terça-feira, 31 de março de 2015

NOVAS MANIAS >> Clara Braga

Me peguei com uma nova pequena mania, as vezes fico imaginando a história de vida das pessoas que passam por mim. Imagino o que levam elas a fazerem o que fazem e a serem como são. 

Acho que comecei com isso depois que passei a trabalhar dando aulas para adolescentes. Alguns deles podem ser bem difíceis, as vezes dá uma leve vontade de desistir deles, assim como na vida a gente tem vontade e as vezes até desiste de algumas pessoas.

Então chega o momento do conselho de classe, que você compartilha os casos com outros professores e coordenadores, e então vai entendendo as histórias por trás de cada atitude. É cada coisa que se ouve que os sentimentos gerados são os mais variados, tem hora que você fica com raiva e quer bater na pessoa, tem momentos que você se pergunta o motivo das pessoas terem que passar por certas situações, e outros momentos que você já se questiona porque aquela outra pessoa não passa por algumas situações.

Daí eu comecei a imaginar a história de um monte de desconhecidos, afinal, atitudes e pessoas tão diferentes só podem mesmo ter histórias extremamente diferentes! Comecei a reparar que em 24h consigo passar por pessoas com os mais variados humores, da pessoa que só responde o bom dia com um pequeno sorriso, ao cara que me dá uma fechada no trânsito conscientemente e não pede desculpas, aliás, nem se mostra arrependido do que fez. Até a mulher que mora no primeiro andar e me pede desculpas por estar subindo de elevador e, assim, fazendo com que eu não consiga chegar antes em casa pois vou ter que esperar ela descer no andar dela sendo que ela poderia ter subido de escadas.

Se eu fosse imaginar o dia ou a história dessas pessoas, pensaria na pessoa do sorriso como uma pessoa tímida, retraída, sem muitos amigos e bem caseira. O cara do carro seria um marrento mau humorado, se acha o dono da rua, o rei do camarote, só por ter um carro grande acha que pode entrar na frente de todo mundo. No mínimo tem um ego enorme e também acha que pode passar por cima das pessoas. Já a mulher do elevador seria uma fofa, cheia de amigos, teria uma família linda, uma vida super tranquila e estável.

Bom, mas a verdade é que a realidade tem se mostrado muito diferente. Seria impossível definir o que de fato faz uma pessoa ser como ela é. Hoje já não me surpreenderia se essa mulher do elevador fosse uma pessoa com uma vida super difícil, solitária, que tem dificuldades de conviver em sociedade, assim como não me surpreende descobrir que o aluno que senta no fundo e dorme toda aula não é um preguiçoso, só está tendo que lidar com problemas que nós nunca teremos que passar e está de fato cansado, mas quando ele estudar para a prova, vai se sair muito melhor do que muito aluno que senta na primeira fileira e repete todas as palavras do professor. Também não seria estranho descobrir que o cara do carro é um doce de pessoa, que odeia pessoas que dão fechadas nas outras no trânsito, mas ele não estava em um dia legal e acabou agindo de forma imprudente.

As pessoas são muito mais do que os clichês que já esperamos, o problema é que já não temos mais o tal do tempo para de fato conhecermos as pessoas como elas merecem. Se parássemos para observar, veríamos que toda vida daria um filme, cada um de um gênero diferente. E claro, de uns vamos gostar, e de outros vamos detestar, mas da mesma forma que não podemos julgar um livro pela capa, não podemos dizer que não gostamos de certas pessoas só porque não gostamos de comédia romântica, se é que você me entende.

Depois que comecei com essa nova mania, fiquei me questionando o motivo pelo qual sempre colocamos as pessoas em caixinhas pré definidas se podemos todo dia ganhar novas caixinhas de surpresas! 


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domingo, 29 de março de 2015

O DIA EM QUE A HUMANIDADE PERDEU A RAZÃO >> Whisner Fraga

Eu não defendo que as pessoas devam tentar fazer tudo com amor. Nada mais utópico. Com amor nem sexo se faz mais. Também não professo que se faça tudo com profissionalismo, porque é sofrer à toa. Profissionalismo acabou por se tornar algo muito vago, entre a luta por direitos e as necessidades do mercado. Nesse meio tempo encontram-se a briga pela sobrevivência e o mínimo de conforto.

Mas talvez seja importante um pouco de bom senso no exercício do trabalho. E de esforço. Ainda não estou certo se o ser-humano perdeu o senso ou o cérebro. Levamos Helena a um laboratório, para um exame de sangue. Duas enfermeiras despreparadas para o atendimento infantil nos receberam. Helena não gostou de nenhuma, pois a trataram como se fosse adulta. Lógico, aí ela agiu como criança: fez birra, chorou, gritou, esperneou. Nada a fazia ir até a sala de coleta. Até que, muito tempo depois, muito tempo, a convenci a respeito do exame e a levei no colo. Ficamos lá na sala esperando, eu, Ana e Helena, por vários minutos, torcendo para que a menina não voltasse atrás em sua decisão.

De repente, chegaram as duas enfermeiras, nitidamente estressadas com a reação de Helena. Minha filha se sentou em meu colo, estendeu o braço, mas quando uma delas pegou em seu pulso, ela rapidamente a repeliu. Não queria ser atendida por nenhuma delas. Achei que caberia um pouco de conversa, mas, certamente acostumadas a outro tipo de criação, esperavam que déssemos uma bronca na menina ou mesmo que a forçássemos a estender o braço.

Então, uma das enfermeiras começou um sermão, que não sabíamos o quão difícil era tirar sangue de criança, que o médico dela havia pedido vários testes e que seria necessário muito sangue, que era complicado pegar a veia de criança e assim por diante. Que a vida dela (enfermeira) não era fácil, pois ela ia sair dali para fazer um Papanicolau. Mais um pouquinho e começaria a reclamar do salário e das horas que levava de casa até o trabalho. Reclamações muito justas, mas provavelmente fora de hora.

Já estávamos todos nervosos, Helena jejuando há dez horas e ainda tivemos de ouvir aquilo. Saí imediatamente da sala, resmunguei que era difícil ser pai (não por Helena, óbvio, que é uma menina maravilhosa, mas por ter de escutar aquele tipo de asneira, como se a culpa fosse nossa e a criança uma mimada) e, para que eu não começasse a xingar as duas, contei até dez. Na calçada, liguei para minha esposa e falei para que fôssemos embora imediatamente. Em casa, me lembrei de um vídeo de um enfermeiro tirando sangue e gargalhadas de uma criança, que viralizou no youtube. Fiquei com inveja daquele pai todo bobo de tão contente por ter tirado a sorte grande indo a um hospital com profissionais de bom-senso.

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sábado, 28 de março de 2015

O QUE VESTIR? >> Cristiana Moura


E
ra o casamento de uma amiga, traje esporte fino. Quando me dei conta, não tinha roupa para o tal evento. Todas folgadas. Corri à casa de minha mãe que me emprestou um vestido. São constantes as mudanças no espelho depois que comecei a emagrecer. Por vezes, temo afogar-me como Narciso. Mas preciso olhar. Não se trata de contemplar a própria imagem. Trata-se de reconhecê-la.


As roupas de meses atrás, as perdi todas. Comprei novas. Alguns meses se passaram e ficaram folgadas também. Ontem fui buscá-las no conserto. Experimentei uma a uma ouvindo a opinião da atendente:


 — Tá novinho, você não podia mesmo perder esse vestido!

Tira roupa, põe roupa. Tira roupa, põe roupa. Por vezes penso mesmo que estou trocando de pele. Quando eu já estava saindo ela disse:

— Já tá bom de apertar este que você está usando, vestido folgado já não te cai bem.

— Volto em dois ou três quilos – respondi em concordância. Quando se faz dieta a gente começa a medir tempo em quilos.

Noutro dia, um amigo antigo que há tempos não encontrava, arregalou os olhos ao me ver. Nem precisava tanto tempo assim, dado que emagreci muito em seis ou sete meses.

Espontaneamente ele disse. Ah, antes de contar isto vou esclarecendo que não citarei seu nome para evitar mal entendidos Trata-se de um sujeito sério, bem casado. Desses que fazem a gente acreditar em amores de uma vida inteira.

Bem, enfaticamente ele disse:

— Cris, com todo respeito, como você está gostosa!

Eu olhei de canto de olho, esbocei um sorriso daqueles que combinam com uma face rubra e disse confundindo um jeito sem graça com o mais leve que um tom irônico pode ser:

— Ah, meu amigo, gostosa é com certeza, um dos termos mais respeitosos que conheço.

E, secretamente, pensei: às vésperas dos meus quarenta e três anos, quinze de divorciada, um tanto menos de respeito até que me caía bem.



Imagem: Mulher no Espelho de Picasso 



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sexta-feira, 27 de março de 2015

WILLIAM, O ORDINÁRIO - PARTE I >> Zoraya Cesar

A rotina se entranhara nele tal qual raízes de figueira-vermelha, estrangulando-o pouco a pouco. Sentia-se inquieto e desassossegado. Tinha a impressão de que havia um corpo estranho dentro do seu, querendo tomar-lhe a vida.

E que vida? Aquela mesma de sempre, tão rotineira e repetitiva que, se ele perdesse a memória de um dia, não faria diferença, porque o dia seguinte seria exatamente igual. Ele poderia resumir a história de sua vida em duas páginas, ambas ordinárias. 

Mesma rotina. Mesmo emprego. Mesmo ônibus. Mesma volta para casa.

Mesma vontade louca de ter uma vida diferente. 

MESMA ROTINA – Desde os tempos de colégio comia pão com manteiga e café sem leite, almoçava feijão com arroz, carne e cenoura, goiabada com queijo de sobremesa. À tarde, um café. À noite, macarrão. Aos finais de semana, fast food. Às vezes se encontrava com os amigos para tomar uma cerveja. Mas os amigos foram casando, tendo filhos e, naturalmente, fizeram novas amizades. William, tímido e solteiro, não coube mais naquelas vidas. 

Aos 30 anos, não tinha o que se poderia chamar de amigos, mas conhecidos, com os quais encontrava de vez em quando, cada vez mais raramente. Desgostava-o a companhia de gente tão comum. Preferia beber sozinho, e ficar a observar as pessoas, imaginar que tipo de vida teriam, se a teriam mais interessante que a sua, se seriam pessoas especiais, se teriam algum segredo.  

William queria muito ter um segredo, algo que fizesse dele uma pessoa especial. 

MESMO ÔNIBUS – Às 6 horas da manhã o ônibus já estava cheio e uma das maiores agonias de William era ter de viajar espremido, sentir corpos estranhos encostando no seu, aquele cheiro de banho recém tomado com sabonete barato, do creme para os cabelos que as mulheres usavam... Ele odiava cada minuto daquele trajeto de ida para o trabalho. 

A volta não era melhor. Cansadas, as pessoas se encostavam umas às outras, dormitavam, algumas babavam ou roncavam. Ele não descansava, alerta, sempre cuidando de não encostar nos outros, os outros encostando nele assim mesmo.

Morava longe, bem longe do centro da cidade, onde trabalhava. À medida em que o ônibus seguia, diminuía o número de passageiros e ficavam os pontos de parada mais escuros, ermos, perigosos.

No fundo de sua mente estrangulada, uma tímida ideia começava a tomar forma; ele, ainda inconsciente dela; mas a ideia, no entanto, totalmente cônscia do terreno fértil que em que nascera.

William desejava mais que tudo vivenciar.algo que fosse só dele. Era isso ou enlouquecer.

MESMO EMPREGO – Bancário. William era bancário, porque esse era o trabalho de seu falecido pai e o sonho da sua mãe, que queria o filho numa profissão garantida e respeitável. 

Formado em contabilidade, tinha cabeça para cálculos, era organizado, meticuloso, nunca faltara. Se perguntassem a qualquer de seus colegas o que achavam dele, todos diriam que era um cara legal, gentil, que não se metia na vida de ninguém e fazia seu trabalho bem feito.  

E o que ele achava disso tudo? William gostava muito de seu emprego, mas ser bancário era o cúmulo da mediocridade. Sentia-se um otário. Sim, era isso. Para William, todo bancário era um otário.

E ele queria tanto ser um cara cool, ter uma vida além do ordinário. 

MESMA VOLTA PARA CASA – William morava numa casa antiga e tinha um quarto só para ele, nos fundos, cuja porta dava para a cozinha, e, esta, para a rua. No armário, camisas pólo, todas cinza, azul-marinho ou pretas, e calças de brim escuro; sapatos de cadarço e meias brancas. Usava o mesmo estilo de roupa desde a adolescência.  Ao lado da cama, encimada por um espelho, uma mesa, sobre a qual ficava seu notebook. A internet e os games eram parte integrante da vida de William. Seus melhores amigos, seus companheiros. 

Morava com a mãe, uma velha cegueta, esquecida pelo destino, que passava o dia vestida com um peignoar desbotado e puído, resmungando sua artrite pela casa. Criara o filho para ser um bom menino, obediente e comum. Incutira-lhe o temor de tudo o que fosse fora do normal, do mundo lá fora, cheio de perigos, de gente má e violenta.

William tinha medo, sim, mas de morrer sufocado pelas raízes da figueira-vermelha que se espraivam em sua alma.

Era um caso de vida ou morte. Diante da pressão, aquela tímida ideia, antes escondida em sua mente, qual violeta no meio do mato, desavergonhou-se e apareceu, nua e esperançosa.

William a recebeu e acalentou. Afofou e adubou a terra onde nascera a violeta-ideia, examinando cada possibilidade. Tudo era uma questão de coragem e planejamento. 

A ESTRATÉGIA – William era observador. Era paciente. E agora tinha um objetivo real a dar-lhe sentido à vida. Começou os preparativos. 

Primeira coisa a fazer era escolher onde encontrar a pessoa certa. Escolheu o ônibus. Sempre havia mulheres cansadas e magras que desciam sozinhas nos pontos finais. 

O segundo passo foi matricular-se numa academia, para reforçar os músculos, melhorar a aparência, ganhar resistência aeróbica. Iria precisar, com certeza, de alguma força física, e talvez fosse necessário correr também. 

E, por fim, pesquisar na internet todas as informações e material dos quais necessitaria para levar adiante seu plano.

Estudava, comprava, lia, preparava-se. Estava por escrever um novo capítulo em sua vida.

William, finalmente, tinha um segredo.

Continua dia 10 de abril



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quarta-feira, 25 de março de 2015

A SÓS >> Carla Dias >>


Eu poderia dizer as frases certas, usando palavras adequadas. Até mesmo pronunciar poesia na sofreguidão da felicidade. Envolveria Deus no prelúdio, para que as decisões sofressem de divindade.

Eu poderia lhe dedicar o meu universo, do momento que antecede meu despertar ao suspiro que protagoniza meu adormecer, restando-me viver em nome da feitura desse compromisso.

Seria nem sempre amável, que eu sei que sofro de desatino. Conversaria com as paredes, que elas têm me esclarecido um tanto de coisas escondidas. Atravessaria a rua, olhos fechados, no vermelho. Só para chacoalhar a rotina e assustar o sossego.

A verdade se vê diminuta nos palcos desse meu fascínio, que prefiro inventar acontecimentos, deslizes, machucar minhas certezas em vez de gestar indiferença, para então orná-la com falsos sorrisos. À vida eu dedico o mais longo, cáustico, inspirador, vívido suspiro.

A você eu dedico o pensamento mais íntimo.

E outras tantas intimidades, como a de beber água no mesmo copo, abraçar sua mão, apenas para impedir o gesto, aquele que me chama para visitar precipícios. Mergulhar em silêncio no seu olhar enevoado, nas pálpebras das suas intenções orquestradas por silêncios. Escutar sua voz assanhando os meus carinhos, fazendo com que eu os entregue a você de graça, com a graça desalinhada e rendida.

Acho curioso o que dizem por aí sobre o amor. Ele é isso ou é aquilo. O que fazer, então, se o meu não se rende a um paradeiro? Meu amor se movimenta, é paranormal, bipolar, seduzido por ondas sonoras. Gosta da madrugada de quarta, de nem mesmo dormir, e ainda assim, seguir logo cedo para a lida. Meu amor se arrepia ao toque das possibilidades, sabe bem que as imperfeições são mais reveladoras que as qualidades. Ele não tem pudor, esse meu amor, por isso essa sanha toda por liberdade.

Mais que tudo, meu amor alimenta a minha solidão.

Coloca-me de cara com a televisão, horas por dia, espírito entregue à inércia. Também me inspira a inventar legalidade, como a de roubar desajustes para ajustá-los, só de raiva, só de birra, só de solidão contínua. Essas pausas que a sua ausência financia em longas parcelas, que às vezes duram uma estação inteira.

A sós eu comungo com o aferro das minhas querenças. E da saudade...

Eu desafiaria tendências, rótulos e intolerância em nome da sua companhia. E me endoidecessem as pausas, de quando sua voz não assopra palavra dita nos meus ouvidos. Um poema, um capricho, uma confissão sobre o que eu já sabia. E o meu nome, que na sua boca, ele ganha biografia.



Imagem: The Lovers I © Rene Magritte 

carladias.com

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terça-feira, 24 de março de 2015

PEQUENOS GESTOS >> Clara Braga

Um grupo de amigos estava atravessando a rua fora da faixa, sendo que havia uma a menos de 100m de distância, quando tiveram que parar para dar passagem a um carro que vinha subindo a rua pois havia furado o sinal vermelho, já que não tinha ninguém para atravessar na faixa. O grupo de amigos se exaltou e gritou cheio de razão para o carro: o sinal está vermelho!

Provavelmente, o grupo de amigos decidiu atravessar ali mesmo, fora do sinal e da faixa, pois a rua estava pouco movimentada, já era tarde da noite. Mas não contavam que quando chegassem na metade da rua iriam dar de cara com um motorista que decidiu avançar o sinal vermelho, já que não havia ninguém para atravessar na faixa e hoje em dia já não é seguro parar sozinho em lugar nenhum tarde da noite. O motorista, por sua vez, também não imaginava que, depois que avançasse o sinal, encontraria um grupo de amigos que decidiu atravessar a rua fora do sinal. O grupo, se sentindo certo, reclamou. O motorista, vai saber o que pensou. Mas no final das contas, tem alguém de fato certo nessa história?

Já do outro lado do mundo, uma menina que está fazendo intercâmbio marca de sair com os amigos das mais diversas nacionalidades. O horário é 20:30, mas a brasileira chega às 20:45 e se surpreende ao perceber que seus colegas não esperaram por ela. Posteriormente, durante uma conversa com esses colegas, eles questionaram: os brasileiros sempre chegam uns minutos depois, será que é muito difícil chegar às 20:30 já que esse foi o horário marcado? Os brasileiros deixam os outros esperando, mas não gostam quando devem esperar!

Cada vez mais percebo que temos cultivado essa mania besta de exigirmos o que é certo por parte dos outros, mas, da nossa parte, continuamos a viver o tal do jeitinho brasileiro de ser, e tudo bem, afinal, é da nossa cultura ser assim, quer desculpa melhor que essa? E no final, nem achamos que devemos nos preocupar com esses pequenos deslizes, eles são pequenos mesmo.

Nunca compartilhei da ideia de que essas pequenas irregularidades, se é que posso chamar assim, não causam mal algum. E só confirmei minha opinião após ver um vídeo maravilhoso que foi muito compartilhado esses dias nas redes sociais. Nele, um historiador responde se existe solução para a corrupção no brasil, já que essa já faz morada por aqui. De forma muito tranquila o historiador disse: a solução começa com a educação que a gente dá para as crianças desde cedo. Estamos acostumados a ensinar que fazer o trabalho daquela matéria da escola vale a pena pois o trabalho vale nota. Que usar a moeda de 50 centavos que você encontrou no chão para comprar uma balinha sem ao menos perguntar se aquele dinheiro pertence a alguém é algo tranquilo. Assim como também aprendemos que não tem problema dizer que os 50 centavos são seus, mesmo que não sejam, se ninguém deu falta já era. É o famoso "perdeu, playboy!".

Todos esses atos são pequenos atos de corrupção que, se não analisados e debatidos com a devida importância, vão crescer com a pessoa e vão se adaptando às suas devidas proporções. Nós, que estamos exigindo um país sem corrupção, precisamos cada vez mais colocar nossas mãos na nossa consciência e nos perguntarmos se, além de exigir um país melhor, nós estamos sendo pessoas melhores. Nós temos um papel muito complexo, que é garantir uma geração de crianças que terão a oportunidade de crescer de forma justa, lutando e entendendo seus direitos. Sair da manifestação e furar o sinal vermelho ou atravessar fora da faixa não está com nada e não é a mensagem certa para se deixar para a sociedade em um momento como esses. Lembrem-se sempre, pequenos atos geram grandes consequências.




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segunda-feira, 23 de março de 2015

A BOIA E O CAPITÃO >> Albir José Inácio da Silva

Foi logo depois da guerra que a Light estava fichando – hoje em dia se diz contratando - e só precisava disposição pra trabalhar.  De longe vinha gente que abandonava a dureza do eito nas fazendas em busca de dureza com carteira assinada e boia. E salário-mínimo - que era o mais novo sonho dos boias-frias. A minha sorte foi que naquele tempo menino podia trabalhar.

- Tem que ser menino esperto, ter força e disposição - dizia o funcionário do recrutamento, que falava isso sem olhar pra pessoa e ficou decepcionado quando viu meus quarenta e poucos quilos. Mas consertou: - Às vezes disposição é melhor que força, né garoto? – fez um quase sorriso, e eu ganhei a vaga porque todo mundo ganhava.

Quem ganhou vaga também, com muito mais justiça porque era grande como um touro e trabalhava por três, foi o Zé Gamela.   Gamela vinha das profundezas de Minas e recebeu esse nome ainda criança porque o que tinha de força, tinha de fome e comia na gamela - uma espécie de bacia.

Quando chegamos no canteiro, já lá havia um  encarregado de nome Capitão. Dizem que virou Capitão de tanto o povo repetir, mas começou como capetão, capeta grande, porque era um capataz ruim que nem o diabo. Capitão ele gostava, dizia que era reconhecimento por sua importância e autoridade.

Capitão era um mulato que se embranquecia e não gostava de preto. Era encarregado, mas não era de serviço não, que entendia nada de usina, nem de pedra, nem de dinamite. Era um chefe de disciplina, de segurança, sei lá mais de quê, só sei que implicava com tudo. Andava com um rebenque na mão, que até os patrões gringos estranharam, mas ele explicou que não era chicote não, era um bastão pra bater nos galões de piche e saber quando estavam vazios.

Era uma segunda-feira e Zé Gamela sentia muita fome, tinha comido só uma sopa de banana verde no domingo. Mesmo assim trabalhou duro toda a manhã. Logo da primeira vez pediu pra encher mais o prato e saiu pingando feijão.  De cara feia, o Capitão provocou:

- Parece bicho pra comer!

Zé Gamela não ligou. Comia muito mesmo, e estava feliz com o prato transbordando. Sorriu pro Capitão e foi comer. O Capitão não gostou do sorriso. Não gostava da cor nem do jeito de Gamela.

Zé Gamela entrou na fila pra repetir a bóia com o pedaço de carne espetado no garfo. A gente podia entrar na fila quantas vezes quisesse, mas a carne era só uma, servida na primeira vez. No início a turma devolvia o prato com a carne pra receber mais arroz e feijão. Mas a comunicação era ruim, os caras do rancho não falavam a nossa língua e acabavam raspando o prato no lixo antes de colocar mais comida. A esperteza dos caboclos logo inventou esse expediente: ficar com a carne no garfo enquanto era servido.

Estava o Gamela sorridente com a carne no garfo e o prato estendido, quando Capitão passou por trás dele. Com o bastão bateu no garfo de baixo pra cima e o naco subiu dois metros, quicou nas tábuas do chão e deslizou pela terra. Gamela ainda correu até a carne, mas ela tinha uma lama de gordura e terra preta, e ele jogou de volta no chão.

Sentou no banco com o prato na mão, mas não conseguiu comer. Tinha um nó na garganta e os olhos pregados no chão. Seu Chico foi até lá, achando que ele não queria comer sem carne:

- Toma, Gamela, eu já tô cheio.

- Quero não, Seu Chico, perdi a fome.

Seu Chico voltou pro meu lado no banco de madeira:

- Sabe, menino, eu vivo há muito tempo, mas não consigo entendê as pessoa.


Se o Seu Chico, que era velho e viajado, não entendia as pessoas, imagina eu que era só um moleque.


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sábado, 21 de março de 2015

BASTA, FABRÍCIO >> Sergio Geia

Com o livro do Fabrício Carpinejar nas mãos, fui pra sala continuar a leitura de “Me ajude a chorar”, minha companhia dos últimos dias. Era um domingo pra lá de quente, a temperatura batia os 36, embora pela sacada entrasse uma brisa refrescante. Já tinha ido tomar café na padaria, ao supermercado, guardado a compra. Liguei o computador pra continuar a revisão de um romance que havia escrito em 2010, mas antes queria ler mais alguma coisa do Fabrício.

Tenho paixão por crônicas cujo protagonismo é exercido por bromélias, pé de feijão, jabuticabeiras e capim; amendoeiras, cajueiros, acácias e afins. O Rubem Braga tem uma crônica deliciosa nessa linha chamada “Um pé de milho”. Normalmente, crônicas desse tipo me arrebatam logo de cara. A sensação é de estar chupando mexerica num banquinho à sombra, de ouvir o marulhar das ondas, o coaxar de sapos, o farfalhar da brisa, de preferência deitado numa rede, de preferência no final de uma tarde outonal, de preferência sob a beleza de um sol poente.

Poeta não é aquele que escreve livros, mas o que lê as pessoas. O Fabrício já me arrebatou aí, com essa frase formidável. Se bem que o título já me fisgara: “Basta uma pitangueira” era tudo o que eu queria. É interessante ver o que acontece com a gente. Você dorme mal por causa do calor, acorda como um zumbi meio desanimado da vida, não sabe nem o que vai fazer de seu domingo, e de repente tudo se transforma graças a uma simples pitangueira.

Eu falo isso porque a pitangueira foi a propulsora de boas sensações e de uma renovação da alma. Está certo que eu já sou meio pré-concebido a gostar de um texto gratuitamente quando são protagonistas operários de macacão laranja e uma simples pitangueira. Mas não é só isso não. A poesia que brota do Fabrício é monumental; parece água nascendo da terra. E você começa a ver coisas que não via, ouvir coisas que não ouvia, sentir coisas que não sentia, a começar pela imagem tão poeticamente narrada dos operários da Prefeitura colhendo pitangas no pé. De repente, um dia cinza e sem graça se transforma num mosaico multicolorido de boas sensações.

Sinto o toque do vento a acarinhar a pele, no mesmo instante que me vem à cabeça a cena da folha de papel bailando no ar, toda oferecida à lente do mais-normal-que-todos Ricky Fitts, interpretado por Wes Bentley, em Beleza Americana. Mais- normal-que-todos é um paradoxo, vai, mas Ricky era o único, e é isso que eu quis dizer, o único que enxergava a verdadeira beleza da vida. Está certo que depois Lester (Kevin Spacey) e Jane (Thora Birch) também tiraram a venda.

A vida não é fácil, amigo. Pra ninguém. Foi um domingo normal o meu. Fui comer no Kanpek do shopping, depois passei nas Americanas em busca de algum CD interessante (comprei mais um da Roberta Sá, que eu adoro). Dei um pulinho nas Casas Bahia, na Kalunga e no Carrefour em busca de um bom circulador de ar (que também comprei); passei na casa de minha ex-mulher à cata de umas bolsas velhas mas que muito me servem e pra dar um beijo na criançada; terminei a noite levando bolo de uma amiga e comendo um x-tudo no Joãozinho e Semaninha. Mas foi um domingo fantástico, tenho de reconhecer, porque dentro de mim, eu estava muito bem. Bastou uma simples pitangueira.      


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sexta-feira, 20 de março de 2015

PROTEÇÃO E CRESCIMENTO: DO CONTROLE À ENTREGA >> Paulo Meireles Barguil


Bruce Lipton, em Biologia da Crença, explica que a célula tem dois movimentos principais: proteção e crescimento.
 
No primeiro, ela foge de tudo que acredita ameaçar sua existência. No segundo, ela vai ao encontro do que julga propiciar a continuidade da sua vida.
 
Conforme esse biólogo, esses mecanismos não podem funcionar ao mesmo tempo. Em determinado momento, portanto, a energia da célula só pode ser direcionada ou para se defender ou para crescer.
 
Por ser o Homem composto de trilhões de células, Lipton defende que esse princípio também acontece em nós.
 
Diante de um mundo repleto de mistérios, é natural que o Homem tenha medo, o qual, em doses moderadas, contribui para que ele reflita sobre os diversos aspectos da realidade e objetive tornar a sua existência mais segura e satisfatória.
 
De modo simplificado, as crenças são frutos de experiências — nossas e/ou de outras pessoas — as quais geram sentimentos e pensamentos.
 
O centro da nossa existência são os sentimentos. É a partir deles que escolhemos as atividades que irão, quase sempre, confirmá-los.
 
As nossas emoções desagradáveis são, basicamente, medo, vergonha, raiva e tristeza. Enquanto as agradáveis são, respectivamente, coragem, segurança, amor e alegria.
 
O controle é a atitude de alguém que tem sua vida guiada pelas emoções desagradáveis.
 
A entrega é o comportamento de quem se orienta pelas emoções positivas, a qual não pode ser confundida com submissão e rendição, mas como aceitação e gratidão de tudo que a vida lhe oferece, potencializando a sua ação no mundo com foco no outro e não na sua satisfação pessoal.
 
Quando alguém sente — leia-se, acredita — que um ambiente, um acontecimento, um indivíduo é hostil, sua energia é prioritariamente alocada para a sua segurança.
 
Penso que, de modo geral, uma pessoa ansiosa é medrosa, insegura. Ela não acredita que é capaz de resolver, da forma possível, as situações que poderão aparecer — ou seja, não confia em si e, consequentemente, nas outras pessoas, bem como no poder do Amor — por isso tenta, inutilmente e compulsivamente, controlar o mundo, que, na sua fantasia, existe para atender os seus caprichos.
 
Qualquer sombra, cheiro ou som diferente que, de alguma forma, lembre algo que tenha gerado frutos desagradáveis no passado, pode acionar o seu instinto de lutar ou fugir, propiciando-lhe, se optar pela segunda, se afastar rapidamente do suposto perigo.

Após cada ocorrência, seu temor aumenta e confirma a sua crença de que ela precisa realmente estar sempre alerta. Suas sensibilidade e resposta — corporal e verbal — tornam-se cada vez mais rápidas!
 
Não é difícil imaginar o resultado disso após alguns anos...

Outra possibilidade de uma pessoa ansiosa é alguém que deseja muito vivenciar algo e que, por vários motivos, ainda não aprendeu a esperar, o que não significa que ela nada pode fazer, mas que precisa compreender que o mundo não funciona no ritmo do nosso desejo.

A nossa interpretação do mundo, que se expressa em ações e discursos, tende a confirmar as nossas emoções, as quais não podem ser extirpadas, apenas transmutadas, se forem identificadas, num processo lento e fascinante.
 
Creio, contudo, que os nossos sentimentos podem ser sufocados ou negados, mas continuam dirigindo a nossa vida...
 
As consequências dessa repressão são nefastas, pois só ampliam a ebulição desse caldeirão!
 
O aumento exponencial, em todo o mundo, das doenças de natureza psicológica confirmam o equívoco e o perigo dessa atitude.
 
O medo, portanto, impulsiona a pessoa a, de um lado, querer controlar, vigiar tudo que lhe cerca, e, do outro, a se isolar.
 
Essa afirmação, caso proceda, não é suficiente para mudar quem deseja, pois a dinâmica entre ação, sentimento e pensamento é muito poderosa e sutil, conforme atestam as descobertas das últimas décadas quanto à composição química do Homem, que revelam, aos poucos, o intrincado funcionamento das glândulas e o impacto de seus respectivos hormônios na qualidade da vida dele.
 
É importante compreender e aceitar que os aspectos motores, afetivos, cognitivos e espirituais são intimamente relacionados.
 
O desafio, portanto, de cada um de nós é, a cada segundo, migrar da hostilidade à hospitalidade!


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quinta-feira, 19 de março de 2015

HARMONIA, SUA LINDA >> Mariana Scherma

Harmonia é minha palavra preferida. De toda a língua portuguesa – e isso quer dizer bastante, porque nossa língua tem saudade, pipoca, fofoca, beijo, enfim, várias palavras boas de dizer, palavras que fazem a gente encher a boca pra falar e são igualmente gostosas de ouvir. “Beeeeijo”, “ai que saudade!”, “tem uma panela de pipoca quentinha te esperando”, “para tudo! Tenho uma fofocaaa”, ah, que delícia elas são.

Mas harmonia me conquistou mais pelo significado do que pela sonoridade, um pouco pela grafia também, que tem esse H quase sem função sonora, é um enfeite rococó fofo. Mas voltemos ao significado, harmonia é tudo o que eu quero nessa vida. Harmonia é a melhor definição de felicidade. Viver em harmonia com o que temos, com o que somos, com o que vemos no espelho, com as pessoas ao redor, no trabalho... Harmonia é aceitar e gostar, é uma espécie de paixão mais morna, mas ainda paixão. Paixão que veio pra ficar. Harmonia não é pra qualquer um, não. Haja terapia pra você viver em harmonia. Harmonia é tão linda que até rima com terapia, olha só.

Sem contar que não há música sem essa dita-cuja. Imagine só as notas musicais brigadas, com zero harmonia, quem ia gostar de ouvir música? Eu não, você também não, aposto. Doeriam nossos ouvidos. E uma escola de samba sem harmonia, com suas alas dissonantes, seus componentes alheios entre si? Ôh tristeza. Harmonia, eu quero uma, ou melhor, várias pra viver.

Me dei conta de que essa era minha palavra ao passar pela Rua Harmonia, na Vila Madalena, em São Paulo. Fiquei pensando que máximo seria viver por lá. Romântica, imaginei que os vizinhos nunca brigaram na vida, que síndicos fossem pessoas raramente solicitadas, que as pessoas se cumprimentassem com o combo bom dia + sorriso, que os donos dos cachorros sempre recolhem o número dois feito pelos pets, enfim, sonhei. Desejei morar na Rua Harmonia. Ainda não foi possível, mas convidei a harmonia pra viver dentro de mim. Às vezes, brigamos e ela vai passar uns dias fora, mas logo volta. A gente nasceu pra viver junto.

Só agradeço por, naquele dia, passar pela Rua Harmonia e não Desgosto, Desilusão, Dor, Inveja, Colesterol Alto. Já pensou se eu invoco com uma dessas palavras como preferida?! Que o universo abençoe a Rua Harmonia.


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quarta-feira, 18 de março de 2015

DEZ MINUTOS >> Carla Dias >>


Promessas vazias e esperanças vãs lhe tiram do sério, assim como se atrasar para o trabalho, que acaba sempre sendo ruim para ele mesmo. Quando se é responsável por diversas funções, torna-se fácil perder o foco, até porque o foco dele não é um, mas vários.

Mesmo com quinhentas e vinte e sete mensagens para responder, o celular apitando seus compromissos na empresa e a assistente repetindo que ele é funcionário como todos ali, às quatro da tarde ele para o trabalho e tranca a porta, fecha as venezianas que dão para o salão - onde trinta funcionários falam sem parar ao telefone -, fecha a janela e apaga a luz. Dez minutos, devidamente descontados da mísera meia hora que tem de almoço, é do que ele precisa.

Em dez minutos, sentado confortavelmente em sua desconfortável cadeira, olhos fechados, de barulho somente um falatório distante, ele reflete a mesma reflexão que lhe acompanha há mais de trinta anos de casa: e se ele não existisse, se não estivesse ali, o que mudaria? As respostas variam, de acordo com o tempo e da personalidade de quem lhe cerca, porque, diferente dele, as pessoas vêm e vão. Sim, sua assistente tem razão. Ele é somente mais um funcionário com meta para atingir, apesar de seu talento de se adaptar a qualquer situação, seja ela oriunda do humor do mercado ou da péssima condução dos negócios pelos donos da empresa.

Nesses dez minutos, pensa também em outra coisa. É pensamento que ele acessa, sempre que deseja sossegar o espírito. Porque, diferente do que enxergam na empresa, da imposição de seu olhar profissional, de seus ternos simples, mas muito bem conservados e passados, da austeridade de sua voz e do recorrente infortúnio de ser o autor de quase todas as broncas infligidas durante horário comercial, há essa fresta na rotina pela qual a luz entra e se espalha.

Há esses dez minutos, durante os quais ele pensa em como seria se estivesse em algum lugar com montanhas e rios, em vez de em um escritório, mas é certo que sua criatividade não ultrapassa as montanhas, tampouco molham os pés nos rios. Na verdade, nem se lembra de quando esteve em lugar onde não pudesse chegar de metrô. Mas a maior parte desses dez minutos ele gasta pensando em outra coisa, muito menos provável, porém cordialmente amansadora de angústias.

Quando pequeno, moleque de tudo, conheceu um menino na escola que lhe disse, em confidência, que quando crescesse sumiria do mapa. Ele não entendeu esse negócio, que não há como sumir da geografia do mundo. Mas o colega, menino danado, que não parava quieto e sorria o tempo todo, assegurou que havia sim um lugar fora do mapa, e que lá ele construiria a sua vida.

O colega se tornou seu melhor amigo. Não sumiu do mapa, ao contrário, é uma das pessoas mais conhecidas do mundo. Dono de hotéis em diversos países, fluente em pares de idiomas, homem de negócios que serve de modelo para tantos. Ainda sorri daquele jeito escancarado, só que não é mais sorriso desbravador, mas oferecido para omitir que, depois de tantas vitórias, vem perdendo a batalha para a solidão. Queria ele estar no mapa afetivo de alguém que não se importasse com o tipo de importância que ele tem para quem não lhe quer bem, mas definitivamente quer se tornar ele.

Seu amigo lhe ofereceu dinheiro, emprego, status. De forma atenciosa, preocupado com a vida de sempre dele, ofereceu-lhe viagens, que o mundo é grande, por que não conhecê-lo? Ele nunca aceitou mais do que ser convidado para um e outro jantar pomposo na casa do amigo. Fora isso, os churrascos e bate-papos eram sempre na varanda de seu apartamento comprado em parcelas a perder de vista.

A fama, o dinheiro, o sucesso do amigo nunca lhe interessaram. O que ainda os mantêm sintonizados é a amizade que eles construíram antes de se tornarem adultos envolvidos com suas questões profissionais e existenciais. Amizade conquistada nas tardes jogando bola, nas paqueras durante a aula de Ciências, que ambos caíram de amores pela professora. E nessa ideia que se tornou a única capaz de lhe assanhar o imaginário, que ele nasceu pessoa prática, infértil para os dramas compartilhados.

Durante os dez minutos em que ele consegue se desprender da realidade, da sua rudeza e austeridade, da impaciência do outro em compreender que a vida nem sempre nos dá o que exigimos dela, e quase sempre exigimos o que nem mesmo merecemos receber, e mergulha nesse silêncio que é o negar-se a escutar o mundo, ele se sente como se estivesse vivendo fora do mapa; que se alguém conferisse nesse período, ele não estaria em geografia que fosse.

Durante os dez minutos, ele desiste da sua realidade e vai morar nesse lugar interior, completamente fora do mapa, do jeito que o amigo, incessantemente, até que a vida lhe empalidecesse os desejos, acreditou ser possível.

O alarme do celular toca. Ele sai do transe, automaticamente. Abre os olhos, a janela, as venezianas e observa o movimento do salão. Os funcionários ainda falam ao telefone. Alguns deles são particularmente histriônicos.

Durante dez minutos, ele some do mapa, independente das urgências, da insatisfação de sua assistente, dos vários papéis que ele tem de desempenhar como funcionário de um mesmo lugar há mais de três décadas. Ele sabe que, para seguir com a vida, é preciso haver um momento em que possamos existir independente do que ou de quem nos cerca.

Essa liberdade cronometrada acontece todos os dias para ele, mesmo nos finais de semana, às quatro horas da tarde.

Imagem © Rodrigo de Castro Scott



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sábado, 14 de março de 2015

GRAÇAS AO PERIGO >> Cristiana Moura




Fomos colegas na faculdade de Artes Visuais. Nesta época não éramos próximos. Hoje em dia, o rapaz já homem feito, me parece um mago das linhas  que, em seu gesto, ganham graça, força e forma – sua arte.

Parei-me mais tempo diante um dos seus desenhos. A imagem me absorve e me transporta. Ao centro do quadro a imagem de um redemoinho. Sendo tragada por ele uma caixa. Nesta caixa uma abertura, na qual uma mão se segura, possivelmente tentando não ser levada pelo redemoinho. Nas linhas de Diego os redemoinhos do meu próprio caminhar.

Foi bem depois que fiquei sabendo dos seus pedaços de vida. Quando era menino, morria de medo d’água. Fosse mar, fosse lagoa, fosse rio ou mangue. Era menino ainda franzino, ainda miúdo quando seu pai que era pescador o levou para um passeio. Não era qualquer passeio. O caminhar seguro de mãos dadas pelas rua dava lugar ao balanço nauseante da canoa no mangue. Entrou em pânico. Corpo quase congelado. Todas as lágrimas, daquelas que são feitas de medo, ele pôs para fora naquela hora. Daí em diante, infância, adolescência, juventude se resguardaram à segurança da terra firme.

Antes dos seus trinta anos, decidiu com firmeza que enfrentaria esses medos  que pareciam ter nascido antes mesmo dele. Era homem com seus temores, mas era também homem com sede da natureza aquosa.

As linhas escorregando caneta adentro do papel já eram íntimas do nosso artista. Para cada situação impossível de ser vivida em um mundo de receios, um desenho, múltiplas linhas. Diego passou a vive-las em um mundo onírico de imagens inventadas.

“— Na arte sim, eu poderia estar no redemoinho, numa ponte nas alturas. Poderia não saber por onde caminhar. Estar na canoa. Na água.
ia.﷽﷽﷽﷽﷽﷽o sua histdas do seu gesto em desenhos, mas com as linhas das suas mnr tantas imagens para si. Diego pode inventar tan


Então foi assim. Graças à essa relação difícil com a água, com as alturas, somado ao seu talento e estudo em artes, Diego pode inventar tantas imagens para si. Diego pode inventar tantas imagens, e isto eu não sei se ele sabe, para nós.

Para quem, como eu, precisa de arte para ver o mundo, para ver a si, e para se encantar, seus desenhos tornam-se presentes. Vejam bem, encantamento para mim, é como feijão com arroz para a fome.

Diego agora faz natação. Achando pouco, ele está aprendendo a surfar. Isto mesmo, daqui a pouco estará pegando aquela onda última lá longe.

Ah, me desculpem. Queria mesmo era falar deste recorte da produção artística de Diego de Santos. Apropriei-me do título de sua exposição para batizar esta crônica. Mas no meio do caminho misturei-me em sua arte de forma a senti-la em meu próprio corpo. De forma a enfrentar meus próprios medos. Encantei-me não só com as linhas nascidas do seu gesto em desenhos, mas com as linhas das suas mãos contando sua história.

— Graças, Diego! Graças ao perigo!


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sexta-feira, 13 de março de 2015

RODOLFO E A CRISE DOS 40 - PARTE II>> Zoraya Cesar


Coerente com seu lema “um encontro, um motel”, Rodolfo saiu do restaurante direto para o dito local, ansioso pela noitada que depois contaria, em detalhes, para os amigos.

Caroline Valérie também não deixou por menos. Deixou, isso sim, Rodolfo ver, ao vivo e em cores, o tamanho da enrascada. 

Tarde demais, ele descobriu o que todos – o Amigo Leitor, inclusive – desconfiavam: Caroline Valérie era um travesti. E que não aceitou ser rejeitada, nua e loura, só por conta daquele nada pequeno detalhe. Ajoelhou, tem de rezar, disse, enfezada, as mãos na cintura.

Fugir, nem pensar; lutar, muito menos: franzino do jeito que Deus lhe fizera, Rodolfo ia apanhar como um cão sarnento. Só havia uma saída: negociar. Não houve a consumação do ato libidinoso, mas ele a tratou como uma princesa a noite inteira. E mais não digo, pois esse, repito, é um blog família.

O episódio cairia no olvido se, no dia seguinte, Caroline Valérie não esbarrasse em dois dos amigos que Rodolfo lhe apresentara na noite anterior. Educada e fina, não entrou em detalhes, mas fez pródigos elogios a “Rodolfinho”, um gentleman, que fez da sua noite uma delícia inesquecível.

A história se espalhou mais rápido que um viral na internet. Rodolfo e suas histórias estavam virando lenda urbana. 

TERCEIRO ENCONTRO – Persistiu no site de relacionamentos. A louraça Sharonstony começou explicando que seu nome era uma homenagem à “ídola” (sic) de sua mãe, fã da atriz de Atração Fatal. Tudo bem, pensou Rodolfo, afinal, ela era a mais bonita das três. Portanto, tudo bem que usasse uma legging de lycra azul brilhante e uma blusa com estampa do Luan Santana. Tudo bem que era falsa loura. Tudo bem que mascasse chiclete com a boca aberta.

Importante era que Sharonstony beijava muito bem, enroscava-se em Rodolfo como uma cobra no pau – sem trocadilhos, por favor - e ronronava em seu ouvido. Ele ficou doido. Tão doido que resolveu ir ao bar, mostrá-la aos amigos, queria vê-los babando, invejosos. Há muitos Rodolfos no mundo, que não aprendem. 

O que Sharonstony tinha de gostosíssima tinha também de escandalosa. Falava alto. Tudo o que dizia podia ser escutado a cinco mesas de distância. Tratou o garçom de “meu filho, cadê essa comida? Tão matando o boi agora, é?” Comeu com a boca aberta. Um dos amigos a filmou lambendo os dedos e limpando-os na mesa. Dessa vez não haveria misericórdia para Rodolfo.

Que continuava doido, sim, mas de vergonha. 

A noitada foi horrorosa, Sharonstony falou o tempo todo sobre novelas, BBB, cantores sertanejos, fofocas de celebridades. E não parou de tirar selfies no motel, nas mais variadas poses. Rodolfo não conseguiu fazer nada. Voltou pra casa, cabisbaixo, era o único homem na Terra que não tinha histórias legais pra contar, que não tinha uma vida interessante, lamentava-se. 

QUARTO ENCONTRO – Na verdade, não foi bem um encontro, mas uma despedida de solteiro. Muita bebida, muita revista de mulher pelada, alguns filmes. Parecia mais festa de adolescente quando os pais não estão em casa. Até boneca inflável teve.

Boneca inflável. Não se sabe, até agora, o que deu na cabeça já cheia de manguaça de Rodolfo para experimentar a boneca. Nem, como, diabos, ele conseguiu prender seu membro viril na boca do artefato. A sorte é que havia um médico presente, e conseguiram libertá-lo sem outra consequência que não uma distensão na virilha, forte o suficiente para impedi-lo de vocês-sabem-o-quê por algum tempo.

Doloroso mesmo foi ver que o pessoal gravou toda a cena do salvamento e postou no you tube, instagram, facebook... Porque, dessa vez, realmente, não houve piedade. Aquilo fora engraçado demais. Amigos, amigos, safadezas à parte. 

CONCLUSÃO - Aqueles eram os piores 40 anos de sua vida. Seria conhecido como Rodolfo, o idiota, jamais como Rodolfo, o invejado. Era a derrota, agora eternizada nas redes sociais. 

Encontrou Antoninha, alguns dias depois. Não ficara bonita, que milagres não existem, mas era outra mulher. Arrumada, usava lentes de contato e cortara os cabelos. Que continuavam castanhos. Antoninha era mulher de personalidade, não os pintaria só porque o cretino do ex-noivo tinha fixação por louras.

Ele elogiou sua aparência e insinuou que gostaria de reatar o namoro. Ela riu. Não tinha interesse algum em voltar para um relacionamento falido, no qual não era valorizada. Despediu-se com um beijinho no ombro, tchau, a gente se vê.

Rodolfo resolveu que procuraria um psicólogo. Aquela crise dos 40 mal começara e já estava insuportável. 

Chegou o final de semana e, com ele, a solidão. Não tinha coragem de encontrar os amigos e desistiu do site de relacionamentos. Pensou nas últimas mulheres que conhecera. Antoninha o desprezara. Uma o roubara e o deixara algemado à cama. A vulgaridade da outra lhe dava vergonha só de lembrar. E ainda teve aquela que nem podia ser considerada mulher de verdade. Mas era educada, bonita e gentil. 

- Alô. Caroline Valérie? É o Rodolfo, lembra de mim? Tá fazendo alguma coisa? Quer sair?

Do outro lado da linha, gritinhos histéricos de alegria.



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