sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

CAÇADAS NOITE ADENTRO >> Zoraya Cesar

Tudo o que ela precisava eram o sangue e um chumaço dos cabelos de mais um, o sétimo, para que seu mentor completasse o ritual de magia negra que o fortaleceria indizivelmente. E traria a ela grandes recompensas.

O ritual exigia que os homens entregassem o material voluntariamente, em troca de sexo, e ela não encontrava grandes dificuldades para conseguir isso. Os caras cediam a qualquer pedido esdrúxulo – até a lhe dar sangue e cabelos – por sexo grátis ou pervertido.

Grátis? Ela gargalhou. Idiotas! Alguém pagou caríssimo por esse sangue, pagou com a própria vida, e aqueles otários entregavam, de bandeja, sua Energia Vital sagrada por uma noitada de sexo e às vezes drogas. 

As pessoas estavam caindo cada vez mais facilmente na lábia dos Desgraçados e Caídos.

Não tinham ideia de que isso custava a perda da conexão com seus  Anjos da Guarda, com a Centelha Divina, sua própria vontade e livre arbítrio. E se tornavam presas cada vez mais dóceis aos encantos promíscuos de sexo, bebida, drogas, ganância, autodestruição, numa espiral descendente infinita. Acabavam por perder sua Alma, sem ter a mínima noção do que estava acontecendo.

E era exatamente o que seu mentor – e outros, havia muitos outros que trabalhavam nos subterrâneos da Magia Negra – queria.

Ela se arrepiou de medo ao pensar nele. Não podia falhar ou o castigo seria terrível.

Olhou-se no espelho. Estava linda. Estava linda e jovem há muito tempo, e assim pretendia ficar por incontáveis anos ainda; tudo o que precisava fazer era obedecer ao mentor, cumprindo fiel e corretamente suas missões. Ao contrário de muitos, que se perdiam sem perceber, ela fizera uma escolha consciente.

Partiu para a noite.

O inferno era o limite.

Boate lotada, música bate-estaca em altíssimos decibéis, luzes piscando intermitentemente, bebida a rodo.  A multidão pulava feito macacos enjaulados à guisa de estarem dançando, numa espécie de transe hipnótico coletivo.

Sozinho, encostado no bar, um homem jovem, cabelos presos num rabo de cavalo totalmente fora de moda, percorria com os olhos a pista e as mesas, parecendo esperançoso e um pouco desalentado. Não conseguiu arranjar ninguém ou levou um toco, concluiu ela, esse vai ser mole.

Aproximou-se, manemoleando o corpo, sinuosa e insinuante, e partiu logo para o ataque, beijando-o na boca. Sentindo o corpo dele estremecer e corresponder ao beijo, resolveu arriscar: convidou-o para saírem dali, ficarem juntos, divertirem-se só os dois, em qualquer lugar mais discreto, ela queria propor umas brincadeiras diferentes, que tal?

O cara aceitou de pronto, entusiasmado, dizendo conhecer o lugar perfeito, onde não seriam perturbados. Ela sorriu, o sétimo estava a caminho. Andaram pela noite já alta, até chegarem a uma propriedade de muros altos e brancos, totalmente às escuras. Pode ser aqui?, perguntou ele, os olhos brilhando.

Excitada com a perspectiva de tão rapidamente cumprir sua missão, ela nem questionou que terreno seria aquele, nem por que o grande portão de ferro não estava trancado àquela hora. Tinha pressa, queria terminar logo e voltar para seu mentor, receber sua recompensa.

Entraram. À medida em que caminhavam, a mulher foi se sentindo estranhamente fraca. Alguma coisa errada havia naquele lugar. Ia falar para irem embora dali quando percebeu, horrorizada, que estava em um cemitério dentro do terreno de uma Igreja. Alerta, agora, vislumbrou a torre do templo e as cruzes no chão. Caíra numa armadilha. Como?

- Sua voduzentinha infeliz, você entrou em solo sagrado por vontade própria, não te ensinaram o básico não? – e, tirando um pequeno frasco do bolso, o homem jogou-lhe algo no rosto.

Ela berrou, a água benta descascando dolorosamente sua podridão, mas ninguém ouviu, nem mesmo as almas perdidas, que ali não as havia. 

O sujeito murmurava orações de esconjuro ancestrais em língua crioula. A mulher caiu ao chão, retorcendo-se em agonia e medo. Sabia que o fracasso lhe custaria caro, mas tinha de avisar ao seu mentor sobre esse estranho, que não só reconhecera o que ela era, como também parecia ter profundos conhecimentos de santería e outras práticas mágicas. Ele daria um jeito naquele homem que ousara desafiá-lo. Talvez essa informação valesse um castigo menor.

Reunindo forças, levantou-se de um salto, mordeu profundamente o braço do homem e correu para a saída. Ele gritou de dor, interrompendo momentaneamente seus conjuros.

Cuspiu na ferida, amenizando os efeitos do veneno, e foi atrás da mulher, desesperado, não podia deixá-la chegar ao portão, se tentasse sair sem permissão os Guardiões a desencarnariam. E ele tinha de descobrir quem era o feiticeiro vodu que chegara à cidade, instaurando o terror, e pior, fazendo discípulos. Qual a sua linha? Suas intenções? Onde encontrá-lo?

Tarde demais. Não restava muito da mulher que não a pele totalmente envelhecida e engelhada, os ossos se descarnando rapidamente, o preço pago por aqueles que se envolvem com magia negra a serviço do Mal.

Ajoelhou-se, rezou e ligou para o Grupo:

- Venham me resgatar aqui na Igreja **, tô ferido e envenenado. Avisa ao Padre Tércio que tem um resto de espírito pra ser exorcizado e..., é, não consegui as informações e a criatura desencarnou.

Desligou e esperou, frustrado, mas resignado.

Quem combate o Bom Combate sabe que perder e ganhar são ilusões, pois a batalha jamis termina. As legiões do Mal crescem a cada dia, mas as forças do Bem não estão inertes e há muita gente de valor lutando em suas Hostes.

Lucrécio Lucas combatia o Mal. Sua luta não tinha tréguas, mas ele não estava só.

Outras aventuras de Lucrécio Lucas






Partilhar

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

BEM-VINDOS À SELVA DA MÚSICA CLÁSSICA!
>> Carla Dias >>


Eu não sou conhecedora do universo da música clássica. Nunca conversei com um maestro como já conversei com muitos artistas, querendo saber como, quando... Por quê?

A questão é que eu adoro música. Em todas as áreas da minha vida ela está presente. Sendo assim, acabo lendo livros a respeito, assistindo a filmes nos quais ela também é personagem, e até séries de tevê, como o caso de Nashville, que relutei em conferir, mas ainda bem que o fiz, porque é uma ótima série sobre o cenário da música country.

Em dezembro de 2014, estreou mais uma série com músicos como tema. Ou seria a música? Na verdade, isso não importa, porque em terreno da arte os artistas se misturam às suas obras.

Baseada no livro homônimo da oboísta Blair Tindall, Mozart in the Jungle aborda os bastidores das orquestras e principalmente da vida dos seus maestros. O humor faz parte do tom da trama, mas isso não incute a ela qualquer leveza. O humor, quase sempre é ácido, é ferramenta poderosa para manter o espectador ansioso pelo próximo episódio.

A série também trata do conflito entre gerações, tema recorrente nessa vida da gente, em qualquer área. Um maestro de longa carreira, e reconhecidamente dos mais talentosos, entrega a batuta a um maestro mais jovem, completamente a contragosto. O choque entre a visão musical do mais tradicional com o mais apaixonado rende ótimas cenas entre dois grandes atores: Malcolm McDowell (Thomas) e Gael García Bernal (Rodrigo). Além disso, o efeito dessa mudança no comportamento e na execução musical dos integrantes da orquestra é muito interessante.


Particularmente, entusiasmei-me a assistir Mozart in the Jungle não somente pelo tema, mas também porque aprecio profundamente os atores envolvidos no projeto. McDowell tem participado de várias séries, entre elas The Mentalist e Frank & Bash, além de ser presença constante – e marcante - no cinema. E devo confessar que não consigo deixar de achá-lo fantástico em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange/1970). Bernal é ótimo ator, que conheci por meio do filme O Crime do Padre Amaro (El crimen del padre Amaro/2002). Depois disso, venho acompanhando a carreira dele. Gabriel García Bernal permite que seu maestro Rodrigo seja extremamente sedutor, porque para ele a música vem primeiro, e ele a reconhece em todos os lugares.

O que eu não imaginava era que juntos eles seriam espetaculares.


Mozart in the Jungle é uma daquelas séries que nos levam a rir das mazelas humanas. Das grandes festas para arrecadação de fundos, passando pela disparidade de personalidade entre os maestros, suas guerras particulares e admiração inconfessável, a paixão pela música e a rotina da burocracia que envolve manter uma orquestra, as distrações que afastam do que realmente importa, ou seja, a música, chegando ao slogan da própria série: sexo, drogas e música clássica.

Mozart in the Jungle é uma série original do Amazon, com dez capítulos na primeira temporada. Clique aqui para mais informações.





Partilhar

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

IGNORÂNCIA É FELICIDADE >> Albir José Inácio da Silva

- Quem escreveu isto? - perguntou a diretora, mais séria que de costume, olhando para os quatro suspeitos.

Os quatro eram os alunos de melhores notas, que tinham direito a sentar nas carteiras duplas em frente à professora. Naquele mês, Silvinha, primeira colocada, sentava-se à esquerda. Celinha, segunda melhor nota, ao seu lado. Na carteira de trás estávamos eu e Hilda, como terceiro e quarto lugares respectivamente.

Eu estava entre os quatro por razões político-econômico-administrativo-pedagógico-aleatórias. E era, por isso, um garoto de muita sorte. Cheguei mesmo a ouvir de Dona Creusa - um misto de servente, inspetora e fofoqueira:

- Esse menino dá muita sorte nas provas. Está sempre nas primeiras carteiras!

É que as escolas públicas não comportavam todos os alunos e o governo dava bolsas de estudo em escolas particulares. Eram os bolsistas. E foi assim que eu fui parar numa escola, não digo de classe média, era um bairro pobre, mas que tinha alunos de classe média. Isso para desconforto de alguns pais incomodados com aquela mistura que podia ser democrática, mas era pouco eugênica.

Mas voltemos à crise que naquele dia impedia o início da aula. Os zelosos pais de Hilda, verificando as tarefas do caderno da filha no dia anterior, encontraram o seguinte enigma:

         "Brin + (desenho rústico de uma cadeira que mais parecia um quatro de cabeça pra baixo) + com + (desenho rústico de uma mulher só identificável pelos cabelos compridos) + só na + (desenho rústico de uma cama que mais parecia uma mesa)”.

A mãe mostrou pro pai e, na manhã seguinte, foram cobrar explicações da escola.

E é por isso que a aula não começava. Confesso que não consegui decifrar a frase na hora, talvez assustado com a grande unha da diretora, apontando o caderno de Hilda. Ela também não esperou resposta, parecia cumprir um ritual de investigação. Recolheu nossos cadernos, mas não voltou para sua sala, onde estavam os pais de Hilda. Entrou com a professora na biblioteca provavelmente pra fazer a perícia.

Nenhum de nós tinha dúvidas sobre a autoria do crime. Éramos capazes de reconhecer a letra uns dos outros até no escuro. E duvido que a professora também tivesse qualquer dificuldade em identificar. Era uma letrinha cuidadinha, redondinha, caprichosinha. Como a dona.

Mas Silvinha era branquinha demais, lisinha demais, fofinha demais para escrever saliências. Precisava continuar imaculada, principalmente porque pagava mensalidade. Eu era pardo, crespo e magrelo, também demais, e provavelmente fazia essas coisas. Na classificação de Dona Creusa, eu era encardido.

A professora começou a aula sem explicações. A diretora ficou ainda um tempo conversando com os pais de Hilda. Depois saíram os três e se despediram na nossa porta. A diretora estava sorridente, mas os pais me fuzilaram com o olhar. Indagada, a professora desconversou:

- Não foi nada, faz o teu trabalho.

Confesso que me senti mal com aquele olhar, mas não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. E continuei não sabendo quando os olhares se repetiram à porta da escola por todo o resto do ano.


E ainda bem. Só muitos anos depois atinei com o arranjo de que fora vítima. Minha ingenuidade foi providencial. Como diz Calvino: “Ignorância é felicidade”. Aquele menino encardido não estava pronto para conhecer a injustiça, principalmente advinda da escola e da professora que tanto admirava. Não devia ainda duvidar da lealdade humana e da onisciência divina. Era cedo para essas dores.


Partilhar

sábado, 24 de janeiro de 2015

CELIBATO >> Sergio Geia

Eu não chego ao ponto de estabelecer uma relação lógica entre os casos de pedofilia praticados por sacerdotes e bispos da Igreja Católica e o celibato. Acho que não é o caso. Também não comungo da mesma opinião do Leonardo Boff, para quem o escândalo da pedofilia seria um sinal de Deus tentando dizer que é hora de a Igreja abolir o celibato imposto por lei eclesiástica.

Sinceramente? Acho que a exigência de abstinência sexual é uma regra que violenta o ser humano. Você não pode simplesmente mudar a natureza de uma pessoa. Deus, ou quem quer que seja, nos inventou com um órgão sexual no meio das pernas. Não foi pra ele ficar inativo, morto. Ele tem que funcionar. Ninguém muda a natureza. É impossível. Uma hora ou outra ela fala mais alto, e aí eu tenho uma bomba-relógio. Por mais que conscientemente o indivíduo opte pela vida celibatária e pela abstinência sexual, sua natureza humana em determinado momento vai gritar, pedir, reclamar.

Segundo estudos de psicologia, ainda citando Boff, o homem só amadurece sob o olhar de uma mulher. A mulher só amadurece sob o olhar de um homem. Homem e mulher são recíprocos e complementares. Quer dizer com isso que um sacerdote não consegue atingir a maturidade, no sentido sexual, quando não tem uma mulher ao seu lado. Uma companheira. Sempre me perguntaram como um padre pode dar conselho para o casal se não entende patavinas de casamento, sexo, relação a dois. E não entende mesmo. 

Dizem os teólogos e padres que o xis da questão, fundamento maior da sustentação da prática, é que o próprio Cristo, em sua vida missionária, não deixou a natureza falar. Foi celibatário. Nada mais falso. Não o Cristo, imagina. O argumento. A Igreja Católica admite padres casados. Não só as Igrejas Católicas do Oriente os aceitam, mas também, no ano de 2009, o papa aposentado Bento XVI baixou uma provisão aceitando dissidentes anglicanos casados que quisessem optar pelo catolicismo. A Igreja Anglicana, aliás, que se mostra muito mais antenada com as novas gerações, com o pensamento progressista e com as próprias ciências humanas, ao aceitar sacerdotes gays e mulheres, e ao apoiar métodos de controle de natalidade.

É com bons olhos, portanto, que assistimos à Igreja Católica, sob a batuta desse argentino chegado num futebolzinho, se arejando, respirando novos ares, deixando o atraso no vestiário. Aceitar os gays sob o argumento de que eles podem oferecer boas coisas à igreja é um grande passo para uma instituição apegada num moralismo tacanho. Aceitar casais em segundas núpcias é outro. A pílula (cristãos não devem se reproduzir como coelhos, lembra?). E por que não aceitar mulheres sacerdotes? Ou padres casados?

Tenho amigos padres que deixaram a igreja pelo amor de uma mulher. Quer coisa mais abençoada que amar? Tenho certeza que Deus não faz distinção entre padres celibatários e padres casados. Isso é coisa que vem do homem mesquinho, arrogante, presunçoso, prepotente, ambicioso. Esse é o grande problema: regras que não nasceram de Deus, mas nasceram do homem. O sagrado contaminado pela dimensão mais podre da essência humana. Esses amigos, valiosos homens, que se renderam ao amor de uma mulher, teriam muito ainda a oferecer em prol da igreja. Perdeu ela. Perdemos nós.

 


Partilhar

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

SILÊNCIO >> Paulo Meireles Barguil

 
[Lago no Parque Ecológico Visão Futuro. Porangaba - São Paulo]
 
[Foto de minha autoria. Janeiro/2015]
 


Partilhar

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

ESPELHO, ESPELHO MEU >> Mariana Scherma

Era um vilarejo muito peculiar. As paredes das casas feitas de espelho, dentro e fora porque a vaidade era tanta que não se pode perder nenhum detalhe. Já pensou ser visto com o cabelo desarrumado? Já pensou passar quase uma hora inteira sem ver seu próprio reflexo. Aliás, qual a necessidade de pinturas, flores e esculturas para enfeitar os ambientes internos quando a gente só quer mesmo se deliciar com a própria imagem?

As pessoas do vilarejo tinham um dialeto bem peculiar. O bom dia ou o oi-tudo-bem fora extinto há tempos e trocado pelo uhuuu. Uhuuu aliás, segundo o dicionário deste povo, possui múltiplos significados: exprimir felicidade, quebrar o silêncio (porque, às vezes, o silêncio faz a gente pensar), celebrar um prêmio, celebrar um novo amor surgindo... Se a vida é feita de momentos, a melhor opção para a trilha sonora são uhus.

Este vilarejo era também povoado pelo amor livre. João beijou Márcia, que pegou o Marcelo, que também queria pegar a Flavia, que teve um lance com o Caio. Aliás, amor era uma palavra em desuso por lá. Pegar, ficar, só um lance e curtir eram os verbos que mais faziam referência aos romances. E estava liberado, todo mundo poderia enfiar a colher no “amor” alheio, que às vezes duravam uma ou duas noites.

As conversas tinham uma profundidade rasa nesse vilarejo. Falava-se muita da vida do outro - tal qual toda vizinhança que se preze, do tipo que, como dizia sua avó, se senta no próprio rabo pra comentar dos outros. Não era raro existir pessoas da comum espécie leva-e-traz, aí sabe o que acontecia? Barracos. Igual a toda família que passa tempo demais junto e tem liberdade excessiva entre si pra falar. Aliás, perdia-se, nesse vilarejo, grandes oportunidades de se calar. A arte de guardar suas palavras estava em extinção.

Em extinção também estavam livros e músicas que faziam pensar. Os hits musicais estavam mais para o tuts-tuts-pa-pum, sem letra, só com uma batida pesada que convidavam cada morador a dançar na frente do espelho até o chão. Sempre gritando uhu, o hino nacional do vilarejo. O lugar também tinha seu chefe-máximo, que aparecia via televisão aos moradores, às vezes, incitando brigas, dúvidas ou deixando os moradores sem graça. O chefe-máximo era metido a poeta e discursava bastante, o que deixava os moradores com cara de ponto de interrogação ou com aquele sorriso falso de o-que-ele-quis-dizer?

Um dia, foi preciso um pedreiro para um conserto e pasmem: não havia pedreiros. O lugar era superlotado por modelos e candidatos a cantor e ator. Às vezes, tinha um jornalista. Em raras ocasiões, um médico e um administrador. Não se sabia como prosperar nesse tipo de lugar. Poucos conquistavam seu lugar ao sol, no sentido figurado mesmo. Porque, literalmente, estavam sempre tomando sol à beira da piscina. A vida do pessoal deste vilarejo era transmitida em televisão aberta. Nunca conheci ninguém dizendo que se tornou alguém melhor por assisti-lo.


Essas semana começou o tal Big Brother Brasil. A Globo insiste em não pôr fim ao programa. São tantas pessoas que passaram por lá que poderiam formar uma pequena cidade, um vilarejo bem peculiar mesmo. E aí, você vai dar uma espiadinha? Ou vai fazer bom uso do controle remoto? Ou vai deixar a tevê descansar um pouco?


Partilhar

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

SONHO NÃO REALIZADO >> Carla Dias >>


Durante sete meses e dois dias, ela esperou por aquele momento. Sabe aquele? O momento, o divisor de águas, a realização de um desejo, um gosto, um dos sonhos mais sonhados – acordada e dormindo.

Preparou-se, dedicadamente, que aprendeu que dedicação é ferramenta poderosa para concluir realização. Leu todos os livros que lhe indicaram, de best-seller, os escritos pelos amigos dos amigos, os de autoajuda à bibliografia de Nicholas Sparks. Assistiu a todos os filmes baseados nos romances do escritor, para então assistir ao filme O Ponto de Mutação, quatro vezes seguidas, para se aprumar.

Também aceitou indicação de chás calmantes e decidiu dar um jeito na preguiça. Foi do Bio Boxe, na animada academia da cidade, passando pela Power Yoga do Centro Holístico do bairro, voltando ao alongamento por espreguiçamento no sofá de casa.

Acredita que, para se alcançar o ideal, é preciso gastar muito tempo a compreender os tombos, inclusive aqueles que levou na rua, na escada do trabalho, no aeroporto, na sala, durante a festa de aniversário do primo de humor duvidoso, no parque de diversões, no restaurante frequentado pela família. Claro que, depois do laudo médico, que mostrou que sua saúde estava ótima, ela teve de recorrer ao plano espiritual para compreender tantos tombos em ocasiões pra lá de embaraçosas. A ajuda foi necessária, e acabou amiga do astrólogo do apartamento 25, cliente da vidente da prima, voluntária nas obras beneficentes do Padre Gregório, com uma quedinha pelo tarólogo picareta de olhos aguados, tocadora oficial de tambor no centro espírita.

Porém, dedicar-se foi preciso, para que ela chegasse ao agora, sete meses, dois dias e quase onze horas depois, o coração batendo ligeiro, cabelos by cabeleireiro da amiga da noiva de um amigo recente, usando um vestido que parcelou em 24 vezes, os pés enfiados em um sapato que teve de negociar com a vizinha, dando em troca seu anel preferido, presente perfeito de seu pai no seu aniversário de quinze anos.

Respira fundo, escutando, de jeito meio bagunçado, as palavras do mestre de cerimônias. Repetindo para si, no pensamento, que valeu a espera para o desfrute desse momento que, apesar de breve, será único. É desejo, gosto, sonho a ser realizado em cinco, quatro, três, dois...

O burburinho é imediato. Espiando por detrás da cortina, ela vê as pessoas conferindo seus celulares. Será mais uma tragédia natural? Seu coração, que já batia rasteiro, agora se iguala aos tamborins da escola de samba, em plena avenida. O suor escorre pelo seu rosto, interferência teatral em sua maquiagem cuidadosamente arquitetada em seu rosto assimétrico. Sente o vestido lhe apertar de jeito a interferir em sua respiração, e quando a falação fica mais alta, ela tira os sapatos para ter um pouco de alívio.

Ah, o alívio...

Sentada à beira-mar, os cabelos presos em um nó, vestido com nem mesmo a primeira das vinte e quatro parcelas paga, desenlaçado na cintura. Sapatos jogados na areia, um par de horas desde a tragédia, que não foi natural, mas o suficiente para cancelarem o seu sonho.

Ela chora, copiosamente, contemplando o dia nascendo, sete meses e quase três dias depois daquele momento em que decidiu que apenas uma coisa, a realização que ela escolhera, poderia dar significado a sua existência.

O que lhe surpreende, neste momento, que nem de longe é aquele, o momento, é que ela chora copiosamente por deslumbramento, fascinada que se sente pelo dia nascendo, diante de seus olhos. Assim como pela leveza que, durante sete meses e quase três dias, ela se recusou a sentir.

Imagem:  Femme et Oiseau dans la Nuit © Joan Miró

carladias.com

Partilhar

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

JORNALISMO OU ENTRETENIMENTO? >> Clara Braga

Com a aproximação do Oscar eu começo a minha corrida particular contra o tempo para assistir à maioria dos filmes que estão concorrendo. É quase impossível para mim assistir a todos, mas faço sempre questão de assistir ao máximo que puder. Dentre os que já assisti estão Garota Exemplar e O Abutre, que inclusive me decepcionei um pouco quando vi que quase não foi indicado a nenhuma categoria. 

Deixando de lado minhas impressões pessoais, os dois filmes levantam uma questão em comum que muito me preocupa: a forma como o jornalismo vem sendo tratado cada vez mais como uma questão de entretenimento e não de informação. O que importa é que mais e mais pessoas estejam ligadas naquele canal, naquela hora exata. O que importa é que o dinheiro entre, e se o que vende é tragédia, vamos dar tragédia para as pessoas! E as que mais vendem são exatamente as mostradas nos filmes, aquelas com muito sangue, de preferências que a gente possa ver os ferimentos das pessoas bem de perto, que é para sofrer junto. Ou então aquelas em que membros de uma mesma família se matam, ninguém nem sabe se foi isso mesmo que aconteceu, mas também nem tentam entender, o importante é achar um culpado, nem que para isso seja preciso maquiar um pouco a notícia.

Quando assistimos aos filmes, ficamos chocados, indignados, como pode algo assim acontecer? Então chegamos em casa e nos deparamos com a notícia do carioca que vai ser executado na Indonésia. Um coitado carioca que pediu socorro até para o Papa e não teve seus pedidos de clemência atendidos. Um pobre instrutor de asa delta que só queria entrar na Indonésia com um pouco de cocaína. Então o país fica comovido, acha terrível, a querida presidenta tenta intervir, todos admiram seu esforço, mas nada feito. E a mídia com certeza comemorou, com certeza vende mais dizer que o cara foi executado e contar os detalhes de como foi, quantos tiros, onde foi, se ele sofreu, do que simplesmente dizer que ele foi solto e está sendo levado de volta ao Brasil. Nós, no sofá da nossa casa, inocentes, não percebemos que agora já somos todos abutres.

Pesquisando um pouco mais a fundo a tal execução, vi que essa conversa de instrutor de asa delta não passava de hobby que foi colocado como profissão para não dizer o que o próprio carioca dizia: a profissão dele sempre foi traficante, nunca nada mais do que isso. Passou a vida traficando, viajando e, para se vangloriar, guardava junto com ele fotos dos locais maravilhosos e mulheres belíssimas com as quais já esteve, tudo conquistado com muito dinheiro conseguido da sua real profissão: traficante! Mas toda essa leve omissão na história já era de se esperar, afinal, sabemos muito bem que hoje, se quisermos ganhar apoio popular, não temos que lutar para contar a verdade, mas temos sim que contar o que a mídia quer passar, nem que para isso a notícia precise ficar um pouco apelativa.

Que fique muito claro que eu não estou aqui defendendo a execução, sempre fui contra a pena de morte. Também sei que no meio dessas novas informações que surgem agora, também tem exagero, informações maquiadas e tudo mais que a gente sabe que a mídia faz. O que quero com isso tudo é dizer que temos que buscar sempre todos os lados de uma notícia, todas as informações possíveis antes de tirarmos uma conclusão, não vamos nos transformar nos abutres que mantêm um jornalismo raso.



Partilhar

sábado, 17 de janeiro de 2015

SOBRE MÃES E INTUIÇÕES >> Cristiana Moura

— Eu vou ficar em casa, você pode ir no carro.
— Não, eu não quero ir de carro.
— Por quê?
— Não quero ir de carro.
— Por quê?

— Tá, tá... eu vou de carro!

 Mais tarde, cada qual no seu quarto, por mensagens:

— Mas pq mesmo vc não queria ir de carro?
— Só não queria. Pq?
— Paranoia materna.
— kkkkkkkk
— Sei lá, de repente era a sua intuição, a sua sabedoria interior dizendo para vc não dirigir mais hj. E um acidente está sendo evitado pela intuição masculina.
— Meu Deus!
— Como eu disse, paranoia materna.
— kkkkkkkk. Quer saber? Vou ficar em casa. Não! Pera! Não!
— Fica em casa e a gente vai jantar, à pé, na padaria. Só pra garantir.
— Poxa, ok.
—kkkkkkk
— Acabei de perder toda a confiança em mim.
— Não era a intenção.
— Eu sei.

Esta conversa escrita, separada por uma parede e duas portas se finda quando Gabriel adentra meu quarto com seu violão. Toca, canta e suas melodias vão desfazendo os maus presságios.

Ele tocou e cantamos até anoitecer. Depois fomos jantar juntos, à pé, na padaria.



Partilhar

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

AMOR, OUVIDO DE TUBERCULOSO E UM VAGÃO DE METRÔ >> Zoraya Cesar

O último metrô da noite pegava os cansados; os notívagos; os insones; os fantasmas. Pessoas diversas com estados de ânimo ou desânimo diversos. 

Vamos escolher um vagão – não diria ao acaso, que acasos não existem, mas vamos escolher um vagão. 

Neste, um rapaz de sotaque latino, fartos cabelos negros e pulseiras coloridas, cantava ao violão amores traídos, perdidos, abandonados, enchendo o ambiente de sentimentos pungentes. Passava os dias tocando de vagão em vagão, coletando dinheiro para pagar sua clandestinidade. Mas, toda noite, na última viagem, ele cantava apenas pelo prazer, sem passar o chapéu após a derradeira nota. Era o seu momento.

Um homem, aparentando 40 anos, dormitava, ressonando. Seu corpo relaxado balançava suavemente ao ritmo da composição nos trilhos, numa dança silenciosa e íntima. A camisa social de manga curta estava bastante amarfanhada, e a barba, por fazer. As mãos entre os joelhos seguravam, frouxas, um paletó, também amassado, em cujos bolsos guardara os óculos e a gravata. Tão plácido estava, que passava despercebido. 

Sentadas atrás dele, duas moças sussurravam entredentes. 

-  Se ele não largar a mocreia eu dou cabo dela. – Falou a loura, de cabelos lisos e semblante delicado, um tipo mignon de grandes olhos azuis, a quem o imaginário popular associaria à imagem de uma fada, doce e frágil. 

- Tá louca. – ciciou a outra, uma morena de cabelos negros e franja comprida, cujos olhos sonsos e boca larga faziam suspirar boa parte dos homens. Vestia-se pra chamar atenção e estava acostumada a conseguir o que queria.

- Tô louca sim, louca de amor pelo Giba. E ele transou comigo, disse que me amava, queria ficar comigo, ajoelhou agora tem de rezar. Não sou mulher de deixar passar não.

- É isso aí, disse a morena, os olhos brilhantes, a boca úmida, esses caras acham que podem transar, prometer de um tudo e ficar por isso mesmo. Tô contigo. 

- Vou encostar ele na parede. Se ele não largar da mulher eu mato ela. 

- Nossa, isso é que é amor, hein, amiga?

- É. E quando eu amo é pra matar e morrer. O Giba tem de ser meu. 

- E o Roninho?

- Meu marido? Aquela besta? Meu amor é o Giba. 

- Tô contigo. Esses caras têm de aprender que com mulher de verdade não se brinca. Se ele prometeu, tem de cumprir. Mas o Roninho, o que vai fazer com ele?

- Chuto pra fora de casa ou mato ele também. Ninguém vai se meter entre mim e o Giba. Não tô nem aí.  Eu amo é o Giba. – repetia, obcecada.

O rapaz cantava ainda, preenchendo os espaços vazios do vagão com uma guarânia triste. O homem largado no banco da frente parecia dormir ainda mais profundamente, a boca aberta. 

A morena de olhos lúbricos sibilou:

- Eu te ajudo a ficar com o Giba, você deixa o Roninho pra mim. 

- Por quê? Tu gosta dele, é?

- Gosto, disse a morena, firmemente.- Pessoas assim não temem umas às outras. Respeitam-se ou se completam.  

- Tá feito. Se o Giba ficar comigo eu te deixo o Roninho. Vai consolar ele do chifre...

- Olhe, meu primo policial tem uma arma que ele tirou de um bandido aí. Sei lá. Sei que ele empresta pros amigos. Ninguém vai desconfiar. Se o Giba não largar da mulher, a gente mata ela e resolve o problema. E joga a culpa nele, pra aprender a nunca mais ficar enganando amiga minha. 

A fada loura sorriu, mostrando uma fieira de dentes brancos e miúdos.

- Tá feito. Se o Giba não ficar comigo também não fica com ninguém. Quando eu amo, amo pra valer.

As duas se calaram. A música também. 

O rapaz guardou o violão. Elas pegaram as bolsas.  Saltaram elas, o rapaz e o homem que dormia. 

Dormia? Jamais conseguira dormir em viagens ou trajetos. Apenas relaxava o corpo e mantinha a mente em atenção flutuante, conforme fora treinado. E a natureza o dotara do chamado “ouvido de tuberculoso”, ouvia coisas praticamente inaudíveis aos outros. Conseguira captar toda a conversa, apesar de as duas murmurarem, da música e do barulho do vagão nos trilhos.

Saltou atrás delas um átimo de instante antes de as portas fecharem, já de paletó e gravata, ajeitando os cabelos, colocando os óculos. Quem visse aquele homem de postura ereta e ar sério jamais o associaria ao dorminhoco de boca aberta largado num banco de metrô.

O plano das duas era cheio de falhas, seriam facilmente pegas, mas, aí, alguém já teria morrido. E ele queria muito descobrir quem era o policial que emprestava – ainda que ocasionalmente - uma arma não registrada. 

Mais de 20 anos como investigador – um dos 100 melhores do mundo – não o transformaram num cínico. Era, ao contrário, um romântico, e sabia que aquelas mulheres falaram sobre tudo, menos sobre amor.

Estava trabalhando quase que ininterruptamente sem comer ou dormir direito havia quatro dias. Só queria ir pra casa. 

Mas, mesmo exausto, um policial é policial 24 horas por dia.  

Seguiu-as. Felipe Espada descansaria depois. Como sempre.

Mais aventuras do policial Felipe Espada:







Partilhar

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

QUEM APRENDEU DIZER ADEUS? >> Fernanda Pinho



Eu tinha 26 anos e minha vida era completamente diferente do que é hoje, aos 31. Revendo nossas primeiras conversas, percebo que cheguei meio tímida. Preferia flutuar em temas leves, como lembranças da minha infância num jardim chamado João Bolinha, a arriscar mergulhos mais profundos.  Mas você me deu corda e eu sou dessas que não precisa de muito para já me achar amiga.

Naturalmente, me senti à vontade para partilhar sentimentos intensos, meus relacionamentos frustrados, minhas dúvidas existenciais. Falei da minha mãe, do meu pai e da minha irmã. Falei das minhas crianças. Algumas, já nem são mais crianças. Outras, já nem são mais minhas. Falei de gente que me amava sem que eu soubesse. Falei de gente que eu achava que me amava (e que eu achava que eu amava) e hoje sei que não. Falei dos que ainda me amam e de quem nem merece dividir uma frase com o verbo “amar”.  Chorei a morte da minha avó, de uma amiga e de alguns relacionamentos.  Mas celebrei as superações, as amizades, as viagens, os bons livros e as festas.

Você viu, e registrou, quando tudo mudou completamente.  Quando conheci meu marido, me casei, mudei de país, voltei para o Brasil, montei duas casas, aprendi a cozinhar e me tornei do tipo de pessoa que acredita no amor e tem uma marca de alvejante preferida.

Você aproximou algumas pessoas de mim, permitindo que elas me conhecessem melhor. Você me aproximou de mim. Melhor que qualquer terapia que eu já tenha feito. Me deu a chance de registrar o período mais construtivo da minha vida. Através de você, palavras carinhosas, de apoio e de felicitações chegaram até a mim nos momentos em que eu realmente precisava. Palavras negativas, por incrível que pareça, não constam.

Por tudo isso, não tenho a menor condição de fechar as portas. Estou saindo por minha própria vontade, é verdade. Mas deixo a porta escancarada (e ainda levo uma chave de garantia) para a ter a certeza de que posso voltar.


Depois de 5 anos  transformadores, 152 textos de quinta, um livro delicioso, encontros memoráveis e amigos especialíssimos, eu, que passava tempos trabalhando numa frase para não ter que recorrer a clichês, terei de sucumbir a eles justo na derradeira: gratidão e até breve, Crônica do Dia.  


Partilhar

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O TERRORISMO COTIDIANO >> Carla Dias >>


Desde o lamentável acontecimento de Charlie Hebdo, tenho assistido à ostensiva cobertura da mídia a respeito do assunto. Nada mais justo, que o ato terrorista fez suas vítimas. Muitos se solidarizaram e se mobilizaram em homenagem aos mortos e na defesa da liberdade de expressão, e não somente na França, mas no mundo.

Nas redes sociais, muitos são os que têm pontuado a tragédia francesa com as brasileiras. A ideia não é minimizar a violência que tomou de assalto o jornal Francês que usava o humor para questionar o extremismo, em todos os seus aspectos. Aliás, eu acredito que o humor seja uma importante ferramenta para fazê-lo. A questão é explicitar que a violência, justificada por ser cometida em nome de Deus ou da lei dos homens, espalha-se pela geografia do mundo.

Violência não é justificável, mas definitivamente atinge a todos os aspectos da vida do ser humano. A violência que tolhe os direitos, a verbalizada em ofensas, a cometida em nome da fé - ou da falta dela - e do amor. A policial, a política, a parental. Que fique claro que cometer ato que seja em nome de quem ou o que seja não significa que as consequências devem ser cobradas ao outro, pessoa ou tópico. A escolha é autoral, assim como deveriam ser as consequências.

O que negamos, veementemente, é que a violência pode ser inspirada facilmente, principalmente em um momento que a conectividade tecnológica nos permite chegar a lugares onde nunca colocamos os pés. O que aconteceu na França foi ato de terrorismo, mas baseado no que conhecemos bem: a intolerância ao que não corresponde à verdade adotada por muitos indivíduos. Mas, e no nosso dia a dia?

Na rotina, muitos inspiram a violência, mesmo sem aceitar que é o que estão fazendo. Assim como na radicalização religiosa, o indivíduo defende a sua ideia sobre alguém ou algo, como se ela fosse única. Não me canso de bater nessa tecla, porque a maioria de nós age como se a radicalização fosse benfeitora, o que não é verdade. Estar errado a respeito de algo e ser capaz de reconhecer isso é o que inspira o diálogo, o que colabora com o entendimento. Quando você decreta o seu ponto de vista o único, desacreditando a capacidade do outro em estar muito melhor sintonizado com o tema, você se iguala aos extremistas, pede que, em nome da sua crença, todo o resto seja ignorado.

Defender uma ideia, uma posição na vida é diferente de ser intolerante. Ao defender, você sabe que pode ter de modificar para melhorar, para se conectar à verdade. Quando você impõe, a intolerância reina plena, e a violência, eventualmente, dá as caras. E o cenário para esse desenrolar pode ser qualquer um, da sua linha do tempo nas redes sociais ao seu lar. De uma nação a uma sala de reuniões.

Pense bem no que você está oferecendo ao mundo. A liberdade de expressão não é direito somente dos jornalistas, mas sim de cada um de nós. Defendê-la é também aceitar que escolhas são diversas, compatíveis com a pluralidade do ser humano. Posicionar-se, com respeito à posição do outro, sem se agarrar a qualquer tipo de violência, é tornar a convivência possível e justa.

Também espero, como muitos de vocês, que a fome, a miséria, o despreparo da polícia, a politicagem em prol de poucos, a farra dos corruptos, o uso indevido do poder, a ladroagem arquitetada por líderes religiosos, as máfias disso e daquilo, o preconceito, os traficantes, as leis que jogam contra a justiça, enfim, espero que nosso terrorismo cotidiano tenha fim.

Vamos trabalhar para isso, então. Sem nos sujeitarmos à violência, busquemos o mais justo que defendemos, diariamente, no que dizemos e na forma como agimos.

carladias.com

Partilhar

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

VIVA A LASANHA DE BERINGELA >> Clara Braga

As férias sempre se dividem entre momentos para ficar sem fazer nada e momentos que devemos aproveitar para resolver aquelas pendências que não conseguimos resolver antes por estarmos sem tempo. Só que eu nunca fui do tipo que gosta de organizar as férias, ou seja, passo a maior parte do tempo curtindo preguiça e quando vejo as férias já estão acabando e eu não fiz nem metade das coisas que planejava fazer. Aliás, esse é meu mal, planejo as coisas só na minha cabeça, minutos depois já não lembro o que planejei, aí pronto, quando lembro o que precisava fazer já é tarde demais.

Foi pensando nisso que decidi esse ano fazer de fato, fisicamente em um papel, (não, não serve arquivo no computador, tem coisas que são melhores no bom e velho papel mesmo) a tal lista que eu sempre faço de cabeça sobre as conquistas que quero alcançar no ano. Dessa forma vou poder organizar o que devo fazer cada mês, cada semana e cada dia para alcançar meus objetivos. Muito metódico, alguns vão dizer, mas vai por mim, pessoas como eu, que têm dislexia e déficit de atenção, as vezes são mais felizes quando são um pouco mais metódicas. Mas claro, me impus a regra de estar aberta e sempre rever meus objetivos. Posso reinventá los e repensá los a qualquer momento. E foi exatamente por isso que esses dias acrescentei uma espécie de desafio na minha lista: pelo menos uma vez ao mês vou ter que fazer algo que nunca fiz antes.

Gosto de novidades, mas confesso que as vezes tenho dificuldades de me adaptar a elas, pensando exatamente nisso me propus esse desafio. Decidi começar com algo simples, então esse mês decidi cozinhar (coisa que não tenho muita habilidade para fazer, mas que já tinha feito antes) uma lasanha de beringela. E vocês devem estar se perguntando: mas o que você nunca fez que está nessa tarefa? Acreditem ou não, nunca tinha comido beringela. Quando o assunto é comida, pareço criança birrenta, se acho o visual daquele alimento feio, digo que não gosto sem nunca ter provado. E assim passei 26 anos da minha vida dizendo que não gosto de beringela sem nunca ter comido uma.

Assim comecei o desafio, demorei mais do que demoro de costume para fazer qualquer coisa na cozinha, já que não sabia direito nem o que fazer com aquela beringela. Tem que descascar? Lava com casca ou sem casca? Dura muito tempo na geladeira? Tem que fazer e comer imediatamente? As questões eram muitas, mas nada que a mãe google não resolva! Depois de algumas pesquisas, ajuda dos universitários e etc, lá estava a lasanha! O veredicto: parece que gosto de beringela. Talvez não goste de tudo feito com beringela, afinal, só provei um prato, mas com certeza gosto de lasanha de beringela.

Ainda não decidi o que vai ser a novidade do próximo mês, aceito sugestões. E se querem uma sugestão minha, coloquem essa novidade na lista de vocês também, seja ela física ou só na cabeça. É bom lembrarmos ao longo do ano que todo dia temos a chance de nos reinventarmos, de nos desafiarmos, de sermos o que e quem queremos ser, independente de quem seja. Não precisamos de um evento como o ano novo para começar nada, qualquer dia pode ser nosso ano novo, um corte de cabelo diferente pode ser nosso ano novo, um emprego novo, uma aula experimental de algum instrumento, uma nova atividade física, não sei, o que vale é colocar a criatividade para trabalhar e sair experimentando coisas novas e transformando todo dia em um ano novo! 


Partilhar

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A BONECA >> Albir José Inácio da Silva

Acordou muito cedo, noite ainda, e teve de esperar a hora de levantar. Sozinha desembaraçou quanto pôde o cabelo, mais na frente que atrás, e lavou o rosto. Ninguém precisou mandar. Calçou o chinelinho maior que seu pé e sentou no banco da mesa do café. Hoje não queria que ninguém gritasse com ela.

A educadora percebeu o capricho e só não fez elogio porque Abrigo não é lugar de elogios. Entendia a euforia das outras crianças. Era Natal. Daqui a pouco as visitas chegariam trazendo roupas e presentes.  Mas Tica não recebia visitas. Não ganhava presentes. A cozinheira, acostumada já com aqueles cinco anos e quatro palmos de pirraça, até comentou: “Hoje vai ter manha grossa depois da visita”.

Tica estava alheia a essas preocupações. Saltitava feito passarinho pelo quintal. Quando as visitas começaram a chegar, ficou de pé, encostada na parede em frente ao portão, levantando e abaixando os calcanhares. Ainda estava assim quando a tia e a prima de Belinha chegaram, trazendo uma caixa grande. Belinha recebeu o beijo da tia já rasgando o papel de presente. Tica ficou a alguns passos do grupo, vigiando.

As visitas se despediram e Tica também acenou com a mão, sem tirar os olhos de Belinha, a quem depois seguiu até o quarto, mantendo sempre a distância de três ou quatro passos.

Belinha sentou-se na cama, abriu a caixa e ficou admirando a boneca nova. Só então percebeu a presença de Tica como uma estátua à sua frente. Abaixou-se , sem tirar os olhos da caixa, e levantou pelos cabelos uma boneca que estava embaixo da cama.


Com as pernas tremendo, Tica avançou dois passos e apertou com os dois braços a boneca pendurada. Ouviu o próprio coração batucando contra o brinquedo. A urgência espantou a vertigem e ela saiu da frente de Belinha, que podia se arrepender.

 Foi para sua cama e deitou a boneca encardida no pano desbotado. Puxou pra frente o cabelo do lado que estava meio descolado. Ia colar. Ia pintar com caneta uma sobrancelha que faltava. Cobriu com um trapo até o pescoço, mas estava muito calor e a boneca ainda tinha a blusa do vestido. Cobriu só até a cintura. Deu um beijo que pegou mais ou menos olho, testa e nariz. Levantou a cabeça pelo quarto com um olhar quase desafiador e suspirou. Sua filha. Ia cuidar dela. 

Ia cuidar muito bem dela.


Partilhar