quinta-feira, 31 de julho de 2014

AMOR, ESTOU COM SAUDADES DA FITA ISOLANTE
>> Fernanda Pinho



Uma das coisas mais bacanas de estudar outras línguas é descobrir palavras que só existem naquele idioma. Como “saudade” que, dizem, é uma palavra exclusiva do português. Mas de onde vem isso? Qual foi nossa primeira saudade? Pesquisando, descobri que a palavra nasceu junto com o Brasil. Ou, pelo menos, junto com aquele Brasil descoberto pelos portugueses. Já que a palavra, derivada do latim (em que “solitáte” quer dizer “solidão”), passou a ser utilizada pelos nossos patrícios para definir a melancolia causada pela distância de casa.

Na mesmo pesquisa, descobri também que o gaélico é o único idioma que nos oferece uma palavra com conotação textual semelhante: “hiraeth”. Como meu marido não é um escocês do século V, deve ter acontecido de, em algum momento, eu ter inserido a palavra “saudade” em nosso relacionamento. E provavelmente deixei claro que sentir saudades era o mesmo que sentir a falta, sentir a ausência.

Ótima explicação, certo? Precisa e esclarecedora. E quando ele me disse pela primeira vez que estava com saudades de mim, achei de uma fofura infinita. Até eu ser colocada no mesmo patamar de chinelos, fita isolante, faca, cabo HDMI, controle remoto e outros objetos que de românticos não tem nada. Como?

Aconteceu que, depois de um tempo, detectei quão vago é traduzir “saudade” como sinônimo de “sentir falta”. E tornaram-se corriqueiras em minha vida frases, digamos, peculiares do tipo: “Amor, fui tomar banho e senti saudades da minha toalha no banheiro”. “Essa comida está sem gosto. Estou com saudades do sal”. “Ontem eu deixei uns parafusos aqui, estou com saudades deles”. “Você viu o vidro de álcool? Procurei a casa toda. Estou com saudades”. “Essa imagem não está muito boa. Sinto saudades de um pouco de cor aí”. “Cadê o garçom que estava nos atendendo? Estou com saudades”. “Fui ao banheiro e senti saudades do papel higiênico”.

No início eu até tentei explicar que não era bem assim. Isso não é saudade, meu amor. Saudade toca fundo, mexe com todos os sentidos. Não é uma falta qualquer. Como quando você sente o cheiro de álcool e tem vontade de estar de novo na sala de aula, com cinco anos, vendo a professora mimeografar o Para Casa. Ou quando seu bife queima e você se lembra que o da sua avó sempre se queimava também e depois você tem que engolir o almoço com gosto de lágrimas. Ou quando você sente o cheiro do perfume que ganhou aos quinze anos e consegue até sentir o gelo na barriga da adolescência. É como quando eu estava no Chile e chorava depois de conversar com minha mãe pelo Skype. É como quando você foi embora do Brasil, amor, e esqueceu sua camisa lá em casa, me obrigando a dormir com ela. Saudade é isso. É outra coisa.

Mas por ser "saudade" uma palavra tão especial, cuja simples menção mexe com nossas emoções, acabei largando mão das explicações. Ouvir “saudade” a torto e a direito, carregar cada cena trivial com tanto sentimentalismo, torna a vida, no mínimo, mais poética.

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quarta-feira, 30 de julho de 2014

VENTANIA DA SILVA >> Carla Dias >>


Para as meninas da minha vida: Duda, Amanda, Débora e Mayara.

O seu nome é Ventania. Gosta de vento que é uma coisa, mas não é só isso: os cabelos. Já viu cabelos iguais aos dela? Parece até que vão se enroscar nas copas das árvores, enquanto ela caminha desacelerada. Bem se vê que está paquerando pensamento. É de uma lindeza descabida, que faz mais de um, de dois, de cento e cinquenta e sete pessoas desejarem ser Ventania.

Ventania da Silva. Batizada aos meandros dos acontecimentos, que a mãe pariu a menina às lufadas do vento, que na hora do registro não saía de sua cabeça essa coisa de ventania. Ventania da Silva escapou de sua boca, e depois disso, não houve quem tirasse o registro da menina.

Ela nasceu inadequada, é preciso que aceitemos isso.

Quer dizer, não é não! E nem devemos tentar.

Nasceu com a inadequação em polvorosa, porque quando não se cabe no provável é dito feio, insalubre, incorreto, desproporcional, inaceitável e mais uma penca de predicados que não fazem sentido quando se trata da celebração da vida de uma pessoa. Sendo assim, Ventania nasceu não cabendo, e o pai se benzeu ao vê-la sorrir mal saída do ventre da esposa, e os seus olhos já vieram arregalados de um jeito indecente. Jeito de quem vê além. Não teve dúvidas o consorte: fez as malas e se mandou dali. Escolheu viver na lonjura de suas meninas.

Ventania não reclama da vida, não. Mesmo tendo de trabalhar duro para alcançar o que almeja — como qualquer ser humano deve fazê-lo, vale lembrar —, continua na sua caminhada de quem passa e desmancha cabelos, derrete olhares, incomoda pela naturalidade com que diz a verdade, sabendo que a sua verdade nem sempre será a do outro.

A mãe tem um orgulho imenso da filha. Gastou muito do seu tempo contando a ela sobre a história de sua família. Inventou a tal inteirinha, que a mãe veio de lugar nenhum, foi meio que cuspida no mundo. Já viveu tanta coisa ruim nessa vida, que delícia de ser mãe de pessoa feito Ventania é a importância mais importante de sua existência.

Saibam que Ventania não é moça de ficar quieta diante de injustiça. Já desceu das tamancas, e muitas vezes, para defender direito sendo arrancado do outro, assim, na maior cara de pau. Fosse pelo povo lá do bairro, Ventania da Silva seria presidente do Brasil, que sabe que todo direito vem com o dever, e que a fome não é só de comida, a sede não é apenas de água. Talvez por isso tenha se tornado professora, a mais famosa do lugar, conhecida por defender o direito de todos de ser pessoa, com histórias distintas, com suas riquezas particulares.

Ventania da Silva nasceu para a beleza dos pequenos gestos que provocam grandes mudanças. Tem a cabeça nas nuvens, mas os pés no chão, sempre que preciso. E os cabelos? Às vezes, eles parecem querer se enroscar nas estrelas, esconder pensamentos, que Ventania cultiva sonhos e mais sonhos na sua cabeça.

Não há como ignorar pessoa nascida sorrindo, com os olhos já arregalados, de saber enxergar além. O pai se assustou e fugiu. A mãe se encantou e cuidou. A escolha de quem foi e de quem ficou não a aflige, porque acredita ter sido abençoada por a terem acolhido. Ainda que lhe digam que ela merecia ser criada por pai e mãe, amada por pai e mãe, festejada por pai e mãe, oras, nem todos são escolhidos para serem amados apesar da inadequação, e ela foi e tem sido.

Que Ventania da Silva não nasceu para ser vítima de si mesma, tampouco da incapacidade do outro em compreender que ser autêntico, às vezes é confundido com ser inadequado.

Lá vai Ventania, rosto sendo beijado pela chuva, carregando sua história com a maior alegria. E os cabelos? Às vezes, parece que eles se enredam à melodia do vento.

carladias.com



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terça-feira, 29 de julho de 2014

DEFEITOS QUE SÃO FALSOS ELOGIOS
>> Clara Braga

— Uma cor?
— Branco, representa a paz.
— Um sentimento?
— Amor.
— Algo que você odeia?
— Racismo.
— Uma frase?
— Não se leve sempre tão a sério.
— Uma qualidade?
— … é… hum… é…

De todos os clichês existentes em uma entrevista no estilo “bate-volta”, sem dúvida o maior de todos é a dificuldade em se autoelogiar. Parece que elogiar é uma das únicas coisas que costuma ser mais fácil fazer para os outros do que para si mesmo. Exatamente o contrário do defeito, que é muito mais fácil falar do próprio do que do alheio. Será?

Repare bem, já percebeu que as pessoas, quando vão citar um defeito, nunca dizem aquele defeito cabeludo? Todo grupo de amigos tem pelo menos uma pessoa de que todo mundo pensa: “Fulaninho é ótimo, se não fosse aquela mania de falar berrando, mesmo quando estamos em um local silencioso". Ou: “Adoro Fulaninha, mas ela tinha que ser tão egoísta?” Agora pergunta para o Fulaninho ou para a Fulaninha qual o maior defeito deles, eles nunca vão dizer "falar alto demais" ou "egoísmo", vão dizer “sou muito perfeccionista” ou “tenho mania de arrumação”. A não ser que eles sejam muito bem resolvidos com os tais defeitos.

A verdade é que a maioria de nós sabe de seus maiores defeitos, mas tem tanta dificuldade de encará-los quanto de dizer o quão bom é naquilo que faz. Aliás, vivemos eternamente nessa cultura de que não podemos ser de fato bons em nada, pois se assumirmos isso seremos para sempre as pessoas mais arrogantes do mundo. Ser bom é arrogância e ser muito ruim é falsa modéstia, o que também é ruim, mas é menos pior do que ser arrogante, pelo menos você tentou não ser arrogante. O bom mesmo é ser mais ou menos. Mas não insista muito em convencer os outros de que você é mais ou menos, pois pode parecer que você está querendo ter seu ego massageado por elogios, ou seja, você é arrogante de qualquer jeito.

Essa história de falar sobre defeitos e elogios, erros e acertos, vai longe, o problema é que parece que foi longe demais e virou mania. Antes essas perguntas só eram famosas no programa De Frente com Gabi, e a gente ficava rindo da cara do entrevistado que tinha que rebolar para não ser tachado de arrogante metido. Agora, a gente que ficava só rindo se depara com essa pergunta nas mais diversas situações. Entrevistas de emprego são batata, você precisa se virar nos trinta e dizer seus defeitos e qualidades. Me questiono até que ponto essas perguntas ajudam de fato, afinal, quem é que vai dizer que detesta trabalhar em equipe, odeia acordar cedo, não tem horário para nada, gosta de fazer umas viagens imprevisíveis e deixar o trabalho para depois, etc? Aliás, é tão raro alguém ter coragem de falar essas coisas que se alguém fosse sincero a esse ponto comigo, eu era capaz de contratar só pela sinceridade. Ia me arrepender na primeira vez que a pessoa simplesmente não aparecesse, mas me ganhou pela honestidade.

Acredito que todos nós temos dificuldade em nos elogiar, mas também temos dificuldade em nos criticar, e é por isso que disfarçamos nossas críticas em defeitos que nem são tão defeituosos assim. O perfeccionista pode ser chato, mas é muito útil para trabalhos detalhados e costuma ter muita atenção. A pessoa que tem mania de arrumação só atrapalha quem mora com ela e gosta de largar a toalha molhada em cima da cama, para os colegas de trabalho isso é ótimo. E assim segue, para não sermos nem arrogantes nem perdemos nossa vaga de emprego, não assumimos ser muito bons em nada — o que soa no mínimo contraditório — e disfarçamos nossos defeitos em falsos elogios. O que eu não entendo é: se todo mundo sabe disso, por que não passamos a simplesmente assumir nossos reais perfis?

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segunda-feira, 28 de julho de 2014

AS TRÊS MARIAS >> Albir José Inácio da Silva

Plin-plin. A câmera mostra o céu sem nuvens, desce pra areia dourada e avança sobre o mar calmo e azul. Fecha agora sobre as pedras onde se veem dois corpos bronzeados, esguios e adolescentes, que se beijam. Beijam com ternura, as mãos acariciando os rostos. Lentamente a câmera passeia pelo terreno rochoso, vai até a linha d’água e volta. Agora se beijam com paixão, com fome. As mãos seguram as cabeças como se quisessem fundi-las. Dedos desajeitados afastam uma alça de biquíni. A câmera os deixa rapidamente e para lá longe, onde se encontram céu e mar. O microfone ainda registra o estrépito dos beijos e a respiração convulsa. A música se eleva feito um hino e o ruído das ondas marca o ritmo. O Rio de Janeiro brilha ao sol das dezenove horas. E se um dia deuses se amaram, foi assim.

Raras são as novelas que não trazem belas paisagens da Zona Sul do Rio de Janeiro, corpos esguios e bronzeados, e românticas primeiras vezes. Essas cenas alcançam recordes de audiência e ficam na memória de todos.

Maria da Glória, por exemplo, não esquece. Mora na Glória, bairro tradicional do Rio, próximo de onde foram feitas essas imagens. Ela gosta de novelas e gostou da primeira vez:

— A minha primeira vez foi como um conto de fadas. Não. Contos de fadas não têm primeira vez. Foi como uma novela. Aliás, como uma cena que tínhamos visto na noite anterior. Pôr do sol, praia, paixão e amor pra nunca mais se acabar. O garoto ainda namorei uns tempos. Depois acabou. Mas foi bom. Sempre discordo das pessoas que ligam amor a sofrimento. Amor é alegria. Se não, é melhor deixar pra lá. Não há nada que umas compras no shopping não possam curar. Lembro com ternura da minha primeira vez. Lembro com poesia.

Na comunidade da Vila Cruzeiro, Bairro da Penha, uma outra Maria, a da Penha, também se lembra da novela e da sua primeira vez. Ainda gosta de novelas, mas não gostou da primeira nem das outras vezes:

- Não gosto de sexo não. Antes eu achava que ia gostar. Todo mundo falava que era bom. Na primeira vez, tínhamos ficado sozinhos assistindo à novela. Uma cena tão bonita. Nem parecia pecado. Não sei bem porque fiz aquilo. Dá um negócio na gente. Por dentro. A gente não pensa mais em nada. Quando vê, já fez. Mas eu já estava arrependida antes de acabar. Depois gritei com o garoto pra ir embora. Chorei uma semana, não comi, fiquei doente, enjoei, achei que estava grávida. Contei pra minha mãe porque ela tinha dito que eu podia contar qualquer coisa. Teve uma crise de nervos. Contou pro meu pai que gritou e me bateu, depois chorou. Não estava grávida, mas já tinha perdido as provas. Não fui mais à escola. Não fui mais à igreja. Fui expulsa da igreja e só pude voltar depois do casamento. Casamos. Nossos pais tiveram que assinar pra gente casar. Eu podia ter gostado dele. Mas tivemos que casar. Não deu tempo de gostar. Acho que ele também não gosta de mim. Estou ficando feia, maltratada. É essa vida: filhos, pouco dinheiro, tristeza, arrependimento. Sexo só é bom na televisão. Com gente bonita e lugar bonito.

No sertão de Sergipe uma vila se chamou “Enforcados” desde 1606. Ali eram enforcados os índios durante o seu longo processo de “salvação”. No século XIX o povoado passou a se chamar Nossa Senhora das Dores, um nome sem dúvida mais digno. É claro que lá também chegou a televisão e as novelas, com as lindas imagens do Rio de Janeiro. Maria das Dores se lembra da cena e não gosta mais de novela. Nem da vida.

(Continua em 15 dias)

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sábado, 26 de julho de 2014

A ÁRVORE >> Sergio Geia

Foi uma conversa estranha, mas à medida que eu andava, seguindo uma espécie de fila indiana, com a mochila nas costas, o violão, a latinha de coca, ela falou, falou sim, falou no meu ouvido, se apresentando como uma nova amiga. “Olhe pra mim!” E eu olhei. E me senti instantaneamente muito bem. Senti toda a sua força colossal, seu poder extraordinário, sua resistência e sua sensibilidade, uma energia cósmica me invadindo pela epiderme do dedão do pé até a mais profunda das camadas da alma. Ela não parava de falar: “Eei! Irmãão! Estou aqui, viu? Eu vivo também, Tchutchucão!”.

Isso pode parecer maluquice, mas foi real, amigo, eu garanto! Ela me disse que embora centenária, frondosa, enorme, poucos ali a percebiam. “É assim mesmo. Eu já estou acostumada. Somente alguns conseguem sintonizar o meu nível vibratório. E precisa coragem, Tchutchucão! Você tem. Tem muita coragem. Estou feliz com sua presença, meu novo amigo! Faz tempo que não aparece alguém como você. Eu tenho certeza que o renovarei. Mas não se iluda. Não pense que será fácil. Depois que você me enxerga, não adianta mais querer me esconder debaixo do tapete. Seja aqui, na sua terra, em Cartagena ou Paraibuna. Eu vou sempre estar com você. Vou te perseguir... Também, desse tamanho, né? Quer o quê?!”

Eu continuava sem entender. Como aquilo estava acontecendo? Era uma coisa muito louca, tão absurda, tão irreal e tão fantástica. Eu olhava aquelas pessoas e todas, todas alheias, todas em suas vidinhas, em seus movimentos singulares, e eu, simplesmente no meio de um parque lotado, com cara de paisagem, conversando com uma árvore?

“Não se assuste, amigo! Não se assuste! Tem cada coisa aqui que se as pessoas tivessem a mínima ideia, eh... E elas vivem em seus mundinhos. E não querem me enxergar. Talvez algumas até queiram, mas não conseguem. Não encontram a vibe certa, entende? Mas vivem bem. Não pense que sua vida vai ser umas mil maravilhas depois da nossa amizade. Quê!? A diferença é que, depois de mim, você vai enxergar melhor as coisas, com mais nitidez. Ih!, mas dá trabalho... Cê nem imagina como... Toca pra mim, toca. Eu te dei esse presente e você me agradece com uma música, combinado? Toca, vai!”.

Assustado. Eu tava começando a ficar assustado. E com medo. Aquela sensação do início, aquela sensação boa, positiva, tava indo pro espaço. Eu não sabia o que tudo aquilo significava. Pra mim, era tudo muito louco. E ela falava em presente. Que presente? “Ah, meu querido, acorda! Você tá aqui falando comigo, começou a me enxergar, a ver o mundo com outros olhos, e tá se perguntando que presente é esse? Pelamor! Tudo bem, se tá aí meio grilado, meio assustado, é normal, vai. Você precisa de tempo, daqui a pouco as coisas vão começar a se assentar e fazer sentido”.

“Mas que presente é esse? Não dá pra falar?”. “Eh, Tchutchuco! Tá bom, eh... Mania que vocês têm de rotular tudo. Eu chamo de a consciência. Pura. Cristalina. Densa. Ai, que romântico... Pronto. Falei. Satisfeito? Isso tudo que aconteceu aqui, você me ganhou, lindinho. Agora toca, vai. Toca pra mim!?”.

Mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, eu cedi. Primeiro tirei os sapatos para sentir o chão gelado. Depois sentei, encostei as costas em seu tronco, arrumei o violão e toquei.

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sexta-feira, 25 de julho de 2014

CRER SEM VER >> Paulo Meireles Barguil

A realidade não pode ser compreendida inteiramente pelo Homem.
 
Brincamos, então, de elaborar sentidos, que nos permitam uma maior aproximação e, assim, aquietem, mesmo que brevemente, o nosso espírito.

A cada descoberta, a pessoa é invadida por sentimentos antagônicos: por um lado, sua percepção do mundo se amplia, por outro, surgem sombras antes sequer imaginadas.

Iluminar, portanto, aumenta não somente a área visualizada, mas, também, a cortinada. Que paradoxo fascinante!

Diante dessa constatação, é compreensível que alguém defenda a inutilidade do conhecer, afinal o ignorado só cresce!

O espírito, contudo, refuta essa proposta e se movimenta, com intensidade variada, em direção ao infinito.

Eu admito: na maior parte das vezes, só consigo ver o que creio e só acredito no que minha mente é capaz de perceber.

Este é um dos fatores que mais influenciam a velocidade do deslocamento, bem como a sua direção.

Somos diferentes  e cada vez mais!  em virtude da herança biológica e da bagagem experiencial.

Ninguém pode ver e sentir o mundo como eu.

Da mesma forma, sou incapaz de olhar e apreciar a totalidade como outra pessoa.

Esse é o maior desafio atual nos relacionamentos, independente de que tipo: romântico, educacional, profissional...

Acredito, contudo, que é possível  e necessário!  construir um diálogo entre as pessoas, o qual só acontece quando ele é razoavelmente estabelecido internamente, acolhendo, e não sufocando, as diferentes vozes.

A felicidade, tal como falou Cristo para Tomé (Jo 20, 29), reside em crer sem ver.

O convite, portanto, é aceitar que nada há para ser ensinado, apenas partilhado, e nada há para ser aprendido, apenas degustado.

Acreditar e duvidar, ao mesmo tempo, com igual intensidade, tal como foi cantado pelos Engenheiros do Hawaii, em Realidade Virtual, de modo que eles se fundam e me deixem em paz!


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quinta-feira, 24 de julho de 2014

O BOICOTE NOSSO DE CADA DIA >> Mariana Scherma

Eu não sei você, mas eu vivo me boicotando. É um ciclo sem fim. Estou direto com duas (ou até mais) vozes na minha cabeça, uma sempre tentando me convencer de algo que eu quero. A outra, num som mais baixinho, tentando deixar claro que eu não preciso do que quero. A voz da razão é um sussurro. Começa logo pela manhã, assim que abro meu e-mail:

— Bolsas de franja em promoção. Ai!
— Mas eu já tenho duas bolsas de franja.
— Só que nenhuma nesse marrom caramelo. Olha que linda, imagina usar junto com a calça de onça?!
— Esquece, tá faltando armário pra guardar tanta bolsa.

Ok, venci o round um do boicote. Uma bolsa de franja a menos. O problema é que as tentações do dia nem começaram ainda...

Aí vem a fome no meio da manhã. Depois de você ter malhado com toda a sua energia na academia.
— Vou tomar um copão de água e comer uma ameixa.
— Mas e aquela bolacha de chocolate que você comprou?
— É pro fim de semana.
— Uma só não é pecado, aquele gostinho de mel com chocolate... Hmmm!
Resultado: no meio da manhã fui vencida pela própria gula e me vejo atracada com um pacote de gordura trans deliciosamente saboroso. Quem mandou comprar a bolacha gostosa? Agora, só resta focar na salada da hora do almoço e ficar com gelatina de sobremesa.

Dia de supermercado. Vamos lá fazer essa lista certa: cenoura, alface, berinjela, laranja, pão integral, iogurte. Cheguei no mercado. Onde ficou a lista? Na bancada de casa. Ferrou!
— A maioria das coisas era da parte de verdura, vai ser fácil...
— Nossa! O chocolate aerado tá mais barato. Vou levar duas barras. Vou dar uma passada na parte de perfumaria pra ver se tem alguma cor nova de esmalte. Dois esmaltes novos no carrinho. Ai meu Deus, tem fatia húngara na padaria! E pão de queijo, ai, tá quentinho.

Chego em casa sem nada do que precisava, mas com muito carboidrato e esmaltes novos. Boicote do boicote! Será que aprendo na marra agora que não tem nada decente pra comer no almoço?

 Já gastei demais com roupa nova recentemente. Falta cabide nesse armário, não cabe mais sapato na parte de sapato. Tem sapato no armário da cozinha...

— Ah! Esse mocassim verde está tão barato. Eu preciso de um mocassim verde. Como eu vivi até agora sem mocassim verde? Eu faço caber no armário.

Ok, a voz boazinha perdeu de novo. A voz boazinha deveria ser mais estridente, caramba! Não convence nem a mim mesma desse jeito.

Vamos lá focar nesse texto, eu termino em meia hora, pá-pum!
— Mas antes vou só aqui checar meu Facebook, rápido, prometo.
— Checa o Facebook depois, não acha melhor?
— Oi? Olha, a fulana largou do namorado! Será que ela apagou as fotos com ele? Ai, coitada, apagou, tá feia a coisa, só posta música depressiva. Nossa, parece interessante esse texto que o sujeito compartilhou. Vou ler rápido. Ah, vou aproveitar pra ver as fotos dele, ai, tão lindo. Quem é essa vaca que curtiu a foto dele? Cabelo alisado o dela, hein.

Duas horas depois, nem o primeiro parágrafo do texto que seria feito em 30 minutos foi concluído. A voz da razão gentilmente levantou uma placa: eu já sabia!

Vai ver o autoboicote faz parte. A graça toda da coisa é chegar no fim do dia e analisar os ganhos e as perdas de todos os diálogos com a gente mesmo.
— Tá, vou analisar, mas antes deixa eu dar uma entradinha no Instagram...

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quarta-feira, 23 de julho de 2014

ALGUNS DE ALEXANDER PAYNE >> Carla Dias >>


Alexander Payne é um diretor que me agrada muito. Não somente um diretor, mas também um roteirista que me apetece. Para mim, As Confissões de Schmidt (About Schmidt/2002) e Sideways – Entre Umas e Outras (Sideways/2004) são filmes primorosos. Em Os Descendentes (The Descendantes/2011), ele exercita a delicadeza ao abordar a perda de uma pessoa em processo. Nos três filmes, Payne atuou como roteirista e diretor.

Sabe-se sobre Payne que ele é ótimo quando se trata da seleção dos atores, e eles o adoram. Talvez por isso ele consiga tirar o melhor daqueles que já fazem parte da seleta lista de artistas realmente talentosos. Quem não se lembra de Jack Nicholson em As Confissões de Schmidt? Se você não se lembra, é porque não assistiu ao filme. Por isso, eu o aconselho, veementemente, que o faça. Em Sideways, Paul Giamatti, um ator fantástico, consegue ir além do que já fizera em Anti-Herói Americano (American Splendor/2003), de Shari Springer Berman e Robert Pulcini. Em Os Descendentes, George Clooney aparece vestindo uma fragilidade rara nos personagens que costuma interpretar, o que faz toda a diferença para o filme.

Há algo que Payne faz com maestria: equilibrar o humor e o drama, naquela dose que todo ser humano experimenta. Seus filmes falam sobre pessoas comuns e os seus demônios, encontrando em um cenário árido as riquezas de ser o que somos: humanos. Nesse ponto, ele me lembra de outro grande diretor, por quem também tenho apreço, Robert Altman. Short Cuts – Cenas da Vida (Short Cuts/1993) é um filme revelador. E se você não se lembra da atendente de telessexo trabalhando em casa, atendendo a uma ligação, enquanto troca a fralda do bebê, esse é mais um filme para a lista “eu tenho de assistir e logo”.

Recentemente, assisti ao Nebraska (Nebraska/2013), filme dirigido por Payne, lançado em 2013. Woody Grant (Bruce Dern) é um idoso de Montana, que sofre de uma leve demência, e acredita que ganhou um milhão de dólares ao receber uma carta promocional de uma revista. A fim de reivindicar seu prêmio, ele decide ir a pé à cidade de Lincoln, em Nebraska, o que seria atravessar o país. Depois de várias tentativas, sempre interrompidas pelo filho, o mesmo decide levar o pai até a agência que enviou a correspondência. O que acontece durante a viagem é o que torna Nebraska de uma delicadeza ímpar. Dern é um ótimo ator, que faz com que Woody se torne um personagem interessante em todos os aspectos.

Nebraska é baseado em uma situação pela qual Bob Nelson, o roteirista do filme, passou com seu pai, assim como histórias que ele escutou sobre vários velhinhos que foram até a redação de uma famosa revista, nos anos 90, com as cartas promocionais que receberam, a fim de retirarem os seus prêmios.


Nelson criou um roteiro no qual se encontram personagens interessantíssimos, como a própria esposa de Woody, Kate, interpretada primorosamente por June Squibb. Minha curiosidade girava em torno da participação de Will Forte, um comediante de sucesso, interpretando David, filho de Woody, que tenta conhecer o pai, que ele julgou indiferente a ele, a vida toda, assim como a oferecer a ele alguma dignidade. Só que, durante a viagem, David descobre que o pai é um bom homem, capaz de grandes gestos de gentileza, mas que nunca foi de falar muito. Will Forte foi uma escolha acertada para o papel.

Nebraska - Bruce Dern e Alexander Payne
Um roteiro como o de Nelson não resultaria em um filme brilhante como Nebraska se não fosse o olhar de Payne, que teve de bater o pé para fazê-lo em preto e branco, o que se mostrou um detalhe fundamental para o filme. O diretor também sabe fazer cenas sem diálogos que dizem muito. Em Nebraska, ele abusa disso. Abusa, mas sem passar do ponto, e criando momentos geniais.

Nebraska - Bruce Dern, Will Forte e Alexander Payne
Para mim, Alexander Payne é um dos roteiristas e diretores que melhor sabem contar uma história simples, como é a vida da maioria de nós, trazendo à tona detalhes que a tornam admirável. Criar e dar sentido aos personagens como os que ele vem oferecendo aos espectadores é coisa de quem sabe que a vida é breve, mas pode ser bem divertida, apesar dos pesares.


Clique aqui para conferir Alexander Payne no IMDb.



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terça-feira, 22 de julho de 2014

INSISTIR EM DESISTIR >> Clara Braga

— E você, em algum momento, pensou em desistir?
— Ah, pensei várias vezes, mas ai encontrei apoio nos meus familiares, nos meus amigos, nos meus amores e segui em frente, batalhei muito para chegar até aqui!
— E se você fosse dar um recado para seus admiradores, o que você diria?
— Para nunca desistirem de seus sonhos, tenham fé que vocês irão realizar o que desejam!

Por acaso isso soa familiar? Para mim soa muito, é o diálogo básico de 90% das entrevistas feitas com grandes celebridades, seja da música, do teatro, da dança, do esporte, não importa. E convenhamos, sorte a deles que dizem que pensaram em desistir, mas não desistiram. Dá um ar dramático para a entrevista, e a gente, que sabe que muitas vezes nem foi assim, adora um drama! 

Vai dizer que não é um tanto decepcionante quando você está assistindo àquela entrevista com o seu ídolo e ele responde: "Não, nunca pensei não, tudo aconteceu de forma muito natural, eu sabia que essa era minha vida, sempre todo mundo me apoiou muito, nunca tive problemas com a equipe gigante que trabalha comigo, nunca me deparei com uma mulher na TPM que me tirou do sério, nunca tive dificuldades para pagar as contas, nunca fiquei doente durante um mês inteiro, nunca passei por situações constrangedoras, nunca corri risco de vida e não tenho história nenhuma para contar." Em questão de minutos você já está entediado! 

É claro que quando é com a gente, a gente quer é tranquilidade, queremos resolver nossas coisas na paz, sem correria e sem dificuldade, afinal, ainda queremos chegar em casa cedo, tomar um belo banho, deitar  com um balde de pipoca do lado e assistir a um filme tranquilo, daqueles que não exigem muito da gente. Mas as celebridades não, elas têm que passar por situações difíceis para ter o que contar, parece até que só alcança a fama quem, em algum momento, chegou no fundo do poço ou quase lá. E a gente adora, parece até que aumenta nossa admiração pela pessoa, gostamos mesmo de uma boa história de uma pessoa super atalhadora, nada de preguiçosos acomodados!

O que eu não entendo é: qual o problema em desistir? Só se fala em desistir como algo muito distante, que a gente quase faz, mas somos fortes o suficiente para darmos a volta por cima e seguirmos em frente! Para mim, forte mesmo é quem tem coragem para desistir! Forte para dizer: "Não quero mais passar por isso, desisto." E isso não significa que depois você não pode tentar de novo, mas naquele momento é melhor desistir, qual o problema?

Acho que muitas vezes não desistimos para não termos que lidar com aquele sentimento de fracasso, mas por que desistir tem sempre que estar relacionado a fracasso? Acho que fracassado mesmo é quem fica batendo a cabeça na parede sabendo que aquela escolha não foi a melhor, mas não tem coragem de simplesmente largar tudo e começar de novo. Ou então só largar tudo e pronto, seguir outro caminho.

Digo isso pois eu mesma tenho muita dificuldade em desistir, e tendo a admirar mais quem desiste do que quem insiste em algo que todo mundo está vendo que não vai dar certo, pelo menos não agora. A vida é um eterno processo de aprendizagem, e eu aprendi com uma grande amiga que processo é poder voltar e literalmente fazer um novo caminho, ou seja, se permitir desistir de tudo e começar de novo. Depois que entendi isso, algumas escolhas ficaram tão mais leves que convido todos a, de vez em quando, se permitirem desistir, sem peso algum na consciência. É tão bom!


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domingo, 20 de julho de 2014

NÃO SE PISA NA LUA >> Eduardo Loureiro Jr.

Há quem diga que, há exatos 45 anos, o homem pisou na Lua. E há quem diga que não.

Quem sou eu para suspeitar da veracidade dos depoimentos de cientistas, jornalistas e políticos? Mas compartilho com os descrentes algumas dúvidas: se o homem chegou mesmo à Lua, por que não retornou? Por que a corrida armamentista, desenvolvimentista, mercantilista, não fez com a Lua o que faz com todo lugar onde chega? Por que não ocupou, colonizou, extraiu, desnaturou? Sem desconfiar de uns nem me fiar em outros, gosto de pensar que a Lua, a Senhora da Inspiração, permitiu a aproximação do Homem pensando que alguns dos tantos que lhe louvavam em versos estavam chegando. Quando percebeu que se tratavam de militares e não de poetas, que vinham não com penas e papéis, mas com bandeiras e coturnos, a Mulher de Fases decidiu fechar seu corpo. E não há tecnologia que a faça abrir por enquanto. Talvez quando os poetas ganharem asas e puderem pousar lá sem nenhuma parafernália. Talvez, apenas talvez.

E você, que diz que me diz?

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sábado, 19 de julho de 2014

QUANDO O SOL SE PÕE DENTRO DE UM CAFÉ
>> Cristiana Moura


Não havia mesa livre como de costume. Esqueci-me do desconforto da cadeira alta na simpatia larga do rapaz do outro lado do balcão. Tomava meu chá e observava os passantes do lado de fora do café. Alguns paravam para olhar o cardápio através do vidro.  Do lado de cá temos uma impressão divertida de que eles é que estão dentro de uma vitrine.

Sim, uma vitrine de manequins vivos. A luz do Sol adentrando o recinto através do vidro parece não lhes dar permissão para enxergar o lado de dentro. A moça para, olha talvez o cardápio e, por certo, a si mesma. Arruma o cabelo, passa batom. Ela percebe que está sendo observada e o jeito sem jeito da moça se faz diversão pro mundo do lado de cá. Leandro, o rapaz vendendo cafés e simpatia detrás do balcão, ri. Nasce uma descontração solta do tudo igual do trabalho no café.

Leandro conta que é sempre assim quando é antes do pôr do sol. A luz transforma o vidro em espelho e o pessoal se arruma, faz careta e, se percebe que estamos vendo daqui, é um desconcerto só. Vai contando e rindo um riso daqueles de canto de boca. Parece que os narcisos se afogando na vitrine do café contribuem para a simpatia do rapaz que já traz no olhar o cansaço da semana inteira de trabalho.

Eu tomo meu chá. Leandro guarda xícaras, copos e pires com destreza e intimidade, sem perceber que seus utensílios são instrumentos criando música para os chás e cafés de fim de tarde.

O Sol se pôs e fiquei aqui pensando o que será que, nesta vida, de tanta luz, me ofusca também.



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sexta-feira, 18 de julho de 2014

O CASACO - PARTE II >> Zoraya Cesar


Aline vestiu-se discretamente, como sempre. Vestido, meias, sapatos, tudo preto. Está parecendo um urubu, disse a mãe, gentil, como sempre. 

O casaco. Ela o admirou longamente, como era bonito, um amarelo tão vistoso, brilhante, extravagante, até agora não entendia como tivera coragem de comprá-lo. Assim que chegou à rua, vestiu-o. 

E, novamente, daquele momento até o final na noite, a Aline tímida de doer, explorada, amassada, inexpressiva passou a ser mera espectadora do que uma outra Aline fazia enquanto ocupava seu corpo. Aline-do-casaco-amarelo parecia muito à vontade com o mundo. Parou num bar, entornou um copo de vodca e depois pegou um táxi. Desceu no local da festa, um bar-restaurante badalado que a mídia propagava ser ideal para os modernos e antenados. 

O ambiente, lusco-fusco, estilo decadente-chic, estava lotado. Isso vai ser um saco, pensou. Nenhum de seus colegas a reconheceu. Aline viu Cristiana Rosely, que, bêbada, ainda era mais vulgar que sóbria. Viu também o chefe, e não entendeu o que a outra Aline achava de tão especial naquele mauricinho mal vestido com calça de tergal preta e camisa social branca. Coisa mais brega. Mas, enfim, gosto não se discute.

Aline se aproximou dele, insinuante, manemolente, olhos verdes derramados. E um casaco amarelo que traduzia disposição para sexo selvagem — pelo menos foi o que o chefe pensou quando aquela verdadeira Maeve o beijou na boca e o empurrou para o canto mais escuro daquele botequim de luxo duvidoso. (O que eles fizeram não posso contar, esse é um blog familiar.) Depois, simplesmente, Aline o largou lá, embasbacado, sem jamais associar aquela deusa à sua tímida e sensaborona funcionária.

Aline foi ao banheiro retocar a maquiagem, estava na hora de ir embora daquele antro de chatos. Já tinha feito um favorzinho à dona do corpo, agora ia tratar de se divertir. 

Nesse momento entra Cristiane Rosely, disposta a tirar satisfações com a mulherzinha de casaco amarelo escandaloso que ousara pegar seu homem, mas não deu nem para abrir a boca. Aline deu-lhe dois tapas fortes na cara, desconcertando-a, e imobilizou-a com uma chave de braço que a deixou sem fôlego, tal a dor. Ato contínuo, com uma destreza impressionante, abriu a bolsa de Cristiana Rosely, pegou o batom e pintou-lhe toda a cara, descabelou-a, tirou-lhe os sapatos e jogou-os, junto com a bolsa e todo seu conteúdo na privada. Ainda torcendo fortemente o braço da oponente, empurrou-a de volta para o meio do salão. Cristiane Rosely virou a piada da festa, a piada do ano, toda amarfanhada, descalça, pintada como um palhaço, choraminguenta e tonta. Ninguém ria mais que o chefe.

Aline seguiu pela noite, satisfeita por ter prestado mais um favor à outra. Entrou em bares e lugares que a pacata Aline sem casaco jamais suspeitara existir, mas percebia, de dentro de seu corpo, que a persona do casaco amarelo estava em seu habitat natural. Bebeu álcool suficiente para derrubar um cavalo, sem que isso a afetasse um mililitro sequer. Foi cumprimentada como velha conhecida por vários barmen e outros frequentadores, rivetheads, punks, metaleiros, nada lhe parecia estranho. Beijou homens de tatuagens enormes e assustadoras. Fumou do cigarro de travestis bem vestidos. Dançou em cima da mesa de bilhar, tirou a calcinha e rifou-a entre Hell’s Angels, e ninguém, ninguém mesmo, ousou fazer-lhe qualquer mal ou faltar-lhe com o respeito. Voltou para casa de carona com um homem esquisito que teria feito a Aline sem casaco sair correndo, numa Fat Boy Special em que a Aline sem casaco jamais teria coragem de subir. 

A noite acabara. Assim que chegou, a mãe lhe perguntou que vadiagem era aquela. Aline apertou o braço da velha e sussurrou em seu ouvido coisas que nunca saberemos ao certo o que eram. Mas sabemos de certo que a outra Aline nunca mais foi importunada ou explorada pela mãe ou pela irmã.

Tirou o casaco, guardou-o cuidadosamente e dormiu. 

Acordou achando que tudo fora um sonho vivíssimo e muito doido, mas apenas isso, um sonho. No entanto, não conseguiu encontrar a calcinha. Seu cabelo cheirava a cigarro. Sua boca estava intumescida. Dentro da bolsa havia uma faca Jim Bowie que ela nunca vira, e o celular tocava insistentemente. 

Será que dera seu número a um daqueles estranhos? Àquele tal de Jim Bowie? Não atendeu. Mas a pessoa deixou um recado:

Aline? Aqui é Lenora, dona da loja onde você comprou o casaco. Espero que esteja tudo bem com você. Precisamos conversar. Esse casaco tem estranhas propriedades, nem deveria ter sido exposto à venda. Venha me procurar. Pode ser caso de vida ou morte.

Aline não entendeu muito bem, mas não podia duvidar do que vivera. O casaco ou despertava nela uma personalidade selvagem ou permitia a incorporação de alguma entidade. Não fazia diferença, o que importava era que, toda vez que colocava o casaco não se pertencia mais, passava a ser espectadora de si mesma.

Ao passar pela sala, a mãe e a irmã abaixaram a cabeça — não a humilharam, não lhe pediram dinheiro, não nada. Apenas lhe deram bom dia, baixinho e respeitosamente.

Aline parou em frente à loja, agarrada ao casaco, indecisa, lembrando de todos os acontecimentos ferozes das últimas 24 horas e de todos os acontecimentos insossos dos seus últimos 24 anos de uma vida sem horizontes. 

Podia ser caso de vida ou morte. Devolveria o casaco?


(Maeve é uma deusa irlandesa, símbolo da sexualidade plena e impetuosa, da mulher que escolhia seus parceiros sem cair na promiscuidade.)

(Aline, na sua inocência, pensou que “Jim Bowie” era o nome do dono da faca. Na verdade, essa é uma típica e mítica marca de faca norte-americana, que traz o nome de seu mais famoso portador. Sabe Deus onde e como Aline arranjou isso àquela noite.)




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quarta-feira, 16 de julho de 2014

VIOLA DA GAMBA, LITERATURA E VIOLONCELO
>> Carla Dias >>

The Quintet © Otto Piltz

A pesquisa, com o fim de escrever um livro, é algo que faço somente quando definitivamente necessário. Depois que embarco nessa jornada, não há como fugir da pesquisa. É preciso saber se aquele dito popular, que você escutou, durante a infância toda, que decidiu incluir nessa história inventada, é originalmente como lhe disseram. Às vezes, uma palavra que os seus avós pronunciavam de um jeito, não era bem assim, mas você fixou, então tem de reciclar, colocar a palavra em ordem. Mesmo depois de descobrir o dicionário, às vezes me espanto com a lembrança de alguma palavra que aprendi na infância, e que, adulta, descubro que o seu sentido estava correto, mas não a sua grafia.

Obviamente, eu falo sobre uma época em que a informação não era amplamente disponível como hoje. De quando até mesmo o professor mandava a rua brilhar, em vez de ladrilhar; que vaiar Roma fazia muito mais sentido do que a ideia de ir até ela. Nos dias de hoje, a pesquisa ficou mais rápida, apesar de ainda exigir discernimento do pesquisador, para que não caia nas arapucas daqueles que oferecem informações incorretas. Como sempre, a fonte é tudo e mais um pouco.

Meus textos são, na sua maioria, sobre pessoas e suas percepções sobre a vida, e algum ponto de virada que deixa tudo às avessas. Não é por escolha, mas porque assim acontece quando escrevo um livro. Raramente, a pesquisa é mais necessária do que o mergulho interior. Porém, às vezes eu me atrevo a incluir informações no tal sobre o que não conheço muito bem, como ando fazendo no livro que venho tentando finalizar já há algumas semanas, que está mesmo no final, mas que ando protelando, porque dizer adeus aos personagens é sofrível. Mas chegarei lá.

No livro, a personagem principal é apaixonada por arte, principalmente música e literatura. Até aí, tudo bem, eu também sou. Mas essa figura, acostumada a viagens interiores que lhe despertam uma realidade alternativa, é uma pessoa que sabe aproveitar esse conhecimento de um jeito muito mais amplo. Ela tentou aprender a tocar um instrumento, estudou muitos deles, mas sem que surtisse efeito. Tentou cantar, mas desafinada que é, também desandou nessa tarefa. Até o momento em que descobriu que era, antes de tudo, uma ótima escutadora de música, e que assim vinha alimentando o espírito, desde criança, incutindo trilha sonora a sua existência.


O violoncelo é o instrumento musical que apresentou a essa personagem a paixão pela música. A a minha curiosidade sobre ele veio de um belíssimo filme francês, que eu assisti há muitos anos. Todas as manhãs do mundo (Tous les Matins du Monde/1991) conta a história de um talentoso músico que toca viola da gamba, um primo do violoncelo, e que ao voltar para casa, após uma viagem, descobre que sua esposa está morta. A partir daí, ele não sai mais de casa, dedicando-se somente à música e às suas filhas. A beleza de sua música se torna assunto em pauta, sendo convidado até mesmo para fazer parte da orquestra da corte de Luiz XIV, mas ele não aceita o convite. O filme é de uma delicadeza ímpar, um poema.

Pesquisando a viola da gamba, apaixonei-me pelo violoncelo, mas de jeito tímido, ainda que Jaques Morelenbaum já fosse dono da minha admiração. Essa querença ficou na minha alma, quietinha, até eu ter de escolher um instrumento pelo qual a personagem se apaixonasse e que não tivesse habilidade nenhuma de aprender a tocar, o que a levou a se tornar uma ouvinte atenta, coração e mente sempre abertos à música criada e executada com esse instrumento. Ao fazê-lo, conversei com uma amiga violoncelista, que me indicou quem eu deveria escutar. Em meio a essa pesquisa, conheci Adam Hurst, um músico e compositor que, como consta em sua biografia, no seu site, usa seu instrumento como uma voz melódica para criar apaixonada e emotiva poesia musical que fala à alma. Confere.

Só que não bastou essa paixão pelo violoncelo que, desde Adam Hurst, vem sendo a trilha sonora que me permite acessar emoções mais profundas. Eu tive de incluir na história um personagem dual, um violoncelista muito famoso, que se torna amigo e confidente dessa personagem, e que chega a acordá-la tocando, uma metáfora para um despertar muito menos agradável. Mas a música é somente um amparo para a personagem, não a sua história completa. É uma ferramenta para que ela acesse lembranças que escolheu mudar para ser capaz de aceitar determinadas situações.

Diverti-me pesquisando para esse livro, conhecendo músicos e instrumentos. Confesso que pouco entrou na história, mas muito invadiu a minha alma. E se fala diretamente à alma, quem sou eu para não escutar e aprender com o dito?



"Levanta-se e sai do quarto, abandonando-me ao silêncio no recinto e à algazarra das inquietações interiores. Entretanto, volta em seguida, o violoncelo como companhia. Senta-se na cadeira, a janela de fundo. Apruma-se, assumindo a intimidade com o instrumento, mostrando que entre eles há sintonia como raramente há entre as pessoas. Ordena-me, resoluto feito educador austero, que me deite, feche os olhos, permita-me levar. Para mim, nada nesse dia tem feito sentido ou me permito contradizê-lo. Sendo assim, acato a ordem dele e me deito, puxando o lençol até cobrir o nariz. Os olhos eu mantenho focalizados nesse homem que decidiu, sem a minha permissão, colocar seu plano em prática. Ele começa a tocar, a música deslumbrando os meus pensamentos. Então, compreendo que o plano dele, desde o início, era me aquietar a alma." Carla Dias, trecho do livro Aquela que chegou depois, em fase de conclusão.



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segunda-feira, 14 de julho de 2014

HASTA LA VISTA >> Albir José Inácio da Silva

Não comento a copa porque não sei nada de futebol. Mas fiquei à vontade depois de ouvir por uma semana os especialistas tentando explicar a derrocada da seleção. Quase concluí que sabem tanto quanto eu. A própria Alemanha campeã parece nos dar a resposta — investimento nas equipes de base.

Mas a copa acontece vinte e quatro horas por dia, durante um mês, e o futebol apenas algumas horas. E não ia ter copa, nem aeroporto, nem estádio, nem hotel, nem segurança. E ia ser um fiasco, uma risadaria, e os gringos iam ter certeza de nossa incompetência para fazer qualquer coisa que não seja samba e futebol.

E a única coisa que salvava o Brasil nesta copa do mundo era o futebol porque somos pentacampeões, nascemos jogando futebol, e está no nosso sangue, no suingue, na malemolência do drible e do toque de bola.

E os gringos jamais conseguiriam isso porque são muito duros, não têm jogo de cintura, não aprendem futebol na várzea e no paralelepípedo e jogam um futebol burocrático e retranqueiro, sem beleza e arte.

E vieram os gringos e jogaram futebol, muito futebol, e cada partida foi mais emocionante que a outra, e as previsões foram pro espaço. Espanha, Itália e Brasil foram humilhados. E Espanha e Itália estão muito felizes de ter para onde voltar. Porque o Brasil teve de ficar aqui e nada poderá fazer além chorar e crucificar Fred e Felipão, com riscos de recaída no complexo de vira-latas.

Manchete do jornal de hoje informa que faltam setecentos e poucos dias para as Olimpíadas. Amanhã devem começar a dizer que não vai ter Olimpíadas. Depois das eleições, pode ser que se calem por algum tempo, mas dois mil e dezesseis é de novo ano eleitoral e as pragas e maldições recomeçam.

Mas, tirando o futebol, aeroportos funcionaram, estádios estavam prontos, hotéis receberam, e o povo abraçou os convidados. A imprensa internacional chamou de copa das copas e os jogadores das outras seleções declararam amor ao Brasil e prometeram voltar. Alguns turistas disseram, inclusive, que não iam mais embora.

Eufóricos estavam os hermanos, que chegaram ao Rio por terra, mar e ar. Tinha-se a impressão de que brotavam do chão e se reduplicavam, cantando em grupos, carreatas e ocupando todos os espaços. Nuvens azuis e brancas se moviam pela areia, pelas calçadas, restaurantes e supermercados, em número que talvez não coubesse em Buenos Aires.

Mas eram bem-vindos por todos, que se esforçavam em portunhol, o mais próximo de português que se ouvia no calçadão. Acho que, se os argentinos ganhassem da Alemanha, conquistariam sua segunda copa no Brasil. Porque da CopaCABANA já tinham tomado posse há um mês.

Os brasileiros gostaram da copa e dos estrangeiros. E vão gostar das olimpíadas. Alguns mais assombrados e bairristas, paranoicos em seu senso de propriedade e soberania, juram ter ouvido de alguns hermanos: — Bienvenidos,  brasileños!

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domingo, 13 de julho de 2014

A SOMBRA DA ASSOMBRAÇÃO >> Whisner Fraga

Nem sei se avisavam sobre a classificação indicativa, mas no início dos anos oitenta, eu e meu pai chegamos à conclusão de que eu não deveria ter visto o Fantástico daquele domingo. Não tínhamos o hábito de assistir aos comerciais, de modo que nos sentamos para ver o programa sem a mínima ideia do que inventariam para nos divertir. A certa altura entra a voz obscura de Cid Moreira para narrar a história de um fantasma que assombrava uma loja de brinquedos, nos Estados Unidos.

O dito-cujo, morto há sabe-se lá quantas décadas, deu de aparecer em fotos infantis, tiradas em uma loja de brinquedos. Entrou uma parapsicóloga para dar um tom científico ao acontecimento e eu comecei a ficar cabreiro. Cid inventa uma entonação um pouco mais macabra e a minha noite começa a degringolar. Dali a pouco eu já não aguento e choro. Meu pai olha para um lado e para outro e parece que o interesse dele pelo assunto é grande o bastante para que ele não mude de canal.

Sei que meus irmãos e minha mãe não estavam em casa, o que era um pouco estranho, já que o único que dirigia era meu pai, isto é: para onde eles iriam a pé, os quatro? Mas vou dar um crédito à minha memória e apostar que foi isso mesmo que ocorreu. O pior é que não entendo por que não fechei os olhos, por que não tampei os ouvidos e tentei esquecer o assunto. Acho que a curiosidade infantil falou mais alto e fui que fui.

Dificilmente conseguiria dormir se continuasse naquela toada e meu pai sacou. O prejuízo seria dele, evidente. Assim, intervalo no show da vida e ele me chamou para irmos à sorveteria, o que significava, evidentemente, uma breve volta pelo centro da cidade. Em casa, tentei esbarrar com algo de chocolate no meio do creme gelado, mas tudo que enxergava me parecia com a assombração na foto da loja de brinquedos.

Apelei para o diálogo: Pai, é verdade que fantasma existe? Ele desconversou, com sólidos argumentos: que bobagem, meu filho, é só um programa de televisão! Sei que com uma explicação dessas eu deveria me acalmar, mas o efeito foi o contrário. Engraçado como alguns traumas se mantêm nítidos em nossa memória, pois me recordo dessa conversa como se tivesse acontecido hoje.

Então, me peguei a pensar sobre a imagem desfocada da foto na loja de brinquedos, sobre o porquê de nenhuma aparição surgir claramente para nós, digamos assim, ao meio-dia para um papo cara a cara. Seria tão mais fácil se um espírito se mostrasse plenamente, sem borrões, sem manchas, sem subterfúgios, com a nitidez necessária para uma prova definitiva. Assim, comecei a desconfiar do fato, do Cid Moreira, do fotógrafo americano, dos programas de televisão e da parapsicóloga. Decidi que estavam todos chutando e que tinham dúvidas tão atrozes e profundas quanto as minhas a respeito do que não podiam provar. Munido desse raciocínio, consegui dormir tranquilamente naquela noite.

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sábado, 12 de julho de 2014

O CARA >> Sergio Geia

Taubaté. Praça Santa Teresinha. Terça-feira. Sete e meia da manhã. Céu cinza. Ele caminha em volta da praça falando ao celular. Eu atrás. No mesmo ritmo.
 
“Não! Não é assim! Nós precisamos fazer uma reunião. Pra já! Mas se prepara, mermão! Se prepara! Ele é esperto. E te passa o rodo. Não, Carlos, eu já disse isso pra ti uma vez. Cê precisa conversar com a Celinha e com o Paulo antes. Expor os parâmetros do projeto, mostrar as referências. Assim eles já vêm pra reunião na nossa, sabendo da coisa toda. Isso...”.

Eu não entendo alguém que se dispõe a cair da cama cedo, botar um abrigo roxo, fazer uma caminhada matinal e ao mesmo tempo trabalhar.

“Você viu como vendeu? Eu não falei? Eu sabia desde o início. Sabia. Os caras não têm visão. Tava na cara que o negócio ia bombar. Cê viu? Eles queriam entrar no mercado timidamente. Esse é o problema. Eles pensam pequeno. Tomam atitudes muito conservadoras. Aí a empresa não sai do lugar. A gente precisa de arrojo. Eu cheguei pro chefe e falei: ‘Não, Fernando, de jeito nenhum! A gente vai entrar com tudo. Aumenta a produção! Vai por mim! Tem mercado. Tem mercado’. Ele foi. Confiou em mim. E você viu no que deu...”

Já eram três voltas, setecentos e cinquenta metros cada uma, pouco mais de dois quilômetros, aproximadamente dezoito minutos, e o cara com o telefone no ouvido.

“Eu tô com umas ideias, mas não posso falar ainda. Olha: promete. O negócio é bacana. Biscoito fino. Coisa de futuro. A gente precisa disso. Olhar pra frente, entende? Eu sei que o pessoalzinho lá não vai gostar, vai achar que é loucura. Mas o Fernando deixa comigo. Ele tem visão. Se fosse se ancorar naqueles manés a empresa dele já tinha ido pro buraco”.

Eu até pensei em dar uma forçada no ritmo e deixar o panguá pra trás. Mas aquele papo todo tava ficando hilário. O cara era uma metralhadora giratória. Ô homem pra falar! 

“A Carol. Sim, a Carol! Tô falando. Tá na minha, mermão. Por que eu inventaria? Sim, parece que tem... Se o cara é babaca eu não posso fazer nada. Não, não, não foi a primeira vez. Deixa de ser mané, Carlos! Sim, ela tem jeitão de modelo. É meio siliconada. Cê já pegou uma siliconada? É meio esquisito. A temperatura é diferente. E daí? Elas gostam. Tem que tratar bem. Quem? A Suzana? Cê tá brincando? Porra, mermão, e aí? Nada? Ah, cê tá marcando...”    

Pensei: esse é o cara. Sabe tudo, o anjão! Uma sumidade. Taí a pessoa que tava faltando pro mundo ser melhor. Será que ele não gostaria de governar o Brasil? A gente tá tão sem opção... O Joaquim tá aposentando. Uma boquinha no Supremo não seria de todo mau... Eu já tava até pensando num jeito de contratá-lo, aproveitar de seu elevado conhecimento pra fazer chegar meu livro na Capital.

“Mermão, tenho que desligar. Não, não... Sabe onde estou? Em Sampa. No Ibirapuera. Sim, no Parque do Ibirapuera. Ah, uma caminhadinha, aproveitando a manhã de sol!”.

Olhei assustado pro céu: cinza. Pra fachada do Santuário. Pro cruzamento da JK com a Pena Ramos. Pra mim. Pra ele. Calma. Está tudo bem, pensei. Ou quase tudo.


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sexta-feira, 11 de julho de 2014

BRIGANDO COM O ESPAÇO >> Paulo Meireles Barguil

— Eu estou perdido? — indaga, para si mesmo, o passeante na Floresta Amazônica, que resolveu explorar, sem o auxílio de mateiro, os encantos desse templo natural.

— Eu estou perdido! — grita, desesperado, o aventureiro que brincou de deslizar nas areias dos Lençóis Maranhenses, sem se preocupar com o destino.

— Eu estou... perdido — constata, atônito, o turista em Veneza, apesar de ter seguido fielmente o mapa, estratégia que se revelou insuficiente para aquela catedral cultural.

Brincando com o espaço, por vezes, não percebemos o quanto ele é dinâmico, pois o tempo, seu fiel companheiro, nele atua silenciosamente, embora, às vezes, nem tanto...

Um dia, acordamos — ou então, numa noite, não conseguimos dormir — e somos sugados, numa velocidade superior à da luz, para o centro do nada, numa viagem que parece não ter fim...

E, então, constatamos que o nosso espaço não é tão nosso quanto acreditávamos.

O mais difícil é quando, devido à inexperiência, tentamos resistir e nos agarramos em paredes invisíveis, tornando a jornada ainda mais sinistra e dolorosa.

Só depois de várias consultas a oráculos, rezadeiras, astrólogos, guias espirituais e psicólogos é que podemos começar a desvendar os mistérios dessa epopeia singular.

A conquista do espaço, cantada pelos Engenheiros do Hawaii, é sempre em frente, embora essa mude, freneticamente, de lugar.

Sigo tentando decifrar o motivo de demorarmos tanto a viver, com todo o corpo, o que é entendido primeiro apenas com a mente.

Confesso: ainda tenho essa mania!

A desculpa de eu ser professor e querer partilhar o que imagino que aprendi é aceitável?

Cresce, tal como o desabrochar de uma flor, a minha desconfiança de que a razão, em muitas ocasiões, mais atrapalha do que ajuda, pois não consegue identificar e sair das armadilhas feitas por ela mesma...

Quero entoar, com todo o meu ser, a Canção da Estrada Aberta, de Walt Whitman:

"A partir desse momento, liberdade!
A partir desse momento eu me imponho vários limites e linhas imaginárias
Indo aonde quero, meu próprio mestre, total e absoluto
Ouvindo os outros e considerando o que eles dizem
Parando, procurando, recebendo, contemplando,
Suavemente, mas determinado, libertando-me das amarras que poderiam me deter

Eu inalo grandes quantidades de espaço
O leste e o oeste são meus, o norte e o sul me pertencem

Eu sou maior e melhor do que eu pensei
Eu não sabia que era detentor de tanta bondade

Tudo parece bonito pra mim
Eu posso repetir pra homens e mulheres: vocês fizeram tanto por mim, eu faria o mesmo por vocês

Eu me restabelecerei pra mim e pra vocês quando eu partir
Eu me espalharei entre homens e mulheres quando eu partir
Eu lançarei felicidade e dureza entre eles
Quem quer que me desminta não deverá me atrapalhar
Quem quer que me aceite, ele ou ela deverá ser abençoado, e deverá me abençoar."

A máxima "O Homem e a conquista dos espaços" — internos e externos — sintetiza o meu mergulho, refém e liberto do tempo e do espaço...

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quinta-feira, 10 de julho de 2014

ATITUDE – RECLAMAÇÃO = FELICIDADE
>> Mariana Scherma

Sempre olhei torto para as pessoas que, pra puxar uma conversa, decidem que vão reclamar de qualquer coisa. É bem curiosa a cabeça de alguém que pode citar 3089 fatos fofos (dos melhores memes da Copa à mágica que é dormir nos dias mais frescos, passando pelo céu iluminado do dia), mas prefere reclamar de qualquer coisa: da dor de cabeça, do salário, da fome, do excesso de peso... Ih, lista sem fim!

Eu acredito cegamente no poder das primeiras frases com um desconhecido. São elas as responsáveis por uma possível amizade ou por aquela sensação de ai-que-sujeito-chato, uma antipatia quase eterna até que se prove o contrário. O mais curioso é que você tem a opção de ser simpático, falar oi, dar um sorrisão, mas decide engatar uma reclamação nada a ver. Ainda com o gostinho da Copa apesar dos pesares, é mais ou menos como chegar como a seleção da Inglaterra, reclamando da “selva que é o Brasil” quando você poderia chegar como a seleção alemã e até gravar um clipe ao som de Tieta com os melhores momentos no nosso país.

A gente só é feliz quando consegue apreciar e dar valor aos pequenos momentos alegres. Exemplo: você tem um dia péssimo com trânsito, chuva, ligações de telemarketing, seu time perde de sete gols, enfim, perrengues que fazem parte da vida de todo mundo, vai. Mas almoça a refeição mais saborosa do mundo, toma uma cervejinha loucamente gelada no happy hour (aliás, é impressionante o número de gente que usa o happy hour pra falar das suas misérias)... E aí? Continua reclamando das chatices ou se rende à delícia de um momento de prazer. No final do dia, nosso quociente de felicidade é decidido por nós mesmos. A gente é que dá o peso certo (ou errado) aos acontecimentos do dia e vai engordando a memória das alegrias.

Minha conta funciona assim: eu acordo com o copo quase cheio de alegria, tipo uns 3/4 mesmo. Tudo o que vai acontecendo de bom, eu acrescento ao copo. E quando eu falo tudo, é tudo mesmo, das frases bem escritas de um livro ao gato da vizinha se enroscando nas minhas pernas antes de eu ir para o trabalho. Às vezes, preciso tirar umas gotas por uma ou outra chatice, ok, acontece. Mas tomo todo o cuidado do mundo de não deixar o copo esvaziar demais.

Talvez falte um pouco (muito?) de equilíbrio às pessoas pra fazer sua própria equação de felicidade. Por isso, tanta reclamação pessoalmente, nas redes sociais ou no jeito de olhar mesmo. E reclamações provocadas por mais reclamações, um ciclo vicioso chatíssimo. Não acho normal. É por essa falta de atitude e excesso de preguiça que muita gente coloca a própria felicidade na mão dos outros: do namorado, da esposa, do time, dos amigos. É por isso que eu adoro tanto esses versos de You Can't Always Get What You Want, dos Rolling Stones: "You can't always get what you want / But if you try sometimes, yeah / You just might find you get what you need" ("Você nem sempre pode conseguir o que quer / Mas se você tentar de vez em quando / Pode acabar encontrando tudo de que precisa")!

Encontrar e dar valor às coisas de que você precisa não parece ser uma tarefa tão impossível, vai...

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quarta-feira, 9 de julho de 2014

ALGUMAS PALAVRAS DE QUEM
NÃO ENTENDE DE FUTEBOL
>> Carla Dias >>

Eu nunca acompanhei futebol. Não sou torcedora de time que seja, e meus sobrinhos adoram dizer que, já que não tenho time, sou do time deles em dia de jogo. Sendo assim, já fui torcedora, sem querer ou saber, de alguns times. Em todas as Copas que cabem na minha biografia, acho que assisti a dois jogos do Brasil, e nem me lembro em quais anos.

Se há algo que eu sei, é que muitos brasileiros adoram futebol. Eu nunca entendi o esporte, ou tive paciência de assistir a jogos o suficiente para ter uma ideia do que se trata esse objeto de apaixonamento coletivo. Quando saiu a notícia de que a Copa seria no Brasil, não houve como fugir do assunto. Entraram outros temas no pacote, muitos brasileiros se inspiraram para bendizer e maldizer o esporte e o país.

Não houve como fugir do tema. Não era somente um jogo, em um dia da semana, que oferecia a opção de se mudar de canal na televisão e aproveitar um bom filme. Era um debate, uma comoção, uma enxurrada de informações.

Que fique claro que nunca fui contra futebol. A mesma paixão que muitos dedicam ao esporte, eu dedico à música e à literatura. Eu entendo a paixão e que cada um de nós tem direito a ter a sua.

Em 2014, escutei o que as pessoas tinham a dizer a favor e contra a realização da Copa no Brasil. Presenciei pessoas se valerem tanto da delicadeza quanto da intolerância para expor suas opiniões a respeito. Confesso que comecei a ficar irritada, porque, de repente, havia brasileiros desejando, ardentemente, que os brasileiros se danassem, que desse tudo errado, que até tragédias homéricas acontecessem e um monte de brasileirinhos fosse para o inferno, tudo para que os políticos vissem a porcaria de trabalho que andam fazendo.

Na minha compreensão, desejar que pessoas morram para provar que se está certo não é legal. Desejar que as pessoas morram não é nada legal. Praticar o vandalismo, quebrando bens públicos e saqueando, ofender as pessoas ostensivamente por elas terem opinião avessa a sua, nada legal, e certamente ilegal.

Em 2014, a minha curiosidade pelo futebol aumentou. Fiquei mesmo a fim de entender porque as pessoas sofrem durante um jogo, ao mesmo tempo em que, a cada gol, elas entram em êxtase.

Durante a Copa, assisti a quase todos os jogos e não somente aos do Brasil. Depois do terceiro, nem era mais por curiosidade, mas por abismamento: como diabo esses jogadores conseguem fazer o que fazem com uma bola? E por deslumbramento, que cada time tinha a sua própria coreografia, o que torna impossível um jogo ser parecido com o outro. Dei-me conta, também, de que usamos termos do futebol ao nos comunicarmos no diariamente. De um jeito meio torto, as expressões que costumo usar começaram a fazer sentido.

O que aconteceu ontem deixou o brasileiro de coração partido. Mas se trata de um jogo, é esporte, e fico perplexa ao ver como alguns querem que isso se torne o fim do mundo, ou do Brasil. Sentir-se envergonhado pela goleada, até aí, tudo bem. Eu fiquei muito triste, e sou somente uma pessoa que começou a compreender o que é bacana no futebol. Imagino para quem é um apaixonado pelo esporte. Mas em nome de uma derrota, meus caros, não cometam barbaridades. Não é nada esportivo, tampouco justo.

Ainda não tenho time preferido, e acho que assim continuarei. Quanto ao do Brasil, vou sempre torcer por ele em Copa, esperando que os ajustes, que os especialistas alegam serem necessários para um jogo bonito — pois é, também dei de assistir aos programas sobre o esporte —, sejam feitos, e que assim os torcedores possam festejá-lo, independente de uma vitória.

De qualquer forma, a Copa continua. O Brasil ainda tem jogo para jogar, e espero que os jogadores dancem bonito no campo. E na paz, meus caros, que a vida necessita dela para praticar a sua justiça. Aliás, tenho certeza de que as crianças que acompanharam o jogo de ontem ficarão bem.


carladias.com

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terça-feira, 8 de julho de 2014

E VIVA A MÚSICA! >> Clara Braga

Ai, já estou com aquele sentimento de nostalgia no peito! Mas não, não estou falando da copa que está acabando, estou falando do programa SuperStar que acabou esse domingo. Que programa maravilhoso! Sim, eu sei que foi um programa um tanto criticado, parece que não fez muito sucesso. E admito que, como muitas coisas na vida, tinha seus altos e baixos, mas tenho que dizer, as bandas que estavam participando davam um banho! Algumas, inclusive, eram muito melhores que os próprios jurados! Cada domingo que passava eu tinha mais e mais vontade de poder assistir a esse showzão ao vivo!

E quer saber? Se deu ou não ibope pra Globo, se fez ou não fez sucesso, se os jurados faziam ou não comentários relevantes, pouco me importa! O que eu sei é que dá gosto de ver a boa música que o Brasil faz e, principalmente, a diversidade musical/cultural que existe por aqui. Foi muito bom ver as bandas do programa crescendo a cada semana, se reinventando, mostrando todo o amor que tinham em estarem lutando pelo sonho de viverem da sua música! E que música! E o mais importante, com muito respeito uns pelos outros.

Sinceramente, parabenizo a Globo pelo programa. !uando querem investir na cultura e incentivar a música, seja com programas copiados de emissoras internacionais ou criados aqui, sempre acertam em cheio. Deviam investir cada vez mais nisso e cada vez menos em apresentadores e jornalistas que fazem essa campanha péssima idolatrando um jogador de futebol, que aparecem para chamar de ato criminoso o que fizeram com o tal "herói" brasileiro, batem cada vez mais na tecla da revolta da população em relação ao ato e acabam por incentivar, mesmo que de forma indireta, essas atitudes ridículas de ameaças inaceitáveis que a nossa população, patriota até o fim da copa, está fazendo contra o jogador do time oposto e sua família, que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com isso.

Passou da hora da mídia e da população facilmente influenciável entender que futebol, assim como uma banda que compõe um grande sucesso, é um jogo de equipe, é um time que tem que tocar no mesmo ritmo. Temos que parar com essa mania de escolhermos uma pessoa para ser o herói e colocarmos todas as nossas expectativas em cima dessa pessoa. Na música, quando um sai do compasso, até existe a opção da carreira solo, mas no futebol não. E, como podemos ver, não há coluna que aguente a pressão de carregar um país inteiro nas costas.

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domingo, 6 de julho de 2014

O PRIMEIRO ENCONTRO >> Eduardo Loureiro Jr.

Diariamente, encontramos pessoas pela primeira vez.

Quando Paulo encontrou João, eles tinham 15 e 16 anos, respectivamente. João estava se apresentando na quermesse da Igreja de São Pedro com a sua banda Os Pedreiros. Um amigo em comum apresentou os dois. Paulo mostrou a João como se fazia a afinação de um violão em Sol, à moda de um banjo. Os dois ficaram intrigados com o talento um do outro. Duas semanas depois, Paulo aceitou o convite para integrar a banda de João. Três anos depois daquele primeiro encontro, a banda de João (John) e Paulo (Paul) passou a se chamar Besouros Prateados e, logo depois, apenas Beatles, um neologismo que juntou Besouro com Batida (ritmo). Mais dois anos se passaram e eles começaram a compor música juntos por um período de sete anos: 180 canções, dizem uns; 192 canções, dizem outros. Canções que embalaram muitos primeiros encontros, vários encontros duradouros e alguns encontros eternos. Tudo porque John e Paul se encontraram pela primeira vez no dia 6 de julho de 1957, no final da tarde de um sábado, em Liverpool, Inglaterra.

E você? Quem você encontrou ou encontrará hoje pela primeira vez?

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sábado, 5 de julho de 2014

UM SORRISO NUMA BOLHA DE SABÃO
<< Cristiana Moura


E era tanta a alegria num rosto só! Gabriela, num sorriso que não cabia em seu tamanho pequeno de menina com dois anos incompletos, brincava com a leveza efêmera das bolhas de sabão. Dera eu saber lidar assim com o que simplesmente se desmancha na minha frente. Dera eu.

Vez por outra acordo na madrugada. Insônia quando a gente não briga com ela é assim: um emaranhado de palavras, imagens, desejos como os de Gabi, voando em bolhas de sabão.

A menina cresceu e, no corpo de moça, às alegrias se juntaram seus delírios sãos. Queria adentrar os céus carregada pelas bolhas da infância até adormecer dependurada no sorriso da lua que mal começara a crescer. Deveria também ter sonhos de raízes adentrando na terra. Não. Ela se negava a manter os pés fincados ao chão — só queria o ar.

Houve um dia em que acordou muito depois do Sol. Perdera a hora. Já não era tão menina. Já não era tão moça. Olhou no espelho e lhe faltavam os sorrisos. E foi assim dia após dia. Era uma tal timidez nos lábios, como se alegria fosse que nem chave que a gente esquece pelos cantos. Gabriela havia deixado um pedaço de sorriso em cada encontro fugaz. Esvaziou-se de si. Deixou-se em infância e juventude remotas.

Era dia de quinta-feira, um dos mais atribulados. Acordou. Escovou os dentes. Sentiu, na pele, o Sol recém-nascido como há tempos não fazia. Tomou banho. Comeu suas frutas e cereais. Saiu como em todos os dias. No trânsito caótico, o senhor no carro de trás buzinava freneticamente como se quisesse que ela ultrapassasse o sinal vermelho e ele pudesse fazê-lo também. Ela freava indiferente. O jovem adentrou a faixa de pedestres como quem chega na própria casa. Passos lentos e longos. Era tanta a intimidade e um bem-estar à vontade que os olhos de Gabriela arregalaram-se. Ela, naquele momento, não sabia fazer uma coisa só: dirigia, ouvia o som das buzinas, preenchia o pensamento, simultaneamente, com a lista dos afazeres e a dos dissabores. Freou. Tudo parou. Nas mãos do homem-clown, com seus gestos leves e sua bola de cristal , o destino de Gabi era um sorriso não planejado no sinal fechado. E este sorriso lhe tomou o corpo numa alegria leve que lhe acompanhou por todo o dia.

A arte tem dessas coisas — adentra a vida da gente e oferece outros itinerários ao cotidiano. Ouvi dizer que Gabriela, agora, quer costurar os pedaços do dia a dia com linhas de névoa e assoprar. Assoprar até virar uma bolha leve.


Leia também UMA TRISTEZA, UMA ALEGRIA E A MARESIA
http://www.cronicadodia.com.br/2014/12/uma-alegria-uma-tristeza-e-maresia.html

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sexta-feira, 4 de julho de 2014

O CASACO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Aline era tímida. Tímida de doer na alma — dela, naturalmente, porque o resto da humanidade que a cercava se aproveitava para explorá-la o quanto podia. Se havia uma palavra que Aline pronunciava uma vez na vida outra na morte era "não". 

Sua timidez era quase doentia. Cada vez que tinha de se aproximar do chefe — por quem era apaixonada — suas pernas tremiam, gaguejava, abaixava os olhos. Ver a face de Aline era um desafio, pois andava sempre de cabeça baixa e com o rosto coberto pelo cabelo. Seus olhos eram verdes, mas nunca ninguém reparara. 

Em casa, sustentava a mãe ranzinza que não perdia oportunidade de lhe dizer que era feia, magra, sem graça e que, ao contrário da irmã — que vivia na esbórnia —, jamais arranjaria homem. Aline pensava que era melhor ficar sozinha a sair com os estrupícios que a irmã conhecia, mas cadê coragem para dizer isso, parar com a exploração que sofria em casa?

E se fosse só em casa! No trabalho, as colegas empurravam as tarefas mais desagradáveis para ela, que não tinha jeito de negar. Mas o pior, o pior mesmo, era ver Cristiana Rosely dando em cima, descaradamente, do chefe. Não que ele desse muita bola, mas homem tem a carne fraca, é o que dizem, e Cristiana Rosely era insistente e insinuante. Timidez não fazia parte de seu vocabulário, assim como muitas outras palavras, já que nunca pegara num livro. 

De forma que o destino de Aline já parecia traçado: eternamente explorada em casa e no trabalho, eternamente solteira, eternamente escondida dentro de si mesma. Os vermes iriam comer seus olhos verdes sem que eles tivessem sido vistos e apreciados.

Mas, sabemos todos, o Sr. Destino é deveras surpreendente. 

Aline se vestia como uma sombra, para não chamar atenção. Suas roupas eram sempre em tons pastéis e jamais usara algo mais forte que marrom. Por isso, nem mesmo ela acreditou quando sua atenção foi chamada por um casaco amarelo brilhante. 

Entrou na loja, que, aliás, nunca vira antes. Era pequena, atulhada de roupas estranhas, penduradas em araras e abarrotadas em cestas, um brechó esquisitinho, pensou. O ambiente era aconchegante, um leve cheiro de incenso pairava no ar, um som de água saía das caixas de som.

O casaco. Macio, elegante e... chamativo. Feito para mulheres muito seguras de si e com estilo próprio. Aline nunca tivera uma roupa daquela. Vestiu. Olhou-se no espelho. Não se reconheceu. 

No reflexo, uma mulher de oblíquos olhos verdes semicerrados numa expressão langorosa; a boca, sorrindo sardonicamente, como dizendo: cuidado, posso ser muito, muito perigosa. Aline se assustou. Tirou o casaco, mas não o devolveu de imediato. Ficou a alisá-lo, virando-o pelo avesso, abraçando-o. Ficaria ridícula, não tinha nada a ver com a personalidade dela. Mas era tão bonito, e havia aquela festa da empresa, numa dessas casas noturnas da moda, que, nem preciso dizer, mas direi mesmo assim, Aline jamais fora. 

Num assomo de coragem inédito em sua vida, resolveu comprar o casaco. Nem que fosse para usar em casa, escondida. Não havia vendedor na loja, o preço estava pendurado na peça e Aline estava com pressa, se não comprasse naquela hora, perderia o impulso. Ela resolveu passar o cartão e deixar o comprovante debaixo da máquina. Foi ao pagar que ela percebeu o aviso em cima do balcão:

Atenção. Espere a vendedora para auxiliá-la na sua compra. Essas roupas, como seus antigos donos, têm personalidade própria. Você pode gostar da roupa, mas ela pode não gostar de você. 

Aline achou o aviso meio antipático, como assim, estavam insinuando que as clientes não sabiam escolher roupa? E desde quando roupa tinha vontade própria? 

Comprou e foi embora, estranhamente feliz com sua audácia.

Chegou em casa e escondeu seu butim, não fosse a irmã querer usá-lo. Mas permaneceu em tal estado de excitação que não conseguiu dormir. Tarde da noite, trancada no quarto, vestiu o casaco de novo. 

Olhou-se no espelho. E novamente, para sua estupefação, viu outra mulher. Aquela não era ela. Decididamente, aquela mulher de cabelos atrás das orelhas, mostrando o rosto, olhos brilhantes e sensuais, boca irônica e quase má, as costas eretas, não era ela. 

Alguns pensamentos de vingança, retaliação e sexo vieram à sua mente, em palavras que ela, Aline jamais usara, algumas que nem conhecia.

Ela se assustou. Se essa mulher no espelho não sou eu, então, quem era? Lembrou-se do aviso da loja, mas descartou-o logo, bobagens. 

Tirou o casaco. No dia seguinte seria a grande festa.


[Continua no dia 18 de julho.]



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quinta-feira, 3 de julho de 2014

NÃO HÁ VAGAS >> Fernanda Pinho


Já vi gente dizendo sobre mim que sou uma pessoa com facilidade para fazer amigos. Para ser bem sincera, eu não acho. O que também dizem sobre mim, e isso sim procede, é que tenho sorte. Ocorre então que tive a sorte de, ao longo da vida, me aproximar de pessoas com sérias intenções de amizade sincera. E isso explica o considerável número de amigos de anos que trago comigo.

Ok. Também não preciso ser tão modesta assim. Alguma parcela de culpa eu tenho. Se a facilidade para fazer amigos não é dos meus maiores talentos, certamente mantê-los está entre as coisas que sei fazer bem. Zelo muito pelas minhas amizades. Procuro estar sempre presente — fisicamente ou não, sou honesta em minhas relações, não dou margem para mal-entendido, não meço esforços, não julgo, não minto, sou clara, tento ser compreensiva e estou sempre à disposição. Nem sempre é fácil. Eu, e todos os meus amigos, temos uma vida atribulada. Mas quem quer, dá um jeito. Acredito e pratico.

Entre meus melhores amigos, tem de tudo: gente que veio do colégio, gente que veio da faculdade, gente que veio por causa de livros, gente que veio por causa de blogs, gente que veio por causa de bandas, gente que veio através de outros amigos. E já faz algum tempo que não vem ninguém mais. É importante considerar o fato de eu não sair tanto quanto antigamente, não estar estudando e trabalhar em casa. Isso minimiza em 90% a possibilidade de conhecer gente nova. Mas o principal é que realmente não sinto vontade de fazer novos amigos. Ou melhor, não sinto essa necessidade. Estou muito satisfeita com os meus, mas não é só isso. É que é difícil.

Depois de uma certa idade (e nasceram mais 5 fios de cabelo branco só por eu ter escritos essas cinco palavrinhas) nos tornamos tão mais criteriosos. Não é como no começo dos anos 90 (quando fiz as primeiras amizades que ainda tenho hoje), cujo o único critério de aproximação foi o fato de termos caído na mesma sala. Agora, para uma pessoa entrar na minha vida ela precisa ter muita afinidade comigo, ter muito a acrescentar e, principalmente, ser muito tolerante com todas as minhas chatices e respeitar meu espaço. 

O que é uma pena. Tenho amigas que, definitivamente, têm estilos de vida e pensamentos superdiferentes dos meus. Se eu as conhecesse hoje, dificilmente seríamos amigas. Mas nossa amizade foi cunhada quando não éramos tão irritantes e irritáveis.  Foi plantada num terreno puro e livre de preconceitos. Por isso vingou.  E por isso eu sei que são pessoas com quem posso contar sempre, embora tão diferentes de mim.

Agora é mais complicado. As diferenças ocupam muito espaço e minha agenda já está cheia. Meu tempo é curto. Minha paciência está no limite. Desaprendi a pisar em ovos. Se, no entanto, a vida me surpreender e, apesar da minha resistência, colocar uma nova amizade no meu caminho, prometo fazer o que eu sei: mantê-la. Com o mesmo cuidado que mantenho meus bons e velhos.



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