sexta-feira, 30 de maio de 2014

BRINCANDO COM O TEMPO >> Paulo Meireles Barguil

Nas últimas vezes, eu tentei, mas, somente hoje, consegui: comecei a escrever a crônica no dia em que ela será postada!

Não precisarei, pela primeira vez, programar a sua publicação. Esta, portanto, é uma crônica bem quentinha. Quer dizer, para mim, que estou escrevendo, pois não sei quando você irá lê-la...

Sim, eu confesso: durante o meu passeio no Planeta azul, eu tenho brincado com o tempo de várias maneiras, principalmente de corrida. Às vezes, ela é chata, pois eu costumo perder. É difícil fazer algo com prazer quando o resultado — para nós desfavorável — é conhecido antes do final, melhor dizendo, quase isso, uma vez que todos os ponteiros apontam para o mesmo resultado.

Por exemplo, assistir às corridas da F1 quando o Senna competia era muito legal para os brasileiros, pois ele ganhava muitas vezes e foi três vezes campeão mundial. Para quem torcia por outro piloto, elas eram um porre. Nos últimos 22 anos, temos experimentado uma dolorosa inversão de papéis, pois somente pilotos de outras nacionalidades têm alcançado a glória. De modo especial, Schumacher e Vettel, que venceram a metade desses campeonatos.

Essa tristeza, porém, é fichinha diante do corre-corre, cantado por Rita Lee, que estamos, em nossa grande maioria, vivenciando, quando buscamos fora o que somente dentro pode ser encontrado.

Tenho a sensação de que estamos vivendo como as pessoas em Ensaio sobre a cegueira, livro de José Saramago, que foi adaptado ao cinema.

Tal percepção, por vezes, é-me sufocante, por dois motivos: pelo conteúdo do que — acredito que — vejo e por afastar muitas possibilidades de ilusão. Meu consolo é saber, com todo meu ser, que, embora pareça o contrário, a luz está brilhando cada vez mais forte. O que me anima a continuar é acreditar que ainda tenho muitos véus me impedindo de contemplar o paraíso e desfrutá-lo, motivo pelo qual estou decidido a retirar todos os que puder.

Sigo, então, recusando a dose de cicuta, degustada a contragosto por Sócrates e mencionada pela rainha do Rock Nacional, e bebendo uma de se cuida...

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quinta-feira, 29 de maio de 2014

POR UM INVERNO FACULTATIVO >> Mariana Scherma

Na primeira semana mais gelada do ano, não me ocorreu nenhum outro tema pra escrever a crônica de hoje. Desculpe. Pode ser que eu até já tenha detonado o inverno neste espaço (mais de uma vez), mas não custa deixar mais claro ainda o quanto eu desprezo essa temporada. Frio deveria ser facultativo. Você quer se sentir congelado? Sim? Ok, vá em frente. Não? Eis aqui sua passagem para o nordeste. Fique lá até o inverno ir embora. Mesmo ainda sendo outono... O que me deixa irritada no frio é que tudo fica mais difícil — tirando dormir, obviamente. Como não dá pra hibernar feito urso (alô, deuses, vamos conversar sério na próxima encarnação), achei digno listar minhas maiores dificuldades nessa fase. Você pode concordar ou só achar que eu sou reclamona mesmo. Fique à vontade.

Não existe abrigo pra tudo. Você se enche de casaco, põe meia de lã, luva, touca, mas... o nariz segue gelado. Porque ainda não inventaram nada que permita respirar e deixe o pobre nariz numa temperatura que não seja igual à de um cubo de gelo. E digitar nesse frio? Pobres pontas dos dedos.

“Toma uma sopa, esquenta”. Tenho uma leve vontade de socar quem me diz isso. Tomar uma sopa no frio em sua própria casa envolve picar legumes, mexer com água, lavar a louça depois. Ah, tá, tem aquelas de saquinho. Mas é puro sódio, nem por todo frio do mundo eu vou ficar inchada e com tendência à pressão alta.

Os passos infinitos entre o vestiário da natação e a piscina. São, no máximo, uns 15, mas no inverno eles parecem A Maior Caminhada do Universo. Eu juro que sinto meu sangue congelando nas veias. Depois, pra sair da piscina quentinha e voltar para o vestiário, a caminhada fica maior e mais sofrida.

Tipo cebola. Você sai de casa cheia de blusa, chega em casa, vai tomar banho, tem que se descascar inteira. Eu me sinto uma cebola antes de ser picada para o refogado. Frio não é prático. Frio sempre faz você chegar atrasada, isso se chegar, caso não tenha desistido no meio do caminho.

Tomar cerveja fica impossível. Cerveja boa tem que ser trincando de gelada, mas no frio, ôh que difícil, mas nem vou reclamar disso, porque o vinho esquenta. E é bem bom.

A puxada arte de tomar banho. Eu tenho uma técnica: antes do banho, coloco uma música animada, danço até suar e entro sem pensar, de cabeça e tudo. Poderia ser mais fácil se eu me rendesse à temperatura polar do chuveiro, mas morro de dó da minha pele e do meu cabelo. Não quero ter madeixas de vassoura.

E um dos itens mais difíceis. Nesse caso, para os meus olhos. Usar bota no frio é bonito, elegante e tal, mas aqui em Bauru, pelo menos, tem tanta gente que usa calça larga por dentro da bota que às vezes acho que estou no Sul, numa festa típica de gaúcho, os fandangos, sabe? No Sul, ok. Mas aqui em Bauru... Zero a ver.

Também, como você que leu esta crônica deve ter notado, é difícil aguentar meu lado ranzinza que acaba sendo elevado a nongentésima nona potência. Um pedido final: que o inverno chegue logo pra começar a ir embora, por favor.

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quarta-feira, 28 de maio de 2014

MEDITAÇÃO >> Carla Dias >>



Há esse eu vivendo dentro de mim, só que meio estrangeirado, que eu não entendia o que o tal dizia, ele que vivia encolhido num canto do mapa do meu pensamento, nos arrabaldes do meu espírito. Houve tempo que desejei conhecê-lo, como se ele fosse aquele artista de quem se gosta tanto, mas de um tanto, que se sente o desejo pungente de encontrá-lo pela manhã e pedir para que confesse seus sonhos, assim, entre um gole de café e uma mordida no croissant.

Meu cárcere é público
Uma vitrine de dolências
Onde me reviro até alcançar o avesso
E nem sempre é o meu

Percebe?

Como se percebe um quadro torto
Numa parede torta
Trazendo à tona
Sentimentos tão tortos quanto o quando

Só que ele fala em dialeto por mim desconhecido, às vezes até berra as palavras que soam feito urgências, mas quais? Não é apenas o fato de não me entender com ele, ou entendê-lo, ou ser capaz de olhar em seus olhos e fisgar ajustes, em vez de delegar ao destino o direito de impor ao meu eu forasteiro a solidão. Há mais por detrás das nossas máscaras análogas, das nossas mãos enleadas na hora do pânico, da alegria, do contentamento, da mágoa.

Quando laços não só enfeitavam pacotes
Mas também garantiam veracidade
Aos sentimentos e à bagunça
Que se instalavam nas almas não precavidas

Almas desencanadas por opção
Mas não opção de Deus
A Ele não cabe essa culpa
Ou essa graça?

Como este momento em que ele me arrebata com perguntas das quais reconheço somente o ritmo interrogativo. Eu sei que ele necessita saber, mas o quê? Como deseja? Será ele capaz de abrir mão do que eu jamais abriria? De fugir do que a mim prende e repreende e subjuga?

Quando os olhares não embarcavam em fragatas
Não se escondiam em lamúria
Embeveciam-se de uma paz caricata
Porque na felicidade a gente exagera mesmo

E nos permitíamos saborear ventanias

E uma delas levantou a saia da certeza
Embebedou-a de desjeitos
Fartou-lhe de desafetos
Emburrou a inábil dançarina

Um dia me disseram que somos mais de um, e que mesmo cientes disso, dessa dualidade, buscamos nos tornar exclusivamente um ao nos misturarmos a outra pessoa. Mas se somos mais de um, não poderíamos nos misturar a nós mesmos em busca de nos tornarmos um? Que dois será sempre par, mas não um. Por serem dois, complementam-se.

Veja-me bem nesse cárcere
Curvada feito clave de sol
Sem sol ou janela ou beijo nas faces
Sem noite tranquila de sono

Sou da órbita da clausura e das distâncias

Meus olhos navegam pela paisagem, enquanto o espírito mergulha em si, obcecado por reconhecer seus cômodos e incômodos. A canção interior, entoada pelo outro eu, é lenta e melancólica, incompreensível em palavras, eficaz no escancarar com o sentimento. Sinto-me feliz de felicidade gritante. Sinto-me triste de profundeza abismal. A voz do tempo me segreda que um dia os sentimentos se misturarão, e que assim eu poderei compreender essa linguagem do outro que vive em mim. Saberei como escutar e como dizer.

Até lá, resta-me contemplá-lo.

Imagem © Mônica Côrtes
Citações: poema “Cárcere” © Carla Dias

carladias.com



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terça-feira, 27 de maio de 2014

SERVE CHITÃOZINHO E XORORÓ? >> Clara Braga

Técnicas para evitar sequestro relâmpago é o que não falta na internet e nos jornais. Entre e saia rápido do carro. Evite andar sozinho. Dê uma volta com o carro antes de estacionar e observe se não tem ninguém suspeito por perto. Caso tenha alguém te esperando, avise que está chegando, para todo mundo ficar de olho. Procure estacionar em locais iluminados. Enfim, por último, caso esses atos não evitem uma abordagem, não reaja!

Porém, tem uma nova técnica que as pessoas não estavam comentando até pouco tempo. Aparentemente, uma mulher se livrou de um sequestro relâmpago cantando música sertaneja para o sequestrador! Sim, ela cantou para acalmar o rapaz que parecia estar drogado e oscilava frequentemente o humor.

Seria cômico se não fosse trágico. Mas admirei a frieza da mulher, no lugar dela eu não conseguiria nem pensar, imagine cantar. Só me pergunto se serviria outro estilo musical, não conheço nada de sertanejo. Já pensou eu começando a cantar um rock'n'roll e irritar mais ainda o cara?

Piadas à parte, a mulher disse que pensou em criar um vínculo com o sequestrador para que de alguma forma ele não pensasse que ela poderia fazer algo de ruim para ele. Achei interessante, nessas horas de pânico a gente nunca pensa em criar vínculos, mas sim em se livrar deles. Mais uma vez, admirei muito a frieza e a forma racional como essa mulher se comportou. Com certeza mil coisas passaram pela sua cabeça, ainda assim ela conseguiu manter a calma e, até certo ponto, controlou a situação.

É complicado pensar que nos dias de hoje existam pessoas que de fato não têm nada a perder e podem tirar a vida de outra pelo simples fato de estarem com vontade. E a segurança não tem ajudado muito, então o jeito é mesmo se prevenir de todas as maneiras possíveis. Por via das dúvidas, já estou baixando umas músicas sertanejas e vou começar a decorar as letras agora mesmo.


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domingo, 25 de maio de 2014

PALAVRAS DESENHADAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Meus primeiros poemas foram escritos com caneta sobre papel. Minhas primeiras crônicas foram escritas em um computador. Estas palavras que você está lendo agora estão sendo escritas em um telefone celular. Não, eu não estou catando milho no teclado. Estou — acredite se quiser — deslizando meu dedo indicador direito sobre a tela, ligando rapidamente uma letra a outra letra, como se fosse uma criança fazendo as primeiras garatujas. A diferença é que o aplicativo que estou usando transforma meus rabiscos em palavras.

O leitor talvez nem consiga imaginar a que estou me referindo. Confesso que um vídeo seria mais esclarecedor do que estas minhas palavras. Mas fazer o quê? Não sou cineasta, sou escritor.

Tudo bem, o aplicativo não é perfeito. Não conhecia a palavra "garatujas", por exemplo, então tive que digitar letra por letra, à moda antiga. Às vezes, o aplicativo também não entende direito o que desenho: quando intencionei desenhar "escritor" pela primeira vez, ele escreveu "escroto", mas tomei como um pequeno erro e não como uma ofensa pessoal. Prova disso é que, da segunda vez em que desenhei "escritor", o reconhecimento foi imediato.

Às vezes, um mesmo desenho pode dar origem a várias palavras. O aplicativo escolhe uma delas, mas entre o teclado e o texto aparecem algumas outras palavras, de modo que uma eventual correção pode ser feita com um só toque. "Correção", por exemplo, havia sido identificada como "coração"; um erro até simpático, diga-se de passagem, que eu corrigi com um único toque (que o aplicativo pensou que fosse um "tique").


Sim, eu sei que minha intenção este ano é ser mais natural, e que ficar experimentando novos aplicativos de celular talvez não seja a melhor forma de alcançar isso. Mas escrever desenhando, mesmo que sem caneta ou papel, não é mais natural do quer ficar pressionando teclas? Às vezes, para alcançarmos nossos objetivos, é preciso seguir caminhos não tão óbvios ou até mesmo contraditórios. Aliás, ser contraditório é algo que me é muito natural, logo está plenamente justificado este meu pequeno prazer tecnológico em um ano em que eu desejo me tornar o mais natural possível.

P. S. Para quem tem Android, o aplicativo original é o Swiftkey. Para quem só tem o iOs, como eu, a alternativa é usar o Path Input.

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sexta-feira, 23 de maio de 2014

DUAS HISTORINHAS DE AMOR BANAIS. MAS FELIZES
>> Zoraya Cesar

Todos queremos viver uma história de amor. Ou duas, ou três. Aquele encontro mágico que vai transformar nossa vida e dar-lhe um sentido além das aparências, além do cotidiano, além da morte. Além das decepções, do trabalho chato, da falta de dinheiro para todas as contas, de ver os sonhos murcharem com o passar dos anos. 

Tudo isso fica pequeno quando vivemos uma história de amor. 

Primeira história 

Artur era romântico e casara por amor. O casamento, no entanto, fora um desastre tão escandaloso quanto surpreendente, pois ele descobriu que a mulher tinha caso com o próprio primo, e toda a família dela sabia. Aliás, ele desconfiava, amargurado, que o mundo inteiro sabia, menos ele. 

Separação, desconforto, humilhação, você fica com isso e eu com aquilo e o advogado dela era melhor, ele ficou com as roupas do corpo e voltou para a casa da mãe. Arrasado, pois acreditava em almas gêmeas, amor eterno, queria casar, não era um homem singular, era plural. 

Vida que segue aqui, vida que segue ali, alguns encontros, mas nada sério. Acabou que ficou quase dois anos sem namorar ou, usando a linguagem popular, sem pegar ninguém. 

E, desfalcado ainda pela limpeza financeira que o divórcio lhe causara, só andava de ônibus. E foi no ônibus que aquela loura pós-balzaquiana sentou-se a seu lado, lendo um livro, óculos de grau, unhas curtas e rosadas. Artur não podia ver ninguém lendo um livro que ficava indócil até descobrir o que era.

Torceu o pescoço todo, tentando olhar de esguelha discretamente, mas a loura percebeu. Percebeu e achou graça, fechou o livro e mostrou a capa. Não era 50 tons de cinza, definitivamente, era uma coletânea de crônicas do Paulo Mendes Campos. Ele quase surtou de enlevo. Tinha adoração pelo conterrâneo. Começaram a conversar, mas... a vida é tão surpreendente, não? 

Em menos de quinze minutos encontraram diversos pontos em comum, até descobrirem que tinham estudado no mesmo colégio, e que ela tivera uma paixonite secreta por ele, dois anos mais velho. 

Sei que o mundo é cruel, estamos todos muito céticos em relação ao amor, mas a verdade é que a paixão que ela tivera por toda a adolescência ressurgiu com tanta força que lhe apareceram espinhas! E Arthur achou-a ainda mais linda. Estão morando juntos, e os três — ela tem uma filha de doze anos — não se desgrudam. Dá gosto de ver. 

Se você, que me lê agora, não acredita em amor, fala comigo, eu os apresento. Garanto que você sai de lá outra pessoa. Uma pessoa melhor.

Segunda história 

A Igreja estava lotada, o que não era de se estranhar, sendo o santo conhecido milagreiro e sendo também o dia a ele dedicado. Então vamos escolher aleatoriamente a protagonista deste caso. Que tal aquela moça gordinha de cabelos cacheados, ajoelhada bem em frente à imagem de Santo Antônio, pedindo... o quê?

Emprego? Saúde? Encontrar algo perdido? Marido? Ah, pensa você, eu sabia! Mulher ajoelhada aos pés de Santo Antônio só pode estar pedindo marido. E ah, digo eu, enganou-se. 

Maria pedia que Santo Antônio afastasse o ex-namorado grudento que não a deixava em paz, sempre dava um jeito de encontrá-la em todos os lugares, choramingando para voltar. Maria era de índole dócil, não sabia mais como afastá-lo, apenas fugia. 

Mas vamos ser honestos. Já que estava aos pés do Santo, Maria aproveitou para pedir um marido, sim, sabia que se o chato do Carlos a visse com outro homem iria embora de vez. E esmiuçou um pouco mais o seu pedido. Queria um homem de uniforme, sempre sonhara casar na Santa Cruz dos Militares.

Os joelhos começaram a doer, as pernas a ficar dormentes, ela levantou e saiu, mais aliviada. Santo Antônio não falhava.  

— Maria, que coincidência te encontrar aqui! Isso é um sinal! Eu sou o homem da sua vida — disse Carlos bem perto do seu ouvido, assustando-a tanto que ela gritou. Algumas pessoas pararam para olhar. 

— Me larga, Carlos, me larga, eu te odeio, me deixa em paz — gritava ela já meio histérica, tendo saído do céu da esperança para cair no inferno da realidade.

Algumas das pessoas que pararam para olhar chegaram mais perto. Cena passional ao vivo era melhor que na novela das oito (a novela das oito ainda passa às oito?). Maria tentava se afastar e o grudento mais parecendo papel pega-mosca (essa é antiga, eu sei, eu sei).

— Larga da moça — uma voz firme e imperiosa interrompeu a agonia de Maria e o tatibitate insuportável de Carlos. — Larga da moça, eu tô mandando, vaza! 

Carlos, como bom amarelão que era, obedeceu. E vou logo adiantando que nunca mais apareceu na vida de Maria.

Seu salvador não se chamava Antônio — seria coincidência demais —, mas Otávio. E Otávio ofereceu-se para acompanhar Maria até o ponto do ônibus.

Sendo o amor uma força poderosa, logo estavam se gostando muitíssimo e querendo outros encontros. Quando ele disse que era policial, aí mesmo Maria se apaixonou. Quando, no entanto, ele disse ser policial civil, que não tinha exatamente um uniforme e que não poderia casar na Santa Cruz dos Militares, Maria apenas sorriu. 

Santo Antônio ajuda, mas você tem que ser flexível.



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quinta-feira, 22 de maio de 2014

MENSAGEM AO PASSADO >> Fernanda Pinho


Há algumas semanas, vejo pessoas compartilhando nas redes sociais uma pergunta que me intriga: “Se você pudesse enviar uma mensagem de apenas duas palavras para si mesmo quando mais jovem, o que escreveria?". Não ouso entrar na brincadeira pois me reconheço incapaz de enviar uma mensagem de apenas duas palavras para quem quer que seja.  Muito menos para minha versão mais jovem que, possivelmente, é a pessoa para quem eu mais tenho vontade de dizer coisas. Muitas coisas. Talvez, mais apropriado seria escrever uma carta.

Querida eu,

Em primeiro lugar, informo que talvez você não tenha me encontrado num bom dia. Estou levemente irritada, já que estou há dias vivendo a base de suco de soja, queijo cottage, pão integral e outros alimentos que estão muito, mas muito longe de serem os meus preferidos. Considerando que tenhamos a possibilidade de reajustar as coisas, o que você poderia fazer para evitar que eu chegue nesta situação é: parar de comer. Ou simplesmente parar de comer tanto e  de repetir como uma mantra que você precisa engordar. Moça, você deu entrevista para a televisão falando sobre suas dietas de engorda. Acredite, você não precisa disso!

Pare de pesquisar sobre dietas ultracalóricas. Em vez disso, use seu tempo para, por exemplo, praticar o espanhol. Isso vai evitar muitas discussões por falhas de comunicação no seu casamento. Sim, você irá se casar com uma pessoa de língua espanhola, que você ainda não conhece. Ou seja, não precisa ficar tão abalada se aquele cara pelo qual você se supõe estar apaixonada disser que “não curte Milton Nascimento porque não é fã de música clássica”. Tranquila, você não vai precisar ouvir essas frases estapafúrdias pelo resto da sua vida.  Esse cara vai passar. E todos os outros também.

Leia mais. Quanto mais o tempo passar, mais haverá livros para serem lidos e maior será sua angústia por não conseguir ler todos eles. Aproveite que agora você tem mais tempo. Sim, querida, você não sabe nada sobre o que é ser ocupada de verdade. Leia, assista filmes, escreva. E não delete seu blog a cada vez que você terminar um relacionamento. Você irá morrer de arrependimento por isso. 

Se você quer fazer vídeos para seu blog, saiba que é uma ideia supervanguarda e que, agora, onde eu estou, todo mundo faz.  Se você quer mesmo fazer outra faculdade, tem que ser agora.  Volte a usar aparelho nos dentes. Não insista em ler num ambiente semi-iluminado. Não desista de dirigir.

Esquece essa história de medo de avião. Sabe essa caixa de Rivotril que o médico te receitou para viagens? Não vai servir pra nada. Aprenda rápido que medo só se supera com enfrentamento e pare de sofrer à toa. Pare também de repetir que jamais teria coragem de sobrevoar a Cordilheira dos Andes.  Saiba que o marido de língua espanhola é chileno e você vai viajar para o Chile mais que para qualquer outro lugar dentro do próprio Brasil.

Anota mais essa: ironia pouca é bobagem.

Sem mais para o momento.

Você

P.S.: Leia com carinho e, de preferência, desconsidere todas as minhas sugestões. Foi por você ter agido como você agiu que eu me tornei quem sou hoje. E, honestamente, eu curto muito essa versão.


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quarta-feira, 21 de maio de 2014

SUPERFÍCIES >> Carla Dias >>


Colecionador dedicado de amores vãos, ultimamente anda por aí arrastando silêncio, jurando em pensamento, e em nome de todos os santos, que vai mudar.

Prometeu a si, em momento de rendição — e de esvaziamento de uma garrafa de seu vinho da preferência —, que deixará de ser a pessoa que se acostumou a assumir o cargo de espectador de felicidade alheia.  Na sua cabeça, enxerga a si como um cavalheiro apto a vencer acirrada batalha. Mas dê-lhe cinco minutos, talvez menos, que ele vergará ao suspiro do desolamento, que não foi criado pela sua tia, por parte de pai, para ser homem desonesto com o sentimento.

Ele se sente extremamente desconfortável com a sua realidade. Sonhou em se tornar esportista, e então radicalizar e escalar o Monte Everest. Assim teria uma fotografia que poderia dispor, orgulhosamente, em porta-retratos presenteado pela tia-mãe, ocupante de seu criado-mudo. Um desejo assim, ousado para um homem que se acostumou a trabalhar sentado a uma escrivaninha, fazendo contas para que outros possam ficar com as contas em dia, tem por destino se tornar uma saudade profunda do que nunca aconteceu, e nem acontecerá.

Há dias em que se sente quase feliz. Levanta-se da cama sem se arrastar, como de costume. Há uma eletricidade em seu corpo, uma inspiração incógnita em seu espírito, que lhe dão disposição para gastar algumas horas a fazer coisas que não fazem parte da sua rotina. A sensação dura uma hora, uma hora e meia no máximo. Logo está de volta a sua casa, depois de uma caminhada de menos de meia hora, e arrasta-se de volta à cama, ficando por lá, até anoitecer.

À noite, depois de um dia desses, ele se sente mais à vontade com a vida. Levanta-se, prepara um jantar requintado, enquanto aprecia um bom vinho, escuta o jazz e rumina pensamentos insólitos. Cozinhar é para ele como abrir as portas, as janelas e as pernas da percepção. Daí que liga para a moça que conheceu outro dia, pessoa agradável, mas de quem o nome não lhe agrada, então prefere esquecê-lo e chamá-la “meu bem”, deixando-a feliz ao confundir a escolha dele com afeto. À noite, depois de um dia desses, ele pensa que conseguiu passar a perna na solidão. Só que basta amanhecer, logo ele arruma um jeito de a moça tomar seu rumo, que precisa trabalhar. Funcionário que é de escritório em sala de estar, horário comercial para lá de flexível.

Colecionador de perplexidades, ele se sente aviltado com a violência espalhada pelo mundo. Sua mãe-tia, já na idade do adeus, vive a lhe dizer que violência mesmo é acreditar que sabemos de tudo, que temos as respostas para as questões importantes, que denotam mudanças. Para ela, somos menores do que supomos, mas nem por isso, menos importantes. Menores porque somos parte de um plano maior, que não é de Deus, que a tia-mãe é adepta do ateísmo. É do universo, desse panteão cósmico que nos abriga, enquanto não fazemos sentido algum, até alcançarmos nosso destino e vivermos por um breve momento o sentimento de interação com o universo, e que temos o mau hábito de chamar de felicidade, quando na verdade, é autoentendimento efêmero. Depois de acontecido, vivemos do desejo de nos sentirmos daquele jeito novamente. Vivemos do desejo.

Ele é mais lógico, que acredita que desacreditar em Deus é uma forma de endossar a sua existência. Acaba que acredita mesmo é nas suas planilhas, que nunca erraram na conta de um cliente que fosse.  E em lista de supermercado, que é dos poucos a utilizá-la de cabo a rabo, sem deixar de comprar um item que seja, mesmo que tenha de substituí-lo por um equivalente.

Quem o observa de fora, acaba por enxergar um ótimo executor de tarefas, pessoa centrada, que gosta de objetos alinhados sobre a escrivaninha, enquanto executa a profissão de contador.  O que não sabem é que não demora até que ele, homem bem trajado para trabalhar em sala de estar própria, pare de pensar em números, entradas e saídas e impostos para pensar na vida. E que miudeza ela tem. Que seu espírito vem se espremendo nos acontecimentos para não tirá-lo da linha. Que foi educado para ser um homem capaz de fazer muito bem seu trabalho, pagar suas contas e cometer um ou outro pecado, dignos de perdão automático.  Ainda assim, de acordo com esse manual, ele deveria se deitar e dormir tranquilamente. Não pode dizer que seja o sono dos anjos, que ele não é religioso. Mas certamente ele merece o sono dos justos. Ou não?

Talvez nós estejamos equivocados, eu e a tia-mãe-tia dele.  Talvez não se trate de um colecionador de amores vãos, e seu silêncio arrastado seja apenas badulaque de confissão.  Talvez ele acredite em Deus, até faça o sinal da cruz ao passar em frente às igrejas, e em escalar o Monte Everest, não para ter foto em porta-retratos, mas sim para ter uma história espetacular para contar. Talvez não para seus filhos, que não consegue se imaginar colocando rebentos no mundo com a única pessoa que lhe atende quando a carência grita; que seria péssimo fazer filhos com uma mulher de quem ele desaprecia o nome. Chamá-los como? “Crias minhas?”.

Talvez ele seja apenas alguém em busca de um sei-lá-o-quê. E pessoas em uma situação dessas tendem a transitar entre a realidade e a imaginação. Talvez ele goste da solidão, da raridade dos seus apreços, da contemplação a distância, ou espere que Deus o guie e o ensine a acreditar Nele, na Sua mágica. Talvez não diga o nome da moça simplesmente porque lhe dói dizê-lo se ela não está sempre por perto, tornando o ato uma consequência da saudade.

A verdade é que nem eu, tampouco a mãe-tia-mãe temos acesso às jornadas interiores dele. Que mesmo debruçado na escrivaninha, sobre planilhas, e manuseando calculadoras, fazendo anotações, podemos observá-lo, mas não decifrar seus pensamentos. Lidamos com superfícies ao desejarmos o mergulho.

Imagem © freeimages.com

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terça-feira, 20 de maio de 2014

FAMOSO QUEM? >> Clara Braga

Eu tenho um vício, amo assistir premiações! Não interessa se é brasileira ou não, se é de cinema ou se é de música, se tem alguém de quem eu gosto concorrendo, se é reprise ou ao vivo, não interessa, eu gosto mesmo é de assistir. Não esperem que eu explique, aliás, nunca esperem que alguém explique um vício. Essas coisas são assim, quando a gente percebe já está assistindo a terceira reprise como se fosse ao vivo e torcendo na esperança de que algo mude, mesmo sabendo que não vai mudar.

Sim, esse meu vício é antigo, mas confesso que algumas coisas mudaram. Antes eu mal sabia o nome dos atores que estavam concorrendo ao Oscar e não assistia nem metade dos filmes mais falados. Mas se me perguntassem quem estava concorrendo na categoria de melhor cantor do MTV Music Award, eu não só te dava a lista completa como explicava o porquê da probabilidade de fulaninho ganhar e fulaninho perder.

Hoje em dia participo de tudo quanto é bolão do Oscar e tenho me saído muito bem, mas assistindo ao Billboard Award essa semana percebi que não conheço mais ninguém da música estrangeira! Claro, conheço o Justin Timberlake, porque torcia contra o *NSYNC nas premiações antigas, mas devo admitir que ele melhorou muuuuuuito! Conheço também a Hanna Montana, que finge que não é a Hanna Montana, mas só por causa das loucuras dela mesmo; se me pedir pra cantar uma música, eu tô enrolada. Enfim, de resto, sempre que anunciavam a mais nova sensação da música que estaria ali fazendo uma apresentação ao vivo, eu me perguntava: Quem?

Mas é nessas horas de ignorância que a gente percebe que o vício é sério. Mesmo sem saber de quem se tratava, quando esses famosos desconhecidos ganhavam o prêmio, eu ficava emocionada com o discurso deles! Ah gente, vai dizer que discursos de premiações não são emocionantes? Claro, como tudo na vida, tem suas exceções.

Bom, o que importa é que lá pelas tantas vem a tecnologia e me salva da minha leve ignorância. Apresentação em holograma do Michael Jackson. Pode parecer besteira, mas se trouxessem para o Brasil um show inteiro dele em holograma, acho que eu iria e ainda curtiria como se ele estivesse ali de fato. Mas tenho que admitir, melhor que o holograma do Michael Jackson, só o holograma do Rick Martin… de onde desenterraram aquele homem?


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segunda-feira, 19 de maio de 2014

SODAMA IV >> Albir José Inácio da Silva

Seu Ernesto lamentou o desaparecimento de “tão aguerrido adversário” e redobrou seus esforços de campanha.

Era hora de voltar às ruas, de onde saíra depois de ouvir até xingamentos provocados pelo discurso de ódio de Manassés. Sacudiu a poeira pra retomar passeatas, santinhos, doações e entrevistas. Puxa-sacos, jagunços e desocupados foram arregimentados para a empreitada. Voltaram os elogios e os tapinhas nas costas, os filhos eram trazidos para a bênção do Seu Ernesto. Gentinha mais sem-vergonha!, pensou ele.

Dessa vez só não podia haver faixas e cartazes no Sodama. Precisava cortar os laços que ainda o ligavam àquele lugar. Assumiu novo gerente, um tal de Lucão, pessoa de sua confiança, suficientemente discreto para não lhe causar embaraços.

As meninas é que não iam bem. Aumentavam os rumores de que a casa seria fechada e agora elas tinham aquele gorila como gerente. Qualquer reclamação de cliente e ele multava, o que fazia aumentar a eterna dívida das meninas. Além disso, nos corretivos, não era tão cuidadoso quanto Seu Ernesto, e as meninas viviam com manchas roxas que às vezes a maquiagem não disfarçava.

Seu Ernesto nem no sábado aparecia mais para fazer sala aos clientes Vips. Quando queria lá suas saliências, passava pela barbearia e se esgueirava até os quartos. Mas isso era cada vez mais raro. Ele arranjou noiva na cidade e quase já não usava as meninas. O único prazer de que não abria mão, e que não sabia ainda como ficar sem aquilo quando o Sodama fechasse, era o sótão.

A história do sótão começou há anos. Seu Ernesto sempre subia ali para guardar umas tralhas e desocupar espaço na casa. Uma vez, quando já ia descer, percebeu uma réstia de luz que subia do assoalho. Deitou-se no chão e viu, lá em baixo, uma cena que disparou seu coração. Ernesto descobriu uma coisa melhor do que fazer: assistir. Naquela noite só desceu do sótão depois do último cliente. Desde então, toda semana sobe com seu uísque e se acomoda no colchonete.

Quando Lucão saiu para as compras na cidade, a reunião começou. Leninha, a mais velha, fez triste balanço da situação. Aumentavam os boatos de fechamento do Sodama; Seu Ernesto desaparecera dali e só vinha escondido, nos finais de semana, para o sótão; se com ele era ruim, com o novo gerente a coisa tinha piorado muito; já se via no olho da rua, expulsa a pontapés, como aconteceu da outra vez. Deinha levantou a mão:

— Nós ainda temos as fotos!

Deinha era a mais discreta das moças e estava no Sodama há poucos anos. Chegou ainda menina, depois que o pai a jogou na rua porque se perdeu com um playboy. Era a preferida do patrão, até que chegou uma mais nova. Foi Deinha quem descobriu o segredo de Seu Ernesto. Um dia quando ele desceu, já de madrugada, ela foi ao sótão e viu, ao lado do colchonete, a luz que subia do quarto. Dali fez muitas fotos de celular, durante meses, não só de Seu Ernesto, mas de vários figurões da sociedade municipal.

Na época decidiram, ela e as outras, que aquilo serviria para pressionar Seu Ernesto a aumentar o valor recebido por programa e perdoar algumas dívidas, que não conseguiam pagar por causa dos juros. Esperavam uma oportunidade para isso, quando sobre elas se abateu aquele pesadelo. Era o momento.

Da varanda da casa nova, Ernesto observava o Sodama. Que destino dar ao sobrado depois das eleições? Foi arrancado de seus pensamentos quando viu as mulheres atravessando a rua e parando em frente ao seu portão. Ai, ai, ai, ai, ai! Deu confiança demais para aquelas vadias.

(Continua em 15 dias)

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domingo, 18 de maio de 2014

DE MARÉ, MARÉ, MARÉ >> Eduardo Loureiro Jr.

Minha resolução de ano novo foi ser mais natural: comer mais frutas, verduras, grãos; trocar ambientes artificiais pelo contato direto com a natureza; locomover-me menos a motor e mais com a própria energia de meu corpo. O objetivo está sendo realizado a contento, mas essa semana descobri um efeito colateral...

Percebi-me alternando períodos de ânimo com períodos de desânimo, dias tristes e dias alegres. Não é de hoje que tenho uma certa tendência para o transtorno bipolar ou, usando uma denominação mais antiga, para a psicose maníaco-depressiva. Mas esses próprios nomes, tão pomposos, não seriam apenas uma expressão desse nosso distanciamento científico em relação à natureza? Pois o que tenho sentido, nesses tempos recentes, é que essa alternância de ânimo e de temperamento não é uma mudança brusca e imprevisível, mas um movimento contínuo e cadenciado. Ocorreu-me que talvez se trate de uma maré interna.

Levei muitos anos para saber de que se tratavam as marés marítimas. Se houve explicação em meu tempo de colégio, não recordo. O mar só entrou pra valer em minha vida quando eu já era adulto. Foi quando comecei a caminhar na praia, há dez anos, que descobri que o mar tem duas marés baixas e duas marés cheias por dia, alternando-se a cada seis horas aproximadamente. A altura das marés também varia. Existem marés baixas que ficam realmente ao nível do mar, mas há outras que têm um metro de altura. E também as marés cheias variam bastante seus picos, normalmente entre dois e três metros de altura. O mar seria, então, o psicótico maníaco-depressivo por excelência. Entre uma maré e outra, ele ficaria “normal”, mas sempre uma normalidade que tenderia para a depressão ou para a euforia.

Mas para que patologizar as marés, a dança de roda do mar, se posso naturalizar o meu drama de inconstâncias? Por que não aplicar a mim mesmo o olhar perplexo e apaixonado que lanço ao mar? Por que não aceitar este fluxo que me faz descer e subir, descer e subir, continuamente? Por que não aproveitar a areia úmida e batida das minhas baixas marés para longas caminhadas contemplativas? Por que não permitir a ressaca agressiva e criativa das minhas marés cheias? Eu também deixo fios de espuma e conchinhas na areia quando me recolho. Eu também formo ondas surfáveis quando me expando. Eu também devolvo à praia parte do lixo que em mim despejaram, enquanto purifico outro tanto de impurezas. Eu posso despertar medo e encanto. Eu posso dar caldos e fazer piscininhas. Eu posso me escurecer com as nuvens, me acender com a Lua e resplandecer com o Sol. Eu posso ser o lugar mais quente quando a chuva arrepia em frio. Eu posso refrescar o corpo banhado de suor.

A naturalidade que intencionei para meu ano novo não quis ficar apenas fora de mim. A alimentação e os ambientes naturais me fizeram lembrar da verdade de que eu também sou natural, eu também sou natureza. E assim como a natureza é variada em suas formas, cores e movimento, assim também sou eu: possuo uma unicidade de vida que se manifesta de forma particular, se assemelhando aqui e acolá a outros elementos da natureza, como o meu amado mar.

Além de consultar a tábua de marés oficial, estou agora a observar minhas próprias marés para ver se é possível definir uma tábua, um calendário, que seja útil para mim mesmo e para as pessoas que têm que conviver com meu interno mar bravio. Pois sou pobre, pobre, pobre, de maré, maré, maré. E sou rico, rico, rico de maré de mim.

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sexta-feira, 16 de maio de 2014

EU NÃO SEI! >> Paulo Meireles Barguil

Descobri, há pouco tempo, quão libertador é poder dizer "Eu não sei!" com convicção e sem qualquer vergonha.

É verdade que, para um professor, essa declaração pode, a depender do contexto, ameaçar sua reputação, a qual foi construída com muito estudo e renúncia. Por isso, eu só recomendo proclamá-la após o estágio probatório ter sido aprovado, no caso de servidor público. Para os que lecionam no sistema privado, recomendo que se acautelem na verbalização da mesma!

Comparo-a a um mantra (do sânscrito Man, mente, Tra, controle), que deve ser repetido pelo fiel várias vezes, com objetivos múltiplos: meditar, energizar, adormecer, acordar...

No meu caso, acredito que essa oração se constitui num divisor de águas: tal como Moisés que, após tantos anos de escravidão, atravessou o Mar Vermelho fugindo do exército egípcio, ela me conduzirá à terra prometida.

Para um aprendiz de cientista, que adora brincar de entender a vida, as pessoas, o mundo, essa admissão poderia soar como a desistência de seu folguedo predileto.

Imagino, contudo, que estou começando a entender o que Sócrates quis ensinar quando admitiu: "Só sei que nada sei!".

O desejo e a capacidade de aprender são sagrados e se deve expressar gratidão ao Universo por nos ter concedido tais bênçãos.

Na intenção de ter uma existência mais plena e diminuir os seus medos, o Homem busca controlar e prever a natureza, ampliando suas fronteiras epistemológicas.

É fácil constatar que o conhecimento é fonte de poder. O Homem decide se vai usá-lo em prol da vida ou da morte...

Para que uma pessoa encontre a luz, é necessário que ela admita que no escuro está. Oxalá que cada descoberta propicie o incremento da alegria e da confiança em cada um de nós.

A quem me indaga se acredito que encontrarei o meu Oásis, eu respondo:

– Eu não sei!

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quinta-feira, 15 de maio de 2014

SOFÁS, SONHOS E (ZERO) LOUCURA
>> Mariana Scherma

Das frustrações da minha vida: eu nunca me lembro dos meus sonhos. Não estou me referindo aos sonhos de vida, como ganhar na Mega-Sena e ser vizinha do Adam Levine pra vê-lo todo dia passeando sem camisa com o cachorro. Falo dos sonhos de quando dormimos mesmo, do nosso subconsciente em ação. Tem gente que perde vários minutos do dia contando histórias que nem a melhor das imaginações poderia criar. Aquele tipo de história de filme louco francês que você só dá conta de pensar “ahn?”. Eu nunca tenho esse tipo de relato maluco pra contar. E, veja bem, eu amo contar uma história doida.

Uma vez, ao entrevistar uma médica psiquiatra que estuda o sono, fiquei sabendo que todo mundo sonha, sem exceção. A diferença é que as pessoas que podem se gabar de contar suas aventuras oníricas acordam várias vezes à noite e, aí, o cérebro acaba relembrando algumas partes do sonho. As pessoas, como eu, que não têm meia frase de loucura pra contar quando acordam, devem esse fato ao sono profundo. Não acordam na madrugada, não têm história pra contar no trabalho no dia seguinte. Simples assim.

Sempre que alguém me conta um sonho louco fico imaginando a alma dessa pessoa vagando por aí, indo pra outro país e voltando na mesma noite. Reencontrando gente morta. Descobrindo ETs. Tá, eu sei que os sonhos são todos frutos do nosso cérebro maluco, mas acho mais romântico pensar em almas errantes. Porque as almas podem tudo, certo? Meio como se existisse um mundo paralelo onde tudo é permitido, onde todas as almas se encontram e vão à farra. Menos a minha, que prefere ficar dormindo sem se soltar do meu corpo. Adoraria que ela fosse mais desprendida, mais porra-louca. Mas não, ô alma certinha do caramba.

Essa noite, por exemplo, até acordei de madrugada e me lembrei de um princípio de sonho. Estava numa loja de sofás escolhendo a cor do meu sofá novo. Veja bem, trocar o sofá já está na minha lista de coisas-a-se-fazer-até-o-fim-deste-ano. Zero loucura aí. Poderia dizer que a doideira foi a cor que escolhi, um pink meio néon. Mas, pra quem já tem um sofá verde-limão, até que essa cor é previsível. O que me entristece: de todos os lugares do mundo, de um show histórico do Nirvana a uma viagem à Rússia durante a Guerra Fria, minha alma foi escolher justo a loja de sofá a algumas quadras aqui do meu apartamento. Frustração define.

Meu pai disse que esse meu sono profundo e contínuo se deve a minha tranquilidade interior, coisa de gente pura, que não deve nada a ninguém, que pode encostar a cabeça no travesseiro e descansar. Blábláblá. Eu quero encostar a cabeça no travesseiro e viajar. Eu quero me assustar com tudo o que se esconde nos cantos obscuros da minha mente. Eu quero ser essas jornalistas que acordam com uma ideia pra um livro e ficam milionárias com uma saga. Mas meu subconsciente só alcança a loja de sofás mais próxima. Tão normalzinho. 


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quarta-feira, 14 de maio de 2014

AQUELE SONHO E AQUELA MÚSICA DO LED ZEPPELIN
>> Carla Dias >>



Noite passada, sonhou que estava bem longe do seu apartamento de quarto, sala, cozinha, banheiro e minúscula área de serviço, situada no centro de bairro pelo qual se apaixonou há quase duas décadas. Sonhou que seus pés pisaram neste lugar que tinha como quintal o mundo, e inteirinho, espaçoso, com direito à grama verdinha e uma vista de inspirar suspiros.

Acordou do sonho, estava pronta para fazer as malas e se mudar para aquele lugar. Onde seria mesmo? Ah, que a memória anda capenga, com tantos dados, estratégias a serem analisadas e aplicadas, relações diplomáticas a serem sustentadas por positivismo decorado de lista com as principais frases de autoajuda.

Quando foi mesmo que a vida ficou entremeada com armadilhas?

Ao comentário recorrente “o tempo anda passando tão depressa”, nunca deixa de dizer o que pensa a respeito, talvez em uma tentativa de justificar o tanto de tempo que dispensa com o que talvez não mereça assim tanta atenção. Para ela, não é o tempo que anda passando depressa, mas nós que só fazemos é acumular funções, profissionais e pessoais, que mal cabem nas vinte e quatro horas do dia.

Só sabe sossegar a cabeça assistindo novela, que é calmante para os muitos pensamentos que a assaltam, quando bate cartão em casa, depois de um dia com lista de afazeres não concluídos. Chá de camomila ajuda, mas não nesse calor que só a faz rezar para que o inverno chegue logo, que o frio sempre a faz se sentir mais feliz.

Durante uma cena, muito mal dirigida, por sinal, da novela-calmante, ela se desliga do agora e tenta acessar o tal sonho. A curiosidade sobre que lugar era aquele, onde ela se sentia pertencente ao universo, e não apenas à lista de clientes da tevê a cabo, dos fadados a receber telefonemas do telemarketing, diariamente. Outro dia, a atendente perguntou por ela em um tom tão íntimo, que ela pensou que fosse uma amiga, e respondeu um “há quanto tempo!” todo saudoso. A moça continuou no engano, mas somente durante o cabeçalho do texto decorado. Bastou entrar no assunto “a senhora foi selecionada para ser beneficiada pela promoção...”, que ela amiudou, pediu desculpas e nem esperou a insistência da atendente para desligar o telefone. Não é de desligar telefone na cara de ninguém, mas a atendente passou do limite.

Foi para a cama mais cedo, mas não sem antes deixar a iluminação do quarto aprazível, acender um incenso – mirra, sempre – e colocar um CD que veio de brinde em uma revista de meditação, que ela ganhou por ter feito mais de R$ 300,00 em compras no supermercado. Aliás, ela comprou quase nada nesse dia, e pensa em como a vida anda cara.

Acontece que o sono foge dela, que apaga a luz para ver se isso a ajuda a dormir, que tem reunião amanhã cedinho, precisa estar bem vestida e com o sorriso a tiracolo, as palavras afiadas e o charme decorado. Daí que se irrita com a música de meditação, pega os fones, para escutar música e abafar o barulho dos meninos do skate da madrugada, que aproveitam a rua vazia para treinar as suas manobras e endoidecer os que precisam dormir. “When The Levee Breaks” não é canção de ninar, mas Led Zeppelin é tão bacana que ela prefere ficar acordada em boa companhia.

A reunião segue, com cada um dos presentes defendendo a sua parte do negócio. Ela está distraída, que passou a noite em claro, tentando se lembrar do sonho, que já começa a pensar ter sido uma memória, que ela sente o cheiro da terra, quando a chuva cai, e escuta o vento se esticar rumo ao horizonte. E quando alguém lhe pergunta sobre o que dizem as estatísticas, ela o encara, em silêncio. É que, neste momento, a única coisa que reverbera em sua cabeça é a música do Led Zeppelin.

Ela sorri para pessoas que não entendem sorrisos quando precisam da seriedade para endossar profissionalismo. Ela sorri, porque se é para dar branco, que seja com uma música do Led Zeppelin de trilha sonora.


WHEN THE LEVEE BREAKS - LED ZEPPELIN



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terça-feira, 13 de maio de 2014

SERÁ QUE EU VOU? >> Clara Braga

Essa semana li uma notícia que me fez rir de nervoso. Governos internacionais alertam seus cidadãos: se forem para a copa no Brasil, levem separado o dinheiro do assaltante. É sério isso? Só esse alerta seria o suficiente para eu pensar várias vezes antes de tomar a decisão de vir para a copa. Imagina se eles fossem alertar outras coisas como...

Caso seja assaltado, cuidado com o policial com quem você vai falar, ele também pode ser um assaltante.

Não ande com joias, máquinas fotográficas, colares, anéis, nem nada que possa chamar muita atenção. Mas também não ande completamente desarrumado de forma que possa parecer um provável assaltante, pois se os tais justiceiros da rua decidirem que você pode oferecer risco, podem te espancar até a morte.

Nunca ande sozinho. Mas evite grupos grandes, pois vocês podem ser surpreendidos pela polícia e sofrerem agressões ao serem confundidos com manifestantes ou com um grupo que está fazendo um rolezinho.

Não faça compras, no seu país tudo é mais barato.

Embora o Brasil seja um país tropical, ainda que você sinta muito calor e seja do gênero feminino, evite roupas curtas, podem achar que você está literalmente pedindo para ser estuprada.

Bom, depois de todos esses alertas, acho que ainda teria um último comentário pertinente que os governos poderiam fazer para aqueles mais incrédulos: a copa acontecer no seu país costuma ser motivo de alegria, de orgulho. Se muitos brasileiros estão fazendo campanhas pedindo para que não aconteça a copa, algo deve estar errado por lá.

Enquanto isso, nós brasileiros temos que nos manter alertas e lembrarmos que não é errado assistir ao jogo ou gostar da copa, muito menos é errado ir para as ruas se manifestar ou se manifestar de um outro jeito que não seja na rua. Errado mesmo é reclamar da situação e não tentar mudar as atitudes na hora de ir para a urna.

Para aqueles desavisados ou mais esquecidos: esse ano também é ano de eleição, e os políticos já avisaram que não se importam com a opinião pública, pois se reelegem de qualquer forma.

É Brasil... 


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segunda-feira, 12 de maio de 2014

COURO DE LOBISOMEM >> André Ferrer

Quando surgiu no cenário internacional, Lula causou certo movimento na imprensa. Trataram-no mesmo como uma versão tropical do Lech Wałęsa. Um prato cheio para a eterna campanha política do PT no Brasil. Hoje em dia, está claro que foi mais pelo exotismo da figura do ex-presidente do que pelo seu conteúdo. Quem vai às fontes originais, na imprensa internacional, e sabe filtrar as mentiras e distorções incorporadas às notícias vindas de fora, está consciente de que se tratou de uma chuva de verão.

Recentemente, Lula foi a Portugal, onde declarou que o Poder Judiciário brasileiro conduziu o julgamento do Mensalão de forma duvidosa. “O tempo vai se encarregar de provar que no mensalão você teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica” disse à emissora de TV RTP.

Algumas semanas depois, no mesmo programa e no mesmo canal, Ney Matogrosso criticou o governo brasileiro e, principalmente, os caminhos escolhidos para o tão propalado combate à pobreza.

Na opinião dele (que, hoje em dia, não é uma exclusividade da direita), os programas sociais do PT poderiam atender por outros nomes. Para Ney (e para muitos brasileiros), o Bolsa Família é uma política de troca de favores e, jamais, uma relação cidadã envolvendo direitos e deveres.

As declarações do cantor em Portugal incomodam porque têm peso. Trata-se de um artista respeitado na América Latina e em todos os países lusófonos. Tem uma carreira respeitável e legítima, baseada na sua voz, na sua presença de palco, no seu grande talento interpretativo. Neste caso, é um discurso verdadeiro feito por um mestre da encenação. No caso de Lula, a interminável e mal-ajambrada encenação de um político profissional. Aliás, o tipo de encenador sem talento algum, que interpreta os piores roteiros escritos pelo pessoal do marketing partidário.

Nessa linha de raciocínio, Ney Matogrosso é de longe mais confiável e seria ótimo que as personalidades do nosso país tomassem os seus devidos lugares como formadores de opinião. De maneira responsável e verdadeira, é claro, como fez o cantor. Nos palcos do meio artístico e nas bancadas do telejornalismo, fala-se muito dessa responsabilidade, porém o que mais se vê e o que mais se escuta é pura hipocrisia.

Quanto ao Bolsa Família, programa criticado pelo cantor na entrevista à emissora portuguesa, a obrigatoriedade de manter filhos na escola depende de fiscalização. Há fiscalização? Há muitos direitos e poucos deveres nesse caminho duvidoso para a erradicação da pobreza que, da forma como existe, mais parece um eficiente sistema de compra de votos. Uma ilegalidade disfarçada de programa social.

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domingo, 11 de maio de 2014

A VOLTA >> Whisner Fraga

Depois de uma semana fora, me lembrei que não há melhor lugar no mundo do que minha casa. Viajar é bom, conhecer lugares novos é ótimo, mas parece que a estrada só serve para nos mostrar que a saudade exige que retornemos. Até Helena não aguentou e hoje pediu para vir embora. Como é dia de Parada Gay, decidi que sairíamos bem cedo, para evitar um possível congestionamento.

Na altura do quilômetro 80 da Rodovia Bandeirantes, porém, surgiu uma enchente de carros e motos. Como o plano era uma parada no Posto 56 para um almoço, ponderei que ainda poderíamos escapar. Cabeça fria. Paramos, enchemos o tanque, esticamos as pernas. E seguimos para o restaurante. A comida é boa, mas muito cara, como de praxe em todo estabelecimento de beira de estrada.

Saímos da Flipoços para a casa dos sogros. Em Poços, tive a oportunidade de me reconciliar com a literatura. Vinha meio arredio. Vocês sabem, né, o Brasil não é nem de longe o país das letras e, lá fora, ninguém se interessa muito pelo que escrevemos. Somos o país do futebol, dos movimentos dos sem-terra, sem-teto, sem-emprego, o país da copa, das olimpíadas e da corrupção. Nada animador.

Mas quando eu redescubro que há uma meia-dúzia de gente neste país que se interessa por um bom debate, acabo me rendendo. Foi o que encontrei na pequena e bela cidade do sul de Minas Gerais. E consegui ler vários trabalhos inéditos, que venho preparando ao longo destes anos. 2013 foi um ano de pouca produção, pois houve uma mudança um tanto radical em nossa vida. Parecia haver tanta coisa mais importante no mundo do que escrever que abandonei a caneta por um tempo.

Mas 2014 está sendo surpreendente. Trabalho, a todo vapor, em um romance, que ainda não sei quando vai terminar, pois escrevo, escrevo e escrevo, mas não encontro um ponto final. A história vai se reinventando. Consegui terminar, logo em janeiro, um livro de micro e minicontos, que se chama Lúcifer e outros subprodutos do medo. Os microcontos, em especial, fizeram sucesso na festa literária. Cito um, cujo título é “Câmbio”:

Uma imagem vale 2056,8 palavras.

De volta, os gatos vêm nos receber e o grito costumeiro de Helena ecoa pela vizinhança paulistana, agitada, impaciente: Bichos, bichos! É a alegria de estar de volta na parte que lhe cabe deste latifúndio. Corre para seu quarto e tira todos os brinquedos da caixa, pois deseja averiguar, conferir se todos ainda estão lá. Nada é mais lógico nesta existência do que nossas raízes.



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sábado, 10 de maio de 2014

SOBRE LENÇOS DE PAPEL E ARMÁRIOS >>
Cristiana Moura

Tirei rápido a mão da bolsa. Ai, ai, ai. Uma bagunça. Mão e bolsa meladas por uma pomada cujo tubo se perdeu da tampa.

— Ana, você com essa bolsa grande tem guardanapo, papel higiênico, lenço de papel ou algo assim?

— Tenho lenço de papel. É que sempre alguém chora perto de mim.

Nesse instante, deixei de ouvir a música e a multidão do show. Sua fala me encantou daquele jeito que só os pequenos acontecimentos que alteram o fluxo da respiração e do cotidiano são capazes de encantar. E ela continuou:

— Em qualquer lugar, no trabalho, num passeio, sempre alguém chora perto de mim. Então eu trago os lencinhos.

Quase choro também de uma emoção leve e livre que borbulhou entre o esôfago e a face. Senti, por dentro, um sorriso daqueles que são fruto de cócegas bem vindas, me fazendo acreditar que, se as lágrimas tivessem escapulido, teriam virado bolhas de sabão.

Não, não chora! Põe um sorriso neste rosto! Vai chorar agora? Aqui não, não, não chora. São frases que se diz e que se ouve. Por vezes, vêm junto com cafunés. Ah, é que a gente quer ver feliz quem a gente ama — já me retrucaram enquanto escrevo. É fato e não nego o desejo de ver sorrisos nos rostos amados. Mas talvez não saibamos o que fazer com as lágrimas. Parece-me que ficou difícil conviver com alguma tristeza, alguma angústia, aquela dor que nasceu agora ou que é antiga e acordou.

Esta semana uma moça me disse mais ou menos assim: "E por que não posso estar triste? Por que não posso sentir solidão? Quero meu direito de chorar, de me angustiar com a solidão e ao mesmo tempo gostar dela. Não quero uma felicidade conveniente."

Nessa hora lembrei-me que Clara, filha de um querido amigo psiquiatra, quando era menina pequena, perguntou ao pai:

— Pai, o que você faz no seu trabalho?

— Eu trato das pessoas quando elas estão tristes.

— E por que as pessoas não podem ficar tristes?

Muito tempo depois, Clara foi estudar psicologia. Que bom — pensei —, ela sabe que as pessoas podem ficar tristes.

Esta semana, as palavras se emaranharam e a crônica ficou meio presa em mim. Hoje, acordei disposta a tomar emprestado ao tempo algum texto antigo. Em vez de escrever, comecei a fuçar num armário onde guardo muitos cadernos. Desde a adolescência ando com um na bolsa. Pequenos textos, anotações, desabafos, contas, listas de tarefas, projetos, desenhos — tem de um tudo nestes cadernos. Nessa procura vi que aquele espaço clamava por uma arrumação. Em vez de uma crônica para hoje, encontrei os segredos que gavetas, caixas e armários guardam. O lado de dentro do armário é um lugar de intimidade. Organizá-lo é também arrumar memórias. É inspirar e transpirar um tumulto de emoções. É cuidar do vivido e do cotidiano íntimo.

Quando choro, tem algo por dentro que é tristeza, noutras vezes é alegria. Quando choro, tem um algo por dentro que se arruma.

Ao tirar os lenços de papel da bolsa, Ana, sem precisar de palavras, diz: "Pode chorar. Pode arrumar o armário. Pode cuidar dos segredos. Pode."

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sexta-feira, 9 de maio de 2014

TRATO FEITO - PARTE II >> Zoraya Cesar


Paciência, eis a arma dos fortes, filosofava a loura Michelly. O plano que Jorge traçara para viver às custas do casal até o último centavo estava funcionando. Ela conseguira convencer o ex-marido de Heloísa que esta não era nenhuma santa e o traía há muito tempo, fora tudo um plano para ele sair de casa de mãos abanando. 

Heloísa estava mal. O atual companheiro só gastava e o ex-marido a perseguia, acusava e ameaçava, exigindo a divisão de bens – dos bens dela, bem entendido. Foi nessa época que lhe chegou às mãos um envelope, sem identificação, contendo diversos documentos e uma carta. Nela, o anônimo missivista revelava que Jorge era estelionatário escorregadio e perigoso, que já tentara matar uma de suas vítimas. A polícia procurava há tempos as provas que Heloísa agora possuía, junto com a oportunidade de vingar todas as mulheres que o miserável deixara na pobreza ou aviltamento.

Nervosíssima, ela entrou em contato com o aposentado advogado criminalista que cuidara dos interesses de seu pai, e levou-lhe os documentos. O velho causídico leu, releu, fez alguns telefonemas aqui e ali, e deu o veredito, sucinto e categórico:

 Minha filha, as provas são incontestes, esse Jorge é bandido da pior espécie. E seu ex-marido é uma besta, pois a tal Michelly é cúmplice.

Heloísa não acreditava na sua sorte madrasta. Casara com um banana, um frouxo, aproveitador, que na primeira oportunidade a largara por uma perua loura e agora tentava lhe extorquir dinheiro. Depois se amasiara com um estelionatário com tendências homicidas. Chorando muito, disse, resoluta:

 Quero me livrar dos dois. Definitivamente e para sempre  reiterou.

 Isso tem um preço alto, você sabe.

 Eu pago. Hoje, agora, o preço que for, quero esses dois fora da minha vida — foi uma nova Heloísa, firme, vingativa e artimanhosa a que saiu daquela conversa.

Jorge, malandro velho de muitos carnavais, nada percebeu. Ou porque estivesse mesmo ficando velho, ou porque ficara por demais crente na própria esperteza.

Pouco tempo depois a pacata vida do condomínio — já acostumado à estranha troca de casais — foi agitada pela chegada de dois policiais, que levaram Jorge preso, acusado de estelionato e tentativa de homicídio. Curioso é que ele nem chegou a esquentar na delegacia. Foi logo morto por um dos detentos, sem motivo aparente...

Em mais duas semanas, outro choque. Levada por uma denúncia anônima, a polícia vasculhou o escritório do ex-marido de Heloísa e lá encontrou sobejas provas de que ele não só burlava o Fisco e enganava o sócio, como também pretendia matá-lo e a Heloísa. Foi preso berrando ser inocente. Talvez até fosse, mas sua vida estava acabada (literalmente acabada, dali a alguns meses morreria atropelado por um carro não identificado). 

Heloísa se vira livre dos dois. Definitivamente. Para sempre. O advogado disse esperar que ela não se arrependesse do preço que pagou.

Não vou me arrepender, sorriu Heloísa. Definitivamente. Nunca.

E agora pergunto eu, perguntam vocês: acabou assim? Não. Essa foi uma equação deveras complexa, cujas variáveis — seres humanos — são por demais surpreendentes.

O que aconteceu, afinal? Aconteceu que há muitos anos, a ainda jovem Michelly caíra na lábia de Jorge e deu um golpe na firma na qual trabalhava. Os patrões não a denunciaram, mas a notícia se espalhou na pequena cidade. Sem ter saída e, ainda apaixonada, ela partiu com Jorge, ajudando-o em seus golpes. Só no dia em que o pegou com outra percebeu ser apenas um títere nas mãos dele, nunca o seu amor, como acreditara. Ameaçou ir à polícia, mas ele lhe bateu e apertou seu pescoço até quase o sufocamento. Nesse dia, Michelly fez um trato consigo mesma: iria se vingar e sumir, sem deixar rastros.

E, para ela, trato feito era trato cumprido.

Quando surgiu a oportunidade, agarrou-a. Mandou as provas incriminadoras para Heloísa e esperou. A paciência é a arma dos fortes, repetia, e, realmente, não perdeu por esperar. Quando Jorge morreu na delegacia, entendeu que algo estranho acontecera e que chegara a hora de partir, antes que a polícia viesse atrás dela. Exatamente no momento em que fazia as malas, a campainha tocou. Ela estremeceu. A polícia? Quem?

Heloísa. Languidamente parada à soleira, cigarro nas mãos, ar petulante, meio sorriso.

  Eu sei quem mandou o envelope — sussurrou. — Mandei examinar as impressões digitais.

Michelly empalideceu. Estava perdida. Iria para a cadeia por tanto tempo que, ao sair, não teria mais vida para viver.

 Não vim aqui pra te ferrar, vim fazer um trato. Se aceitar, a polícia nunca vai te pegar e você ganha um salário. Se não, pode se danar que não tô nem aí.

Michelly esperou. A paciência é a arma dos fortes.

Heloísa tragou mais profundamente o cigarro.

 Quero aprender a ser golpista. Não sei escolher homem e vida de dondoca é muito chata. Vou me divertir e ficar mais rica. Aceita?

Michelly sorriu. Estendeu a mão. Trato feito é trato cumprido.


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quinta-feira, 8 de maio de 2014

EFUSIVOS INCOMPREENDIDOS >> Fernanda Pinho

Já li vários textos escritos por pessoas introspectivas, manifestando para o mundo suas dificuldades e também as vantagens que encontram levando uma vida mais, digamos, recolhida. Naturalmente, são textos excelentes posto que grande parte das pessoas que desenvolvem a aptidão para escrever geralmente o fazem por isso: porque são introspectivos e descobrem na escrita uma forma de se expressar.

Por outro lado, dificilmente vejo alguém escrevendo alguma defesa às pessoas mais expansivas e é isto o que me trouxe à crônica de hoje. Não estou negando minhas origens nem nada. Sei que, num passado remoto, comecei a escrever – cartas, diários e histórias – porque tinha uma certa preguiça de me relacionar de outras formas com o mundo. Mas a preguiça passou, a genética entusiasmada falou mais alto, pendurei meu casulo e hoje acho que faço parte do grupo que estou chamando de efusivos incompreendidos.

Antes de falar da incompreensão, porém, preciso falar dos nossos sofrimentos. Pode parecer exagero usar a palavra “sofrimento”, mas sem exagero não há efusividade. Ficamos exageradamente empolgados com qualquer coisa e por isso somos frequentemente vítimas do famigerado balde de água fria.  Você se empolga para contar uma novidade para alguém, cria mil e um diálogos imaginários para ajudar a deixar o momento mais emocionante. Você passa meses planejando uma surpresa para alguém, praticamente tem que fazer um voto de silêncio para segurar a língua e não estragar o próprio plano. Você passa numa loja e vê um presente a cara de alguém, não pode comprar mas compra assim mesmo, parcelado no cartão e tudo e mais. E quando chega o grande momento de entregar a novidade/surpresa/presente para alguém, você ouve um: “ah, legal”.

Minha nossa! Nada pode ser pior. Quer dizer. Pode. Você pode mandar uma mensagem via Facebook, Whatsapp ou qualquer outro aplicativo de sua preferência cheia de exclamações e carinhas e a pessoa responder com um econômico “rs”. Ou um frio e calculista “ok”. E, sim, caros introspectivos, lendo os tantos textos sobre vocês, já entendi que isso não quer dizer que vocês necessariamente estejam indiferentes. Apenas são mais contidos em suas manifestações. Mas para nós que ficamos saltitantes até quando encontramos uma moeda de 25 centavos perdida no bolso de uma calça, é difícil de entender.

Assim como muitas pessoas também não entendem por que nos entusiasmamos por tão pouco, por que puxamos assuntos com qualquer um, por que sempre queremos participar da conversa, por que enchemos nosso Facebook de fotos felizes. Não nos entendem e às vezes nos julgam.

Acusam-nos de forçados, na maioria das vezes: “Ninguém pode ser tão alegre assim logo cedo”. Ué, eu posso, e daí? “Ninguém pode ser solícito desse jeito. Deve ter alguma intenção por traz disso”. É por isso que o mundo não vai pra frente. Que falta de fé na humanidade. “Ninguém é legal desse jeito. Essa mulher deve estar a fim de mim”. Essa última frase dedico especialmente a uma grande amiga que é muito mais efusiva que eu e, frequentemente, tem que dar explicações para algum cara que confunde seu jeito “sou educada e sorridente e adoro dar abraços apertados em todo mundo” com “estou apaixonada por você e por isso estou te dando mole”. Ai, homens, sempre tão pretensiosos.


Também percebo que existe uma tendência a supor equivocadamente que as pessoas mais expansivas são desfavorecidas intelectualmente. Talvez por imaginarem que por falar demais ou sorrir demais (para as fotos, de preferência) não temos tempo de desenvolver nossa capacidade de observação e reflexão.  Que nada, com a prática você aprende a falar, sorrir, observar, refletir tudo ao mesmo tempo agora. E o que exige uma análise mais profunda, reservo aos momentos em que estou sozinha. Quando estou com gente, eu gosto é de interagir, sem a preocupação de fazer o estilo blasé para parecer mais interessante.


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