sábado, 30 de agosto de 2014

QUAL O GOSTO DE UMA MANHÃ? >> Cristiana Moura

Tenho um deslumbre quase secreto: a sensorialidade dos corpos no caminhar. Às vezes fecho os olhos, respiro fundo e imagino todos os meus poros dilatando-se. Hoje fiz uma curta caminhada. O calor do Sol já quente na pele, o barulho dos automóveis , a tranquilidade dos gatos, os sorrisos e cumprimentos de outros caminhantes, os desvios dos passos das calçadas quebradas, a buzina do motorista apressado que parece preferir que não existissem pedestres.  A cidade me adentra num entrelace de sentidos.

Ontem assisti a um filme que acorda , no corpo, uma dessas experiências que, depois, a gente nem sabe dizer. É coisa de alegria quieta, de prazer leve, como se um silêncio bom gritasse por dentro. Que filme? A Cem Passos de um Sonho. O enredo do filme não vou contar. Corram e vão assistir. Posso dizer que ele fala desse universo sensorial. Mais que isto - ele desperta os sentidos. Sentidos acordados nas relações sendo vividas no seu dia a dia. Fiquei inundada de Beleza.

Lembrei-me da fala da menina pequena:
— Pai, posso beber da sua água?
— Pode, minha filha.

O pai bebia água com gás, sabor que a menina, aos seis anos, desconhecia. Ela bebeu. A este experimentar seguiu-se uma careta cheia de gestos e sons como só uma criança é capaz de fazê-lo.

— O que foi, minha filha, não gostou da minha água?
— Não! Tem gosto de pé dormente!

Crianças sabem falar das sensações como ninguém.

A beleza do filme, o calor do Sol junto ao o frio do vento de agora, a música de Yann Tiersen no computador, a cidade — tudo me invade. Tudo me provoca sensações que queria saber dizer como a menina: tem gosto de... Gosto de quê? Qual é o gosto desta manhã?

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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

É SÓ O MEU JEITINHO >> Fernanda Pinho



Sabe um troço que me irrita (além de sachê de catchup que a gente não consegue abrir, obras na vizinhança que começam às 8h da manhã de um sábado e propaganda política enviada pro nosso celular)? Gente que justifica falhas de caráter dizendo que aquele é o “seu jeito”. Acho que começa na infância. Sabe aquela mãe que ao ver o filho fazendo diabruras apenas dá um sorriso amarelo e diz “ele é assim mesmo”? Pois é. Deve ser a origem do que mais tarde se tornará uma autodefesa. 

Da moça grosseira. Do cara galinha. Da senhora que não cumprimenta ninguém. Do rapaz que nunca chega no horário. Diante da cobrança por uma falha, lá vem com a mais esfarrapada das justificativa: “eu sou assim”. E o problema não é ser assim. Todo mundo é de algum jeito e esse jeito inclui coisas boas e ruins. O que me irrita é a pessoa aceitar seus defeitos como condição imutável e ainda impor isso aos outros. Sou assim, me ame ou me deixe.

Acho de uma pobreza de espírito imensa, pois acredito que estamos no mundo para evoluir. Reconhecer que “sim, sou intolerante”, “sim, lido muito mal com horários”, “sim, tenho dificuldades de me comprometer”, “sim, não aceito críticas”, é importante. Fundamental, ouso dizer de minha condição de palpiteira profissional. Mas desde que haja uma predisposição de mudança, de reconhecer nossas mazelas para avaliar o que podemos fazer para melhorar. Para ser a tal mudança que a gente quer ver no mundo. E não para nos empurrar goela abaixo dos que convivem conosco. "Sou assim e pronto e acabou, quem aguentar aguentou". 

Se houvesse alguma lógica nesse argumento egocêntrico não ia faltar era réu se defendendo no tribunal dizendo que “matei sim, porque esse é meu jeitinho assassino de ser”. E se é o jeito dele, fazer o quê, tem que absolver. Não, isso não tem o menor sentido. Acredito que é por algo estarmos aqui na Terra (tendo que lidar com sachê de catchup que a gente não consegue abrir, obras na vizinhança que começam às 8h da manhã de um sábado e propaganda política enviada pro nosso celular). E desconfio seriamente que muito desse “algo" tem a ver com aprimorar nossas características que precisam de justificativa e não simplesmente aceitar, como se fôssemos uma pedra, o lado mais obscuro do nosso “jeitinho”.

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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

UM ABRAÇO OU UMA CANÇÃO? >> Carla Dias >>


Não sabe dizer que dia é hoje, que já se vão alguns em que ele não sai de casa, não abre as janelas, não acende as luzes, não sai da cama, fala com ninguém. Sabe que é noite por conta dos sons que lhe chegam do lá fora, um silêncio rompido pela conversa animada de jovens que passam pela sua janela sem saberem que dentro dessa casa vive — como sempre lhe diz o melhor amigo, quando lhe é permitido fazer visita — “um homem esquisito, mas de esquisitices simpáticas”.

A mãe o visita uma vez ao mês, que mora em cidade distante. Traz sempre o bolo preferido dele quando criança, sem compreender que o ele adulto se tornou intolerante ao doce. Para ela, adoçar-lhe a boca é como abraçá-lo, que entre as esquisitices dele está a incapacidade de demonstrar afeto fisicamente. Nele tudo é à distância, mesmo quando inspira intimidade.

Não sabe se é segunda, terça ou quarta, mas está certo de que não pode ser quinta, já que esse é o dia em que aquele melhor amigo aparece para um breve bate-papo e para dar-lhe notícias sobre o que acontece no mundo. Sem detalhes, apenas resumos nem sempre fiéis às histórias, que ele se aborrece fácil com as palavras faladas.

Aqueles que o conhecem superficialmente, dos jornais que ele não lê, dos programas de televisão que ele não assiste, do sucesso do qual ele não desfruta, não tardam a sucumbir ao contestar o que, ainda há pouco, era seu objeto de fascinação. Porque não basta apreciar, não mais. É preciso tocar, modificar, intervir, o que para ele soa como destrinchar sua existência. Sendo assim: não, obrigada.

A mãe, mesmo diante da seriedade e melancolia dele, sorri lindamente. Ele aprecia o que ela faz por ele, apesar das limitações físicas que o tempo já vivido lhe ofereceu. Sorri lindamente, enquanto ele admira a leveza com a qual ela conta sobre os acontecimentos da família: sobrinho que nasceu, primo que foi para a faculdade, tio que descobriu traição de tia, festa de aniversário da irmã, briga boba com o tio. Aquelas pessoas que ele deveria conhecer, mas não pôde. Não do jeito que ela conhece. Para ele, são personagens de uma novela que ele acompanha.

Acha que sua mãe é uma pessoa emocionalmente generosa, o que lhe comove e provoca inveja.

O pai desistiu dele faz tempo, é como se não tivesse filho. Só que ele entende, que são poucos os que suportam oferecer sem esperar nada em troca. E ele, filho de mãe que sorri lindamente, e de pai desertor, de amigo insistente na amizade, tem quase nada do que eles desejam para lhes oferecer.

Quando a noite se torna silenciosa, daquele silêncio que nem jovens excitados com a vida podem quebrar, ele se levanta, acende o abajur da sala, acende incenso. Depois, toma um longo banho, come algo leve, enche a taça de vinho, anda pela casa, descalço, pensando, até se sentir pronto para iniciar uma jornada que, dependendo da emoção vigente, durará a noite inteira.

Senta-se ao piano, curva-se sobre ele e toca. Em algumas horas, nascerá outra canção do pianista e poeta, e ela irá se espalhar pelo mundo, como aconteceu com tantas outras. As pessoas irão chorar e rir ao escutá-la, e aprenderão a cantá-la, vão se perder na sua cadência. E um dos homens mais celebrados da música não lerá críticas sobre suas obras, não participará de entrevistas na televisão, não abrirá sua casa para apresentar ao mundo o onde sua mágica acontece. E por isso, até seus fãs mais fiéis irão odiá-lo por algum tempo, talvez até a próxima canção lhes reconquistar.

Depois do feito, ele receberá o amigo com as novidades do mundo. Escutará sobre livros, assunto que o amigo adora e domina. Escutará sobre mulheres, assunto que o amigo adora e domina. Escutará sobre a vida que acontece lá fora, longe da capacidade do pianista e poeta de vivê-la em campo. Então, quando o amigo for embora, ele se deitará em sua cama e perderá a noção do tempo, a capacidade de observar a hora. Ruminará pensamentos, até que, mais uma vez, aconteça o silêncio que ninguém pode quebrar, o berço para a criação de mais uma obra daquele que acredita que o abraço deve ser como uma canção.




Imagem: El Piano © Pablo Picasso



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DILEMAS DA VIDA >> Clara Braga

Tenho sono, mas não posso dormir até terminar o que tenho que terminar. Durmo tarde, acordo cedo, sinto sono à tarde. Não aguento, capoto depois do almoço, atraso o que tenho para fazer e fico, novamente, acordada até de madrugada.

Quero emagrecer, então como de forma saudável o dia todo. Mas quando vai chegando a noite, tenho que correr com meus afazeres para não ir dormir tão tarde, então como qualquer coisa mesmo, mato a fome e vou trabalhar. No dia seguinte, claro, sempre começo com um chá bem light, afinal, todo dia de manhã a minha missão é emagrecer, pena que eu vou esquecendo dela ao longo do dia.

Não sei ficar muito tempo sem fazer nada. Gosto de dias cheios que me façam sentir produtiva. Quando estou de férias, sempre chega um momento em que eu quero voltar à ativa e ocupar meus dias. No primeiro dia de trabalho, já estou implorando por férias.

Estudo muito para ser uma boa professora. Levo horas preparando uma aula. Na hora da aula, sempre tem uma turma que não presta a menor atenção. Então eu penso, próxima aula também não vou preparar nada de diferente, fico me matando para nada... No dia seguinte já começo a elaborar uma outra aula ainda mais diferente.

Toco bateria há anos! Amo! Mas ainda aprendo a tocar flauta transversal!

Depois de um salgado, nada melhor que um doce. Mas depois de um doce… vai dizer que um salgadinho não cai bem?

Quando está muito frio, quero calor, quando está muito quente, peço pelo frio! Mau de Brasília, calor sem praia é difícil mesmo.

É, há quem diga que isso é um princípio de transtorno bipolar. Mas quer saber, se for, tudo bem, o mundo é bipolar! Ou vai dizer que você não se identifica com nada disso… É difícil mesmo tomar decisões em um mundo tão cheio de opções. Mas se existissem apenas duas opções, o problema seria a falta delas, ou não?


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sábado, 23 de agosto de 2014

NO LABORATÓRIO >> Sergio Geia

“Acho conveniente eu me deitar”.

“Não esquenta, é rapidinho; cê vai ver, é dois palito”.

“Mas eu costumo me sentir mal todas as vezes que preciso extrair sangue. Eu preciso me deitar. É sério!”.

“Calma, meu jovem. Vai ser rapidinho”.

“Ai... Ai...

“Calma, que vai dar tudo certo. É uma picadinha só. De formiguinha”.

“Ai... Ai...”.

“Calma”.

“Aaaaiiiii... O que houve? Não tá encontrando?”.

“Além de tudo, meu camarada, sua veia é bailarina. A gente acha e ela salta”.

“Eu não estou me sentindo bem”.

“Calma, meu amigo! É assim mesmo. Às vezes acontece. Ela escapa. Mas a gente resolve. Me dê sua mão”.

“O quê? Minha mão? Pra quê? Você pretende tirar sangue da minha mão?”.

“Fique tranquilo. É rápido”.

“A minha vista tá escurecendo”.

“Tá quase lá. Deixa ver o outro braço. Nossa, que bração mais branco. Cadê a veia?”.

“Eu acho...”.

“Melissa! Melissa! Me ajuda aqui, Melissa! O cara desmaiou! Me ajuda!”.

“O que aconteceu?”.

“Sei lá! O cara desmaiou! Olha os óculos dele aí no chão! Os óculos!”.

“Vixe! Pisei. É tarde... Quebrou...”.

“Ah, deixa pra lá, depois a gente vê. Me ajuda”.

“Deita ele na maca! Deita ele!”.

Algum tempo depois...

“O que houve?”.

“Olá! Me chamo doutor Antônio Marcos. Está tudo bem agora. Você se sentiu mal durante a extração de sangue, teve uma queda de pressão. Desmaiou”.

“Mas eu avisei, doutor, avisei o rapaz que estava fazendo a extração que eu precisava me deitar. A pressão cai mesmo, eu preciso ficar deitado. Ele não me deu atenção!”.

“Agora já passou. Está tudo bem. Descanse um pouquinho. Fique deitado quanto quiser e quando se sentir melhor você pode ir”.

“Obrigado, doutor”.

“Qualquer coisa, peçam pra me chamar, ok?”.

Pouco tempo depois...

“Ei! Para! Para! O que é isso?!”.

“Calma, meu rapaz, você é muito agitadinho!”.

“Mas o doutor disse que eu já estava liberado”.

“Calma, isso é apenas pra você relaxar...”.

“O que você aplicou aí na minha barriga?”.

“Calma, meu jovem! Relaxa! Que menino agitado!”.

“Calma nada! Eu quero saber! Eu tenho o direito de saber. O que foi isso que você me aplicou?”.

“Tá bom! Eu falo! Mas se acalme, tá? Se acalme. Digamos que..., digamos que isso é o seu passaporte para a eternidade, he, he, he!”.

“Ei!? Ei!?”.

Ele sente alguém o cutucando.

“Gomes? Gomes?”.

“Ahn”.

“Gomes? Acorda! Acorda, Gomes!”.

“O que foi?”.

“Está tudo bem, Gomes. O doutor acabou de sair. Disse que a cirurgia foi um sucesso”.

“Ahn?”.

“Foi um sucesso, Gomes! Entendeu? A cirurgia! A cirurgia foi um sucesso!”.

“Entendi. A cirurgia... Ô meu broto, como é bom acordar e ver você... Como é bom...”.

“Nossa! O que houve?”.

“Nada. Um pesadelo. Eu acho que tive um pesadelo. Coisa horrível”.

“Pesadelo? Ah, foi por causa da anestesia, Gomes!”.

“Anestesia? Ahn, anestesia... Pode ser...”.

“Então é isso...”.

“O quê?”.

“Não, nada...”.

“Então é isso o quê, Maria?”.

“Nada, Gomes! Só o enfermeiro...”.

“O que tem o enfermeiro?”.

“Ele disse que você é muito agitadinho”.

“O quê?”.

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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

SEGURANÇA E LIBERDADE >> Paulo Meireles Barguil

Era uma vez uma menina de 3 anos.

Como toda criança, o que mais desejava era se sentir segura, protegida, amada.

Naquela casa, repleta de homens — 4 irmãos mais velhos e o pai —, a sua mãe era o único referencial feminino, além das eventuais empregadas, que auxiliavam na organização do lar.

Sua genitora trabalhava os dois expedientes e elas pouco conviviam.

A criança, bastante criativa, inventava muitas brincadeiras sozinha, além de acompanhar os irmãos em tudo que era possível: jogava futebol, andava de bicicleta, jogava bila (bola de gude), andava de patins...

O mundo era mesmo muito divertido!

Ela, contudo, sentia falta do aconchego da sua mãe, por isso, nos dias úteis, a menina sempre ia para o portão, no final de tarde, esperá-la voltar da labuta.

O tempo foi passando e a menina se tornou uma moça muito espontânea e cheia de vida. O seu mantra era liberdade!

Numa festa de 15 anos, tal como nos contos de fadas, sua história foi marcada para sempre. Uma discussão com o pai e o cristal se quebrou: a relação pai e filha nunca mais seria a mesma, piorando a cada ano.

Explodira, naquela noite, uma luta insana, que duraria décadas, em que ambos duelariam, sem e com palavras, para ver quem era o mais forte.

Aos poucos, ela foi se esquecendo do quanto desejava ser amada e cuidada. Para isso, ela precisaria confiar no outro, algo que poucas vezes experimentara além dos fugazes momentos de lazer.

A ferida do passado era escondida pelo frenesi social, o qual funcionava como uma droga, requerendo doses cada vez maiores para produzir o efeito necessário, com duração decrescente.

Ninguém sabia isso, afinal ela se tornara uma mestra do disfarce.

Ela, então, teve uma filha. Era a natureza lhe dando a oportunidade de, ao vivenciar o cuidado no polo ativo, curar a sua chaga, fonte inesgotável de ansiedade.

Quando alguém lhe questionava sobre algo da sua conduta ou discordava da sua percepção, ela reagia com furor, afirmando estar sendo julgada ou incompreendida.

Escolhia suas amizades pela capacidade de elas não se contraporem a todas as suas escolhas, mas as aceitarem sempre, frutos dos seus caprichos, os quais mudavam tal como o vento!

Foi, contudo, uma brisa do oriente que lhe trouxe uma boa nova, que mudaria, lentamente, a sua vida:

— Pare um pouco... Olhe para dentro... — dizia a voz sagrada.

A jovem senhora, cansada das inúmeras tentativas de se esconder no discurso da independência, começara a compreender e a aceitar que a única liberdade é aquela expressa no cuidado pela vida: sua e dos outros.

E, então, aquela menina de 3 anos recebeu o abraço há tanto tempo esperado.

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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O RECALQUE ACABOU COM A COMPAIXÃO
>> Mariana Scherma

Dizem muito sobre a falta de irmandade entre nós, mulheres. “Entre mulher, não há amizade sincera, só competição”. “Amiga mulher é falsa”. “Amiga mulher é fresca”. “Eu prefiro amigos homens”. Como se a grande benção do universo fosse nascer homem. Até concordo que tem mulher chata pra caramba, competitiva demais, mas também existem homens chatos, competitivos, frescos... Apoiar essa máxima de que amizade entre meninas não existe, pra mim, é dar sustentação a um machismo ultrapassado. As mulheres dirigem caminhão, táxi, trabalham fora (e trabalham em casa depois)... Enfim, ganharam o mundo, mas não sabem ser amigas verdadeiras? Ah, qual é!

Eu tenho poucas amigas, mas nós sabemos o que é amizade. Quando saímos à noite, a intenção é sempre dar risada, não disputar os homens do bar/balada nem conferir quem atrai mais os olhares dos caras no recinto, tipo leoas numa selva de um único leão. Jamais! Quando uma das minhas amigas está mal, eu faço o possível pra deixá-la mais feliz, não comemoro a desgraça dela (nem nunca o fiz). Com elas, a recíproca é totalmente verdadeira. Amizade vem do coração, não do órgão genital de alguém. É simples.

Por isso, fiquei magoada com algumas mulheres recentemente. Uma menina de 17 anos, no interior de São Paulo, foi violentada por dez sujeitos após a comemoração de aniversário da cidade. Faltou chão na hora de ler a matéria, sobrou indignação de como as pessoas podem ser cruéis. Qualquer estupro já é absurdo, mas dez contra uma... Quis muito mudar de planeta. Óbvio que a história chocou a cidade, mas nem todos ficaram a favor da jovem violentada. E isso é muito sério.

No vestiário da natação, frequentado por algumas dessas mulheres que desconhecem a amizade entre o sexo feminino, ouvi que a garota não havia sido violentada. Ela tinha consentido. Sério? Dez caras drogados a arrastam a um terreno baldio e isso é normal? Essa ideia surreal também estava na boca de outras mulheres da cidade. A falta de compaixão e de se colocar no lugar da outra pessoa é o que deixa esse mundo tão cão. Ser humano (sem hífen mesmo) é desses predicados que entraram em extinção. Sobram egoísmo e sentenças absurdas nas bocas das pessoas, como se coubessem a elas julgar quem não conhece.

Nós, mulheres, adoramos falar que sobra recalque nas inimigas, mandamos beijinho no ombro para as invejosas e, nisso, perdemos totalmente a noção de amizade, de carinho e de compaixão. Sentir inveja, rancor e competir são coisas mais naturais do que sorrir com a alma às outras. Eu me recuso a ser dessas que só enxerga o próprio umbigo. Ser mulher é bem mais que competir.

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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

DE NASCENÇA >> Carla Dias >>


Nascido, sabe onde. Criado, sabe como. Amado, nem sempre, mas sabe que tem culpa no cartório das desistências emocionais. Estudioso de autobiografia, inescrupuloso quando se trata de dar voz de prisão ao lamento. Acreditou, até os dezesseis, que se agarraria à felicidade de tal forma que não haveria tristeza que fosse capaz de desancorá-lo dela. Enganou-se, e aceita isso bem aos trinta e tantos, que se a vida fosse somente felicidade, ele não teria conhecido o silêncio.

Nascido na boca do trilho, escutando música de trem, encarando os passageiros que lutaram valentemente pelo banco da janela, enquanto ele estendia suas roupas, na cerca de arame, em dias de lavanderia coletiva na caixa d’água. Foi criado com a bola no pé, a roupa puída, a voz esganiçada na hora de pedir pão com manteiga e uma média, anos depois a pinga, dobre a dose, meu senhor, que hoje eu perdi o emprego e ele tem de se esbaldar na liberdade imposta, antes de voltar ao barraco e dar a notícia à mãe.

Bom de palavra, que pegou inteligência lendo tudo o que a mulher de outro lhe deixava tirar da estante, em jantar aos sábados, com direito a pernoite, que o homem dela estava fora a negócios. A mulher nunca entendeu por que Deus dera a ele, um pardo com miséria cravada na sua realidade, olhos azuis feito céu em dia de sol. Para ela, era desperdício. Para ele, ser pardo não coincidia. Era negro mesmo, com o maior orgulho e olhos azuis merecidos.

A mulher tentou reinventá-lo, torná-lo modelo, jurando que a vida dele seria outra, haveria dinheiro, prestígio. Ele foi embora, no dia dessa conversa, e não voltou mais. Modelo era o vizinho dele, que criou os guris tão bem que se tornaram doutores e pais tão competentes quanto o deles.

Ele sabe onde nasceu, sabe como foi criado. Das vezes que foi amado, sentiu-se grato. Nas noites de quinta, seu dia preferido da semana, senta-se na soleira de casa, observando o trem passando, os passageiros de olhos voltados para a sua casa. Ergue a caneca, oferece um café, um e outro passageiro ainda encontra tempo para sorrir para ele. Dia desses, ele vai entrar nesse trem, como vem sonhando desde muito moleque, sem vontade de futebol, brincadeira, somente o desejo de mudar de destino.

Segunda-feira, ele irá encontrar os meninos do vizinho, que eles têm emprego para ele melhorar de vida. Não fosse a gentileza dos moleques, ele continuaria a ir e vir em um lugar no qual essa é a única opção. Mas ele quer ir para ficar. Para que, depois de um mês, possa comprar vestido novo para mãe, camisa nova para o irmão, e levá-los naquele tal de Teatro Municipal para ver a tal orquestra tocar.

Pensando nisso, sente uma saudade ranzinza da mulher do outro homem. Se ela não tivesse se encantado com os olhos dele, a ponto de pensar que ele era somente isso, um par de olhos azuis, ele teria ficado mais um pouco, que os livros eram bons, assim como a música. Só que ele sabe onde nasceu, sabe como foi criado. E a mãe lhe ensinou, ainda moleque, que ninguém tem o direito de fazê-lo sentir um pedaço do que lhe é direito ser inteiro.

Mais um trem passa. Dia desses, ele vai passar junto. E sabe lá quem ele se tornará nesse mundo, além da cerca, além do trem, além desse tudo que compõe seu quase nada.

Imagem © Jackson Pollock

carladias.com

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terça-feira, 19 de agosto de 2014

ALGUÉM CHAMA O MÁGICO DE OZ >> Clara Braga

É, agora é mais do que inegável, as redes sociais definitivamente modificaram a forma das pessoas se relacionar. Mas o problema maior nem é esse, uma mudança ou outra é até importante, o problema mesmo é que a mudança tem sido para muito pior. Quando o assunto é rede social, a imagem que me vem à cabeça é da educação saindo para fumar um cigarro e nunca mais voltando.

Parece que estamos virando um monte de homens de lata e, agora, pra voltar a ter um coração, só mesmo o Mágico de OZ. É impressionante como as pessoas não se afetam pela dor do outro. Acho que o distanciamento entre as pessoas, que a tecnologia acabou causando, fez com que as pessoas se vissem tão distantes da realidade dos outros que não conseguem se colocar no lugar delas, acham que o que acontece com o outro jamais aconteceria com ele.

Da morte do Robin Williams até a tragédia que matou Eduardo Campos, é inaceitável a quantidade de piadas e comentários maldosos que eu já vi. Tem frieza para todos os gostos, dos extremamente desinformados, que acham que o ator foi covarde e que a depressão é apenas uma preguiça de sair da cama, até os sem-noção que foram ao enterro do candidato tirar uma selfie. Que a educação tinha ido dar uma volta eu já sabia, mas que ela tinha levado o respeito, a noção, a compaixão e outros tantos, isso eu ainda tinha esperança de que não tivesse acontecido.

Não acho legal também as pessoas que exageram para o outro lado. Acho que o sofrimento extremo por alguém com quem você não tinha a menor ligação não faz muito sentido. Também uma consequência da vida através do computador, algumas pessoas sofrem mesmo de carência aguda. Mas, ainda assim, acho esse caso menos mal que o primeiro, afinal não acho que possa ser normal situações como essas que aconteceram não mexerem com a gente de forma alguma.

Acredito que esses casos deveriam servir para que a gente refletisse sobre o quão frágil nós somos. É aquele bom e velho ditado que, apesar de duro, é muito real: "para morrer, basta estar vivo"… E pior do que perder alguém de forma repentina é ficar com a sensação de que você talvez não tenha dito tudo o que queria para a pessoa que se foi, ou demonstrado o quanto gostava dela da forma que ela merecia. Ou seja, esses casos, antes de virarem piada, deveriam fazer com que a gente saísse da frente do computador e fosse pra perto daqueles que fazem falta.


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domingo, 17 de agosto de 2014

COINCIDÊNCIA >> Whisner Fraga

Meu irmão tem muitas histórias e acho que nunca falei sobre nenhuma delas neste espaço. Sei que devia ter feito, mas algum assunto de última hora certamente se tornou mais urgente e deixei os causos do Wildner para depois. Wild, como os amigos o chamam e a família também. Hoje vou esquecer a candidatura de Marina, as questões em Israel, as baixarias em torno das eleições presidenciais, os problemas de minha cidade, para narrar algo mais engraçado.

Naquele dia o Wild olhou para o colega de trabalho e ambos tiveram uma revelação: precisavam de dinheiro para o final de semana. Ninguém consegue se divertir muito com os bolsos vazios neste nosso país e talvez em nenhum outro. Assim, meu irmão propôs que fossem ao banco para sacarem o bastante para as distrações de sábado e domingo. Fecharam as portas da loja e foram rumo a um caixa-rápido. O trânsito estava terrível, como tem acontecido com frequência em muitas cidades brasileiras. Lembrei-me de que o bom do engarrafamento é que é mais ou menos democrático: nele param Fuscas maltratados e Porsches tinindo de novos.

Como não havia estacionamento ali perto, meu irmão sugeriu que o colega descesse e sacasse o dinheiro, enquanto ele dava uma rodeada no quarteirão, para pegá-lo em seguida. Então, como estava tudo meio lento mesmo, chegaram à conclusão que era o melhor a ser feito e Roberto saltou. Havia filas lá também, o que de resto não foi grande surpresa, pois o brasileiro é craque em enfrentá-las por todos os cantos, com a paciência avantajada que Deus lhe deu. Alguns bons minutos depois, conseguiu os trocados salvadores: o fim-de-semana estava salvo.

Preocupado, Roberto correu para a rua e se deparou com a caminhonete vindo bem em frente ao banco, devagar diante do congestionamento. Não acreditava que tudo dera certo daquela maneira: um relógio suíço! Olhou rapidamente para os lados e, como não vinha nenhuma moto cortando caminho entre os carros, correu, abriu a porta e entrou, esbaforido, consciente de que cumprira com sua obrigação. Quando olhou para o lado, não reconheceu meu irmão. Em seu lugar estava outro: mais gordo, mais velho, mais assustado. Imaginem o que se passou na cabeça daquele motorista: certamente assalto foi uma das alternativas. Que risco! Ainda bem que não é qualquer um que anda armado hoje em dia. Apavorado também, Roberto não se conteve e soltou um grito, que foi logo respondido com outro grito, um pouco mais intenso e mais sobressaltado. Vejam como este mundo violento alvoroça as pessoas!

Não, não haviam roubado o carro de meu irmão. O que aconteceu foi que, naquele momento, passava uma caminhonete idêntica: cor, ano, modelo, filmes dos vidros, rodas, tudo. Um pouco atrás, o Wild assistia a tudo, passando mal de tanto rir. Como não tinha outra escolha, Roberto abaixou os olhos, pediu desculpas e saiu do assento desconhecido, cabisbaixo, rua afora. Avistou com facilidade o carro certo e entrou, já também não se aguentando de rir.

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sábado, 16 de agosto de 2014

QUANDO O INFINITO CABE NO COLO
(para Luís Eduardo)
>> Cristiana Moura

Ele chegou nesta quinta-feira. Na verdade, já havia chegado. Já era vida vivendo em amor aquático. Ele era ele. Ele era ela. Para nós, do lado terrestre da vida, eram ainda faíscas de amor no corpo e olhar de Fabiana. E, num esperado repente, o pequenino começa a ser, sem pressa, só ele. Seu nome ganha rosto, corpo e sons em altos choros que nos dizem: podem chegar, podem se aproximar.

Luís Eduardo, nome de origem germânica, quer dizer combatente glorioso e guardião das bênçãos. Que seja abençoada esta tão bem-vinda vida. Adentra nossos cotidianos que aqui, para você, é só amor.

Talvez este texto fique clichê, enfim, quem não se emociona diante de um bebê? Eu estou assim, boba em sua presença. Já não tenho poder sobre isto. Vê-lo ali, tão miúdo, agarrado com toda força aos seios fartos de minha irmã, faz borbulhar por dentro uma comoção inominável. Vê-lo ali, embalado nos braços tranquilos de seu pai me dá uma sensação de certeza e leveza nem sei direito do que, mas é vida sendo vivida.

Quando está em meu colo, o tempo para. O ar das nossas respirações vira melodia embalando o sono em cadeira de balanço. Revivo o meu tempo de maternagem por vinte e quatro horas do dia e sinto-me tão abençoada quanto Luís Eduardo, por levar comigo uma coleção de boas memórias. E, também, por cada novo encontro que acontece agora e pelos que estão por vir.

Ser tia tem um algo por dentro muito parecido com o de ser mãe. Eu não sabia que não era preciso parir para sentir em mim toda a força do mundo capaz de cuidar de um ser pequenino. A força de um bicho caso ele precise de defesa. Um punhado de emoções de onde me escapolem lágrimas de encontro, cuidado e amor. Na nossa família é assim: todos cuidando de todos. Sou grata por tanto amor desvelado entre nós.

Seja bem vindo, Luís Eduardo. Que o olhar e o canto da sua mãe o aconcheguem agora. Que os sons dos violões do seu pai, irmãos e primo lhe embalem o sono e o façam cantar e dançar. São cinco e meia da manhã e o Sol faz nascer mais um dia desta vida bela. Mas vou logo lhe dizendo que beleza a gente tem que aprender a ver. Há de juntar o olhar ao pulsar para assim descortinar o belo dos raios de Sol adentrando a varanda enquanto que, ao som dos automóveis, se mistura o canto dos pássaros. É assim, menino, cheio de entrelinhas encantadas, este dia a dia que você começa a conhecer.



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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

PAPO DE VENDEDORA >> Fernanda Pinho


Aconteceu quando eu estava em Tiradentes, acompanhada do meu marido e dos meus sogros. Caminhando pelas bucólicas ruas de pedra, entrando e saindo de lojinhas de artesanato, acabamos numa especializada em cachaça. Eu entrei seguindo os três. Os três entraram seguindo o aroma da cachaça que parece fasciná-los. Não me surpreendi. Praticamente todos os programas que fazemos quando eles, chilenos, estão no Brasil envolvem cachaça em algum momento. Acontece também de, vez ou outra, meu sogro me fazer alguma pergunta sobre nossa famosa bebida. Já até pensei em dar respostas fantasiosas que me ocorrem, muito mais frutos da minha imaginação que dos meus conhecimentos. Mas, geralmente, respondo constrangida a verdade: “não sei”. Aliás, o pouco que sei sobre o assunto aprendi com as perguntas que os forasteiros me fazem sobre o tema. Uma vergonha. Afinal, sou brasileira. E o que é pior: sou mineira. Tenho obrigação de apreciar e entender tudo sobre cachaça. Pelo menos foi o que eu compreendi em nossa passagem pela lojinha de Tiradentes.

Meu sogro entrou na frente já fazendo perguntas sobre as cachaças vendidas ali. Meu marido foi atrás traduzindo para a vendedora com seu impecável portunhol. Eu fiquei calada porque: 1) o brasileiro definitivamente dispensa um tratamento mais polido aos estrangeiros do que a nós mesmos, então, por que não pegar carona nos privilégios alheios, não é mesmo? 2) Às vezes, muitas vezes, eu tenho preguiça de falar. Se passar por uma pessoa que não está entendendo nada do que está sendo dito e poder ficar calada sem pressão é muito relaxante. Experimente. 3) Eu realmente não entendo nada de cachaça, o que quer dizer que nem dúvidas sobre o assunto eu tenho a oferecer.

Empolgada com a presença de quatro estrangeiros na loja, a vendedora começou a discorrer sobre os efeitos terapêuticos da cachaça. Falou sobre os benefícios para os doentes, os idosos, os homens, até chegar na parte que me interessava (ou pelo menos deveria me interessar). Disse a moça que as mulheres mineiras tomam uma dose de cachaça diária (opa, tem alguém tomando duas. Uma no meu lugar). Devido a isso elas, as mineiras, não têm TPM (de soslaio vi meu marido arquear a sobrancelha) e nem passam pelos temidos sintomas da menopausa. E, além disso, chegam a viver até, ai ai, 120 anos.

Juro que eu não queria constranger a moça e pretendia manter minha identidade incógnita até o fim da venda. Mas as informações foram tão chocantes que não aguentei e deixei jorrar no estabelecimento toda a minha mineiridade. “Nuuuuuu, cê tá falando sério? Tô de cara. Capaz desse trem funcionar assim...”.

A vendedora ficou vermelha, confirmou o que havia dito e encerrou o discurso. Eu, por via das dúvidas, levei uma garrafa.

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

PARA NÃO ESTRAGAR O MUNDO >> Carla Dias >>


Falar com o espelho é de praxe. E com a tevê, que se nega a passar os filmes que ela deseja assistir. Também com o beija-flor, que dá uma passadinha no bebedouro pendurado na varanda. Há dias em que fala com o teto, dá de discutir com ele a sua teoria sobre o silêncio.

No silêncio, faz as tarefas cotidianas. Às vezes, até dá espaço à música, mas a maior parte do tempo é o silêncio que acompanha a sua rotina. O que não significa que ela evite os longos monólogos, advertências e conselhos que costuma dar a si mesma, como se fosse outra pessoa que conduzisse a quase intervenção.

Para quem é conhecida por não falar palavra que seja, gerando comentários trágicos sobre sua saúde e apostas sobre uma possível voz tão irritante que melhor deixar no mute, até que ela é faladeira. Veja bem, mesmo com a cafeteira ela fala, porque há dias em que parece que o café fresco leva décadas para ficar pronto. Normalmente, isso acontece na manhã seguinte à noite em que o vinho fez o seu trabalho direitinho.

Fala com os livros que lê, intervindo no desfecho, morrendo de vontade de, às vezes, rabiscar a página e reescrevê-lo. Não raro, anda pela casa, explicando a si mesma que se tal personagem não convence, melhor seria se.

Melhor seria se...

Conversa online, nos finais de semana, com um grupo de ativistas que deseja mudar o mundo evitando estragá-lo. A forma que acreditam ser a mais eficiente de fazê-lo é não saindo de casa. Não é preciso dizer que eles não precisam trabalhar, não é mesmo? E que a geladeira cheia, a internet e a televisão tornam essa função menos desgastante. E que não sair de casa não significa estar proibido de receber visitas. Festas no exílio são recorrentes.

Mas para ela é estudo antropológico, porque gosta de saber o que as pessoas têm a dizer sobre assuntos tão importantes e as redes de salvação das quais dispõem, mesmo quando fazem de conta que elas não existem.

Ela sai de casa cinco vezes por semana, ausentando-se por sessenta horas, nesse período, quando o trânsito colabora com o ir e depois voltar do trabalho. Isso a desqualifica completamente para o grupo “para não estragar o mundo, fique em casa”, e assim, nada de carteirinha de filiada para ela.

Fala com o abajur, principalmente quando ele começa a apagar e a acender sozinho. Ela sabe que uma manutenção bastaria para deixá-lo tinindo de bom, mas ainda assim, discute com ele as facetas da culpa, assim como a sua possível autoria, e a complexidade da relação entre luz e escuridão.

Tem animadas conversas com as flores do jardim vertical que cultiva na parede da varanda. As tais estão escoladas no que diz respeito ao que faz a moça temer, desejar, arrepender-se, ousar. Tem íntimas conversas com as canções dos velhos discos a rodarem na vintage vitrola.

O zelador acredita que ela seja surda e muda, e se sinta tão frustrada com isso, que nem quis aprender Libras. Mas ele, que é homem dedicado ao trabalho, e ao trato com os moradores do prédio, aprendeu.  Já que ela parece não entender patavina do que ele diz, emitindo sons miúdos quando ele pergunta algo, grunhidos, ele se tornou voluntário em uma instituição que precisava de intérpretes. Ficou famoso no bairro como o Zelador Que Fala Com As Mãos. Na verdade, adotou o rótulo feito sobrenome. Ao conhecer alguém, oi, sou o Gregório Zelador Que Fala Com As Mãos.

O síndico, a vizinha do apartamento vinte e três, a assistente da limpeza, assim como o carteiro, todos acreditam que, na verdade, a moça sofra de aguda falta de educação.

Fala com o céu chispado, a lua cheia colada em sua tela. Há “por quê?”, “será?” e “quando?” envolvidos nessa conversa transcendental, e lenços de papel, que, vez ou outra, ela permite ser visitada pelas lágrimas.

Nas noites de sexta, a moça recebe em casa um colega de trabalho. Moço inteligentíssimo, prestativo, interessado, aparece para bate-papo informal sobre as regras que regem o movimento “para não estragar o mundo, fique em casa”. Como na casa dele não tem ninguém com quem compartilhar a experiência, ele exerce a função na casa dela, que fala com ele até a madrugada. Então, caem no sono, um nos braços do outro.

O advogado do apartamento sessenta e sete, a decoradora do quarenta e três, o professor de matemática da cobertura, o pastor do setenta e dois, o guitarrista do cinquenta e quatro, o cientista do quatorze,  todos eles acham que a moça não fala por pura tristeza, que pela insignificância da existência e da figura dela, não há o que celebrar.

O moço acha que a moça tem a voz que ele sempre quis escutar. E para não estragar o mundo, ele passa os finais de semana sem sair da casa dela.



Imagem: Mariana in the South © John William Waterhouse





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terça-feira, 12 de agosto de 2014

AOS GÊNIOS >> Clara Braga

Dei aquela olhadinha rápida no Facebook e fui tomar um banho. É bem verdade que eu não sou de tomar banho muito rápido, mas dessa vez parecia que eu tinha levado uma eternidade. Quando voltei, meu Facebook estava inteiramente tomado pelas notícias e pelos pêsames pela morte de Robin Williams.

Acho muito legal ver quando um artista consegue de fato tocar as pessoas de uma forma tão profunda que a gente acaba se sentindo um pouco íntimo dele. Com certeza Robin Williams foi um desses, pois os comentários são unânimes, uma grande perda. E então nos pegamos parando por alguns segundos em meio a essas nossas vidas extremamente atribuladas para desejar que ele vá em paz e que os que ficam possam ter forças para encarar essa situação tão pesada. No mínimo irônico, justo uma pessoa tão lembrada por nos fazer rir e trazer leveza para dias pesados, partindo em uma circunstância nada confortável.

O pior é que essa situação não tem sido nada incomum. Lembro das diversas vezes em que estava assistindo ao jornal e acabei comentando sobre o fato de eu achar que Deus às vezes sai para tomar um café e perde o controle de alguma situação. Nunca vi ninguém no jornal comentando a morte de alguém e falando: "ele era péssimo, não valia nada, nunca ajudou ninguém". Sempre ouvimos algo como: "ele era uma pessoa maravilhosa, só fazia o bem para todo mundo, fazia caridade, tinha um trabalho social maravilhoso, vivia pelos filhos" etc. E a gente fica do lado de cá se perguntando: será que é castigo morar na Terra? Porque os bons, Deus está levando.

Recentemente também nos despedimos de Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro, só comprovando a teoria do café. Isso sem contar o avião que foi derrubado junto com uma possível cura para a Aids e todos os anônimos que não são manchete de jornal, mas até deveriam ser. Os números são assustadores, diariamente morrem várias e várias pessoas que parecem que nasceram para fazer o bem. E para trás ficam as pessoas que tiveram a oportunidade de desfrutar das benfeitorias dos que partiram. 

O importante é que não deixemos que o legado dessas pessoas parta com elas, que sirvam de exemplo para a gente, e que nós possamos parar mais e mais vezes para desejar que todos aqueles que partiram, sejam Robins, Arianos ou Pedros, sigam em paz, e para todos os que ficam, sejam famosos ou não, que tenham força. Vibrações positivas são um dos maiores presentes que podemos dar aos outros e, o melhor, é de graça!

Hoje, peço licença para imitar a homenagem mais bonita das várias que vi para o Robin Williams, mas passo ela para o plural: "Gênios, vocês estão livres! Que descansem em paz!"


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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

AS TRÊS MARIAS (continuação)
>> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/as-tres-marias-albir-jose-inacio-da.html)

No sertão de Sergipe uma vila se chamou “Enforcados” desde 1606. Ali eram enforcados os índios durante o seu longo processo de “salvação”. No século XIX o povoado passou a se chamar Nossa Senhora das Dores, um nome sem dúvida mais digno. É claro que lá também chegou a televisão e as novelas, com as lindas imagens do Rio de Janeiro. Maria das Dores se lembra da cena e não gosta mais de novela. Nem da vida. Ela conta por quê:

— Eu queria ter morrido nova, como morreram meus três irmãos. Assim não dava esse desgosto a meu pai. Meu pai é homem bom. Deixava de comer pra dar comida pra nós. Não precisava ter acontecido. Eu nem gostava daquele traste. Pra mim foi o diabo. Eu andava pensando umas bobagens, uns pecados, e não fui me confessar. O tinhoso aproveitou. Agora nunca mais vou ver meu pai. Aqui não é ruim. Madame me trata bem. Tem freguês que é bom. Ruim mesmo é a vida. Sabe de uma coisa: a gente nasce pra sofrer e a vida é muito comprida!

O pai de Maria das Dores não gosta de novela, nem de televisão e não gostou da primeira vez da filha. Não gosta mais da filha, nem de madame. E tem uma versão:

— Cumpri minha obrigação e madame vem me oferecer dinheiro. Vê se sou homem de vender filha. Filha não, que não é mais minha filha. Levei ela pra lá porque não podia ficar mais em casa. Nem no povoado. Lugar dela agora é ali: casa de perdida. Foi o que ela procurou. Até que era uma boa menina antes. Pra mim foi a tal da televisão. Dia antes do acontecido, vi uma pouca vergonha danada naquela caixa do demo. E eram duas criança ainda, da idade dela. Mandei desligar na hora. Depois da desonra, quebrei aquele troço num monte de pedaços. Aquilo não é coisa pra entrar em casa de gente honesta. Bom, agora vou atrás daquele porco. Vai aprender a não desgraçar mais filha dos outros. Vai aprender na faca.

Madame também viu a novela, aliás, vê todas as novelas. Não se lembra mais de sua primeira vez, mas conhece as histórias de primeira vez de muitas meninas. E conhece Maria das Dores:

— Geralmente as meninas chegam sozinhas. Mas Dasdô chegou aqui pela mão do pai. Tinha sido desonrada e ele, pra não matar, trouxe ela pra mim. Disse que tava cumprindo obrigação de homem honesto, e que Dasdô tinha sido boa menina antes. Depois falou umas bobagens sobre televisão. Eu trabalho com mulher perdida há muitos anos e nunca vi ninguém se perder por causa de televisão. O cabra não aceitou o dinheiro que eu dei, inda parece que ficou emputecido. Gente mais maluca! Disse que tinha serviço urgente pra fazer — serviço de sangue. Credo em cruz! Foi embora sem nem se despedir. Bom, o que eu não podia era deixar uma menina assim bobinha na rua, né? Lembro que Dasdô ficou parada no meio do salão e arriou a trouxinha bem devagar. Depois andou até perto da janela e ficou espiando o pai se indo pelo caminho. Cheguei mais perto, mas não tive coragem de falar nada, e a sala ficou naquele silêncio comprido. O pai chegou na curva sem se virar. Dasdô falou baixinho “bença, pai”. O “b” de bença explodiu em mil pedacinhos uma lágrima que tava nos lábios. Tive pena da menina. Boa menina, a Dasdô.

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sábado, 9 de agosto de 2014

EM UBATUBA >> Sergio Geia

Ligo a máquina. Vou para o e-mail. Branco total. Cadê a senha? Procuro na memória. Nada. Tento uma. Outra. Clico em esqueci a senha. Digito o login, um código. Aparece um lembrete: “VIDA”. Putz! VIDA!? O que eu quis dizer com VIDA? Não me ajuda em nada. Vou tentando até que uma hora a ficha cai. Quer dizer, a senha. Parada sinistra, mermão!

Digito: “Fala Beto! Beleza? Não sei o que você tá aprontando, mas tudo bem. Aí vão algumas impressões sobre os dias que passei em Ubatuba, como você me pediu. Veja lá, hein?” Pulo uma linha e começo meu texto em formato de crônica.

A serra continua a mesma, meu querido. Quem é de Ubatuba, São Luiz ou Taubaté, já sabe. Mas quem não é se assusta. Oito quilômetros penosos, sem acostamento, curvas fechadas, descidão em segunda ou em primeira marcha. Outro dia o Governo duplicou a Tamoios. Quem sabe agora ele não olha pra nossa pobre Oswaldo Cruz. Tá precisando.

Desci a serra principalmente com a intenção de tomar banho de mar. Ah, um banho de mar... Dizem que renova a vida. Pois é. E purga a casca, o que é muito bom. Fui até a praia da Fazenda. Fica no Norte, quase chegando a Paraty. Conhece? Se não, tá na hora. É nela e somente nela que eu consigo ouvir o mar, ler a poesia que brota daquelas areias enfeitadas de sol. Não há barulho de cidade, nem poluição. Há mar. Apenas mar.

Na volta dei uma paradinha em Itamambuca, a praia do surf. Não sou surfista, bem sabe; só parei pra comer um bolo. Não qualquer bolo, mas um belo de um bolo de cenoura. Trata-se de uma vendinha que fica do lado direito da estrada que dá no mar. Recomendo.

Recomendo também as tainhas da Festa do Divino, da Paróquia Exaltação da Santa Cruz, lá na Matriz. Faz anos que venho pra festa. O peixe, que se assa em churrasqueira, recebe apenas sal grosso; acompanham arroz, farofa e maionese. Serve bem, o ambiente é familiar. Durante semana a quermesse é boa. Pouca gente, sem confusão. Tem doces, tem bolinho caipira. Dá pra comer tranquilamente, mas dia de semana!

Sabe que andando pela orla estranhei a ausência do estimado Zé de Anchieta!? É que próximo à feirinha tinha lá uma escultura dele escrevendo na areia. Está certo que os vândalos não deixavam o pobre em paz. Quase sempre o encontrava com um braço faltando, sem um dedo, ou mesmo com o pauzinho quebrado. Dizem que Anchieta escreveu seu famoso “Poema à Virgem” naquelas areias da praia do Cruzeiro. Você conhece o Poema à Virgem?

Numa das manhãs encontrei um homem que se jogou ao mar carregando apenas prancha e remo. Parei pra olhar. Essa visão não só daria uma crônica, mas uma bela de uma crônica. Andei pesquisando. Dizem que se chama stand up paddle. O esporte é sucesso no Rio. Ele avançou, avançou, depois virou um risquinho.

Belas imagens, amigo. Belos dias. Mas tive que interromper a farra antes da hora e voltar a Taubaté, a fim de protocolar uns documentos importantes na Academia Taubateana de Letras. Eles por lá estão recebendo novos acadêmicos, e eu, com meus escritos, minhas crônicas e meu solitário “Confidências”, resolvi oferecer o meu nome; quem sabe vir a integrar tão respeitada instituição. Quem sabe.

Anjão: é mais ou menos isso. Veja aí o que vai aprontar, hein?

P.S.: mudaram Anchieta de lugar. Depois que vi. Ele inteiraço numa fonte!


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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

LAÇOS EXISTENCIAIS >> Paulo Meireles Barguil

No final da década de 1980, eu era um estudante do Bacharelado em Computação, na Universidade Federal do Ceará, e não me divertia muito com os assuntos abordados  programação, banco de dados, compiladores, sistemas operacionais, redes, inteligência artificial... — motivo pelo qual, na metade do curso, minha vontade era pular fora, fosse pela porta ou pela janela...

Não o fiz simplesmente porque ignorava o que queria cursar e refutava em absoluto a hipótese de ficar de bobeira. Resolvi, então, obedecer à máxima: "Na dúvida, não desista!".

Quando eu descobri o próximo destino — Pedagogia — já estava no último ano e resolvi, em respeito à minha carga genética, mesclada com a pressão social, terminar a missão iniciada.

Refuto o entendimento de que o Homem é um computador, uma máquina de processar informações. Embora os componentes, de modo geral, sejam os mesmos, e a lógica de funcionamento deveras parecida, a depender do fabricante e do público alvo, a arquitetura, em virtude dos cromossomos, é única, com exceção para os raros gêmeos univitelinos.

O que dizer, então, do banco de dados? Experiências singulares fazem com que a percepção do mundo seja exclusiva: ninguém vê, sente o mundo como eu. Cada pessoa é, portanto, fora de série.

Um dos nossos objetivos na Computação era aprender a programar: construir uma sequência de instruções para realizar algo. No início, como sempre, tarefas simples. Depois...

Concluída a escrita, era hora de "rodar" o programa  colocar para funcionar — e rezar — torcer para ele funcionar adequadamente.

Não creio que existia uma relação — direta ou inversamente proporcional — entre tais variáveis, considerando os resultados e as práticas espirituais dos colegas...

Quando o programa não funcionava, entrava em cena o método mais utilizado na Ciência: ensaio e erro. O desafio era localizar a rotina que estava "dando pau" e consertar a dita cuja.

Uma estratégia para localizá-la era colocar marcadores — letras para aparecerem na tela, por exemplo — de modo que se pudesse descobrir onde estava o problema e tentar, posteriormente, resolvê-lo.

Algo muito frequente nas nossas produções acadêmicas era o loop, situação em que o programa executava indefinidamente uma sequência, não avançando nos comandos laboriosamente redigidos e nos obrigando a interromper o funcionamento da máquina.

No início deste ano, durante uma aula no curso de Pedagogia, mais de 25 anos depois de tais experiências na Computação, vislumbrei o fato de que nós, na maior parte da nossa vida, estamos presos em laços existenciais.

Deles somente nos livramos se tivermos a humildade de reconhecer quando estamos com a corda no pescoço, no bolso ou no pé, a coragem de colocarmos marcadores para identificar onde estamos atolados e a determinação de reescrever as instruções, quase sempre no sentido de simplificar o roteiro.

E viva o CTRL + ALT + DEL!


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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

RELEVANTE >> Carla Dias >>


Logo cedo, senta-se diante do computador para conferir mensagens. Da média de 837 que recebe por dia, duas ou três são destinadas a ele, mas nem por isso são relevantes. A triagem é cansativa, e acaba por fazê-lo considerar se deve aproveitar aquela promoção que pipoca em sua caixa postal 321 vezes, até mesmo abrir uma conta naquele banco que insiste, 159 vezes, que ele deve atualizar um token que não lhe cabe.

Não é homem de se deixar enganar por conteúdo de folhetim marqueteiro. Não adere às promoções, não lê nem metade de mensagem de estrangeiro querendo investir milhões no Brasil, não aceita convite de quem escreve “me adiciona aí, vai”, tampouco é bobo de clicar no link “aumente suas chances!”.

Chances de quê?

Uma caneca cheia de café, a de sempre, a de diariamente, de várias vezes no diariamente, desde aquela quarta-feira em que se encontrou com os amigos e eles o presentearam com tal caneca de louça, na qual estava escrito “anime-se, existe vida sem café”. Desde então, tem bebido mais café do que nunca.

Esse é o máximo de rebeldia que vem deflagrando ultimamente.

Que houve aquele momento em que estava no meio do olho do furacão, a vida enlouquecida: média de 150 mensagens relevantes por dia, e apesar de se sentir pressionado, andava sorrindo, que ser necessário o tornara relevante também. Além da média de 150 mensagens por dia, havia a média de 61 telefones, 35 piscadelas da secretária bonitona do chefe, 15 pedidos de amizade em rede social, 3 doses de uísque antes do banho, da cama, do sono que demorava a chegar e, quando chegava, era conturbado.

Quando se senta diante do computador para conferir mensagens, também lida com um mundo imaginado pelo outro. Em quantas viagens desejou embarcar, em quantas mentiras descaradas ele quis acreditar, quantos estranhos ele pensou em conhecer. Depois de chegar ao topo do nonsense profissional e existencial, de compreender que seu corpo estava reclamando cuidados, sua cabeça necessitava de se esvaziar de tantos pensamentos ao mesmo tempo, e seu espírito clamava por pausas, por abrandamentos, foi então que ele compreendeu a irrelevância dessa espiral de buscas que ele nem mesmo almejara, na qual ele decidiu se embrenhar.

Hoje sabe que o tempo também deve ser sentido, e nem sempre como uma viagem em trem-bala. Aprecia as viagens mais longas, que pedem por paciência e oferecem paisagens. Tem consciência de que essa não é uma descoberta autoral, de que a maioria de nós chega a ela, às vezes, forçadamente. Como no caso dele, que sentiu um peso na alma quase insuportável, então parou e gritou, mas tão alto, que as pessoas a sua volta pensaram que ele estava sentindo a pior dor do mundo, que estava morrendo dela.

De certa forma, foi mesmo o que aconteceu.

Para ele, aquietar foi a melhor escolha. Da média de 29 broncas que distribuía por dia, nem sempre com alvo definido, a média de 45% delas era completamente desnecessária. Houve o dia em que verbalizou sua acidez com tal frequência que a voz sumiu de vez, antes do fim do horário comercial. Passou a sentir passageiro da vida com um único intuito, o de fazer a roda girar, as coisas acontecerem, a média diária de 150 mensagens relevantes não ganhar esse posto por acumulação. Acreditou, por um breve período, que fazia diferença.

Aconteceu o dia seguinte ao grito, em que ele não se levantou da cama às cinco, não verificou e-mail, não atendeu telefone, não ligou a televisão da sala no telejornal, a da cozinha, em outro telejornal, a do banheiro, em um terceiro telejornal. Seus pensamentos se aquietaram de tal forma que só conseguia se lembrar daquela única mensagem que recebeu no dia anterior, da qual protelou a leitura por achar que era irrelevante naquele momento. Aquela que não fazia parte de qualquer média, que, diferente do que ele imaginara, tinha toda relevância do momento.

De certa forma, foi mesmo o que aconteceu. Não atendeu ao telefonema, porque acreditou que poderia retornar depois que resolvesse pendências. Não leu a mensagem, que a leitura podia ficar para depois do expediente. Foi nesse depois, ao ler aquela mensagem, que compreendeu a fragilidade do poder de controle, até mesmo da própria existência. Foi por meio dela, menos de cento e quarenta caracteres, que tudo mudou.

“Sinto muito, mas sua esposa sofreu um acidente e morreu. Tentei ligar, mas você não atende. Aqui é a sua irmã, sabe quem?”

A média diária de abraços que recebe... Sabe apenas que são muitos, que é vizinho de sua irmã, e ela e seus sobrinhos adoram abraçar. Tomam chá juntos no final da tarde, Aprendeu a apreciar chás, sua preferência é por camomila com gengibre. Ela sempre lhe diz que a vida ficará mais leve. Ele tenta acreditar nisso, esforça-se para, ainda assim, a melancolia lhe cair bem.

À noite, uma última olhada nos e-mails. Da média diária de 127 mensagens que recebe entre 18h e 22h, uma é sempre relevante. Se não para ele, para alguém nesse mundo. E esse é o pensamento que lhe acalma.

carladias.com

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terça-feira, 5 de agosto de 2014

A SAGA DE SANDY >> André Ferrer

O tipo de pensamento que só acontece de madrugada. E se o cronista vem de um sono intranquilo diante da TV, o corpo magoado pelas duras corcovas da poltrona, o tal pensamento ocorrerá. No entanto, um pouco antes — graças à música inconfundível , descobre-se que se assistirá ao filme "Nos tempos da brilhantina" ("Grease") pela enésima vez. Inevitavelmente, aquele pensamento: sim, o vaivém da moda não tem nada de espontâneo.

Aliás, nunca teve. No seu movimento pendular, a moda oculta um verdadeiro universo de intenções.

Grease é um filme dirigido à juventude dos anos de 1970, mas que retrata a geração anterior, dos pais, aqueles que eram jovens algumas décadas antes, em plena transição dos 1950 para os 1960. A história tem como eixo a educação sentimental de uma jovem, Sandy, o que perpassa, rapidamente, a inocência dos anos dourados e alcança os vestíbulos dos anos de 1980 e 90 quando, efetivamente, a mulherada trocou a espera na orla da pista de dança pelo ato assustador de “tirar para dançar”. Como revival dos festivos e puros anos pós-guerras, Grease encanta os mais velhos e, assim, edulcora o resultado da revolução dos costumes. A beatitude de Sandy é um engodo para o núcleo familiar. A donzela é uma mola encolhida. Ela parece condenada a uma eterna matinê rockabilly, mas ensaia tacitamente o atualíssimo “ataque da cachorra louca”.

Uma vez mais, a saga de Sandy passa diante dos meus olhos. Desde o início do filme, lá está ela: pronta para se lançar nos embalos de sábado à noite, nos nightclubs nova-iorquinos, na boemia new wave de Londres, enfim, nas raves anfetamínicas de Ibiza. Enquanto apresenta uma heroína ingênua, que se revelará uma Fênix Negra nas cenas finais, Grease tem elementos que agradam os donos da independência financeira, isto é, os pais, aqueles que liberam a criançada para o cinema e até pagam a pipoca, o refrigerante e o hot dog.

A moda nunca retrocede. A moda é um fio maleável, que se dobra sobre si mesmo para tocar, lá atrás, o que interessa aqui na frente. Se o controle dos iguais é sempre mais fácil do que o controle dos diferentes, a moda é a serpente que paralisa e nivela as massas com a sua dança de sobreposições.

Em Grease, a ilusão dos “velhos tempos que voltaram” uniformiza os pais e os filhos em prol de um produto. A guerra de gerações ganha, então, uma zona neutra em que a trégua beneficia uma grande indústria cultural. Na bandeira branca, pode-se ler que a moda é circular; de tempos em tempos, ela traz de volta o que houve de bom. Mas a história não é bem assim. O refluxo da moda é tão deliberado quanto uma onda que se quebra numa daquelas praias de parque aquático, artificialmente animada pelo emprego de bombas.

O pêndulo da moda é irmão dos fantoches. Daí o kitsch. Os Girassóis de Van Gogh a preços populares. A miniatura da Torre Eiffel, como souvenir, para quem visita Foz do Iguaçu ou Aparecida do Norte. A ideologia é feita para muitos enquanto a riqueza material, desde que o mundo é mundo, é para poucos. 


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domingo, 3 de agosto de 2014

O CAMINHO MENOS NAVEGADO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Toda descoberta tem seu preço.

Há 522 anos, Cristóvão Colombo partiu de Granada, na Espanha, com destino às Índias. Não pelo “Oriente, por onde se costuma ir, mas pelo caminho do Ocidente, por onde até hoje não sabemos com segurança se alguém teria passado”, escreveu ele em seu diário. O Rei e a Rainha da Espanha, financiadores da viagem, “me concederam grandes mercês e me enobreceram para que daí por diante me intitulasse ‘Dom’ e fosse Almirante-Mor do Mar Oceano, Vice-Rei e Governador perpétuo de todas as ilhas e terra firme que descobrisse e conquistasse, e que doravante se descobrissem e conquistassem no Mar Oceano”. Foram descobertas e conquistas muitas vezes sangrentas, que nós hoje questionamos. Mas talvez nem existíssemos, enquanto latino americanos índios brancos negros, caso Colombo houvesse escolhido o caminho conhecido.

Há motivo para reclamações?

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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

I MALEDETTI >> Zoraya Cesar

Toda vestida de preto, a velha caminhava lentamente, olhando para baixo, não se sabe se preocupada com as armadilhas fatais das calçadas esburacadas, ou se as costas curvadas não a deixavam andar de outro modo.

Colo, mãos e rosto engelhados e cinzas como o pescoço de um urubu, ela caminhava lenta e resolutamente, por bares, lojas e pessoas, quase que totalmente despercebida, apesar da aparência extravagante. Ou porque na azáfama do dia ninguém a via mesmo ou porque, se a viam, afastavam rapidamente o pensamento e o olhar, como pressentindo algo de pestilento e mortal na sua presença. Um grupo de pivetes passou arrancando algumas bolsas, colares, relógios, e uma das meninas ainda cobiçou a pequena sacola roxa que a velha carregava na mão descarnada, mas preferiu assaltar outra vítima.

Caminhava, clapt, clapt. Caminhava sem parar e assim foi até o entardecer, quando chegou, finalmente, ao seu destino, pouco antes de fecharem as portas.

O funcionário baixou os olhos quando ela atravessou a guarita — se por acaso, ou por já acostumado àquela visita sempre na lua nova, não sabemos. O fato é que ela passou e, no instante seguinte, os portões fecharam ao público externo. A partir daquele momento, o lugar pertencia aos condôminos vitalícios — se é que tal palavra se aplica ao caso —, aos visitantes que escaparam à vigilância e se esconderam durante o dia, aos que pulavam o muro após o anoitecer e aos poucos que, como a velha, tinham a entrada franqueada.

Ela continuou caminhando, indiferente ao vento frio e à escuridão — sabia exatamente por onde andar para chegar onde queria — um tanto ansiosa, talvez, por prosseguir à sua missão.  

Passou pelo grupo de jovens vestidos, como ela, de negro. Passou pelo homem que batia no peito e gritava de dor e saudade. Passou pelo ladrão que procurava algo de valor. Ninguém prestou atenção a ela e a ninguém prestou ela atenção. 

Quando, finalmente, chegou ao seu destino, ficou ali, parada alguns minutos, talvez tomando fôlego, a noite era longa e ela já não era criança. 

Sentou-se ao lado do túmulo do marido, tirou da bolsa uma foto amarelecida pelo uso, um homem de ar severo e orgulhoso, bonito com sua brilhantina no cabelo e fartos bigodes castanhos. Tirou da bolsa, também, agulhas de tricô, um novelo de linha preta, uma vela da mesma cor. Acendeu-a, apoiou a foto na lápide e começou a fiar. A cada ponto, uma estrofe de uma estranha reza de esconjuros e maldições. 

E assim ficou a noite inteira, e, pouco antes que os primeiros raios de Sol ameaçassem a escuridão, ela, ainda esconjurando, amarrou toda a rede em nós inquebrantáveis e enterrou-a junto à lápide. Antes mesmo de o bem-te-vi soltar seu primeiro gorjeio, ela já estava indo na direção da saída. 

Todo mês, na Lua Nova, a velha praticava aquela antiquíssima magia italiana, para prender a alma do finado marido no limbo sem luz, onde ele seria torturado pelas agruras do inferno, sem nunca ter paz, assombrando o mundo dos vivos com aparições e obsessões terríveis, que já levara à loucura mais de um inocente que nada tinha a ver com a história. 

A história? Um marido cruel que perpetrou todo tipo de maldade contra a esposa. Uma esposa que, após a morte dele, não mandou rezar sequer uma missa, mas dedicou sua vida a vingar-se, prendendo a alma do finado eternamente no mundo sem luz. Nenhum dos dois teria salvação. Ele, por não ser perdoado; ela, por não perdoar. I Maledetti — os malditos. Condenados, ambos, à danação eterna. 

Duas almas malditas, dois seres trevosos, duas vezes perigosos: ele, por assombrar o mundo dos vivos; ela, o dos mortos. Todos dois se comprazendo em fazer o que faziam, pouco se importando com as consequências de seus atos na vida de outras pessoas ou com o equilíbrio das Forças, pois, quanto mais seres das trevas existem, pior para ambos os mundos. Assim na terra como no céu. 

Longe dali, Lucrécio Lucas sentiu vontade de dar uma batida no cemitério, ver o que andava acontecendo, ajudar algumas almas, combater outras, limpar o lugar para que este continuasse a ser um solo sagrado. 

Convidaria seu grande amigo, o maior exorcista do país, um dos dez mais do Vaticano. Padre Tércio detestava sair no frio, mas não resistiria a uma dose de um legítimo Sheridan’s de café, seguido de um Bom Combate.

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