sábado, 30 de maio de 2015

DIÁRIO DE UM CANAL >> Sergio Geia






Não, meu querido, eu não vou falar pra você do canal que separa a ilha da Grã-Bretanha do norte da França, mais conhecido pelos franceses como La Manche, ou, pelos alemães, como Der Ärmelkanal, ou English Channel pelos ingleses, ou ainda Canal da Mancha, no bom e velho português. Isso não vai ser uma aula de história, e eu não sou o Laurentino Gomes. O que me traz aqui é algo mais interessante. Eu vou falar de uma coisa factível, muito mais comum, e muito mais presente. Se fosse você, não tiraria os olhos daqui, mesmo o assunto não sendo, digamos, palatável. Vai que isso acontece com você, hein? Mas vou de diário, fique tranquilo. Como um bom uísque, a coisa desce macio. Falemos sobre dor de dente.

Domingo, 04:23 a.m. Acordo com o dente latejando. Parece que tem alguém, em intervalos regulares, enfiando uma faca nele. Não consigo dormir. Vou até a cozinha e mando 40 gotas de Lisador pra dentro. Fico pensando que merda é essa. 10:30 a.m. Sem dormir desde então, sou recebido com genuína alegria pelo dentista de plantão do Plano, tirado de sua pescaria, missa, feira, cama, fórmula 1, qualquer coisa que certamente é bem melhor do que um consultório em pleno domingão, por um coitado com dor de dente. “Aparentemente, não é canal, não tem cárie. É uma restauração grande e profunda. Vou fazer um curativo e receitar um remédio. Acho que a dor passa. Se ela voltar, você deve procurar um especialista pra abrir o canal”. 07:35 p.m. A dor volta, mansamente.

Segunda, 06:30 a.m. Acordo com uma dor mansa. 01:32 p.m. Controlada à base de remédio. 07:21 p.m. Que começa a querer sair do controle. 10:35 p.m. Que não resiste a 40 gotas de Lisador. A dor não. Eu.

Terça, 05:20 a.m. Dor completamente fora de controle. Vou trabalhar pensando no que fazer, e com a certeza de que é canal. 08:53 a.m. Agendo para o dia seguinte a consulta com a especialista do Plano. Até lá, remédio. 09:24 a.m. Um amigo me encontra com as mãos nas bochechas, e me indica um tio seu, especialista, e dos bons. 02:35 p.m. Retornando do dentista, tio do amigo meu, com o canal aberto, com o dente aberto, com a cara anestesiada, e sem dor. 06:01 p.m. Já sem o efeito da anestesia, não sinto dor. Santo tio do amigo meu. 10:35 p.m. Vou dormir como um anjo, sem dor e sem remédio.

Quarta, 06:31 a.m. Acordo feliz e sem dor. Tomo café como um rei. 10:30 a.m. A especialista do Plano me atende, mexe no dente, sem anestesia, drena, limpa, enfia remédio e fecha. Marca retorno para o procedimento em 28 dias. 01:19 p.m. Sinto uma dorzinha, acho que em razão de ela ter mexido, claro. 07:26 p.m. A dor aumenta, mais ainda sob controle. 11:57 p.m. Vou dormir com um pouco de dor, muito menor do que a do curíntia, he,he,he!

Quinta, 8:23 a.m. Dor insuportável. A dentista do Plano foi viajar, só volta na quarta. Pede pra eu ir à emergência e mandar abrir o dente. Pesquiso no google: é uma briga entre eles. Fechar ou não fechar? Os manuais mandam fechar, mas quem tem experiência na emergência sabe que fechando, o paciente volta dia seguinte com dor. Quer um conselho? Não deixe fechar, amigo, enquanto não tratar o canal. 10:30 a.m. A dentista, esposa de um grande amigo meu, me traz de novo pra vida. Deixa o dente aberto, com um algodãozinho. Sem dor. 03:47 p.m. Sacudo com essa lenga-lenga, ligo pro tio do meu amigo e agendo o procedimento para o dia seguinte, sem cobertura do Plano.

Sexta, 03:00 p.m. Tudo resolvido. Tratamento do canal em 53 minutos. Já não fazem mais canal como antigamente. Ainda bem.

 

Ilustração: Honthorst

 

 

  

 


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sexta-feira, 29 de maio de 2015

REINICIAR >> Paulo Meireles Barguil

 
A fila no caixa do supermercado não andava.
 
Corpos se balançavam para descobrir, lá na frente, o motivo do engarrafamento dos carrinhos repletos de frutas e verduras.
 
— O sistema travou. Vai ter que reiniciar — foi o que me disse o senhor que estava na minha frente.
 
E ele continuou:
 
— Essa tecnologia é boa, mas quando nos deixa na mão...
 
Eu repliquei:
 
— É verdade, mas ela tem crédito.
 
Não houve tréplica.
 
Resolvi, então, continuar a conversa comigo mesmo, no modo silencioso e sem vibração...
 
Em inúmeras situações, no cotidiano, o fluxo é interrompido.
 
Às vezes, a ocasião é singela e rapidamente o cenário anterior é retomado, com poucas ou nenhuma alteração – interna ou externa.
 
Outras vezes, contudo, a circunstância é mais complexa e o reinício demora muito mais do que o desejado.
 
Nesses casos, de modo geral, é necessário estabelecer uma nova configuração, em virtude da irreparabilidade da cena.
 
Não basta, portanto, substituir o que se acredita que causou a pane, mas compreender a dinâmica que a originou.
 
Essa habilidade é muito mais uma arte, que demanda sensibilidade e paciência, para mergulhar nos infinitos mistérios da vida, do que uma técnica, que se expressa mediante procedimentos conhecidos.
 
— Próximo — falou-me a atendente.
 
Tive sorte: desta vez, até que foi fugaz!


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quinta-feira, 28 de maio de 2015

O LEITE COMEÇOU A ESQUENTAR >> Mariana Scherma

Eu tenho um chinelo que existe desde, sei lá, 1997. É antigo, pesado e confesso que não aguentava mais usá-lo, mas ele não deteriorava jamais. Torcia para que as tiras arrebentassem, rezava para que o solado se tornasse perigosamente escorregadio, mas nada. O fato de esse chinelo ficar na casa dos meus pais e eu só usá-lo em um ou outro final de semana é o segredo da longevidade dele, de certo. Eu meio que já tinha aceitado que ele fosse eterno, apesar de todas as minhas preces. Minha implicância se deve ao fato de ter ganhado chinelos tão lindos, mas, com a minha mania de usar tudo até a última gota, me sentia meio traidora andando pra lá e pra cá com novos chinelos e os antigos, chateados. A culpa do peso deles era do fabricante, ué. E eles eram fiéis, me acompanharam da fase adolescente à adulta.

Até que um dia desses, eu entrei em férias e passaria a usá-los todo dia. Passaria. A primeira parada dos chinelos velhos foi a biblioteca da cidade. Entrei na biblioteca e tropecei feio, virando o pé. Pra minha surpresa: o chinelo arrebentou. Mas eu ainda tinha trezentos lugares pra ir. “Vai descalça”, foi a conclusão da minha mãe, que depois decidiu voltar pra casa pra pegar outro par de chinelo porque “seria ridículo entrar descalça por aí”. Ela muda rápido de opinião. Libriana.

Na hora, me vieram dois ditados à mente. Primeiro: cuidado com o que você deseja, uma hora acontece. Segundo: o leite só ferve quando você sai de perto. A maldita mensagem de WhatsApp só chega quando você desencana. A chuva só aparece quando a sombrinha fica em casa. Sua compra do Aliexpress só aterrissa na portaria quando você nem se lembra mais dela. Ai, tantas coisas só acontecem quando você se distrai delas. Essa história de se esquecer pra acontecer é o que pega. Alguém aí me diz qual o segredo?

Eu tenho uma memória de elefante. Me lembro de absolutamente tudo e vivo fingindo para o universo que esqueci o fulano e que, ok, ele já pode me escrever. Mas o universo é esperto e não cai na minha atuação canastrona. Eu leio um ou dois livros por semana, me acabo de trabalhar (agora, férias, admito), malho feito militar, ouço música, durmo, sonho, mas não esqueço. Nunca. Nada. A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos, mas não fazer planos, não sonhar é tão confuso, é tão ilógico, é como se você vivesse às vontades do universo que só quer que você se distraia pra lhe surpreender. Vou tentar me desligar da tomada. De verdade, universo. O primeiro passo foi a tira do chinelo arrebentar. Já, já o leite borbulha, confere? Ou não.


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quarta-feira, 27 de maio de 2015

O DIFERENTE >> Carla Dias >>


Sempre foi uma pessoa lógica e organizada com as coisas da vida. Até sentimento incômodo tem sua gavetinha certa onde ser arquivado, um espaço dentro dele que lhe garante deter os obstáculos provocados pelo arrebatamento oriundo das emoções.

Considera-se pessoa normal, com uma vida decente, que lida de forma eficaz com o pouco dinheiro que ganha. Um sobrevivente de uma realidade nada enfeitada. Gaba-se de ser capaz de enxergar o óbvio sem fantasiar a respeito dele, somente para deixá-lo mais palatável.

Uma das coisas que o incomodam profundamente é quando uma pessoa diz que acordou diferente. Ele não consegue entender isso. Diferente como? Diferente por quê? A resposta nunca o convence, ao contrário, faz com que desacredite com mais vigor tal declaração.

Não pensem que ele é rígido a tal ponto de nunca se permitir refletir sobre o que difere do seu pensamento, da sua crença. Ainda semana passada, ele foi com um dos colegas de trabalho a uma cartomante. Ele não tem amigos. Acredita que colegas o tornam uma pessoa mais eficiente em relação à vida, pois demandam menos tempo e menos esforço emocional. Então, a cartomante lhe disse coisas absurdas, e ainda cobrou caro por isso, arruinando seu orçamento de abril e maio. O colega saiu de lá animadíssimo, que a boa sorte escancarada nas cartas garantia que ele encontraria a Senhora Felicidade. No dia seguinte, o tal colega chegou para trabalhar anunciando para todos que acordara diferente.

Diferente?!

Ele gosta de música, de boa música. Mas este é um segredo que mantém bem guardado, que por conta da mania geral de se ligar o gosto à agenda do indivíduo, ele prefere evitar os convites dos colegas para ir a shows. A música para ele é a cortesã dos seus sentidos. O único deslumbramento no qual se permite aprofundar.

Mas então a ironia...

De cara com o espelho, ele observa a si, porém não se reconhece. A feição é a mesma, a cicatriz adquirida na infância está lá, na sua testa. Vestiu a sua roupa de quarta-feira, penteou-se com os movimentos de sempre, tomou uma xícara de café, respeitando o ritual. Mudou nada, ainda assim...

A agonia assume o controle do espírito dele. Diferente como? Diferente por quê? Para quem nunca se deu ao desfrute de espiar mistérios, ele se joga ao questionamento irrestrito. Acha que a cartomante rogou praga nele, que os santos para os quais a mãe reza – pedindo que o filho tome tento e arrume casamento, que ela não quer morrer antes de ter ao menos três netos – decidiram escravizá-lo com benevolência indigesta. Está certo de que seu chefe interferiu na sua energia de tanto malquerer sua eficiência.

Sai de casa ruminando incertezas. Pergunta ao universo, em alto e bom som – assustando os transeuntes - por que vitimá-lo dessa forma, arrancando-lhe o direito de continuar a ser o de sempre. O de sempre não é ruim, mas previsível, raramente dá problemas.

Obviamente, no dia em que é o de ele acordar diferente, o universo está irredutivelmente calado.

Nunca foi de caminhar, mas já se passaram horas, e ele ainda a perambular pela cidade. Nunca foi de prestar atenção ao entorno, matar curiosidade com o olhar sobre a aparência daqueles que passam por ele, ou das janelas abertas, dos cenários diversos que povoam um lugar. Só que hoje ele acordou diferente e não sabe o que fazer com isso. Ainda acha que tem a ver com feitiçaria, porque não há equação que explique esse resultado.

No final da tarde - desse que é primeiro dia útil em que não bate cartão, em vinte e três anos de trabalho -, ele se sente exausto. Senta-se no meio-fio e assiste a cidade se esvaziar, aos poucos, logo após a correria dos que querem mais é chegar em casa e tirar os sapatos, abraçar os filhos, cortejar amante, esbaldar-se em solidão.

Antes de o sol partir de vez, ele lança sobre a cidade uma luz-despedida, que embeleza cenário árido, que evoca contemplação. Nesse momento, ele compreende que não somente caiu na armadilha do destino, ao qual nunca deu muito crédito, até agora. Porque hoje ele não apenas acordou diferente, ele acordou curioso a respeito das diferenças. Elas que garantem à vida nuances, tons.

Bem que a cartomante disse...

Foto © Carlos Eduardo Drexler



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terça-feira, 26 de maio de 2015

AS COISAS PODEM COEXISTIR >> Clara Braga

Quando a fotografia foi descoberta, alguns disseram que a pintura iria morrer, fotografia e pintura jamais habitariam o mesmo espaço.

Quando surgiram os CD's, juravam que ninguém nunca mais iria ouvir falar no disco de vinil, no entanto, ele não poderia estar mais na moda!

Quando surgiram os aparelhos de mp3, foi a vez do CD morrer! Diminuiu a venda? Claro, isso ninguém pode negar, mas só quem viveu a fase de ouro do CD sabe a delícia que é sentar na frente do som e acompanhar as músicas lendo as letras no encarte! O CD daquela banda que você ama, ainda merece ser comprado! Nada de abrir a letra na internet, ler a primeira frase, responder a mensagem no facebook, pesquisar sobre a banda no google, descobrir que eles já tocaram junto com outra banda que você nunca tinha ouvido falar, abrir um vídeo dessa nova banda no youtube, e quando você menos perceber já está comprando o CD virtual dessa nova banda que acabou de conhecer e escutando suas músicas sem ter chegado nem na metade do CD da primeira banda.

Os ipads e kobos da vida mataram os livros, mas as livrarias que eu frequento estão sempre cheias deles! Confesso que também leio livros no ipad, não tanto quanto leio livros impressos, afinal, a forma digital só vai me ganhar 100% quando conseguir imitar a textura da folha, o cheirinho de livro novo e não der dor de cabeça depois de um bom tempo lendo. Ah, e quando não acabar a bateria na melhor parte do livro!

O netflix iria matar o cinema! Ninguém pode negar que o netflix é uma das melhores invenções de todos os tempos, além de ser uma opção maravilhosa diante dos preços exorbitantes de um ingresso, mas vai dizer que vc não vai ao cinema assistir àquele filme que está esperando estrear tem quase um ano?

Elvis morreu, o rock não!

Autorretrato virou selfie, mas a rainha do selfie ainda é a Frida, não a Kim Kardashian.

Enfim, o que tem que morrer de uma vez por todas é a nossa mania de matar tudo! As coisas podem coexistir! Aliás, as coisas coexistem! Eu não quero ter que escolher entre comprar um CD físico ou um CD virtual, eu quero comprar o virtual daquela banda que acabei de conhecer, que eu estou curiosa para ouvir um pouco mais, mas o CD físico da Joss Stone vai sempre encontrar seu lugar na minha prateleira. Quero fazer fotografias e apreciar pinturas, quero acabar uma série inteira em uma semana no netlfix e ficar abraçada com meu namorado no escurinho do cinema no fim de semana, quero folhear as páginas de um livro e ler outros textos interessantíssimos que eu achei na internet no meu ipad. Eu quero aproveitar tudo que tenho direito, sem achar ruim a evolução natural das coisas, mas sem viver eternamente com um ar saudosista, sempre em nostalgia! Alguns tempos podem coexistir!



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sábado, 23 de maio de 2015

DAIQUIRIS E MOJITOS >> Sergio Geia



 
 

Perguntei como ele estava depois da bebedeira noite passada. Era um amigo não muito acostumado ao álcool. Até me surpreendi quando ele aceitou tomar umas. Em resposta, disse-me que acordou de madrugada com dor de cabeça e azia, ao que indaguei se o mal não teria sido em razão dos espetinhos que ele devorou no fim da noite. É... Pode ser...

Mas a conversa banal me arrastou para o campo das bebidas. Coisa de quem não tem o que fazer, sabe, numa noite fria de domingo. Resolvi até anotar tudo num papelzinho. Quem sabe um dia não vira crônica, hein?

Cerveja/chope: sabe que desde muito cedo aprendi a gostar. Coisa de família. Venho de uma que bebe pra diabo, e que sempre se reunia pra bater papo, rir, comer e principalmente beber, é claro. Lembro-me de uma vez, não sei quantos anos tinha, em que enchi a cara de cerveja, presunto e abacaxi. Bebi tanto que saí falando castelhano. Mas prefiro chope. Bem tirado, gelado, três dedos de espuma.

Vinho: veio depois da cerveja. Confesso que demorei pra tomar gosto. A primeira vez foi ruim, mas o paladar aos poucos foi se acostumando. Levava minha ex-mulher pra jantar num restaurante na Armando Sales. Começamos juntos a apreciar. Bons tempos.

Cachaça: nunca gostei. Batidinha, só se tivesse leite Moça. Pura então, nem pensar. Mas não é que de uma hora pra outra, aquelas coisas que acontecem sem explicação, uma bicadinha aqui, outra acolá, e ela começa a fazer parte da minha vida? Não me lembro muito bem como tudo começou. Na verdade, sinto que venho mudando em algumas coisas. Alimentos de que não gostava, por exemplo. Bacalhau, sobrecoxa de frango, berinjela e mortadela. A cachaça entra nesse time.

Uísque: da cachaça para o uísque foi um pulinho. Depois de estar consumindo cachaça regularmente, dei por mim dando uma bicada no copo de uísque de uma amiga. E não é que ele desceu macio!?

Dizem por aí que a bebida alcoólica pode ser um catalisador de genialidade, e que grandes obras primas da literatura mundial não existiriam sem ela. O copo está ou esteve presente em algum momento na mesa dos grandes escritores. F. Scott Fitzgerald, por exemplo, era chegado num coquetel de gim, misturado com água e limão. William Faulkner gostava de uísque. Oscar Wilde, de absinto. Edgar Allan Poe, de uísque e absinto. Hemingway apreciava daiquiris e mojitos. João Ubaldo bebeu muito uísque até se tornar um abstêmio.

Pois esse papo todo, amigo, me deu inspiração. Não, não, eu não vou acarinhar as teclas do meu companheiro em busca de um bom texto, transformar as anotações do papelzinho numa crônica sobre bebidas. Eu vou é tomar um uisquinho. Depois, quem sabe... Tá servido?
 

Ilustração: Picasso, The absinthe

 



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sexta-feira, 22 de maio de 2015

UM ESTRANHO CAFÉ >> Zoraya Cesar

A cena era insólita: uma velha senhora, bem vestida de preto da cabeça aos pés, caminhava serenamente pela calçada. A hora? Três da madrugada. Onde? Por ruas onde bares e inferninhos estranhos recebiam gente esquisita. 

Ela parou frente a um portão verde, acima do qual um letreiro de neon enfraquecido pelo uso anunciava o nome da espelunca: ”Café de los Olvidados”. Ela empurrou a porta e entrou. 

No salão, homens e mulheres dos mais diversos tipos se espalhavam pelo ambiente – travestis, alcagüetes, policiais, bandidos, caçadores de recompensas, aventureiros, jogadores profissionais e outros, inclassificáveis pelos padrões comuns: espécimes soturnos, muitos de aparência sinistra, gente que há muito não via a luz do dia. No ar, um cheiro de suor, cigarro, bebida, crueldade, medo, coragem, sombras e segredos inconfessáveis – cheiro de humanidade. 

Alguns dos presentes levantaram a cabeça ou interromperam o que estavam fazendo. Analisaram a figura da velha senhora, um decalque saído diretamente de uma história da D. Carochinha, com seu aspecto de plácida vovó, cabelos brancos elegantemente arrumados e presos por um pente de marfim, óculos de osso de tartaruga, sapatos estilo mocassim, colar de pérolas e a bengala, que usava na mão esquerda. Se a aparência da recém-chegada já não fosse impactante o suficiente, a bengala seria um personagem à parte. Era grande, de madeira maciça – um conhecedor apostaria ser de ébano, talvez pau-ferro – finamente entalhada e encimada por uma cabeça de urso em prata de lei. Se alguém examinasse a bengala mais atentamente, poderia, quem sabe, perceber que a cabeça do urso era removível, e continha uma fina e afiada lâmina de aço, forjada pelo melhor fabricante de Toledo. Nas mãos de uma velha e inocente senhora, um auxílio à locomoção; nas mãos de um expert, uma arma mortal. Mas ninguém se aproximou o suficiente para ver a bengala de perto, no entanto.

O exame durou poucos segundos. Em um lugar frequentado por pessoas incomuns, por que seria estranho uma vovozinha adentrar o salão em plena madrugada? O murmúrio das conversas tornou a se misturar ao barulho das máquinas de vídeo-pôquer e à música que saía da caixas de som – nada reconhecível a ouvidos acostumados ao main stream das rádios convencionais; eram músicas gregas, tailandesas, filipinas... As pessoas voltaram a seus afazeres. Ninguém a interpelou nem a olhou por uma segunda vez.

O salão, à primeira vista, era tosco, mal iluminado e mal arrumado. Parecia que alguém jogara todos os móveis lá dentro, às pressas, e esquecera-se de arrumá-los mais tarde. Um observador mais atento, porém, perceberia que esse alguém gastara tempo e dinheiro para dispor os móveis de tal forma que os fregueses pudessem circular com liberdade sem se esbarrarem; ver quem entrava no recinto tão logo a porta fosse aberta; fugir pelo grande portão situado aos fundos, caso fosse necessário. A iluminação destacava quem entrasse, mas deixava o resto do ambiente quase penumbroso. Os móveis eram antigos, alguns vieram de casas demolidas e do ferro-velho, e em muitos havia rachaduras ou pedaços quebrados. Naquela semi-escuridão, poderiam parecer que vieram do lixo, mas nada mais longe da realidade. 

Nas paredes, pintadas de ocre, havia dois alvos para dardos, fotos e pinturas de espiões famosos como Sir Francis Walsingham e Mata Hari, e também de piratas, entre eles, Anne Bonny e Edward Teach. Quatro bandeiras Jolly Roger foram espalhadas pelos cantos. Ao fundo do salão, um grande e largo balcão de madeira, que lembrava muito mesmo o daqueles vistos em filmes de far-west. Atrás dele, uma máquina de café expresso, bebidas diversas, e, pasmem-se – se acharem ser o caso – um espremedor industrial para fazer suco de laranja. Ao lado da prateleira das garrafas, um quadro negro, no qual estava disposto o cardápio da casa, escrito em giz colorido, com letra caprichada e legível.

Marta Atanasiou andou calmamente, apoiada por sua bengala, por entre as cadeiras desalinhadas, a mesa de bilhar, os clientes que circulavam de lá para cá e os que permaneciam sentados em seus lugares, comendo ou bebendo. Chegou ao balcão, pediu uma garrafa de água com gás e limão, sem gelo, por favor. O atendente, um jovem magricela, vagamente assemelhado a um Iggy Pop de cabelos louros oleosos que há muito pareciam não ver um sabonete, cortados no melhor estilo Emo, nada falou, apenas serviu-lhe. 

A velha senhora sentou-se à mesa e bebeu com deleite, como se tratasse do mais fino vinho, enquanto escolhia o que comer. Pediu um sanduíche de pastrami, o qual comeu tão concentradamente quanto bebera a água. Depois de engolir o último pedaço, abriu a bolsa, pegou um cigarro. O atendente saiu de trás do balcão, acendeu-o e voltou sem nada dizer. 

Quase em estado nirvânico, Marta Atanasiou aspirou e soprou a fumaça, apreciando os anéis que saíam de sua boca e dançavam no ar, vagarosamente se dissolvendo, como fantasmas ao vento. Ao terminar, apontou para a máquina de café, aproximando o dedo indicador do polegar, naquele gesto universal de quem pede uma pequena xícara. 

O EmoBoy agachou-se atrás do balcão, pegou uma caixa, uma xícara,  e colocou-as em frente à velha. Na caixa, uma pistola Glock modelo G21 gen4, adequada para canhotos. Na xícara, não café, mas uma dose de ouzo, puro. O jovem atendente ficou a olhar a mulher, com respeito, vendo-a sorver a intragável bebida grega com o mesmo prazer com que bebera a água. 

Marta Atanasiou deixou R$ 28 reais na mesa, pagando o que consumira mais os 10% de praxe. Guardou a pistola na bolsa, levantou-se e saiu, tão discretamente quanto chegara, batendo sua bengala,. E ninguém lhe perguntou coisa alguma.



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quarta-feira, 20 de maio de 2015

NÃO SE TORNOU UM ASTRONAUTA >> Carla Dias >>

Tinha tudo planejado. Desde muito antes de agora, devidamente planejado.

Hoje mesmo, riscou de sua lista a visita ao pai, morador na casa de seu tio, figura de humor refinado e afiado, que o fez gargalhar muitas vezes nesta vida. Só que o fez chorar ainda mais, miúdo, escondido debaixo da cama, desejando sumir do planeta, nos dias em que o humor se ausentava para que a violência se aprumasse, e o pai pudesse cobrar de sua companheira de vida - a mãe do menino debaixo da cama -, o que não cabia a ela resolver.

Beija a face flácida do pai de humor ácido, imperando com seu olhar altivo e incapaz de enxergar muito mais do que o suficiente para se guiar entre as camas de seus companheiros de viagem em quarto coletivo. O irmão mais velho o chamou de filho ordinariamente desnaturado, que onde já se viu deixar o pai viver seus últimos anos de vida em um lugar feito aquele. Lugar em que o irmão, filho de casamento prévio, de mãe zelosa e afetuosa, nunca esteve. Ele que ganhou pai postiço que o aceitou feito filho, pagando-lhe a comida do diariamente, assim como roupa em dias de inverno.  A vida dele pode até não ser fácil, mas as suas dificuldades, quase todas elas têm solução.

A mãe dele faleceu há alguns anos. Mulher habituada à infelicidade, viciada em filmes românticos, passava os dias na frente da televisão, sonhando sem e tornar quem jamais se tornaria. Ele cresceu independente na sobrevivência, cuidando de si como podia, mas completamente dependente do rancor que aquele casal dividia apaixonadamente. Ele era efeito colateral da relação indigesta de seus pais, um pária na sala de estar, um incômodo na cozinha, uma criança manhosa que insistia em chorar de fome, frio e carência.

Quando a mãe morreu, de doença que ele nem sabia qual, ele já adolescente se rebelou e faltou ao enterro dela. O irmão mais velho - distante geográfica e emocionalmente – o acusou de tudo o de pior se pode acusar uma pessoa. A verdade é que ele não sabia como se despedir dela. Como dizer adeus a alguém que não se conhece; que sempre lhe ofereceu repulsa, quando não a mais voraz indiferença?

O enfermeiro dá notícias sobre a saúde dele, esclarece que falta pouco para que ele vá para o céu. Ah, o céu... Aquele que ele vislumbrava durantes as horas que passava no balanço daquela árvore do quintal de sua casa. Foi nessa contemplação que sonhou ser astronauta. Mas, de acordo com a mãe, ele jamais se tornaria algo que prestasse nessa vida, imagine um astronauta.

Despede-se do enfermeiro, lança um último olhar ao pai, que com a boca incapaz de se abrir para dar espaço à delicadeza em palavras, oferece a ele um palavrão na despedida.

O irmão mais velho esperneou, porque não queria ser ele o responsável pelos cuidados com o pai. Mas a mãe dele, aquela senhora gentil como jamais vira, disse que eu poderia ficar em paz, que ela mesma trataria dos pagamentos da casa de repouso e de qualquer eventualidade.

Lembra-se bem do dia em que planejou tudo. Escreveu uma lista de afazeres para alcançar o objetivo. Tinha onze anos de idade e lia um livro que pegou na biblioteca da escola. Encantou-se pelo personagem, que insistia que sua vida mudaria de rumo no dia de sua morte. Ele decidiu que queria fazer a mesma coisa que o personagem, mas não entendia nada de morte. Mesmo depois de ler o significado da palavra no dicionário, ficou sem entender como tirar a própria vida mudaria o rumo dela? Afinal, fim é fim.

Durante os anos seguintes, seguiu completando as tarefas daquela lista. Aprendeu outro idioma, estudou economia, por conta mesmo, que precisava aprender a lidar com o pouco dinheiro que fazia como empregado do mercadinho do bairro.  Assistiu a dez filmes clássicos, graças à paixão do patrão por cinema. Mas diferente do personagem do livro, gostou apenas de sete deles, não dos dez. Leu a obra completa dos escritores que o personagem citou, escutou os discos que ele escutou e muitos outros. Beijou a moça chamada Luana, mas foi com a Maria Helena que conheceu os rompantes da paixão. Viajou - mochila nas costas - pelas cinco capitais que o personagem visitava frequentemente.

Os anos passaram e seu pai já não conseguia fazer com que ele corresse para debaixo da cama, apesar de continuar um mestre na arte de incitar infelicidade. O irmão mais velho insistia que ele tinha de tomar tino, que era filho e tinha de cuidar do pai. Ele cuidou e durante muitos anos. Foi para a faculdade e se tornou competente arquiteto, como o personagem do livro. Penúltimo item da sua lista.

Durante meses, debruçou-se sobre a lista que fizera aos onze anos. Leu o livro dezenas de vezes, buscando ali um desfecho que não fosse o suicídio do personagem. Essa lista o tornara apto a seguir adiante. Ela foi sua sustentação em dias debaixo da cama, escutando a violência passear pela casa, aos berros, aos socos e pontapés. Ele tem certeza de que, não fosse ela, ele provavelmente teria antecipado o desfecho da história.
O irmão mais velho se diz cansado, que a vida é dura demais, as pessoas são complicadas. Diz isso sentado em seu sofá confortável, os filhos brincando na sala de casa própria, a esposa revendo papéis do trabalho, à mesa da cozinha, após um agradável jantar. Há uma calma nessa casa que ele nunca reconheceu em outro lugar.

Também diz que ele é que tem sorte, que é jovem, saudável, tem um bom emprego. Vê em seu irmão mais velho a sombra de seu pai. A mãe foi a salvação dele, que se tornou uma pessoa que reclama sem motivos, que não teve de viver para entender o peso do desafeto, da miséria, da violência. O irmão assistiu a tudo de longe, o que lhe permite dizer que ele é um cretino por deixar o pai naquele lugar para cair no mundo, abandonando a família e a segurança de um bom emprego.

Convenceu-se de que teria de viver essa última parte da história naquele dia, aos onze anos de idade e o espírito estraçalhado pela solidão. É sim daqueles que cumprem promessa. Por isso partiu para o lugar mais bonito que conheceu, cenário perfeito para o desfecho de acordo com o livro.

Neste dia, a morte foi inevitável. Finalmente, ele compreendeu como ela era capaz de mudar o rumo da vida. Porque, ao colocar os pés naquele lugar – tão distante de onde sua vida se desenrolou e de horizonte exuberante -, o menino de debaixo da cama pulou da ponte, do jeitinho que o personagem do livro fez, restando a ele viver o adulto que se tornou: sem lista de afazeres existenciais, livre da influência sombria daqueles que jamais lhe perceberam pessoa, que se negaram a cuidá-lo com a mesma dedicação com a qual tentavam lhe vergar o espírito.

A mãe tinha razão, ele não se tornou astronauta. Mas tudo o mais que ele se tornou vale a pena ser vivido.

carladias.com



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segunda-feira, 18 de maio de 2015

O MONÓLITO - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 04 de maio de 2015)

O Professor, único intelectual presente, obteve a palavra de volta, em meio ao tumulto que ameaçava se formar. Acreditava que o obelisco fosse um artefato trazido por extraterrestres. Precisava de mais estudos para determinar a origem, a finalidade e a razão de tão estranha forma.

O Padre, quando conseguiu falar, esbravejava. Era castigo dos céus! Só ele e Deus sabiam das barbaridades que escutava no confessionário! Que se lembrassem de Sodoma e Gomorra! Era chegada a hora! O final dos tempos! O apocalipse!

A beata Santinha, abanando-se, pois começara a sentir muito calor desde essa manhã, não acreditava em castigo. Aquilo era tentação do Demônio pra fazer a gente pensar besteira. Pra levar a gente pro inferno.

O Coronel pediu silêncio de novo e quis saber que providências já tinham sido tomadas. O Prefeito informou que mandara o trator, mas as rodas giraram sozinhas e o bicho não se mexeu um dedo do lugar. As bananas de dinamite fizeram buracos em volta, mas nenhum arranhão nem nas pedras nem nele. O material era desconhecido. Duro que nem concreto por dentro, mas tinha uma maciez incômoda na parte de fora. Embora ninguém admitisse tê-lo tocado.

Trocaram-se acusações e a reunião terminou com uma única deliberação. Um mensageiro levou cartas desesperadas à Capital.

O dia amanheceu e verificou-se que a coisa, assim como veio, sumiu. As pessoas, quando não a viram mais, seguiram para seus afazeres e a praça ficou quase deserta.

Mas uma comitiva trouxe da Capital um Bispo, um Delegado e um Major do Exército.

O comitê de recepção compunha-se dos assustados Padre, Prefeito e Sargento. Os três juravam, em frente à antiga fonte, ter visto “com estes olhos” o informado nas cartas.

 Depois de uma viagem de muitas horas e pingando suor debaixo do sol escaldante, os da Capital entreolharam-se. O Delegado quis prender o Prefeito, mas não achou qualquer justificativa no Código Penal. O Major do Exército, que não ligava muito para códigos, prendeu o Sargento PM, embora não houvesse entre eles qualquer hierarquia.

O Bispo foi logo avisando ao Padre que ele seria transferido para a selva amazônica, numa região infestada de cobras e de febre amarela. O Padre, sorrindo, completamente bêbado, disse que não se importava. Era Padre, mas era macho e não ia mesmo ficar numa cidade visitada por aquilo.

A vida voltou ao normal e a cidade divide a sua história em antes e depois da coisa.

 O Coronel proibiu que se falasse nela em sua Fazenda, e também na cidade.

 As irmãs Felício continuaram acendendo velas todos os dias sobre as pedras. Pedras sagradas, segundo elas, mesmo sem o santo.

Para a beata Santinha os calores continuaram, mas ela já não está mais tão indignada. Dizem até que conseguiu uma réplica em silicone. Menor, é claro.

O Professor deixou o magistério e se dedicou à Ufologia. Mas ainda não tem melhores explicações sobre o visitante. Quando indagado, e sabedor das proibições que envolvem o assunto, filosofa sua dúvida:

- Falo ou não falo, eis a questão!




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domingo, 17 de maio de 2015

O QUE QUER QUE EU FAÇA >> Eduardo Loureiro Jr.

As pessoas ficam com raiva de mim porque eu não faço o que elas querem que eu faça. E eu as compreendo. Eu também faço a mesma coisa. Eu também fico com raiva de mim porque não faço as coisas que eu mesmo quero que eu faça.

Fico com raiva de mim porque não acordo às 5 da manhã. Eu gostaria que eu mesmo saísse de casa ainda no escuro, fosse até a praia e observasse o nascer do sol. Eu tenho raiva de acordar muito depois de o sol ter nascido e de não ter coragem nem de sair da rede. Tenho raiva de ficar me espreguiçando. Tenho raiva daquele pensamento quase diário: "Mais um dia? Que saco!"

Tenho raiva de mim porque não medito ainda de manhã, antes de qualquer trabalho ou contato social. Sei que é bom para mim, sei que me trará um dia mais positivo, mas não faço. Prefiro ligar logo o computador ou o celular.

Tenho raiva por não cozinhar algo mais saudável para almoçar. É sempre o mesmo macarrão com molho de tomate, creme de leite, atum, orégano e alcaparras. Eu poderia aprender a fazer alimentos deliciosos e saudáveis, mas sempre repito a mesma coisa.

Eu me odeio por ter 44 anos, quase 45, e ainda não ter uma profissão definida. Sou professor. Sou astrólogo. Sou facilitador de Pathwork. Sou escritor. Mas não sou nada disso. Não tenho vínculo, não tenho estabilidade, não tenho constância. E não estou falando apenas de questões burocráticas, institucionais. Não tenho sequer constância interna. Passo um ano sendo professor mais intensamente, e me dá vontade de passar dois anos de férias.

Também sou zangado comigo mesmo por não andar de bicicleta todo dia. Eu tenho uma bicicleta. Em minha cidade, há um sistema de bicicletas compartilhadas. Mas só ando de bicicleta uma vez por semana. Sei o bem que me faz, sinto meu corpo exultar de alegria cada vez que ando de bicicleta, mas não pedalo diariamente.

Sexo então? Tenho vontade de me espancar quando penso em minha atividade sexual. Faço cocô duas vezes por dias, três até, mas fazer sexo duas vezes por semana é uma meta difícil de ser cumprida. Sei que deveria: faz bem para mim, para a parceira, para a relação, para o planeta, para a camada de ozônio, mas para mim é um esforço excruciante.

Me odeio também pela minha comunicação com parentes e amigos. Tenho muitas e muitas pessoas que amo do fundo do meu coração, mas cadê que ligo para elas? Não falo com minha mãe diariamente, falo pouquíssimo com meu pai, converso quase nada com minha sobrinha mais velha, sei de minhas irmãs bem menos do que gostaria, praticamente não brinco com meus sobrinhos mais novos, encontro com os internos do pátio e do peito no máximo uma vez por mês, faço contato com a maioria dos meus amigos uma única vez por ano (e a maioria por escrito, no dia do aniversário). Sou o mais desprezível parente/amigo que conheço.

Quanto ao peso, eu poderia pelo menos sair da zona de sobrepeso e chegar aos 72kg. Mas não, eu insisto em brownies, leite condensado com Nescau, milk shake, coxinhas, baldes de pipoca e outras guloseimas farinhadas e açucaradas.

A lista é longa, longuíssima. Não quero aborrecer o leitor, que queria que eu escrevesse uma crônica leve, breve e bonita. Então menciono um último objeto de raiva de mim mesmo...

Eu gostaria muito de ser como as pessoas que têm raiva de mim. Porque, até onde posso ver, são pessoas que conseguem fazer com que elas mesmas façam aquilo que elas acham que deveriam fazer. Deve ser irritante para as pessoas que fazem o que querem, que têm sucesso em tudo que determinam para si mesmas, ter de conviver com uma pessoa como eu, que não dá conta de fazer nem o que quer, quanto mais de fazer aquilo que as outras pessoas querem que eu faça.

Eu sou um estorvo para mim mesmo. Um estorvo para os outros. Um estorvo para você, caro leitor, que acabou de ler uma crônica desagradável. Você pode me odiar por isso. Eu também me odeio por isso. O que quer que eu faça? O que quer que eu faça não é tão bom quanto aquilo que eu deveria estar fazendo.




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sábado, 16 de maio de 2015

ATÉ QUANDO? >> Sergio Geia


No meio de arbustos, flores e capins da simpática pracinha, eis que me surge à visão nada mais nada menos que ele. A ficha caiu quando me deparei com a sua silhueta: poxa, faz tempo, hein? Tudo bem que ele está diferente depois do banho de loja: não tem mais aquele logotipo azul da Telesp, nem a cor alaranjada dos tempos em que a Banda de Ipanema era apenas um bloquinho liderado pelo pessoal de “O Pasquim”, mas na essência é ele: a mesma orelha bojuda, a mesma cintura, a mesma perna esguia, o mesmo folião de sempre. Só que muito menos requisitado, isso sim, pela moçada pós-moderna chegada num celularzinho.

Nem sei ainda como ele não se abraçou às remingtons, vinis, leiteiros, limpadores de chaminés, e tudo o mais que foi comido pela modernidade, pra tomar a Sapucaí num demodê desfile de escola de samba de fazer inveja às Tijucas, Portelas e Salgueiros da vida. Aliás, no quesito vinil, tenho uma coleção aqui em casa e, diferente de muita gente, não me desfaço dela por nada. Ainda acho que vou encontrar uma vitrolinha modernosa para tocar Nuvem Passageira, do Hermes de Aquino.

Pois descobri, amigos, que uma chinesa naturalizada brasileira, uma arquiteta, a senhora Chu Ming Silveira, foi quem criou a cápsula de formato oval que o brasileiro, num bullying rasgado, alcunhou de “orelhão”. Por falar em bullying, lembro-me de um amigo com orelhas de abano que sofreu horrores nas mãos de um outro que vivia pedindo ficha pra galera, com a desculpa que queria fazer uma ligação no orelhão da Telesp.

Mas os telefones públicos quebraram o galho de muita gente. Uma ex-namorada, por exemplo. Eu a via na esquina e sentia o Ártico se apoderar do meu estômago. Estava em casa e quando atendia ao telefone, não via a hora de a ficha cair. E ela caía, literalmente.

Aliás, a expressão linguística “cair a ficha” tem origem aí. Ao completar uma ligação num telefone público, uma ficha metálica caía, e se você quisesse falar mais, tinha que ir inserindo fichas; terminava o tempo da primeira, o aparelho comia a outra, e assim sucessivamente. Se a ligação não fosse completada por algum motivo, a ficha era devolvida (nem sempre). Se as fichas acabassem, ao término do tempo da última, a ligação era cortada. Isso no tempo das fichas metálicas, até serem substituídas pelos cartões. Mas a expressão “cair a ficha”, metaforicamente, tem esse sentido: o momento em que você passa a entender uma questão.

Fico pensando até quando esses pândegos vão continuar por aí misturados à paisagem urbana. Meus filhos nunca vivenciaram a experiência superior de falar na orelha bojuda de um telefone público. Se bem que, deixando o romanesco na avenida, acho que não perderam grandes coisas. Muito menos fichas.
 
Ilustração: Joan Miro, Carota, c-1978

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sexta-feira, 15 de maio de 2015

20 MINUTOS >> Paulo Meireles Barguil



A depender da situação, 20 minutos podem ser muito ou pouco tempo.
 
Se o que você está fazendo é legal, 20 minutos são uma brisa: suave e fugaz. Quando você começa a desfrutar o evento, ele acaba.
 
Se, todavia, a atividade não lhe é prazerosa, 20 minutos são um tornado: violento e demorado. Você tenta de tudo para apressar o fenômeno, mas ele parece que irá durar para sempre.

Em 20 minutos, dá para dançar com alguém (ou sozinho mesmo!), tomar banho de piscina ou de cachoeira, ouvir algumas músicas preferidas, tomar sorvete com 3 bolas e cobertura, conversar com quem se gosta, andar de bicicleta, ler algumas páginas de um livro, passear na beira do mar, assistir trechos de um filme...

Cada pessoa tem um relógio, que funciona de acordo com lembranças – inclusive, e principalmente, as esquecidas! – e sonhos.

Nessa perspectiva, uma pessoa é um portal, que liga, sem cessar, o passado ao futuro.

Desconfio que, na verdade, nem existe passado e futuro, mas um eterno presente...
 
O que você faria se tivesse agora 20 minutos?
 
Eu escrevi essa crônica.
 
Aproveite bem os seus próximos 18 minutos e 25 segundos...
 


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quarta-feira, 13 de maio de 2015

UMA BELA VISTA DA CIDADE >> Carla Dias >>



Uma bela vista da cidade anda cada vez mais rara. Para ele, vista é importante, que nunca entendeu essa de olhar pela janela e assistir à vida do outro, sem autorização do próprio.

Enquanto viaja por vinte andares, até chegar ao do trabalho, é obrigado a saber da vida alheia de várias formas: o ascensorista atualizando as secretárias sobre as gafes dos patrões, as secretárias desvelando intimidades em conversas pelo telefone, os silenciosos que são ótimos em demonstrar, fisicamente, se a mensagem que receberam trazia boa ou má notícia.

Ele, particularmente, sente-se exaurido pela competência tecnológica em ampliar as formas de as pessoas estabelecerem uma conexão entre si, quase sempre fragilizada ou iludida. Porque ele não entende o ascensorista mandar mensagem de voz para a secretária cinco segundos depois de ela sair do elevador, somente para dizer que esqueceu um detalhe importante sobre o Sr. Advogado que deu o maior fora em pleno fórum. O ascensorista esqueceu nada, ele tem certeza. O que ele quer é perpetuar essa linha virtual para se deleitar com a presença dela no final do horário comercial, acompanhando-a até seu carro, sonhando em um dia acompanhá-la até sua cama. Homem bem-apessoado, de conversa fluente, claramente de tino afiado, certamente teria maneira mais elegante de flertar com a secretária. Uma pena que eles se escorem em rótulos e mensagens que nublam a real natureza do que sentem.

Seu escritório tem bela vista para a cidade, com o mar aos pés do horizonte. Não fosse assim, ele não conseguiria contabilizar quase trinta anos atendendo no mesmo lugar. A profissão o tornou curioso incurável pela história do outro, mas não a contada no diariamente, encharcada de diplomacia ou provocações que são, de fato, um mecanismo de proteção.

A história que, às vezes, chega a ele crua, nua, desarraigada de véus, infértil de pudores, mergulhada com a mesma intensidade na alegria e na tristeza. Quando isso acontece, quando a pessoa se permite tal vulnerabilidade em sua presença, é como se ele assistisse a um bom filme. Veja bem, não há impolidez nesta declaração. A psicologia tem sido a sua vida há quase três décadas. Além do respeito pela profissão, há o respeito pelas pessoas que recebe em seu consultório. O que ele não pode negar - e talvez seu próprio psicólogo lhe sugerisse que tomasse tento caso ele lhe confidenciasse verdades irrestritas -, é que ao lhe impressionar, como um bom filme o faz, a história de vida do outro alimenta espaços vazios da sua alma. Então, lembra-se deles ao perder o olhar na bela vista enquadrada pela janela de sua casa, após um dia de lida, saindo da área profissional e descambando na humana.

Que no dentro, a gente mistura tudo mesmo. A grande questão está em como lidamos com o resultado disso.

15:00 e ele abre a porta para ela. Mesmo com a agenda cheia, deu um jeito de encaixá-la, porque um dos colegas lhe pediu que fizesse a gentileza. Ele pede que ela entre, mas sem prestar atenção na mulher. Somente quando se senta à frente dela, depois de se posicionar para iniciar a conversa, ele se dá conta de que se trata da moça do ascensorista.

Soubesse o ascensorista sobre a moça - como ele agora sabe, já que ela é das que despem a alma sem pensar duas vezes a respeito -, talvez não se empolgasse tanto com tal desejo e economizasse nos aplicativos. Cabe a ela, de forma simples e objetiva, o que dizia a sua mãe e outros milhares de mães por aí: não julgue pela embalagem.

Enquanto a bela secretaria tece um monólogo sobre seus desejos, inclusive o de trocar de emprego “asap”, ele observa a cidade pela grande janela do consultório. O que seria sem uma bela vista da cidade?

Nada, nadica, nem uma palavrinha sobre o flerte em dias úteis com o ascensorista. É sem mencioná-lo que ela insinua que ainda bem que é bonita e esperta. Assim, dona de tais predicados, consegue ficar por dentro de tudo o que acontece no prédio e se sente segura, já que sempre tem companhia para levá-la até seu carro, porque aquela garagem lhe dá arrepios quando vazia.

Vazia feito a moça-secretária.

Tem de assumir, para si, que pouco escutou do que ela disse. Não que a esteja definindo oca, tomando partido do ascensorista, definindo quão raso é o espírito da moça-secretária. Ela não tem culpa de ele se apegar ferrenhamente aos melhores filmes, aqueles de enredos cultivados por dramas e humor, tragicomédias rendidas por esperança teimosa de que amanhã tudo vai melhorar, mesmo quando há provas suficientes de que isso não tem como acontecer. A culpa é dele, que se desligou dela minutos depois de ela responder à pergunta sobre o motivo de estar ali, de precisar ver um especialista com tal urgência. A moça-secretária, envaidecida pela sagacidade que, equivocadamente, julga ter, disse que precisava tomar uma decisão importantíssima, que se revelou completamente vaga e até um tanto ridícula, já que ela mesma respondia às questões no rastro do auto-questionamento. Ela saiu de lá agradecendo a ele pela grande ajuda, em decisão da qual ele nem sabe qual foi a escolha, reverberando o excelente trabalho que ele fez.

Talvez ele apenas tenha envelhecido. Depois de tantas histórias dignas de épicos do cinema europeu, passou a atentar aos enredos que parecem simples, mas enganam na sua complexidade, como o do ascensorista e da moça-secretária. Seria uma simples história sobre alguém se aproveitando do afeto de outro alguém, não tivesse ele, renomado psicólogo - de agenda sempre cheia, mesmo depois de quase trinta nos de profissão -, botado reparo neles.

Desde a consulta da moça-secretária, todas as manhãs ele se conecta imediatamente à tristeza do ascensorista, já logo no térreo, que o tal ficou sem o seu objeto de apreço, já que ela – que o ascensorista não sabe, mas não passa de vaso vazio – foi embora com o produtor de eventos do décimo quinto andar. Queria ser cantora, então investiu no amante mais competente na área.

Porém, quem sabe seja uma questão de momento, porque pensando no começo de sua carreira, talvez aquele ele convidasse o ascensorista para uma cerveja para aconselhar o pobre a arrumar outra moça para amar. Que o mundo é cheio de amor e de moças. Hoje, escravo de uma boa vista da cidade, único membro de uma família que acabará nele e completamente à vontade com a solidão, ele se debruça na janela e lamenta pelo ascensorista, acreditando que ele ainda conhecerá muitos vasos iguais à moça-secretária, até compreender que a única forma real de conexão com outro ser humano é conhecê-lo, apesar das máscaras, além da tecnologia e definitivamente com muita conversa.

Assim, a escolha feita será a certa, mesmo que pareça inviável para os outros, e ainda que ela seja somente uma bela vista da cidade e uma vasta coleção de filmes raros.

Imagem © Inês Mesquita

carladias.com




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terça-feira, 12 de maio de 2015

NÃO É MESMO? >> Clara Braga

Na era do politicamente correto, existe muito mais onde não estamos observando direito ou estamos observando demais coisas que não existem?
Em época de pau de selfies, não é estranho termos que trabalhar tanto a auto estima e a auto imagem das pessoas?
No período em que a lei do silêncio se torna cada vez mais rígida, não é irônico que as pessoas gritem tanto umas com as outras?
Ser pontual é chegar 10 minutos atrasado.
O melhor parceiro é aquele confiável, mas ninguém confia na própria sombra.
Admiramos quem sabe reconhecer seus próprios erros, e quando encontramos alguém assim, culpamos logo ele por tudo!
Projetamos um futuro melhor, vivemos uma eterna nostalgia com nosso passado, e enquanto isso o presente vai só passando.
Ser feliz virou segunda prioridade, o que vale mesmo é ganhar dinheiro.
Crianças nascem por descuido o tempo todo, mas tudo bem, a função de educar é da escola mesmo!
Está se sentindo fraco? Virose!
Não sorriu quando passou por você, é grosso! Sorriu para você, só pode ser mulherengo!
Dieta Dukan? Que nada! De manhã tomo whey protein e no almoço é frango com batata doce e clara de ovo.
Gostar de trabalhar incomoda os outros.
Está muito feliz? Enlouqueceu! 
Está cabisbaixa hoje? Sempre soube que era depressiva…

E não adianta tentar entender, aliás, nem vale muito a pena, amanhã já vai ser tudo diferente de novo!





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domingo, 10 de maio de 2015

UM TIRO NO ESCURO >> Whisner Fraga

- Quem atirou em quem? – provoco minha mãe.

- Uai, foi você que atirou no seu irmão. – ela responde, convicta.

Isso aconteceu nos anos 1980, bem no começo. Naquela época era tudo meio inconsequente. Meu pai havia nos presenteado com uma espingarda de pressão. Com que cargas d’água alguém teria a brilhante ideia de dar uma arma para duas crianças? Pois é, isso era normal. Como era normal também passearmos pela cidade em um Fusca, todos sem cinto de segurança e felizes como nunca. Tínhamos a impressão de que tudo era meio permitido, mas lógico, dentro de parâmetros mais ou menos razoáveis, que levavam em conta o respeito ao próximo e o amor incondicional à família.

Mas vejam bem: ninguém ia ao Ministério Público denunciar uma marca de chocolates que fabricava um produto para infantes que nada mais era do que um cigarro comestível. E ainda por cima a caixinha da mercadoria ostentava um moleque negro com um dos cilindros entre os dedos, numa pose de fumante.

Era tudo meio maluco. Eu acompanhava minha mãe ouvindo Raul Seixas no rádio de pilhas, enquanto torcia nossas roupas imundas, na esperança de nos entregar, todas elas, no dia seguinte, branquinhas e cheirosas. E tudo isso à base de um sabão caseiro que esfolava até a alma dos dedos. Não digo que hoje seja mais fácil criar um filho, mas convenhamos, uma fralda descartável ajuda bastante.

Tínhamos a rua e ela era tão perigosa quanto é hoje. Havia os carros descontrolados, os motoristas bêbados, as motos a todo vapor, os paralelepípedos soltos como armadilhas propositais. Tudo era afiado ou pontiagudo, menos a dedicação de dona Izolina. Perto da janta ela nos gritava e, chateados, nos recolhíamos para a sala. Havia uma mesa e todos nos sentávamos, juntos, para celebrarmos mais um dia em que nada nos faltou.

Hoje vejo Ana cuidando de Helena e concluo que a natureza é sábia. O amor, a abnegação, o sacrifício, a felicidade, o sobressalto, estão ali, transmutados para uma nova geração. O que ela recebeu está sendo transferido para nossa filha. Os objetos parecem mais arredondados, não há armas em casa, mas os perigos são os mesmos: um aranhão em Helena dói tanto quanto um hematoma sofrido em nossa infância.

Ah, mãe, foi eu que atirei em meu irmão e logo após o grito dele, estridente, pesaroso, saí gritando igualmente pela casa, desolado, porque havia assassinado um parente tão próximo. Mas nada acontecera, nem uma esfoladela. Ele usava uma bermuda jeans e eu, com minha pontaria genial, havia acertado a nádega direita, de modo que o pequeno projétil se intimidara diante da força do tecido. Foi assim, mãe. Agora a senhora já pode contar para todos a história correta.

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sábado, 9 de maio de 2015

ALGUMAS LEMBRANÇAS MAIS >> Sergio Geia




A junção da panturrilha com a parte posterior da coxa, o olhar fixo num ponto qualquer, o equilíbrio perfeito sem qualquer espécie de apoio, o movimento suave de inspiração e expiração. O ásana facilmente poderia me levar às lembranças dos bons tempos em que a yoga representava uma dimensão importante da minha vida. Mas me distraí um pouco no vento, no céu carrancudo, na chuva que se formava, e a imagem saudosa que me tomou foi outra.

Estávamos no Bar da Ponte, tomando cerveja, comendo peixe. O mesmo vento, o mesmo céu carrancudo, a mesma chuva. Meu pai, meu tio, alguns amigos. Era um domingo de manhã. O Bar da Ponte fica às margens do Paraíba, em Tremembé. O peixe era uma traíra espetacular. Lembro-me que à tarde tinha jogo do Taubaté. Naquele tempo tudo era muito diferente.  

Na verdade, eu tinha uma visão diferente das coisas: a visão de uma criança. Talvez o mundo captado pelas minhas lentes não fosse o mundo real. Era um mundo bonito, simples, que tinha como coisa mais importante tirar a espinha do peixe, comer aquela carne branca de sabor agradável, depois ir ver o jogo do Taubaté, num lugar mágico, que me provocava uma sensação fantástica: era muito bom estar ali, e eu não queria que acabasse nunca. Talvez o mundo emoldurado não fosse o mundo real. Nem tão belo. Nem tão simples. Mas era o mundo que eu enxergava.  

Meu pai, meu tio, os nossos amigos não viam o mundo que eu via. Isso me faz pensar numa outra coisa: a beleza da vida não está no objeto, na imagem que nossas lentes captam, mesmo porque a imagem era a mesma. A pegada é a origem dessa imagem. Ela não está onde pensamos que está. Ela está em mim, em você, nele, nela, em nós. Ela vem de uma câmera instalada dentro de nós, de dentro pra fora, e não de fora pra dentro.

Lembro-me que estávamos num hotel aqui em Taubaté, muito conhecido. Meu primo trabalhava nesse hotel e lá fomos almoçar junto com o time do São Paulo, que naquela tarde jogaria com o Taubaté. Perambulávamos pelo restaurante, pela sala de jogos, ao lado do Serginho Chulapa, do Renato pé-murcho, do Getúlio, os caras jogando bilhar, batendo papo e nós lá. Lembro-me que meu primo uma hora me chamou, e foi o Chulapa quem respondeu: “Ah, ele é Serginho também? Prazer, xará!”, e me deu a mão. À tarde, o São Paulo não aguentou o Taubaté, que com um gol de cabeça do Mirandinha ganhou o jogo. Mágico, muito mágico. Tudo mais simples, mais bonito, e mais leve.

Fiquei me alongando, levantando os braços em direção ao céu, deixando que o vento enxugasse o meu suor, conectado com tudo aquilo, uma miríade de boas e gostosas lembranças capitaneadas pelo meu pai. Não teve jeito. Bateu uma saudade daquelas e uma vontade absurda de estar com ele e bater um papo, tomar uma cerveja, comer uma traíra.

 

Ilustração: Hip Hip Hurra!,  Peder Severin Kroyer, 1851-1909

 


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sexta-feira, 8 de maio de 2015

O MARIDÃO, A QUARENTONA E O ROCK STAR >> Zoraya Cesar

Quando ela fez 40 anos, olhou para sua vida e nada viu de promissor. Durante a madrugada de seu aniversário trancou-se no banheiro e convidou o Espelho para uma conversa dura, mas inescapável.  

Um espelho, como vocês sabem, é dotado de certas peculiaridades, entre elas, a de conviver intimamente com a Verdade. Que foi, portanto, na qualidade de amiga inseparável, chamada a participar da conversa. O Espelho mostrou à Quarentona um corpo ainda bonito e desejável, mas um rosto de olhos baços e desesperançados. A Verdade disse-lhe que entrara na fase dos ‘enta’ – quarenta, cinqüenta, sessenta... a fronteira final – e que metade de sua vida já passara, como pretendia viver a outra? 

A Quarentona levou um choque, nunca olhara para o futuro daquele jeito: era o resto de sua vida! Passara os últimos 20 anos de sua existência em um casamento vazio, por comodismo, com um homem que não amava e que nunca a valorizara.  Ao contrário, sempre dava um jeito sutil de fazê-la sentir-se medíocre, inferior, descartável, embora ela fosse muito mais bem sucedida que ele. A continuar daquele jeito, os próximos anos seriam piores.

Daqui a dez anos, garantiu o Espelho, você estará mais cansada e acomodada à infelicidade. Ah, isso é, completou a Verdade, com seu jeito brusco, estará mais velha também. Foi nesse instante que a Quarentona resolveu dar um outro rumo na vida que ainda tinha pela frente.

Uma separação – quem já passou por isso sabe muito bem – não é coisa fácil, muito menos quando um dos lados não está de acordo. 

O Maridão  debochou de sua decisão, afirmando que separação àquela altura do campeonato era fruto da famosa crise dos 40, coisa de gente maluca. Logo ela, sempre tão ajuizada, ia entrar nessa esparrela? O que ela iria fazer? Viver sozinha? Cai na real, ele disse, ninguém presta atenção em mulher que passou dos 40. No máximo, arranjaria outro homem igual a ele, trocaria seis por meia dúzia. Ela já não era criança para jogar a vida fora, que sexo a toda hora era coisa pra gente jovem. Que estava ficando velha, devia dar graças a Deus por ter um marido em casa. 

E um marido bom, dizia dele mesmo, sarcástico. Batia? Maltratava? Esquecia de dar presente na data do aniversário? Responda, que motivos tem você para se separar? Ela não saberia responder com exemplos, data e hora marcadas, pois eram situações que se estendiam ao longo do tempo, palavras, atitudes, omissões que não tinham como ser definidas. Tudo muito discreto, quase imperceptível. Se tentasse explicar, aí sim, seria considerada doida. 

Para a Quarentona, no entanto, não se faziam necessárias mais explicações. Era um casamento insatisfatório, sem amor, sem tesão, sem planos futuros nem presentes, sem carinho, romance, nada que valesse a pena. Era uma convivência, apenas. Que nem estava tão boa assim. 

Permaneceu, portanto, não obstante todos os argumentos, firme em seu propósito de viver a vida que lhe restava. Não sabia bem o que faria, sua única certeza era que naquele casamento não ficaria mais. Podia se sustentar sozinha, era hora de se lançar ao mundo, antes de ser nele enterrada.

Algum tempo depois de anunciar seu intento de separação, ela viajou para ver um show de rock. O Maridão a humilhou, que ridícula, estava realmente tentando ser jovenzinha de novo. 

Assistiu à apresentação pela televisão, resmungando que só mesmo a crise dos 40 poderia justificar uma socióloga de meia-idade gostar daquela porcaria. Logo a realidade bateria à porta, e a Quarentona voltaria, humilde, cabeça baixa, conformada. Ele ainda a vislumbrou, de relance, esbaldando-se pertinho do palco, na área reservada. Ciúmes, não sentiu; só o ressentimento de sempre. Como ela conseguira?

No dia seguinte, ele recebeu um what’s app: “encontrei uns amigos aqui, vou passar o final de semana com eles, depois dou notícias”. O Maridão nem se importou, aquilo fazia parte do pacote “quero ser jovem outra vez” da mulher. 

Os dois dias se transformaram em cinco, pois a Quarentona decidiu acompanhar a banda em outra cidade. O Maridão mandou uma mensagem de volta: “deixe de ser absurda, não se enxerga? Tá fazendo papelão de velha assanhada, não tem vergonha? Vai se arrepender”. 

A resposta veio uma semana depois. Ligou para dar a notícia que o Maridão nunca, no fundo, acreditara: que entrara com os papeis do divórcio; o advogado faria contato naquela semana. Ele ficou em silêncio, aturdido. A Quarentona continuou: estava namorando, oficialmente, o vocalista do grupo, e seguiria com ele o resto da turnê. E por que não? Era acadêmica, fazia suas pesquisas em casa, pelo computador, poderia fazê-las em qualquer lugar. Portanto, que o ex-Maridão não a esperasse, pois ela não voltaria àquele casamento falido. 

Nesse instante crucial, em que uma palavra, um ato, qualquer piscar de olhos pode mudar o rumo da história, ele só consegue dizer:

- Mas, como assim, namorando o vocalista? Tá doida? Você já tem 40 anos!

Ela respirou fundo, sorriu mais fundo ainda e respondeu, do auge de sua alegria:

- Mas ele tem 36.

E bateu-lhe o telefone na cara. 

(Não vou entrar nos detalhes do namoro da Quarentona com o Rock Star, que não sou indiscreta. Revelo, no entanto, que ambos estavam muito felizes. Ela não sabia quanto tempo duraria a aventura, mas de uma coisa  tinha certeza: havia vida após os 40, havia vida além de um casamento sem sentido. Aliás, a única coisa que ela quis levar no divórcio foi o espelho do banheiro.



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quarta-feira, 6 de maio de 2015

LUZ ACESA OU APAGADA? >> Carla Dias >>



As séries mais realistas – principalmente sobre serial killers e psicopatas em geral - são as que mais me assustam. Apesar de serem ficção, essas séries apontam para os monstros que existem por aí, disfarçados de cidadãos exemplares, figuras de bondade incontestável. Em alguns casos, a ficção alardeia a possível realidade.

Pessoalmente, eu morro de medo de livros, filmes e séries sobrenaturais. Mas nem pensem que o gênero me desagrada. Porém, não aprecio o sobrenatural abordado no escancaro do humor rasgado ou do provocar o medo por meio de cenas clichês, mas que sempre dão certo. Para me botar medo, é preciso que a história seja muito bem contada, com interpretação das boas, e havendo clichês (quase impossível evitá-los!), que eles sejam apresentados de uma forma bem convincente.

Hoje eu falo sobre a minha percepção a respeito de duas séries com elementos sobrenaturais, diretamente ligadas à literatura, que me apetecem e me botam medo também.

PENNY DREADFUL


Criada por John Logan - roteirista de filmes como Gladiador (Gladiator/2000),  O Aviador (The Aviator/2004) e A Invenção de Hugo Cabret (Hugo/2012), Penny Dreadful é das minhas séries pra lá de preferidas.

Tendo como cenário a Londres da era Vitoriana, a série conta com uma trama inédita para a história de personagens conhecidos da literatura, entre eles Dr. Victor Frankenstein (Harry Treadaway), extraído da obra de Mary Shelley, e Dorian Gray (Reeve Carney), de Oscar Wilde.

Sir Malcom Murray (Timothy Dalton) é um explorador que passou muito tempo na África. De volta à Londres, ele tenta localizar a sua filha, Mina (Olivia Llewellyn), sequestrada por seres sobrenaturais, que remetem à obra de Bram Stoker, Drácula. Ele conta com a ajuda de Vanessa Ives (Eva Green), quem acolhe, após o desaparecimento de Mina. Elas eram amigas inseparáveis, que cresceram juntas, até o dia em que Vanessa, motivada pela inveja, seduz o noivo de Mina, que testemunha a traição. A culpa que Vanessa sente é tanta, que ela acaba sendo internada em um hospício.

A conexão de Vanessa com o sobrenatural serve como fio-condutor da trama. Eva Green desempenha tão bem o seu papel, que as cenas em que Vanessa está sofrendo algum tipo de intervenção sobrenatural, e independe dos efeitos especiais, são de tirar o fôlego.

Também participam da busca por Mina o criado africano de Sir Malcom, Sembene (Danny Sapani), e o americano Ethan Chandler (Josh Hartnett), que viaja pela Europa e se apresenta como o gatilho mais rápido do Oeste.

Logan não se intimida em mergulhar na obscuridade do diabólico tentando arrebanhar a todos, o que resulta em um roteiro que explora cada personagem de forma sedutora e amedrontadora.

Por mais temor que a série provoque, não há como tirar os olhos da cena. O primeiro episódio da segunda temporada de Penny Dreadful estreou na semana passada. Para mim, um dos mais interessantes da série, que mostra que, na nova temporada, Vanessa vai ultrapassar de vez os muros que separam este mundo daquele outro, o dito sobrenatural.

Status: luzes acesas quase sempre, meus caros.







HAVEN


Lembro-me bem de quando uma amiga me emprestou o livro Saco de Ossos, de Stephen King. Acostumada a ler antes de dormir, eu era obrigada a me levantar às seis da manhã, durante um bom período, para ler o livro antes de ir para o trabalho, já que, ao lê-lo à noite, nem a luz acesa me permitia dormir.

Em 2011, Saco de Ossos foi lançado nos estados Unidos como minissérie.

Algumas obras de King também foram adaptadas para o cinema e fizeram muito sucesso. Entre eles: Carrie, A Estranha (Carrie/1977), O Iluminado (The Shinning/1980), À Espera de um Milagre (The Green Mile/2000) e O Apanhador de Sonhos (Dreamcatcher/2002).

Recentemente, comecei a assistir a série Haven, mais projeto baseado na obra de Stephen King.

Baseada no livro The Colorado Kid, e adaptada por Jim Dunn e Sam Ernsta, a série aborda a história de Audrey Parker (Emily Rose), uma agente do FBI que tem a habilidade de desvendar crimes ao observar os casos de uma perspectiva diferente. Ela é enviada para Haven, para prender um fugitivo. Lá, Parker descobre que a cidade está repleta de pessoas sofrem com aflições sobrenaturais, conhecidas como os problemas. Ela também descobre que é imune a essa maldição e que a sua identidade foi forjada, assim como sua memória reescrita. Ao ver uma foto de uma mulher idêntica a ela, em uma antiga matéria de jornal local sobre o assassinato do garoto de colorado, Parker decide ficar na cidade e investigar aquela mulher, que julga ser a sua mãe. Acontece que aquela mulher é mesmo Parker, com a mesma idade de hoje, há vinte sete anos, chamada Lucy.

Trabalhando com a polícia local, Parker conhece dois homens que a acompanham na jornada em busca da sua identidade, assim como a ajudar aqueles que sofrem com os problemas. Nathan Wuornos (Lucas Bryant) é filho do chefe de polícia, onde também trabalha. O problema de Wuornos é não sentir nada, fisicamente. Duke Crocker (Eric Balfour) é um sedutor trapaceiro, e também o menino que aparece na foto do jornal, segurando a mão de Lucy.

Em Haven, os casos policiais têm a ver com os problemas, com crimes cometidos, às vezes, sem mesmo a pessoa saber que o seu foi ativado. Enquanto desvenda crimes e ajuda aos problemáticos, Parker também vai desenrolando a sua própria história. Ela, Wuornos e Crocke se tornam especialistas em ajudar as pessoas acometidas pelos problemas.

Não tão densa quanto Penny Dreadful, permitindo até um toque de humor à base de ironia, Haven aborda os problemas de forma muito interessante. Entre eles, estão o da mulher capaz de mudar as condições climáticas, de acordo com o seu humor; a moça que desenha uma paisagem, depois o desenho não pode ser rasgado, senão o que está nele é destruído, assim como homem que é um imã para balas de tiros disparados perto dele. Bom mesmo é o roteiro, que ainda que o problema em questão seja completamente absurdo, é tão bem escrito que o espectador embarca na trama.

Haven conta com quatro temporadas exibidas, cada uma com treze episódios. A quinta temporada foi anunciada com vinte e seis episódios, sendo que treze deles já foram exibidos. Os outros treze devem ser veiculados ainda em 2015. Obviamente, poderiam ter anunciado a quinta e a sexta temporada, mas uma questão financeira fez com que o canal SyFy fizesse esse pacote.

Status: luzes acesas de vez em quando, meus caros.



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terça-feira, 5 de maio de 2015

MELHOR PARAR POR AQUI >> Clara Braga

Entrei em uma rede social e vi as pessoas revoltadas com alguma coisa relaciona à Gisele Bundchen, não consegui entender direito o que era, a última notícia que eu consegui acompanhar tinha sido a da sua aposentadoria, mas algo me diz que não era com isso que as pessoas estavam indignadas.

Outro dia entrei de novo e desta vez as pessoas estavam muito indignadas com a Kate Middleton, que apareceu de salto, maquiada, linda e maravilhosa no meio da rua só 6h depois de dar a luz. De fato, no meio da rua com um recém nascido Kate? Pesado… Mas daí para ter tempo de criar uma teoria da conspiração dizendo que ela nunca esteve nem grávida, que usava barriga falsa, que aquela criança não havia nascido de fato aquele dia, resumindo, que é tudo mentira, aí já ficou difícil acompanhar!

Já outro dia entrei novamente e me deparei com mais revoltas, reclamações, indignações e etc. Algumas muito justas, como as mobilizações em apoio ao massacre dos professores e a denuncia do racismo sofrido por uma mulher negra após postar uma foto sua no facebook. Outras já mais abstratas, como as críticas ao vestido da Rihanna que mais parecia uma pizza e rendeu diversos memes. 

Justas ou não, a verdade é uma só, rede social virou esse espaço no qual as pessoas entram se sentindo donas da verdade, juram que são super poderosas, e começam a julgar todo mundo, sem filtro ou limite algum, já que fica tudo no virtual e eu estou protegido pelo belo escudo que é a tela do meu computador. 

Há quem diga que esses comportamentos estão começando a deixar a rede social um tédio, chata, assim como o jornal. Diminuí minha relação com os jornais televisivos quando me dei conta de que só são noticiadas coisas ruins. Se é algo positivo nós vamos te dar meio minuto para falar, se for alguma tragédia nós deixamos bastante tempo no ar, forma de garantir um bom ibope.

Nesse ponto o facebook tem uma vantagem, se você tem um amigo carniceiro que só compartilha notícias absurdas, você se cansa, bloqueia a pessoa ou só exclui do seu círculo, aí, aos poucos, seu facebook vai ganhando sua cara no que diz respeito a potagens interessantes, já o jornal nacional você só pode escolher assistir ou não, não tem como ir excluindo as notícias até sobrarem só aquelas que você acha legal!

Falando em jornal nacional, legal mesmo é ver o William Bonner tentando ser despojado nesse novo formato mais tranquilo e relaxado do jornal, nossa, não combina nem um pouco, alguém tem que falar para ele! Muito engraçado! Ops… já estou aqui sendo mais uma iniciadora de fofocas desimportantes da vida alheia! Melhor para por aqui!




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