domingo, 30 de novembro de 2014

EM BUSCA (DA PALAVRA) DE UM SONHO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Ele teve um sonho em que a canção "Como uma onda" era cantada com uma pequena e curiosa alteração na letra: em vez de "não adianta fugir nem mentir pra si mesmo", ouvia-se "não adianta estrudir". Ele olhou para sua namorada do sonho, enquanto esperavam pelo horário certo para descer à estação do metrô, e os dois sorriram da mania dos intérpretes de alterarem a letra das canções. Mas, ao final do riso, ele ficou se perguntando se não se tratava de uma mania dos ouvintes de escutarem errado as letras das canções: ele mesmo, durante muito tempo, achava que "tocando B. B. King sem parar" era "tocando de biquíni sem parar". Então pensou que seria bom consultar um dicionário para ver se existia a tal palavra — estrudir — e se ela fazia sentido no contexto da canção. Como não havia dicionário no sonho, ele teve que procurar ao acordar.

Nem o Houaiss nem o Caldas Aulete conheciam a palavra estrudir. O sonhador também procurou a grafia com x, mas extrudir também não constava na lista de vocábulos. A busca terminaria ali não tivesse ele se lembrado de que, na véspera, pouco antes de dormir, havia lido algumas páginas em inglês. Resolveu então, como uma última tentativa, pesquisar pela palavra extrude no Merriam-Webster... e a palavra estava lá, com seu duplo significado: 1. Forçar, pressionar, expulsar; 2. Dar forma (a metal ou plástico) forçando-o através de um molde.

Resolveu voltar ao dicionário em português, pois, ao pesquisar o verbo extrudir, que não existia, tinha visto um substantivo parecido: extrusão. Os significados eram dois: 1. Saída forçada; expulsão; 2. (tecnologia) Passagem forçada através de um orifício de uma porção de metal ou de plástico, para que adquira forma alongada ou filamentosa. Os mesmos significados do verbo em inglês, apenas inexistia o verbo em português, embora exista o adjetivo extrudado, significando "que sofreu extrusão". A etimologia indica que a palavra se origina do verbo latino "extrudĕre", que quer dizer "expulsar, expelir violentamente". Ou seja, o verbo em português também poderia existir. O Houaiss lista uma única locução associada a extrusão: "extrusão vulcânica (geologia), saída de lava muito compacta, que se consolida obstruindo a cratera vulcânica".

O sonhador resolveu testar se alguém, além do intérprete da canção do sonho, usava o verbo, e fez uma pesquisa no Google: vulcão extrudiu. Descobriu que "magma basáltico extrudiu" e "fluxos de lava podem extrudir".  Lembrou que, na véspera, com o controle remoto apontado para a TV, pensou em assistir ao filme "Pompeia", que trata da erupção do vulcão Vesúsio, mas optou por assistir ao documentário "Filhos de João — o admirável mundo novo baiano", a respeito do grupo musical Os Novos Baianos.

Ficou pensando se seria essa a mensagem do sonho: não adianta extrudir o vulcão de uma Pompeia hollywoodiana, é melhor assistir a um documentário brasileiríssimo. Mas havia aprendido que o sonho costuma ter várias significações simultâneas, pelo menos uma delas mais profunda que o dilema de um telespectador. Telespectador... Talvez seja isso. O documentário alimentou a vontade do sonhador de aprender um novo instrumento, uma gaita, vontade que ele teve enquanto vinha no ônibus para casa. Ônibus que, em determinado semáforo, ficou parado em cima de trilhos por onde já não passam trens. Ônibus que passara a um quarteirão e meio da casa da sua namorada do sonho, uma ex-namorada da vida acordada.

Não, não fazia sentido ainda. O sonhador estava se perdendo em sua busca. Resolveu investigar se os Novos Baianos haviam gravado "Como uma onda"... Não. Mais uma pista falsa.

Ele estava desanimando. Os sonhos não fazem sentido, disse para si mesmo, melhor desistir deles. Pensou em deixar tudo como estava. Havia muito o que fazer no dia: retomar uma alimentação mais frugal após dias de açúcar e farinha de trigo; lavar roupas; tocar violão, assistir a um filme, deitar numa rede na varanda...

Mas uma pergunta lhe ocupava o juízo: Por que não adianta extrudir em vez de não adianta fugir? Por que não adianta expulsar, expelir? E expelir o quê? De que magma, de que fluxo de lava se está falando e cantando? Se não é o caso de expulsar, expelir, o que se deve fazer? O oposto?

Ele voltou aos dicionários, dessa vez em busca de antônimos... Antônimos de expelir: aspirar, digerir, absorver. De expulsar: empregar, admitir, alojar, convidar. Ainda incerto quanto ao sentido do sonho, ele resolveu tentar os substantivos. Não constavam antônimos de expelição. De expulsão: entrada, ingresso. Essas palavras o fizeram lembrar que, no sonho, um pouco depois de eles rirem da palavra estranha na canção, ele perguntou para a namorada: "Vamos pegar o próximo metrô?". A resposta dela veio não com palavras mas com a ação de caminhar. Ele a seguiu.

Não havia uma escada. Eles estavam em um monte, que começaram a descer entre pedras. Havia que se cuidar em cada passo. Na tela onírica dele, viam-se apenas os pés e as pernas deles, principalmente dela. Ele seguia seus passos, procurando pisar perto de onde ela pisava. Descendo e fazendo curvas, eles chegaram ao ponto de entrada, de ingresso. Entraram.

A câmera do sonho deixou de acompanhá-los e foi subindo do chão para a linha do horizonte. Seriam eles os personagens de um documentário? Havia uma estrada e um posto de gasolina. Em seguida, se movimentando para a direita, a câmera mostrou um moderno estádio de futebol. Depois, um conjunto de casas coloridas, à moda antiga. As cores das casas foram aquarelando como uma onda que se aproximasse. Uma onda grande que cobriu as casas, mas, enquanto o sonhador temia que as casas fossem destruídas, a onda se desfez em sua própria nuvem de espuma. A câmera do sonho não estava mais no monte, havia se deslocado para a própria estrada e se movimentava nela, como se estivesse colocada na traseira de um veículo terrestre bem alto ou de um veículo aéreo bem baixo.

Enquanto a estrada que margeava o monte era filmada, o sonhador procurava ver a si mesmo e a sua namorada do sonho, ou mesmo o metrô, que poderia subir à superfície em algum momento. Mas nenhuma imagem dele, dela ou do metrô apareceu. Assim como havia se concentrado antes nos passos dele e dela, a câmera agora focava nos detalhes do chão da estrada: faixas tracejadas, faixas contínuas, retentores de velocidade... Os cinzas do asfalto ocupavam toda a tela onírica. Seria um bom fundo para exibir os créditos de um documentário. Mas as palavras não apareceram.

O sonhador acordou com uma vontade que havia expulsado, expelido de si há algum tempo. Alojada, hospedada em seu pensamento havia uma ideia. Ele precisou ficar um tempo deitado, ainda de olhos fechados, para digeri-la, absorvê-la. Ele a reconheceu de muitos e muitos domingos atrás. Era uma vontade de escrever. Não a vontade caudalosa e cheia de prazer dos tempos antigos, mas uma vontade miúda e dolorida, como um cisco no olho vermelho do coração.

Ele se levantou, bebeu um copo d'água, colocou o celular para carregar, mijou, lavou as mãos e o rosto, escovou os dentes, penteou o cabelo, vestiu a camisa, dobrou o lençol, desarmou a rede, desligou as lâmpadas externas da varanda, abriu janelas e portas, comeu uma laranja, bochechou um pouco d'água para que o sumo ácido da laranja não lhe causasse aftas, sentou-se ao computador, viu seus e-mails, entre eles o de uma amiga leitora que comentava uma antiga crônica sua, começou a responder o e-mail e, quando estava digitando "nos últimos anos, perdi a vontade de escrever", descobriu que a vontade perdida estava ali, ainda estava ali, miúda e dolorida. Ele interrompeu a resposta do e-mail, abriu uma nova aba do navegador e acessou o blog na má esperança de que hoje não fosse o seu domingo e sim o domingo do outro escritor com o qual ele deveria alternar as quinzenas (embora não o fizesse há meses), do outro escritor que era o escritor de verdade (e não um escritor de sonho), do outro escritor que não havia perdido a vontade de escrever. Mas o outro escritor já havia escrito na semana passada. Este domingo era dele.

O sonhador então, cheio de medo, abriu uma nova postagem, escolheu um título e começou a desobstruir sua cratera vulcânica...

Partilhar

sábado, 29 de novembro de 2014

DILEMAS DE UM RECÉM-SEPARADO >> Sergio Geia

Fui às compras. Confesso que nunca me imaginei comprando o que fui comprar. Nesses 45 anos de vida não precisei. Mas dessa vez, não. Tive que me virar. Sozinho.

Entrei nas Pernambucanas à cata de panos de prato. Pedi a uma vendedora que me mostrasse uns. Até que eram bonitinhos. Delicados, com bordados infantis, desenho de porquinho, de peixinho, de ursinho. O preço era bem razoável. Peguei quatro. Um pra enxugar as mãos, outro pra enxugar a louça. Um jogo reserva. Mostrei a uma amiga que achou lindo, mas disse que aquilo não era pano de prato, era pano de enxugar a mão. “Eu comprei pano de prato”, disse, já meio bolado. Uma outra amiga me tranquilizou. Falou que os panos eram ótimos, que enxugavam prato que era uma beleza.

Tapetinho pro banheiro é outra desgraça. Uma que não achei nenhum bonito. Todos bregas. Era o jogo. Um tapetinho pra pisar ao sair do banho; uma almofadinha pra forrar a tampa do vaso; um outro esquisitinho pra colocar na frente. Umas cores danadas de feias! Depois de muito custo, achei um mais ou menos, uma cor discreta, um bejão.

Numa outra loja fui procurar tupperware. Se há algo importante na casa de um homem sozinho, isso eu aprendi, esse negócio se chama tupperware. O feijão, por exemplo. Você pode cozinhar feijão uma vez a cada 10 dias. Distribui em pequenas porções e guarda. Onde? No tupperware! Depois congela. Quando quiser comer é só descongelar, pôr na panela, temperar, e o feijão fica ótimo. As sobras também podem ir para o freezer. Carne moída? Sobrou? Tupperware.

Cesto de lixo pro banheiro. Um porre. Precisava de dois. Não sou nenhum referencial de estética dessas coisinhas, pelo contrário, mas queria um basicão, branco, simples, sóbrio. Achei cada coisa... Um modelo que gostei só tinha um, o outro tava quebrado. Não comprei nada. Agora em casa já tem papel higiênico nos banheiros, mas não tem onde jogar. Por enquanto, no saquinho... Ave Cristo!

Não gosto muito de ler manuais, e agora tenho uma pilha sobre a mesa. O do fogão, por exemplo. Depois de tirá-lo da caixa, de tirar todas as fitas que prendiam as peças, de tirar um plástico azul, de deixá-lo prontinho para uso, tava lá escrito: “IMPORTANTE: faça a instalação dos pés antes da remoção da fita que fixa o tampão de vidro”.

Aliás, foi necessário fazer a conversão pra gás natural. Se tinha uma coisa que eu não queria gastar muito, essa coisa era o fogão. Almoço na rua, à noite não sou de comer muito, as crianças vem no fim de semana a cada 15 dias. Mas não que eu tenha comprado porcaria. Não era um Brastemp, mas era um bom fogão, que estava na promoção. Acendedor automático, branquinho, quatro bocas. No entanto, tinha de fazer a conversão. E como era novo, e como está na garantia, tive que chamar a assistência autorizada. Não cobravam pelo serviço, mas cobravam as peças. Os caras tinham que colocar uma mangueira de cobre, um adaptadorzinho e trocar uma peça das bocas. O gás comum tem muita pressão, então a peça tem um furinho pequeno. O gás natural não tem pressão, então o furo tem de ser maior. Depois foi só mandar a distribuidora ligar o gás. O que eu gastei nessa brincadeirinha toda deu um fogão. Uma maravilha!

A máquina de lavar me assusta. Parece um dinossauro dormindo na minha casa.


Partilhar

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

CAIR E LEVANTAR >> Paulo Meireles Barguil


"O que dá pra rir, dá pra chorar" é um ditado popular que expressa o quanto a vida é subjetiva.

Um mesmo acontecimento pode ser sentido de forma antagônica por diferentes pessoas: as competições, esportivas ou não, exemplificam facilmente essa situação.

Há, também, aqueles momentos trágicos, que, após várias rotações e translações — da Terra e nossa — são motivo de alegria e alívio para a mesma pessoa que quase naufragou no passado.

O inverso também é frequente: momentos maravilhosos que, sem percebermos, escorrem entre os nossos dedos.

Não há como segurá-los...

Eles se vão e nos deixam um gosto amargo na boca e lágrimas que parecem não ter fim.

Como é possível se falar em manter o equilíbrio para alguém que acaba de cair no chão?

É claro que há uma diferença — substancial! — entre ter sido empurrado ou tropeçado...

O que importa, mesmo, é que há de se aceitar que cair faz parte da vida e o desafio é aprender a se levantar o mais rápido possível, em vez de ficar chorando e bradando que a vida não é justa.

Sim, é verdade: a vida não é justa, nem, tampouco, injusta.

Ela, simplesmente, o é!

Partilhar

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

QUE VENHAM AS SEGUNDAS IMPRESSÕES >> Mariana Scherma

2014 mal apontou na reta dos boxes e eu já fiz minha resolução para o ano que vem, que, na verdade, começou esses dias atrás. Nunca mais julgo ninguém à primeira vista. E esse definitivamente não é daquele tipo “nunca diga nunca”, é nunca mais mesmo. Tirar conclusões precipitadas sobre quem a gente mal conhece é a maior perda de tempo.

Vez ou outra, eu considero alguém antipático pelos critérios mais diversos: falta de um oi, falta de um sorriso, falta de mostrar os dentes no sorriso ou ainda me deixo levar pelas opiniões dos conhecidos. “Nossa, o Fulano tem mania de limpeza”. Ai, credo e cruz, não quero ser amiga de alguém fresco assim... Como se a questão limpeza influenciasse na amizade e na honestidade de alguém. Sem contar que as pessoas podem não mostrar os dentes ao sorrir porque acabaram de comer. Ou então não sorriem porque estão enfrentando seu pior dia do ano. A gente perde muito ao julgar. É muito mais frequente eu me encantar por alguém que, antes, julgava ser nada a ver do que me desencantar (não que os desencantos não aconteçam, fazem parte, ué).

Embora não mais julgar não seja garantia de que a gente não vai ser julgada, eu adoraria que as pessoas não criassem ilusões sobre mim à primeira vista. Conversando com uma conhecida dia desses, eu ouvi um sonoro:
_ Com essa cara de santa? Sério que você já fez isso?
E foi aí que pensei no quanto as primeiras impressões são mentirosas. Eu posso até ter cara de boazinha, mas devo estar bem lá para o final da lista de pessoas comuns a serem canonizadas. Não sou santa nem quero ser. Dá muito trabalho ser certinho o tempo todo.

Quando a gente julga, deixa escapar o fator surpresa, importantíssimo pra fazer a vida ter mais graça. Provavelmente, já fechei minha janela imaginária para um monte de supostas metidas, possíveis galinhas-demolidores-de-coração, fulanas muito maquiadas e (vai saber!)superficiais, pessoas que escrevem com certeza junto e com n, gente que lê auto-ajuda, anunciadores de banalidades no Facebook (“tá chovendo”, “tá calor”...). Quantas vezes nos esquecemos que ninguém é 100% chato ou sei lá qual defeito?


Eu cansei desse meu lado arrogantezinho. Vou me deixar surpreender pelas pessoas. E se alguém cruzar o meu caminho escrevendo concerteza, vou corrigir (porque eu não conseguiria deixar isso passar), mas não vou fechar a porta, não. Eu poderia terminar o texto dizendo que gente nunca sabe o que está perdendo, mas prefiro pensar que a gente mal sabe o que pode ganhar. É mais otimista. 


Partilhar

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

MINHA CAIXA >> Carla Dias >>


O que desejo é apenas uma casa.
Em verdade, Não é necessário que seja azul,
nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome. 
Do poema "Pedido quase uma prece", de Manoel de Barros.

Eu moro em uma caixa.

No canto da caixa, empilho livros que, ainda que demore, eu leio. Se me apaixono por algum, ele ganha uma pilha especial, aquela dedicada aos dos quais jamais me desfarei. Apaixonar-se por livros requer espaço, mas mesmo quando a caixa é pequena, dá-se um jeito de não abrir mão dessa boa companhia.

Acho curioso ter de dizer que amo livro físico, em época de livro digital. Mas ele não deixa de sê-lo, mesmo quando lido em tela de computador, que há alguns que mexem com a gente de um jeito, que fazem o corpo vibrar, que nos faz sentir sendo tocados pela palavra.

Na minha caixa não falta café fresco, principalmente em madrugada que espanta sono e inspira a escrever. Em pequenas pausas – para esticar o corpo e espiar do relógio que aponta que, daqui a pouco, é hora de ir para o trabalho – caminho descalça pela minha caixa. Gosto de andar descalça, de dormir no sofá, antes de ir para a cama, de passar mais de hora a contemplar horizonte da área de serviço. De fazer nada, enquanto vou mudando um tudo.

Minha caixa não é minha de verdade. Vivo um faz de conta com firma reconhecida em cartório e pagamento mensal. Durante longos períodos, consigo até acreditar que ela me pertence, não no sentido proprietário, mas de apropriação de sentido, que faz todo sentido senti-la minha, já que construo, em seus cantos e centros, a vida que levo.

Sempre há música na minha caixa, que não é triste. Há quem diga que preciso me desapegar e diminuir as horas que passo me perdendo nela, pensamentos atiçados, coreografia desajeitada para as canções de rock, olhos dela abertos para apreciação das pessoas que caminham pela rua. Acontece que sou moça de caixa mesmo, que gosta de aproveitá-la, de dividir seu espaço com o estar só, mas também produzir almoços com os amigos nela. Em dias de reunião de amigos, a caixa faz mais sentido ainda.

Eu vivo em uma caixa, com meus livros e meus discos, minha tevê, que adoro filmes, novelas e séries de televisão. Para mim, ela é um universo dentro do universo, um pedaço valioso da minha experiência de vida. Não é a primeira caixa, tampouco será a última. Não é prisão, ao contrário, é o lugar onde aprendi a liberdade ser. O lar, o lugar no qual descanso dos assombros e dos sonhos, onde recebo meus afetos.

Seja bem-vindo a minha caixa. Que todos possam ter a sua, e que não sejam as de papelão, debaixo das marquises. Que tenham direito ao logradouro, aos seus cantos para enfeitar como desejado, aos centros onde dançar, em grupos, aos pares ou só.

Imagem © Juja Kehl

carladias.com

Partilhar

domingo, 23 de novembro de 2014

A CIDADE DE VOLTA >> Whisner Fraga

A cidade deveria ser nossa. Dividida entre a vontade do poder instalado e o desejo da iniciativa privada, ela agoniza em sua missão disfuncional. Queremos nos mover, mas nos sentimos impotentes diante da imobilidade de uma urbe caótica e sem diretrizes. Como nos movimentar? De carro, de bicicleta, de trem? Aqueles que nos representam precisam decidir entre o transporte particular e o coletivo. É tarefa deles escolher o que priorizar. Assim, precisamos estar conscientes que, quando elegemos políticos, investimos no aumento ou na diminuição de emissão de poluentes, no acréscimo ou não dos velhos privilégios para poucos, na venda ou na recuperação de lugares públicos.

Precisamos nos desacostumar com a visão de que somos donos de espaços coletivos. A calçada não é nossa, aquele trecho entre a sarjeta e o meio da rua, onde os carros normalmente estacionam, não é nosso. O patrimônio da prefeitura não é nosso. Cabe a ela, cabe aos políticos instituídos democraticamente decidir o que fazer com o que é do povo. Construir escolas para a população que delas precisa, erigir bibliotecas, centros de convivência, parques, ciclovias. Deixar a cidade mais acessível e mais bonita.

Tenho a impressão de que a cidade foi vendida. Um filme a vinte reais, uma peça a quarenta, uma caminhada a dez reais, tudo tem preço e poucos podem pagar. Quando ouço uma pessoa, contrariada, afirmar que “gasta” duas horas para chegar ao trabalho, sinto pena. Porque o tempo não se vende, o tempo é um bem não renovável, não retornável. O tempo, aliás, não é um bem e não deveria ser negociado. O tempo é nossa vida.

O que fazer para recuperar uma cidade que talvez nunca tenha sido verdadeiramente nossa? A senhora lava o quintal de sua casa, o rapaz enxuga o carro na garagem e ambos pensam que a água é deles, porque pagam as contas em dia. A água não é deles. Precisamos aprender a pensar coletivamente. Se desperdiço algo, mesmo que tenha condições de bancar esse desperdício, faltará para alguém, talvez até para mim mesmo. Então eles espalham o medo: privilegiar o coletivo pode levar ao fim do privado.

Essa falta de educação produz violência. O trânsito mata cada dia mais. Nas ruas, a criminalidade aumenta. A desigualdade semeia a insatisfação. Precisamos de escolas, de parques, de bibliotecas, de clubes, de ciclovias, de transporte público eficiente, de fraternidade. Precisamos exigir a cidade de volta. Cidade é convivência pacífica. Respeito. Precisamos de acessibilidade para aqueles com déficit de mobilidade, precisamos de escolas que abram aos finais de semana para a comunidade de seu entorno, precisamos de livros disponíveis gratuitamente em cada esquina, precisamos de internet de graça e de qualidade. Precisamos nos tornar cidadãos para depois reivindicarmos a posse de nossa cidade.



Partilhar

sábado, 22 de novembro de 2014

PEQUENAS FARSAS >> Cristiana Moura

Fazíamos uma caminhada, um colega e eu. Ele disse: — vamos por aqui e pegamos um atalho. Não íamos ao trabalho ou a um passeio. Tratava-se de atividade física. Caminhada em si mesma. Atalho? Estranhei.

Na tarde do mesmo dia, a nutricionista orientou-me a tomar café descafeinado.
— Doutora, mas o que eu quero é a droga. É para acordar. — O descafeinado serve, efeito placebo.

Meu filho toma leite sem lactose, dos de soja. Leite é produto animal e de mamíferos. Soja não dá leite, não, não dá.

Antes de sair, pela manhã, disfarço as olheiras que moram comigo com corretivo entre outras maquiagens que me constroem a face e colorem meus sorrisos.

Na última quinta-feira, me peguei tomando um café (cafeinado mesmo) após o almoço. O cafezinho neste horário me ajuda com a dieta porque me serve de sobremesa. Este em especial acompanha três gotas, bem pequenas, de chocolate com menta. Um pedido feito assim: — um expresso, por favor! Não há de ser computado na dieta como sobremesa.

Fico aqui pensando quantas mais pequenas farsas compõem, disfarçadamente, os cotidianos.

Partilhar

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O CANDIDATO - PARTE II >> Zoraya Cesar

clique para ler O Candidato - Parte I

Antero estava obcecado em passar no concurso e em eliminar qualquer obstáculo em seu caminho. Cismou que aquele colega obeso e comilão, dentre todos os milhares de candidatos, era o único entrave à sua classificação. 

Como que de disposto a provocar Antero, um dia antes da prova, durante o último aulão, o colega acertou todas as questões, respondendo-as com a boca cheia de comida.

Os elevadores do prédio nunca funcionavam na hora da saída, provocando uma grande confusão de pernas, braços e mochilas enquanto os alunos desciam as escadas. Talvez isso explique o acidente.

Quem sabe, na confusão, Antero tenha sido empurrado, caindo sobre o invejado colega, que rolou pela escada, quebrando o braço e contundindo a cabeça. Ninguém sabe, ninguém viu o que aconteceu realmente. Mas sabemos que aquele candidato não fez a prova.

A mente – principalmente a doentia – é uma coisa curiosa. Aliviado em ver o concorrente fora do páreo, Antero fez a prova em estado de graça. Tinha certeza de que passaria.

Enquanto esperava o resultado, sonhava em chegar ao trabalho, com o Diário Oficial na mão, espanando sua nomeação, sua posse, sua libertação, no nariz de todos. Discursaria, emocionado e ácido, sobre os anos dedicados à empresa, sobre seguir novos rumos, e que velho e ultrapassado era a vovozinha. Do chefe. E revelaria o caso que este mantinha com a faxineira - casada com o chefe da segurança. Instalaria o caos e partiria, vitorioso.

Enfim, cada um com seus delírios, vamos ao que interessa. Antero passou? Sim. Foi classificado? Sim. Foi chamado? Não.

A vaga destinada a Antero ainda estava ocupada por um servidor que esperava a aposentadoria compulsória, dali a alguns meses. Meses? Antero surtou. Não agüentaria esperar meses.

Vociferava internamente que aquele velho não tinha mais nada a oferecer no trabalho, por que tanto apego, por que não ia jogar dominó na praça, ou aprendia a tricotar, ou se afogasse, qualquer coisa, mas que abrisse a vaga a quem ainda tinha alguns anos de trabalho pela frente. E que precisava, desesperadamente, oh, tão desesperadamente, daquela oportunidade.

Inconformado, dedicou-se a descobrir – tal qual fizera com o colega de curso – quem era o tal empecilho à sua felicidade. Não sei o que passava na cabeça de Antero enquanto seguia o sujeito, freqüentava os mesmos lugares, sentava-se ao seu lado nos transportes públicos. 

Mas sei que, um dia, durante sua corrida matinal, o velho servidor foi atropelado por um ciclista, no pior estilo hit and run e, ou devido às sequelas do acidente, ou porque sua hora havia chegado, o fato é que ele morreu pouco tempo depois.

Rei morto, rei posto. Antero pulou, gritou, exultou, pouco se importando com a desdita que se abatera sobre a família do falecido. Afinal, pensava, todos vamos morrer.

Entre o dia em que recebeu o telegrama convocatório e o dia em que deveria comparecer à repartição, Antero passou por uma marola de  azar. Primeiro, foi vítima de intoxicação alimentar que o deixou internado no hospital, após comer um camarão oferecido – como cortesia - por um ambulante na praia. Depois, foi empurrado ao descer de um ônibus. Podia ter morrido em ambas ocasiões.

No dia marcado para sua posse, Antero estava fora de si, tal a euforia. Talvez por isso não tenha prestado atenção ao atravessar a rua, pois, assim como o desinfeliz servidor a quem substituiria, foi atropelado. Por uma motocicleta. Sem entrar nos detalhes, seguramente mórbidos, do acidente, o fato é que Antero não tomou posse de outra vaga que não a de uma cova no Cemitério de São João Batista. 

Rei morto, rei posto. Longa vida ao rei. 

O próximo da lista de classificados foi chamado. Assim que assumiu, tratou de pagar a quem devia sua sorte. Tinha de garantir sua proteção, para não acabar como seus antecessores. A vida não estava fácil pra ninguém.  E, como já disse, entrar no serviço público mediante concurso equivale a uma luta renhida pela sobrevivência nos ambientes mais inóspitos e selvagens, uma guerra da qual apenas um sairá vivo. E, para vencer, tem gente capaz de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Antero que o diga  - se ainda pudesse dizer alguma coisa.

(Tomando cerveja e olhando o entardecer, Felipe Espada meditava. Um informante falara sobre uma nova máfia, envolvida em concursos públicos. 

A princípio, pensara tratar-se de licitações, mas o relato de estranhas coincidências lhe chegaram às mãos. Mortes de funcionários públicos prestes a se aposentar e de candidatos prestes a assumir vagas; sequestros-relâmpagos em dias de prova; intoxicação em turmas inteiras de concursandos, entre outros.

Felipe Espada tinha mais de 20 anos de polícia, reconhecido dentro e fora do país. E jamais acreditara em coincidências. 

Ligou para sua equipe. Que estivessem preparados. Uma nova investigação iria começar.)

Mais aventuras de Felipe Espada:







Partilhar

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A GRAMA DO PASSADO É SEMPRE MAIS VERDE >> Fernanda Pinho


Sofro de nostalgia. Sempre suspeitei mas cheguei ao diagnóstico definitivo semana passada, quando ouvi por um acaso uma música que tocou muito nas rádios (e na MTV, que ainda existia e era legal) nos idos de 2003 e 2004. Fui envolvida por uma sensação tão boa durante aqueles quatro minutos e pouco, como se aquela tivesse sido a melhor época da minha vida. E, posso apostar, se tivesse me aparecido um gênio da lâmpada durante aqueles quatro minutos e pouco e me sugerido uma voltinha por aquele passado eu teria topado sem nem pestanejar (acho essa expressão "sem pestanejar" legal, embora nenhuma das minhas decisões estejam vinculadas ao ato de pestanejar). 

Depois que a música e a magia daquele momento acabaram, porém, me veio uma lembrança muito forte, estilhaçando o momento: "mas, peraí, eu odiava essa música". Odiava mesmo, achava chata repetitiva, pegajosa e irritante. Aliás, talvez nem fosse culpa da música, mas do momento em que eu estava que, por uma série de fatores, tendia a achar tudo irritante. Como tenho uma memória violentamente boa para datas, remontei minha situação da época. Não era a pior vida do mundo (justiça seja feita, a minha vida sempre passou longe de ser a pior do mundo), mas tampouco era a vida que eu queria. O que eu queria naquela época era exatamente o que eu tenho agora (com exceção dos dez quilos a mais que eu nunca quis mas, tudo bem. Não sou Deus. Nem juiz.).

Cortei minha onda imediatamente e caí na real. O saudosismo é um aval para a gente reclamar do agora como se a grama do passado sempre tivesse sido mais verde. "Antigamente é que era bom". Depende do conceito de "bom". Vamos lá. Ter que rebobinar a fita sob o risco de pagar multa na locadora: um saco. Ficar o dia grudado na rádio esperando passar a música preferida para gravar com a participação especial do locutor fazendo merchan por cima do refrão: um exercício de paciência tibetana. Esperar dar meia noite para conectar à internet: uma tortura. Deixar o telefone ocupado durante o uso da internet e ter que dividir um computador com todos os moradores da casa: motivo de altas tretas familiares. Não poder sair de casa porque estava esperando uma ligação: um porre. Ser criança e ter o desenho interrompido pela propaganda eleitoral gratuita, sem Youtube ou TV a cabo como alternativa: traumatizante. Só conseguir ver nossos artistas preferidos fazendo dublagens medíocres em programas de auditório: o fim da picada. Perder o contato com pessoas maravilhosas que viviam longe por causa do preço do interurbano e da morosidade dos Correios: triste. Chamar autoretrato de selfie: ah, não, isso era legal. Nem sei porque mudou. Poder tirar apenas 36 fotos em um mês de férias, sob o risco de 3 fotos queimarem, em outras 3 cortarem sua cabeça e mais 3 saírem tremidas, chegando a um pífio número de 27 fotos úteis: deprimente.

Então, minha gente (ou Fernanda do futuro), vamos aproveitar esses tempos loucos de selfie, fotos de comida do Instagram, grupos de fofocas no Whatsapp e pegação via Tinder. Tempos em que relacionamentos nascem, crescem e morrem por culpa das redes sociais, em que ainda podemos pular a maioria dos anúncios do Youtube, em que podemos acessar qualquer informação via internet. Acompanhemos os memes, as it girls e as blogueiras fitness. Vamos dar uma chance para o best seller do ano e para o restaurante do momento. Vamos aceitar os convites mesmo sendo necessário camuflar uma preguicinha secreta. Porque chegará o dia em que tocará Happy, de Pharrell Williams, no rádio (ou dispositivo semelhante) e uma lágrima de saudades rolará por nossos olhos. 


Partilhar

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

RESSALVA >> Carla Dias >>


Boca que não se abre para dizer palavras, quando tudo que o momento pede é declaração, aprisiona um sem número de possibilidades. Como a de posicionar sentimento no canto que lhe cabe, naquele capaz de abrigá-lo e nutri-lo, equilibrá-lo ao entorno da alma.

Que esse arrabalde, no qual se deitam as meninas-alegrias, quando esquecido de vez as leva a sucumbir ao vazio. Nada contra o vazio, contanto que ele não fique por tanto tempo deserto. Esvaziar-se é preciso, que coração não se dá bem com lotação de impropérios. Esvazia-se para então reaver o que realmente lhe é importante.

Cogita lançar ao mundo a frase feita que mais lhe agrada: o que tiver de ser será. Sabe que ela é vedete em muitas canções ruins, e de poemas indignos de serem considerados tais. Ainda assim, a ideia de dizê-la, reverberar o som das palavras dessa frase, faz com que seu corpo se alimente de certo tremor. Até uma frase feita, maltratada na sua aplicação, com seu sentido às vezes atravancado pela ironia, pode mudar um tudo.

Um tudo feito este, quando ele se curva sobre alambrado, observa vinte e seis andares abaixo de si. Quando o vento lhe bate barulhento, fazendo com que ele engula suspiro, quase se engasgue com ele. Lá embaixo, telhados de casas, ruas arborizadas, uma paz que é paz porque é definida pela distância. Ele sabe que se olhasse de perto, enxergaria as violências cotidianas.

Seu silêncio se refestela pesado no recinto. Ela diz, e as palavras ecoam pelos cômodos da casa, agudas, enfatizadas pelo desejo de finalizar enredo. Ele não compreende quando foi que isso aconteceu; que eles começaram a caminhar pela casa sem que seus olhares se encontrassem, ou um se deitava mais cedo, para se poupar da conversa fiada de antes de dormir.

Ela diz todas as palavras que deseja, desprende-as do peito, jogando-as ao mundo. Não se importa se para ele as tais parecem indigestas.

Não pode dizer que não tentou. Quantos são os que tentam e, ainda assim, acaba dando tudo errado? Viver junto, de conjunto, de companheirismo, de parceria, de chamego, de conta conjunta, de tevê na sala, no quarto e na cozinha, da disputa pela varanda, da seriedade das conversas, da aposta para ver quem fará supermercado, não é fácil. Não funciona com fórmulas. Quando ela silencia, ele escuta passos apressados e porta sendo batida. Então, respira fundo. Abre a boca e diz: o que tinha de ser se foi...

Não pode culpá-la, tampouco a si. Eles foram pegos de jeito por outras tantas frases feitas, ferramentas que, utilizadas homeopaticamente, cultivam muros, arpejam afastamento.

Recolhe-se ao quarto, deita em sua cama king size, chora a falta fresca, a saudade no prefácio, os espaços da casa esvaziados da presença dela, que sempre reclamou da moderação de palavras dele ao verbalizar o amor que antes jurou que sentia por ela.

Imagem © freeimages.com 



Partilhar

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Desafiando Murphy >> Clara Braga

Murphy tinha tudo para ser um cara bacana! Super presente, participativo, pontual, só é um pouco egoísta, mas sendo realista, quem não é? Pena que, como alguns, decidiu usar todo seu potencial no lado negro da força. E ainda foram inventar de criar uma lei que leva o nome dele, massagearam o ego errado!

Ultimamente ele tem sido tão presente que já estou até começando a gostar dele. Quando o trabalho começa a dobrar, quando as coisas começam a dar uma leve desandada e você começa a se descabelar e ter olheiras, calma, isso significa que logo as férias irão chegar e você está apenas trabalhando tudo que irá descansar depois. Ah, tinha planos de ler livros, assistir filmes, fazer uma viagem rápida de fim de semana e começar a praticar corrida ao ar livre? Esquece, sempre que você pede por férias alega estar cansado, então se é descanso que você quer é descanso que terá.

Deixe nas mãos de Murphy, ele se encarregará de tirar todos os filmes bons de cartaz, esgotar todas as edições daquele livro maravilhoso, jogar os preços das pousadas na lua e fazer chover muito!

É Murphy, mas dessa vez eu tenho algo para lhe dizer: já existe o itunes, o netflix, a wifi e a internet 4G! Se ainda assim você derrubar todos os acessos à rede e acabar com a luz, não tem problema! Já existem também os livros em formato e-book, lerei no meu tablet com energia 100% carregada! E se a carga acabar antes de voltar a luz? Há! Farei a minha corrida ao ar livre, e se chover, levarei Murphy para aquela academia ótima com preço super acessível!

É Murphy, assuma, por essa você não esperava! Estou preparadíssima para o nosso próximo encontro! Se prepare para lutar, ou se renda de uma vez e senta no sofá comigo, tenho certeza que poderemos nos tornar grandes amigos! A escolha é sua!


Partilhar

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

CRIME OU PECADO? >> Albir José Inácio da Silva

Nem quis ouvir o restante da história, arrastou o filho pelas vielas abaixo. Também, ele começou pelo final, pela bomba, pelo crime e, o que é pior, parecia ter muito orgulho do que fez.
            
O moleque já tinha se envolvido em coisa ruim, mas melhorou de uns tempos para cá. Voltou pra escola, jogava futebol, ia à missa e, no ano que vem, se apresentaria no quartel. Tinha que fazer besteira de novo!

- O que é que foi, mãe, cê tá devendo alguma coisa pro movimento? Virou X9? Por que a gente tá fugindo? – Ainda se fazia de desentendido, o crapuloso.

Esgueiravam-se pela noite, quando foram parados por dois soldados do tráfico que fumavam baseado. Mas foram logo reconhecidos, e prosseguiram.

Já quase no asfalto, havia uma patrulhinha displicente, com dois PMs que nem olharam pra eles. Mas Dona Chica tremeu, tropeçou, quase desmaiou. O menino não estava entendendo. O que dera na sua mãe? Desorientado, ele não tinha direito a explicações, só a andar, quase correr.

Contornaram a igreja e Dona Chica socou a porta da casa paroquial. O padre sabia que àquela hora era problema. Abriu a porta, e a mulher quase caiu em cima dele.

- Padre, me ajuda! Esse menino dessa vez passou do limite. Tá querendo morrer essa praga. O que ele fez é uma blasfêmia, padre. Vai preso, matado e carregado pro inferno.

- E desde quando alguém vai preso por blasfêmia, Chica? Deixa de maluquice! Isso aqui não é o Afeganistão!

- Padre, com Deus não se brinca! Esse peste tá perdido. Já devem tá procurando ele!

Isso não estava cheirando bem. O padre não queria se envolver, não gostava de polícia. A polícia não gostava dele, dizia que ele protegia vagabundo.

- Chica, eu já estou perdendo a paciência com você! Afinal, o que foi que esse moleque fez? Matou alguém?

- Matou não, Padre, que o ofendido não morre. E, se morrer, ressuscita. Fez pior: falou prum juiz que ele não é Deus!

Não se pode dizer que o padre se tranquilizou, mas relaxou um pouco.

- E aonde foi isso? No tribunal ou na rua?

Dona Chica olhou pro filho, que finalmente pôde falar:

- Na vila olímpica. É juiz de futebol.

Dona Chica pegou o chinelo pra bater na cara do garoto, mas foram ambos expulsos. Ela ainda conseguiu dizer:

- Seu padre, juiz de futebol não é Deus, mas é juiz. Deve ser santo pelo menos. Não é melhor o senhor receitar alguma penitência e umas ave-marias?                


Partilhar

sábado, 15 de novembro de 2014

CEBOLAS >> Sergio Geia

Há mais mistérios entre a faca e a cebola do que sonha a nossa vã filosofia. Mais que uma simples cachoeira lacrimal, o prosaico ato do debulhe pode lhe proporcionar outras coisas, muitas coisas, coisas que você decerto nunca imaginou.  

Existe toda uma simbologia por detrás da cebola. Ramakrishna, por exemplo, compara a estrutura folhada do bulbo à própria estrutura do ego, que a experiência espiritual debulha camada por camada até a vacuidade. A partir daí nada mais constitui obstáculo ao espírito universal, à fusão com Brama. Os egípcios tinham como grande curandeira quem? Quem? Você adivinha? A cebola. Os latinos, segundo Plutarco, proibiam o uso do bulbo, porque acreditavam que ele crescia quando a lua diminuía. Quanto ao cheiro, provocava um sentimento de força vital. Virtudes afrodisíacas lhe são igualmente atribuídas, tanto por sua composição química quanto por suas sugestões imaginativas. Está tudo na internet.

A umbanda trabalha ritualisticamente a cebola em banhos e defumações. Ela desagrega energias negativas de conotação sexual e afasta fluidos indesejados. Muitas das cúpulas das igrejas ortodoxas têm o formato de elmo que lembra o guerreiro, e a luta da igreja contra as forças do mal, ou a forma acebolada (bulbo), simbolizando uma vela. Na antiguidade, na Festa da Primavera, os orientais davam de presente ovos naturais embrulhados em cascas de cebola.

Neruda disse que cebolas são como rosas de água com escamas de cristal. Há diversas simpatias em que a cebola não é uma mera coadjuvante. Você pode, por exemplo, afastar os inimigos escrevendo, no dia da entrada da lua minguante, o nome do sujeito num papel e enfiando o papel na parte superior da cebola, cobrindo a cebola com papel alumínio e deixando no freezer até a próxima entrada da lua minguante. Dizem até que shampoo de cebola contribui para o crescimento capilar. Eu, hein!

Ogros são como cebolas. Lembra não? Há mais do que se imagina nos ogros: cebolas. Aí o burro diz: “Fede? Faz você chorar? Deixa ele no sol, ele fica marrom e solta aquele cabelinho?” Nada disso. Camadas. Os ogros são como cebolas porque têm camadas. E o ser humano também.

Trata-se de um recurso metafórico, evidente, mas a cebola, Shrek, o ser humano, todos têm muito em comum. Nossa camada de cascas impede a manifestação da essência, do eu verdadeiro, e isso é muito, muito ruim. A armadura nos faz ser quem não somos. Debulhar o trigo como na música, ou a cebola, ou tirar simplesmente a armadura do cavaleiro de Fisher, talvez não seja tão difícil assim quanto tirar as nossas armaduras, simplesmente por causa de um pequeno detalhe: não as vemos.

Escuto alguém dizer que a vida cria camadas. Elas se formam, pouco a pouco, e a gente nem percebe. São nossas armaduras, nossos mecanismos de defesa. Elas transformam o ser humano puro num cavaleiro de armadura. Ficamos cascudos. Quando o cavaleiro quis tirar a armadura ele não conseguiu. Viu-se preso. Foi pedir ajuda. Somos como o cavaleiro de Fisher. Cebolões, isso sim. Cebolões. Hoje, na Quinta Vista Bella, quero ter um encontro com as minhas camadas. Quero debulhá-las. Todas.


Partilhar

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NEXOS >> Paulo Meireles Barguil



Solto altas gargalhadas internas quando ouço as pessoas dizerem que nunca estivemos tão conectados!

Penso exatamente o contrário: nunca estivemos tão desconectados, conosco e com os outros.

Mais adequado seria dizer que nunca, na História da Humanidade, estivemos tão plugados...

Nexum, em latim, de onde se origina nexo, significa, conforme o Houaiss, atar, ligar, travar, entrelaçar, unir e prender.

A Humanidade, há milênios, busca entender o Universo, bem como a natureza desse safári ontológico, em que cada pessoa é, ao mesmo tempo, caça e caçador, como já cantara Milton Nascimento, em Caçador de mim.

Há quem defenda que a existência, o sentido do mundo está nele mesmo, não sendo necessária a participação, a intervenção do Homem.

Outros, contudo, argumentam que, sem o Homem, o mundo não existe, pois é aquele que ratifica a existência desse.

Piaget, no século passado, diferenciara duas formas de o Homem conhecer o mundo: a abstração empírica – somente mediante a observação – e a abstração reflexiva – relação, conexão entre objetos, acontecimentos.

Embora ambas estejam relacionadas, elas se diferenciam pelo tempo dedicado e o produto alcançado.

Se na abstração empírica é possível se pensar em percepções semelhantes, o mesmo não se pode imaginar na abstração reflexiva.

Ao que consta, Buda ensinou que o caminho do meio, aquele que fica entre os extremos, nos leva ao equilíbrio.

A aceitação disso, contudo, não é suficiente porque permanece o desafio de encontrar os limites, que raramente são apenas dois, e balancear aspectos não quantificáveis...

Postulo que o sentido do mundo não está nele, mas é elaborado por cada pessoa, os quais se modificam infinitamente.

A enxurrada de estímulos proporcionada por variadas parafernálias tecnológicas, que estão cada vez mais disponíveis, não tem o poder de nos integrar, mas talvez para o contrário...

Devoradores de pixels, o Homem se vicia nesse tipo de alimento, que o nutre cada vez menos, fazendo com que ele o busque em doses crescentes, ao mesmo tempo em que contribui para o desenvolvimento de percepção fragmentada da realidade.

Transferimos, sem que percebamos, parte significativa da nossa identidade para tais aparatos e nos tornamos objetos deles, quando deveria ser o contrário...

Permanece, contudo, e se amplia, a necessidade de ser visto e valorizado, tal como facilmente se constata nos selfies e respectivas postagens.

— Veja o que eu estou fazendo! Veja como eu sou feliz! Veja como eu sou demais! — gritamos no fundo da caverna, na esperança de que alguém estabeleça, pelo menos, um meteórico contato: curti!.

Que sorte quando alguém comenta!

Que maravilha quando uma conversa se estabelece.

Fomos infectados, e não sabemos, por um vírus parasita, que se alimenta das nossas riquezas mais profundas, exaurindo-as.

O Homem é resultado do que se alimenta e da forma como digere os respectivos nutrientes.

O tempo outrora dedicado à preparação da refeição e à degustação, momentos fundamentais no equilíbrio pessoal, pois frutos do autocuidado, é canalizado à deglutição voraz.

— Eu não tenho tempo! — dizemos, visivelmente alterados, a todo momento — enquanto corremos de um lado para outro, na horizontal ou na vertical.

A qualidade das nossas conexões, nos nossos vínculos, internos e externos, é influenciada pelo que ingerimos e como o fazemos, e não pela quantidade do que engolimos...

Essa crônica tem nexo?

Partilhar

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

DAS PEQUENAS OBSESSÕES >> Mariana Scherma

Já tem alguns bons anos que esmalte colorido virou febre. Febre amarela, febre vermelha, febre azul-royal, febre azul-piscina, febre apenas... Ah, antes de continuar aqui, desculpe você aí, mas hoje vou escrever sobre um assunto mulherzinha. Eu comecei comprando um ou outro e, quando me mudei para o atual apartamento, vi que havia enchido duas gavetas do armário do banheiro apenas de esmalte. Passados três anos que moro nesse apartamento, os esmaltes foram dando cria e sendo guardados até no armário da cozinha (é, eu tenho mais esmalte que panela e prato, isso pode dizer algumas coisas sobre mim, eu sei).

Achei absurda a quantidade e resolvi dar embora alguns e jogar os mais velhos e quase no fim fora. O objetivo era voltar às duas gavetas iniciais. Cheguei ao meu objetivo de “apenas” duas gavetas de esmaltes separados por tonalidades (cores quentes na gaveta de baixo, cores frias na de cima) e cheguei também à conclusão de que a indústria de cosmético me faz de palhaça. Ãham. Dos 30 (tô chutando esse número, porque pode ser mais, bem mais) tipos de azul, alguns são idênticos, só mudam a marca. E por que eu compro se são iguais? Por que uma marca lançou primeiro, mas a segunda tem duração maior e a terceira, ai, estava tão baratinha! Quem é que precisa de 30 a poucos esmaltes azuis idênticos? Não, eu não preciso.

Mas eu adoro. Tanto. Meu humor ficar melhor quando minhas unhas estão coloridas. E, de tanto usar cores diferentes para as unhas, senti que elas atraem mais simpatia das pessoas. Existe algum código entre quem gosta desse tipo de cor e você faz amigas, do nada, só porque está usando um novo tom de coral nas unhas. “Qual é a cor?”, “que unha linda!”, “adorei sua unha” são as frases mais comuns entre as adoradoras de esmalte. Nós formamos um time, que lança um olhar de amizade graças às cores nas pontas dos seus dedos.

Talvez, por isso eu me sinta mais feliz com as unhas em tons variados. É a explicação mais lógica. Você faz conhecidas-possíveis-amigas só por ter colocado um pinguinho de cor no mundo. E por esse motivo, apenas por esse, não vou ficar brava com a indústria de esmaltes. Afinal, eles fizeram as mulheres mais próximas, quem aí mesmo disse que mulher só sabe competir com outra mulher? Mas uma coisa é certa (ou quase certa): não compro mais esmaltes tão cedo. Ou talvez compre, caso lancem alguma cor-praticamente-igual-a-que-eu-já-tenho-mas-um-pouquinho-diferente. Como diria meu amigo: mulheres, vai entender...


Partilhar

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ESCUTAR É PRECISO >> Carla Dias >>

Nos últimos dias, eu não consigo tirar da cabeça um filme que assisti há algum tempo. Um Conto Chinês é muito interessante, e em diversos aspectos. Então, essa lembrança me levou a outro filme: Cookie.


Um Conto Chinês (Um cuento chino/2011) e Cookie (2013) têm algo em comum: um chinês que não fala o idioma de quem o acolhe. Um Conto Chinês fala sobre um homem solitário, que coleciona artigos de jornais sobre casos curiosos, e um chinês que está em busca de seu tio. Em Cookie, a empregada chinesa de uma mulher que perdeu o marido e o filho em um acidente de carro desaparece, deixando o filho aos cuidados da patroa e um endereço falso.


Ambos os filmes tratam, essencialmente, do poder da comunicação. Quando estamos dispostos, ao acessarmos a empatia nos tornamos capazes de elevar a nossa capacidade de entendimento.

Sou suspeita para falar sobre Ricardo Darín, porque sou fã do ator, assisto a todos os filmes dele. Especialmente em Um Conto Chinês, ele está genial, porque se trata de um personagem acostumado à solidão, mal-humorado, com uma rotina repleta de detalhes, rituais que o mantém enclausurado em seu universo. Quando a vida de Roberto é invadida pelo chinês Jun (Ignacio Huang), que não fala uma palavra em espanhol, ao mesmo tempo em que ele lida com a volta de um antigo afeto, Mari (Muriel Santa Ana), ele reluta, mas acaba por se envolver pela vida dessas pessoas. Ignacio Huang está sensacional no filme. É muito clara a sintonia entre Darín e Huang, o que só enriquece a trama.


Em Cookie, Adeline (Alice Taglioni) é uma aeromoça que, ainda adolescente, perdeu o marido e o filho em um acidente. Depois disso, isolou-se, permitindo que somente sua irmã e cunhado façam parte de sua vida. A empregada de Adeline é chinesa, e pede para que a patroa cuide de seu filho, enquanto ela resolve um sério problema muito. A empregada não volta, e Adeline descobre que o endereço que ela lhe deu é falso. A partir daí, enquanto busca informações sobre o desparecimento da empregada, ela é obrigada a lidar com uma criança da qual não sabe nem mesmo o nome.


Esses filmes não me voltaram à memória à toa, e não apenas porque são ótimos e me fez bem assisti-los. Em um momento em que tem sido raro se escutar o que o outro tem a dizer - sem impor o seu próprio ponto de vista como certo e imutável -, a ideia de se aprender a escutar o outro, ainda que não seja possível se compreender o dito, em um primeiro momento, me enche de esperança. Quem sabe, dia desses, seremos menos intolerantes ao impormos nossas certezas, e mais gentis com a compreensão de que dialogar ainda é a melhor forma de se chegar a um bom desfecho. E o faremos sem pressa, que compreender outro idioma (pensamento), com o qual não se teve qualquer contato antes, leva tempo e pede por paciência.

carladias.com



Partilhar

domingo, 9 de novembro de 2014

ALGO SOBRE CLÁSSICOS >> Whisner Fraga

Gosto de futebol. Muitos escritores esnobam o esporte e, talvez por isso, haja tão pouca ficção produzida sobre o tema. Não sou um fanático. Acho todo tipo de fanatismo uma afronta à democracia e ao direito do outro. Tampouco sou um expert no assunto. Gosto mesmo é de me sentar à frente da televisão e assistir às jogadas engenhosas dos atletas em campo. Considero este um momento de descanso das adversidades do cotidiano.

Não entendo essa “paixão” exagerada de torcedores que fazem do resultado de uma partida motivo para guerras. A imprensa divulga, após cada clássico em nossos estádios, o saldo dessas batalhas: mortes, violência, covardia. Como justificar que o fato de nosso time ter perdido é motivo o bastante para ameaçar outro cidadão? E não apenas amedrontar, mas ir às vias de fato. Culpam as torcidas organizadas, mas isso é buscar uma solução fácil para um problema maior: o espírito belicoso presente na natureza humana.

Por isso vou muito pouco a estádios. Não são lugares seguros, não caiam na besteira de levar suas crianças para assistir a jogos, principalmente os clássicos. Como regra básica de segurança, não vista a camisa de seu time, pois assim seu inimigo o achará mais facilmente. Não torça com muita veemência e, ao sair para a rua, pare de torcer. De preferência fique em casa.

Não consigo entender como uma pessoa elege uma equipe e passa a sofrer e a se deleitar tanto com ela. Como alguém decide que o seu time é o Santos? Ou o Cruzeiro? Ou o Palmeiras? Sei que tem muito aí de herança. Os pais que compram uniformes para os filhos, ainda bebês, os amigos que o convencem que tal jogador é um gênio e, coincidência, ele é um atleta do time X! Até aí conseguimos compreender. O que é estranho é testemunhar a adoração que se segue à escolha. Como explicar a depressão que aparece após uma derrota?

Tentei entender os motivos que elegi o Palmeiras como meu time preferido. E, diante até da situação do time nos últimos anos, acho que resolvi o enigma. Gosto de torcer pelo mais fraco. Acho que a história de Davi e Golias, que ouvi ainda muito criança, me influenciou muito. Torço descaradamente por aquele último colocado na corrida de fórmula 1, pelo lutador mais franzino no ringue, pelo pior atleta das olimpíadas. Sempre ao lado dos piores.

Lembro-me, assim, inevitavelmente, daquela corredora das olimpíadas de 1984, a Gabrielle Andersen. Cambaleia na pista, faz caretas, parece que podemos ouvir seus gemidos de dor. Qual ser-humano neste mundo que deixou de se afligir com aquele esforço descomunal? Todos queríamos ser ela, todos desejamos que ela se superasse e cruzasse logo a linha de chegada. Perdeu o sentido honrar o vencedor daquela prova. Curvamo-nos à beleza do esporte. E não poderia ser assim após cada partida de futebol?

Partilhar

sábado, 8 de novembro de 2014

ANTES EU VIVIA ANESTESIADA >> Cristiana Moura

O Sol mal nascera e a moça, já de pé, preparava o café para os patrões. Arrumava, lavava, limpava. Fazia o almoço, servia, comia. Depois arrumava, lavava, limpava. Já era hora do jantar. Já passava da hora de dormir. No dia seguinte os afazeres se repetiam. E no outro. E mais um. Nos intervalos Jô criava Vitória ao mesmo tempo que a menina se criava entre a escola e o brincar pelos jardins do casarão.

Certa vez acordou com um cansaço tanto. Não estava cansada de ontem. Nem era cansaço da semana mais intensa de trabalho na casa que recebera hóspedes. Já não havia juventude. Já im-se vinte anos e Jô se cansara dos dias iguais e sem tempo pra pensar seja lá no que fosse. Pensar vida sendo vivida. Deu-se conta que vivia à revelia de si mesma.

Arrumou as malas. Despediu-se sem grandes afetos. Trocou o trabalho de todos os dias e todas as noites em uma casa só por trabalhos em residências diferentes a cada dia. Pessoas outras. Novos trajetos pela cidade.

— Agora, sou dona da minha vida — ouvi-la dizer — Antes eu vivia anestesiada.

Noutro dia cheguei em casa um pouco mais cedo que de costume, por volta das dezenove horas. Jô ainda estava lá.

— O que você está fazendo aqui uma hora dessas?
— Dona Cristiana, eu vou fazer o quê? Não gosto de televisão. Gosto é de deixar tudo arrumado. Não tenho outra coisa pra fazer não.

Jô desaprendera os prazeres simples. Trabalhava por hábito, por necessidade, por lazer.
Vitória que estudava no curso técnico de administração e se preparava para fazer a faculdade na mesma área, já não a requisitava.

— Jô, e não tem uma praça perto da sua casa?
— Tem sim senhora.
— E você não tem amigos, paqueras?
— De homem eu não quero mais saber não, mas tenho amigas sim. E tem a minha irmã também.
— Pois então, quando der quatro e meia você vai embora passear na praça com as amigas, irmã, ou outro passeio.
— É mesmo, né? É que não tenho é costume de diversão.

Jô passou a experimentar novos passeios. Passou a experimentar a cidade. Ela vai sentindo os novos gostos do dia a dia. Dia desses me contava que estava ouvindo os pássaros cantarem.

— Será que eles não cantavam antes ou era eu que além de cega para a vida que eu levava também estava surda?
— Não importa, Jô. Você pode ouvi-los agora.

E nos fins de tarde Jô passeia traçando novos trajetos pelas ruas da cidade, pelos afetos, pela vida.



Partilhar

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O CANDIDATO - PARTE I >> Zoraya Cesar

A gota d’água transbordou o copo no dia em que o chefe insinuou que a empresa precisava ousar mais, renovar a equipe, trazer novas ideias, abandonar antigos ideais.

Voltou pra casa arrasado e apavorado. Aos 48 anos, não tinha mais chance no mercado de trabalho. De que adiantam, pensava ele, minhas especializações, meus upgrades, a fortuna despendida com cursos...com cursos... a sonoridade da frase levou-o por outros caminhos. E um desses caminhos levou-o à banca de jornal, onde publicações especializadas anunciavam, enfaticamente, que ali estava a solução de todos os seus problemas.

O emprego de seus sonhos, a estabilidade financeira e a aposentadoria garantida. Um concurso justo, sem discriminação de idade, sexo ou raça, o que era ideal, pois ele perderia em todos esses quesitos. Bastava matricular-se num dos inúmeros cursos oferecidos, estudar em casa e voilà! Virava um servidor público, a nata da sociedade, the best of the best, um afortunado, o paraíso logo ali. 

Decidiu-se na mesma hora. Faria um concurso público, passaria em primeiro lugar, afinal, era um homem inteligente, e mandaria seu chefe e seu emprego atuais se f... ferrarem. A bem da verdade, a perspectiva de xingar o chefe e largar o emprego foram os motes condutores que o estimularam a fazer tudo o que se seguiu dali por diante. Tudo mesmo. Virou uma obsessão. Passar no concurso? Não. Dizer poucas e boas àquele cretino e chutar o pau da barraca que sustentava, ainda que fragilmente, o seu emprego.

(E, vocês sabem, obsessões têm vida própria. Aguardem)

Prestar concurso público é entrar em um mundo novo, onde os fracos não têm vez. São muitas as pedras a serem afastadas do caminho: escolher um concurso dentre os inúmeros oferecidos, estudar as matérias de acordo com a banca examinadora (há provas que são verdadeiros testes de abstração surreal); verificar o nível das exigências (alguns cobram tanta especialização do candidato, que mais parecem concurso para astronauta da Nasa). Ele procurou cuidadosamente – não podia chegar ao trabalho e jogar na cara do chefe: “passei num concurso público, agora sou merendeiro”.

Por fim, escolheu um concurso, matriculou-se em um curso preparatório e encontrou a última pedreira: a relação candidato/vaga. Não é possível, espantou-se, alguma coisa estava errada, tem mais candidatos que seres no planeta! 

Seu desconforto piorou no primeiro dia de aula, ao ver a sala repleta de... jovens. Revoltou-se. Esse pessoal deveria aproveitar para ir à praia, e não tirar a vez de quem não tem mais lugar no mundo. Se eu tive que me esfalfar, suar o pão de cada dia, dar a volta no parafuso para conquistar espaço no mercado de trabalho durante mais de 20 anos para, ao final, ser jogado fora, por que eles também não deveriam passar por isso? Era injusto, muito injusto, furibundava-se

Na turma de Antero (sim, eis o nome do nosso amigo de hoje, desculpem, esqueci-me de apresentá-lo) havia um rapaz quase obeso, óculos fundo de garrafa, que passava as aulas mastigando batatas fritas e bolinhos ana maria com a boca aberta, o que dava nos nervos de Antero. Mas o que o deixou realmente incomodado foi ver que o glutão era uma máquina de estudos. Fazia perguntas pertinentes, levava referências bibliográficas, tinha tudo na ponta da língua. Um concorrente de peso.

Antero desgastava-se por dentro. Começou a crescer nele um ódio inexplicável. Projetou no colega toda a raiva que sentia pelos outros candidatos jovens que estavam a disputar-lhe a vaga, a vaga que era sua, de direito. Esse ódio, num primeiro momento, estimulou Antero a alcançar o mesmo nível de conhecimento do colega: se esse nerd gordo pode passar no concurso, pensava ele, eu também posso. 

Não sei precisar com exatidão quando o estímulo acabou por empurrar Antero para o lado negro da força e passou a alimentar sua obsessão em passar no concurso, largar o emprego, xingar o chefe; talvez no dia em que o colega acertou todas as questões de um teste de raciocínio lógico. Antero teve ímpetos reais de bater nele, fazê-lo engolir, de uma vez, todas as batatinhas que comia durante a aula. 

Posso não saber quando ou por que exatamente Antero passou a concentrar naquele colega em especial a raiva que sentia em ver tanta gente concorrendo por “sua” vaga, mas posso dizer, com certeza, como isso se manifestou. 

Antero iniciou um processo muito parecido com stalking, numa versão mais leve. Descobriu onde o colega morava, criou um falso perfil no facebook para seguir suas publicações, comprava os mesmos livros, sentava-se perto dele.

Disputar uma vaga para o serviço público, hoje em dia, é algo muito parecido com uma briga de foice num quarto escuro, trancado, de onde só um concorrente sai vivo. O dia da prova estava chegando e Antero decidiu que era hora de diminuir as chances da concorrência. 

Continua na 6ª feira, dia 21 de novembro



Partilhar

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

OS PAIS DA FILHA >> Carla Dias >>


O pão amanhecido feito ela. Ela que não colocou a cabeça no travesseiro, passando a noite acompanhada dos pensamentos vãos. Foram quinze cigarros apagados quando pela metade, no quando ela se lembrava de que tinha medo de ficar doente por causa deles. O pai a iniciara na arte de ser fumante, quando ela ainda tinha oito anos de idade. Ela chorou de fome e ele a alimentou com seu vício preferido. Anos depois, ele faleceu prejudicado pelo prazer, sofrendo um bocado, antes do fim. Ela assistiu a tudo, sendo a responsável pela vigília e por alimentá-lo, como um dia ele fez por ela.

A mãe era linda, tinha o tipo de lindeza de extasiar homens e mulheres. As crianças a adoravam, talvez pelo tom angelical de seu olhar. Particularmente, ela odiava crianças, que achava que elas demandavam trabalho extra, o que não a interessava. Por isso que, de acordo com a sua avó, claramente desapontada com a filha, sua mãe escolheu a completa indiferença à maternidade. Ela fora um erro, não de cálculo, mas de escolha, que se fosse para parir filho, a mãe dela teria escolhido alguém mais apessoado, que fizesse a cria nascer com beleza combinando com a dela, como costumam algumas madames combinarem-se com seus animais de estimação. Ela nasceu de uma noite de flerte e drinques.

A avó lhe criou bem, mas os estragos foram plantados nela muito cedo pelos pais.  Deu muito trabalho à senhora com boas intenções, que tentou lhe ensinar que a vida era mais do que cigarros e bebida. Ela aprendeu, não pode negar. Aprendeu que a vida era mais, porém os vícios dos pais também alimentaram a sua existência, representantes que foram, e continuam a ser, da única forma que a menina encontrou de se relacionar com eles.

As pessoas que não os conheciam intimamente os adoravam. Tornaram-se um casal que personificava o sucesso. Ele escrevia e dirigia e ela atuava nos filmes. Eles eram uma combinação perfeita, de acordo com as revistas, e letal, segundo a avó dela.

Após a morte do pai, a mãe percebeu que era mais do que dependência. O que ela sentia por ele era amor mesmo, dos vagabundos, às vezes, violentos, desconectados da realidade, em grau de completo delírio, mas ainda assim, amor. Trancou-se em seu quarto por longos dezessete dias, negou-se a comer e bebia vodca como se fosse água. Escreveu tantas cartas de amor ao falecido marido, que elas pareciam tomar conta do quarto. Amigos e familiares diziam que ela estava sendo ela mesma, a mulher dramática e mimada, capaz de se tornar, facilmente, o centro das atenções, estava somente desempenhando seu papel.

A lembrança de entrar no quarto da mãe, lugar escuro, cheirando a bebida e falta de higiene, tem lhe acompanhado, desde então. A mãe estava deitada, olhar distante. Deitou-se ao lado dela, que pela primeira vez, sorriu um sorriso único para a filha, e perguntou como ela estava na escola, como eram os seus amigos, o que ela gostava de fazer para se sentir feliz. Faça por mim? Fez.

Quando a avó entrou no quarto, decidida a arrancar a menina de lá, que aquele não era ambiente para criança, deparou-se com cena que lhe despertou emoções agridoces. As cortinas abertas, luz entrando e se esparramando pelo quarto, a mãe deitada em sua cama, olhos fechados e um leve sorriso nos lábios. A menina sentada no sofá, pernas cruzadas, apoiando o caderno sobre elas, deslizando o lápis sobre a folha. Porque a única coisa que lhe remetia à felicidade, naquela época, era desenhar.

O momento em que a mãe a reconheceu ficou registrado naquele desenho, que viria, duas décadas depois, a se tornar uma de suas obras mais desejadas pelos colecionadores.

Amanhecida, feito o pão rejeitado, que não teve chance de fazer a vez de alimento, acende um cigarro para receber o novo dia. Apaga o cigarro na metade, serve-se de uma dose de vodca, um gole longo, substitutivo atroz do café da manhã. Tão celebrada quanto aos pais, pintora de primeira grandeza, em noites como essa ela não consegue se desvencilhar do roteiro que a vida - ou o Deus - redigiu para ela.

A menina levou pouco mais de uma hora para terminar o desenho. A avó ficou à porta, observando-as, celebrando aquele naco de intimidade entre elas. A menina se aproximou da mãe e a chamou pelo nome, baixinho, sussurrado, apenas para trazê-la à superfície das suas auguras e mostrar-lhe que o fez por ela. Fez algo que a deixa feliz pela mãe. Uma pena a mãe não ter respondido, que o que era para representar a felicidade comungada, pela primeira vez, tornou-se o registro de uma morte prematura.

Habitou-se às ironias e crueldades da vida, mas também às singelezas e alegrias que a dita lhe outorga, vez e outra. Soubessem aqueles que se dizem especialistas em sua biografia e obra que nada sabem sobre ela, como seria? Aprendeu a lidar com o mercado com a clareza de quem sabe negociar futuro, como seu pai faria. Aprendeu a lidar com a rotina de celebridade com a mesma graça falseada que a mãe costumava desferir aos que lhe desejam como companhia.

Nela eles vivem em paz - com seus vícios e um com o outro - e são inseparáveis.

Imagem © Albert Herter



Partilhar

terça-feira, 4 de novembro de 2014

SÓ PARA QUEM ENTENDE >> Clara Braga

Fui uma dessas adolescentes que idolatram um artista ou uma banda. Tinha pastas repletas de revistas com todas as matérias que saíam sobre a banda que eu gostava, sabia a cor predileta dos artistas, quanto eles calçavam, decorava o que gostavam de comer e essas coisas que a gente fazia ao invés de fazer o dever de casa e ainda tinha coragem de dizer pro professor no dia seguinte que não tinha feito porque não tinha tido tempo.

Cresci, e nem por isso deixei de ter os meus ídolos. Claro, hoje em dia a vida exige um pouco mais de bom senso na hora de expressar isso, mas existem certos momentos que só quem tem um ídolo entende que, apesar de pequenos, significam muito.

Nunca vou esquecer quando decidi fazer, de trabalho final de uma disciplina da faculdade, fotografias que ilustravam o livro Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento, da Adriana Falcão (sim, minha escritora predileta)! Hoje em dia, quando vejo o trabalho que fiz, agradeço aos meus professores pelo incentivo que fez com que meus trabalhos melhorassem. Não que o trabalho seja ruim, mas também não é tão bom assim.

Tempos depois, mas não tempo o suficiente para entender que aquele não era um trabalho tão bom, decidi ser um pouco adolescente e enviei algumas fotos para o e-mail da Adriana Falcão. Menti para mim mesma dizendo que não esperava uma resposta, queria apenas que ela visse as fotos, mas isso era o mesmo que dizer que eu decorava o que os Hanson gostavam de comer só por decorar, e não porque esperava um dia ter a oportunidade de ir jantar com eles.

Para a minha surpresa, exatamente no dia seguinte, recebi este e-mail:

Clara, querida,
O seu trabalho é lindo e que orgulho me deu.
Você é o máxino.
Já comecei o dia feliz.
Mil beijos
Adriana

Lembro que na hora que vi não tinha ninguém por perto com quem eu pudesse compartilhar a alegria que senti ao ler a resposta dela, mas foi melhor assim, afinal, eu confesso que chorei um pouco enquanto relia esse pequeno texto eternamente! Hoje, alguns anos depois, ainda me emociono ao ver esse email, como me emociono ao ler seus livros, mas também tenho um pouco de vergonha, pois só eu sei o quão delicada ela foi ao dizer que aquele trabalho era lindo!

Agora estou eu aqui, relembrando esse momento enquanto aguardo, ansiosamente, a chegada da minha mais nova aquisição, o novo livro dela! Acho que melhor do que isso é só ler ela dizendo que eu sou o máxino, que com certeza é melhor do que ser o máximo quando vem de quem veio!



Partilhar

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

PARTIDOS E REMENDOS >> Albir José Inácio da Silva

Para evitar qualquer mal-entendido, considerando alguns nervos ainda expostos pelas recentes escaramuças, necessário explicar que estes fatos não se passaram na última eleição. Aconteceu no pleito municipal de uma cidadezinha tranqüila em algum lugar deste país. Melhor não identificar cidade, amigos ou candidatos.

Se me contassem eu não acreditaria, mas ninguém contou - eu vi o fim daquela amizade. Eles tinham bótons de candidatos diferentes e vitupérios semelhantes.

- Gaysista! Se você defende essa escória, é porque tem alguma inclinação, algum desejo escondido! Onde ficou perdida a sua formação e dignidade?

- Dignidade é igualdade de direitos, seu homofóbico! Por que a família hetero é melhor que a família gay? E o seu partido afundado em corrupção? Você tá levando alguma coisa?

 A democracia tem às vezes o condão de trucidar amizades. Quando as pessoas têm um inimigo comum, como ditadores ou monarcas, pensam em se proteger e não em disputas políticas.

Os dois candidatos à Prefeitura com chances de vitória, segundo os insuspeitos institutos de pesquisa, digladiavam-se sobre questões que incendiavam as ruas, não importava que os temas não se incluíssem entre as competências municipais. Como sabemos todos, é comum ver candidatos à Câmara Municipal prometendo pena de morte. E candidatos ao congresso Nacional garantindo asfalto e poste de luz na rua do eleitor.

Mas deixemos por ora as eleições e vamos conhecer nossos dois amigos. Eles atravessaram juntos a rebeldia e as inseguranças da adolescência. Apoiaram-se durante as dificuldades do ensino médio, ajudando, explicando e dando cola nos momentos mais difíceis. Sofreram e comemoraram juntos a dureza e a vitória do vestibular.

Como irmãos foram se moldando na convivência de modo a querer as mesmas coisas, praticar os mesmos esportes e até a gostar das mesmas mulheres. Mas pensam que isso foi problema? Não. Generosamente evitavam qualquer rivalidade, preferindo abdicar de algum amor em benefício do amigo.

Para não dizer que em tudo combinavam, reconheciam uma divergência: torciam para clubes diferentes. Mas isso também resolveram. Quando os times se enfrentavam, iam juntos ao estádio, separavam-se nas torcidas e reencontravam-se na saída para o chope.

Quando todos pensaram que eram inseparáveis, surgiu a campanha eleitoral. Da primeira vez divergiram como divergem as demais pessoas. Mas alguma coisa martelava-lhes a alma. Um sentimento mútuo de traição. “Como é que o fulano pode pensar assim?”

E penetraram  fundo nas plataformas e discursos de seus candidatos, e sempre voltavam a se a se encontrar prontos e municiados para o combate. Das discussões políticas foi fácil chegar às questões pessoais e às acusações, como testemunhamos. Estava desfeita a amizade de toda uma vida. Odiavam-se.

E foi assim que eu os deixei, quando saí em viagem. Ainda no exterior, fiquei sabendo que, apesar das pesquisas, os dois candidatos ficaram de fora, atropelados por um insuspeitado azarão.

Mas qual não foi a minha surpresa quando, na volta, os encontrei de novo amigos de infância? Eram gargalhadas, tapinhas e simulados socos no estômago que quase ultrapassavam os rígidos limites da brincadeira hetero.

Não querendo melindrá-los, perguntei a um amigo comum como tinham conseguido reatar a amizade que parecia perdida. Soube, então, que a mesma política que os havia separado, agora os juntara:


- O candidato de um - mosqueteiro da ética e paladino da honestidade - foi preso por envolvimento com bicheiros e remessas para contas em paraísos fiscais. O do outro - guardião da família e defensor da cura gay - não agüentou a aflição e saiu do armário.


Partilhar

sábado, 1 de novembro de 2014

PT X PSDB >> Sergio Geia

E ela se foi, amigo. E nenhuma saudade deixou, tipo Copa do Mundo depois do 7 a 1. Honestamente? Não deveria. Como ponto alto das democracias, uma eleição deveria ser festejada, comemorada, aplaudida. Mas é difícil bater palmas diante dessa gororoba que temos de engolir chamado “Programa Eleitoral Gratuito”. Na boa: serve pra nada, não; a não ser pra jogar confetes em postulantes que são arquétipos de perfeição num mundo de conto de fadas.

Até nas redes sociais a coisa ganhou uma proporção hercúlea. Vi amigos se mordendo no melhor estilo Suárez de ser, cada qual se achando o baluarte da razão. Petistas e tucanos quebrando o maior pau. Gente bem informada, que lê, que acompanha. Mas a verdade, pura, cristalina, límpida e colossal, meus caros, é que ninguém tem razão quando acha que tem razão. Essa consciência mínima deveria servir pra baixarem a bola.

Vamos aos fatos. A Bolívia, por exemplo. Reelegeu Evo Morales. Não dá pra entender, né? Não? Dá. Dá, sim. Desde quando Evo assumiu, o PIB de lá cresce em média 5% ao ano. As reservas internacionais foram multiplicadas por 6. Além disso, também com a ajuda dos programas sociais, eles reduziram a pobreza de 38% para 18%. Mas são só mil maravilhas? Não. A economia é pouco diversificada, a maior parte da mão de obra vive na informalidade. A imprensa sofre restrições; a oposição, perseguições. Mas há uma base pra justificar a reeleição dele.

E o PT? Não tem coisa boa nesses 12 anos de poder que justifique a reeleição da Dilma? Tem. A começar com os programas sociais que reduziram a pobreza. Aliás, pobreza não. Miséria. Estão levando luz até os cafundós. Há o sistema de cotas. Há o FIES, o PRONATEC, o Pro Une, o Minha Casa Minha Vida, os médicos cubanos, e muitas outras coisas. Mas só tem coisa boa? Francamente, né, só se você for míope. Os companheiros sofrem de um processo de vitimização, são sempre coitadinhos, perseguidos e se apoiam na dualidade rico-pobre. A corrupção, o loteamento de cargos, o financiamento partidário pelo assalto aos cofres públicos, tudo isso eles fazem também.  

E o PSDB não presta? Eu mesmo já vi Dilma presidente, não Dilma candidata, jogando louros no FHC. Pois foi ele quem colocou o Brasil na rota, pra desespero dos petistas que não querem enxergar isso. Acabou com a inflação, criou o embrião do Bolsa Família. Mas que poderia ter feito mais, muito mais principalmente pelos pobres. Não fez. Como em São Paulo, onde poderiam ter trabalhado melhor o problema da água, ter cuidado dos mananciais, do tratamento do esgoto, campanhas mais eficazes de redução de consumo, aumento da capacidade dos reservatórios.

Tem gente que votou no PT. Tem gente que foi de PSDB. Cada qual com suas razões e seu modo de enxergar o jogo. Mas não venham me dizer que o seu candidato era o suprassumo dos candidatos e que o outro era um lixo porque não era. Votou no PT? Belezinha, mas não venha me encher o saco dizendo que a Dilma era a oitava maravilha do mundo e o Aécio um mentiroso. Votou no PSDB? Ok, mas não venha me dizer que o Aécio era a perfeição dos candidatos e Dilma uma incompetente.

Passadas as eleições, irmão, vamos ver no que vai dar. Dilminha tá aí, mais 4 anos. O horário de verão já veio. Que venham as chuvas. Que venha um Brasil melhor.


Partilhar