segunda-feira, 30 de junho de 2014

O AMANTE >> Albir José Inácio da Silva

Só mesmo a culpa para explicar tamanho desassossego. Ainda faltavam alguns minutos e ele poderia se atrasar como todo mundo. Era um restaurante afastado, que ela mesma sugerira, e as chances de serem encontrados ali eram infinitamente pequenas. Não havia motivo para preocupações.

Por outro lado, eram injustificados os escrúpulos dela. Sabia das escapadelas do marido. Tudo apontava para anos de traições: ausências, desculpas, viagens, atrasos e madrugadas. Manchas no colarinho e perfumes alienígenas capazes de condenar um padre franciscano. Além disso, muitas das suas amigas tinham seus casos e ninguém morria por isso.

Esses pensamentos, entretanto, não conseguiam tranquilizá-la. Um suor gelado lhe escorria pelas costelas como dedos numa harpa. Não conseguia ficar quieta na cadeira.

O outro aparecera inesperadamente. Da primeira vez olhou. Da segunda, sorriu. Da terceira vez ele trouxe uma pétala amassada na mão e seguiram-se outras suavidades que a deslumbraram. Troca de telefones, longas conversas pelo celular e chegaram àquele encontro.

Acertava o batom já pela terceira vez quando ouviu seu nome numa voz rouca. Não precisou olhar, e não quis, para saber que era seu marido. Ouviu misturadas algumas frases: o que você tá fazendo aqui? Tá esperando quem? Então era verdade o que me contaram? O que você tem a dizer?

Ainda não tinha recuperado o fôlego, quando reconheceu o carro que parou junto à calçada. Um sádico diria que faltava a trilha sonora. Mas um cliente, do outro lado do salão, empurrou uma ficha numa Jukebox e Maysa atacou: “Meu mundo caiu...”.

Ante a ausência de respostas, o marido, com um cigarro nos dedos, procurou fósforos no bolso e depois dirigiu-se ao balcão. O outro chegou à mesa com um punhado de rosas no instante em que aquele retornava.

— Então é isso?! —acusou o marido.

—Quem é ele? — perguntou o amante.

Ela continuava catatônica e não conseguiu articular palavra. Também não ouvia mais. Viu que se apresentavam, que a acusavam, xingavam. Percebeu ameaças, punhos cerrados. Mas só escutava Maysa. Levantou cambaleante e saiu derrubando cadeiras. Um carro buzinou, mas teve de frear para que ela não fosse atropelada. Ficou do outro lado da rua com o braço levantado até que um táxi parou.

Só então marido e amante se sentaram na mesma mesa em que ela estivera.

— Puxa, como foi difícil! — suspirou o marido. — É que não havia outro jeito de me livrar dela.

—Difícil para mim, né? — corrigiu o outro — que tive de conquistá-la!

Mãos em cima e pernas embaixo da mesa se entrecruzaram, e os dois sorriram aliviados, satisfeitos e apaixonados.

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sábado, 28 de junho de 2014

PAU DE FERRO >> Sergio Geia

A informação está disponível no site da Prefeitura de Pau dos Ferros: “Até o começo do século XVII, a região do atual município de Pau dos Ferros não passava de uma vasta área ainda inexplorada. Naquela época, na então província do Rio Grande do Norte, na chamada zona oeste, uma trilha foi feita por vaqueiros e viajantes para terem acesso até a província do Ceará. Ao longo dessa trilha seguia um curso de água, que estava sempre cheio nos meses de janeiro a junho, época do inverno na região. Esse rio mais tarde ficou conhecido por Rio Apodi. Essa região ficava entre duas grandes serras, tornando assim fácil de fazer longas caminhadas e aproveitar as pastagens nessa grande planície. Às margens do Apodi, umas grandes árvores eram utilizadas pelos viajantes para alívio do calor e como ponto de atividade comercial, como vender e marcar gados”.

Localizada no interior do Estado do Rio Grande do Norte, na microrregião homônima e mesorregião do Oeste Potiguar, a 393 quilômetros de Natal, Pau dos Ferros é um pequeno município de aproximadamente 28 mil habitantes, e lá, entre esses 28 mil habitantes, vive a família de meu grande e estimado amigo Pau de Ferro.

Quando o conheci, estranhei. Também, com esse nome... Estava no “Nosso Bar”, nas imediações da Santa Teresinha. Tomava uma cachaça quando ele chegou. Assumpção, o dono do bar, e por coincidência meu avô, o encarou: “Vem um bocadinho aqui, Pau de Ferro, vem; deixa eu lhe apresentar meu neto”. Foi quando ele me explicou que o apelido era por causa de sua cidade natal, e não por outras razões. A partir daí, nos tornamos grandes amigos.

Pau de Ferro era pau pra toda obra. Se havia alguém que não recusava um trabalho, esse alguém era Pau de Ferro. E fosse o trabalho que fosse. Não era estudado, mas conseguira desenvolver certas habilidades que escapam ao conhecimento do fino homem das cidades. Pequenos serviços elétricos, hidráulicos, de construção. Fazia de tudo. E para serviço pesado, Pau de Ferro não podia faltar. Era comum vê-lo em mutirões pela vizinhança, subindo e descendo laje, com latas e latas de concreto nos ombros. O pagamento? Uma refeição simples, frutas, suco. E cachaça. Muita cachaça.

Esse era o seu ponto fraco. Sou daqueles que acredita que uma cachacinha só faz bem. Mas com moderação. Pau de Ferro bebia pra valer. Nos finais de semana, então, era fácil encontrá-lo cantando pelas ruelas, sem camisa, suando em bicas, bêbado que só vendo.

Pois nesta manhã recebi a triste notícia da morte de meu querido amigo Pau de Ferro. Dizem as bocas do bairro que ele enfartou. Que estava enchendo laje lá pras bandas do Marlene Miranda e sentiu-se mal. Chamaram o resgate, mas ele já chegou morto ao hospital. Quanto a outras informações, vigora ainda o desencontro. Ninguém sabe onde o corpo vai ser velado, horário do enterro, se avisaram a família. Pelo que sei, por aqui, não havia ninguém. A família era toda de lá, de Pau dos Ferros.

Como sou avesso a essas cerimônias fúnebres, optei pela oração, poderosa oração. Aqui mesmo, meu amigo, direto do meu computador. Receba esta oração em forma de crônica, descanse em paz e nada de bebidinha aí, hein?

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sexta-feira, 27 de junho de 2014

BRINCANDO COM O ESPAÇO >> Paulo Meireles Barguil

Sim, eu sei: não é possível falar de tempo sem falar de espaço. E vice-versa!

Perdoe-me as crônicas heréticas, nas quais viajei no tempo ignorando o espaço.

Não me julgue, também, insolente por discorrer, agora, sobre o espaço, deixando o tempo dormindo.

Fique em paz: não ousarei tentar explicar a Teoria da Relatividade de Einstein. Permita-me, contudo, dizer que, depois dela, o mundo ficou muito mais divertido.

O motivo: ela revelou que essas categorias não podem ser entendidas separadamente. A Ciência Moderna, baseada no fracionamento, na divisão do todo, no isolamento das partes, foi a nocaute, sem necessidade de contagem.

A vontade de controlar, ter todas as respostas, prever e determinar a vida revelou-se uma fantasia, por vezes, um pesadelo. Nascia uma Ciência sistêmica, holística, baseada na relação, no movimento, na transição, na transitoriedade e na impermanência!

É fácil perceber quão forte e caduco é o DNA da Ciência Moderna. Seus avanços nos fascinam, ao mesmo tempo em que explicitam limites, convidando a Humanidade a desenvolver outros olhares, sentires, pensares e agires.

A Seleção Natural, preconizada por Darwin, indica que a transformação é lenta, mas inexorável. Cada pessoa tem o poder de acelerar ou retardar esse processo.

Vivemos, portanto, numa realidade quadrimensional: as 3 dimensões espaciais – comprimento (ou profundidade), largura e altura – e a dimensão temporal.

A brincadeira no espaço – onde podemos navegar na altitude (em cima-embaixo), na longitude (leste-oeste) e na latitude (norte-sul) – oferece mais alternativas do que o divertimento no tempo – passado, presente e futuro.

Acrescente-se, ainda, o fato de que brincar no tempo é muito difícil: quando a gente pensa que está no presente, o passado já nos acalenta. E o futuro? Quase sempre está tão longe que não pode ser visto. Quando se aproxima, para nosso desespero, já foi lá para trás...

A cada geração, a Humanidade avança na descoberta dos mistérios da vida. Ela não se cansa desse folguedo, pois sabe que há sempre algo novo!

Brincar de esconde-esconde é legal, mas eu adoro o encontra-encontra...

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quinta-feira, 26 de junho de 2014

BUFADAS DESNECESSÁRIAS >> Mariana Scherma

Desperdiçar horas (ou seriam apenas minutos muito longos?) em fila não é meu passatempo preferido. Mas encaro porque a vida também é uma sala de espera. Às vezes, você só entra no supermercado pra comprar um chocolatinho — e nem as 15 pessoas na fila de cada caixa fazem com que desista da mordida doce pós-almoço. Eu, quando entro numa fila, tento abstrair total. Me perco no meu pensamento com gosto: organizo minha agenda mental, faço a lista de convidados pra minha festa de casamento com Leonardo Di Caprio, escolho o modelo do vestido pra deixar o Leo feliz (tomara que caia não me favorece, sabe?), coisas necessárias mesmo e que podem ser decididas nesses 20 minutos ou menos de espera.

Mas tem um problema: pessoas que chegam depois de você e bufam. Por que a pessoas bufam, meu senhor? Eu adoraria ter a cara de pau e virar pra elas e dizer “assoprar assim com força não vai fazer as pessoas passarem mais rápido, meu amigo”. Eu não tenho coragem de fazer isso, sou cara de pau, mas nem tanto. O problema é que eu tenho um minigrau de maldade. Quem não tem? E aí decido fazer a vida da pessoa um pouco mais irritante naqueles minutinhos de espera. Não pense que é injusto, o fulano bufou e mandou Leonardo Di Caprio pra longe do meu pensamento, provavelmente o mandou de volta pra alguma modelo da Victoria’s Secret. Moral da história: fulano merece sofrer um tico também, oras.

E então a fila comigo à frente vira um pouco mais infernal. Faço questão de pedir CPF na nota fiscal paulista. Pedir CPF é mais ou menos como dar a deixa para o de trás bufar mais forte. Bufar nível ventania mesmo. Aí, como a vida é divertida, a moça do caixa se perde nos números do CPF, falo outra vez e lá vem bufada! Eu rio internamente, só que faço cara de distraída, óbvio. Dependendo, ainda faço mais uma perguntinha pra moça do caixa. Tudo isso leva apenas um minutinho a mais, mas para o fulano bufador é uma vida. Uma vida longa e tediosa, com domingos destinados às videocassetadas do Faustão.

Talvez eu não chegue ao reino dos céus depois dessa maldade de toda fila. Tudo bem. Talvez fosse mais simpático eu virar pra trás e dizer que dois, cinco ou sei lá quantos minutos a menos na fila não devem salvar o bom humor dele. Bom humor precisa ser cultivado todo dia. E eu acredito fortemente que o bom humor pode ser carregado pra longe com bufadas nível tornado.

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quarta-feira, 25 de junho de 2014

ACHO POSSÍVEL.... >> Carla Dias >>


Será que sou eu?

Pode ser... Mau hábito, condicionamento, essas coisas. Não foi tevê que me fez assim, nem mesmo leitura de revistas de consultório médico. Não foram aqueles shows do Eli Correa que assisti, quando era criança. Sério... Assisti a Gretchen e os Tremendos no mesmo dia. Não me lembro de ter gostado dos shows, mas da diversão de estar lá naquele parque com minha irmã e primas, ah, dessa eu me lembro.

Habitualmente, as pessoas dizem que eu não sei sobre o que falo. Em muitos aspectos, eu não sei mesmo, porque não vivi as vidas das outras pessoas. Porém, há muito sobre o que sei, meus caros, do que fiquei sabendo logo cedo, por conta da experimentação e da educação que recebi daquelas pessoas que, por sorte, importavam-se comigo.

Garanto a vocês que não tem nada a ver com assistir novelas. Novelas fazem parte da minha vida desde pequenininha, que fui companheira noveleira de minha avó. Ou de ter escutado Waldick Soriano em algum momento da minha vida. Garanto, não tem nadica de nada a ver com o negócio.

Cheguei à conclusão de que tem a ver somente com o que realmente sei. Desde sempre, respeito o fato de que eu posso estar errada sobre algo, por não conhecer esse algo muito bem, ou esse alguém. Minha verdade não é absoluta, já disse aqui que sou avessa ao absolutismo.

Por isso, reforço o que penso, sem peso na consciência, e se alguém puder mudar o rumo dessa prosa — e há quem venha se dedicando a conseguir isso —, tudo certo. Só que, nesse momento, eu continuo a acreditar que precisamos celebrar o que é bom, mesmo com a quantidade de absurdezas que somos obrigados a engolir, diariamente. Porque não há somente criminosos no nosso bairro. Eu conheço um monte de gente boa no meu. E no seu, aposto que eles também são maioria. Nem todo canto é habitado por políticos corruptos, por celebridades mequetrefes, por traficantes donos de creche. A mania de resumir a nossa existência ao que nos afronta por pura canalhice ainda vai nos levar a acreditar na grande mentira de que o ser humano não tem mais jeito.

Olha que tem...

Com essa generalização, eu teria de descartar uma série de histórias de pessoas que conheci e fizeram muito bem ao mundo. Teria de deixar de celebrar a existência de quem realmente se dedica a colaborar com o outro, sem enfiar a mão no bolso dele ou ter um motivo de cunho pessoal para fazê-lo. Não estou dizendo que devemos nos contentar com o abuso social, político e financeiro, com o preconceito, com a imbecilidade. Não é para nos esquecermos do que precisa de conserto, mas para não lidarmos com ele como se, aproveitando o momento Copa do Mundo, entrássemos em campo sabendo que perdemos o jogo.

Admito que não gosto de ser chamada, nessa generalização, como integrante de certo grupo, qualquer que seja, de idiota. Idiotice é pensar que jamais cometeremos erros. Então, se você vota naquele político que entende nada de política, somente para desacreditar aquele outro, do partido que não lhe representa; se fala mal de projetos sociais e culturais, como se soubesse como eles funcionam e a quem eles beneficiam; se chama de burro aquele que não tem a mesma opinião que a sua; se acha que é tratado com desrespeito pelo mundo, enquanto estaciona em vagas para deficientes físicos, apesar de não ter qualquer deficiência física, ou leva para casa aqueles itens de escritório, que não são seus — mas ninguém vai usar mesmo! —, bom, sinto lhe dizer que, de uma maneira nada poética, o problema que você detecta e lhe assombra, que faz com que você saia distribuindo ofensas por aí e que tanto lhe aflige, talvez seja você mesmo.

Precisamos aceitar que há situações ruins, pessoas ruins, decisões ruins, assim como há situações que inspiram o ponto de virada necessário, pessoas que têm desprendimento para ajudar e respeito para aceitar a opinião do outro, decisões que podem causar resultados diferentes, mas ainda assim importantes.

Não é a televisão, é a educação, e não somente a formal. Vocês que são pais, que têm qualquer tipo de ligação com uma criança, também são educadores, que essas crianças se espelham em vocês, palavras e feitos. E se querem um mundo melhor, um país mais justo, pensem que essa justiça não é somente inerente ao que lhe afeta. O Brasil tem quase duzentos milhões de habitantes. Sua opinião deve ser respeitada, assim como a dos outros brasileiros.

Confesso que gostaria que as pessoas espalhassem matérias sobre projetos que deram e continuam a dar certo, assim como ações de indivíduos que beneficiam a muitos, com o mesmo ardor com que bradam o “não tem mais jeito”.

Já pensou nas mudanças possíveis se pensássemos nos problemas em busca de soluções em vez de o definirmos insolúvel?

Desculpe, mas não é por causa das novelas, da televisão, da leitura barata, da condição econômica, dos reality shows, do partido que não tenho, do time de futebol, do filme gringo, do gringo. É por mim mesma, minha cabeça e meu coração, como deveria ser por você mesmo, sua cabeça e seu coração. O que não tem jeito, meu caro, é enxergar uma realização positiva enquanto se usa a venda da intolerância.

Imagem © Mônica Côrtes


carladias.com

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segunda-feira, 23 de junho de 2014

O GRANDE INCÔMODO >> André Ferrer

Para que serve estudar isto? Quem nunca fez essa pergunta, nunca passou pela escola. Seja qual for a justificativa dos professores, a dúvida costuma sobreviver. De tempos em tempos, ela retorna e, invariavelmente, leva um grande número de egressos a pensar que a escola deveria oferecer respostas mais plausíveis para o mistério. Entre estes, muitos até carregam uma ideia negativa da escola. Tudo porque os professores não teriam conseguido diminuir essa grande impressão de vazio enquanto trabalhavam suas disciplinas. Outros, no entanto, percebem algo extraordinário. Pode ser, por exemplo, que um biólogo jamais volte àqueles capítulos mais penosos da Geometria, mas compreenda com profundidade e respeito que a observação do mundo microscópico dificilmente seria possível sem um ramo da Física chamado Óptica e, antes disso, a Geometria.

Determinadas perguntas são mais importantes como perguntas do que como perguntas sucedidas, obrigatoriamente, de respostas. Parece maluquice. Felizmente, contudo, existe uma disciplina capaz de suprir esse vazio experimentado pelos estudantes. Depois de um longo período no exílio, ela está de volta às grades escolares. Refiro-me à Filosofia.

Qualquer bom professor de Filosofia espera o momento em que um aluno queira saber o valor utilitário dos pré-socráticos ou dos pensadores alemães da segunda metade do século XIX. Ora, se a pergunta vier com uma pitada de desafio, então, nem se fala! Um bom professor de Filosofia sabe que o pensamento não é privilégio de um panteão de homens notáveis. Ele sabe que a rotina de aulas, quase sempre trilhada sobre uma linha de tempo — sim, o programa de História da Filosofia a ser cumprido segundo o calendário letivo —, uma hora ou outra, será brilhantemente interrompida pela manifestação da qualidade definidora do gênero humano: o pensamento. Então, o bom professor jamais deixará escapar essa oportunidade.

A ideia de que “filosofar” é um ato especial demais para alunos é tão nociva quanto aquela ideia que define Filosofia como uma atividade exclusivamente idealista. E o culpado disso é um pensador chamado Platão. Graças a ele, alguns professores creem cegamente no divórcio entre o mundo real (prático) e o mundo das ideias. Dá para imaginar o que esse grupo de professores responde quando um aluno pergunta sobre a utilidade da Filosofia?

Muito depois da época de Platão, na Alemanha, a crise do idealismo balançou a Filosofia.  Entre os críticos dessa tradição também houve uma bifurcação. Marx dobrou à esquerda. À direita, Schopenhauer e Nietzsche. Bem, de qualquer maneira, uma forte postura crítica se afirmou contra o pensamento dominante originado na Grécia Antiga. Por isso, os filósofos alemães do século XIX são tão importantes: o seu grande incômodo levou a perguntas e a uma crise, que levou a mais perguntas e reflexão.

O combustível da Filosofia é a dúvida. Para refletir sobre si e se colocar no mundo sensível, o homem conta com esse motor desde o primeiro pulsar da consciência. Então, até quando haverá perguntas a respeito da utilidade da Filosofia ou de qualquer outra disciplina? Enquanto existir o ser humano. Eu espero.

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domingo, 22 de junho de 2014

MÁQUINAS >> Eduardo Loureiro Jr.


Não sois máquinas! homens é que sois!
(Charles Chaplin)

Saber, sabor. Leitura, comida. É possível se empanturrar dos dois...

Reservei o dinheiro trocado, deixei o cadeado destravado e sentei no sofá para esperar o caminhão das frutas passar. Ele passa às segundas e às quintas à noite, em horário impreciso, numa velocidade tal que, se eu não estiver já à porta, ele passa reto e eu fico sem frutas para os próximos dias.

Como tenho dificuldade de esperar só por esperar, peguei um livro para ler: “O erro de Narciso”, de Louis Lavelle. Livro densamente poético e filosófico, no qual não consegui entrar imediatamente, ansioso que estava pelo som do caminhão das frutas. Resolvi então ler as passagens que haviam sido grifadas pela pessoa que me emprestou o livro. Cada trecho melhor que o outro. Feito esse:

“Quem tem consciência de ser eleito para cumprir uma tarefa sabe perfeitamente que sua vontade tem pouca serventia. O único papel da vontade é nos preparar para acolher essa eleição.” (p. 33)

A demora do caminhão das frutas me fez ler até o ponto de me sentir empanturrado de informação. Eu queria continuar lendo, me deliciando com palavras tão bem ditas, mas, ao mesmo tempo, não conseguia ler mais. Parei, fechei os olhos e me dei conta...

... de que fazia um bom tempo que eu não parava e fechava os olhos. Gosto de parar de vez em quando, durante o dia, mas a parada normalmente é aproveitada para uma leitura. O corpo até que para, os olhos não. Dei-me conta disso. E de outra coisa...

Que meus dias estão repletos de máquinas, essas maravilhas da tecnologia que substituem o meu trabalho, e o trabalho da natureza, pelo seu prático mecanismo. Acordo com um despertador, ou seja, com uma máquina. Pego água de uma máquina, o gelágua. Tiro comida de uma máquina, a geladeira. Passo a maior parte de meu dia em frente a uma máquina, o computador. Para me locomover, uso a máquina ônibus ou a máquina carro. Para me comunicar, uso o telefone celular, uma outra máquina. Se está calor, ou para espantar muriçocas, ligo uma máquina, o ventilador. Para fazer suco, uso a máquina liquidificador. Almoço muitas vezes em frente a uma máquina, o televisor. Dei-me conta disso tudo e a conta era alta. Eu estou ligado na tomada dessas e de outras tantas máquinas.

No silêncio de onde moro, silêncio que eu esperava ser quebrado pela máquina caminhão e pelas máquinas microfone, amplificador e caixa de som, procurei lembrar de momentos, no meu dia, em que eu não precisava de máquinas. No instante em que pensei isso, havia um ventilador apontando para mim. Mesmo assim, empreendi a busca por esses momentos desmaquinados...

Meu desjejum... Tudo bem que eu normalmente retiro o mamão da geladeira, mas às vezes também é a banana que está na fruteira. Depois aveia, linhaça, granola, mel. Um café da manhã com pouca ou nenhuma máquina.

O banho de mar... Não preciso ligar o sol nem o vento na tomada. O mar vai e vem num moto perpétuo. É entrar, mergulhar, boiar.

Fazer amor... Uma rede e uma namorada é o que basta. Não precisa de ar-condicionado ou ventilador, o suor é bem-vindo. A rede balança em resposta ao nosso movimento. Não precisa ligar o rádio: gemidos e sussurros são a melhor música.

Apenas três momentos. Momentos importantes e prazerosos, é verdade, mas apenas três momentos em meio a dezenas e dezenas de outros momentos movidos a máquinas. Será que isso é que torna esses três momentos importantes: a baixa dependência de máquinas? Será que a redução da utilização de máquinas pode tornar outros momentos mais significativos? Por outro lado, conseguiríamos ainda viver sem máquinas? Ou seremos salvos da dúvida pela ciborguização de nossa humanidade: máquinas implantadas em nosso corpo de forma a esquecermos que estamos usando máquinas?

Já me empanturrei de leitura, agora me empanturro de reflexões. Abro os olhos. Olho para o relógio, essa máquina que tenta fazer cada segundo parecer igual, um mero deslizar de um ponteiro. Lembro que o caminhão da fruta não passou. A essa hora, não passará mais.

Está se aproximando a hora de dormir. Inicio a rotina pré-sono. Hora de acionar máquinas: ventilador, despertador. Quando eu dormir, meu espírito deslizará deste corpo (seria ele mesmo uma máquina sutil?) e voará para lugares onde não há máquinas. Eu não costumo sonhar com máquinas. Sonho com água, sonho com asas, sonho com amores, sonho com amigos, sonho com música. E tenho a certeza, talvez vã, de que meus sonhos são desmaquinadamente reais.

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sábado, 21 de junho de 2014

ENTRANDO PELA COZINHA >> Cristiana Moura

Aromas, sabores, os sons dos talheres e das panelas misturados à prosa em alto volume das vozes femininas. A cozinha é parte tão viva da casa! Não sei se de todas. Por certo da casa da minha infância e adolescência, perseverando na casa dos meus pais hoje e na minha. A gente não come somente a comida. Come os afetos, os prazeres, os desejos. Quantas lembranças acordam o olfato com os cheiros daquele tempero de um certo prato que aquela pessoa preparava?

Peço, agora, que você imagine os alimentos de sua infância, seus cheiros, sabores, texturas e aromas, imagens e vozes das pessoas que os faziam. Feche os olhos! Sim, eu agora fecho os meus para dar vazão à memória. Feche, por favor, também os seus!

Salivei. As memórias da cozinha da mãe e das avós me despertam todos os sentidos. De um lado, pães de queijo, pamonhas, pudins e outras sobremesas do centro-oeste — a origem materna. De outro lado, caruru, vatapá, camarões e peixes no toque do dendê do nordeste africano e o tempero sem igual da mãe de meu pai. Isso tudo se misturando à riqueza de legumes e verduras do sudeste do país, onde habitávamos, e seus hábitos iam nos habitando. No alimento, a poética ancestral do cuidar entrelaçada aos sabores gastronômicos miscigenando minha família e o país.

Tive um professor cuja casa tem a entrada pela cozinha. Construiu assim, a cozinha na frente da casa. Ele diz que é porque as pessoas gostam é de ficar na cozinha. Que quando era criança ficava era todo mundo lá. Então construiu a casa entrando pela cozinha, esse lugar que congrega as pessoas e suas histórias — temperos e contos à beira do fogão.

Ao redor da mesa, vivi e vivo os maiores e melhores momentos de comunhão familiar. Também ao redor da mesa, alguns dessabores e conflitos. A riqueza da gastronomia familiar brasileira tecida em fios de cuidar é como rede em varanda que embala um cochilo sem pretensão. Das extravagâncias natalinas ao pão de cada dia. É belo esse lugar de onde vim por tão sagrado que é! É belo esse lugar de onde vim, por tão profano que é! Amém.

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sexta-feira, 20 de junho de 2014

O CORAL >> Zoraya Cesar

A vida de Pedro não era das mais fáceis ou alegres. Tímido, era alvo fácil para temperamentos despóticos. E temperamentos despóticos não faltavam em sua vida. 

Começando pela mulher, uma jararaca desleixada que lhe aplicara o falso golpe da barriga só para poder sair do subúrbio onde morava. A casa vivia imunda, as refeições se restringiam a arroz e feijão. E olhe lá. Pedro não podia falar nada que ela lhe gritava os maiores desaforos, bem alto, para constrangê-lo perante os vizinhos.  Quando estava de bom humor até que o tratava melhor, então Pedro ia ficando.

Despóticos também os havia no trabalho. A diretora, uma criatura ainda mais irascível que a esposa, não perdia oportunidade de humilhá-lo. Os colegas, para não ficarem mal com a chefe, ou o ignoravam ou abusavam de sua timidez. Mas o salário era bom, o emprego era público, então Pedro ia ficando.

Levava quase duas horas para ir ao trabalho e dele voltar. Almoçava e jantava todo dia o mesmo arroz com feijão, às vezes acompanhado de uma carne assada comprada no bar da esquina. O lar era frio. O trabalho, um sacrifício. Não tinha amigos. Não tinha perspectivas. 

Só tinha uma coisa que o salvava do tédio mortal. Era tocar e ensaiar no coral da igreja. Ele tocava bem o violão que acompanhava sua voz encorpada e profunda. Somente ali encontrava alegria, era seu único motivo de orgulho. Dedicava-se a esse mister com mais afinco e amor que a qualquer outra coisa na vida.

Por isso quase desmaiou quando lhe comunicaram que, doravante, a honorabilíssima mãezinha do não menos honorável presbítero o acompanharia nos vocais. A respeitável genitora estava deprimida, precisava ter uma atividade lúdica, segundo o psiquiatra. E o principal dirigente daquela comunidade religiosa tinha certeza de contar com a boa vontade de Pedro em ensaiar sua querida mãezinha. 

A tal mãezinha era insuportável. Rabugenta, ignorante e, pior que tudo, para horror de Pedro, mais desafinada que uma hiena. A dona daquele peito muxibento em que sequer batia um coração acreditava ter uma voz lindíssima, que só precisava ser educada, e para isso Pedro estava ali, para dar um jeito.

Mas jeito não havia. Além de obtusa, a velhota era musicalmente surda, não diferenciava um dobre de finados de um allegro, os instrumentos iam para um lado, a voz dela ia para outro. Era teimosa também, recusava-se terminantemente a seguir as instruções de Pedro, que começava a sentir um desespero doentio. Sempre que a estrofe da música chegava ao fim, a digníssima progenitora do não menos digno ministro cismava em estender as notas, num ahhhh lá lá laaaaaaaaaaá que mais parecia o canto do cisne esganado e refogado. Alguns componentes do coral começaram a inventar doenças e compromissos inadiáveis. Pedro passou a tomar calmantes. Via seu refúgio, sua razão de viver, desmoronar a cada gorjeio dado pela indefectível velha, que jamais faltava aos ensaios.

Chegou o dia da grande apresentação, no principal culto da semana, no qual a respeitabilíssima progenitora do não menos respeitável pastor acompanharia o violão de Pedro. Nosso desventurado protagonista suava frio, e não suava em vão. A velha, entusiasmada com a ocasião, desafinou mais que o normal, trinou como um sabiá estertorando, solfejou arquejante, gorgolejou, racharia cristais se lá os houvesse. Um desastre. Para a audiência, que a tudo ouvia com cara de quando-isso-vai-acabar-pelo-amor-de-Deus; para Pedro que, pensava, nunca mais seria chamado para cantar nem em enterro de surdos, que dirá ensaiar em um coral; um desastre para todos, menos para a nobilíssima mãezinha e para seu não menos nobre filho. 

O culto, finalmente, terminou, quase junto com o controle de Pedro. Mais um pouco e ele arrebentaria o violão na cabeça daquela desgraçada que, dia a dia, arruinava a única coisa lhe dava um sentido na vida
Pedro correu para os fundos da igreja, precisava se esconder, precisava sumir, precisava morrer. 

Mais tarde, naquela noite mesmo, alguns fieis ligaram para contar a grande tragédia que abalara os alicerces do templo: a vetustíssima mãe do bem menos vetusto ministro rolara da escada e morrera. Ninguém a viu cair, um acidente, disseram. Culpa da forte emoção misturada com os remédios contra depressão, garantiam. Pelo menos morrera feliz, lamentava o inconsolável filho.

Pedro desligou, sorriu, e perguntou à mulher pelo jantar. Ela, como sempre, respondeu-lhe atravessado. Como sempre, Pedro abaixou a cabeça e... Não. Dessa vez ele a empurrou para a cozinha e repetiu, ameaçador: "Quero o meu jantar". Ela serviu. No dia seguinte encarou a chefe abusada e enquadrou os colegas folgados.

Ele vencera a velhota dos infernos, a desafinada de belzebu, a desmancha-corais do Estige, a estraga-ensaios da peste. Ele venceria qualquer um. 

(Venceria qualquer um, menos, talvez, Felipe Espada, veterano investigador da polícia que achou muito estranho o corpo não ter marcas características de quem rolara escada abaixo, como se o corpo tivesse voado do alto dos degraus direto ao chão.  Muito, muito estranho mesmo.)


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quarta-feira, 18 de junho de 2014

E AQUELA DA NORAH JONES >> Carla Dias >>


Apresento-lhes ele, um tocador de trompete que circula pelos bares da cidade tocando jazz na terra do samba. Mas nem pensem o contrário: samba ele também toca, e muito bem. Não só toca, como dança, e muito bem. Não só dança, como compõe, e muito bem. Não só compõe, como canta, e muito bem.

É filho de puxador e costureira, letrista de primeira, já foi premiado pela Associação dos Apaixonados por Samba, merecendo o primeiro lugar na categoria Corações Partidos, devido ao refrão do samba-enredo, um causador de embriaguez emocional.

Apaixonou-se por porta-bandeira, até se casou com ela, compôs vinte e sete canções para ela, jurou-lhe amor “eterno enquanto dure”, mas a cada vez que ela pisava na avenida, harmonizando-se com o mestre-sala, ele se escondia em algum canto dos bastidores do carnaval e tocava Blue in Green, aquela de Miles Davis e Bill Evans. Então, os tamborins silenciavam. Sua cabeça era esvaziada dos pensamentos equivocados, o trompete se tornava a extensão de si mesmo.

BLUE IN GREEN - MILES DAVIS

Ele é um trompetista que se apresenta pelos bares da cidade tocando jazz, na terra do samba, do rock e do et cetera. Apaixonou-se pela pluralidade, e foi muito cedo. Sabe dela as delícias e os remendos. Vive bem em avenidas e à mercê de sambas-enredo. O tocador de trompete também é esmiuçador de comiserações. Com as emoções amplificadas, ele segue o seu caminho, filho que é de puxador e costureira de escola de samba, aprendeu a cantar o amor e a remendá-lo quando preciso.

Apaixonou-se pela porta-bandeira, daquela escola de samba que vem entoando sambas-enredo de sua autoria há anos. Casou-se com ela, que chega da avenida e se despe da fantasia, toma banho demorado e se serve de vinho. Que lhe beija a face, enquanto ele toca o trompete. Que se senta ao piano, e toca e canta aquela canção da Norah Jones.


COME AWAY WITH ME - NORAH JONES

Imagem © freeimages.com


*Come Away With Me é uma música de Norah Jones em parceria com Jesse Harris.




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terça-feira, 17 de junho de 2014

MAIS UMA OPINIÃO >> Clara Braga

Sabe qual é o real problema no final das contas? Pra mim, o problema é que nós somos muito bons de discurso e não muito bons de atitudes. Só que quem fala demais e faz pouco acaba tendo pouca coisa para contar sobre si mesmo, é ai que essas pessoas passam a cuidar da vida dos outros e falar das atitudes dos outros como se fossem os donos da razão.

Se vai ter copa ou não vai ter copa, sério que ainda estão discutindo isso? Na boa, está tendo copa e não está tendo copa ao mesmo tempo! Está tendo porque os jogos estão acontecendo, as pessoas estão torcendo, os gols estão sendo marcados e tudo mais que acontece em uma copa. Só que não está tendo porque se a ideia de ter copa no Brasil era esconder mais uma vez as besteiras políticas e deixar o povo feliz para votar sem lembrar de tudo de errado que aconteceu, não deu certo, desse ponto de vista, não está tendo copa! Ou seja, os dois lados têm argumentos e, se formos discutir sobre quem está certo e quem está errado, vamos ficar eternamente discutindo sobre isso, será que vale a pena?

Pode ser que o Brasil ganhe? Pode! Pode ser que seja tudo combinado para o povo ficar feliz? Pode! O problema é que o povo já não está feliz! Só que o povo não está feliz com o governo, e não com a seleção! Então, vamos parar de viver nesse mundo sem graça onde só existem dois lados de uma história e vamos entender que existem muitos outros caminhos que podem ser seguidos. Quem está assistindo à copa não é necessariamente um alienado! Existem alienados? Lógico que existem! Mas também existem alienados que não estão assistindo à copa, estão indo às ruas e não fazem a menor ideia do que estão fazendo lá. Assim como existem pessoas extremamente politizadas, que têm pura consciência de toda a roubalheira que aconteceu e acontece por trás da copa e outros eventos, mas que decidiu se manifestar durante as eleições e não durante a copa!

Acho que o que importa é estarmos informados, é sabermos que se a Globo for nossa única fonte de informação nós não saberemos nem da metade da história, é sabermos que nós é que escolhemos esses representantes e sabermos que nós temos sim que fazer nossa parte para que o país melhore, mas fazer nossa parte não significa desligar a televisão quando o Brasil entra em campo ou ir para a rua manifestar para contar para os colegas da escola no dia seguinte. Fazer nossa parte é muito, muito mais que isso! E acreditem, tem pessoas desses "dois lados" que estão jogando no mesmíssimo time e nem sabem disso.


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segunda-feira, 16 de junho de 2014

HERNANDES, O ESPANHOL >> Albir José Inácio da Silva

Hernandes era ainda uma criança na última copa, quando a sua gloriosa Espanha sagrou-se campeã. Digo “sua” porque é assim que ele sentia a nação espanhola. Não que ela lhe pertencesse, mas ele pertencia a ela, pelo menos de coração. Era um bom aluno antes de ser atropelado pelo sonho de jogar futebol e ver a Espanha na copa do mundo no Brasil.

De lá para cá o futebol era sua vida e a Espanha, o paraíso. Vasculhou sites de pesquisas genealógicas, encheu o saco dos avós e se irritou porque não sabiam dos próprios antepassados. Mesmo sem provas, teve certeza de suas raízes. Sentia correr nas veias o sangue espanhol. Passou a assinar Hernandez porque achava que “z” era mais espanhol que “s”.

Se ainda visitava a escola, digo visitava porque eram esporádicos os seus comparecimentos, apenas atendia às negociações com sua mãe, que prometera matriculá-lo na escolinha de futebol. Mas já tinha ficado reprovado e não estudava nada que não fosse futebol e Espanha.

Conhecia todos os times, técnicos e jogadores da “pátria do futebol”, como a chamava. Vibrava quando algum craque brasileiro era contratado por clube espanhol. “O que ficaria fazendo aqui um atleta como Neymar?”, perguntava.

Acompanhou com desinteresse os preparativos de nossa seleção para a copa no Brasil. Não comemorou a vitória sobre a Croácia e ainda criticou o pênalti marcado pelo japonês “comprado”, segundo ele. Aguardava sim, ansiosamente, o jogo da Espanha.

Hernandes riu dos mais velhos, quase com pena, porque falavam em laranja mecânica e outras glórias holandesas. Bem se vê que não conhecem a Espanha, pensou. O gol da Espanha não foi surpresa para ninguém, muito menos para Hernandes. Sua confiança continuou inabalada mesmo com a virada em dois a um. Era questão de tempo. O massacre sobre a Holanda estava a caminho.

Qualquer outro já consideraria o jogo perdido quando chegou aos quatro, mas Hernandes acreditava. Era assim a sua Espanha, tudo tinha que ter emoção.

Entre o quinto gol da Holanda e a cena final desta história, melhor deixar sozinho o Hernandes. Não é uma coisa boa de ver, e menos ainda de contar. Corta pra mesa da cozinha, onde a mãe de Hernandes, saindo para o trabalho, foi encontrá-lo no dia seguinte, às cinco da manhã.

— O que houve?

— Tenho que correr atrás do prejuízo — disse o garoto, levantando a gramática que, pelo jeito, passara a noite estudando.

Fotografias, escudos e flâmulas tinham saído da parede e jaziam humildes num canto. A mãe considerou resolvido o problema de Hernandes. Mas tem medo de uma recaída. Vai que a Espanha ressuscita e ganha a copa do mundo?!

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domingo, 15 de junho de 2014

INVEJA >> Whisner Fraga

Cacá Diegues nos alertava, em 1978, a respeito da existência de um patrulhamento ideológico que dominava o afetado cenário intelectual brasileiro da época. Mudam-se os meios, ficam a mentalidade e a tradição. Essa patrulha age sorrateiramente nas redes sociais, motivada, sobretudo, pela inveja. Assim, quando um "amigo" (porque somos todos amigos nas redes) posta uma foto, devidamente tratada em algum Instagram da vida, de uma faustosa alheira ou de uma cardíaca feijoada, o que está expondo não é somente a sua fome ou o seu requintado padrão gourmet. Não. Para os "amigos", está achincalhando a boa vontade alheia. Para os "amigos", aquela postagem suscita as seguintes reflexões: 1) Puxa, o cara ganha uma mixaria, mas vai direto a restaurantes chiques. Que merda é essa? Tem algo errado. 2) Ué, ele não tinha de estar trabalhando agora? 3) Nossa, e aquele/a vinho/cerveja ali do lado. Não é que o sujeito é alcoólatra mesmo?

É evidente que a patrulha não tem umbigo ou, se tem, não se dá ao trabalho de olhar para ele, pois está muito ocupada peneirando informações válidas sobre a vida dos outros. O que está por trás de toda essa vigilância é a questão: por que ele e não eu? E não é você porque a sua ganância e a sua sovinice e a sua apatia não o deixam tirar o adiposo bumbum dessa sua chique cadeira giratória para tentar fazer algo do que lhe resta de vida. A natureza humana é poderosa. Ela recita o dia inteiro baixinho em nosso ouvido como é duro suportar o sucesso do "amigo", mesmo que esse "sucesso" seja somente uma farsa encoberta por um enquadramento bem-sucedido.

Na Internet somos todos fingidores e divulgamos apenas o lado bom de todas as coisas, inclusive de nós próprios. É como se vivêssemos em eterna paquera: tudo é retocado, burilado. Não faço apologias a nada, não acho que isso seja bom ou ruim. O que quero deixar é um alerta: não caiamos nestas armadilhas virtuais. Que tal um pouquinho de verdade nesses perfis idealizados?

Outro dia um desses amigos, que, por coincidência, é um conhecido na vida real, veio me alertar que eu devia parar com essa história de literatura, para eu evitar de postar no Facebook minhas impressões sobre livros, sobre participações em eventos literários, que isso podia pegar mal no trabalho. Como se toda a minha carreira literária não fizesse parte de um labor intelectual que me dá muito prazer e que é também um pedaço de minha biografia. Um recado: nenhuma patrulha vai me pegar.

Não me canso de defender que tenho, hoje, duas ocupações: a docência e a escrita. Ainda não conseguiria abandonar uma ou outra, pois gosto de ambas. E acredito que sou relativamente bem-sucedido nas duas, pois sempre tento impor qualidade ao que faço. E qualidade tem como pressuposto o trabalho árduo e a consciência de que o melhor de nós é o mínimo que temos de imprimir às tarefas que nos são confiadas.



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sábado, 14 de junho de 2014

CRÔNICAS, CONTOS E MICROCONTOS >>> Sergio Geia

Sou novo aqui. Claro, claro, vocês já perceberam. A menos que... Você! Sim! Você aí! A menos que você seja tão novo quanto eu. Beleza, meu irmão. Prazer. Seja bem-vindo. Enfim. É o meu primeiro dia aqui no “Crônica do Dia”. De muitos, espero. Que nossa jornada seja duradoura e proveitosa. Pra vocês que sempre estão por aqui; pra você, meu novato, que como eu está debutando; e pra mim, é claro. Quinzenalmente, aos sábados, estarei aqui. Para escrever crônicas. Conto? Conto, não. Crônicas! Não sou de escrever contos. Confesso que certa vez até cismei de participar de um concurso de contos. Mas não enviei um conto. Enviei uma crônica, que nasceu crônica, que viveu crônica, mas que num dado momento da existência resolveu virar conto. Uma espécie de transexual literário. Não deu muito certo. Crônica é crônica. E conto é conto. Acho... Eu, hein? Mas eu gosto de crônica. Como gosto de mexericas, melancia e quiuí. E não gosto de abacaxi.

Pensando melhor, houve outra vez em que participei de um concurso de microcontos. Não conhece? É interessante. O microconto, ou miniconto, ou nanoconto, é um conto nanico, pequeno. Mas o mais importante, dizem, é deixar o leitor adivinhar ou preencher o vácuo, tentar enxergar a história por detrás da história. Escrevi alguns e até que saíram bonitinhos, e diziam muito mais do que estava escrito. Um deles era assim: “Os passarinhos cantam lá fora, enquanto ela, exausta, descansa em seus braços”. O outro: “Sente a formação de placas de água na região dos lábios. Prefere voltar, ainda que a imagem não o deixe em paz”. E, por fim: “O juiz apita o fim do jogo. Ataliba abraça dr. Sócrates. Foi absolvido”.

Gosto mais do primeiro. Seu título é “Depois”. A imagem que me vem à cabeça é a do casal de conchinha, depois de um gostoso amor matinal. Como é bom ouvir os passarinhos cantando pela manhã, não? Ainda mais depois de um amor bem feito. O título do segundo é “Traição”. Coisa de amor juvenil, incipiente. O cara vai encontrá-la e a flagra em tórridos beijos com outro. Mas não faz nada. Aliás, ele se esconde. Não deixa que ela o veja. Sai correndo. Foge. Desesperado. Aniquilado pela imagem. O último está mais fácil. Eu jogo com duas situações: um julgamento e uma partida de futebol. Quem não se lembra do Corinthians de Ataliba, Sócrates, Casagrande, Biro-Biro? Mas no caso é um julgamento mesmo, em que o juiz é um Juiz de Direito; Ataliba, o réu; e dr. Sócrates, o advogado, e não o saudoso médico-jogador.

Gostei da experiência, apesar de ainda preferir as crônicas. E isso é muito fácil de entender. Agora, por exemplo. Vejam que interessante. Após alguns dias de extraordinário e exaustivo trabalho, cá estou descansando a casca numa jacuzzi pelando, a fumaça tomando conta. Começo a imaginar como poderia ser a minha primeira crônica do “Crônica do Dia”. Algo sobre a Copa? Sobre a aposentadoria do Joaquim? Ou, quem sabe, sobre a minha dama-da-noite, que depois de muita insistência me inunda com seu perfume noturno excepcional? Fico um pouco duvidoso quando começo a sentir a invasão desses microcontos atrevidos. A mente viaja e, paradoxalmente, sinto uma crônica sendo gestada; aos poucos, serenamente; vejo o pezinho lá, a cabecinha se formando, a orelhinha. De repente, ela pronta. Completa. Só esperando um médico, quer dizer, só esperando alguns dedos e um teclado para nascer.

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

BRIGANDO COM O TEMPO >> Paulo Meireles Barguil

Eu já tinha decidido que não ia falar da Copa do Mundo de 2014, independentemente do resultado do jogo entre Brasil e Croácia.

Ao acessar os bastidores do Crônica do Dia para iniciar este texto, verifiquei que alguém já preparou algo sobre o tema, que deverá entrar no ar em breve: mais um motivo para manter meu propósito inicial.

Seria agora o momento para versar sobre uma temática que, apesar de eu ter feito algumas pesquisas na internet, venho adiando?

Poderia, ainda, escrever sobre hoje — Dia dos Namorados — ou amanhã — sexta-feira, 13. Decidi, então, continuar o folguedo da quinzena passada, mudando o enfoque.

É crescente a queixa sobre a falta de tempo, bem como sobre a sensação de que ele está passando cada vez mais rápido.

O budismo tem me ajudado a, lentamente, entender e aceitar que a realidade é construída na mente, a qual, portanto, merece muito cuidado.

Fique em paz: ciente da minha ignorância sobre budismo, não ousarei apresentar uma síntese do que tive a oportunidade de ler.

Abusando, porém, da sua boa vontade, a qual acredito estar em alta porque o Brasil ganhou a primeira partida, vou partilhar um pouco do (que acredito) que aprendi.

Todos queremos a felicidade. Desejamos que ela, uma vez alcançada, seja imutável. Sonhamos com a permanência, quando a característica peculiar da vida é a transitoriedade. Essa é a fonte do nosso sofrimento!

Ansiamos materializar as nossas inúmeras fantasias e mantê-las protegidas de ameaças. Em suma, nossa mente quer congelar o mundo que nos agrada, o qual sequer sabe quem somos nós...

O apego e a raiva, portanto, são o combustível da nossa infelicidade. A libertação de ambos nos possibilita sintonizar com o ritmo, a harmonia do Universo. Cada momento, mais do que uma oportunidade de escolher o caminho que se vai trilhar, revela a forma como queremos fazê-lo.

Essa mensagem foi assim traduzida por Gilberto Gil, em Tempo Rei: "Não me iludo / Tudo permanecerá do jeito / Que tem sido / Transcorrendo, transformando / Tempo e espaço navegando todos os sentidos".

Diante desses mistérios e de tantos outros, tenho rogado, com fervor, aos céus, tal como o poeta baiano: "Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei / Transformai as velhas formas do viver / Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei / Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei".

Para aumentar a tragédia, a maioria de nós almeja, secretamente ou não, a total compreensão do mundo, bem como o controle sobre o mesmo.

Os cientistas adoram essa brincadeira, a qual só tem alegria quando se entende, com todo o nosso ser, que o objetivo daquela é viver o amor, expresso na relação com o outro.

Melhor é fazer as pazes com Cronos e mergulhar no Túnel do Tempo com Humberto Gessinger: "Te vejo infinita [...] Há um tempo certo para tudo / Para tudo uma razão (ou não) [...] Pra ouvir melhor, melhor apagar a luz"!

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quinta-feira, 12 de junho de 2014

PARAR DE PROCURAR? JAMAIS >> Mariana Scherma

Não adianta procurar. Quando você menos esperar, vai acontecer. Ok, pode até ser verdade. O telefone mesmo só toca quando a gente já desistiu que ele toque e a luz do WhatsApp acende quando quase acreditamos no próprio fingimento de que não esperamos mais nada de uma conversa na qual todas as nossas expectativas estavam depositadas. Mesmo assim eu sempre sinto vontade de renegar toda a minha boa educação e mostrar a língua para as pessoas que adoram bater na tecla do “espera aí, sua vez vai chegar”. Desculpe se você é uma delas.

Essa regra do amor, de não esperar, de parar de procurar e de ter paciência, faz o mínimo sentido pra mim. Quando você se apaixona, é mais ou menos como viajar para o lugar mais turístico dentro de si mesmo. É ver tudo mais colorido. É sentir sabor de bolo trufado mesmo comendo bolo de fubá meio seco. Aí o amor se perde e você volta para os dias de bolo de fubá ressecado. Você tem o paraíso. Perde o paraíso. E ainda mandam que tenha paciência. Sério?

Às vezes, fico imaginando o mundo onde as pessoas sozinhas realmente esperassem calmas e desinteressadas pelo amor. Cenário um: bares e casas noturnas faliriam. É fato que é muito mais fácil achar alguém interessante na padaria do que na balada, mas a maior parte dos frequentadores da night está em busca de um amor. Nem que seja um amor de um terço só, sem grandes palpitações no dia seguinte. Se dependesse de boa parte dos casais, esses lugares fechariam cedo e lucrariam bem pouco. Quem vai beber em excesso se tem companhia pra dormir? Cenário dois: as ruas ficariam menos perfumadas. Pra que gastar seu perfume se você está de boa e nem um pouco à procura? Cenário três: existiriam menos sorrisos entre as pessoas. Sabe aquele sorriso-começo-de-paquera quando você se depara com alguém seu número? Pra que olhar em volta se você não está procurando?

A verdade, pra mim, pelo menos, é que o mundo sem a expectativa de se apaixonar é muito chato. Muito cinza. Muito bolo de fubá velho. Talvez as pessoas que adoram dizer “espera, o que é seu tá guardado”, em um passado recente ou não, foram as mesmas que cansaram de ouvir isso, fingiram que acreditaram, mas continuaram buscando seu pedaço diário de bolo trufado. De todas as frases-clichê que a gente ouve, "quem procura acha" é a que mais faz sentido na minha opinião.

Como encontrar alguém pra ficar ao seu lado se você não está procurando? Pra mim, não faz sentido. Talvez existam momentos em que você baixe a guarda rapidinho e seja surpreendido. Nisso, eu até acredito. Como aquela distraída básica que você deu pensando na lista de compras imaginária ou no porquê de as pessoas não protestarem contra a Copa logo que o Brasil se candidatou a sede. Se forem necessárias distraídas rápidas pra se apaixonar, que elas venham aos montes. Ou na quantidade necessária pra deixar nossa vida mais parecida com uma caixa de 36 lápis de cor. E sobre os clichês "quem procura acha" e "quem espera sempre alcança"... Um já descarta o outro, por isso fico com o primeiro. Tem mais atitude.


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quarta-feira, 11 de junho de 2014

A VÉSPERA TRANSFORMADA EM DIA DE...
>> Carla Dias >>

O Dia dos Namorados, neste ano, acontece na véspera, que não há amor que se dobre a uma Copa do Mundo. Ainda que eu seja avessa às comemorações de calendário — que sou das que acredita que todo dia é dia de índio e de amor bem cuidado —, não resisto a um bom romance.

Por isso hoje, véspera que se tornou dia, escreverei sobre os filmes que, em minha opinião, são românticos pra dedéu.

Anna e o Rei

Vou começar com um filme que é uma lindeza, da história ao figurino, da fotografia às interpretações dos protagonistas. Em Anna e o Rei (Anna And The King/1999 – direção: Andy Tennant), Anna Leonowens (Jodie Foster) é uma professora de inglês, viúva e mãe de um menino, que vai para o Sião para ser tutora dos 58 filhos do Rei Mongkut (Chow Yun-Fat).  Foster e Yun-Fat mergulham no flerte, enquanto a revolução acontece e o choque cultural é inevitável. Um filme de delicadeza, apesar dos confrontos. Culpa da sintonia entre Foster e Yun-Fat.

A Última Ceia
A Última Ceia (Monter’s Ball/2001 – direção: Marc Forster) é uma história de amor permeada pelo preconceito e nascida na tragédia. Hank Grotowski (Billy Bob Thornton) trabalha em uma prisão com seu filho, Sonny (Heath Ledger). Racista, seu maior desafio é lidar com os negros presos, entre eles Lawrence Musgrove (Sean "Puffy" Combs), que recebe com frequência a visita da sua esposa,  Leticia (Halle Berry). Quando Hank e Leticia vivem tragédias pessoais em um mesmo momento, eles se unem na dor, o que oferece uma das cenas de amor mais dolentes e bonitas do cinema.

A Razão do meu Afeto

A Razão Do Meu Afeto (The Object Of My Affection/1998 – direção: Nicholas Hytner) é um filme da leva dos “uma graça”. Primeiramente, porque o casal em questão é formado por Paul Rudd e Jennifer Aniston, e eu acho o Paul Rudd, mesmo quando ele faz aquelas comédias rasgadas, que não me apetecem, uma graça. No filme, a assistente social Nina Borowski (Aniston) conhece George Hanson (Rudd), que acabou de ser dispensado pelo namorado. Eles acabam dividindo o apartamento e o que acontece não é novidade no cinema: a mocinha, que engravida do namorado, apaixona-se pelo mocinho e amigo gay. Filme bonitinho, mas não ordinário. Digno de ser assistido mais de uma vez.

Feito Cães e Gatos

Feito Cães e Gatos (The Truth About Cats And Dogs/1995 – direção: Michael Lehmann) é das minhas comédias românticas preferidas. Tem Uma Thurman, a fantástica Janeane Garofalo e o ótimo Ben Chaplin. E um cachorro danado. Abby Barnes (Garofalo) é uma veterinária que tem um programa no rádio e ajuda as pessoas a lidarem com seus bichinhos de estimação. Bem-sucedida profissionalmente, sua vida amorosa é um deserto a se perder de vista. Agradecido pelas dicas que Barnes lhe deu para lidar com seu cachorro, Brian (Chaplin) decide ir até a rádio para agradecê-la pessoalmente. Mas Barnes não se acha nada atraente, por isso se descreveu a Brian, pelo telefone, como se fosse a linda e sedutora Noelle (Thurman), sua vizinha. Com um toque de Cyrano, a história segue, mas o filme realmente mostra seu valor pelo talento dos atores envolvidos.

Apostando No Amor

Mas o amor também machuca e todos nós sabemos disso. O que não torna uma história de amor ruim. Assistir Apostando No Amor (Dogfight/1991 – direção: Nancy Savoca) sempre me deixa melancólica. Não pela história, que é sobre quatro fuzileiros navais que devem embarcar para o Vietnã, e antes disso fazem uma aposta: quem arranjar a garota mais sem graça, ganha 50 dólares dos outros. A história em si apenas endossa que algumas pessoas são sem noção. O que realmente me deixa triste é ver River Phoenix. E apesar de adorar Lily Taylor, a mocinha sem graça que ele escolhe — mas acaba que ela tem toda a graça que ele busca em uma mulher —, ainda é um filme que eu gosto e sempre assisto quando passa na tevê, apesar de me dar aquela dorzinha no coração. O mesmo acontece com A Última Ceia, que Heath Ledger, assim como River Phoenix, partiu cedo demais.

Paixão Eterna

Paixão Eterna (Made In Heaven/1987 – direção: Alan Rudolph) é um filme que nos leva além do amor, embarcando na espiritualidade. Mike Shea (Timothy Hutton) é um jovem de uma pequena cidade da Pensilvânia que sonha ir para a Califórnia. O plano era partir com sua namorada, mas ela o abandona. Ele decide ir sozinho, mas no meio do caminho, tentar evitar uma família de se afogar, em um acidente, e morre. No céu, ele conhece a moça da sua vida, Annie Packert (Kelly McGillis). Reencarnado como Elmo Barnett, a lembrança de Annie não é clara, mas o sentimento o assombra. A reconexão dessas almas é o tema do filme, que é muito bom. Eu tinha dezoito anos quando assisti  ao filme pela primeira vez. Tenho quarenta e três, e ele ainda me comove. Acho que é por causa da música, a que serve de dica para que o mocinho reencontre a mocinha. Também dou crédito a Debra Winger, que interpreta Emmett, um anjo nada bacana.

Henry & June

Para fechar as indicações para os apaixonados que vão ficar em casa assistindo aos filmes românticos, ou os solitários que vão assisti-los para alimentar a esperança de um dia ter um par, Henry & June Delírios Eróticos (Henry & June/1990 —direção: Philip Kaufman). Porque um filme erótico e biográfico, com um triângulo amoroso formado pelo escritor Henry Miller, sua esposa June e a escritora Anais Nin, bom, já viu. E se não viu, pode assistir. Philip Kaufman fez um belo filme, e não economizou no elenco. Achei que a escolha de Fred Ward para interpretar Henry Miller foi providencial, assim como Uma Thurman como June, centro das atenções dos escritores. Maria de Medeiros está fantástica como Anais Nin. E tem mais: Gary Oldman e Kevin Spacey.

A minha lista de indicações poderia ser mais longa, mas eu acabaria escrevendo mais do que vocês estão dispostos a ler. Afinal, é Dia dos Namorados de véspera. Vocês têm mais o que fazer.

Somebody to Love - Queen



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segunda-feira, 9 de junho de 2014

O ÓBVIO DO POVO >> André Ferrer

Existem, de fato, assuntos explosivos. Religião e futebol, por exemplo, não se discutem. O anátema popular, nesses dois casos, merece consideração. No que se refere à crença, por mais automática, fria, vazia ou exótica nos pareça a sua liturgia, merece, ainda assim, o nosso mínimo respeito.

Apesar da fama de encrenqueiro, o futebol também carrega uma poderosa força capaz de unir as pessoas. É preciso dizer, entretanto, que isso acontece somente até o momento em que as opiniões sobre flâmulas não se tornam radicalmente opostas. Assim, quando algo já não soa adequado para um dos interlocutores, essa força descomunal, capaz de aglutinar homens e formar tribos e nações, converte-se em repulsa.

Daqui em diante, pode-se dizer simplesmente que os interlocutores se agarram em ideias opostas. Correto. Entretanto, há uma leitura mais rica e provocativa para tal ruptura: as pessoas param de concordar umas com as outras assim que elas deixam a sacrossanta “zona do óbvio”.

Há diversos temas assim confortáveis e, muitas vezes, é um sinal de sabedoria empregá-los à vontade e abandoná-los antes que se derrube a barreira do óbvio. Algumas pessoas chamam isso de educação, urbanidade, diplomacia etc. Outras, de acordo com o grau de consciência a respeito do processo, consideram, numa escala qualitativa, de engraçado a patético.

A poucos dias da Copa do Mundo, a “zona do óbvio” encontra-se amplificada entre os torcedores brasileiros. Em tempos de mundial, as preferências locais se nivelam. O inimigo é externo e comum a todos. Falar de futebol com qualquer cidadão é mais ou menos como falar do tempo com um velhinho no ponto de ônibus.

No mundo todo, as condições meteorológicas ganham de longe no quesito “inutilidade simpática”. Fazer e usar a previsão do tempo como iniciador de conversa fiada é muito comum no elevador, na fila do cinema, no ônibus, na recepção do dentista. Em Nova Iorque ou em Quixeramobim, é quase uma liturgia.

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domingo, 8 de junho de 2014

O OUTRO ESCRITOR >> Eduardo Loureiro Jr.

É outro que escreve. Quanto melhor é aquilo que penso que escrevo, mais eu sei que é outro aquele que escreve.

Eu, que até agora pensava que escrevia, sou apenas a caneta, o computador, o instrumento com o qual esse outro busca escrever.

Ele tem suas ideias, ele tem sua inspiração, e nem sempre consegue fazer, por meu intermédio, o texto que imaginou. E isso não se deve a uma limitação dele, mas minha. Pois não sou um instrumento mecânico, mas um instrumento vivo. Um instrumento com vontade, principalmente a vontade de não ser um mero instrumento mas de ser o próprio escritor. Uma caneta, ou um computador, que quer escrever sozinho. Uma inteligência artificial que quer se mostrar real. Uma tentativa de inversão: o instrumento querendo usar o escritor para produzir um texto. Assim saem os piores escritos, como talvez seja este. Na melhor das hipóteses, uma confissão sincera, uma admissão do crime.

Enquanto escrevo isto, o outro não escreve o que deveria escrever. Você, leitor, fica privado do belo texto que o outro escreveria se eu não estivesse aqui atrapalhando o processo com ares supostamente nobres de metalinguagem. A consciência disso, entretanto, não me faz abdicar do domínio, da primazia sobre as pontas dos dedos. Mesmo me sabendo instrumento, continuo teclando em causa própria, sem abrir espaço para o outro.

Não quero o texto belo do outro porque você, leitor, há de dizer “que belo texto, Eduardo, parabéns”, e eu saberei que os parabéns não são para mim, são para o outro. Quem elogiaria o instrumento com o qual foi feita uma obra-prima? Quem louva os pincéis de Matisse, a pena de Shakespeare, o cinzel de Rodin, a máquina de escrever de Fernando Pessoa? O destino de um instrumento é se gastar e se tornar obsoleto, sendo substituído por outro mais novo e mais eficiente.

Não, não sou eu que escrevo, mas estou apegado a esta ilusão de escrever. Não, não sou eu que escrevo, mas persisto na loucura de assinar o texto e publicá-lo. Não, não sou eu que escrevo, apenas faço de conta que sou para que o leitor pense que sou.

Mas agora está tudo revelado: eu não sou o escritor. O leitor, de agora em diante, sabe a verdade. E a única maneira que tem de continuar me chamando de escritor é, também, se iludindo e fazendo de conta.

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sábado, 7 de junho de 2014

UM SOPRO NA TARDE >> Cristiana Moura

Tarde de junho. É um tal vento que volta a ventar janela adentro. Nestas épocas gosto de dormir nua só para sentir a brisa tocando minha pele — é como fazer amor com o Sopro.

Era manhã de domingo. Ele tinha cinco ou seis anos. Saímos do mar correndo como  numa brincadeira que se pensasse eterna. Sempre que saio do mar me sinto como que emergindo do útero da Terra. Ele fechou os olhos e depois de um curto silêncio disse quase em sussurro, como quem revela um segredo ainda sem a certeza de que pudesse ser revelado:

— Mãe, o vento tá fazendo carinho no meu rosto!

— Pois deixa ele carinhar meu filho, deixa ele carinhar.

O vento que invade meu quarto agora, trouxe consigo esta lembrança leve. Por vezes, o cotidiano me endurece o caminhar e, com este, os encontros em seus gestos mais simples. Fiquei aqui pensando que é preciso acolher as gentilezas da vida e deixá-la acarinhar. Só acarinhar.

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sexta-feira, 6 de junho de 2014

DANDO UMA AJUDA A SANTO ANTONIO...
>> Zoraya Cesar

O dia amanhecera chuvoso e friorento, contrariando a previsão meteorológica da noite anterior, que prometera sol e calor. Nada a estranhar, pensou ela, essa gente não acerta nunca. Assim como eu, suspirou.

No ano passado ela não conseguira sequer assistir à missa, a água benta não passara nem perto. Tinha plena convicção de que não arranjara ninguém decente por causa desses inconvenientes. 

Os últimos namorados estavam enfileirados num colar de fiascos, um atrás do outro, sem falhas. Senão vejamos... Marcos Simão era tão folgado que, no segundo encontro, perguntou se não poderiam viver logo juntos, pois ele morava longe e o apartamento dela era melhor. Carlos Washington cuspia enquanto falava e ela fingia que não se importava em ficar com o rosto constantemente úmido, mas no dia em que ele começou a chupar os dentes pra limpar a saliva excessiva, ela desistiu; aquilo estava dando nos seus nervos. Wenceslau a fazia morrer de vergonha, porque nunca dava gorjeta e vivia arranjando confusão para provar que era macho. O último, Jackson Mauricio, era carinhoso, mas tinha um complexo de Édipo muito mal resolvido e, tão logo o namoro começou a tomar rumos mais sérios, levou a mãe para morar com os dois, dizendo que tinha de ficar junto das mulheres da sua vida. Ela terminou o namoro, mas se sentiu péssima. Será que não estava sendo muito exigente?

Foi conversar com o padre da paróquia, afinal, era devota de Santo Antônio desde sempre, e, ainda assim, quanto mais rezava, mais assombração aparecia. Falou, falou, chorou, chorou. Quando disse já estar pensando em virar uma freira, o padre virou uma fera, aquilo era coisa séria, vocação para ser esposa de Cristo, não alternativa para casadoiras desesperadas, ficasse quieta, por favor, que estava pensando em como ajudá-la. Moama calou-se, envergonhada. 

"Filha, Santo Antonio não tem nada a ver com isso, o encontro é fortuito, mas a escolha é sua. Continue rezando e esperando, que sua hora vai chegar". Mas Moama parecia tão desconsolada que ele ficou com pena; era da sua natureza e da sua profissão compadecer-se da dor alheia. Ela não queria consolo, queria solução rápida, e se ela precisava de uma assertiva, ele daria: "Filha, pede para São José. Santo Antonio deve estar mesmo muito ocupado nessa época, e São José é o esposo perfeito, por que não pedir a ele?" Ela sorriu, boa ideia! O Padre deu-lhe a bênção e foi embora, Moama não era a única a procurá-lo nessa época de solidões, de dia dos Namorados, de Santo Antônio.

Ela ficou satisfeita, sim, esse ano encontraria o grande amor de sua vida, que a tiraria daquele vazio existencial que a levava, lentamente, para o desespero da solteirice irremediável. 

Já havia pelo menos uma centena de pessoas no convento quando chegou. Ela esperou debaixo de uma chuva fininha e fria, e, aos poucos, começou a perceber os murmúrios ao redor. Pessoas pedindo saúde, emprego, união. Ao seu lado, uma jovem que parecia ter dezessete anos, se tanto, desfiava o rosário pedindo para o pai parar de beber; uma senhora idosa pedia pela saúde da sobrinha; um senhor de terno chorava ajoelhado no chão frio e molhado, tão sentidamente, que Moama começou a chorar também. 

Ela baixou a cabeça e  agradeceu por sua saúde, sua família unida, por não ter tão graves problemas como os daquele senhor. Pediu perdão por ser tão chatinha e prometeu que, enquanto o homem certo não aparecesse, ela não ficaria com o errado. Iria aproveitar para fazer algum trabalho voluntário, ajudar alguém. E que, Santo Antonio ficasse descansado, ela iria dividir sua vontade casamenteira com São José. 

Finalmente conseguiu entrar, ouvir a missa, receber uma chuva de água benta (qual era mesmo o nome daquele namorado que cuspia enquanto falava?). Saiu leve e feliz.

Passou por uma imagem de São José, parou e disse "alô, meu Santo, se prepare que eu vou começar a te procurar, quero ser uma boa esposa para um bom homem". 

Se você acha que esse negócio de rezas e finais felizes não existem, a história termina aqui. Vida que segue. 

No entanto, se você faz parte do grupo que acredita em redenção, amor, surpresas, continue a ler. A história toma rumos mais ou menos esperados.

Na saída do convento um homem de estatura mediana, careca, grandes e expressivos olhos castanhos, promovia a obra de caridade com idosos abandonados — os seres mais solitários do mundo —organizada pelos devotos de São José. A voz era agradável. Não usava aliança. Ela pegou o folheto.

Moama entrou no trabalho voluntário mas eles não se apaixonaram. Nem poderiam, pois ele era padre, já tinha feito sua escolha. Ela casou foi com um primo dele, um homem bom, que procurava uma boa esposa, e sei que você já sabe o final dessa história, mas me permita o prazer de contá-la mesmo assim: viveram felizes para sempre e o primeiro filho se chamou Antônio José. E como ser diferente?

Feliz Dia de Santo Antonio. Mas reze também para São José...



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quinta-feira, 5 de junho de 2014

BARULHINHOS >> Fernanda Pinho



Outro dia, tentando elaborar para duas amigas o porquê de eu não conseguir parar de tomar refrigerante, saí com essa: “Ouvir o barulho de uma lata de Coca-Cola se abrindo é uma das coisas que mais me emociona na vida. Possivelmente, deixará de ser meu barulho preferido apenas quando eu tiver um filho e escutar seu choro pela primeira vez”.  Reconheço. Posso ser bastante exagerada quando quero defender meus pontos de vista. Hipérboles à parte, é verdade. Alguma coisa acontece no meu coração — estômago e papilas gustativas — quando abro a latinha.

E não somente isso. Vários outros barulhinhos banais me emocionam. Ontem tive um dia exaustivo, estava cansada e angustiada. Fiquei deitada no sofá e só voltei ao normal quando escutei o barulho de pipoca estourando na cozinha. Meu marido realmente me conhece. Alegria imediata, mesmo antes de comer a pipoca. Até agora não  lembro o motivo de estar angustiada.

E para não dizer que todos os barulhos que me emocionam têm a ver com comida, me recordo de outros. Desde sempre, me emocionei com o barulho do carro da minha mãe entrando na garagem quando ela chegava do trabalho. De criança até o último dia em que morei na casa dos meus pais, aos 28 anos.  Depois que casei, transferi a emoção para o marido. Meu coração palpita quando escuto a chave na porta.

Costumava palpitar também quando eu ouvia o aviso de mensagem no celular. Isso na época em que celular só servia para ligações e trocas de mensagens.  Hoje em dia,  são tantos aplicativos que o que me emocionava para o bem passou a me emocionar para o mal. Solução: todas as funções constantemente no silencioso.

Aliás, já pensou que maravilhoso seria se a gente pudesse colocar no silencioso tudo aquilo que nos irrita? Porque, claro, de barulhinhos maus o mundo também está cheio: buzina, fogos em dias de jogos, tique-taque de relógio na madrugada, água corrente quando você está a fim de fazer xixi e, ai ai ai, garfo arranhando o fundo do prato. Eita que me arrepio só de imaginar.


Essa vai entrar para minha lista de desejos improváveis: colocar o mundo no mudo e ouvir só o que nos faz bem.


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