sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

RODOLFO E A CRISE DOS 40 - PARTE I >> Zoraya Cesar

Quem faz 40 anos não quer perder tempo. Comecemos, portanto, nossa história, entrando direto no assunto: ao completar 40 anos, Rodolfo olhou pra sua vida e achou-a a coisa mais sem graça do mundo.

Seu emprego era bom, mas o trabalho era chato; sua rotina resumia-se à casa, trabalho, encontro com os amigos, namorar a mesma mulher há anos. Antoninha, a noiva, era desprovida de qualquer dos atributos que encantam o imaginário masculino: não tinha bunda, não tinha peito e ainda por cima usava óculos. Era engraçada, fiel e inteligente, mas quem se importa?

Trocar de trabalho e fazer esportes radicais, nem pensar. Rodolfo direcionara toda sua vida para a pacatez e agora estava indócil; queria aventuras para contar aos amigos (aventuras sexuais, sejamos claros). Era sempre o ouvinte passivo, nunca tinha nada de seu para contar, e ele queria tanto, ó, tanto mesmo, mudar essa situação, ser admirado, ter suas histórias passando de roda em roda, todos dizendo “E o Rodolfo, hein? Cabra da peste, garanhão e pegador. Já sabe da última dele?”

A única solução, a seu ver, era se livrar do noivado longevo, o que fez com um mínimo de remorso. Deixemos de lado, pois, a coitada da Antoninha, que saiu sem entender patavinas, e voltemos a Rodolfo, que, tão logo se viu solteiro e desimpedido, inscreveu-se num desses sites de relacionamento e #partiuencontro.

PRIMEIRO ENCONTRO - A mulher era linda e loura, sonho de consumo de Rodolfo, que jamais conseguira convencer Antoninha a pintar os castanhos cabelos. Linda, loura e disposta, dispostíssima, aliás, a também não perder tempo. Foram, então, direto para o motel.

A noite foi curta para tanta fantasia realizada. A tal loura topava tudo, tinha um arsenal de ideias do arco-da-velha, e, obviamente, viera preparada para aquilo. Até que Rodolfo, quarentão sedentário, acostumado ao feijão-com-arroz de todo dia com Antoninha, dormiu, exausto. Dormiu como o homem mais feliz do mundo, para acordar como o homem mais achocolatado do mesmo mundo.

Algemado à cama, besuntado de chocolate por todo o corpo nu sem pelo (sim, sem pelo, pois uma das práticas excitantes da loura foi depilar Rodolfo para depois... não vou contar, esse é um blog família). Sem pelo, sem dinheiro, roupas, celular, cartão... a loura realmente fez uma depilação completa. 

Algemado, achocolatado e humilhado, Rodolfo foi resgatado pelo gerente do motel horas depois. Pediu a um amigo que levasse roupas e um chaveiro profissional - para abrir as algemas. O amigo fez tudo e ainda pagou a conta astronômica, mas aproveitou para fotografar situação tão inusitada. Era gente boa, o amigo, não postou nas redes sociais. Mas mostrar as fotos, mostrou-as, e,  ao final do dia, o grupo todo estava sabendo do caso, nos mínimos e sórdidos detalhes. Amigos, amigos, patifarias à parte. 

Nada contaram a Rodolfo, porém, que aferrava-se ao intento de se tornar assunto reinante. Marcou encontro com outra loura. Agora que estava livre e aos 40 anos, só sairia com louras.

SEGUNDO ENCONTRO - E essa era verdadeiramente um portento de loura. Alta, grande, exuberante, tinha longos e lisos cabelos que balançava de lá pra cá, fazendo charmosos meneios com a cabeça, ajeitando-os com suas mãos largas, de compridas unhas coloridas de vermelho-socorro. O decote mais que generoso atraía os olhares masculinos para os grandes peitos que saltavam para fora da blusa de oncinha. Franzino, Rodolfo parecia ainda menor ao lado dela, mas o possível constrangimento foi logo substituído pelo prazer que os afagos da super-loura lhe proporcionaram. Daí que ele resolveu, antes de levá-la ao motel, apresentá-la aos amigos, para que todos vissem o tipo de mulher gostosa com a qual se relacionava agora.

A chegada do casal realmente causou burburinho entre os amigos, afinal, Caroline Valérie – esse o nome da loura – era uma presença marcante. E, na frente de todos, trocaram beijos e carícias a rodo. Os amigos, ressabiados, trocavam olhares indecifráveis, comportamento que Rodolfo interpretou como sendo de pura e rasgada inveja. Tão vendo, pensava, exultante, como sou capaz de conquistar um mulherão desses? Saiam da frente, que agora sou um novo homem, solteiro e pegador.

Esquecera totalmente o fiasco das algemas com chocolate. Cansado de se exibir, levantou-se, despedindo-se às pressas. Ele queria mesmo era ter histórias sexuais para contar, e não ficar somente de beijos e abraços, que estava com 40 anos, não era mais criança.

Levou, portanto, a loura portentosa para a cama, pois seu lema, agora, era “um encontro, um motel”. 

O que ele não sabia é que Caroline Valérie também tinha um lema: “ajoelhou, tem de rezar”...

As aventuras de Rodolfo continuam dia 13 de março




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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

MINHA VIDA NÃO DARIA UM LIVRO >> Carla Dias >>


Desde que a necessidade de escrever se tornou literatura na minha vida, perdi as contas de quantas pessoas já me disseram que suas vidas dariam um livro. Na maioria das vezes, daria mesmo, porque a vida é geniosa, traquina e tem seus momentos de bipolar.

Muitas histórias contadas depois da introdução “minha vida daria um livro” me convenceram de que algumas delas teriam de ser divididas em três, até quatro volumes. São tantos enredos inusitados, e às vezes, mesmo daqueles que me parecem ter vidas tranquilas, saltam pontos de virada inacreditáveis, que parecem acurada ficção.

Para mim, a vida do outro é relevante, não apenas porque a vida em si tem valor, mas porque a história construída ou imposta a ele pode ser surpreendente. Em momento em que parece que a maioria de nós deseja somente contar suas histórias, escutá-las é uma forma muito interessante de espiar a própria existência. Escutar o outro se tornou raro, mas se a vida dele der um livro, e se esse livro acabar na prateleira das grandes livrarias, essa vida corre o risco de se tornar um best-seller.

Há quem viva em busca de que sua vida se torne um best-seller.

Porém, há aqueles que flanam por aí, quase despercebidos, escutadores dedicados de histórias de vida alheias. A vida desses curiosos – e também atenciosos figurantes na vida do outro -, provavelmente não daria um livro.

A minha vida não daria um livro.

A cada vez que alguém me diz “você tem de escrever a minha história, porque minha vida daria um livro”, acende em mim aquela curiosidade gritante sobre o que essa pessoa acha tão fascinante em sua vida, a ponto de ela merecer ser transformada em literatura. Escutadores atenciosos são sempre surpreendidos pela facilidade do declarante de vida em usar superlativos ao descrever situações diminutas. Não que isso apequene a história, mas certamente mostra ao escutador que aquela já é uma versão, um prefácio de percepções equivocadas.

Percebendo as pessoas dessa forma, e exercendo meu cargo de escutadora de plantão, posso garantir que a minha vida não daria um livro. Talvez, desse em notinha de rodapé de jornal, caderno qualquer, mas não em livro. Olhassem de perto, não haveria muito com o que se atiçar a curiosidade. A minha rotina é sóbria, daquelas contadas em longos e maçantes filmes, erroneamente rotulados de arte para justificar a falta de diálogos.

Mas, talvez, se eu pudesse convidá-los à sala de estar da minha cabeça, a visita valesse a pena. Talvez...

A cada vez que alguém diz “minha vida daria um livro”, e eu escuto sua história, há grandes chances de ao menos parte dela acabar em algum dos meus livros. Não acontece com frequência, mas acontece. O que é frequente é a inspiração que escutar essas histórias oferece. A vida pode até não dar um livro, mas definitivamente contribui para a criação de um.

A minha vida pode até não dar um livro, mas me encanta profundamente que a vida de muitos tenha esse potencial. Fascina-me o fato de que o ser humano é surpreendente, e que às vezes, ele se entrega à existência de tal forma, que a vida o lapida, feito obra de arte.

Sendo assim, sabe lá... Talvez você seja somente o leitor desses livros sobre pessoas de vida que daria um livro. Quiçá a sua vida tenha sido a inspiradora na criação de um livro, ou mesmo tenha realmente dado um livro. O declarante do “minha vida daria um livro” corre o risco de que isso realmente aconteça.

Viver é um risco que pode dar um livro.

Imagem: freeimages.com



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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

CADÊ?? >> Clara Braga

Cadê o José Wilker? Cadê o Roberto Bolaños? Essas foram as perguntas que eu mais vi depois do último oscar que não homenageou os dois no momento in memorian.

José Wilker e o Chaves foram umas das perdas desse último ano que parece ter levado até gente demais! Por aqui, ambos foram super homenageados, bem como mereciam, de fato, mas foram esquecidos no famoso clipe do oscar. Alguns se ofenderam muito com o esquecimento, acusam seja lá quem for o responsável de várias coisas inclusive preconceito contra os latino americanos, mas no geral, a maioria acaba concluindo ter sido apenas desleixo e má vontade.

Seja lá o que tenha sido, entendo todas as reclamações e frustrações. Concordo com os questionamentos e acho a grande maioria bem coerente. Mas infelizmente, acredito que todas as pessoas que ficaram chateadas vão ter que se conter com suposições rasas como: eles não eram pessoas importantes para o cinema ou eles não eram conhecidos nos EUA. E digo suposições pois realmente não acho que alguém vai se dar ao trabalho de explicar essa situação.

Não quero ser pessimista, mas vamos ser sinceros, uma premiação que tem como categoria melhor filme estrangeiro já está dizendo com clareza que é uma premiação americana e ponto final. Qualquer coisa que fuja disso já é lucro, e a gente sabe bem disso, pois ficamos surpresos e felizes no outro oscar, quando Eduardo Coutinho foi lembrado e homenageado. Se ficamos surpresos da outra vez é porque no fundo a gente sabe que sempre corre o risco de alguém importante para nós ser esquecido, e até esperamos isso, mas o fio de esperança de ver o rosto da pessoa lá é o que frustra quando eles não aparecem.

Mas não vamos deixar essa situação abalar toda a premiação, que inclusive foi bem interessante em questão de discursos. E para as pessoas que estão frustradas, quero dizer que não se apeguem a esse sentimento, pois no final das contas, seja lá qual foi de fato o motivo para essas pessoas não terem aparecido, em um dos prêmios principais da noite, o de melhor diretor, quem estava lá em cima fazendo um belíssimo discurso era um mexicano, e como eu disse, qualquer coisa que fuja do padrão já é lucro!  


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

VADE RETRO II >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação)

- Este menino precisa é de rapariga! Fica agarrado em saias de tias e padres, - nada contra o senhor, viu, seu padre! - enquanto os outros moleques estão lá, no bem-bom, desfrutando a safadagem.

Para desespero de Padre Antônio, Tia Tonha - solteirona, carola, mas prática - apoiou o irmão:

- Que Genésio guie o menino, então, até onde ele possa aperfeiçoar seus dotes de varão!

Todos concordavam que Genildo era bom menino. Estudioso, trabalhador, não acompanhava os outros garotos pelas arruaças nos finais de semana. Ficava dentro de casa ajudando nos afazeres e participando das rezas, o que aumentava seu conceito com o padre e as mulheres da fazenda. Mas o pai, que já percebera olhares e risinhos dos outros, andava nervoso.

Padre Antônio esbravejou:

- Esse mundo está perdido mesmo. Agora é a própria família que empurra o filho na direção do pecado. O garoto participa das missas, das novenas, das quermesses, e não há por aqui melhor paroquiano. E os adultos, que deveriam seguir-lhe o exemplo, é que estão querendo jogá-lo no inferno. Se não querem o menino aqui, que o mandem para o seminário! Ou vocês vão responder por isso diante de Deus!

A confusão se instalou. Todos falavam juntos. Concordavam uns com Genésio, outros com o padre, mas ninguém se entendia. O tio estava em vantagem. Até os mais santos temiam o pior, enxergavam em cada gesto de Genildo um motivo de preocupação. Seu Rufino sentenciou:

- O senhor me desculpe, seu padre, mas alguma coisa tem que ser feita já. Depois que esse menino estragar de vez, nem pro seminário ele vai servir. Genésio, pode providenciar!

Genalva, filha do meio, considerada lesa mas que também sofria aguilhoadas hormonais, sussurrou, com risco de ser ouvida pelo pai:

- E pra menina mulher, não tem treinamento não?

Levou puxão de cabelo da mãe, beliscão da tia e até Padre Antônio acertou-lhe a bengala na canela.

                                                                              ***

Por séculos, nestas plagas, mulheres apanham sem que ninguém se preocupe em perguntar se gostam ou não. Jactam-se os varões nos botequins da energia com que tratam as senhoras, como se falassem da vitória do time. Mas as viagens às metrópoles, principalmente Rio e São Paulo, apresentaram prazeres até então insuspeitados.

Soturnos e bigodudos senhores habituados a escovar com rigor suas damas, pagas com dinheiro ou casa e comida, começaram a perceber que, também neles, um tapinha não doía. Nem tapinha, nem tapão, nem chinelada e nem chicotada. O masoquismo conquistou-lhes os sentidos, porque de sadismo já sabiam tudo, mesmo sem conhecer tais palavras.

Foi por isso que Madame Adelaide, sempre antenada com as novidades, importou do Rio de Janeiro uma certa Rainha Catrina, que tinha no nome sua maior suavidade. Genésio foi recebido com festa porque, como dizia Adelaide, era de casa.
 
- Madame, este é meu sobrinho Genildo. Precisa destravar, virar homem. Quero o que você tiver de melhor. Dinheiro não é problema.

A uma cotovelada do tio, Genildo puxou do bolso um maço de notas, o que aumentou o sorriso da anfitriã:

- Pois ele vai ter o melhor. É coisa forte, que não se vê por aí. A última palavra em perdição!

- É de coisa forte mesmo que ele precisa - disse Genésio, desconfiado de que o sobrinho estava tão em cima do muro, tão em risco de maricagem que, se ventasse contra, ele ainda caía a favor.

A palavra perdição provocou no menino um arrepio. Ele viu de novo as labaredas que costumava enxergar no olho do Padre Antônio, sempre que o reverendo falava dos horrores do inferno. Mas, com um empurrão do tio, seguiu madame pelo corredor.


( Continua em 15 dias)


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sábado, 21 de fevereiro de 2015

AÇÚCAR!!! >> Sergio Geia

Antigamente eles vinham num pote bojudo, a granel, quantidade farta, a gente se lambuzava. Depois segregaram os cristaizinhos em miúdos sachês de cinco gramas. Aliás, tudo virou sachê. Viu, não? Mostarda, ketchup, maionese, açúcar. Até inventaram o abridor de sachê. Coisa fina: você chegava ao estabelecimento e se deparava com o abridor melecado até os tubos. Mas os sachezinhos estavam lá, fartamente distribuídos, à espera dos doçólatras de plantão.

Não sei se em todo lugar tá assim, mas aqui em Taubaté, meus amigos, de uns tempos pra cá, venho notando, meio desconfiado, a ausência desse inestimável contribuinte da beleza da vida. Quando peço meu expresso, pão com manteiga, suco de laranja, ele aparece minguado, solitário, na bandeja de uma das mocinhas. Como sempre preciso de mais, a demora faz esfriar o meu café.

No começo, relevei. Porém a situação, que reparei generalizada nas padarias da região, de uns tempos pra cá passou a me incomodar. Então, antes de qualquer providência mais enérgica contra esses insensíveis proprietários de padaria, pus-me a refletir sobre melindrosa questão, entender o que de fato acontece. Entre as diversas hipóteses e teorias conspiratórias aventadas, a primeira delas, meio estranha, confesso, foi simplesmente a falta do produto no mercado. Como Taubaté é pioneira em certas bizarrices (você não se lembra de nossa falsa grávida? É! Foi aqui!), concluí que nós não poderíamos ficar atrás, e como até o momento a água ainda jorra de nossas torneiras, elegeu-se o açúcar, esse meloso alimento, como o produto da vez.

Será? Já estou até vendo a notícia: EM TAUBATÉ NÃO FALTA ÁGUA, MAS AÇÚCAR. Se formos fazer uma reflexão perfunctória sobre o tema, a verdade é que estamos ganhando, afinal, em tempos de stress hídrico, água é ouro nas ilhas de calor. É muito melhor ficar sem açúcar do que sem água, claro, claro. No entanto, uma passadinha no supermercado me fez abandonar a teoria: os pacotes estavam lá, aos montes.

Outra ideia que me passou ligeira foi que as autoridades, a indústria, o comércio, e, principalmente, os donos de padaria, estão preocupadíssimos com a nossa saúde e resolveram implementar uma campanha de redução do consumo de sacarose. Assim como um dia eles tiraram o sal do queijo minas e o deixaram sem graça, agora querem acabar com o nosso brownie, petit gateau e outras delícias.

Nada mais louvável, alguém diria, afinal, a obesidade é uma doença. No entanto, sou daqueles que rechaçam a ideia de patrulhamento e que está no time dos que defendem a liberdade individual de cada um decidir o que é melhor para si. Essa eterna mania de as autoridades decidirem o que eu devo fazer no meu quintal. Ora bolas, o corpo é meu, seu, dele, dela. Se a pessoa quer fumar maconha, se prostituir, ou exagerar no açúcar, eles não têm nada a ver com isso.

Mas eis, meus queridos, que entre eu dar uma chegadinha na cozinha para pegar um cone de chocolate (o melhor de Pindamonhangaba) que comprei de uma loirinha graciosa ontem no bar, e retornar para concluir meu raciocínio, minha filha de 13 anos, que espiava o que eu estava escrevendo, não aguentou tamanha inocência e comentou como se eu fosse um velho babão: “Não é nada disso, pai! Como eles não faturam com o açúcar, eles deram um jeito de pessoas como você usarem menos sachês.”

Vi minha filha digitando. “Tá pronta, pai. Pode publicar!” Sei...


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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A HUMANIDADE É CAFÉ COM LEITE >> Paulo Meireles Barguil



Que sina a do Homem: vive num mundo que lhe foge à compreensão!

Nem o átomo — do grego átomos: que não pode ser cortado, indivisível — que se acreditou durante milênios ser a menor parte da matéria ele consegue decifrar, pois está há mais de um século envolvido nessa aventura.

A cada resposta formulada, surgem outras perguntas...

A natureza é mais feroz do que a Hidra de Lerna, que substituía cada cabeça cortada por duas!

Se nem o micro — cujo tamanho lhe é desprezível — a Humanidade consegue desvendar, o que dirá do macro — cuja extensão ela sequer logra imaginar?

E a si mesmo? Quem ousaria dizer conhecer?

Solucionar as infinitas charadas é divertido.

Melhor mesmo é contemplar e deliciar-se com as inebriantes belezas — internas e externas, pequenas e grandes.

Estou desconfiando de que a Humanidade é café com leite nessa brincadeira com a natureza...

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SOBRE LIVRE >> Mariana Scherma

Alguns livros nos levam para outra dimensão, pra qualquer outro lugar no mundo que conhecemos ou de outro mundo que adoraríamos conhecer e deixam a gente meio longe da realidade. E isso tem seu valor. Ôh se tem. Com Livre, de Cheryl Strayed, não foi bem assim... Ele me levou pra dentro de mim mesma, fiquei mais atenta à minha realidade, mais grata às pessoas da minha família e tive certeza de que problemas não se curam com milagres, mas com um passo de cada vez.

Eu comprei o livro e comecei a lê-lo ferozmente, queria terminar antes de ver o filme nas telonas. Quando vi o trailer com a atriz Reese Whitherspoon, sabia que se tratava dessas histórias que mexem fundo com a nossa concepção de mundo. Spoilers à parte, a história fala da experiência de Cheryl, que ao perder a mãe, perde o sentido da vida e começa a se prejudicar de várias formas, incluindo o fim de um casamento aparentemente feliz e o uso de heroína.

No fundo do poço, ela decide, sem nenhuma experiência em trilhas e pouca vivência de mundo selvagem, caminhar pela PCT, a Pacific Crest Trail, da Califórnia à divisa do Oregon com Washington. A ideia original era usar esse tempo pra colocar a cabeça no lugar e pensar nos erros cometidos. Cheryl, no entanto, usa apenas a cabeça para sobreviver,a jornada é dura, dolorida e cheia de fome. O que me marcou é que, quanto menos ela consegue pensar nos problemas, mais ela sente que os supera. A dor física é tamanha que ela se sente grata por coisas pequenas, como molhar os pés machucados em um riacho, tomar uma garrafa de água purificada ou uma limonada depois de dias e dias sonhando com esta.

Livre me fez mergulhar dentro de mim mesma, ao contrário de outros livros que fazem a gente sair da realidade. Eu, de repente, me senti grata à roupa limpa e cheirando amaciante (Cheryl fica semanas com a mesma camiseta), me senti sortuda por me jogar na cama grande e limpinha, sem ter que toda noite arrumar a barraca e, acima de tudo, me fez perceber que estar sozinha é bom, sim. Gostar da própria companhia é pra poucos. Saber que você só é suficiente pra uma temporada ou talvez uma vida é algo grande. E isso também tem um valor inestimável. Terminei de ler e sei que não volto a ser mais a mesma que começou este livro e esse é o poder mais sensacional de uma história: ela nos transforma, desde que você se permita mudanças.

P.S.: o livro tem vários trechos memoráveis, mas vou deixar esse pra vocês, que mexeu comigo: “o medo, de certa forma, nasce da história que contamos a nós mesmos, portanto escolhi contar uma história diferente da história a que as mulheres estão acostumadas. Decidi que estava segura. Que era corajosa. Que nada podia me vencer”. 


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A QUARTA-FEIRA >> Carla Dias >>


Sem pressa, ele vai arrastando a vassoura pelo chão, sem qualquer intenção de empurrar as cinzas para debaixo do tapete dessa quarta-feira.

Em um canto, jaz sua fantasia, testemunha colorida e brilhante da alegria regurgitada em feriado prolongado e samba-enredo.

Escreveu samba-enredo, certa vez, e acertou no alvo. Decretou-se que não havia nessa terra alguém capaz de compor samba-enredo mais bonito, de cadencia ideal para a história contada. Eventualmente, o decreto se apoderou da verdade, que ninguém mais emplacou tal milagre, nem mesmo ele, que assim como alguns rock stars, foi compositor de um único sucesso. Depois disso, sua vida foi tomada por interrogações e interrogatórios.

Vagarosamente, ele vai alisando o chão com a vassoura, sem qualquer intenção de empurrar os confetes para debaixo do tapete dessa quarta-feira.

Sob seus pés, as chinelas que herdou do filho mais velho, em uma inversão de doações que ele não consegue entender. Nenhum pai deveria viver algo assim, tal incapacidade de pagar pelas próprias chinelas e pelas chinelas do filho.

Foi mestre-sala de uma lindeza de porta-bandeira. Com ela viveu as dolências, malemolências, dramas e alegrias do amor. São os cinco filhos muito bem criados - ainda que com dificuldade gritante - e um barraco de cinco cômodos lá no morro - onde ele já não mora mais - comprovadores de que ele viveu o que a maioria de nós não vive: um amor verdadeiro, daquele que não usa máscara, nem mesmo no carnaval, por isso mesmo, está sempre em risco, sofre constantemente de ranhuras e ataques de afeto desmedido, pode cair em precipício em qualquer momento. Bom, ele viveu esse momento de precipício, e mesmo fantasiado de super-herói, não conseguiu resgatar o amor que lhe alimentou por décadas.

Esfalfado, ele vai conduzindo suas mágoas para debaixo do tapete com as cinzas e confetes dessa quarta-feira. Então, enfia-se na fantasia de anteontem e ontem, atualizando a sua desculpa para ser feliz. Entoa afônico seu samba-enredo que é hit único, a voz rasgando o silêncio do barracão. Ainda sabe sambar, tem ginga de mestre-sala, de amor de porta-bandeira, de pai de filhos que doam suas chinelas, de quarta-feira de cinzas de tempestade lá fora.

Durante a duração do samba enredo, seu coração se regozija de arrebatadora felicidade oriunda de homem que se vê na avenida, honrando a alegria do público presente. Os ventos balançam as paredes do barracão, enquanto a chuva interfere em sua performance, feito tamborins enlouquecidos.

Ele samba, pés ligeiros e manobras coreográficas, sorriso escancarado, como se nada pudesse detê-lo. Quando o samba acaba, restando os barulhos extravagantes da tempestade lá de fora, ele se deita no chão, no meio do barracão, cercado por carros alegóricos e fantasias, sentindo-se só como só se sente o rock star de sucesso único, destinado ao esquecimento.

Imagem © freeimages.com

carladias.com



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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

OS FILHOS DA MAROLINHA >> André Ferrer

Depois do carro, J. B. (19 anos) acha o smartphone um item indispensável para que a balada de sexta-feira seja ótima. Este ano, entretanto, viu-se diante de uma escolha difícil. Agora, ele precisa decidir entre abastecer o carro e comprar créditos para o celular.

Ao lado das roupas, S. V. (17 anos) adora tecnologia; tablets e celulares cheios de funções. Já teve cinco aparelhos telefônicos em sua vida e, para ele, tanto a presença nas redes sociais quanto a boa aparência são fatores decisivos no seu “trabalho”. S. V. iniciou a carreira de Mc em 2013. Este ano, entretanto, seus pais não param de repetir que ele precisa arrumar um emprego. Agora, o rapaz passa horas na rua porque o ambiente familiar, de fato, incomoda.

A "famosinha" M. T. (12 anos) possui mais de 2.000 seguidores numa rede social e nunca repetiu o “visu” nas fotos da sua fanpage. Este ano, ela ainda não foi às compras com a mãe porque as prestações da moto estão atrasadas. A mãe dela usa a moto para vender produtos de beleza de porta em porta. O pai de M. T. não mora com elas.

O “pequeno milagre econômico” (mais falso e sorrateiro do que o Milagre Econômico do Regime Militar) sob as asas do qual esses três jovens cresceram, ao que tudo indica, está no fim. Na verdade, toda uma geração chegou ao mundo neste período - um mundo que, lá fora, na Europa, enfrentava uma crise gigantesca. Ironicamente, J. B., S. V. e M. T. cresceram num país governado por irresponsáveis. Passaram anos fundamentais das suas vidas debaixo da eufemística declaração de que a crise inevitável era “só uma marolinha” (talvez, a mais "célebre" das declarações do presidente Lula). Enquanto a crise internacional e a corrupção interna corroíam o Brasil, jovens como estes viviam como playboys da classe emergente. Foram três mandatos, 12 anos, portanto, em que medidas populistas e pesados investimentos em marketing iludiram o povo acerca da verdadeira pressão que vinha de fora. 

Este ano, agora, entretanto...

Sem dúvida alguma, a tábua de salvação se apresentou para muitos. No meio dessa barafunda clientelista, assistimos a um aumento na procura pelo ensino técnico e superior. Bem-aventurados aqueles que conseguiram se agarrar a ela e com muita "garra" para seguir até o final.

A menos que J. B., S. V. e M. T. levem uma carreira escolar acima da média, infelizmente, a decepção será catastrófica.
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Visite o blogue do autor desta crônica: www.andreferrer.wordpress.com


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domingo, 15 de fevereiro de 2015

AQUELES CARNAVAIS >> Whisner Fraga

Até os bailes de carnaval eram uma certa novidade para mim, mais afeito às matinês do Ituiutaba Clube. Ou nem isso, já que não me adaptara aos passos complexos do samba. A meu favor, é bom esclarecer que o ritmo me agrada demais e o problema é, como já adiantei, o requebrar, o saltitar e as combinações geralmente intrincadas de passos e saracoteios. De maneira que, de um modo geral, eu ia às noites de folia para observar as moças gingando os corpos num desespero de véspera de fim-de-mundo. Então, eu me encostava no parapeito do mezanino e ficava enraizado por ali a madrugada inteira. Ia embora a pé lá pelas cinco ou seis da manhã, pensando no sem-sentido que fora a noite.

Daí que encontrei um amigo por lá. E ele levava uma garrafa intocada de Ballantine’s 12 anos. Em certo momento, de tanto secar o uísque, ele me oferece um gole. O bálsamo impregnou minhas narinas como nenhum outro cheiro até aquele dia. Eu não sabia que era possível me envolver tão profundamente com um perfume assim imponente. Tive a sorte de debutar no mundo do álcool com uma bebida de qualidade.

Depois, quando tentava alcançar o banheiro, no andar de baixo, podia ver as nuvens de cloreto de etila, os frascos vazios de Rodouro abandonados nos rodapés. Os casais deslumbrados se pegavam até o limite da decência, segundo o conceito das tradicionais famílias mineiras. O suor das meninas casadouras se mesclava ao clorofórmio e ao éter e eu sabia que o ritmo dos sambinhas transformavam qualquer tédio de interior em euforia e beatitude. Ao que tudo indicava, a vida era bela.

E eu entendia sim que a combinação era necessária para uma fuga mais elaborada daquele destino de futilidades. E, eu não sei, mas parece que a alta sociedade tinha seus odores próprios, como se adquirisse à vista a certeza da exclusividade. E era um mundo que eu acompanhava como voyeur, um universo que, mais tarde, se converteria em abadás luxuosos e champanhas a preços reservados. Mas naqueles dias ainda podia testemunhar qualquer coisa de imponente, de graça. E de repente os trenzinhos se formavam e eu queria ter coragem para me misturar aos foliões, mas sentia saudade do Ballantine’s.

Seria possível ganhar uma dose só para mim? Me arrisquei. Assim, o copo de plástico me foi entregue, pela metade. Eu queria agradecer ao amigo, mas não me recordo quem era. Tenho uma breve desconfiança, mas não quero correr o risco de ser leviano. Carnaval sempre foi o aroma do Ballantine’s. 12 anos. E o suor e as camisetas brancas grudadas aos corpos e a serpentina e o confete e o perfume azzaro eu não saberia descrever todas as nuances de tantos cheiros, mas posso atestar que, em geral, era bom. Tudo aquilo me fazia sentir em casa, embora eu não soubesse exatamente o que isso significava.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

NÃO É UM CONTO DE FADAS >> Zoraya Cesar

Marcolina queria casar. 

Também queria trocar de nome, mas os cartórios não aceitavam a tese do constrangimento causado pela junção dos nomes paternos, Marcos e Amaralina. 

Se não dava para trocar o nome, pelo menos trocasse de estado civil, pois que Deus a livrasse de ficar pra escanteio, como a madrinha, Tia Vespúcia. 

Solteirona convicta, amarga e terrível, possuidora de um buço escuro e espesso, Tia Vespúcia era a mais velha da família, e rica, muito rica. Batizou, pois, a menina, vaticinando que Marcolina, assim como ela, seria infensa à lábia dos homens, esses tentadores do demônio. E praga de madrinha, vocês sabem...

Marcolina não tinha a mínima intenção de morrer invicta ou solteirona e tentava fugir de seu destino como o Diabo da Cruz. Namorava a torto e a direito, mais a torto que a direito, pois só arranjava traste. 

O primeiro namorado era tão sovina, que sempre dividia o prato e a cerveja - mas não a conta, que ficava para ela pagar. Pouco tempo depois, Marcolina soube que ele apostava nos cavalos o dinheiro economizado às suas custas. 

O seguinte era um sem-noção. Um dia, conversando pelo celular, ela ouve, ao fundo, ruídos estranhos, como algo sólido caindo na água. Descobriu então que, enquanto trocava juras de amor, o nada romântico rapaz aproveitava para... defecar, pois era homem muito ocupado, não podia perder tempo. 

O outro não era pão-duro, não soltava puns e era rapaz família, cuidava da mãezinha – uma velha insuportável e rabugenta que tratava Marcolina com indisfarçável implicância e má vontade. E ainda sabotava o namoro. Diversos foram os finais de semana que passaram em casa trancados com a mãezinha doente. Doente de quê, não se sabe. Sentia palpitações, suores frios, meu filho, acho que vou morrer. Mas no domingo à noite estava totalmente curada.  Depois de alguns meses, o tal filho da mãezinha abraça Marcolina carinhosamente: “você fica, amor, com mamãe? Mais tarde eu compenso com beijinhos” e sai, sem a menor cerimônia, para curtir o churrasco com os amigos, deixando-a sozinha para cuidar da provecta e desagradável senhora durante todo o domingo. 

O último tinha um discurso de solidariedade ao próximo comovente, era quase um santo. Mas no dia em que Marcolina acordou com conjuntivite, teve de ir sozinha para o médico, pois o namorado não quis perder o sábado de sol. À noite ele ligou, pra saber se ela estava melhor. 

Tia Vespúcia a tudo acompanhava e dizia: Afilhada, homem não presta, melhor ficar sem casar. Marcolina desesperava-se. Ficar solteira, bigoduda e ranzinza, jamais. 

Começou a apelar para o sobrenatural. 

Colocou uma imagem de Santo Antonio de cabeça pra baixo dentro de um copo de cachaça. O Santo deve ter ficado revoltado, pois o copo caiu, o cachorro bebeu da água que passarinho não bebe e entrou em coma alcoólico. Tirou o Menino Jesus dos braços do Santo e escondeu-o. Coincidência ou não, diversos objetos foram perdidos dentro da casa, e só foram encontrados depois de Marcolina devolver o Menino. Por fim, aconselhada por uma amiga, acendeu um incenso de ervas e fumo de rolo, pra afastar os maus espíritos e atrair homens. Algo deu errado, pois do tal incenso saiu uma fumaça preta e fedorenta, que se espalhou pela área de serviço e corredor do prédio, fazendo com que uma vizinha, assustada, chamasse o Corpo de Bombeiros. Tudo o que Marcolina conseguiu atrair foi vergonha e uma bronca do síndico. 

E Tia Vespúcia mastigava a dentadura e dizia, para com isso, sua louca, melhor ficar solteira.

Mas aconteceu de um dia – sempre tem um dia, não custa repetir – aparecer na vida de Marcolina um sujeito decente. Não era, claro, um príncipe encantado, produto absolutamente em falta nas prateleiras,  mas não tinha traços evidentes de babaquices nem esquisitices, e, mais importante que tudo, casadoiro. 

Convites expedidos, lua de mel agendada, o casamento finalmente ia sair. 

No entanto, bem no meio dessa felicidade toda Tia Vespúcia resolve morrer, talvez de desgosto em ver a afilhada desconsiderar seus conselhos. Marcolina fica arrasada, realmente gostava da madrinha casquenta e verruguenta, só não queria ficar como ela (embora tivesse herdado o maldito buço escuro, que depilava religiosamente). Tia Vespúcia também gostava da afilhada, única pessoa a quem se afeiçoara na vida. 

Tanto assim, que deixou para ela toda sua considerável fortuna. Marcolina poderia viver à larga, sem trabalhar, por incontáveis anos.

Havia apenas uma condição – claro, ou você pensou que as coisas iam se resolver fáceis assim? Isso aqui não é conto de fadas não!

Para colocar as mãos, pés, o corpo naquela fortuna, Marcolina não poderia casar, amigar, concubinar, amasiar, juntar, engravidar, nem mesmo namorar por mais de um ano com a mesma pessoa. Era ficar solteira, solteirona, encalhada, celibatária, vitalina, convicta, assumida e enrustida o resto da vida.

Ora, tudo o que Marcolina sempre quis, sabemos, era trocar de nome e casar. Trocar de nome, impossível. Casar, no entanto, era uma realidade palpável e realizável. 

No dia seguinte à abertura do testamento, ela chamou os advogados e o noivo para anunciar que, dadas as circunstâncias, ela abriria mão do casamento.

Do casamento? Não seria do testamento?

Não.

Seria Marcolina para sempre, mas seria uma Marcolina rica. Ser chamada Senhorita Marcolina já não lhe soava mal aos ouvidos, agora entupidos de dinheiro. E parou de depilar o buço. 



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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

RUMINAÇÃO SOBRE O QUE TODOS SABEM
>> Carla Dias >>

Que o mundo anda menor do que nunca, já sabemos. Os links ao vivo nos telejornais, quando lá é dia e aqui é noite. Quando lá neva e aqui é aquele sol na moleira. Anda menor ao visitarmos os amigos em Paris do centro da nossa sala de estar. E se antes não conhecíamos a família toda, porque muitos são de outras cidades, agora é possível.

Não somente na comunicação a tecnologia tem nos oferecido mais do que imaginaríamos há um par de décadas. Em todos os setores ela faz a sua mágica. A medicina tem se beneficiado muito das ferramentas tecnológicas. Em todos os setores, ela faz diferença na construção de um negócio vindouro.

A grande questão é que por trás da tecnologia estão as pessoas. No caso delas, as perguntas parecem mais simples quando se busca o entendimento com sua essência. Na tecnologia, o conhecimento conduz ao resultado. Na humanidade, mergulha-se em um mar de complexidades.

As questões sobre o ser humano soam simples, mas não o são. Lembro-me de um amigo que chegava a um grupo de pessoas e perguntava para um deles “você é feliz?”. Imediatamente, todos começavam a rir, achando que ele estava fazendo algum tipo de brincadeira. A pueril pergunta, porém, ele deixava em aberto. Raramente alguém lhe respondia, e quando o faziam, era com outra pergunta: como não? Pra que isso? Ah, existe felicidade? Ah, quem não é?

Esgueirarmo-nos de perguntas desconfortáveis se tornou uma arte. Preferimos as que nos levam a defender ponto de vista, que essa é uma batalha que não se perde, já que se trata do meu e do seu ponto de vista. Desdobramo-nos para colocar nosso desafiador a par do que esse ponto de vista representa. Às vezes, nós extrapolamos, e tentamos enfiar o nosso ponto de vista goela abaixo do outro.

Já engoli muitos pontos de vista, eu confesso. Há quem seja realmente talentoso em fazer o outro se engasgar com suas veracidades. Porém, quando se concorda com o ponto de vista alheio, abandoná-lo é fácil, não dói. Quando se compreende que ao não concordarmos com o ponto de vista alheio não significa que estejamos mais certos ou mais errados que o outro, alimenta-se o respeito mútuo.

Mas voltando à tecnologia, e aos benefícios que ela nos oferece, porque nunca foi tão fácil nos conectarmos a outro ser humano, apresentar ao mundo nossas ideias e projetos, descobrir o mundo por meio de ideias e projetos de outras pessoas.

O que a tecnologia não consegue nos ensinar é que ela, por si só, não muda o que seja. O material humano se mantém essencial. A escola ainda é o cenário das nossas descobertas, seja com computadores ou lousa verde.

Outro dia, conversando com uma menina que considero inteligente e que tem facilidade em compreender assuntos complexos, ela me contou que fizera prova no dia anterior. Eu perguntei de qual matéria, e ela respondeu que não sabia se de Língua Portuguesa ou Filosofia. “Como assim?” foi a minha pergunta, e somente depois de tantas outras, percebi que ela analisara um texto e respondera algumas questões a respeito dele. Ela não teve de redigir as respostas, apenas assinalar as questões que julgava corretas. No final da conversa, nem ela, tampouco eu sabíamos, dizer prova de qual matéria ela tinha feito.

A tecnologia faz parte da nossa realidade. Porém, não se permita enganar, porque há muitas pessoas que sequer ouviram falar sobre água encanada, tampouco sobre e-mail, redes, sociais e aplicativos.

Conhecimento adquirido envolve mais, muito mais do que ler as mensagens ofensivas espalhadas pela internet, e ainda colaborar com a disseminação delas. Às vezes, melhor é dar um passo para trás, o que nos permite observar com critério o que realmente importa. E uma dessas importâncias é que a tecnologia é realmente uma ferramenta poderosa, que depende da nossa sensibilidade e real conhecimento para funcionar em nosso benefício. Porém, ela é somente uma ferramenta. As pessoas são as responsáveis pelos resultados oriundos de sua utilização.

Fiquei pensando no tipo de educação que, em minha opinião, seria adequado para tempos de tecnologia impregnando nossa realidade. Professores qualificados, sendo remunerados adequadamente, comprometidos com alunos que conduzirão seus estudos tendo o mundo na sala de casa. Como escutei dizer por aí, nada reconhecer uma pessoa pelo seu ofício para inspirar outra pessoa a seguir o mesmo caminho, ainda que o mundo, na sua sagacidade, mude a cada instante. Ainda que nós, humanos que somos, mudemos a cada experiência.



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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

MARCELA, CUIDADO!! >> Clara Braga

“Atenção, hipocondríacos: Google lança busca simplificada sobre doenças.” Essa é a chamada da matéria de um jornal que eu estava lendo hoje. Na falta de uma exclamação ou de três pontinhos ao final da frase, não entendi se a notícia era boa ou ruim, mas pelo visto vou ter um tempo para refletir sobre, já que a notícia só vale para os EUA, ainda não chegou no google brasil.

Confesso que a chamada me intrigou, o que seria uma busca simplificada sobre doenças? Laudos médicos via google? Você coloca os sintomas e ele te diz o que você tem. Ou então o contrário, você pesquisa o que acha que tem, o google te da os sintomas e você chega a conclusão se é isso mesmo ou não? Pelo que eu li está mais para a segunda opção, e ainda assim não consigo ter uma opinião sobre se isso é interessante ou não.

Me lembro do caso de uma amiga, que um dia veio falar comigo super preocupada pois sua filha de dois anos tinha tomado um iogurte que estava vencido há dois dias. Achando que o fato dela estar quase chorando era sacanagem, eu ri. Mas em minha defesa, eu não sou mãe, não sei o que é se preocupar com a alimentação cotidiana de qualquer outro ser humano que não seja eu mesma. E também sei que datas de validade tem margem de erro, então dois dias não significava que o iogurte estava de fato vencido, no máximo significava que ele estava em processo de vencimento. Mas também não sei se margens de erro valem para crianças, que devem ter o estômago mais fraco, ou não?

Já deu para perceber que no quesito criança eu não sou nada expert, certo? Mas espero não ser tão desesperada quanto a minha amiga quando eu tiver filhos. Como ela achou que eu não era uma boa fonte de informação sobre o que poderia acontecer com a filha dela, que eu acho que na pior das hipóteses iria um pouco mais de uma vez ao banheiro naquele dia, ela decidiu perguntar ao google!!!!!

Sim, a quantidade de exclamações é para enfatizar o meu choque quando vi minha amiga chorando na frente do computador lendo sobre pessoas que morreram ou ficaram não sei quanto tempo em coma após comer um iogurte estragado. Na verdade não fiquei em choque, eu ri de novo, mas preferi falar que fiquei em choque para ninguém achar que eu não tenho coração. Mas até que nesse caso a risada foi conveniente, distraiu minha amiga e fez ela pensar que talvez, só talvez, ela estivesse exagerando um pouco.

A menina, claro, nem se quer passou mal e nunca nem vai saber que tomou um iogurte estragado, a não ser que um dia leia essa crônica. Mas a mãe, ah, essa ainda vai sofrer muito fazendo pesquisas atrás de laudos! Então, google, eu peço que tomem cuidado com as informações que vão colocar nessas pesquisas, pelo bem da minha amiga, já que, graças a Deus, minha avó não sabe usar o computador. Procurem a ajuda de médicos sérios para definirem as melhores informações, e sempre lembrem as pessoas da importância de procurar um especialista, mas não enfatizem muito essa parte pois a Marcela já liga para a pediatra da filha dela de 5 em 5 minutos. Inclusive, chegou a ligar de números desconhecidos, as vezes, quando ligava do dela, a mulher não atendia… também ri muito depois que soube dessa informação… será por quê? 


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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

VADE RETRO I >> Albir José Inácio da Silva

Era uma reunião comum na sala grande da fazenda, família numerosa, fazendeiro bravo, filhas virgens protegidas por winchesters e um único filho, obviamente destinado a desfrutar das filhas dos vizinhos que desavisadamente diminuíssem a vigilância.

Seu Rufino repetia, no seu jeito calmo, batendo os dedos na mesa pra marcar as pausas:

- Nesta família, o que não for mulher, é macho. Ou então defunto!

Podia ser uma reunião tranqüila, mas o tema desafinava: Genildo, o filho adolescente, sabe-se lá por quê, não vinha cumprindo com o que dele era esperado pelo pai, pela família e até pelas filhas dos desavisados.

O menino cresceu em meio às assombrações e aos sustos que lhe podiam inculcar. Mas no momento certo foi desacreditando de Papai Noel e demais bobagens da infância. Só ficou um: o medo da danação eterna por causa dos pecados da carne. Não conseguia se livrar dos maus pensamentos nem das mãos pecaminosas. Sofria com as admoestações do Padre Antônio e se aferrava ao bom comportamento e às coisas religiosas.

Culpa do padre, pensava o fazendeiro. Sufocou o menino com essa coisa toda de pecado, de não pode isso e não pode aquilo, que ele perdeu as forças diante de tanta proibição. A igreja só sabe amedrontar, mas não tem solução pra essa força irresistível que pode conduzir às profundezas do inferno. Como sempre, a santa madre igreja arrocha o fiel com ameaças de castigo e fogo eterno, mas ele não pode aguentar e segue pecando, e se multiplicando, e se culpando. Mesmo que não vá para o inferno, vive na terra o inferno de carregar culpas e medos de perdição por causa do que não pode evitar. E sempre vai ficar a dúvida: o padre, como é que resiste, se é que resiste, a essa tentação que não vem de fora, está dentro do corpo, como uma bomba pronta para destruir a pobre criatura?

Seu Rufino lidava bem com cavalo xucro, touro assassino, peão abusado e até onça, mas desses assuntos se esquivava, principalmente quando envolvia seu único filho macho. Por isso chamou o padre que, além do dever paroquial, tinha obrigação de ajudar a resolver o problema, já que ajudou a criar. E também porque sabia pedir dinheiro sem a menor cerimônia.

Mas o padre estava de má vontade, não concordava com o rumo que a reunião ia tomando. Pra começar, convocaram um tal de Tio Genésio, com fama de libertino e conhecedor de antros pecaminosos dali até Belo Horizonte, e poderia ajudar a destravar o menino e afastar eventual risco de ele amaricar. E, pra piorar, o reverendo estava sendo responsabilizado pela muita santidade que o menino apresentava.

E Tio Génésio disse logo a que veio:

- Este menino precisa é de rapariga! Fica agarrado em saias de tias e padres, - nada contra o senhor, viu, seu padre! -  enquanto os outros moleques estão lá, no bem-bom, desfrutando a safadagem.

(Continua em 15 dias)


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sábado, 7 de fevereiro de 2015

O VELHO E O SULTÃO >> Sergio Geia

Todos os dias eu o vejo. Velho, cabeça baixa, magro como um doente, a cara tomada de barba. Carrega uma bolsa na mão, às vezes no ombro. Não sei o que tem nela. Talvez alimentos. Blusa. Bugigangas. Uma vez vi que sacou uma garrafa d’água. Bebeu. Depois jogou a água na boca do vira-lata.

Tem o costume de sentar-se no banco e pôr seu companheiro no colo. Fica ali. Acarinhando. Olhando o nada. Desconectado de tudo. Das pessoas que passam. Dos carros. Do mundo que pulsa. Mas outro dia vi que não era bem assim. O gorjeio de um bem-te-vi. Logo vi. O bem-te-vi. Ele procurava. Olhava as copas, os galhos, punha a mão na orelha para apurar o som. Depois sorria e voltava para o seu mundo.

Às vezes, andando mesmo, ele colocava a bolsa no ombro e nos braços, o cão. O bicho pesado, bem-alimentado, um carregar com dificuldades. Não sei por que aquilo. A coleira estava lá, enrolada no pescoço. Mas não. Ele pegava o cachorro, tirava-o do chão, e levava-o nos braços. Ia andando, às vezes acarinhando. Há um amor diferente ali, quantas vezes eu pensei. Talvez tenha escolhido o cão para dar cabo da solidão. Um drible que seja. Já tá bom.

Mas outro dia não resisti e puxei conversa. Estava com alguns jornais na mão, sentei ao seu lado, arrisquei um assunto. De repente, com aquela cara sofrida, aquela preguiça contagiosa, ele começou a falar.

Disse-me que era aposentado, que morava sozinho, e que, pra aumentar a renda, saía pela rua à cata de latinhas. Não era casado, não teve filhos, não tinha família. Apenas o Sultão. Logo percebi que seu assunto preferido era falar sobre a Companhia Taubaté Industrial, uma antiga fábrica de tecidos, a primeira grande indústria de Taubaté.

Ele me disse que tinha trabalhado em diversos setores da fábrica, na fiação, no alvejamento, e que viu de perto morins e cretones. “Sabes o que é um cretone?”, me perguntou. “Um tecido”, eu disse, meio inseguro. “Não qualquer tecido, meu jovem rapaz. Mas um tecido especial, encorpado, feito de algodão, muito usado para fabricação de colchas e cortinas. Paul Creton. Um francês. Taí a origem da palavra”.

Enquanto ele falava sobre tecidos, Sultão parecia prestar atenção. Já devia ter ouvido aquela história milhões de vezes. De vez em quando levantava as orelhas, mexia os olhos. Sultão falava com os olhos.

“A principal diferença entre o morim e o cretone é a urdidura. O cretone tem urdidura de cânhamo. Já o morim, ah!, o morim, é uma bela de uma porcaria, um tecidinho, isso sim. Estou brincando... O morim é um pano mais leve, fino, muito usado na fabricação de chitas. Sabes o que é uma chita?”. Ante o meu breve silêncio, ele não perdoou: “Pois se vê, meu jovem, que és um absoluto ignorante em matéria de tecidos”. Respondi: “Todos nós somos, meu amigo, porém, em assuntos diferentes”. Ele ficou em silêncio. Sultão levantou as orelhas. Um pequeno suspense. “Tens razão. Tens razão”. E continuou: “A chita é um tecido de algodão, de cores fortes, geralmente florais. Os europeus a trouxeram em 1800...”.

Dei-lhe um exemplar do jornal. Ele olhou desconfiado a minha coluna. Depois se levantou, chamou o Sultão e pôs-se a andar. Sem se despedir.  


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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

NATUREZA VIVA >> Paulo Meireles Barguil



Natureza viva

Valsa

Desvira

Viça

Natureza, viva...

Lira

Desfira

Lança

Natureza, viva!

Diva

Delira

Dança

[Passeio ao crepúsculo - 1889/1890. Vincent Van Gogh - 1853-1890]

[Foto de minha autoria. Janeiro/2015]


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Bem-vindo a um dia de TPM

Ai-meu-Deus, como eu tô inchada. Não, é gordura mesmo, quem mandou comer tanto chocolate em um dia só. Agora, o próximo passo é ficar com a pele oleosa e com espinha. Na verdade, acho que estou sentindo uma nascer agora mesmo aqui no queixo. Já que é assim vou comer mais um bombom, está tão gostoso. Amanhã eu compenso tudo na academia e como só salada. Tudo volta ao normal.

Não, não voltei ao normal. O inchaço dobrou. Vou nadar. Não vou comer nada gordo hoje. Nadei demais, que cansaço. Como vou arrumar energia pra trabalhar? Vou no automático, vamos ver o que acontece. Aquele dia em que você não acha graça em nada, não sente o sabor de nada. Se eu tivesse direito a um dia de saco cheio no mês, seria hoje. Tiraria o dia pra ficar em casa, fazendo nada.

Ai, e esse cachorro abandonado, coitadinho. Com esse calor, deve estar morrendo de sede. Olhos marejados só de ver o cachorro. Olhos marejados por ver a situação da seca. Ódio mortal de quem gasta água sem pensar no futuro (quer dizer, presente). Ódio mortal de todos os ex que me deixaram esperando. Olhos marejados e ódio mortal deles e por eles. Por que, de repente, ex-amores de tanto tempo pipocam na minha memória? Mas eu já não tinha superado, caramba?

Vou parar de perder tempo com redes sociais. Meu trabalho da pós está atrasado. Eu fico fazendo essa chatice de trabalho acadêmico, lendo livro acadêmico e não leio mais por prazer. Falta muito pra acabar esse trabalho? Falta! O que eu fiz da minha vida? Era isso mesmo que eu esperava de mim aos 15 anos? Acho que não. Eu sempre quero mais. Mas já viajei bastante, sou independente... Mas falta tanto pra conhecer do mundo ainda. Eu só espero não ter decepcionado a Mariana dos  14, 15 anos. Ela era mais sonhadora. Essa de agora é prática. Mas a culpa é da vida. Ou será que a culpa é minha? Ai, o que eu fiz da minha vida?

O médico maldito desmarcou a consulta! As pessoas não respeitam mais a agenda de ninguém. Eu precisava ir ao médico hoje. Vou aproveitar pra nadar um pouco mais, então – mas continuo com raiva do médico. Foi bom ter nadado mais. Me sinto mais feliz. Mas continuo triste pelos cachorros abandonados, pelos amores que mal chegaram a ser amores, pelo médico que desmarcou, pelo excesso de chocolate nesse corpinho. Eu tô com saudade dos meus pais. Será que eu gosto de morar longe assim? Mas morar junto também não era tão incrível mais. Não acredito que pensei nisso! Coitados, eles me amam, eu os amo, como posso pensar isso?


Hoje eu tô confusa. Mas amanhã já vou ser outra pessoa. Mulher é complicada. Mulher tem TPM. Ninguém merece TPM. Quer dizer, meus ex merecem. E muita cólica pra parar de falar que é frescura. Amanhã. Chega logo, amanhã. Chegou. Nossa, ontem eu estava fresca. Era a TPM.


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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

QUE HAJA SEMPRE PALAVRA LEMBRADA NO SEU QUINTAL >> Carla Dias >>

O Purgatório, Canto I, O Anjo Caído © Salvador Dalí

Tem aquela palavra da qual se esqueceu, e o esquecimento atormenta a pessoa até a madrugada. Vez e outra, durante dias inteiros. A atormentação dá-se de maneira ilibada, que não há quem doe palavra que caiba precisamente nessa necessidade de se lembrar da esquecida.

Às vezes, a cabeça gira, apinhada de pensamentos tantos. Não há meditação ou chá calmante que sossegue esse burburinho interior. E em meio a isso tudo, aquele vazio prevalece, feito lugar certo à espera do encaixe da palavra que lhe cabe. A palavra cara-metade, que provisoriamente está de caso com o esquecimento.

Já esqueceu fogo de fogão ligado, de encontro marcado com antecedência, do ascendente e de onde descende. Até de tomar café da manhã, almoçar e jantar, de responder e-mail, pergunta e desaforo. Houve quando se esqueceu – mas desta vez de propósito – de receber ofensa travestida de elogio. Luz acesa, etiqueta na roupa, pagar visita.

Porém, nenhum esquecimento lhe confunde e destrata feito o da palavra, que ainda que seja simples, de significado pueril, desconstrói a história toda, como se no causo passasse a faltar tema, ou telha na casa, muro de arrimo, lua no céu, gentileza no mundo.

Na falta da palavra, o tempo passa caudaloso. São longas as pausas nas ações, assim como nas conversas. Quem o vê parado no meio do caminho, segurando documentos urgentíssimos, acha que ele é um sátiro, um ousado malabarista das tarefas rotineiras. E que não irá durar muito na empresa, portanto, melhor ficar atento à futura vaga que será aberta. Vai que rende promoção.

Ainda que dedicado, o dicionário de livro de cabeceira, a solução receitada pelo neurologista, leite morno com mel, chega ali, naquele espaço em branco na sua mente, a vida se torna desoladora. Ele não consegue dar continuidade, como filme cancelado, antes de ser produzido, porque o desaparecimento do roteirista impediu a sua conclusão. Neste caso, o insubstituível se aplica.

O dia em que as palavras lhe fugirem aos pares, aos quintetos, às orquestras, será que ele se sentirá feito quebra-cabeça de peça perdida? Ou se reinventará com novas versões de suas verdades, talvez mais simples, planas. Talvez adira ao endoidecimento dos menestréis, à afetividade dos que têm suas histórias reescritas, ganhando autobiografia não autorizada.

Disseram a ele que o cérebro é um país independente, de influência determinante para o funcionamento do quintal que é o corpo. Ele achou extremamente bonito o dito, anotou em um papel e fixou com imã, na geladeira. Com o passar dos dias, a leitura diária de tal declaração, percebeu que também era triste o dito, e de tristeza profunda. Não é dado à melancolia, tampouco alimenta apreço pelas tragédias. Mas o que será do quintal desse país no dia em que seu presidente se esquecer de cuidá-lo?

Respira fundo, amarra os sapatos, confere se os cabelos estão bem penteados, arruma a gola do terno. A saudade por aquela palavra o consome, mas ainda há esperança de ele relembrá-la. Até lá, é lidar da maneira mais delicada possível com o vazio. E torcer para que seu país esteja sempre de portas abertas para ela, a palavra esquecida, de importância indelével.

Que ela seja sempre bem-vinda.


Imagem: O Purgatório, Canto I, O Anjo Caído © Salvador Dalí, inspirado na obra a Divina Comédia, de Dante Alighieri .

carladias.com

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

VOU ALI E JÁ VOLTO >> Clara Braga

Esses dias estava lendo uma matéria de um desses blogueiros que tem fama de não terem muita paciência e fazem críticas e reclamações em vídeos que são postados em seus blogs. O tal blogueiro recebeu um desafio: ficar uma semana sem reclamar! Se isso já é difícil para quem tem paciência, imagina para quem não tem.

Na matéria ele relata a dificuldade e as conclusões que acabou tendo, sendo uma delas a percepção de que reclamar é algo que vira costume, e de tanto fazer, ele percebia que muitas vezes reclamava por antecipação de uma situação que nem chegava a acontecer. Acabou percebendo quanto tempo já passou reclamando de coisas que não eram necessárias e relata que acabou se sentindo meio ridículo em algumas situações.

Logo depois de ler essa matéria, continuei dando uma olhada em outras notícias e vi pessoas reclamando muito de um vídeo feito por dois norte americanos que, de maneira cômica, criticavam algumas atitudes de brasileiros quando visitam os parques de Orlando. No vídeo eles adotam uma postura bem caricata para dizer que brasileiros furam filas, são muito barulhentos, só usam roupas chamativas e vão para os Estados Unidos sem saber falar inglês. Alguns brasileiros que estavam no parque enquanto o vídeo era produzido aparecem cantando: “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. De fato, algumas das criticas nem chegam a fazer muito sentido, mas confesso que não consegui me sentir ofendida com o vídeo, achei que tudo não passou de uma tentativa de uma brincadeira de duas pessoas que, no final, nem conseguiram ser tão engraçadas quanto pretendiam. Mas uma coisa que ainda me chama a atenção é o fato de ouvirmos tanto a tal da música do orgulho de ser brasileiro quando estamos no exterior, e ouvirmos tanto a frase: isso só acontece no brasil, se fosse nos EUA não aconteceria, quando estamos em solos brasileiros.

Enfim, segui com o meu momento de notícias e me deparei com mais pessoas reclamando e criticando os pais da pequena menina fitness que vai para a academia fazer exercícios lúdicos de coordenação motora acompanhada da mãe e do pai que, pasmem, é formado em educação física, trabalha como personal e tem plena consciência do que está fazendo. Sim, alguns vão dizer, mas o problema não é a menina ter 9 anos e gostar de academia, (o que eu concordo que é caso de pesquisa científica, pra mim não existe coisa mais monótona do que academia, mas se a menina gosta, quem sou eu para criticar?) o problema é a exposição exagerada da imagem dessa criança de apenas 9 anos que está perdendo sua infância preocupada em ganhar likes no facebook. E não estamos todos? Posso estar errada, mas tenho quase certeza que o índice de pessoas na fase adulta com depressão aumentou mais do que o índice de depressão em pessoas com menos de 10 anos de idade, seria isso apenas coincidência?

Acho que estamos todos precisando tirar uns dias para não reclamar, inclusive vi que muitos seguidores do blog adotaram essa prática. Podíamos expandir a ideia e aproveitar o silêncio das reclamações para sermos mais auto críticos, toda vez que tivermos vontade de criticar alguém, vamos fazer uma crítica para nós mesmo. Inclusive, vocês me dão licença, depois dessa crônica eu vou bem ali refletir um pouco. 



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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A CRISE DA ÁGUA E A OSTENTAÇÃO DA BURRICE >> André Ferrer

Jack Nicholson e Faye Dunaway numa cena de "Chinatown" (EUA, 1974)
Superpopulosa, a cidade de Los Angeles cruza a maior crise hídrica da sua história. Ainda na metade do século passado, a administração pública submetia a população a frequentes racionamentos porque o abastecimento de água tornava-se, a cada ano, insuficiente. Então, o prefeito imaginou uma solução: a água poderia chegar à cidade vinda do Owens Valley. O problema era que um aqueduto só seria construído à custa de muito conflito entre políticos, agricultores e ambientalistas.

O parágrafo acima é atual ou está mais para um argumento de filme apocalíptico ambientado num futuro próximo? Embora o texto se encaixe perfeitamente nas duas classificações, trata-se de um enredo que, além de verídico, é bastante antigo.

As chamadas “Guerras da Água na Califórnia” tiveram início no final do século XIX e não terminaram em 1913 quando o tal aqueduto entre Owens Valley e Los Angeles foi inaugurado. Ainda na década de 1920, os agricultores de Owens Valley tentaram destruir o aqueduto que já exauria as reservas do lugar. As “Guerras da Água”, como é de se imaginar, também abriram espaço, no meio político, para a corrupção e a especulação. Em 1926, conforme muitos técnicos advertiam, o Lago Owens ficou completamente seco. Isto levou à busca de uma série de soluções paliativas e bastante nocivas para a natureza ao longo de todo o século XX. Atualmente, grande parte da água que abastece Los Angeles ainda vem da bacia de Owens, contudo a captação é subterrânea.

Sem dúvida, foi a crise hídrica paulistana que me levou a ler alguns artigos a respeito de como, em determinadas regiões bastante secas dos EUA, principalmente no Sul da Califórnia, recalcitrantes crises de água são enfrentadas desde a virada do século XIX para o XX até aqui. As diversas teorias conspiratórias na imprensa e nas redes sociais também serviram de motivação. Porém, o que mais me atraia enquanto me aprofundava no assunto era um grande filme rodado em Hollywood em 1974.

É sempre emocionante constatar como uma grande nação e, consequentemente, uma “grande cultura” plasmam as suas questões na arte que inventam. O filme a que me refiro foi selecionado pela Biblioteca do Congresso Americano e agora é preservado no “National Film Registry” por figurar entre as obras cinematográficas "culturalmente, historicamente ou esteticamente significantes" para a nação. Decerto, um país está doente quando uma das formas de se debruçar sobre os próprios problemas, a arte, é pobre, descartável, vazia de sentido ou só consegue reproduzir o pensamento na sua forma mais superficial. (Alguém aí conhece um país assim?!)

Curiosamente, a crise hídrica de Los Angeles é a premissa de “Chinatown”, filme do diretor Roman Polanski e do roteirista Robert Towne (a obra tem um Oscar justamente de Roteiro Original). Na trama, Jack Nicholson arrebenta na pele de um clássico detetive “noir”, J. J. Gittes, que se enrosca todo num caso de traição, corrupção e morte em plenas “Guerras da Água na Califórnia”. Vale a pena se divertir com a trama policiesca, vendo ou revendo Chinatown, e descobrir como, de fato, não há nada de novo debaixo do sol. Principalmente, vale a pena constatar o processo utilizado por uma nação que se avalia e que reflete com seriedade mediante a arte cinematográfica.

Uma pátria verdadeiramente “educadora” ressuma o pensamento do seu povo a respeito das grandes questões nacionais. Cada poro está envolvido. Temas importantes, assim, aparecem e enriquecem até mesmo o entretenimento supostamente banal. A reflexão, nestes casos, exterioriza-se nos aspectos mais simples da comunidade quando há, por exemplo, um interesse profundo por um tema como a política - evidentemente, um interesse que vai além do clientelismo e nada tem a ver com uma esperança doentia na troca de favores. O engajamento requer educação, estudo, leitura, reflexão; caso contrário, dá origem a certas aberrações disfarçadas de “vozes autênticas” tal como acontece, aqui no Brasil, com produtos culturais que vão do “favela movie” (modinha de filmes sobre a vida nas favelas), passando pela “música” (?!), rap, funk, até programas de TV como o Esquenta.

Enquanto as grandes questões passam ao largo do “pensamento”, nossos “mcs” (decerto, a mais nova “espécie” de formadores de opinião no Brasil) vivem preocupados com a própria ascensão financeira. Eles cantam a grana, ostentam o consumo que “agora” podem praticar, exibem o sexo pelo qual “agora” conseguem pagar. “Ídolos” que, infelizmente, fazem a “cabecinha” dos brasileiros. A nossa completa ruína no enfrentamento de futuras crises nacionais.

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domingo, 1 de fevereiro de 2015

FLASHBACK >> Whisner Fraga

Há um ditado que diz que “reviver o passado é sofrer duas vezes”. Quem criou esse clichê devia estar com uma insanável dor-de-cotovelo. Porque há várias situações em que rememorar o passado pode ser muito divertido. Nem vou falar da aprendizagem, porque a crônica não é pedagógica, mas existe esse fator aí também, que é considerado, por alguns, algo positivo. Sabemos que o tempo que já se foi pode se tornar um negócio complicado, dependendo da situação, só que não quero ser tão pessimista assim.

Toda vez que viajo para ver minha família, no Triângulo Mineiro, quando nos reunimos para o churrasco, o que mais fazemos é nos lembrar do passado. E contamos uma mesma história mais uma vez. Por “mesma história”, entendam que ela não muda com o passar dos anos e que todos a conhecem de cor. Só que o egocentrismo, a cerveja e o ambiente deixam os causos mais interessantes a cada visita. Uma dessas fábulas não pode ficar jamais de fora e sempre me agrada particularmente, de forma que vou relatá-la a seguir.

Estudávamos todos no período da manhã, eu e meus três irmãos. A vida não era fácil, mesmo sendo pré-adolescentes, sem responsabilidades a não ser tirar boas notas e com todas as refeições garantidas, dia após dia. Não era fácil porque tínhamos de 9 a 17 anos, os três homens. Minha irmã não faz parte dessa conta. Por ser a única filha do lar, tinha a vida mais tranquila. Não era fácil porque minha mãe era muito rígida e nos impunha horários para tudo. Daí que podíamos curtir a noite, frequentar baladas, desde que estivéssemos em casa até, no máximo, meia-noite.

Descíamos para a rua vinte e seis, eu e Joãozinho, e lá ficávamos, de pé mesmo, olhando as meninas desfilarem na calçada. Às vezes íamos ao calçadão tomar sorvete, dependendo da boa-vontade de meu pai, que normalmente não liberava uns trocados para tanto. Nosso programa era muito barato: o custo de uma lavada de camisa e de uns milímetros de solado de sapato. Saíamos sexta, sábado e domingo e não nos enjoávamos. A partir das onze e trinta, o movimento rareava, pois os mais abonados iam para a boate. Acho que minha ojeriza por casas noturnas começou nessa época.

O fato é que era domingo, eu tinha 15 anos e meu irmão mais novo 9, e todos devíamos acordar às seis da matina, para preparar o café e tocarmos para o colégio, tendo feito a lição ou não, tendo estudado para a prova ou não. Era o jogo. Eu era até responsável, CDF e regressara às vinte e três horas. Onze da noite, como diziam. Em casa, ainda não estava com sono e minha cabeça vazia era não uma oficina, mas uma indústria do diabo. Fui ao quarto em que dormíamos os três, o caçula já estava no terceiro sono, raptei sorrateiramente o despertador, ajustei para tocar dali a quinze minutos e o devolvi na cabeceira da cama do meu irmão mais novo.

E fiquei esperando o resultado. Dali a pouco eu só testemunhava o menino reclamando, chateado, que a noite tinha sido curta. Como a noite é sempre curta para tanto sonho e a de domingo parece mais breve ainda, não havia novidade. Vestiu o uniforme, calçou os sapatos e rumou para o banheiro. No caminho, trombou comigo. Assustado, comentou que devia estar muito atrasado, porque minha cara aparentava uma vivacidade surpreendente e eu já estava vestido. Aí não aguentei e desatei a rir. Ele, sem compreender, correu para lavar o rosto e eu continuei a me divertir por alguns minutos. Depois, notei que não adiantava muito tentar explicar o ocorrido e fui para a cama. Mais cedo ou mais tarde ele ia entender tudo.

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