse palavrinha que fosse. Mesmo com a menina puxando conversa, animada, doida para conhecer melhor a colega de classe. Nadinha de nada. Assim, a menina teve outra longa – e exaustiva – conversa consigo, mas desta vez não foi seu reflexo o ouvinte, e sim a nova vítima das meninas-zombeteiras.

No final da aula, após outro monólogo da menina, a aluna nova se aproximou bem dela e disse - meio que assoprando as palavras, evitando mover os lábios, que estava morrendo de medo de a descobrirem e ela se tornar alvo de elástico: “você beija pôster? Não tem nojo, não? Eita! Guria porca...”.

A menina nova ficou uma semana calada. Quando foi liberada pelas meninas-zombeteiras, ela se mostrou uma ótima conversadeira. Porém, ela se uniu as suas ex-algozes, expressando a sua opinião sobre a outra. Foi assim que, no dia anterior, as meninas-zombeteiras adotaram mais um adjetivo para infernizá-la: porca. Agora, ela era a menina porca do pôster.

Ela não entende a facilidade com a qual as pessoas definem as outras. Sem contar que ela gosta por demais da porquinha que a Dona Ludmila, do apartamento 12, adotou. Até laço cor-de-rosa na Severina a Dona Ludmila colocou. Ficou linda, linda.

A menina sabe que isso vai passar, e que não gosta de perder tempo sem perguntar, questionar, querer saber mais e mais sobre o tudo. A sua curiosidade é fã da gentileza e do respeito, talvez por isso os adultos gostem tanto de conversar com ela. Nem sempre funciona com as meninas de sua idade, mas ela entende que o ser humano não pode ser bom em tudo. Ela é boa com as conversas... Até o Ludovico disse isso, fazendo careta, mas disse.

Ontem ela levou uma rasteira desse sentimento novo: desapontamento. Ainda assim, tem muito a contar, debater, desfiar. Por isso, ela planeja, na volta da escola, uma parada de boa duração no balcão do Seu Genival. Talvez toque a campainha da Soraia - que fez com que ela prometesse nunca mais chamá-la de Senhora ou Dona - para comer a famosa gelatina de morango e fazer carinho no Hendrix. Quem sabe ela não faz uma visita a Dona Ludmila - que a fez prometer não chamá-la de Lud, como as suas irmãs a chamam - e leva a Severina para um passeio pelo corredor?

No meio do caminho, antes mesmo de chegar à escola, a menina sorri. No portão, agrupam-se as meninas-zombeteiras, mas ela se sente tranquila, e acena para elas, antes de atravessar o portão. Elas torcem o nariz, uma até faz o sinal da cruz.

Hoje ela vai ter muito que conversar com o pôster. E antes do beijo de boa noite, ela vai escutar aquela música, sabe? Aquela...


Imagem © freeimages.com

carladias.com


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sábado, 6 de junho de 2015

SUBJETIVIDADE >> Sergio Geia





Na insegurança da publicação do meu primeiro livro, algumas coisas me serviram de estímulo e me deram coragem pra seguir em frente. A análise de uma profissional do Rio de Janeiro, por exemplo, contratada para apontar os defeitos. “Você não me contratou para dourar a pílula, né? Para receber elogios?” “De jeito nenhum.” Surpreendentemente, oitenta por cento da resenha foi positiva. Os outros vinte eu tratei de dar duro pra melhorar.

Outra coisa: a crítica literária. Tipo essas duas que tratam do mesmo livro.

1. O livro não é ruim. Ele é simplesmente muito ruim, e o advérbio de intensidade não é utilizado aqui de modo leviano. Ao contrário, a resenha reclama esse tipo de posicionamento logo de cara, a fim de deixar bem clara a posição do resenhista. Malsucedido é um tijolo de pouco mais de quinhentas páginas que não mostra absolutamente nada, ou, mostra superficialmente, digamos, cenas pobres e malnarradas de um cotidiano chinfrim passado numa favela de São Paulo. Honestamente, a primeira impressão que despertou nesse resenhista ao se deparar com o estranho livro de Augustus Augusto, é que o escritor, atrevidamente, pretende se apresentar ao mercado editorial como um autor de vanguarda, alguém que faz algo diferente, e que quer produzir, ou pelo menos tenta, um livro experimental de alta complexidade, que talvez, na sua míope visão, represente o alicerce de uma nova faceta, mais moderna, da literatura contemporânea. E se essa foi mesmo a sua intenção, o autor deu uma tremenda bola fora. O leitor que percorre as páginas de Malsucedido vai perceber logo de cara que a jornada é insana, tipo escalar o Everest. Nada se sustenta no pobre tijolão de Augustus. Tudo está de ponta-cabeça: tempo, personagens, ações; há uma evidente falta de conexão entre as cenas, um simulacro de história malcosturada com frases obscuras, pobres, sem sentido, abusando o autor da simplicidade linguística, do uso de expressões chulas e de metáforas — na maior parte, vazias de sentido.

2. Há tempos o cenário literário brasileiro não apresenta uma obra que se desvie, ainda que minimamente, do lugar-comum das mesmices romanescas do tempo de antanho. Nesse sentido, Augustus Augusto parece ser uma joia rara, e seu Malsucedido desponta como uma das mais bem-sucedidas obras de ficção já concebidas no universo literário tupiniquim, que me perdoe o uso do trocadilho. Das experiências verificadas no livro experimental de Augustus, o leitor mais acostumado com a estrutura trivial dos romances contemporâneos pode estranhar, e não conseguir atingir o nível de profundidade a que o livro convida, desistindo após as primeiras páginas. No entanto, aquele que consegue superar esse primeiro grande obstáculo, vai encontrar uma obra monumental, sólida, bem-costurada, numa linguagem totalmente intrigante e apaixonante, e vai viver uma das mais belas experiências que uma boa literatura pode proporcionar: no caso do livro de Augustus, estar presente no dia a dia de algumas famílias da periferia, vivendo de forma visceral os graves e retumbantes problemas da sociedade dos homens, sem sair de casa, apenas folheando as páginas magníficas do tijolo de Augustus Augusto...

Fico a pensar que tudo, tudo nessa vida é de uma subjetividade retumbante. A verdade, meus caros, é individual, e existe apenas no universo de cada um.

 

Ilustração: Tomie Ohtake


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sexta-feira, 5 de junho de 2015

MATILDA >> Zoraya Cesar

Não havia casal mais amoroso, isso era certo. Não obstante o fato de ele ser 38 anos mais novo que os 64 de Matilda.

No início, todos os conhecidos dela – e, porque não dizer, os de Edu também – pensaram tratar-se do velho, mas sempre atual, golpe do baú. E por que assim não creriam? Se não, vejamos: ela, enfermeira aposentada pelo serviço público, sem parentes ou aderentes que pudessem, de alguma forma, herdar seus bens. Que não eram muitos, mas eram sólidos. Um apartamento bem localizado, um carro ano 2000 e uma poupança razoável. Era gordota e flácida, vestia-se com um mau gosto atroz e - não sejamos bondosos ou hipócritas - era feia e mal ajambrada. Parecia um pequeno espantalho. Ele, por sua vez, era bonito, alourado e musculoso - mas pobre e suburbano -, recém-formado em Educação Física, por uma dessas faculdades que o MEC nem sabe que existe; a academia, na qual trabalhava o dia inteiro, era pequena, se o professor não desse a sorte de ser contratado como personal trainer, corria o risco de morrer de fome.

Se o destino de Matilda parecia ser o de morrer virgem, e o de Edu, o de morrer de fome, mais uma vez comprova-se que as aparências enganam. Ela o contratou como seu treinador particular, e, em poucos meses, passaram da cadeira flexora à cama. Dela, naturalmente, que Edu morava longe e mal. O escândalo foi geral. Afinal a diferença de idade era gritante e indecente. Estava claro que o jovem forte e bonitão queria vida mansa ao lado da feiosa e, obviamente, ingênua, solteirona. 

O fato, porém, era que os dois estavam sempre juntos, de mãos dadas, no cinema, na praia, nas curtas viagens e passeios – que o dinheiro de Matilda era curto, e de Edu, quase inexistente. Faziam tudo o que um casal menos desusado faz. Sexo, inclusive. Perguntavam-se, os maldosos, se Edu realmente amava Matilda, ou não passava de um ganhoso. Mas não prestemos atenção aos maldosos, pois eles não herdarão a terra. Melhor viver e deixar viver. De preferência, bem. Amando ou somente movido pela cupidez, Edu provia a esposa de  carinho, cama, companhia. 

Esposa, eu disse? Esposa, confirmo. Depois de um ano juntos, resolveram se casar, um sonho tão velho quanto eu, brincava Matilda. 

Casaram-se, pois, ele, de fraque; ela, de véu e grinalda. Passaram a lua-de-mel no Caribe – uma viagem paga em 10 vezes sem juros -, nadando, pescando, mergulhando. A essas alturas, o pessoal desistiu de insistir que ele era um golpista e ela, uma otária. Aceitaram que era amor, encontro de almas, espíritos evoluídos, destinos cármicos. E a vida seguiu.

A vida seguiu, e, atrás dela, a morte, que é o curso natural das coisas desde que o mundo é mundo e assim continuará sendo, mesmo quando o mundo, tal qual o conhecemos, deixar de existir.

Engasgando com as lágrimas, sacudindo-se toda, Matilda ameaçava jogar-se no mesmo buraco onde Edu passaria o resto de sua não-vida. Seu jovem, atlético, saudável marido morrera de repente, num ataque fulminante ocorrido na madrugada. 

Ela se declarava culpada, pois costumava tomar soníferos, não fosse isso, gritava, poderia ter salvo a vida do seu amado. Os presentes a consolavam, imagina, diziam, quando a hora chega, chega para todos, nada a se fazer... As platitudes de sempre.

Quando a última pá de terra cobriu o último vislumbre de caixão, Matilda deu o último adeus e foi embora para casa. 

Chegou, ajoelhou-se e pegou uma garrafa embaixo do armário. Serviu-se de uma generosa dose de Glenlivet, seu uísque preferido, único luxo ao qual se permitia. Tomou um, dois, três goles com os olhos fechados, enlevada.  

Nunca mais precisaria beber escondida. Nem mexer em sua poupança, a cada ano mais magra. Não mais teria de contar trocados ao final do mês. Ou aturar a conversa chata e desinteressante daquele moleque ignorante, que só servia mesmo para o sexo. Se bem que ele fora um ótimo investimento. Ela tomou mais um gole, prolongado, quente, perfumado. E congratulou-se, feliz.

Pois fora tão fácil seduzi-lo com a possibilidade de que, pela idade, morreria logo, deixando tudo para ele. Matilda, velha de guerra, jamais acreditou que um jovem de 26 anos se apaixonaria por seu corpo mole, suas varizes, seu rosto caído. Ela apenas fingiu não perceber o Viagra escondido na gaveta; as trocas de mensagens com uma aluna, morena e jovem e sexy; o ligeiro desdém com que ele a olhava quando estavam sós. Tudo muito discreto, claro, ambos cúmplices tácitos no jogo do eu te amo, eu te amo também. 

Convenceu-o a fazerem, ambos, um polpudo seguro de vida, pelo qual, em caso de morte, o cônjuge sobrevivente receberia uma pequena fortuna. E como, segundo o curso natural da vida, Matilda morreria antes, Edu assinou o contrato, sem ler duas vezes. Aliás, não leu nem uma, que dirá duas.

Escolhera o Caribe como destino da lua-de-mel com o propósito de conseguir veneno de baiacu. Na noite fatídica, trocou o suplemento vitamínico de Edu pelo mesmo sonífero que ela fingia tomar todas as noites. Enfermeira com doutorado em Química, manipulou o veneno e injetou-o no marido inerte. Que morreu sem saber o que acontecia.

Matilda terminou sua bebida e pegou os classificados. Estava mais que na hora de comprar um carro novo.



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quarta-feira, 3 de junho de 2015

A SURPREENDENTE DESCOBERTA >> Carla Dias >>


Disseram-lhe que Deus abençoava, mas ele só se conscientizou quando o gerente de marketing garantiu. Depois do uso, deu errado. Ninguém sabia dizer o motivo, nem mesmo o atendente do SAC, pelo qual foi atendido após 43 ligações e 43 protocolos anotados no verso daquela carta. Ele ficou confuso... Por que ninguém lhe esclareceu sobre os efeitos colaterais?

A mãe disse que era obra do diabo, que tinha dado errado porque ele assistiu àquele filme de título escabroso, noite passada. Benzia-se a mãe, enquanto a irmã alegava – voz arrastada, como se ainda não soubesse o significado das palavras - que a culpa era mesmo daquele político que, desastrada e desastrosamente, afanou a dignidade do cidadão. O pai, que ele pensou ser alheio aos acontecimentos da casa, verbalizou a indignação em ver o filho passando por apuros pelos quais homens de família jamais deveriam passar.

Colocou a carta no bolso, melhor não se afastar dos seus 43 números de protocolo. Saiu de casa ruminando a confusão emocional. Se Deus abençoou, não deveria ter saído tudo direitinho? E ele tem de tirar o chapéu para o diretor de marketing da campanha... Tudo muito requintado, divulgação na tevê, nas revistas – online e impressas -, sedutores flyers caindo direto na sua caixa postal, Merchandising durante a novela das nove e quinze, com aqueles atores e aquelas atrizes servindo de outdoor. Um deles até lhe mandou uma mensagem por e-mail, depois escreveu na sua timeline.

O colega de trabalho ficou lhe encarando durante um bom tempo, numa mudez, olhar vagueando pelo escritório. O colega de trabalho acha que faltou empenho dele. Não tem a ver com efeitos colaterais, que se machucasse, deixasse doente, era obrigatório que a informação constasse no material de divulgação. E diretores de marketing vendem o produto. Não inventam sobre ele.

Na hora do almoço, encontrou com o primo de segundo grau, aquele que se casou com a prima de primeiro grau. Após escutar a história toda, ele balançou a cabeça, negativamente, enquanto falava sobre como Deus está por fora, e o marketing é coisa do capeta. Que ambos deviam rever as suas propostas, Deus e o diretor de marketing, pois a promessa deles era de salvação, e nada nem ninguém foi salvo.

Tentou o SAC novamente, que precisava entender essa coisa de responsabilidade. Afinal, de quem era a culpa de tudo ter dado errado? Desistiu após anotar, naquela carta que trazia no bolso, o número do protocolo 16. Sentia-se cansado, aborrecido, desiludido, com saudade do beijo da Letícia, afrontado.

Tentou a igreja. O padre estava ocupado com a confissão dos coroinhas. O templo. O pastor saiu para um café com um vendedor de uma nova maquininha para cartões de crédito. Bateu à porta da sede do seu partido, mas ninguém atendeu. Poderia ter tentado outras religiões, outras sedes de outros partidos, mas se sentia cansado, aborrecido, desiludido, com vontade de se enroscar nas pernas da Letícia, desrespeitado.

Sentou-se naquele banco, de frente para o mar. Tanta beleza que lhe faltou o fôlego. Como pode haver cenário feito esse em um mundo em que gastamos horas tentando falar com uma pessoa pelo SAC? Será que nos tornamos clientes da vida, em vez de donos dela, ao menos da nossa própria?

Passa muito tempo ali, refletindo, enquanto o dia vai acabando. Gosta do clima do outono, do friozinho que chega com a noite. Coloca as mãos nos bolsos do casaco, e somente ao tocá-la ele se lembra da tal carta. Chegou quando mesmo? Nem sabe... Quem ainda manda cartas? Por que não uma mensagem por e-mail?

O envelope todo rabiscado com números que não deram em nada. Ele a observa e sorri, pensando nas obras de pintores surrealistas. É um envelope fino, provavelmente conta a vencer. Sem remetente, ele se sente um destinatário profundamente solitário. Abre o envelope, tirando de dentro dele uma única folha de papel. Nessa folha, palavras escritas à mão, caneta azul, tão diferente das tradicionais digitadas em fonte cursiva, impressas na cor cinza-bem-escuro. Ele se sente levemente feliz. Há tempos não vê a letra de alguém.

Começa a leitura. Aos poucos, seu corpo passa a se comportar estranhamente. Ele sente o tal estremecer, e a boca seca? Pra quê?

São poucas palavras, porém arrebatadoras. De acordo com esse ser anônimo, essa pessoa que se preocupou em elucidar a questão, a culpa de ter dado tudo tão errado é ele mesmo. Ele é o próprio efeito colateral.

Que Deus não tem nada a ver com a história, e o diretor de marketing, responsável por campanhas arrebatadoras como esta, ele é somente um profissional qualificado – e muito bem pago - para escrever ficção, a fim de vender o que quase ninguém realmente precisa. Serviço de Atendimento ao Cliente está pouco se lixando para o cliente. Assim como muitos líderes religiosos. Todos estão em campanha.

Os olhos aguados... Como pôde fazer isso consigo mesmo? Feito, fazer o quê? Ele se sente cansado, aborrecido, desiludido, com vontade de chorar no colo de Letícia, desorientado. E assim como a noite, também chega essa certeza custosa de se aceitar, mas que ele tem de engolir. A culpa é dele, porque a escolha foi dele, porque a vida é dele, e ele não tinha se dado conta disso porque andava ocupado demais anotando protocolos.

Imagem: Untitled © Jean-Michel Basquiat

carladias.com



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terça-feira, 2 de junho de 2015

TÁ DIFÍCIL >> Clara Braga

Lá estava eu no carro, no banco do carona, conversando com o motorista tranquilamente quando em questão de segundos tudo muda. O carro da frente, andando um pouco distante, estaciona na parada de ônibus, o motorista abre a porta e se joga na frente do nosso carro. Reação instantânea e espontânea? Um berro que veio do fundo da alma e dizia: DESVIAAAAAAAA!!!!!!!!!!

Nem me lembro a última vez que gritei dessa forma, o susto literalmente me fez passar mal. Nunca tinha passado por nenhuma situação parecida. Já tinha imaginado como reagiria e o que é correto fazer, mas sentir na pele, nos músculos, nos ossos e na alma, isso nunca.

Alguns calmantes depois consegui começar a tentar assimilar a situação. Sim, apesar da lembrança ser um borrão como um sonho, um homem tinha de fato se atirado na frente do carro. Suicídio? Acredito que não, ele balançava as mãos para o alto quase exigindo que a gente parasse, e quando viu que não íamos parar de jeito nenhum, pulou para o lado contrário. Estava fugindo de um sequestro? Acho difícil, ninguém saiu atrás dele, parecia estar sozinho. Visualmente não estava armado nem machucado. Bem vestido. Pedindo ajuda para alguém que estava passando mal dentro do carro? Convenhamos, essa não é a melhor forma de pedir socorro, principalmente se você está dirigindo um carro, ou seja, pode levar essa pessoa até um hospital sem arriscar sua vida na frente dos carros. Sim, carros no plural, pois quando olhei para trás pude ver ele se jogar na frente de mais um carro e um ônibus. Caso você esteja se perguntando, todos desviaram.

Eu, ao mesmo tempo que me sentia aliviada de ter saído ilesa de uma possível tentativa de assalto ou sequestro - a não ser pelas tremedeiras nas pernas, uma noite de insônia e alguns cabelos brancos que apareceram - também me questionava se na verdade não tínhamos acabado de negar ajuda para alguém que necessitava. Não nego que a consciência deu uma leve pesada, mas nada foi mais pesado do que perceber que, sim, para sobrevivermos hoje temos que encarar o outro como um inimigo e prezar pela nossa vida, caso contrário, você pode estar entregando a sua vida em uma bandeja para um desconhecido.

Depois, conversando sobre o caso com algumas pessoas que possuem familiares na polícia, descobri que esse aparentemente é o novo golpe. A pessoa finge estar desesperada, precisando de socorro. Você, instintivamente, para no intuito de ajudar e acaba sendo sequestrado. Alguns nem agem sozinhos, atuam logo em grupo para poderem ocupar a pista inteira e evitar que o motorista tenha por onde desviar.

Então eu me pergunto, afinal, caso aconteça de interditarem toda a pista, como agir? Simplesmente passa por cima? Nem adianta responder a esse pergunta, percebi que só temos como saber nossa reação na hora “H”, aliás, nem somos nós que de fato reagimos, são nossos instintos, mas só de pensar já gela a minha espinha!

Se nos deixarmos levar pelo medo das situações que estamos vendo esses últimos dias, não saímos mais de casa, o que acabou sendo minha vontade por um tempo. O caminho parece ser um só, contar com a sorte para aqueles que não têm muita fé, ou uma boa prece pedindo proteção para aqueles que têm. E o pior é pensar que, como diz um colega de trabalho, nesses dias que já estão difíceis para quem acredita em Deus, ainda tem gente invocando o diabo com a caneta, vai entender... 


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segunda-feira, 1 de junho de 2015

O CONDEMÔNIO >> Albir José Inácio da Silva

Um professor de direito civil dizia sempre que condomínio não dá certo porque já começa errado pelo nome. Deveria se chamar condemônio.

Não acredito nisso. Deve haver lugares em que as pessoas vivam em harmonia. Mas a história de hoje com certeza não se passou num desses lugares.


- É a cota de condomínio mais cara do bairro, e um prédio caindo aos pedaços! Só eu vejo isso? Aonde vai o nosso dinheiro? – esbravejou Dona Francisca, engasgando o pobre síndico reeleito, Dr. Cunha.

Ela interrompia a cada cinco minutos. A reunião não andava. Dona Francisca parecia uma velhinha indefesa, mas quando abria a boca não poupava ninguém. Há anos revoltava-se sozinha contra os desmandos no edifício, os outros moradores pareciam anestesiados.

- Eu ainda vou descobrir o que acontece aqui! – dizia, insinuante.  Atenta, ela circulava silenciosamente pelo condomínio, assustando quem eventualmente estivesse em flagrância mesmo de alguma bobagem. Por isso as más línguas a chamavam Dona Fuxica.

 O presidente e síndico perdeu a paciência:

- Dona Francisca, eu posso continuar? Estou aqui tentando explicar, mas a senhora não deixa. Ninguém gosta de condomínio caro, eu também não gosto, mas é a inflação, produtos e serviços estão um absurdo. Eu não posso fazer milagres.

Ninguém sabe como o Dr. Cunha conseguia se eleger. Garagem escura, vazamentos, infiltrações, revestimento caindo, lâmpadas queimadas nas escadas e elevadores parando a cada dois dias. Além disso, compras eram feitas e não entregues, serviços pagos e não executados.

Dona Francisca dizia que ele visitava apartamentos, não lançava multas, priorizava unidades e distribuía brindes de fornecedores àqueles que o apoiavam. Resultado: contados os votos, Dr. Cunha de novo.

Quando Dona Francisca ficou quieta por dez minutos, o síndico finalmente conseguiu apresentar seu projeto em cinco pontos para salvação do condomínio. Era um plano simples, mas genial:

1)      Iniciar as reuniões, doravante, com uma prece porque problemas condominiais que se arrastam por anos só podem ser de natureza espiritual. E todos sabemos dos pecados que essas nossas paredes escondem;
2)      Aumentar a cota de condomínio e instituir cota extra para melhorias que ainda vamos planejar;
3)      Aceitar doações de fornecedores e prestadores para reformas e serviços, mediante exclusividade nos contratos. A Vinícola São Joaquim, por exemplo, pretende doar uniformes para nossos funcionários. As camisas teriam o nome do edifício e a logomarca dos produtos de nossa coirmã;
4)      Autorizar a instalação de uma loja de conveniência no pátio, para conforto dos condôminos, que seria construída e gerenciada por A.J.Santos & Cunha Materiais e Serviços Ltda;
5)      Retirar ou impedir o acesso de quem estiver atrapalhando o bom andamento dos trabalhos nas reuniões. Isso inclui quem ficar vendo pornografia no celular como tem acontecido.

Uma voz débil foi ouvida no fundo da sala, não ficava bem propaganda de bebida alcoólica na roupa dos funcionários com tanta criança no prédio. Mas o Dr. Cunha tranquilizou:

- Não se preocupem, vinho é bebida sagrada. Até Jesus bebia e multiplicava vinho.

Nada débil foi a voz de Dona Francisca quando se levantou:

- Era o que faltava, uma birosca! Uma loja de inconveniências, isso sim! Daqui a pouco vão vender maconha nesta pocilga!

Mas Dona Francisca não era só de falar. Juntou pastas, livros, notas e contratos que estavam na mesa e, sob atônitos olhares, saiu com seu passinho miúdo e decidido.

- Dona Francisca, a senhora não pode fazer isso!

- Posso sim, eu sou conselheira! No STF ficam um ano olhando um processo. Vou confrontar fornecedores e contratantes, vou na polícia se preciso for.

A reunião foi adiada com o presidente dizendo que assim ficava difícil fazer um bom trabalho.


O edifício acordou com o grito da empregada. Dona Francisca estava suicidada de joelhos, enforcada na grade da janela, a la Vladimir Herzog.

Uma moção de pesar foi consignada na ata da reunião naquele dia. O que, aliás, não foi a única homenagem.


Dois meses depois, um sorridente Dr. Cunha e a A.J.Santos & Cunha Materiais e Serviços Ltda inauguravam a loja de conveniência, descerrando a placa de metal em que se lia: CONVENIÊNCIA E LANCHES DONA FRANCISCA – sempre perto de você.


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