sexta-feira, 31 de outubro de 2014

CALIGRAFIA E GARATUJAS >> Paulo Meireles Barguil

— Seu registro geral está vencido! — sentenciou o atendente.

— E ele tem data de vencimento? — indaguei surpreso.

— Não e sim. Oficialmente, não. Mas o seu tem mais de 30 anos. Sugiro você providenciar um novo — foi o que ouvi.

Admito que minha foto no documento não me agrada e que, há muitos anos, cogito trocá-lo.

O motivo de eu ainda não ter materializado tal intento é devido eu ser uma pessoa otimista e paciente, pois acredito que o número único de Registro de Identidade Civil, instituído pela Lei nº 9.454, de 07 de abril de 1997, será implantado quando eu ainda estiver vivo.

A Lei previa, no seu artigo 6º, que "[...] No prazo máximo de cinco anos da promulgação desta Lei, perderão a validade todos os documentos de identificação que estiverem em desacordo com ela.".

Desnecessário dizer que tal dispositivo foi ignorado, tendo sido revogado somente em 2009...

Ou seja, durante 7 anos, os brasileiros utilizamos documentos sem validade!

Advogados de plantão, sirvam-se à vontade dessa informação...

Se a minha vida na Terra tem fim, imagine minha paciência.

Decidi, então, providenciar o novo documento de identidade.

Levei a papelada solicitada, mas minha certidão de nascimento foi recusada, pois estava, segundo o recepcionista, ilegível.

A solução, então, seria providenciar a 2ª via da certidão de nascimento.

Agradecendo, sempre, ao Universo o fato de estar no pleno gozo das minhas faculdades motoras, dirigi-me ao Cartório e pleiteei a dita cuja.

Quando retornei à repartição para receber o documento, encontrei um erro e o comuniquei, imediatamente, ao atendente:

— O nome do meu avô paterno é Dib e não Dile — relatei ao serventuário com pouco mais de 20 anos de idade.

— Espere um momento que eu vou verificar — respondeu-me.

Após alguns minutos, ele retornou e disse:

— No livro está grafado Dile e seu pai assinou a lavratura da certidão.

Atônito, peguei um papel e escrevi o nome do meu avô em letra cursiva. Expliquei-lhe que, naquela época, as pessoas faziam caligrafia — etimologicamente, bela escrita. Enfim, usei todos os argumentos que dispunha, mas nada o demoveu do seu veredito:

— Lamento, mas você vai precisar trazer a sua certidão de nascimento anterior para retificar a nova certidão — explicou-me o atendente.

Gargalhei, silenciosamente, da situação: o documento que eu tenho em casa, que é imprestável para eu tirar um novo registro geral, é o que vai atestar que a leitura do escriba do século XXI está desatualizada, permitindo-me receber uma nova certidão de nascimento, a qual, posteriormente, será usada para solicitar novo registro.

Esse paradoxo até que foi fácil.

Desafio tem sido interpretar as garatujas dentro de mim...



Partilhar

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

PERDAS E MUDANÇAS >> Mariana Scherma

Uma vez, em uma aula bem frustrante de física, no primeiro dia do curso pré-vestibular, com vários alunos que queriam estar em qualquer lugar menos naquela sala, meu professor disse: “as coisas mudam quando vocês menos esperam, não desanimem”. Pra muita gente ali, soou como blábláblá motivacional, eu fiquei com aquela frase na cabeça ressoando até o fim da aula. Motivo: tinha esperança de ser chamada pela faculdade, já que era a primeira da fila de espera. Para todo mundo, minha situação no cursinho já tinha data pra acabar, mas eu sempre fui do time de São Tomé e só acreditava vendo.

Não se passaram nem dois dias, minha mãe surgiu com o maior sorriso do mundo na janela do cursinho. A faculdade tinha me ligado na sexta-feira e eu precisava me apresentar na próxima segunda. Desde esse dia, tive certeza de que as coisas mudam mesmo – e é quando a gente menos espera. Talvez hoje eu esteja escrevendo sobre mudanças porque estou morrendo de saudade daquele sorriso enorme da mami. Faz dias, semanas que o sorrisão sumiu. Meu tio adoeceu e se foi. Quero que as coisas mudem logo para os meus primos, minhas tias, minha mãe e minha avozinha. Quero que essa tristeza se dissipe no vento, quero que eles fiquem apenas com aquelas lembranças gostosas do meu tio que, aos poucos, tornam a dor da perda menos insuportável.

Sempre achei que a gente era meio egoísta ao querer que alguém tão doente, tão sofrido, continuasse entre nós. Mas talvez não seja egoísmo, seja medo de perder as lembranças, de precisar olhar uma foto para lembrar os contornos do rosto de quem partiu, se esquecer da voz de alguém que tanto amamos, do jeito de olhar, das manias... Esquecer deve ser a maior dor do mundo. Alguém que escapa entre seus dedos, como se fosse água, como se fosse etéreo.


Vai ver, no fundo tudo é meio etéreo. A gente, a dor, a alegria, o choro, a risada, as lembranças. Talvez, as lágrimas, que são etéreas também, quando se secam indicam que a dor está indo com o vento. Quando o choro seca, as coisas ao nosso redor começam a mudar, no ritmo da dor, mas começam. Aí vem o primeiro sorriso, ainda triste, ainda sem coragem de mostrar os dentes, mas vem. Na sequência, a gente vê todo mundo que está em volta, lembra que o amor não deixou de existir e percebe as pequenas mudanças. Só o fato de o sol sempre aparecer todo dia sem se importar com a dor ao redor mostra que o amor não acaba. E eu quero muito que a minha família sinta esse sol sob a pele, sob a alma talvez. Gente que a gente ama não deveria sofrer.


Partilhar

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A MÚSICA DISSE... >> Carla Dias >>


Minha mãe cantando para nós, os filhos, enquanto lava a louça: “Derrubei pau a machado/ E o mato fino rocei/Depois que o mato secou/Eu botei fogo e queimei”, melodia triste, letra ainda mais triste. Ainda assim, uma lindeza. Meu avô lá na sala, lustrando o seu sapato: “Acorda, Maria Bonita/ Levanta e vai fazer o café/Que o dia já vem raiando/E a policia já está de pé”.

“Marmelada de banana/Bananada de goiaba/Goiabada de marmelo/Sítio do Pica-Pau-Amarelo”, e a minha avó cozinhando feijão no fogão à lenha para o jantar, em tempo de, depois do Sítio, assistir à novela: “Vida de negro é difícil/É difícil como quê/Eu quero morrer de noite/Na tocaia me matar/Eu quero morrer de açoite/Se tu negra me deixar”. Lerê, lerê.

“The warden threw a party in the county jail/The prison band was there and they began to wail/The band was jumpin' and the joint began to swing/You should've heard those knocked out jailbirds sing/ Let's rock, everybody, let's rock/Everybody in the whole cell block/Was dancin' to the Jailhouse Rock”: a primeira vez escutando um idioma desconhecido, entendendo nada, adorando a música e sendo apresentada para o primeiro bad boy do qual tive conhecimento, Vince Everett. E confesso que assisti a todos os filmes do Elvis Presley que passaram na televisão, assim como os de Fred Astaire.

As festas de Natal e Ano Novo na casa dos avós, no mesmo quintal onde morávamos. Nunca fui festeira, costumava me esconder em outro canto da casa, mais quieto. Só que bastava tocar essa música para eu cair na dança. “O mar serenou quando ela pisou na areia/Quem samba na beira do mar é sereia”. Clara Nunes sempre estava sempre presente entre nós, naquela época.

A primeira vez que pensei sobre a hipótese de se perder alguém que se ama para a morte: “Sunshine, on my shoulders makes me happy/Sunshine, in my eyes can make me cry/Sunshine, on the water looks so lovely/Sunshine, almost always makes me high”. Perdi a conta de quantas vezes assisti ao filme “Um dia de sol”. Ainda não entendia o que era dito na canção, mas o filme e a voz do John Denver ajudaram na percepção.

A primeira música a me virar ao avesso: “Só eu sei / As esquinas por que passei / Só eu sei só eu sei / Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar / Sabe lá”. E aquela que toquei em estreia com banda, de pisar em palco, de encarar público: “Nada vejo por esta cidade/Que não passe de um lugar comum/Mas o solo é de fertilidade/No jardim dos animais em jejum”, seguida por “So, so you think you can tell/Heaven from hell?/Blue skies from pain?/Can you tell a green field/From a cold steel rail?/A smile from a veil?/Do you think you can tell?”. Depois, divertindo-me à beça com a banda que resultou dessa estreia: “Não tenho culpa se você engordou/Não pensando que eu vou me casar/Mulher de músico é a música/E a minha vida é o rock’n’roll.”

Aquela que eu adoro, mas não foi trilha sonora de uma boa história, que me ensinou que, às vezes, a realidade se mistura com a ficção e bagunça tudo: “What will you do when you get lonely/And nobody's waiting by your side?/You've been running and hiding much too long/You know it's just your foolish pride/Layla/You've got me on my knees, Layla”. A que me fez chorar durante um show fantástico do Pat Metheny: “This is not America, sha la la la la/A little piece of you/The little peace in me/Will die [This is not a miracle]/For this is not America.” Aquela que decidiu se mudar de vez para o meu dentro e faz seus próprios arranjos em minha alma: “Arrumei a casa, espanei o pó do peito/A tristeza, dei um jeito de escondê-la no capacho/Areei os olhos, me quarei lá no riacho/Tirei a roupa do tacho e botei tudo no lugar/Terça-feira, hoje eu acho que meu amor vai voltar”.

A densa e tensa, com suas camadas e dinâmica, que serviu de trilha sonora para a mais ampla declaração de afeto, com direito às levezas e aos suspiros: “In my time of dying, want nobody to mourn/All I want for you to do is take my body home/Well, well, well, so I can die easy/Well, well, well, so I can die easy”. Para o dia em que compreendi que solidão é condição perfeita para autoenfrentamento: “Solidão é lava/Que cobre tudo/Amargura em minha boca/Sorri seus dentes de chumbo/ Solidão palavra cavada no coração/Resignado e mudo”.

Que minhas tias cantavam e acabou tatuada na minha lembrança. Vez e outra, me pego cantarolando: “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho/Deixem que eu decida a minha vida/Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol/Porque bate lá o meu coração”. Há aquela que me adoça o pensamento, sempre que toca em minha memória: “É sobre-humano amar/'cê sabe muito bem/É sobre-humano amar sentir doer/Gozar/Ser feliz”.

A primeira vez que a escutei, essa música se espalhou pelos meus sentidos e não saiu mais da lista das que moram no meu player. A primeira vez que a escutei ao vivo, com a banda no palco, a banda que eu adoro de paixão, foi como relembrar que música é coisa sem a qual eu não vivo: “Everything's different/My head in the clouds/I hit this corner/With my foot on the gas/I started sliding, I lose it/Everything's different just like that”. Que sem ela, eu não teria aprendido a me permitir inspirar, que gravar uma fita K7 inteirinha, lado A e lado B, com a mesma música, continua sendo bom, só mudou a forma, o formato, mas não a delícia do replay musical. Que tem gente que despe a alma na letra, que é generoso o suficiente para arrancar da gente gritos de satisfação com a música. Que tem gente que faz música para Deus, aos seus demônios, aos amigos e amores, para declarar e para forjar mistério. E almejando alegria, flertando com a tristeza.

Na música cabe um tudo de todos.


AS MÚSICAS CITADAS
  • A rosa e a formiga | Heitor De Barros
  • Acorda, Maria Bonita | Antônio dos Santos
  • Sítio do Pìca-Pau-Amarelo | Gilberto Gil
  • Retirantes | Dorival Caymmi
  • Jailhouse Rock | Jerry Leiber & Mike Stoller (com Elvis Presley)
  • O mar serenou | Antônio Candeia Filho (com Clara Nunes)
  • Sunshine on my Shoulders | Dick Kniss, Mike Taylor e John Denver (com John Denver)
  • Esquinas | Djavan
  • Jardim das Acácias | Zé Ramalho
  • Wish You Were Here  song review | David Gilmour e Roger Waters (com Pink Floyd)
  • Minha vida é Rock n'roll | O. Vecchione (com Made in Brazil)
  • Layla | Eric Clapton
  • This is not America | David Bowie (com pat Metheny)
  • Espera | Kleber Albuquerque
  • In my time of dying | John Bonham, John Paul Jones, Jimmy Page, Robert Plant (Led Zeppelin)
  • Dança da solidão | Paulinho da Viola (com Marisa Monte)
  • Comentário a respeito de John | Belchior (com Bianca)
  • Mais simples | José Miguel Wisnik
  • So Damn Lucky | Dave Matthews




Partilhar

terça-feira, 28 de outubro de 2014

MAS LOUCO É QUEM ME DIZ >> Clara Braga

Imagina só, um belo dia você está passando por aquele mesmo lugar que sempre passa, mas se depara com algo que não estava ali. Um balanço! Sim, esses balanços de parquinho de criança! Não negue, você não daria pelo menos um sorriso? E se você se permitir ser um pouquinho mais ousado, irá parar o que está fazendo e irá balançar no balanço. Aí sim você irá abrir um belo sorriso!

E se estivesse saindo de casa e se deparasse com uma flor ou uma árvore plantada no seu jardim com o seguinte recado: com amor, jardineira secreta. Com certeza passaria o resto do dia se perguntando quem seria a tal pessoa secreta e porque ela escolheria justo o seu quintal para plantar uma flor?

A verdade é simples assim, algumas pessoas ficam felizes simplesmente por fazerem outras pessoas sorrirem, nem que seja por alguns minutos. E essas pessoas, as que realmente fazem pelo prazer de fazer, não precisam se identificar, não esperam algo em retorno, um prêmio, nem um muito obrigado, elas apenas curtem a sensação de felicidade pura!

A Coca Cola pode ser ruim em muitos aspectos, mas é inegável a habilidade da equipe de criar propagandas criativas. A última da qual tive conhecimento foi essa, que mostra pessoas que saem pelas ruas arrancando sorrisos de outras pessoas com os mais simples gestos. Nada de gastar rios de dinheiro, o pagamento é tão simples quanto o gesto, o sorriso.

O que achei mais curioso nessa história toda é que essas pessoas são chamadas de loucas e nos convidam a enlouquecer mais, como elas! Mas será que louco é mesmo quem vive com um sorriso no rosto ou são as pessoas que vivem reclamando e se incomodam com a felicidade alheia? Não sei não, mas eu tenho a tendência a concordar com a Rita Lee: louco é quem me diz que não é feliz, eu sou feliz!


Partilhar

domingo, 26 de outubro de 2014

AINDA ESTAMOS LONGE >> Whisner Fraga

Tenho lido intelectuais defenderem que esta eleição nos entregou um país dividido, que os candidatos contribuíram para aguçar posições opostas. Não acho que foi o pleito que segmentou esta nação em pobres e ricos, em analfabetos e letrados, em negros e brancos, em sim e não: foi a sua história. Essa divisão começa com nossa história e talvez a transparência (ainda engatinhando) que vivemos hoje nos tenha alertado para a existência dessas diferenças, tão profundas em um povo que se proclama sem preconceitos.

Notei, por parte dos militantes, que havia uma tentativa de convencer o adversário de que seu candidato era o melhor. Faz parte da democracia. Neste clima de disputa acirrada, ocorreram vários excessos. Amigos se desentenderam, conhecidos brigaram. Espero que, a partir de amanhã comecem a reparar seus equívocos e tentem reatar esses laços. Muitos boatos foram espalhados, revistas e jornais escancararam sua preferência, de um lado e de outro. Esperamos que quem for eleito puna devidamente qualquer abuso.

Mas dizer que a eleição separou de vez os brasileiros, não. Não acho correto. Os brasileiros já estão separados há séculos, alguns dentro de seus condomínios fechados, outros nas favelas, alguns dentro de apartamentos seguros, outros nas ruas, debaixo de viadutos, alguns vestindo uniformes de escolas grã-finas, outros no pátio porque não tem professor para ministrar as aulas, alguns achando que carregam o Brasil nas costas enquanto exploram um imigrante aqui e outro acolá, alguns dentro de restaurantes caros e outros tentando escapar do mapa da fome. O Brasil nasce dividido e explorado, justamente quando um burguês usurpa um índio, há centenas de anos, assim que pôs os pés nestas terras.

Não dá para exigir um sorriso condescendente de um caixa de supermercado ou de um atendente de padaria quando algum dos dois ouve que o sudeste sustenta o resto do Brasil, que só aqui se trabalha. Nosso país sempre foi a nação da desigualdade. Sim, eu consigo respeitar meu amigo que votará no candidato x, consigo acolher um primo que escolheu o candidato y, mas não compactuo com a ignorância. E ignorância é achar que somos um povo cordial, que aceita a manipulação e a humilhação.

Esta eleição não separou o país em dois lados. Quem separou foi a história. E a história, para quem tiver curiosidade de aprender, é cheia de escravos, de pilhagens, de mortes, de manipulação, de injustiça, de corrupção, de roubos, de racismo, de preconceitos, de egoísmo. Eu queria ver sim um país unido, mas creio que um país unido seja aquele em que todos tenham acesso, de maneira equânime, aos mesmos direitos e deveres. E isso ainda não aconteceu por aqui, mesmo depois de mais de 500 anos de tentativas frustradas.

Partilhar

sábado, 25 de outubro de 2014

TENTANDO CONSEGUIR >> Cristiana Moura

Não havia cabimento em fingir-se triste ou tensa, mas tanta alegria em tempos adversos a constrangia.

— Tá conseguindo estudar?
— Tô tentando conseguir.

Tentar já lhe bastava. Não exigia muito nem de sei mesma, nem dos outros. Este deve ser o segredo da alegria de Clarice — ela se contenta. Ela só ainda não sabe chorar. Talvez por isso, vira e mexe, senta  falta de ar.

— Viver, por vezes, tira-me o fôlego — ouvi-la dizer certa vez.

Tanto sua alegria, quanto seu desassossego marcaram encontro com aquele moço. Philos mexe com ela. Pode contar nos dedos de uma só mão as vezes em que se encontraram. No entanto, se sente como se o conhecesse há vidas. Ele acredita que o que ela sente é só desejo. Mas como dizer só em se falar em desejo? O moço do Sul não percebe toda a intensidade e urgência de seus sentimentos.

Clarice não tem grandes conflitos. Gosta do trabalho, segue seus estudos. Tem boas relações familiares. Seu filho já é grande e bem encaminhado. Parece uma mulher comum. Mas toda essa parecência não lhe cabe. É que ela, ao mesmo tempo que se contenta, se afoga em desejos querendo o novo, o desconhecido.

— Moram muitas mulheres em mim!

Ah, conviver com família, colegas, amigos é fácil. Complexo é conviver com estas mulheres que a habitam. Todo mundo sabe que muitas mulheres juntas rende muito barulho. Tem a que é caseira, a outra da balada, a focada em trabalho, uma outra que parece uma criança mimada, outra que é a sensualidade em pessoa. Ela já nem sabe quantas é.

Chegou em casa cansada, colocou uma música e todas se aquietaram ao som de Gil. Entre o contentamento e os desejos Clarice vai dialogando com as mulheres que a habitam. Vai tentando conseguir...

Partilhar

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

INVEJOSO >> Zoraya Cesar

Espichou o pescoço acima do muro e olhou longamente para a grama do vizinho. Que, se não era mais verde, parecia mais apetitosa. (Não que Antonio fosse um ruminante no sentido estrito da palavra – talvez no sentido lato, vejamos). 

Sua esposa seria definida como “mulata sestrosa”, se ainda soubéssemos o que isso significa. Todos diziam que Antonio era um homem de sorte: cama, mesa e banho, ela dava conta de tudo, com louvor. 

Algumas pessoas, no entanto, nascem com o germe da verde, pegajosa, jamais assumida inveja. O invejoso nunca se contenta com suas posses e haveres; mesmo vestindo Armani, cobiça a camiseta Renner do vizinho. Quase uma doença, não fosse mau-caratismo mesmo.

Falávamos de apetites, então, e também de mulheres, gramas, muros e o que mais? Ah, vizinhos. Cortemos as psicanálises e entremos diretamente no terreno alheio. 

Moema, a mulher do vizinho (que, ao contrário da letra do João Bosco, não sustentava  qualquer vagabundo), era uma coisinha franzina e esquálida, loura pálida, de grandes e aquosos olhos azuis que pareciam constantemente espantados com o mundo. Desenxabida que fosse, tinha marido. E que marido! Trabalhador, gentil, bonito. Mais que bonito, usemos de sinceridade, Romualson era gostoso, pronto. E babava de amor por sua branquelinha. (Gosto não se discute. Quem ama o feio, bonito lhe parece. O coração tem razões que a razão desconhece. Nenhuma dessas platitudes explica coisa alguma, mas dão assunto pra conversa).

Escondido atrás da janela, como uma maricotinha qualquer, Antonio se retorcia de inveja vendo Romualson sair, feliz da vida, de mãos dadas com sua lambisgoinha. E a inveja – é bom que vocês saibam – estimula a imaginação. Antonio, mesmo tendo um mulherão em casa, sonhava com o corpo ossudo, mais parecendo o de um menino, a pele branca de Moema, seus vestidos largos, seus olhos desmesurados. 

Começou a cercar a vizinha, cheio de boas atitudes. Vou dar uma volta, D. Moema, quer alguma coisa? Pão quentinho? Jornal? Deixe que eu carrego suas compras. Ao encontrá-la, parava, falava sobre o tempo, a inflação, as eleições. Aos poucos foi se tornando mais íntimo. A senhora parece pálida, ta tudo bem? Seu cabelo, me permita, está mais bonito hoje... e assim por diante. 

Verdade seja dita que Moema, tímida, respondia a tudo negativa ou monossilabicamente, dependendo da abordagem. E mais a desejava Antonio, que, aliás, passara também a reparar na casa dos vizinhos, achando-a maior e mais bonita que a sua. Pura distorção, claro, uma vez que todas as casas do condomínio eram iguais.

E a mulher de Antonio? Nada percebia? Nada dizia? Ah, percebia sim, não era boba. O marido sempre fora invejoso, mas ganhava um bom salário e lhe dava conforto. Desde que não deixasse de pôr dinheiro em casa, nem abandonasse o casamento, ela deixava o barco correr.

Mas, como tudo na vida, essa história também chega a um fim. 

Dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Um dia Moema, inesperadamente, convidou-o para entrar e tomar um café, numa voz baixinha e musical. Ele vibrou. Mais do que satisfazer sua luxúria com aquela esbranquiçada lavada a sabão em pó, ele queria ver se, por dentro, a casa dos vizinhos era melhor que a sua. 

Moema não pareceu contrariada com a mudança de atitude. Mostrou-lhe a casa toda, cômodo por cômodo, inclusive o banheiro, onde ela o trancou. Começou o pesadelo. Me tira daqui, me tira daqui, gritava ele. Só se você passar toda sua roupa pelo basculante, exigiu Moema, inclusive a cueca. Antonio, desesperado, passou. Espere um instante, ela ciciou. 

O instante chegou junto com Romualson. Que abriu a porta e deu logo duas chapuletadas num desnorteado Antonio, que, nu e apavorado, foi facilmente subjugado pelo forte – tanto mais que irado – vizinho. 

- Tava dando em cima da minha branquela, né palhaço? - Antonio bem que tentou, mas a dor dos tapas e o medo o impediram de responder o que quer que fosse. - Toma aí o que você queria, disse o ofendido vizinho.  

E o inusitado aconteceu. Moema subiu o vestido, desceu as calçolas e deixou à mostra um enorme – digamos – membro viril. 

Sem entrar nos detalhes sórdidos, revelo, no entanto, que a situação fora previamente combinada entre os vizinhos – já cansados do assédio - e a mulher de Antonio, que, parada à soleira da porta, a tudo assistiu e filmou. Depois, Romualson levou Antonio até a porta, jogando suas roupas na calçada.

Morto de vergonha e de outras dores, ele correu pra casa, segurando suas roupas na mão, rezando pra ninguém ver sua ignomínia. 

Sua mulher o esperava, com um banho de assento já pronto, uma pomada para assaduras e uma declaração:

- Se um dia, qualquer dia, você sequer pensar em sair de casa e me deixar sem nada, eu divulgo esse filme pros amigos, pro pessoal do trabalho, pra toda família. Tá entendendo?

Antonio abaixou a cabeça, humilde e arrasado.

Alguns meses se passaram, e, da janela, Antonio viu chegarem novos vizinhos ao condomínio, numa caminhonete já bastante usada. Que pick-up bonita, pensou ele, muito melhor que a Hilux que tenho na garagem...

(..."querer o que é dos outros é o seu gozo, e fica remoendo até o osso, mas sua fruta só lhe dá caroço... " Invejoso, Arnaldo Antunes)




Partilhar

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O PREÇO DE SER DE VERDADE >> Fernanda Pinho



Acabei de ler um livro que me marcou bastante. Chama-se “A Extraordinária Garota Chamada Estrela”, do autor Jerry Spinelli. Estrela tem um rato de estimação, fica feliz quando seu time faz cesta no basquete (mas quando o outro time pontua, também), distribui cartões de aniversários para desconhecidos, usa as roupas que gosta (e isso pode ser um vestido que esteve na moda duzentos anos atrás), tenta trazer um pouco de alegria tirando canções de seu ukulele que leva sempre a tiracolo. Num primeiro momento, junto com o impacto de sua chegada à escola nova, Estrela desperta simpatias. Afinal, este livro nada mais é que uma delicada e verdadeira metáfora da vida. 

E a princípio somos assim. Grandes admiradores da autenticidade. Capazes de fazer discursos inflamados defendendo a liberdade de cada um fazer o que quiser, respeitar as próprias convicções, seguir o que seu coração manda, persistir nos seus sonhos, manter relações com quem se sente à vontade, construir seu próprio caminho. Lindo, maravilhoso. Se ficar só no discurso, melhor ainda.

Porque em algum momento, Estrela vai levantar suspeitas. “Ninguém pode ser tão legal assim”. E da suspeita para a rejeição se passa num piscar de olhos. Por que ninguém pode ser “tão legal assim”? Porque ser legal demais implica em ser diferente e a gente pode até admirar pessoas que fazem tudo o que dá na telha, desde que mantenham uma distância de segurança de nós, por favor. E, veja bem, quando eu falo de gente que faz tudo o que “dá na telha”, eu não estou me referindo a nada que possa machucar ou prejudicar o outro de alguma forma. Estou falando de atitudes inocentes mas que, por sair da previsibilidade, são tratadas quase como se fossem atos imperdoáveis. 

Gente que dança como se ninguém estivesse olhando, que ignora a uniformização das vitrines e faz a própria moda, que se recusa a fazer social em ambientes inóspitos, que fala a verdade quando questionado, que dá abraços de dez minutos, que ri na hora que tem vontade de rir, que chora na hora que tem vontade de chorar, que fala “eu te amo” quando sente que ama, que escolheu não perder tempo com quem lhe faz mal, que muda o rumo da própria vida, que ignora as etiquetas e as convenções. Sabe essa gente louca, sem noção, desvairada, sem juízo, perturbada? Então, elas não são nada disso. São apenas pessoas autênticas e verdadeiras, que se respeitam muito (e só quem se respeita muito é capaz de respeitar o outro).  Elas não estão fazendo nada de mau. Nada que irá prejudicar você ou quem quer que seja.  E por que te incomodam tanto? Bom, apenas porque optaram por fazer o que tinham vontade, e não o que você, preso em seu mundo limitado e previsível, esperava.

Imagem: sxc.hu


Partilhar

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O DIÁLOGO >> Carla Dias >>

O que mais vem me impressionando nessas eleições é o comportamento de alguns cidadãos brasileiros, os reais detentores do poder de mudança que tortamente defendem. Ofensas são jogadas ao vento sem a menor preocupação sobre a quem elas vão atingir. Opiniões pessoais são tratadas como verdade irrefutável, o que somente colabora com a intolerância.

Dizem que é melhor não se falar sobre futebol, política e religião, porque sempre dá briga. Na verdade, acho que temos mais é de puxar a cadeira e nos aprofundarmos nesses assuntos, já que eles afetam diretamente as nossas vidas. O problema não é discutirmos sobre eles, mas fazê-lo impondo nossas certezas e atuando como provedores de monólogos, não participantes de um diálogo.

É essencial que aprendamos a conversar sobre assuntos complexos, que nos afetam como indivíduos e cidadãos, no pessoal e no coletivo, sem nos armarmos com a ideia de que não há outra saída, além daquela que é apresentada. Antes de chegarmos ao irrefutável, é preciso analisar as possibilidades, estejam elas de acordo ou não com a nossa versão da verdade ou do desfecho esperado.

Disseram-me que é utopia das brabas pensar que podemos chegar a algum lugar apenas com o diálogo, como se a única saída fosse recorrer aos pontapés.  Eu sei que o cenário político é dos menos aprazíveis, assim como sei que, se não nos tornarmos eleitores mais sábios e justos, se não pararmos com a violência verbal e de batermos no peito gritando “você não sabe de nada, eu é que estou certo!”, continuaremos a colocar o nosso destino nas mãos da sorte. E por mais que eu acredite que uma boa parte do que nos acontece seja oriunda da sorte, não consigo aceitar que essa parte - a que temos poder de modificar e o dever de defender - perca-se em meio a nossa incapacidade de defender o que nos é de direito: uma política da qual o país e os seus cidadãos se beneficiem.

O primeiro passo rumo a uma mudança política positiva, pode ser aceitarmos que a nossa realidade não é única, que nós não somos os únicos nessa jornada. Somos mais de 200 milhões e temos o que dizer e o que escutar. Temos de ponderar.



Partilhar

terça-feira, 21 de outubro de 2014

OBRIGADA LINDSAY LOHAN

Obrigada Lindsay Lohan!

Devo muito te agradecer pelos memes mais engraçados que há muito não apareciam pelas redes sociais e por ter descontraído o assunto mais polêmico - e chato - dos últimos tempos! Não aguentava mais comentários agressivos sobre as eleições. Cheguei a ver comentário mais agressivos que os dos próprios candidatos nesses debates que mais parecem um ringue de luta!

Aliás, os comentários mais agressivos que vi, foram de pessoas que pediam para que os debates não fossem mais agressivos, e sim uma oportunidade dos candidatos mostrarem suas propostas!

Afinal, que mania é essa que a gente tem de pedir paz sendo agressivo, pedir silêncio gritando, pedir que as pessoas sejam pontuais nos atrasando, pedir paciência sendo impaciente?

Não gosto muito de falar sobre política, acho que mexe com um lado das pessoas que às vezes é melhor não mexer, mas na minha opinião, esse segundo turno expressa bem essa atitude generalizada de pensar em tudo olhando para o próprio umbigo. Virou briga de interesses pessoais, cada um pensando o que vai ser melhor para si, e não para toda a sociedade.

Agora, vale a pena ser tão baixo a ponto de ofender os outros apenas porque discordam em um tema?

Acredito que nenhum dos dois candidatos têm tido a postura que se espera de um presidente, e, enquanto isso, a sociedade parece seguir os mesmos caminhos e mostrar que talvez não saiba conviver em sociedade!

Estou vendo chegar a hora em que vamos ser retrógrados ao ponto de resolver isso na peixeira, vence quem sobreviver!


Partilhar

sábado, 18 de outubro de 2014

MÃE E FILHO >> Sergio Geia

“Bacana ver vocês dois”. Ela me olha assustada. “Esse carinho. Mãe e filho. É uma imagem bacana. Sacumé, né, dias de hoje, esse mundo babaca de tão podre, uma imagem dessas faz bem. Olha, daria até uma crônica”. Ela põe o menino no colo. Sorri pra mim. Ele pede para ir ao parquinho.

Fiquei pensando nisso um bom tempo. Uma imagem que fez minha sexta-feira começar com o pé direito, rumo ao final de semana. E foi isso que senti saboreando aquele sorriso no caminho do trabalho. Até o dia despencar em mim como um Niágara de aporrinhação.

Primeiro a tevê, no quilo. O sujeito sendo transportado pro Rio numa operação de guerra. Em Cascavel, pessoas presas num hospital. No elevador, na fila do banco, ebola para todos os gostos. Todo mundo preocupado, índices de mortalidade na ponta da língua, chances de cura, países castigados, formas de transmissão. No dia seguinte se confirmou que não era ebola. No mesmo dia vi o Ministro da Saúde dizer que o Brasil continua sendo um país com pouco risco de contaminação.

E o pior é que a coisa começa a tomar conta das nossas vidas. Vira assunto de botequim, quando a gente vê está procurando notícia, querendo saber se o sujeito desceu ou não desceu em São Paulo, se alguém tá fazendo alguma coisa, pesquisando, procurando uma forma de deter essa praga antes que vire pandemia. Você volta do almoço e o segurança do prédio não perdoa: “É o apocalipse, seu Sergio”.

Outro dia tava no face correndo a timeline quando me deparei com a cena de um taxista transportando um passageiro. A câmera ali, instalada no táxi, talvez para dar mais segurança ao motorista. O taxista, um senhor, um avô com certeza, que precisava estar ali para aumentar a renda da família, cumpria sua obrigação com dignidade. De repente, o rapaz saca uma arma e atira na nuca dele. Fiquei chocado. Aquilo me embrulhou o estômago e serviu de input pra essas barbaridades todas que nutrem nossas almas todos os dias, tipo sujeito no meio do deserto aguardando a cerimônia da morte.

Começo a pensar que a gente se alimenta mal pra burro. E se enfartar depois, não pode estranhar. São carradas de placas de gordura entupindo a vida. Ninguém quer saber de agrião com arroz integral. Quer mesmo é uma picanha bem das mal-passadas. Aí viramos esses bestas trogloditas que por qualquer fechadinha mequetrefe tão xingando até a décima quinta geração do navalha. Vivemos num mundo besta e sem sentido.

Ele sobe no escorregador e sorri. Ela faz que sim com a cabeça. Ele olha meio desconfiado, o sorriso se transmudando em preocupação. Parece calcular a distância. Olha mais uma vez, depois se volta pra ela, agora sem sorriso, clamando por alguma coisa que ele nem desconfia o que é. Ela sente que ele precisa dela. Deixa o caderno no banco e se aproxima: “Vai, filho! Desce! Você vai gostar!”. Mesmo com medo ele se arrisca e deixa o corpo cair. Quando põe os pés no chão corre ao encontro dela. Os dois se abraçam num abraço que derrama amor. Ele diz que quer ir de novo. E vai.

Fecho os olhos torcendo pro sono não chegar, pra que eu possa saborear mais um pouquinho desse agrião com arroz integral.


Partilhar

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

TRADUZINDO OS MUNDOS >> Paulo Meireles Barguil


O convite do Universo ao Homem é que esse o decifre, interprete, bem como a si mesmo.

A singeleza da convocação é inversamente proporcional à complexidade da sua realização...

Imprevisível que nos fascina. Garantia de brincadeira eterna.

Quem vai? Quem fica?

Quem está de bandeirinha? Quem é café com leite?

Será que a curiosidade é filha do medo?

E haja adrenalina, dopamina, noradrenalina, serotonina, endorfina, acetilcolina...

Abrir as entranhas do mundo e de si.

Macro e micro profundamente vinculados.

Identificar padrões. Descobrir uma lógica. Constituir leis.

O mundo, afinal, muda ou não muda?

Sofremos porque não admitimos que a transitoriedade é inerente à vida.

Aceite a vida. Aceite a morte. Aceite a alegria. Aceite a tristeza.

Tão simples. Tão difícil.

Brigamos — muitas vezes literalmente! — com o mundo. Gritamos o quanto ele é injusto.

Agonizamos porque ficamos congelados no episódio dolorido, o qual se eterniza em variadas situações.

Ninguém pode nos libertar dessa calcificação pelo simples motivo que somente cada de um nós é que pode identificar tal cenário e decidir dele sair.

Zumbis emocionais vagamos a esmo: de madrugada, de manhã, de tarde e de noite.

Usamos morfinas variadas para tentarmos esconder, de nós e dos outros, uma diferente septicemia.

Chegará o instante em que entenderemos as intricadas conexões entre emoção, corpo, cognição, alma...

Até lá, continuaremos sujeitos a traduções literais, em virtude do diminuto conhecimento ou cuidado, que tanto empobrecem a realidade.

O belo filme "The Physician" aborda a Medicina no século XI, numa saga memorável em prol do saber.

No Brasil, como exemplo da falta de atenção, o mesmo foi traduzido como "O Físico"...

 


Partilhar

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

CARTA ABERTA A UM POSSÍVEL AMOR >> Mariana Scherma

Se não for me pedir pra ficar, por favor, não me mande mais mensagem. É crueldade me encher de expectativa, sumir com o vento e me deixar esperando a mensagem que vai dizer que você nunca deveria ter ido embora. Ela não vai vir, eu sei disso, no fundo e na superfície também. Mas a cada mero oi-com-sorriso que eu recebo seu, viro uma boba, esqueço o que já aconteceu e me transformo numa menina de 15 anos que perde a fome fácil, porque se alimenta dos sonhos que brotam ao saber que você ainda pensa em mim. Que não apagou meu número.

Talvez eu nem devesse falar essas coisas e manter minha aparente frieza, que é só aparente, convenhamos, mas talvez você não saiba disso porque eu sempre fui a divertida-desencanada-livre. Meio que continuo sendo, mas com uma pitada de tristeza porque você não quis ficar. Aliás, que mal lhe pergunte, por que você não quis ficar? Eu gostei de você no primeiro abraço, na primeira vez que senti seu perfume. Gostei de você na simplicidade com que nossas conversas aconteciam. Gostei de você na primeira vez que reparei seus olhos piscando e seus cílios volumosos fizeram meu coração sentir uma brisa que eu não imaginei ser possível sentir.

Gostei de você. Básico assim. Mas quem gosta diz que gosta, certo? E eu nunca disse, mas imaginei que você tivesse captado pelo meu olhar, no beijo que nunca quis terminar, nas mensagens nonsense, no silêncio que muitas vezes quis gritar. Não falei, dei bobeira e agora eu sigo tentando me distrair, tendo a certeza de que vai levar um tempo até esquecer como sua boca é vermelhinha e ficava ainda mais vermelha depois dos nossos beijos. Eu era mais feliz com você, agora, um pouco mais triste, ainda disfarço fazendo minhas brincadeiras idiotas com todo mundo ao redor. Essa pode ser a primeira e última vez que eu assuma que gostei de você. Só não vai ser a última se você voltar e ficar. Volta?

Volta porque eu acho que a nossa história ainda pode ter continuação. Como aqueles filmes que acabam e você começa a fazer contagem regressiva até a próxima sequência. A gente, junto, tem potencial. Você se lembra das risadas? Elas eram simples, eram gostosas, vinham fácil. E não é tão bom rir por nada? Não prometo que temos futuro como casal, mas se já foi tão bom, leve, sem briga, sem frescura, vai continuar sendo. Sinto que nossa história foi interrompida com vírgula, nada de ponto final da minha parte. E da sua? Eu gosto de você e, se for recíproco, volta, vai. Por favor. Agora, se você não gostar mais de mim, tudo bem. Sentimento não se força, sentimento acontece. Mas também não me mande mais mensagem. Uma hora dessas , eu esqueço você. Só que vai ser uma baita pena porque poderia virar amor.


Partilhar

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

APRENDIZADO >> Carla Dias >>



Para a Dona Elisabete, a professora
que viu em mim a pessoa que eu jamais
conseguiria reconhecer sozinha.


Ensinou os cinco filhos a beleza que inspira um mecânico a sê-lo. Carro tem sentimentos, costumava dizer, mesmo enquanto a mãe torcia o nariz, e comentava, com um quê de ironia no ponto de deixá-la charmosa, que carro é só um jeito de levar as pessoas aonde os sentimentos acontecem.

Todos os dias, levantava-se cedo, tomava banho e se vestia bonito, depois encontrava a esposa na cozinha, beijando-lhe os lábios demoradamente. Com tanta criança na casa eram raros os momentos em que eles podiam flertar, feito os namorados que sempre foram. Então, pegava uma caneca com café e dava uma voltinha pelo jardim, a fim de colocar os pensamentos em ordem.

Tirar os cinco moleques da cama era a atividade do dia mais prazerosa para ele, e que sempre acabava em alguma brincadeira, depois em beijos de despedida. Ele saía para o trabalho e a mulher ficava em casa, endoidecida, de um jeito amoroso, com cinco moleques relutantes em se arrumarem para ir para escola.

Naquele prédio, ele entrou várias vezes. Lá foi assistente de limpeza, zelador, um faz-tudo de primeira. Durante quase trinta anos, sustentou sua família com um salário mais miúdo do que as despesas. Nos finais de semana, trabalhava dedicadamente nos velhos carros dos amigos da vizinhança. Era o prazer que contribuía financeiramente com a sua família. E ele adorava ser chamado de “Seu Mecânico”.

Hoje é um dia diferente para um homem que nunca imaginou que sua vida pudesse ser diferente da que os irmãos e primos levavam. Esse prédio, hoje o receberá de uma maneira como ele jamais imaginou possível. Não antes de conhecer a Dona Iara, aquela mulher falastrona, mas nem sempre simpática, que o fazia limpar os corredores do lugar até ficarem lustrosos. Quero andar por esses corredores como se caminhasse sobre diamantes, ela sempre dizia. Ele se esforçou para que ela ao menos pudesse se imaginar nessa passarela de diamantes. E se esforçou para que cada canto ficasse em ordem, cada menino e menina na sala de aula, que eles se distraíam fácil com as conversas pelos corredores.

Todos gostavam de Pedro, mas a Dona Iara o admirava. Via nele o desejo tímido de aprender sobre o que encontrava nas lousas, quando limpava salas de aula vazias. Ela o observou por muito tempo, e lhe emprestou livros sobre mecânica, contou-lhe sobre gênios de todas as áreas, encantou-o com a história de vida de personagens da literatura. Não era incomum ela dar a ele uma verdadeira aula de história, enquanto Pedro lavava o banheiro.

Para Dona Iara, a curiosidade de Pedro era a sua melhor qualidade. Não era uma curiosidade para se gastar com bobagens, como a vida alheia, fofocas e tal. Era a curiosidade do aprendiz, que deseja mais informações sobre aquilo que lhe encanta, e Pedro se encantava com tudo o que ela dizia, não por necessidade, tampouco por educação. Era um encantamento genuíno.

Para Pedro, esse aprendizado todo lhe fez muito mais presente na vida escolar dos filhos. Ele fazia questão de, depois de um dia de trabalho pesado, sentar-se com os moleques e ajudá-los com a lição de casa, enquanto a mãe, que era quituteira de primeira, preparava suas delícias para alguma festa de aniversário.

Com os livros que Dona Iara lhe emprestou, ele se tornou um mecânico muito mais habilidoso, e até clientes de cidades vizinhas ele teve. Mas sua relação com os carros era mais emotiva, de apreciação. Aos poucos, foi passando os clientes para o amigo mecânico profissional, o Josué. A esposa ficou tinindo de brava, que eles nunca tiveram a vida mais tranquila do que ele trabalhando nos carros, nos finais de semana. O que ela não sabia, e ele tinha receio de compartilhar, ao menos até ver se daria mesmo certo, é que Pedro agora trabalhava somente meio período lá na escola.

Ele estava limpando a sala dos professores quando chegou o intervalo. Como sempre, parou o que fazia para sair da sala e deixar os professores aproveitarem os minutos de descanso. Dona Iara, porém, pediu que ele ficasse e que se sentasse, pois eles tinham algo a dizer. Naquele dia, Pedro compreendeu o que é alguém lhe querer tanto bem, respeitá-lo como indivíduo e ser humano, que até lhe oferece oportunidade de ser. Sob a batuta de Dona Iara, os professores ofereceram ao Pedro a oportunidade de estudar ali mesmo, na escola. Ele sorriu, agradeceu, quase chorou por conta de tanta atenção a sua existência, mas tenho de trabalhar... não dá pra estudar, não.

Pedro levou dois meses para contar a sua esposa o que acontecera. Durante esse tempo, ele trabalhou meio período e estudou para terminar o ensino fundamental. Depois de dois meses, completamente embevecido pela capacidade de aprender, viu-se incapaz de ser outra pessoa que não aquela que vivia dentro dele, mas não sabia como se manifestar. A esposa chorou, esperneou, chamou Pedro de irresponsável. Então, ela parou e se deu conta: em dois meses, o dinheiro entrara normalmente. Como?

Os professores foram convencidos, sem muito esforço, por uma Dona Iara decidida. Pessoas como Pedro precisam que nós, os professores, as ajudem a seguir o seu caminho, ela repetiu várias vezes, e depois explicou como ele era dedicado, interessado em saber, em descobrir o mundo. Foi assim, com o respaldo de uma professora muito querida e respeitada, que Pedro conseguiu receber o pagamento integral por meio período de trabalho. Eles se juntaram, tiraram um pouco do pouco que recebiam, e complementaram o pagamento do assistente de limpeza. Foi assim que Pedro chegou aqui, a esse agora.

Dona Iara o recebeu na porta, sorrindo, assim como os outros professores, alguns dos que o ajudaram em sua jornada. Pedro continua apaixonado por carros. Dois de seus filhos se apaixonaram por barcos, e são sócios em uma empresa de locação,  no litoral. Um se apaixonou por geografia, e antes de se tornar professor de uma bem-conceituada faculdade, viajou pelo mundo, colocou os pés no que aprendeu na escola. Outro se apaixonou por comida, e se tornou chef de cozinha de um badalado restaurante. E teve o que se apaixonou pelo Charlie Watts, dos Rolling Stones, comprou uma bateria e montou uma banda, que vai muito bem, obrigado.

Pedro chegou à escola para o seu primeiro dia de trabalho, depois de tantos anos. Entrou na sala dos professores, juntou-se a eles, bebeu café com eles, conversaram sobre a vida, a aprendizagem. Com os olhos marejados, o novo professor de Língua Portuguesa é recebido com carinho e admiração, que antes de voltar para cá, construiu uma carreira invejável como escritor.

Dona Iara e Pedro parados no corredor. Quem diria, Dona Iara. Quem diria que eu voltaria para cá assim, de forma tão bonita?”. Ela sorri, diz que sempre soube, você só precisava de quem entendesse que aprender muda tudo, muda o quem somos, o quem nos tornamos”.

Aprender muda o nosso dentro e o nosso entorno. Aprendendo, Pedro inspirou os filhos em suas carreiras, ajudou a mulher a criar uma instituição em prol da alimentação saudável em escolas públicas. Tornou-se a pessoa que morava dentro dele, silente, sem jeito de sair e ver o mundo.

Para Pedro, sem a intervenção de Dona Iara, a sua vida seria completamente diferente, empobrecida pela incapacidade de chegar aonde ele poderia. Para ele, os mestres, os professores são essenciais na formação de pensantes, pessoas capazes de tomar as melhores decisões, de fazer as descobertas pelas quais o mundo espera e necessita.

Imagem: freeimages.com

carladias.com



Partilhar

terça-feira, 14 de outubro de 2014

TEM GENÉRICO? >> Clara Braga

Lá fui eu ao ortopedista. Expliquei o que sentia, mostrei onde doía. Ele examinou, fez diversas perguntas, examinou um pouco mais, explicou o que estava acontecendo com toda calma e deu seu veredicto: entre várias coisas, você precisa fortalecer sua coluna, um pilates, talvez?

Até gostei, estava mesmo curiosa para entender melhor sobre esse tal desse pilates que todo mundo fala tanto! Sempre ouço falar tão bem que acho que vai ser a solução para os meus problemas! Comecei a pesquisar alguns lugares, pedi algumas indicações e comecei as ligações. 

O primeiro lugar era totalmente fora do orçamento, vamos ao segundo. É… fora do orçamento também… próximo. É, deu uma leve melhorada, mas ainda é complicado. Não demorou muito para eu entender que pilates deve mesmo ser a solução para os problemas de todas as pessoas do mundo. Tanto quem faz, que deve curar qualquer problema, quanto quem aplica, que deve estar ganhando muito dinheiro! Que coisa cara!!!

Será que não existe um genérico do pilates? Sei que quando o assunto é saúde fica complicado querer economizar, mas também não precisava abusar né? Não tinha como pelo menos aceitar plano de saúde, talvez?

Confesso que em tempos de segundo turno, enquanto me sinto um pouco na obrigação de tomar uma decisão mesmo sem me identificar muito com qualquer um dos candidatos, estou quase anunciando: quem prometer abaixar os preços dos estúdios de pilates tem meu voto!


Partilhar

domingo, 12 de outubro de 2014

ESTAMOS EM GUERRA >> Whisner Fraga

Aspectos religiosos vira e mexe ganham destaque em eleições. Neste momento em que depositaremos na urna a esperança de uma sociedade mais justa e melhor, é importante deixar de lado nossas crenças, principalmente no que diz respeito a aspectos religiosos. O Brasil deve abandonar uma história de submissão a igrejas e se tornar de fato uma nação laica.

Há temas muito polêmicos nesta eleição, que estão sendo tratados com parcimônia por ambos os candidatos à presidência: aborto, casamento gay, legalização da maconha, pena de morte, entre outros. Nenhum deles desconhece o fato de que somos um país católico e que não podem se dar ao luxo de perder os votos dos fiéis. Então permanecem em cima do muro. Não é necessário que o cidadão se desespere, pois o novo presidente, seja quem for, não apoiará a descriminalização do aborto ou legalizará a maconha ou instaurará o casamento gay. Nenhum deles. Simplesmente porque não podem perder o importante apoio dos crentes. Apenas por isso.

Mas o eleitor deveria ir às urnas como um cidadão e não como um católico ou como um evangélico ou como um budista. Quando digitar o número de seu candidato deveria pensar sempre a favor da vida. E a vida em nosso planeta é produto que caminha para a extinção. Por que se discute tanto a questão do aborto e pouco se fala sobre a água, que no estado de São Paulo se torna cada dia mais rara? Ora, não é tudo vida? Por que o cidadão se posiciona fortemente contra o casamento gay e corre a uma loja de móveis para comprar uma mesa produzida com madeira ilegal? Ora, não é tudo vida? Quem se preocupa com os índios assassinados em prol do extermínio de árvores, se temos em nossa sala todos os móveis mais chiques, para inveja de nossos vizinhos? Ora, não é tudo vida?

A vida está em baixa em nosso mundo. A sociedade se posiciona sobre a pena de morte – a favor ou contra, se dividindo, mas em sua maioria crê que bandido bom é bandido morto. Católicos saem de suas missas com a boca ainda salivando a hóstia para xingar em uma querela de trânsito o mesmo irmão que abraçou durante a comunhão. Evangélicos que tentam curar um homossexual logo após o sermão do pastor. Somos mesmo um povo selvagem. Metade de nossa população é formada por analfabetos funcionais, o que quer dizer que não sabem interpretar aquilo que leem. 49% não gostam de ler ou de raciocinar, o que os torna vulneráveis a dogmas e outras crendices. Assim, é fundamental que sigamos a defender que o dinheiro do pré-sal seja para a educação.

A vida está em baixa mesmo. Na Internet, nas redes sociais, nos pontos de ônibus, nas rodoviárias, no clube, na escola, no trabalho, tudo é política, na pior acepção do termo. Somos todos esquerda, centro ou direita. E, em todos os casos, contra a vida. Somos contra a existência quando nos tornamos consumidores compulsivos, quando não pensamos em como deixar um mundo um pouquinho melhor após nossa devastadora passagem por ele, quando sabemos que nosso estilo não chega nem perto de ser sustentável, quando não defendemos, com unhas e dentes, o direito a uma educação de qualidade. Que os outros paguem e se preocupem, o que importa é que meu umbigo está bem e a salvo.

O egoísmo é a tônica desta nossa sociedade precária. Diante da urna devíamos nos esquecer de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossas desavenças, de nossos desafetos, de nosso egocentrismo, de nossa egolatria, e depositar um voto à vida.

Partilhar

sábado, 11 de outubro de 2014

A MULHER DENTRO DO ESPELHO ME ASSUSTA << Cristiana Moura

Causa-me estranhamento o  banheiro público. Banheiro é local privado, talvez o mais privado de todos. Quem nunca chorou trancado no banheiro, ou cantou secretamente? É aquele lugar de intimidade e solidão. Quando um banheiro se faz público, ou seja, compartilhado,  mora aí uma tensão.

Portas lado a lado e um espelho atravessando a parede diametralmente oposta. Ao sair da cabine, me deparo com a mulher dentro do espelho vindo em minha direção. Ela me assusta. Não vejo seu rosto. Nesta ausência, desejos nublados. Ela se sente manca como quem segue um trajeto de tropeços. Em sua claudicação posso ouvir os sons do invisível. É coisa de corpo recém habitado, ainda sem rosto, precisando traçar novas cartografias para seus sentimentos.

Essa moça me assusta. Essa moça me afeta. É que a mulher desperta em mim um tal desejo nem sei do quê. Ela, que dia após dia se transforma e rouba meu reflexo impondo a si, seu desequilíbrio, seus afetos em penumbra. "Essa moça tá diferente"*, já não a conheço mais. Essa moça me encanta.

Para desvelar seu rosto tenho que desencantar. Tenho que lhe permitir novos encontros. Tenho que me desapegar de mim, me abandonar. Ela precisa desmanchar o mundo para abraçar o lado de fora do espelho. Eu preciso desmanchar a mim para enxergá-la. Quando souber ser vista, a mulher irá produzir o mundo e os desejos.


* Trecho da música de Chico Buarque de Holanda com o mesmo título.

Partilhar

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A VIDA PASSA. AINDA BEM >> Zoraya Cesar

O casamento fora razoável enquanto durou. Casaram-se naquela época em que, se o rapaz não tinha ficha na polícia, não era tresloucado e ainda tinha um emprego razoável, já estava bom demais. A sociedade não o deixava solteiro muito tempo e moça casadoira não faltava. Casaram-se depois de curtíssimo noivado e ele trabalhava duro para sustentar a mulher e os três filhos,.

Era do tipo enrustido. Entrava mudo e saía calado. 

Um dia, ele saiu calado e não entrou mudo. Não entrou mudo, nem surdo, nem a pé e nem de trem. 
Saiu para trabalhar e não voltou. Sumiu. Desapareceu Escafedeu-se. Não sei se ele teve ou não a decência de mandar um bilhete:

- “Prezada Ana, fui comprar cigarros e não encontrei o caminho de volta.”

Ou:

- “Prezada Ana, cansado de trabalhar como um mouro, resolvi trabalhar como um infiel.”

Ou:

- “Prezada Ana, encontrei o emprego dos meus sonhos. Vou continuar dormindo." 

Nem isso nem aquilo. Mas, enfim, ele era caladão mesmo. Ana passou semanas totalmente perdida, procurando na polícia, nos hospitais, necrotérios, nada. 

Sabemos todos que uma das poucas certezas desse mundo é que o tempo não para. Contas a pagar, dívidas a honrar, compromissos a cumprir, comida a ser posta na mesa, crianças na escola, e Ana, mãe de três filhos, abandonada pelo marido, não podia se dar ao luxo de ficar chorando misérias no sofá. Até porque miserável ela não queria ser. 

A história de luta e superação de Ana não difere muito da maioria, com o agravante de que, à época em que seu marido foi abduzido por marcianos, uma mulher abandonada era sempre meio que estigmatizada na sociedade. As amigas casadas viravam ex-amigas (quando não viravam também a cara), emprego era difícil e não havia essa profusão de creches de hoje em dia.. 

Uma história igual a tantas outras. Mas, como cada história tem seu caminho próprio, a de Ana também tomou seu rumo, que podemos resumir assim:

Ela conseguiu emprego na escola das crianças, que ganharam bolsa. Os poucos parentes deram uma ajuda. Vendeu doces, correu pra cá, correu pra lá, e a vida foi seguindo, Ana arranjando coisa melhor - sempre tem Almas boas nesse mundo que auxiliam a quem se esforça. No final das contas, tudo deu certo.

Pronto. 

O tempo passou, como é de sua natureza passar, e nada há que o faça parar. As crianças cresceram, a família também e a situação, agora, nem de longe lembrava os negros primeiros tempos.

Só uma coisa não mudara. Ana não queria saber de homem para ela. Bem que amigas, família, todos, ao longo dos anos, tentaram fazê-la se interessar por diversos rapazes, homens, senhores, conforme a idade ia avançando, mas Ana, firme, dizia, casar, nunca mais. 

Nunca. Eis uma palavra que tem vontade própria, e um espírito traiçoeiro, para não dizer, de porco. É como um cavalo, quando você pensa que o domou, que o tem seguro pelas rédeas, ele, inopinadamente, segura os freios com a boca, domina a situação, empina e sai desabalado, a seu bel-prazer, e dane-se você, ou quem estiver nele montado. 

Cabelos brancos, pele enrugada, rosto sem pintura. Palavras podem ser muito ingratas, pois, vejam se não concordam comigo: quem lê essa descrição, pensa numa velha feia e apagada. Mas, no caso de Ana, isso não poderia estar mais longe da verdade. 

A brancura dos cabelos emoldurava seu rosto, tal qual uma aura; sua pele era macia e a face não precisava de maquiagem, os olhos brilhavam o suficiente para enfeitar qualquer semblante.  Porque, não importa o que Ana tenha passado na vida, ela jamais perdera sua luz, e seu riso estava sempre a postos. Ana era bonita. Daquelas mulheres que ficam idosas, mas não velhas.

Dizem que a beleza está nos olhos de quem vê. E Seu Joaquim, 10 anos mais moço que os 79 de Ana, viu-a em toda sua plenitude. Viu uma mulher meiga, engraçada e serena. Viu mais: uma mulher batalhadora que soube criar os filhos e manter a família unida; que não se deixou amargurar pela aspereza da vida, nem permitiu que as vicissitudes esvaziassem sua crença em dias melhores. 

Viu isso tudo e enxergou nela uma companheira de vida. 

E tanto fez, que conquistou o coração de Ana. Viúvo, careca, catarata operada, chegado numa roda de samba, numa cerveja gelada e conhecia todas as músicas românticas do Roberto Carlos. E atleta, pedalava três quilômetros por dia, só para visitá-la, levando flores, docinhos, revistas, convites para passearem. Um dia pediu-a em casamento.

Ela rejeitou? Nada. Aceitou sem titubear (para alegria - também surpresa, porque negar? - da família). 

E foi coisa informal, devido à idade avançada dos nubentes? Que nada! Vestido branco, fraque, buquê, cravo na lapela, arroz, cerimônia religiosa, o filho mais velho de Ana levou-a ao altar, os noivos se beijaram, os fotógrafos fotografaram, os netos filmaram, o padre dançou... uma festa maravilhosa. E a lua-de-mel, presente das duas famílias junto com os amigos, foi em Gramado, que os dois adoram um chocolate quente no inverno.

Acabou aqui?

Nada. A história está só começando.



Partilhar

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O QUE VOCÊ FOI QUANDO ERA CRIANÇA >> Fernanda Pinho



Os adultos e essa urgência sem sentido insistem em questionar às crianças sobre o que elas querem ser quando crescer. Era assim quando eu era menina e continua sendo (vira e mexe eu mesma mando a famigerada pergunta para algum pequeno diante da falta de assunto). Eu quis ser apresentadora de TV (a Xuxa, pra ser mais exata), juíza de direito (achava o supra sumo do poder bater o martelinho) e jornalista (que é o que eu acabei virando mesmo). Embora tivesse resposta, sempre respondia meio entediada, devido à obviedade e à constância com que a pergunta surgia. 

Ontem, porém, parada num engarrafamento, com a cabeça dando voltas em bobagens que de tão bobas viram grandes problemas, fui surpreendida com o reverso da pergunta. O anúncio na traseira de um ônibus questionava: "O que você foi quando era criança?”. Interessante indagação que depois descobri ser o nome de uma peça de teatro.

Viajei. Quando criança fui Princesa da Pipoca na festa junina. Fui filha única. Fui louca para ter uma irmã. Fui irmã mais velha ciumenta. Fui fanática pela Xuxa. Fui uma exímia pianista em meu pianinho de cauda. Fui a feliz proprietária de uma Ferrari (Da Barbie). Fui ratinha de praia. Fui comilona (No nível: todos os problemas de saúde que tive na infância estavam relacionados a comer demais). Fui a menina mais alta da classe. Fui da classe dos não-alfabetizados. Fui superprotegida e superamada pelos meus pais.

Quando criança eu fui aquela menina que achava que o He-Man e a She-Ra eram um casal. Que tubarão era macho de baleia e que ladrão não era gente (Ficava verdadeiramente aterrorizada quando alguém dizia que “um ladrão entrou na casa da vizinha”. Logo imaginava a casa sendo invadida por um espectro vindo de outro planeta. Quando descobri que era gente mesmo, fiquei mais aterrorizada ainda). Fui a aluna sempre escolhida pra ser índia nos teatrinhos sobre a colonização. Fui aquela menina que dava tudo o que tinha para as amigas (Quantas broncas eu levei por voltar para a casa sem meus estojo de maquiagem, sem minhas canetinhas, sem a pasta de papéis de carta, sem minhas figurinhas). Que chorava quando assistia Carrossel porque o Mario Ayala não tinha mãe e oferecia carona para a professora depois da aula, fazendo o pai dar voltas quilométricas. Fui boa. Mas também fui aquela que por milésimos de segundo não tascou um guarda-chuva na cabeça da irmã bebê, a que fez o primo mais novo cheirar amônia e a que jogou o outro primo na piscina (e tapou a piscina com uma lona). Fui a menina que dizia que a cor preferida era verde só para ser “alternativa”, já que a maioria das outras meninas preferiam o rosa ou o laranja. Fui aquela que falava tão alto que a mãe teve que levar ao médico pra verificar se não tinha problemas de audição. Tinha nada, só queria chamar atenção.

Fui a Nêga do meu pai. A Loló dos meus tios. A Magali da minha tia. E a Nanda de todo mundo. Fui Cláudia ou Márcia em todas as minhas brincadeiras de casinha porque achava que chamar Cláudia ou Márcia e fingir que fumava um cigarro era a coisa mais adulta do mundo. “Ai, menina, nem te conto”, e dava uma dramática tragada no lápis de cor branco que não servia pra nada mesmo. Fui uma leitora interessada desde que aprendi a ler e compositora desde que aprendi a escrever. Escrevia as letras e inventava a melodia ao mesmo tempo em que gravava a música em fitas K7. Fui defensora da minha irmã, a grande companheira da minha mãe e xodó do meu pai. 

Fui sendo isso, sendo aquilo, até chegar no que sou hoje, um emaranhado de definições que a vida adulta nos exige. Mas de todas as que cabem a mim, eis a minha preferida: sou uma nostálgica incorrigível, resultado de uma infância danada de boa.


Partilhar

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O FAZ-TUDO >> Carla Dias >>

Sou um faz-tudo com gosto e endosso do meu patrão. Gerencio, invento, recupero, limpo, exijo clareza, construo dos mais belos castelos de areia. Autodidata do fazer necessário, invoco com labirintos e os desafio, até eu achar a saída. Embebedo-me de café, enquanto passo pano, passo tempo, passo o olhar pela pele da moça que mora em trabalho, no escritório ao lado. Nunca vi aquele cubículo desfalcado da presença dela.

Meu escritório fica na Rua Aquelali, mas às vezes tem ponte que me leva ao lá fora, assim, sem pensar no caso. Como no dia da festa da firma, quando fui encarregado de fazer a alegria de setecentos e noventa e sete pessoas, durante quatro horas. As quatro horas eu tirei de letra. Difícil mesmo foi lidar com as setenta e duas que antecederam a festa, quando eu soube que teria de fazê-la acontecer, já que o encarregado da festança pediu demissão.

O mais interessante sobre um dedicado faz-tudo, é que a maioria das pessoas não compreende que ele aprende no processo. Elas desejam alguém como ele, mas não querem pagar o preço, que é ter paciência com a avalanche de erros que ele comete, enquanto aprende o ofício. Puxe pela memória... Você já deve ter conhecido um faz-tudo, e apreciado a sua habilidade de lidar com praticamente qualquer coisa. Mas bastou ele cometer um erro, enquanto aprendia a nova tarefa, que você desacreditou o tal, e de um jeito, que ao atualizar a sua agenda, esqueceu, propositalmente, de incluir o número do telefone dele.

Tudo bem... Pode ser que você não tenha conhecido um faz-tudo ou tratado o tal dessa forma. Mas acredite nesse que lhes confidencia: o tratamento é esse em 90% dos casos.

Hoje a moça trouxe um sorriso diferente para o trabalho, que combina formosamente com os cabelos desobedientes e o vestido-jardim. A personalidade dela destoa da sua aparência frágil, seu quê de distraída. Lá do meu lugar de trabalho, às vezes escuto os pitos que a moça passa em funcionários em um relacionamento sério com a preguiça. E nem pensem que isso desanima meu coração a gostá-la de um tanto. Personalidade é esse lugar onde colocamos as nossas convicções, nossos desejos, e o que julgamos sonhos, só porque ficaríamos arrasados se, após declará-los realidade, ela, a realidade, nos traísse com desacontecimento. Personalidade é a moça ser sem temer os tropeços e os imbróglios. Faz-tudo tem coração, minha gente. Por isso eu me apaixonei, mas de um jeito pra lá de profundamente, que já ando engordando a poupança para futuro acompanhado.

Enquanto faz-tudo, eu também passo por tudo e mais um pouco. Dizem que minha profissão é quebrar galho, emendar, mas sou dedicado. A maioria dos meus feitos perdura, porque não vim a esse mundo para fazer pouco caso de aprendizado. Até me disseram que eu me daria muito bem fazendo lobby, que alguns políticos me pagariam uma fortuna pela minha habilidade. Só que se engana quem pensa que um faz-tudo é desidratado das ideias. Na política, esse meu tudo, que sempre se debruçou no desejo de fazer o melhor por quem precisa desse melhor feito, mas não sabe ou pode fazê-lo, seria menosprezado como se valesse um nada, e substituído por interesses menores, de tão pessoais.

Antes que me esqueça, faz-tudo tem nome. O meu é uma homenagem a um artista que minha mãe amava de paixão: Noel Rosa. Eu sou Noel de Castro Fagundes, um faz-tudo que vem apurando seus talentos, que veio de lugar nenhum e, provavelmente, chegará a lugar qualquer, no entendimento dos espectadores de sua trajetória. Que antes de mais nada, é um aprendiz voraz, que resolve problemas danados, apaga incêndios burocráticos, que mesmo que não venha a ser responsável por uma descoberta de importância incontestável, já descobriu algo simples, de importância tão incontestável quanto:

A vida nos é cara, com toda sua delicadeza e a gama de mazelas que herdamos do destino, e os tombos, o tudo e o nada. A pessoa interessa, mesmo quando não galã de novela, ou empresário e os seus imensos escritórios sitiados em famosas avenidas do país. Há verdadeiros gênios sendo criados nas favelas, alimentados com descaso, sobrevivendo ao abandono quando, aprendendo na espera, alguns se esquecem dos talentos, outros fazem mil coisas ao mesmo tempo, até poderem se dedicar ao que realmente lhes interessa.

A moça passa em frente ao meu escritório e para. O sorriso diferente escancarado, uma alegria pornográfica. Ela pergunta se aceito jantar em sua casa. E eu, um faz-tudo condecorado com bons resultados no serviço prestado, sinto o corpo tremer e fico ali parado. Faço nada.



Partilhar

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O CAMISA-VERDE (Continuação) >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação)

Quando os homens da lei desafivelaram seus próprios cintos, Dito estremeceu. A coisa podia ser bem pior que uma morte pura e simples – apavorou-se.

Mas as ditaduras podem ser generosas quando o adversário não representa grande ameaça. E tudo o que Dito experimentou foi uma surra de cintos militares e civis. Siá Maria o encontrou um frangalho, deitado numa folha de bananeira e coberto com outra. Se sua pele não estava muito íntegra, dignidade e macheza foram preservadas. Até porque surras não lhe eram novidade e não maculavam sua honra.

Siá Maria cuidou dele como sempre, lavou, aplicou compressas, ungüentos e rezas por três dias. No quarto dia ele se levantou, colocou roupa limpa, procurou trabalho, foi à igreja, se confessou e espantou primeiro Siá Maria, depois a todos. Pagou dívidas, pediu desculpas, agradeceu, participou de mutirões.

Veio a guerra e Dito felizmente não participou, arrimo de Siá Maria, que mentiu para o sargento do alistamento, dizendo que só tinha ele de filho. A comunidade, que a essa altura gostava dele, silenciou, e Dito foi poupado.

Dito acompanhou entusiasmado a campanha na Itália e a volta dos pracinhas. Seu nacionalismo, que tinha silenciado a vergastadas, não arrefecera, apenas mudara de lado. Estava mais brasileiro que nunca.

Getúlio Vargas, herói que tinha derrotado o eixo, estava agora ameaçado. Exigiam que ele entregasse o poder, numa tal de redemocratização. Um absurdo de ingratidão.  E como Dito não estava sozinho nesse entendimento, marcou-se uma manifestação de apoio a Getúlio na Candelária, lá no Rio de Janeiro.

Siá Maria, que levantava antes do Sol, estranhou que Dito acordasse tão cedo, mas calou porque ainda não sabia de nada . Dito pediu uma certa roupa que não usava para trabalhar.

- Cê vai aonde, Dito?

Ele custou a responder, o que fez sem olhar pra ela, como se discursasse de cima do coreto:

- É um absurdo o que tão querendo fazer com Getúlio. Mas não vai ser tão fácil, não! Nesse país ainda tem macho de coragem!

Siá Maria ficou só olhando.

Dito encheu com três cacimbas o caldeirão de ferro e foi pra casinha no fundo do terreiro. Siá Maria andou até o marmeleiro. Quando ouviu o barulho da primeira cuia de água caindo, ela entrou na casinha.

- Quê que é isso, Siá Maria, eu tô pelado?!

- Pois é assim mesmo que eu te quero.

Quando as quase indestrutíveis varas de marmelo atingiram pela primeira vez as costas, Dito, que tentava proteger o rosto, fez um escândalo. Depois foi diminuindo o volume. Perdeu a noção de tempo, mas foram muitos minutos.  No final já não gritava, gemia guturalmente a cada fustigada. Siá Maria saiu do banheiro e deixou cair no chão o que sobrou da rama.

Dito não vestiu a roupa, mas amarrou a toalha na cintura. Mingau de fubá e café já estavam na mesa quando entrou. Enquanto ele comia, Siá Maria aplicou compressas e unguentos nas suas costas. Depois foi ao roçado avisar que ele acordou com desarranjo e não ia trabalhar.


Dito, hoje, velhinho, acha que em política não há lado bom. E que quanto mais longe, melhor.


Partilhar

sábado, 4 de outubro de 2014

CONVICÇÕES >> Sergio Geia

Sou um homem sem convicções. A única certeza que tenho nesta vida é que sou um homem desprovido de certezas. Não tenho certeza de nada. Ou tenho certeza apenas de que não tenho certezas. Me faltam convicções. As mais finas convicções. As grossas também. As de qualquer jeito. Finas. Grossas. Densas. Curtas. Me faltam convicções de todo gênero. Sou um sem-convicções.

Ser um homem sem convicções é um problema muito sério, amigo. Seríssimo. A humanidade está fadada ao absoluto fracasso se o tecido social for costurado por homens sem convicções. Pobres homens, pobre humanidade. Pobre porque esses homens pobres serão arrebanhados facilmente, serão verdadeiras vaquinhas de presépio. Pobre humanidade por ter em seu conjunto social homens pobres, homens sem convicções. Enfim, meu amigo: falta de convicção significa pobreza. Uma pobreza só.

Mas não estou aqui para tratar dos problemas da humanidade. Os meus, pequeninos como  grãos de mostarda, já são de difícil manejo. Quem sou eu pra me meter nos graves problemas do mundo se nem dos meus, pouquíssimos e paupérrimos, eu dou conta exatamente por me faltar esse elemento fundamental que distingue homens de ratos: as convicções?

Um homem precisa de muito pouco para viver. Os mais humildes dirão um chão, roupas, comida, trabalho. Pois eu digo que para um homem viver, e viver dignamente, ele precisa ter convicções. E mais nada. A convicção anima. A convicção acalma. A convicção entusiasma. A convicção movimenta. A convicção abre portas. E fecha também, com convicção. A convicção derruba. A convicção alimenta. A convicção une. A convicção empurra. A convicção desmancha. A convicção edifica. A convicção solidifica. A convicção cristaliza. A convicção serena. A convicção implode. A convicção satisfaz. A convicção perdoa. A convicção enfrenta. A convicção costura. A convicção ajuda. A convicção resiste. A convicção levanta. A convicção arruma. A convicção encara. A convicção basta.

O problema da convicção, amigo, é que ela é danada. Escapa, bandida, por entre suas mãos, seus dedos, como veia bailarina, como a água depositada num recipiente cheio de furinhos, como um chuveiro. Olhe pra cima. Veja lá a água caindo da ducha. Pois é. Você passa o dia remoendo até as vísceras, cutucando, e de repente, você a encontrou; um encontro fascinante e ao mesmo tempo sedutor. Nada! Afloram emoções, novos sóis e novas luas, novas águas e novos rios, e, de repente, como um castelo de areia, são arremedos de convicção implodindo, simulacros de convicção se desmanchando, projetos mal-acabados de convicção se espalhando. Convicção mesmo, nada.

Outro dia foi assim. Foi quase um ano refletindo, dialogando, exercitando o penoso e difícil hábito de pensar (não tão hábito assim), para chegar num ponto que me pareceu consistente e que me deu trabalho (só eu sei quanto). Quando imaginei que já tinha algumas certezas, elas se foram na velocidade de um gnu, se esfarelaram feito bolacha velha e tudo farinha virou; implodiram pilares, crenças, certezas e um arremedo mal-acabado de convicções. Mas não desisto, meu caro. Simplesmente porque trago a convicção de que no assunto convicção, não podemos desistir. É norte. Precisamos dela. Sou um homem sem convicções. Hoje. Um corpo sem alma. Uma alma sem destino, que vaga, que se perde, que se encontra, mas que se perde de novo. Tudo bem. Estou na trilha. Logo chego. Muito embora diga tudo isso ainda sem muita convicção.

Partilhar

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O MENINO PASSARINHO >> Paulo Meireles Barguil


Era uma vez um menino que desejava voar.

Correr era algo que ele gostava de fazer, mas não o saciava, tamanha a sua vontade de conhecer outros lugares.

Enquanto não aprendia a nova habilidade, exercitava ao máximo as suas pernas, pois acreditava que  elas seriam necessárias no momento da decolagem.

No colégio, adorava jogar futebol e brincar de pega-pega.

Era fora da sala de aula que ele, assim como para quase todos os estudantes — de ontem, hoje e, talvez, amanhã — tinha seus momentos mais divertidos.

Quando ele tinha 9 anos, ao retornar do recreio, ouviu um barulho fora da sala e pediu à professora para ver o que estava acontecendo.

— Por essa porta, você não passa! — respondeu a mestre.

Para conciliar o seu desejo e a negativa da professora, o menino decidiu pular a janela.

A gritaria foi enorme: os colegas rindo e a docente chamando-o de volta...

Ao retornar da investigação, como era de se esperar, foi encaminhado à Diretoria.

Nesse ano, os conflitos do menino na escola só aumentaram. Seus pais, por não saberem o que fazer, decidiram o colocar numa gaiola.

O menino cresceu, mas nunca desistiu de voar.

Tal qual um presidiário, utilizava a maior parte da sua energia esboçando planos uma improvável fuga do cativeiro ou do que gostaria de fazer quando a liberdade lhe fosse, enfim, restituída.

Outro passatempo preferido era descobrir os pontos fracos dos seus carcereiros, os quais estavam sempre mudando.

Apesar de tudo, ele continuava a correr, mas sem o mesmo ânimo de outrora. A bicicleta, companheira de longa data, era uma alternativa interessante para explorar o mundo.

Os ponteiros continuavam a rodar e ele descobriu que uma motocicleta — por ele batizada de Vitalina, em homenagem à música Vital e sua moto, dos Paralamas do Sucesso, e numa referência jocosa ao seu estado emocional — era ainda melhor!

Durante quase 2 décadas, andar de moto, mesmo que de forma cautelosa, permitia que o menino sentisse que estava voando.

Há quase quatro anos, um acidente com as suas asas postiças retirou dele uma das suas maiores alegrias, bem como, temporariamente, a sua capacidade de andar.

O processo de cura — física e emocional — foi demorado, mas ele conseguiu, além de voltar a correr, fazer as pazes com seu (suposto) algoz.

E comecei, enfim, a voar...



Partilhar

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

VAI, PLANETA! >> Mariana Scherma

As chuvas aqui no sudeste estão com tudo. O nível do reservatório da minha cidade está saudável e seca, agora, só mesmo nos telejornais, quando todo aquele refrão de economize água se perdeu. Tchau, uso racional de água, e até o inverno que vem. Faz parte. Pra mim, esse assunto não morreu. Minha mãe adora me chamar de a-patrulha-de-uma-pessoa-só. Até gosto, mas é muito solitário.

Até agora, não consigo ver uma pessoa maltratando o meio ambiente e seguir como se nada tivesse acontecido. Lavar calçada, carro, jogar lixo no chão, arrancar flor do jardim alheio... Eu sempre tenho um puxão de orelha pra passar a essas pessoas. É mais forte que eu. Lembra aquele desenho do Capitão Planeta? Pois é, sou possuída pelo espírito dele. Já chamei atenção de senhora lavando calçadas (umas vááárias vezes), de gente jogando chiclete no chão, de sem noção jogando bituca de cigarro, de fulana no banheiro da academia ligando todos os chuveiros por uns dez minutos até a água esquentar. Alô, mundo! Até meu pai já foi vítima da minha ira desperdiçando água. Reeduquei o papi e acho possível todo mundo, pouco importa a idade, ser ensinado de que não se desperdiça natureza.

Toda vez que conto que chamo a atenção de alguém, meu pai sai dizendo que eu espalho amizade por onde passo, que arrumo mais e mais seguidores nas redes sociais, ironicamente, claro. Mas sinceridade? Não quero fazer amizade com quem lava a calçada, é de uma falta de inteligência absurda, dali a dez minutos a calçada vai estar suja outra vez. Por que esse fulano não tira o sapato ao entrar em casa. É prático e poupa o meio ambiente. Tampouco quero virar colega de quem joga lixo na rua. A rua é de todo mundo, então, você joga sujeira na sua casa? Pretendo passar longe da amizade de quem emporcalha banheiro coletivo e por aí vai. Acredito que amizade sempre é bom, mas prefiro os amigos que conhecem a palavra respeito. Simples assim.


A tarefa de reeducar as pessoas é um pouco solitária, cansativa e com certeza não devo mudar o mundo. Mas se eu fizer a pessoa em quem dei bronca pensar duas vezes sobre seus atos, já me dou por satisfeita. Eu, sozinha, não devo tornar as ruas brasileiras como as da Suíça. Mesmo porque, o brasileiro genérico cresce sabendo que aqui toda a natureza é farta e acha que tudo bem dar uma abusadinha. Não, nada de tudo bem. Natureza também se esgota. Assim como minha paciência ao ver uma atitude desrespeitosa com todos nós. A gente também faz parte do meio ambiente: eu, você e até a senhora que lava calçada.


Partilhar

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O CORAÇÃO DO OUTRO >> Carla Dias >>


Hoje, um amigo muito querido passará por uma cirurgia em benefício do seu coração. Muitos são os que têm enviado boas vibrações para ele, já que, em matéria de nos fazer sentir bem, ele é bom à beça. É o toma lá dá cá da benquerença fazendo o seu papel.

Neste momento, não há como eu falar sobre outro assunto que não seja coração. Caso contrário, seria como comentar política e finalizar com “tem coração envolvido?”, para então lidar com olhares políticos estranhando pergunta feito essa, em um cenário feito aquele, onde o coração raramente abre a boca.

E quando a pessoa alimenta o coração alheio, assim, por que sim? Não é só o meu que se curva à beleza da música e da poesia daquele coração. Presenciei muitos se tornarem fãs do artista, para então concluírem, com apreço escancarado, que tiveram boa sorte de conhecê-lo. Porque acontece de conhecermos pessoas que, com seu talento, e gentileza ao compartilhá-lo, influenciam a felicidade da gente a se estender até o adiante, em momento em que tendemos a encerrá-la antes da hora. Isso é ou não algo extraordinário?

Definitivamente, é.

Você até pode pensar que estou enfeitando a situação, que cirurgia no coração é coisa séria e eu deveria ser mais realista a respeito. É coisa séria mesmo, e para mim as emoções são bem realistas. Não há como separar o coração músculo, órgão de importância vital para um corpo funcionar, da essência de quem habita essa importância. Eu não conheço o músculo, mas o quem ele permite existir. E esse quem eu aprendi a admirar profundamente. Trata-se de um quem gentil, e mesmo quando a minha cachola está cheia de caraminholas, ele me mostra, com aquele jeito meio sem querer, e a cada canção, a cada conversa sobre tudo e sobre nada, que a vida tem camadas, e, às vezes, ela sofre de falta de delicadeza. Mas tudo bem, que passa. E que talvez nasçam bons começos no final disso tudo. No finalmente daquilo, pode até nascer catarse. Alívio.

Esse meu amigo tem coração tão valoroso que nem se dá conta do bem que faz a muitas pessoas, apenas sendo quem é, esse poeta navegando pela música, voz reverberando nos silêncios. Porém, posso falar legitimamente somente por mim. Foi escutando os discos dele que escrevi um livro de poemas inteirinho. Ainda assim, mesmo eu dizendo, sendo bem clara, às vezes ele contesta o fato de que suas canções são presentes de valor irrefutável para mim. Que durante elas, eu me questiono, divirto-me, redescubro-me, às vezes encaro o abismo, só para me lembrar que passa.

Muitas pessoas têm mandado mensagens e boas vibrações para ele. Eu mandei mensagem, boas vibrações são prato principal no menu do meu desejo cotidiano aos meus afetos. Mas hoje é dia de observarem o coração do meu amigo como nunca o fizeram antes. E se tenho de escrever uma crônica, que seja sobre a tristeza que sinto pela pessoa que irá contemplar esse coração, no ineditismo do olhar. Que essa pessoa não o conheça da forma que nós, os apreciadores do ser humano que ele é, conhecemos. Lamento não pelo cuidar, que sei que ele será bem cuidado. Mas porque, soubesse essa pessoa do que meu amigo guarda nesse coração, certamente ele se deslumbraria.

E sou completamente a favor de um bom deslumbramento.

Hoje, um amigo querido vai fazer uma cirurgia em benefício do seu coração. Depois, ele escreverá canções em benefício dos nossos corações.

Imagem © freeimages.com

carladias.com

Partilhar